Monteiro lobato-historias-de-tia-nastacia

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    18-Dec-2014

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<ul><li> 1. Monteiro Lobato - Histrias de Tia NastciaNDICEHISTRIA DE TIA NASTCIA............ 7O BICHO MANJALU.................... 7O SARGENTO VERDE................... 12A PRINCESA LADRONA ................. 15O PSSARO PRETO ..................... 19A RAPOSINHA.......................... 21O HOMEM PEQUENO ................... 23AMOURA-TORTA ...................... 25A MADRASTA .......................... 27MANUEL DA BENGALA ................. 28JOO E MARIA......................... 30O BOM DIABO.......................... 33A FONTE DAS TRS COMADRES....... 34A RAINHA QUE SAIU DO MAR........... 37A FORMIGA E A NEVE .................. 38JOO ESPERTO......................... 39O CAULA.............................. 42A CUMBUCA DE OURO ................. 44A MULHER DENGOSA .................. 46O CAGADO NA FESTA DO CU ........ 46O RABO DO MACACO................... 47O MACACO E O COELHO................ 48O MACACO E O ALUA................... 49O MACACO, A ONA E O VEADO ..... 51O VEADO E O SAPO..................... 54A ONA E O COELHO ................... 55O PULO DO GATO ...................... 57O DOUTOR BOTELHO .................. 57A RAPOSA E O HOMEM ................. 59OPINTOSURA .......................... 60O JABUTI E O HOMEM .................. 62O JABUTI E A CAIPORA ................. 63O JABUTI E A ONA..................... 64O JABUTI E A FRUTA ................... 65O JABUTI E O LAGARTO ................ 66O JABUTI E O JACAR................... 67O JABUTI E OS SAPINHOS............... 67A RAPOSAFAMINTA.................... 68O CAMPONS INGNUO ................ 69A HISTRIA DOS MACACOS............. 70O RATO ORGULHOSO .................. 72PEIXES NA FLORESTA .................. 73O ALCATRAZ E O EIDER ................ 74HISTRIA DOS DOIS LADRES ........75 </li> <li> 2. HISTRIAS DE TIA NASTCIAMonteiro LobatoIHistrias de Tia NastciaPedrinho, na varanda, lia um jornal. De repente parou, e disse a Emlia, que andavarondando por ali: V perguntar a vov o que quer dizer folclore. V? Dobre a lngua. Eu s fao coisas quando me pedem por favor.Pedrinho, que estava com preguia de levantar-se, cedeu exigncia da ex-boneca. Emilinha do corao disse ele faa-me o maravilhoso favor de ir perguntar vov que coisa significa a palavra folclore, sim, tetia?Emlia foi e voltou com a resposta. Dona Benta disse que folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria,cincia. Folclore so as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, depais a filhos os contos, as histrias, as anedotas, as supersties, as bobagens, asabedoria popular, etc. e tal. Por que pergunta isso, Pedrinho?O menino calou-se. Estava pensativo, com os olhos l longe. Depois disse: Uma idia que eu tive. Tia Nastcia o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando,de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer tia Nastcia para tirar oleite do folclore que h nela.Emlia arregalou os olhos. No est m a idia, no, Pedrinho! s vezes a gente tem uma coisa muitointeressante em casa e nem percebe. As negras velhas disse Pedrinho so sempre muito sabidas. Mame conta deuma que era um verdadeiro dicionrio de histrias folclricas, uma de nome Esmria,que foi escrava de meu av. