Monteiro Lobato no Porviroscópio

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  • 40 | INTERSEMIOSE | Revista Digital | ANO III, N. 06 | Jul /Dez 2014 | ISSN 2316-316X

    Monteiro Lobato no Porviroscpio

    Ermelinda Maria Arajo FerreiraUniversidade Federal de Pernambuco (UFPE)

    Resumo:

    Este artigo analisa brevemente os componentes imaginativos da literatura infantil lobatiana, im-plicados no seu projeto pedaggico futurista para a sociedade brasileira do incio do sculo XX, levado a cabo na srie do Stio do Picapau Amarelo. Escritas principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1930 e 1940, as obras includas neste projeto ref letem mudanas radi-cais no posicionamento ideolgico do autor, quando contrastadas ao devastador enredo eugenista de seu nico romance para adultos, assustadoramente proftico, conquanto levianamente forjado em trs semanas, no ano de 1926, movido por uma ambio mercadolgica.

    Palavras-chave: Monteiro Lobato; Fico cientfica; Stio do Picapau Amarelo; O presidente negro.

    Abstract:

    This article brief ly examines the imaginative components of the childrens literature of Monteiro Lobato, involved in his futuristic educational project for the Brazilian society of the early twen-tieth century, and carried out on the Stio do picapau amarelo series. Written mostly during the Second World War, in the 1930s and 1940s, the works included in this project ref lect radical changes in the ideological position of the author, when contrasted to the devastating eugenics plot of his only novel for adults, eerily prophetic, though lightly wrought in three weeks in 1926, driven by a marketing ambition.

    Keywords: Monteiro Lobato; Fico cientfica; Stio do Picapau Amarelo; O presidente negro.

    Vi bem clara a diferena que existe entre ter ideias prprias, frutos fceis e lgicos de uma rvore nascida de boa semente e desenvolvida sem peias ou imposies externas e ser rvore de natal, museu de ideias alheias pegadas daqui e dali, sem ligao orgnica com os galhos, donde no pendem de pednculos naturais e sim de ganchinhos de arame. E comecei a aprender a tambm ser rvore como as que crescem no campo, e a deixar-me engalhar, enfolhar e frutificar livremente por mim prprio. Sinto hoje que a minha rvore mental cresce desafogada no stio tanto tempo ocupado por uma rvore-cabide.

    Monteiro Lobato, O presidente negro

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    Ermelinda Maria Arajo Ferreira

    Introduo

    A literatura imaginativa ou especulativa parece no gozar de grande apreo entre os

    escritores brasileiros, ao contrrio do que acontece no resto da Amrica Latina, onde o

    elemento mgico ou maravilhoso revolucionou a histria da produo hispano-americana

    moderna. Expoentes do gnero dito fantstico, como os argentinos Jorge Luis Borges,

    Adolfo Bioy Casares e Julio Cortzar, os mexicanos Gabriel Garcia Mrquez e Carlos

    Fuentes e o cubano Alejo Carpentier, entre tantos outros, trouxeram para a literatura

    realista o sopro renovador do sonho, da quimera, do mistrio e da fantasmagoria que

    tanto fascnio produz nos leitores. O mergulho nas sombras dos credos de culturas es-

    quecidas ou varridas pela colonizao, nas escuras profundezas do esprito humano e

    nas descobertas de formas diferentes de pensar e entender o mundo, desobedientes

    lgica institucionalizada e legislada pela normalidade civil, causaram grande impacto

    no cenrio editorial e acadmico do sculo XX.

    Embora parte expressiva do mesmo continente e do mesmo passado histrico, o

    Brasil ficou fora desta imensa onda que revolucionou o cnone das literaturas ps-colo-

    nialistas na Amrica do Sul e na Amrica Central, sobretudo a partir dos anos 1960. An-

    corada a uma resistente fidelidade a um discurso poltico de esquerda e a uma plataforma

    esttica demasiado esquemtica, a literatura brasileira no conseguiu escapar visada da

    representao histrica e documental da realidade, que sobreviveu travessia do campo

    para as cidades e continuou a investir no tom da revolta, da denncia e de um ideal de

    utopia socialista redentora, da qual o texto deveria ser o eterno arauto. Por este motivo,

    a literatura brasileira no se atualizou. Ignorou a avalanche tecnolgica, as conquistas

    cientficas, a invaso do mundo virtual e da rede mundial de comunicao no cotidiano

    dos cidados de todas as classes sociais, a mutao gentica, a metamorfose dos corpos

    e a maioria dos eventos que vm alterando a face do planeta preferindo terceirizar para

    as produes culturais estrangeiras importadas a reflexo sobre esses temas considerados

    inferiores e prprios da arte voltada para as massas.

