nietzsche vida e obra - ?· FRIEDRICH NIETZSCHE: VIDA E OBRA I - VIDA FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE nasceu…

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    09-Dec-2018

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FRIEDRICH NIETZSCHE: VIDA E OBRA

I - VIDA

FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE nasceu em 1844, no dia 15 de outubro, na localidade de Rcken perto da cidade de Leipzig, parte oriental da Alemanha. A famlia era de pastores luteranos, profisso do pai, Karl Ludwig, que morre em 1849, vitimado por doena mental (amolecimento cerebral). Nietzsche tinha ento cinco anos. Sua famlia muda-se para a casa da av materna, em Naumburg, onde Nietzsche passa a viver em um ambiente feminino - com a me, a av, duas tias e sua irm, mais nova, Elizabeth. Elizabeth desposa, em 1855, Foerster, um wagneriano anti-semita, nacionalista prussiano; ambos vo para o Paraguai fundar uma colnia de puros arianos. Em 1858 Nietzsche ganha uma bolsa de estudos e vai estudar na ento famosa escola de Pforta (onde estudara Fichte). Depois estuda em Bona e Leipzig. Escolhe estudar filosofia e descarta a teologia. Em 1869 nomeado professor de filologia em Basilia. Nessa poca comea a amizade com Richard Wagner, com quem passa a morar em Tribschen, s margens do lago de Lucerna. Wagner morava com a filha de Liszt, Cosima, que tinha metade de sua idade (trinta anos). Cosima havia deixado o msico Hans von Blow, bem mais novo, para viver com Wagner. Nietzsche encontra neste ambiente recolhimento para seu esprito delicado, refinado e inovador. L O Mundo como Vontade e Representao, onde, provavelmente, se sentiu atrado pelo atesmo de Schopenhauer. Em 1870 a Alemanha entrou em guerra com a Frana. Nietzsche se alista como enfermeiro. A guerra, no entanto, o faz refletir sobre o papel do Estado e sua relao com a cultura. O insipiente nacionalismo e a simpatia por Bismarck se esvaem rapidamente. Nietzsche prepara-se a para fugir das velhas crenas e das mais banais necessidades de poder e violncia. As crises de ruptura em Nietzsche so produto de novas idias, amadurecidas pela experincia da vida pessoal. Em 1871 escreve a sua primeira grande obra O Nascimento da Tragdia no Esprito da Msica, aonde Nietzsche vai alm das idias de Wagner e Schopenhauer, considerando-as pessimistas e conservadoras. Surpreendendo seus amigos, afasta-se de Wagner e demais fillogos, da velha pomposidade de um imprio decadente de valores empedernidos. Nietzsche, ao contrrio do que muitas vezes se pensa, um pensador otimista e vanguardista. Mas est cada vez mais sozinho. Seus problemas de sade tambm pioram: dores de cabea e de estmago, perturbaes oculares, dificuldades de palavra, sintomas que o perseguiro at morte. Muito possivelmente ainda conseqncias da difteria e disenteria que contraiu durante a guerra. Em vistas disto renuncia ao ensino e abandona as aulas em Basilia. A doena libertou-me lentamente: poupou-me toda a ruptura, toda a diligncia violenta e escabrosa... Ela conferia-me o direito de modificar radicalmente meus hbitos. Graas ao empenho de seu amigo Overbeck, consegue em 1878 uma penso de Basilia. Nietzsche viaja muito, para pensar, para respirar, inquieto e procurando amenizar sua doena com climas mais propcios. Convive com poucos amigos alm de Overbeck, Peter