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histriase mais histrias. Quem sabe se tia Nastcia no uma segunda tia Esmria?Foi assim que nasceram as Histrias de Tia Nastcia.IIO bicho ManjaluEra uma vez um velho que tinha trs filhas muito bonitas, mas um velho muito pobre,que vivia de fazer gamelas. Uma vez passou pela sua casa um lindo moo a cavalo; parou edeclarou que queria comprar uma das moas. O velho se ofendeu; disse que por ser pobreno era nenhum malvado que andasse vendendo as filhas; mas diante das ameaas domoo teve que aceitar o negcio.L se foi a sua primeira filha na garupa do cavaleiro, e o velho ficou olhando para oouro recebido.No dia seguinte apareceu outro moo, ainda mais lindo, montado num cavalo aindamais bonito e props-se a comprar a filha do meio. O velho, bastante aborrecido, contou oque se tinha passado com a primeira, e no quis aceitar o negcio. O moo ameaou mat-lo, e tambm l se foi com a segunda moa na garupa, deixando com o velho dois sacos dedinheiro. </li> <li> 3. No dia imediato apareceu terceiro moo e depois da mesma discusso l se foi com aderradeira moa na garupa, deixando em troca trs sacos de dinheiro.O velho ficou muito rico, mas sem as filhas, e comeou a criar com grandes mimos umfilhinho que havia nascido fora de tempo. Quando j estava na escola esse menino teveuma briga com um companheiro, o qual lhe disse: "Voc est prosa por ter pai rico, massaiba que ele j foi um pobre diabo que vivia de fazer gamelas. Est rico porque vendeu asfilhas."O menino voltou pensativo para casa, mas nada disse. S quando ficou moo quepediu ao pai que lhe contasse a histria das trs irms vendidas. O pai contou tudo e eleresolveu sair pelo mundo em procura das irms.No meio do caminho encontrou trs marmanjos brigando por causa duma bota, dumacarapua e duma chave. Indagando do valor daquilo, soube que eram uma bota, umacarapua e uma chave mgicas. Quando algum dizia bota: "Bota, bote-me em tal parte!"a bota botava. E se diziam carapua: "Carapua, encarapuce-me!" a carapuaencarapuava, isto , escondia a pessoa. E se diziam chave: "Chave, abre!" a chave abriaqualquer porta.O moo ofereceu pelos trs objetos o dinheiro que trazia e l se foi com eles.Logo adiante parou e disse: "Bota, bote-me em casa de minha primeira irm." Malacabou de pronunciar tais palavras, j se achou na porta de um palcio maravilhoso. Faloucom o porteiro. Pediu para entrar, dizendo que a dona do palcio era sua irm. A irm soubeda sua chegada, acreditou em suas palavras e o recebeu muito bem. Mas como conseguiu chegar at aqui, meu irmo? Por meio da bota mgica respondeu ele.E contou toda a histria da sua partida e do encontro dos trs objetos mgicos.Tudo correu bem, mas assim que comeou a entardecer a irm ps-se a chorar. Por que chora, minha irm? Ah respondeu ela choro porque sou casada com o rei dos Peixes, um prncipemuito bravo que no quer que eu receba ningum neste palcio. Ele no tarda a chegar, emata voc, se enxergar voc aqui...O moo deu uma risadinha, dizendo:No tenha medo de nada. Com a carapua mgica saberei esconder-me.O rei chegou e logo levantou o nariz para o ar, farejando: "Sinto cheiro de gente defora!" mas a rainha mostrou que no havia por ali ningum e ele sossegou. Tomou umbanho e se desencantou num lindo moo.Durante o jantar a rainha fez esta pergunta: Se aparecesse por c um irmo meu, que faria Vossa Majestade? Recebia-o muito bem disse o rei porque o irmo da rainha, cunhado do rei . Ese ele est por aqui, que aparea.O irmo encarapuado apresentou-se, sendo muito bem recebido. Contou toda a suahistria, mas no aceitou o convite de ficar morando ali por ter de continuar pelo mundo emprocura das outras irms. O rei olhou com inveja para as botas mgicas, dizendo: "Se eu aspilhasse, iria ver a rainha de Castela."Na hora da partida o rei deu-lhe uma escama. "Quando estiver em apuros, pegue nestaescama e diga: Valha-me, rei dos Peixes!"O moo agradeceu o presente e l se foi depois de dizer bota: "Bota, bote-me na casade minha