Monografia Pronta Com sumo

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    10-Jun-2015

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<p>Universidade do Estado do Rio de Janeiro Instituto de Artes</p> <p>Rommel Cerqueira Silva</p> <p>O DEVANEIO DA CRIAO: A IMAGEM COMO LINGUAGEM POTICA</p> <p>Rio de Janeiro 2008</p> <p>Rommel Cerqueira Silva</p> <p>O Devaneio da Criao: A Imagem como Linguagem Potica</p> <p>Monografia de graduao em Artes Plsticas apresentada ao Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessrios obteno do ttulo de Bacharel em Artes Plsticas</p> <p>Orientadora: Prof. Dr(a) Maria Luiza Fatorelli</p> <p>Rio de Janeiro 2008</p> <p>10</p> <p>ROMMEL CERQUEIRA SILVA</p> <p>O Devaneio da Criao: A Imagem como Linguagem Potica</p> <p>Monografia submetida ao corpo docente do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessrios obteno do grau de ................................</p> <p>Rio de janeiro,</p> <p>de</p> <p>de 2</p> <p>.</p> <p>_______________________________________________ Prof. Dr. Maria Luiza Fatorelli _______________________________________________ Prof. Dr. Rodrigo Gueron _______________________________________________ Prof. Tania Queiroz</p> <p>11</p> <p>Mas com a janela aberta sempre posso colocar a cabea pra fora em busca de ar.Caio Fernando Abreu</p> <p>Achamo-nos diante de um caos. Enfrento o meu tema e me perco nele...Paul Czanne</p> <p>12</p> <p> todas as pessoas que em algum momento abraaram a minha loucura como se fosse delas.</p> <p>13</p> <p>RESUMO</p> <p>SILVA, Rommel Cerqueira. O Devaneio da Criao: A Imagem como Linguagem Potica. Rio de Janeiro, 2008 Monografia (Bacharel em Artes Plsticas) Instituto de Artes, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.</p> <p>A idia central dessa monografia refletir sobre as possibilidades de definio daquilo que se chama linguagem e a partir das diferentes correntes lingsticas e filosficas repensar as caractersticas mais embrionrias do estudo da mesma. Pensar acerca das supostas particularidades, j institucionalizadas na linguagem verbal ou oral, e cogitar os estudos filosficos, que nos empurra a pensar o ente da linguagem e o ente do homem, a partir, ou prioritariamente, de nomes como Martin. Heidegger - a linguagem pela linguagem - e Gaston Bachelard - com sua Potica do Devaneio. Experimentar a linguagem atravs da poesia que permeia todo e qualquer meio expressivo, contudo tendo como foco principal, mas no nico, a linguagem imagtica presente nas Artes Plsticas.</p> <p>14</p> <p>SUMRIO</p> <p>Introduo........................................................................................................................1 1. A Imagem como Linguagem I................................................................................................................................4 II...............................................................................................................................8 2. A Poesia e o Espao de Criao I...............................................................................................................................15 II............................................................................................................................. 22 3. O Devaneio ou o Eterno Retorno da Poesia I...............................................................................................................................26 II. Nuno Ramos: Srie Vitrines: GAGS e GRAVE, GRAVE................................33 III. Brgida Baltar: Umidades.................................................................................36 IV. Cildo Meireles: Misso/ Misses (Como Construir Catedrais).......................37 V. Rommel Cerqueira: O Contorno do Espao e Suor..........................................41 Consideraes Finais....................................................................................................44 Referncias Bibliogrficas Anexos</p> <p>15</p> <p>Introduo</p> <p>A temtica central da minha pesquisa surgiu no 5 perodo da graduao, na disciplina Oficina de Criao Bidimensional, quando o livro Seis Propostas para o Prximo Milnio, de talo Calvino, foi utilizado como pea chave nas aulas ministradas pela Prof Dra. Maria Luiza Fatorelli, minha orientadora. Este livro consiste numa compilao de seis palestras, que seriam parte de um ciclo Charles Eliot Norton Poetry Lectures -, a serem ministradas ao longo do ano letivo na Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussets. A idia desse ciclo de palestras era discutir qualquer espcie de comunicao potica literria, musical, figurativa -, sendo a escolha do tema completamente livre1. O que poderia significar certo alvio, acabou constituindo o primeiro problema a ser enfrentado por Calvino: uma vez que o prprio autor deixa claro que em virtude de sua formao italiana plural, no conseguia conceber a separao e especializao entre as formas de expresso msica, artes plsticas, literatura e entre os pensamentos crticos-reflexivos com o mesmo