Gast, seu antigo aluno de msica e Paul Re, biologista e que lhe parece avesso s convenes. Paul Re namora Lou Salom, com quem Nietzsche tambm tem uma afeio especial, acabando por a pedir em casamento em 1882, enlace que Lou Salom recusa por preferir Paul Re e tambm graas interferncia maliciosa da enciumada irm Elizabeth. Para Nietzsche este final infeliz foi motivo de sua angstia e depresso durante muitos meses o que agravou suas condies de sade, cada vez mais o levando para a doena mental irreversvel no necessariamente loucura, como os amigos Overback e Gast supunham. Os livros escritos por este perodo so os mais contundentes com relao a uma filosofia crtica que no d trguas s convenes, moral, ao misticismo Humano Demasiado Humano I-II (1878-1879); O Andarilho e sua Sombra (1880), Aurora (1881). Os anos passam em agonia e sofrimento para Nietzsche. Dias seguidos to debilitado que mal consegue sobreviver fisicamente. Por meses sem conseguir pensar, ler, escrever, martirizado por dores de cabea monstruosas, tonturas, cegueira, vmitos, infeces intestinais. Alternam-se ora momentos de euforia e depresso, ora tudo lhe parece excelente ora tudo desespero. Ainda assim, neste perodo conturbado, escreve a sua obra definitiva Assim falou Zaratustra (1883-1885) e obras maiores como Para Alm do Bem e do Mal (1886) e Para a Genealogia da Moral (1887). Chega o ano de 1888 e Nietzsche, como que suas foras prevendo o mal maior que se aproxima, como que destinado a exaurir todas as suas foras antes do fim, escreve sem parar: O Caso Wagner, Crepsculo dos dolos, O Anticristo, Nietzsche contra Wagner, e sua biografia pessoal Ecce Homo. Da para frente seus escritos parecem mostr-lo como um visionrio csmico, como um profeta a salvar os homens e todas as coisas. Comeam a aparecer cartas estranhas assinadas Nietzsche-Csar, Dionsio ou Crucificado. Overbeck corre a Turim e o encontra perdido e especialmente excitado. Consegue o levar de volta para Basilia onde Nietzsche se deixa internar calmamente. No incio o diagnstico de uma paralisia cerebral progressiva. Levado para Iena, os mdicos supem uma infeco sifiltica, remontando a 1866. No final de 1890 a irm Elizabeth volta do Paraguai para ajudar sua me a cuidar de Nietzsche seu marido havia se suicidado aps o fracasso de sua intentona nazista. Nietzsche permanece ativo para a msica, mas esquece toda sua obra. A evoluo de sua doena avana lentamente at apatia e agonia. Nietzsche morre em Weimar a 25 de Agosto de 1900.

II FILOSOFIA Apesar da obra de Nietzsche ser pontuada por momentos de sade e sossego e outros de doena e extrema angstia, e ainda que vrios conceitos e idias principais estejam distribudos ao longo de sua complexa obra, possvel tentarmos efetuar um percurso que de forma lgica esclarea a proposta de seu pensamento original. Qualquer tentativa em colocar uma ordem em um pensamento to profundo e radicalmente rejuvenescedor ser sempre apenas uma possibilidade dentre vrias, portanto, to sujeita a imperfeies como qualquer outra. Fazendo-o temos a inteno de facilitar o acompanhamento do leitor-ouvinte.