segunda irm", e imediatamente se achou defronte de outro palcio, onde foirecebido pela segunda irm, que era a esposa do rei dos Carneiros. "Meu marido logochega por a, a dar marradas a torto e a direito, e voc no escapa." Com a minha carapua escapo respondeu o rapaz, rindo-se. E contou a virtude dacarapua encantada. E de fato foi assim, correndo tudo direitinho como l no palcio do reidos Peixes. Na hora da partida o rei dos Carneiros disse: "Tome este fio de l. Quandoestiver em apuros, basta que pegue nele e diga: Valha-me, rei dos Carneiros." Em seguidaolhou com inveja para as botas mgicas. "Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela." </li> <li> 4. Logo que o moo se viu na estrada, parou e disse bota. "Bota, bote-me em casa daminha terceira irm", e a bota botou-o no porto dum terceiro palcio ainda mais belo queos outros. Era ali o reino do rei dos Pombos, onde tudo aconteceu como no reino do reidos Peixes e no reino do rei dos Carneiros. Foi muito bem recebido e festejado, at que nahora da partida o rei dos Pombos suspirou olhando para as botas, e disse: "Se eu pilhasseessas botas, iria ver a rainha de Castela." Em seguida deu ao moo uma pena, dizendo:"Quando estiver em apuros, pegue nesta pena e diga: Valha-me, rei dos Pombos."Logo que o moo se viu na estrada, ps-se a pensar na tal rainha de Castela que ostrs prncipes queriam visitar, e disse bota mgica: "Bota, bote-me no reino da rainha deCastela!" E num instante a bota o botou l.Soube que era uma princesa solteira, to linda que ningum passava pela frente do seupalcio sem erguer os olhos, na esperana de v-la janela mas a princesa tinha jurados se casar com quem passasse pelo palcio sem erguer os olhos.O moo ento passou pela frente do palcio sem erguer os olhos e a princesaimediatamente casou com ele. Depois do casamento a princesa quis saber para queserviam aqueles objetos que ele sempre trazia consigo e o que mais a interessou foi achave de abrir todas as portas.A razo disso era haver no palcio uma sala sempre fechada, onde o rei no permitiaque ningum entrasse. Nela morava o Manjalu um bicho feroz, que por mais que omatassem revivia sempre. A princesa andava ardendo de curiosidade de ver o bichoManjalu, e certa vez, em que o rei e o marido foram caa, pegou a chave e abriu a portada sala do mistrio. Mas o bicho feroz pulou e agarrou-a, dizendo: "Era voc mesma que euqueria!" E l se foi para a floresta com a pobre moa ao ombro.Quando o rei e o marido da princesa voltaram da caa e souberam do acontecido,ficaram desesperados. Mas o dono das botas mgicas prometeu consertar tudo. Agarrou-ase disse: "Bota, bote-me onde est minha esposa". E a bota botou-o.O moo encontrou a princesa sozinha, pois que o Manjalu andava pelo mato caando. Minha querida esposa disse ele precisamos dar cabo desse monstro feroz,mas para isso necessrio que eu saiba onde que ele tem a vida. A vida do Manjalu estto bem oculta que todas as tentativas para mat-lo tm falhado. Trate de saber onde eletem a vida.A princesa prometeu que assim faria, e quando o Manjalu voltou deu jeito da conversarecair naquele ponto.Manjalu desconfiou. Ahn! Quer saber onde eu tenho a vida para me matar, no ? No conto, no.Mas a princesa, teimosa, tanto insistiu durante dias e dias que o bicho Manjaluresolveu contar tudo. Antes disso ele amolou, bem amolado, um alfanje, dizendo: "Voucontar onde est minha vida mas se perceber que algum quer dar cabo de mim, corto suacabea com este alfanje, est ouvindo?"A princesa aceitou a proposta. Ele que contasse tudo que ela ficaria com o pescoo sordens do alfanje, no caso de algum atentar contra vida do monstro. E o bicho Manjaluento