grau de separao de outras culturas. Nesse ponto, acredito que o pensamento de Calvino se aproxima bastante do pensamento de Roland Barthes, em sua Introduo Anlise Estrutural da Narrativa:Inumerveis so as narrativas do mundo. H em primeiro lugar uma variedade prodigiosa de gneros, distribudos entre substncias diferentes, como se toda matria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou mvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substncias; (BARTHES, 2001: p.19)</p> <p>E centrado nesse carter multifacetado, em termos de expresso artstica, que tal livro - Seis Propostas para o Prximo Milnio tem seus captulos desenvolvidos. Cada uma das propostas abrange um captulo e trabalha com seu oposto imediato: Leveza correlacionada ao Peso, Rapidez Lentido, Exatido Impreciso, Visibilidade ao que se Oculta e Multiplicidade Unidade. Entretanto, talo Calvino</p> <p>1</p> <p>talo Calvino, Seis propostas para o prximo milnio, p.5</p> <p>16</p> <p>faleceu antes de concluir aquele que seria o ltimo e, talvez, o mais instigante captulo: Consistncia. E foi justamente na ausncia do apoio literrio de Calvino que esse questionamento comeou a me surgir e ganhou fora: como pode ser medida ou, pelo menos, definida a consistncia na contemporaneidade, em termos de produo artstica? Uma tarefa, no mnimo, ousada, mas que me levou ao contato direto com certas questes, provocando-me descobertas e redefinies de alguns eixos semnticos que at ento se disfaravam, sob meu prisma, nesse imenso universo retrico da arte; por esse caminho que me levava no a buscar uma resposta exata para tal questo, mas uma possibilidade de reflexo filosfica, passando pela esttica, pela lingstica, pela fenomenologia, intrinsecamente ligadas atividade prtica, mas sem ter a menor inteno de integr-las - ainda que isso fosse possvel. No comeo, aps constatar e refletir sobre a vasta extenso e s vrias possibilidades de abordagem desse tema, perguntei-me se questes vinculadas ao antigo par Belo/ Sublime poderiam servir de alicerces para um pensamento acerca da consistncia. Essa empreitada, por si s, reduziria e poria em foco um ponto especfico ligado questo primeira, mas ainda assim exigiria um retrocesso histrico e esttico que talvez no coubesse no espao-tempo dessa monografia. Isso sem mencionar como o fluxo da histria da arte desconstruiu ou reconstruiu a importncia ou o alcance de tais valores. E ainda que o desafio se mantivesse, ao considerar a arte contempornea, a dificuldade seria pensar de que mercado de arte estamos falando: das galerias e museus, da academia ou do mercado impulsionado pelas grandes corporaes privadas, para que s depois tornasse possvel analisar a construo de um juzo de gosto coletivo, influenciado e influencivel, mas jamais inato isso seria um tnel sem fim, visto que imediatamente poderamos questionar como e porque feito esse direcionamento intelectivo, apontando para mais um questo vastssima, talvez, insolvel, mas para esse trabalho final de graduao, dispensvel.</p> <p>17</p> <p>E foi durante a confeco do projeto inicial da minha proposta prtica alinhada leitura inesperada de Heidegger2 e, principalmente, de Bachelard3 onde vi despertar um olhar sobre aquele que, talvez, seja o nico momento genuinamente desprendido de uma manipulao segura, tanto pelo artista como pelas influncias indiretas do espao scio-cultural que o cerca; e, quem sabe, o nico momento que comum a todos queles que se propem rdua tarefa de criar, independente da vertente artstica que adotem: o momento que antecede a criao artstica. nesse momento que a poesia se faz una. A poesia que reside nesse espao imaterial e que vive nesse tempo jamais regido pelo Chronos que controla o mundo, e sim pelo Kairos4. justamente sobre esse carter uno que escreve Calvino e Barthes. esse carter que impulsiona Heidegger e, posteriormente, Bachelard a buscar nos filsofos pr-socrticos uma concepo de linguagem que o platonismo interrompe, e que se baseia no carter mais genuno da arte e da poesia: a experimentao da linguagem pela linguagem e do seu carter de transfigurao semntica. E dentro dessa esfera conceitual que esse trabalho monogrfico se prope a discorrer, em direta associao ao exerccio prtico que ser abordado num captulo especfico levantando questes e refletindo sobre as possibilidades de recodificao e interpretao da linguagem visual, tendo como destaque a produo contempornea e, em especfica, a minha prpria.