O co-relato Mallarmé-Haroldo

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    17-Sep-2015

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Anlise Traduo de Un coup de ds por Haroldo de Campos

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<ul><li><p> PONTIFCIA UNIVERSIDADE CATLICA DE SO PAULO PUC-SP </p><p>Srgio Guilherme Cabral Bento </p><p>O co-relato Mallarm / Haroldo de Campos: O mito moderno em Um lance de dados </p><p>PROGRAMA DE ESTUDOS PS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRTICA LITERRIA </p><p>SO PAULO 2008 </p></li><li><p> SRGIO GUILHERME CABRAL BENTO </p><p>O co-relato Mallarm / Haroldo de Campos: O mito moderno em Um lance de dados </p><p> Dissertao apresentada Banca Examinadora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, como exigncia parcial para obteno do ttulo de Mestre em Literatura e Crtica Literria sob a orientao do Profa. Dra. Olga de S. </p><p>SO PAULO </p><p>2008 </p></li><li><p> Autorizo, exclusivamente para fins acadmicos e cientficos, a reproduo total ou parcial desta dissertao por processos de fotocopiadoras ou eletrnicos. Assinatura:______________________ Local e data: _____________________ </p><p>BENTO, Srgio Guilherme Cabral O co-relato Mallarm / Haroldo de Campos: o mito moderno em Um lance de dados. So Paulo: [s.n.], 2008. 120 f. Dissertao (Mestrado em Literatura e Crtica Literria) Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, 2008. Orientadora: Profa. Dra. Olga de S </p><p>1. Teoria Literria. 2. Poesia moderna. CDD 811 </p></li><li><p> FOLHA DE APROVAO </p><p>Srgio Guilherme Cabral Bento </p><p>O co-relato Mallarm / Haroldo de Campos: O mito moderno em Um lance de dados </p><p> Dissertao apresentada Banca Examinadora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, como exigncia parcial para obteno do ttulo de Mestre em Literatura e Crtica Literria sob a orientao do Profa. Dra. Olga de S. </p><p> BANCA EXAMINADORA </p><p>_______________________________________________ </p><p>_______________________________________________ </p><p>_______________________________________________ </p><p>So Paulo 2008 </p></li><li><p> Rosa, anti-rosa, no a do poema nem a do bouquet: qualisigno do amor. </p></li><li><p>AGRADECIMENTOS </p><p> A minha famlia, pelo apoio. CAPES, pelo financiamento. Ao programa de ps-graduao em Literatura e Crtica Literria da PUC/SP, em especial professora Olga de S, pela valiosa orientao. s professoras Leda Tenrio da Motta e Viviana Bosi, pelo enriquecimento crtico. </p></li><li><p>Pode conceber-se que haja mitos muito antigos, mas no eternos; pois a histria que transforma o real em discurso, ela e s ela que comanda a vida e a morte da linguagem mtica. Longnqua ou no, a mitologia s pode ter um fundamento histrico, visto que o mito a fala escolhida pela histria: no poderia de modo algum surgir da natureza das coisas. </p><p> Roland Barthes </p><p>A angstia de Kierkegaard, o cuidado de Heidegger, o sentimento do nufrago, tanto em Mallarm como em Karl Jaspers, o Nada de Sartre no so seno sinais de que volta a Filosofia ao medo ancestral ante a vida que devorao. Trata-se de uma concepo matriarcal do mundo sem Deus. </p><p> Oswald de Andrade </p></li><li><p>Resumo </p><p>BENTO, Srgio Guilherme Cabral. O co-relato Mallarm / Haroldo de Campos: o </p><p>mito moderno em Um lance de dados. 2008. 120 f. Dissertao (Mestrado) Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, So Paulo, 2008. </p><p>Em seu conceito moderno, o mito um paradigma comportamental, um sistema semiolgico </p><p>de algum referente externo. Baseado nisto, este trabalho sustenta que o poema Um lance de dados, de Stphane Mallarm, adquire status mtico, quer pelo seu carter cosmognico comumente ignorado pela crtica quer pela sua inovao formal fato que o consagrou, e sob cujo prisma unicamente lembrado. Em virtude disso, sofreu ao longo do sculo XX um </p><p>processo de mitificao ao ser promovido condio de uma das mais importantes fontes de </p><p>inspirao da poesia recente e contempornea. Para que tal abordagem fosse possvel, buscou-</p><p>se delimitar o estudo do texto proposto em correlao com sua recriao em lngua </p><p>portuguesa, feita por Haroldo de Campos. Tal dilogo traduo/original no apenas atualiza o </p><p>mito Um lance de dados pelo valor ritualstico que possui o ato de traduzir, mas tambm permite anlise uma aproximao da contemporaneidade. Como instrumento de exegese, as </p><p>teorias da Gestalt princpios de organizao da forma; mxima de que o todo no a mera soma das partes, mas possui uma qualidade diferenciada destas; e o fenmeno da correlao </p><p>psiconeural na percepo visual humana asseguraram que a obra fosse considerada em sua totalidade, enquanto entidade visual, verbal e sonora. Deste modo, chegou-se concluso que </p><p>Um lance de dados um relato da (re-) criao do Universo, do ser humano e da Arte no sob a conduo de uma fora divina, mas gerada pelo pensamento humano, novo fator-chave </p><p>na sociedade iluminista-burguesa da Modernidade. Est formado o mito moderno. </p><p>Palavras-chave: Mito Stphane Mallarm Haroldo de Campos Gestalt </p></li><li><p>Abstract </p><p>BENTO, Srgio Guilherme Cabral. The correlation Mallarm / Haroldo de Campos: the modern myth in A throw of the dice.2008. 