contou: "Minha vida est no mar. L no fundo h um caixo; nesse caixo h umapedra; dentro da pedra h uma pomba; dentro da pomba h um ovo; dentro do ovo h umavelinha, que a minha vida. Quando essa vela apagar-se, eu morrerei".No dia seguinte, quando o bicho Manjalu saiu novamente a caar, o marido daprincesa, que estivera escondido pela carapua, apresentou-se. "E ento?" perguntou. Aprincesa contou-lhe direitinho tudo que ouvira ao monstro.O moo dirigiu-se praia do mar e pegou na escama, dizendo: "Valha-me, rei dosPeixes!" E imediatamente o mar se coalhou de peixes que indagavam do que ele queria. Quero saber em que ponto do fundo do mar h um caixo assim e assim. </li> <li> 5. Eu sei respondeu um enorme baiacu. Ainda h pouquinho esbarrei nele. Esse caixo est em tal e tal parte. Pois quero que me tragam aqui esse caixo.Os peixes saram na volada; logo depois apareceram empurrando um caixo para apraia. O prncipe abriu-o e encontrou a pedra. Como quebr-la? Lembrou--se do fio de l.Pegou no fio de l e disse: "Valha-me, rei dos Carneiros!" Imediatamente apareceraminmeros carneiros, que deram tantas marradas na pedra que a partiram.Enquanto isso, l longe, o Manjalu, com a cabea no colo da princesa e o alfanje namo, ia sentindo coisas esquisitas. Minha princesa disse ele estou me sentindo doente. Algum est mexendo naminha vida.E sua mo apertou o cabo do alfanjeA princesa engambelou-o como pde, para ganhar tempo. Ela sabia que seu maridoestava em procura da vida do monstro.Assim que os carneiros quebraram a pedra, uma pombinha voou de dentro e l se foipelos ares. O moo lembrou-se da pena, pegou-a e disse: "Valha-me, rei dos Pombos!"Imediatamente o ar se encheu de pombos, que o moo mandou voarem em perseguio dapombinha. Os pombos foram atrs dela e a pegaram. O moo tomou-a, espremeu-a e fezsair um ovo.L longe o Manjalu se sentia cada vez pior. Comeava a desfalecer; e como notivesse dvidas sobre o que era aquilo, foi levantando o alfanje para degolar a princesa.Mas no teve tempo. O moo havia quebrado o ovo e assoprado a velinha. A mo doManjalu moleou e seus olhos fecharam-se para sempre.Estava o reino de Castela livre daquele horrendo monstro. O moo levou a princesapara o palcio, onde o rei a recebeu com lgrimas nos olhos. E para comemorar o grandeacontecimento decretou uma semana inteira de festas. E acabou-se a histria.Emlia torceu o nariz. Essas histrias folclricas so bastante bobas disse ela. Por isso que nosou "democrtica ! Acho o povo muito idiota... Nossa Senhora! exclamou dona Benta. Vejam s como anda importante anossa Emilinha. Fala que nem um doutor. A culpa sua disse Emlia. A culpa de quem nos anda ensinando tantascincias e artes. Eu, por exemplo, me sinto adiantada demais para a minha idade. Sou umaisca por fora, mas l dentro j estou filsofa. Meu gosto era encontrar um Scrates, parauma conversa... Eu tambm acho muito ingnua essa histria de rei e princesa e botas encantadas disse Narizinho. Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente. Estou de acordo comEmlia. Pois eu gostei da histria disse Pedrinho porque me d idia da mentalidadedo nosso povo. A gente deve conhecer essas histrias como um estudo da mentalidadedo povo.Dona Benta voltou-se para tia Nastcia. V, Nastcia, como est ficando este meu povinho? Falam como se fossem gentegrande, das sabidas. Democracia para c, folclrico para l, mentalidade... Neste andarmeu stio acaba virando Universidade do Picapau Amarelo. Emlia j disse que a culpa sua, sinh. A senhora vive ensinando tantas coisasdos livros que eles acabam sabides demais. Eu at fico tonta de lidar com essa crianada.s vezes nem entendo o que me dizem. Ontem o Vi...</li></ul>