    Apesar disso, muitos autores brasileiros consagrados, esporadicamente, assinaram

    produes que podem ser classificadas como imaginativas, ligadas ao estranho, ao sobre-

    natural ou fico cientfica. O imortal, de Machado de Assis; A repblica 3.000, de

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    Menotti del Picchia; Incidente em Antares, de rico Verssimo; e A desintegrao da mor-

    te, de Orgenes Lessa, so exemplos clssicos desta empreitada, obras menos conhecidas

    do que as de Jos J. Veiga e as de Murilo Rubio, autores habitualmente citados quando

    se aborda este tema. Poucos sabem, no entanto, que a literatura fantstica prosperou fora

    dos cnones oficiais, firmando-se na produo de autores como Jernymo Monteiro e

    Andr Carneiro, por exemplo, e impulsionada por uma coleo de livros lanada pelo

    editor baiano Gumercindo Rocha Dorea (GRD), que nos anos 1960 e 1970 passou a

    encomendar trabalhos do gnero a autores j legitimados na literatura mainstream.

    Um projeto pedaggico futurista

    A criana tinha na Amrica de 2228 uma importncia capital. Toda a vida do pas girava-lhe em torno. Era a criana, alm do encanto do presente, o futuro plasmvel como a cera. Os maiores gnios da raa se consagravam a estud-la, para com to dctil matria-prima irem esculpindo a obra nica que apaixonava o americano o amanh. E a tal grau chegou a afinao da puericultura esttica, que nem uma imaginativa de hoje, desta poca em que o homem, absorvido nos horrores da luta pelo po, quase ignora a existncia da criana, nem de leve pode apreender o que significava.

    Monteiro Lobato, O presidente negro

    Dentre os pioneiros da aventura literria especulativa no Brasil, Monteiro Lobato

    (1882-1948) aparece, certamente, como um dos mais independentes, expressivos e mal

    compreendidos expoentes. Com seu visionarismo pragmtico, concebeu uma literatura

    futurista notadamente pedaggica, voltada para a formao de novas geraes de brasilei-

    ros despertos, articulados com os discursos e desafios de um mundo globalizado e melhor

    preparados para os desafios do porvir. Seu esforo no se concentrou apenas na criao

    de uma biblioteca infanto-juvenil estrangeira para as crianas brasileiras pela traduo/

    adaptao dos ttulos imaginativos que julgou indispensveis nesta linha, como Alice no

    Pas das Maravilhas, de Lewis Carroll; Peter Pan, de J.M. Barrie e Robinson Cruzo,

    de Daniel Defoe , mas na criao de todo um universo literrio prprio, completamente

    inexistente poca, localizado no simblico Stio do Picapau Amarelo, onde a infncia

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    nacional poderia conviver livremente com as infinitas possibilidades das conquistas e

    avanos concebidos pelo intelecto humano, mas tambm com os retrocessos e desafios

    verificados pelo mau uso desses empreendimentos em escala planetria.

    Ferozmente indisposto com os jecas personagens subdesenvolvidos, desesperan-

    ados, apticos e subjugados, com perspectivas de vida limitadas e marginalizadas, que

    identificava com grande parte do povo brasileiro alijado de uma mais ampla e substancial

    formao, e da partilha dos bens e do patrimnio cultural humano universal , Lobato

    trabalhou incansavelmente pela propagao de alternativas eficazes para um futuro mais

    realista para os jovens de seu pas. Entretanto, foi desde sempre rechaado pelos mais

    diversos preconceitos, alvo dos desentendimentos e confuses interpretativas a que as

    suas propostas inusitadas e provocativas acabavam sujeitas. O prprio Jeca Tatu tantas

    vezes reelaborado para atender ao objetivo de promoo de uma imagem do homem do

    campo saudvel e prspera, alegre e empreendedora1 foi desmoralizado como uma

    alegoria elitista e preconceituosa. Sua defesa dos direitos da mulher e dos oprimidos con-

    tinua ainda hoje a suscitar polmicas memorveis, que ao longo de mais de meio sculo

    se desdobram em condenaes e absolvies pblicas as mais contraditrias.

    Elegendo como eu-lrico a boneca Emlia, cujo nome significa a rival um impro-

    vvel ser mutante, raqutico, do sexo feminino; dotado, no entanto, de uma verve crtica

    impertinente e insolente, espcie de rebelde rob criado por uma ex-escrava a partir da

    precariedade dos materiais disponveis (um tecido de chita barata e um enchimento de

    macela) , Lobato articula com infinito bom-humor um inacreditavelmente ambicioso

    projeto educacional para o Brasil. Relendo criticamente as origens da cultura popular na-

    cional e da literatura de transmisso oral atravs de obras como Histrias de tia Nastcia

    e Caadas de Pedrinho; mas sem esquecer a tradio clssica europeia, como as lendas

    mitolgicas, as fbulas e os contos de fadas, o autor procura situar seu leitor num universo

    de mltiplas referncias encadeadas, cuja histria cabe s novas geraes reconstruir.