120 p. Dissertation (Masters Degree) Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, So Paulo, 2008. </p><p>In its modern concept, the myth is a behavioral paradigm, a symbolical model of an external </p><p>reference. Based on that, this paper defends that the poem A throw of the dice, by Stphane Mallarm, acquires such mythical status, either by its cosmogonical nature which is commonly ignored by the critics -, or by its formalistic innovations reason why it got so acclaimed. Due to that, it suffered during the XX century a mythification process, in which it </p><p>was promoted to be elected as one of the inspirational sources of recent and contemporary </p><p>poetry. So that such approach was possible, the study was delimitated to a comparison </p><p>between the proposed text to its re-creation in Portuguese, done by Haroldo de Campos. This </p><p>dialogue translation / original not only updates the myth A throw of the dice by the ritualistic value the translation process has, but also allows the analysis to get closer to the </p><p>current times. As an instrument for this exegesis, the Gestalt theories principles of form organization; concept of whole, which is not a mere addition of its parts, but has a unique quality aggregated; and the phenomenon of psiconeural correlation in human visual </p><p>perception ensure that the poem will be considered in its totality, as a verbal, visual and sound entity. In short, it has been concluded that the poem A throw of the dice is a tale of the (re-) creation of the Universe, the human being and the Art, not under the guidance of a </p><p>divine power, but generated by the human thinking, key factor in the new illuminist bourgeois </p><p>society in Modern Age. The modern myth is formed. </p><p>Keywords: Myth Stphane Mallarm Haroldo de Campos Gestalt </p></li><li><p>Sumrio </p><p>1. INTRODUO ......................................................................................................... 11 </p><p>2. O MITO MALLARMAICO .................................................................................. 17 </p><p>2.1 A Modernidade ......................................................................................................... 17 </p><p>2.2 A arte da Modernidade ............................................................................................ 24 </p><p>2.3 A Literatura da Modernidade ................................................................................. 29 </p><p>2.4 A Modernidade de Mallarm ................................................................................... 35 </p><p>3. O MITO HAROLDIANO ...................................................................................... 53 </p><p>3.1 Mallarm e a Modernidade Tardia ......................................................................... 53 </p><p>3.2 A teoria da transcriao ........................................................................................... 57 </p><p>3.3 O Un Coup de ds transcriado .............................................................................. 61 </p><p>4. O MITO UM LANCE DE DADOS ................................................................. 67 </p><p>4.1 Kant e Husserl .......................................................................................................... 67 </p><p>4.2 A escola de Berlim .................................................................................................... 69 </p><p>4.3 Princpios de organizao da forma ........................................................................ 71 </p><p>4.4 Outros estudos gestlticos ........................................................................................ 75 </p><p>4.5 Crticas Gestalt ...................................................................................................... 77 </p><p>4.6 A concepo gestltica da Arte ................................................................................ 78 </p><p>4.7 O Um lance de dados enquanto estrutura gestltica ........................................... 80 </p><p>4.8 O todo (ou a pr-Gestalt) ......................................................................................... 83 </p><p>4.9 Pgina Um ................................................................................................................ 85 </p><p>4.10 Pgina Dois ............................................................................................................. 87 </p><p>4.11 Pgina Trs ............................................................................................................. 89 </p><p>4.12 Pgina Quatro......................................................................................................... 93 </p><p>4.13 Pgina Cinco ........................................................................................................... 97 </p><p>4. 14 Pgina Seis ............................................................................................................. 99 </p><p>4.15 Pgina Sete ............................................................................................................ 101 </p><p>4.16 Pgina Oito ........................................................................................................... 103 </p><p>4.17 Pgina Nove .......................................................................................................... 