Monografia Pronta Priscilla Verona

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    26-Oct-2015

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<p>CAPTULO I</p> <p>PRISCILLA SAMANTHA BARBOSA VERONA</p> <p>05.2.3096</p> <p>A LINGUAGEM DE JOO GUIMARES ROSAE O ASPECTO MIMTICO DE SUA FICO</p> <p>Mariana</p> <p>Instituto de Cincias Humanas e Sociais/ UFOP </p> <p>2010</p> <p>PRISCILLA SAMANTHA BARBOSA VERONA</p> <p>05.2.3096</p> <p>A LINGUAGEM DE JOO GUIMARES ROSAE O ASPECTO MIMTICO DE SUA FICO</p> <p>Monografia apresentada ao Curso de Histria do Instituto de Cincias Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial obteno do grau de Bacharel em Histria.</p> <p>Orientador: Prof.Dr. Marco Antonio Silveira</p> <p>Mariana</p> <p>Universidade Federal de Ouro Preto</p> <p>Instituto de Cincias Humanas e Sociais </p> <p>2010</p> <p>AGRADECIMENTOS</p> <p>Agradeo a todos os que contriburam: ao professor Marco Antonio, pelo grande apoio; minha famlia. pelo incentivo; minha eterna Repblica Zona, por fazer a diferena; a todos os amigos, pela alegria nas horas difceis; ao Fernando, pela presena. Especialmente, minha querida Karen, que j se faz em ares do encanto, por me iniciar no grande Guimares Rosa.SUMRIO</p> <p>Introduo</p> <p>051. Consideraes sobre a Literatura</p> <p>051.1. Mmesis</p> <p>071.2. Sobre o discurso potico e a possvel representao do fenmeno</p> <p>102. A Linguagem de Guimares Rosa e os mltiplos significados de sua fala172.1. A Linguagem do indizvel na fico</p> <p>24Concluso</p> <p>30Referncias Bibliogrficas</p> <p>31INTRODUO Esta pesquisa tem como tema a linguagem potica de Joo Guimares Rosa e o aspecto mimtico de sua fico. Em especial ser focalizada a obra literria Grande Serto: Veredas, que ser analisada tanto em sua multiplicidade de significados como em sua singularidade semntica. O autor, em sua construo literria, faz emergir uma espcie de realidade da linguagem que explicitada pela prpria lngua; essa medida potica o que ir articular os aspectos da vivncia humana com a fico estudada. A linguagem roseana ser analisada luz do conceito de mimese, entendido como o estado que a lngua assume para que o fenmeno vivido seja representado nas feies da literatura. O discurso potico sutil de Guimares Rosa reaviva as estruturas fundantes do imaginrio do leitor, tendo o poder de inseri-lo no ntimo do instante vivido por seus personagens. O fenmeno da experincia humana representado atravs de sua potica.1. CONSIDERAES SOBRE A LITERATURA A literatura enquanto fenmeno esttico consiste numa manifestao cultural. Pode tambm significar a possibilidade de se entender o homem, seja em sua historicidade, seja em sua viso de mundo. Entretanto, por mais que a literatura, via de regra, seja criada sem compromissos com a verdade dos fatos, ela age dando formas a um mundo singular, reinventado, que pode ser marcado ou no por elementos verossmeis.Segundo Antonio Cndido, em Literatura e Sociedade, se por muito tempo o valor e o significado de uma obra dependeram de sua capacidade de expressar ou no aspectos da realidade, com o tempo chegou-se concluso oposta: a matria e a veracidade da obra seriam, de fato, algo secundrio e sua importncia estaria nas operaes formais que lhe confeririam uma peculiaridade e a livraria de condicionamentos sociais. </p> <p>A arte, para Antonio Cndido, especialmente a literria, divide-se em dois grupos: arte de agregao e arte de segregao. Enquanto a primeira busca incorporar-se ao sistema simblico e utiliza formas j estabelecidas para se expressar, a segunda tenta renovar os sistemas simblico criando novos recursos expressivos. Para Antoine Compagnon, por sua vez, existem os literatos que contribuem para manter o aparelho ideolgico do Estado, bem como tambm os subversivos que buscam romper com a ordem natural das