</p> <p>Martin Heidegger, A Caminho da Linguagem, 2003 ; Gaston Bachelard, A Potica do Devaneio, 2006; 4 Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairos. Enquanto chronos refere-se ao tempo cronolgico, ou seqencial, kairos refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece. Em sntese pode-se dizer que o tempo humano (medido - Chronos) descrito em horas e suas divises; em anos e suas divises. Enquanto que o termo Kairos no pode ser medido e sim vivido.3</p> <p>2</p> <p>18</p> <p>1. A Imagem como LinguagemA Imagem potica, aparecendo como um novo ser da linguagem, em nada se compara, segundo o modo de uma metfora comum, a uma vlvula que se abriria para liberar instintos recalcados. A imagem potica ilumina com tal luz a conscincia, que vo procurar-lhe antecedentes inconscientes. (...) Diz-se-ia que a imagem potica, em sua novidade, abre um porvir da linguagem. Gaston Bachelard, A Potica do Devaneio, p.3</p> <p>ISe considerarmos a imagem artstico-plstica como uma nova possibilidade de linguagem, totalmente pertinente explicar de antemo a razo que me leva a afirmar esta sentena, antes de sedimentar qualquer outro pensamento a partir deste. Para tal, necessrio observarmos com ateno o que nos diz duas propostas de definio da linguagem: a de Saussure e a de Chomsky. Jos Luiz Fiorin, em seu livro Introduo Lingstica I, nos diz:Saussure considerou a linguagem heterclita e multifacetada, pois abrange vrios domnios; ao mesmo tempo fsica, fisiolgica e psquica; pertence ao domnio individual e social; No se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois no se sabe como inferir sua unidade(1969:17). A linguagem envolve uma complexidade e uma diversidade de problemas que suscitam a anlise de outras cincias, como a psicologia, a antropologia etc. , alm da investigao lingstica, no se prestando, portanto, para objeto de estudo dessa cincia. Para esse fim, Saussure separa uma parte do todo linguagem, a lngua um objeto unificado e suscetvel de classificao. A lngua uma parte essencial da linguagem; um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenes necessrias, adotadas pelo corpo social para permitir o exerccio dessa faculdade nos indivduos(1969:17). (FIORIN, 2002: p.13)</p> <p>Ao analisarmos a citao de Fiorin, podemos perceber que Saussure muito mais caracteriza, a partir de estruturas lingsticas pr-existentes, a linguagem do que 19</p> <p>necessariamente a define. Ele aponta que, possuindo a linguagem uma diversidade de problemas, faz-se necessrio fragmentao da sua estrutura em partculas menores. Em termos artsticos, como se fragmentssemos o campo das artes plsticas em cada uma das suas vertentes expressivas (instalao, pintura, escultura, performance, vdeo-arte, etc.) visando uma primeira anlise estrutural segmentada do todo Artes plsticas na concepo de Saussure esse seria o primeiro passo; num segundo momento ocorreria a fragmentao dessa fragmentao, onde cada uma dessas possibilidades artsticas seria decomposta em elementos mais fundamentais destacando a instalao Misso/Misses (Como Construir Catedrais)5, de 1987, do artista plstico Cildo Meireles, como exemplo, como se fizssemos um corte entre cada um dos elementos que constituem a obra e chegssemos em quatro estruturas que servem de alicerce para a composio do trabalho: o espao uma vez que esse um dos eixos centrais de discusso da vertente instalao -, os ossos prestando ateno na sua disposio espacial, sua diagramao, seu estado de conservao, sua origem, sua significao -, as moedas e toda sua simbologia financeira e, por fim, as hstias com toda sua bagagem de significados religiosos. Para Saussure, atravs dessas anlises seqenciais, que visam decomposio at alcanar elementos mais fundamentais, e atravs da conjugao dessas estruturas bsicas, que a linguagem se estrutura como tal. Assim como a dicotomia lngua x fala onde Saussure define lngua como um objeto socialmente compartilhado e fala como um ato individual, podemos traar um paralelo com um universo das artes visuais pensando na lngua como as artes plsticas enquanto meio social dotado de um conjunto de convenes necessrias, adotadas pelo corpo social para permitir o exerccio dessa faculdade nos indivduos6 e na fala, no s a temtica do artista, mas tambm o caminho escolhido aqui me refiro possibilidade de expresso adotada, seja ela instalao, performance, vdeo, etc. associado sua abordagem particular. Seguindo essa mesma linha de raciocnio, Chomsky afirma:</p> <p>5 6</p> <p>Figura I - AnexosSaussure, 1969:17</p> <p>20</p> <p>Doravante considerarei uma linguagem como um conjunto (finito ou infinito) de sentenas, cada uma finita em comprimento e construda a partir de um conjunto finito de elementos. (CHOMSKY, Syntactic Structures, 1957:13)</p> <p>Associando esta citao , j anteriormente explicitada, de Saussure, podemos notar a compatibilidade conceitual que aproxima os dois autores quanto s suas anlises sobre a linguagem Saussure define a lngua como uma parte menor do todo linguagem, salientando a importncia de uma quebra constante da mesma, e de suas partes, em elementos ainda menores e fundamentais; dentro da tica de Chomsky, a lngua seria uma parte (finita ou infinita) do conjunto de sentenas chamado linguagem. Entretanto, Chomsky adota uma postura de definio apontando uma origem da linguagem que se distingue do carter puramente analtico de Saussure. Sobre o pensamento de Chomsky lemos em Fiorin:Chomsky acredita que tais propriedades so to abstratas, complexas e especficas que no poderiam ser apreendidas a partir do nada por uma criana em fase de aquisio da linguagem. Essas propriedades j devem ser co...</p>