106 </p><p>4.18 Pgina Dez ............................................................................................................ 108 </p><p>4.19 Pgina Onze .......................................................................................................... 110 </p><p>4.20 O novo todo (ou a ps-Gestalt) ............................................................................. 113 </p><p>CONSIDERAES FINAIS ................................................................................... 114 </p><p>REFERNCIAS .......................................................................................................... 117 </p></li><li><p> 11 </p><p>1. INTRODUO </p><p>O ttulo deste trabalho desvela sua inteno primeira: conferir ao poema Um lance de </p><p>dados o status de mito. A obra-prima de Stphane Mallarm, publicada em 1897 e cada no </p><p>esquecimento no comeo do sculo XX, foi redescoberta a partir da dcada de 1950, no pice </p><p>da corrente estruturalista. Desde ento, adotada como um dos modelos matriciais da </p><p>produo potica recente e contempornea, seja pela indita explorao artstica de recursos </p><p>grficos e tipogrficos, seja pela ambio de renovar os suportes da poesia, aproximando-a </p><p>das outras artes. No Brasil, o poema foi traduzido por Haroldo de Campos em 1972. </p><p>Convm, entretanto, esclarecer o que se pretende com o termo mito. Tal conceito </p><p>sofreu relevante alterao desde a metade do sculo XIX poca em que o pensamento </p><p>cientfico e racional superava a influncia mstico-religiosa nas Humanidades, conseqncia </p><p>das Revolues Francesa e Industrial e do Iluminismo e afastou-se da acepo de seu timo, </p><p>o grego mthos (fbula, relato, discurso). </p><p>Dessa forma, o mito, em sua concepo tradicional, uma narrativa com a funo </p><p>de elucidar a origem ou a razo da existncia das coisas, dados esses no disponveis </p><p>percepo humana. Segundo o mitlogo Mircea Eliade (1991, p. 11), </p><p>O mito conta uma histria sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no </p><p>tempo primordial, o tempo fabuloso do princpio. Em outros termos, o mito narra como, graas s faanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento. </p><p>[grifos nossos] </p><p> interessante notar que o pesquisador romeno atrela a existncia do mito a seres de </p><p>outra realidade, alheia humana. De fato, por muitos sculos viveu-se sob forte influncia da </p><p>crena doutrinria. Mais que isso, as cincias naturais, as artes, a poltica e as universidades </p><p>eram atreladas a instituies religiosas e imposio de seus mitos. Eram eles que explicavam </p><p>a origem de tudo, e o homem, atravs dos ritos, sentia-se em contato com a fonte criadora de </p><p>seu mundo. </p><p>Porm, a partir do sculo XIX, como dito, as mudanas sociais e intelectuais por que </p><p>passou o homem, e que deram incio ao perodo conhecido por Modernidade, desencadearam </p><p>um processo de derrubada do mito como relato da provenincia de tudo. Os mtodos </p><p>racionalistas e positivistas tomavam a experincia passada como base para o presente: a </p><p>Histria tornou-se a nica fonte de autoconhecimento da humanidade. </p></li><li><p> 12 </p><p>A transposio do mito para a Histria no papel de escritura sagrada acarretou uma </p><p>orfandade, que simbolicamente Friedrich Nietzsche chamou de morte de Deus. H, ainda, </p><p>uma paradoxal perda de contato com o passado: diferentemente dos mitos que so </p><p>constantemente reavivados pelos ritos , os fatos histricos no possuem forma de retorno. </p><p>Para Mircea Eliade (1991, p. 124), esta impossibilidade de re-ligao, apesar de angustiante, </p><p>impulsiona o homem: </p><p>A revolta contra a irreversibilidade do tempo ajuda o homem a construir a realidade e, por outro lado, liberta-o do peso do Tempo morto, dando-lhe a segurana de que ele capaz de abolir o passado, de recomear o passado e </p><p>recriar o seu mundo. </p><p>A partir de ento, no h mais sentido em ver nos mitos a origem de tudo. Tais </p><p>narrativas, porm, continuaram a ser amplamente exploradas, seja na Psicologia (Freud, Jung, </p><p>Lacan), na Antropologia (Lvi-Strauss), nas Artes, enfim, em quase todas as categorias de </p><p>produo intelectual humana suas presenas permaneceram ativas. Seu papel que mudou, </p><p>contudo. Distante da funo sagrada, a fbula mtica ganha destaque por espelhar </p><p>paradigmas de comportamentos humanos. Eis o seu conceito moderno. </p><p>Dentro deste prisma, convm citar um clebre estudo do mito na Modernidade: Roland </p><p>Barthes, em sua obra Mitologias (1982, p. 136), define-o como uma mensagem, ou um </p><p>sistema semiolgico. Para o pensador francs, a existncia do fenmeno d-se pela </p><p>transposio de um signo (composto por um significante e um significado prprios) </p><p>condio de significante mtico. Dessa forma, este signo j completo funciona como </p><p>recipiente, invlucro de outro significado agregado pela histria e pela cultura locais: </p><p>No mito, pode encontrar-se o mesmo esquema tridimensional [...]: o significante, o significado e o signo. Mas o mito um sistema particular, </p><p>visto que ele se constri a partir de uma cadeia semiolgica que existe j </p><p>antes dele: um sistema semiolgico segundo. O que signo (isto , totalidade associativa de um concei...</p></li></ul>