coisas. A literatura, assim, pode estar tanto em acordo quanto em desacordo com a sociedade. Os processos de onde advm tal diviso emergem dos fenmenos sociais de integrao e diferenciao. A integrao implicaria o conjunto de fatores que acentuam no individuo a participao nos valores comuns da sociedade, ao passo que a diferenciao acentuaria as peculiaridades e as diferenas dos indivduos.O aspecto regionalista que marca a narrativa literria de Guimares Rosa, alm de dar nfase paisagem geogrfica, adquire novas dimenses - como, por exemplo, a que diz respeito ao ser humano em seus conflitos existenciais, retratada em Sagarana e Grande Serto: Veredas. Muitos de seus personagens revelam-se, ao mesmo tempo, de forma universal e singular. Se aparecem como seres humanos em busca de suas verdades e de si prprios no decorrer de uma travessia, tambm revelam para o leitor, atravs da linguagem, suas particularidades, seus aspectos regionais, sua cultura, seus costumes, suas crenas e principalmente seu universo interior. </p> <p>Joo Guimares Rosa causou uma grande inovao na literatura brasileira, pois conseguiu abordar, em sua construo lingstica e, sobretudo, atravs da narrativa potica, aspectos da experincia humana, tornando o leitor participante da experincia retratada em sua obra. Como afirma Compagnon , o leitor o lugar onde a unidade do texto se produz . Sua literatura marcada pela presena da verossimilhana, os elementos verossmeis sendo entendidos pelo leitor como algo passvel de acontecer. Alm disso, sua linguagem , segundo Alexandre de Amorin Oliveira, uma demonstrao da arte enquanto mimesis. Para Oliveira, Rosa parece conceber a mmesis no somente como similitude da realidade vivida, mas tambm como possibilidade da produo do novo, uma inveno. Sua palavra seria, ento, o instrumento de criao artstica que possibilita uma espcie de metamorfose semntica no decorrer da narrativa, trazendo sempre a noo de algo novo. Essa noo da arte literria como fundadora de realidades tambm est presente em Blanchot. Segundo Nara Girotto, Blanchot</p> <p>desconstri a idia de que a literatura um meio de chegar ao mundo e prope, contrariamente, que a palavra literria seja instaurao de mundos, de eventos plenos de real. Contudo, nesse movimento, a literatura funda sua prpria realidade, isto , cria um outro mundo do mundo.A fico, ou seja, coisa imaginria, fantasia, criao, quando est em funo mimtica, tem o poder de reproduzir em narrativa o que o prprio leitor vivencia. Guimares Rosa, ao utilizar-se desse recurso literrio, estabelece em sua narrativa a relao de uma fico com os elementos da experincia humana em determinado contexto cultural, marcado por crenas e valores singulares. Em Grande Serto: Veredas, representado todo o misticismo do serto, que se alicera na religiosidade e baseia-se nos dois extremos, bem e mal, Deus e Diabo. Esse misticismo, contudo, tambm marcado pela crena dos personagens em mitos e entidades.Em obra prima, Rosa constri a narrativa literria propondo e, ao mesmo tempo, reconhecendo a essncia fluida e desconexa da vida dos homens. Com sua linguagem nebulosa e ambgua, ele confere literatura um carter de contestao das concepes tradicionais da realidade. Os recursos utilizados por Joo Guimares Rosa proporcionam a conexo com um referencial imagtico envolvente.1.1. MmesisDesde a Potica de Aristteles, o termo mmesis imitao ou representao designa relaes entre literatura e realidade. Como lembra Luiz Costa Lima,A mmesis grega, supondo uma semelhana com o real considerado como possvel, um meio de reconhecimento da comunidade consigo mesma, ou seja, um instrumento de identidade social.