Assim sendo, trabalharemos com uma lista dessas idias principais que nos servir de fio condutor: 1. O Papel da Filosofia; 2. A Vontade de Poder; 3. Niilismo e Degenerescncia; 4. Deus Morto e Homem Superior; 5. O Super-Homem; 6. O Eterno Retorno. 1. O papel da Filosofia A idia de Filosofia que Nietzsche apresenta em sua obra tem razes no pensamento grego pr-socrtico. Nesse perodo, antes do sculo V a.C., o filsofo tem por misso interpretar e avaliar a vida como um fragmento possvel do todo cosmolgico. V a sua misso como o mdico que diagnostica pelos sintomas e como o artista que cria perspectivas. Ento, a vida ativa o pensamento e o pensamento, por seu lado, afirma a vida. Como o legislador de ento, o filsofo percebe os males pelo que ele captura da realidade, mas vai prescrever a medicao dando liberdade sua imaginao: filsofo-legislador. Nietzsche acredita que posteriormente, de Scrates (Sc.V a.C.) a Hegel (Sc. XVIII), o pensamento filosfico ocidental vai sofrer de um colapso moral, uma paralisia de valores e um misticismo que se agrava na tradio judaico-crist. Desde Scrates, Nietzsche identifica uma condenao da vida em nome de valores superiores, do pensamento absorvido pela definio do certo e errado, do bem e do mal, das leis de coletivizao da vida, as dvidas e angstias dos homens em relao ao Eu, ao Mundo, a Deus, causalidade, finalidade, etc. Neste sentido, a filosofia est cada vez mais afastada das possibilidades da vida simplesmente, como ela , em sua santidade natural. Assim, mais do que se ocupar com sua finalidade crtica, a filosofia e o filsofo vo se alinhar com a construo de valores superiores vida na medida em que se orientam por frmulas e olhares adequados s verdades de sempre. De filsofo legislador, crtico e criador de novos princpios, ele se transforma em um filsofo submisso e conservador dos valores admitidos. E na medida em que a vida mesma ocupa agora um segundo patamar em suas preocupaes, a filosofia passa a carregar os mesmos fardos dos homens, e em nome da verdade racional, carrega e submete o pensamento crtico mesmice da obedincia sem contestao. Pela fora dos Estados, religies, valores em uso, etc., a filosofia est esterilizada e o filsofo responde de forma reativa a esta esterilizao. Diante desta obliterao e deste casusmo a que se submeteu a filosofia, o filsofo deve reagir como aquele que destri as verdades eternas, que usa das iconoclastia e da irreverncia para criar passagens, abrir caminhos e forar olhares dspares sobre a multiplicidade plstica da vida e de suas proezas. No entanto, esta tarefa de transmutao a marteladas no coisa simples e esperada. Nas palavras de Nietzsche, Aquele que sabe respirar a atmosfera dos meus escritos sabe que uma atmosfera das alturas, que o ar a forte. preciso ser criado para esta atmosfera, de outra forma arriscamo-nos a apanhar frio. O gelo est perto, a solido enorme mas vejam com que tranqilidade tudo repousa na luz! Vejam como se respira livremente! Quanta coisa sentimos abaixo de ns! A filosofia tal como a vivi, tal como a compreendi at o presente, a existncia voluntria no meio dos gelos e das altas montanhas - a pesquisa de tudo o que estranho e problemtico na vida, de tudo o que, at ao presente, foi banido pela moral. O grau de verdade que um esprito suporta, a dose de

verdade que um esprito pode ousar, foi o que me serviu cada vez mais para dar a verdadeira medida do valor. A minha filosofia ser um dia vitoriosa, porque at agora s se proibiu, por princpio, a verdade. (Ecce Homo:1888) 2. A Vontade de Poder Diante deste verdadeiro desperdcio vocacional da filosofia e do infortnio que assola o filsofo, Nietzsche sugere que o jogo de foras que se fazem presentes em qualquer realidade humana precisaria ser acalentado por uma vontade superior com relao histria e verdade. Foras que se relacionam geram vontade. Vontade para qu? Para poder criar e dar. A vontade de poder uma potncia universal e cosmolgica com base na qual tudo se cria, recria e distribui pelo universo. o querer fazer, querer fazer do ser que pensa no devir. O ser que pertence ao devir, ao que vai acontecer, no ao que ou foi, necessariamente um ser fomentador de mudanas, um criador de valores e princpios novos. Ele auto-afirmativo, apesar de ser crtico, a comear por ele mesmo. Ele est sozinho no ato prepositivo de criar, predisposto destruio do que e est. Este poder est em todos os homens, provavelmente como est em toda a essncia do universo desde sempre e para sempre talvez por isso, nos ltimos escritos, Nietzsche parea um profeta cosmolgico. Por isso, a vontade de poder nada tem a ver com cobia, com posse, com dominao, violncia, vingana ou ressentimento. Apenas e magistralmente todo o impulso de querer criar. O poder, como vontade de poder em Nietzsche, no sucumbir vontade, mas domin-la para que seja submetida ao que se quer. Podemos perceber como a filosofia de Nietzsche nada tem a ver com qualquer tipo de sistema poltico autoritrio. Na prtica, Nietzsche detestava se envolver com poltica. No o desejo banal que deve mover o filsofo, mas a potencialidade de se criar algo novo. Para isso precisa dominar o poder para realizar aquilo que se deve realizar, o novo, o inusitado, criar a liberdade para transformar, no apenas na superfcie, mas na essncia a moral de sempre - combater a degenerescncia de um devir que nada muda, que se perptua por valores e princpios de sempre. Este querer, esta vontade de poder fazer, transformar, transmutar, encontra-se j como categoria do inconsciente, pois mesmo ali os valores e os hbitos so distores do real. Derrotar a moral para se atingir a tica. Ir alm do radicalizar. Para Nietzsche, fugir dessa fraqueza de se escravizar ao mesmo de sempre, at nas categorias mais psicolgicas, implica em ultrapassar aos radicais, porque estes tambm j so expresses dos valores morais e da realidade mimtica. Esta luta em aceitar a vontade de poder a prpria redeno do castigo e a liberdade de cada um da a construo de uma verdadeira tica. Nietzsche diz: E como mesmo naquele que quer h dor, porque no pode voltar ao passado, foi preciso que o prprio querer e a vida inteira aparecessem como um castigo. E desde ento, nuvens sobre nuvens amontoaram-se sobre o esprito, at ao dia em que a loucura acabou por pregar:

Tudo passa, pois, tudo tem o mrito de passar. E a prpria justia, esta lei do tempo que a obriga a devorar os seus prprios filhos assim pregou a loucura. Todas as coisas so regras segundo uma ordem moral de legalidade e de castigo. Como livrar-nos do fluxo incessante das coisas e do castigo da existncia? assim pregava a loucura. Pode haver redeno, se existe um direito eterno? Oh! Ningum poder fazer rolar, alguma vez, a rocha do fato consumado; todas as penas, necessariamente, so eternas. Assim pregava a loucura. Nenhuma ao pode ser apagada. Como que o castigo a poderia abolir? Aqui est o carter eterno deste castigo que a existncia; a existncia no pode ser seno uma seqncia eterna de atos e erros. A menos que o querer no acabe por se libertar e que o querer se torne no-querer mas vocs conhecem, meus irmos, este estribilho de desrazo. Desviei-vos deste estribilho ensinando-vos: o querer criador. Tudo o que foi no passa de fragmento, enigma e horrvel acaso, at ao dia em que o querer criador declare: Mas eu quis assim. At ao dia em que o querer criador declare: Mas eu quero-o assim. E quer-lo-ei assim. Mas disse alguma vez estas palavras? E quando ser isso? O querer j desposou a armadura da sua prpria loucura? O querer j se tornou o redentor de si prprio, o mensageiro de alegria? Ter desaparecido o esprito de vingana e qualquer espcie de roar os dentes? E quem, pois, lhe ensinou a reconciliar-se com o tempo e a fazer o que mais elevado do que qualquer reconciliao? O que deve querer o querer, que querer de poder, ultrapassa qualquer reconciliao? mas como se chega l? Quem lhe ensinou a querer mesmo o retorno a tudo o que foi?. (Assim Falava Zaratustra, II, Da redeno: 1883) 3. Niilismo e Degenerescncia Para Nietzsche existem dois tipos de foras: ativas e reativas. Assim tambm a vontade de poder possui duas qualidades: afirmao e negao. Pela vontade de poder uma fora pode ser afirmativa, mas tambm, pela vontade de poder, uma fora pode ser negativa. Foras ativas so afirmativas e foras reativas so negativas - concebidas ento como as duas faces da mesma moeda, as duas possibilidades da mesma vontade de poder. Ento, a vontade de poder em gnese uma potncia de criatividade, ou pode ser potncia de repetio infinita. No entanto, a criticidade e a criatividade assumem para Nietzsche os papis preponderantes das foras ativas, cujo carter a multiplicidade com que a afirmao do querer se defronta. J a reao, a reproduo infinita dos valores, das crenas e dos hbitos, revela o lado...

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