</p> <p>A teoria literria, contudo, h muito questiona a mmesis insistindo na autonomia da literatura frente realidade e ao referente.Enquanto a mmesis aristotlica tem por critrio a verossimilhana em relao ao sentido natural, para os modernos ela tem por critrio a verossimilhana em relao ao sentido cultural. O princpio aristotlico afirma que toda arte imitao, feita com ritmo, linguagem e harmonia; os imitadores agem mimeticamente atravs da linguagem, os homens praticando alguma ao no intuito de imitar a experincia humana. Esse princpio, que, segundo Aristteles, comum a toda criao artstica, est intimamente ligado mmesis, podendo ocorrer por meios diversos e de modos diversos. Quanto aos objetos a serem representados, so normalmente os homens em suas aes na realidade; e os modos atravs dos quais eles so representados so o narrativo ou o dramtico. O modo narrativo ocorre quando o autor no enuncia nada (a no ser nas entrelinhas), mas, sim, seus prprios personagens; no modo dramtico, o autor narra.</p> <p>A causa natural da mmesis para Aristteles estaria no fato de que o imitar algo inerente ao homem, que pela imitao apreende suas primeiras noes: os homens se comprazem do imitado . A arte, sendo para ele a imitao da natureza humana, tem funo de representar o que vivido pelos homens no mundo. Podemos incluir a arte literria nessa esfera da narrativa mimtica, pois os personagens literrios, em alguns casos, assumem certo carter em suas aes e discursos, dando origem a uma experincia ou situao repleta de verossimilhana. Importa, por conseguinte, aplicar os maiores esforos no embelezamento da linguagem, mas s nas partes desprovidas de aco, de caracteres e de pensamento (...). Em Aristteles, a mmesis representa algo que est muito ligado natureza, e uma obra de arte pode alcanar a perfeio se em sua criao a tcnica for utilizada como forma de conhecimento. A mmesis , ento, uma potencialidade que partilha das leis que governam a pyshis, a natureza. dentro da physis que se constitui o fazer humano.</p> <p>No pensamento grego sobre a mmesis, tambm se incluem os pitagricos, que viam o processo mimtico como a expresso dos estados emocionais do homem e a liberao ocorrida no momento da representao dessas emoes. Na Antiguidade, a princpio, o conceito de mmesis estava ligado dimenso da dana e da msica, significando expresso e relacionando-se pouco com a questo da imitao. Para os pitagricos, a mmesis em sua origem descrevia as danas que eram ofertadas ao deus Baco, pois elas eram a principal forma de expressar os estados psquicos; na chamada dana de Baco, ocorria a liberao dos temores humanos por meio da catarse. Nessa poca, a idia original que representava a mmesis era a imitao dos seres animados - animais e homens - pelo corpo e pela voz, e no por artefatos como pinturas ou esttuas. Mimos representava o ator da dana que cultuava Baco. Sendo assim, a mmesis significaria a prpria dana atravs da qual a cura ou a purificao catrtica se realizava. Assim, mimisthai implicava a atividade do imitar, mimos eram as pessoas encarregadas dessa arte, mimetikos representava algo que podia ser imitado e, por fim, mmesis consistia no resultado desse processo de imitao.</p> <p>Da Antiguidade at os tempos modernos, foram sendo questionados os limites do das teorias clssicas a respeito do processo de criao artstica. Na Modernidade, multiplicam-se os discursos contra a tradio metafsica da arte e a existncia de uma identidade entre o ser e a natureza. Dessa maneira, a obra artstica passou a ser vista no propriamente como imitao da natureza, mas como representao que pode re-significar ou at mesmo inventar determinada realidade.</p> <p>Para Luis Costa Lima, a mmesis est ligada ao princpio de re-significao da realidade, o produto mimtico consistindo no microcosmo interpretativo de uma situao humana que agenciado pelo imaginrio. A mmesis tem o poder de unir o pensamento ao mundo numa rede simblica, e se caracteriza por uma permanncia que sempre mutante. Acontece no ato mimtico, segundo o autor, uma espcie de prosa crtica das feies assumidas pelo real. Nesse sentido,</p> <p>Ser capaz de mmesis transcender a passividade que nos assemelha a nossos contemporneos, e da matria da nossa contemporaneidade, extrair um modelo de ser, uma forma que nos acompanha alm da destruio da matria.</p> <p>Noo, esta, muito diferente do conceito aristotlico, que prev a imitao da natureza como ela .O signo mimtico seria, para Costa Lima, um significado da realidade retrabalhado. Vale lembrar que o conceito de realidade por ele utilizado implica a potencialidade de significaes que desperta e se desencobre atravs da linguagem. Como tambm afirmou Heidegger, a linguagem potica tem o poder de descongelar as estruturas lingsticas que fazem parte do senso comum, dando origem a um processo de desvelamento da substncia do real. O produto mimtico pode interpretar uma situao humana ao utilizar a matria histrica e o contexto cultural como fio condutor. Se a mmesis no imitao como em Aristteles, no pode ser confundida com o princpio que a originou: o significado da matria que a constitui pode ser notado por sua semelhana com uma dada situao externa, mas no representa por inteiro esta situao; sendo substitudo por outro quando a mmesis pertencer a um quadro histrico distinto. Por isso, estando a mmesis ligada permanncia do mutvel, o sistema simblico atua como o contexto em que esse processo de re-significao ocorre, cada tempo histrico, com sua singularidade, fazendo parte da construo mimtica. </p> <p>Assim o discurso mimtico uma das formas do discurso do inconsciente, o qual s reconhecido como artstico quando o receptor encontra no texto uma semelhana com a prpria situao histrica. A situao histrica funciona portanto como o possibilitador do significado que ser alocado no texto.</p> <p>Para Costa Lima, estando a obra, no momento da experincia esttica, em condio de significante, o leitor lhe empresta seu sistema de significados. Ocorre, ento, nesse momento, que a situao histrica permite a criao de um sistema de significados que assumem formato ficcional: Toda concepo de mimesis se liga a uma concepo do conhecimento do mundo. A mmesis tem o poder de, abstraindo o singular, alcanar a representao propriamente artstica, que se caracteriza pelo concreto. Desse modo, possvel alcanar uma melhor compreenso da experincia humana e do vivido. A arte faz aparecer em plenitude a natureza das coisas, e esse processo fenomenolgico ocorre no momento de assimilao e re-significao da linguagem por parte do leitor.1.2. Sobre o discurso potico e a possvel representao do fenmenoO objetivo desta seo traar as dimenses da idia de discurso e, a seguir, focalizar o discurso potico com o intuito de analisar alguns de seus aspectos primordiais. Perpassando brevemente seu carter ontolgico, desejamos indicar a importncia da construo lingstica como algo capaz no s de mediar a relao dos homens com a sua realidade, mas, sobretudo, de oferecer diversas tonalidades ao real. </p> <p>A construo lingstica que antecede o discurso , segundo Martin Heidegger, um instrumento para o melhor entendimento do universo. Os filamentos do real, segundo o filsofo, esto sempre se mostrando e, por isso, podemos tentar desvend-los a partir da linguagem. As coisas, antes de serem fundamentalmente presentes no mundo exterior, esto presentes no mundo simblico da linguagem - para sermos mais exatos, no interior da palavra que nomeia as coisas. A presena de uma substancia criadora dentro da palavra acaba por tornar tal realidade simblica acessvel. Para Heidegger, quando a palavra se torna coisa (be-dinget).Nessa forma de conhecer, segundo Heidegger, uma possvel espcie de arqutipo novo e primitivo originada numa parte do pensamento que ele chamou de nada - o qual criativo. Ao construirmos inicialmente u...</p>