O grito da vida

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    04-Apr-2016

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25 pessoas se suicidam por dia no Brasil. Falar sobre esse tabu a melhor maneira de prevenir. Conhea as histrias de Luiza e Nadiele e como a teologia crist atual lida com a questo.

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<ul><li><p>www.arquidiocesedesaopaulo.org.br | 24 a 30 de setembro de 2014 | Reportagem | 11</p><p>Luzia Maria de Jesus Ga-briel, 52, diante das conver-sas frequentes com o irmo, Francisco Siqueira e Silva, 43, percebeu algo errado: Esta-va se mostrando uma pessoa negativa, deprimida. As ou-tras irms que moravam com Francisco confirmavam que ele no era mais o menino ale-gre que viram crescer.</p><p>Com saudade no olhar, aquela mesma de quem se v marcado pela ausncia, Luzia contou reportagem que, pe-las atitudes do irmo, sentia que um dia ele iria embora para sempre. Lembro-me daquele olhar sempre perdi-do, como se a vida no tivesse mais sentido, desabafou.</p><p>No ltimo domingo com a gente, ele falou que iria acen-der a fogueira de So Joo. Era um costume do nosso pai. Depois, soubemos do suic-dio. Sei l. Talvez se ele tivesse imaginado a dor que nos cau-sou, no teria feito, mas no havia nele condies emocio-nais para isso, disse Luzia.</p><p>Para a famlia de Francis-co e Luzia e para a maioria das pessoas, a morte continua sendo um tabu e pode ser um momento de recomeo ou de rompimentos profundos e do-res para as quais parece no haver remdio. Quando o as-sunto suicdio, ento, pou-co se fala e talvez, a maioria das pessoas no saiba que ele causa a morte de mais de um brasileiro por hora, segundo dados do Centro de Valoriza-o da Vida (CVV). </p><p> Falamos, mas no o bastante</p><p>Se comearmos a falar em nossos crculos profissionais e pessoais, podemos deixar de perder 25 brasileiros ao dia, afirma o CVV. Mas, ainda que a sociedade e a Teologia catlica tenham dado pas-sos enormes neste sentido, a questo permanece envolta em uma atmosfera de silncio e pr-julgamentos. Durante a produo desta reportagem, </p><p>o metr de So Paulo teve problemas de atraso. Era uma segunda-feira, 21, e, segundo o aviso sonoro o motivo foi a presena de usurio na via. No incomum para os usu-rios presenciarem casos de suicdio nas estaes.</p><p>A mdia brasileira de seis a sete mortes por 100 mil ha-bitantes, bem abaixo da mdia mundial entre 13 e 14 mor-tes por 100 mil pessoas. Mas, enquanto a mdia mundial permanece estvel, esse n-mero tem crescido no Brasil. E a maior porcentagem est entre os jovens.</p><p>Oscar Lpes Maldonado, professor de Teologia, obser-vou que preciso perceber que a Igreja Catlica passou da ideia de condenao, proi-bio de entrar na igreja ou do sepultamento no cemitrio da comunidade, para uma Teo-logia aberta, incapaz de con-denar ningum, embora essa viso ainda permeie o imagi-nrio popular.</p><p>Alex Villas Boas, pro-fessor de Teologia Moral na PUC-SP, esclareceu que o as-pecto essencial do Magistrio eclesial afirmar o valor da vida, e, de modo mais acen-tuado, da vida humana, por sua capacidade de decidir, a fim de ajudar as pessoas a de-cidirem pelo bem. O suicdio , portanto, objetivamente um mal, pois atenta contra a vida da pessoa e provoca so-frimento irreparvel para as pessoas que amam aquele que cometeu suicdio. </p><p>Importante ressaltar que a Teologia Moral tentou as-similar a contribuio das cincias psquicas, sobretu-do a contribuio da teoria freudiana, que apesar de seus limites, como de toda rea da cincia, colabora com a des-coberta do inconsciente e faz com que se olhe para aquilo que condiciona a liberdade humana. S Deus conhece a condio da liberdade de cada um e, portanto, cabe Teolo-gia Moral ajudar a encontrar as causas do suicdio e ser uma mensagem de confiana aos que se veem desesperados com seus dramas psquicos e morais, continuou Alex.</p><p>Sobre a teoria freudiana, Pollyana Brando, 27, estu-dante de Psicologia, lembrou, em conversa com a reporta-gem, que, para Freud, a dife-rena entre um psicopata e um neurtico que o psicopa-ta quando assassina no sen-te nada, nenhuma espcie de culpa. O neurtico, caso che-gue a cometer um assassinato, no aguenta e se mata tam-bm. Mas, no caso de suicdio como nico fato, a pessoa no tem coragem, ou capacidade de matar outro ou acabar com situao em que est envolvi-do. Essa energia de violncia e de morte recai sobre si mes-ma, comentou a jovem.</p><p>Para no frustrar ningum, decidiu partir</p><p>Era dia 9 de junho de 2011, quinta-feira ensolarada em Manaus (AM). Nadiele Alves, 26, foi acompanhar o amigo, Mrio Clio Batista de Souza, 26, para comprar um terno para ele e outro para o filho de apenas 1 ano. Iria se casar em breve. Mame ligou e perguntou se o Mrio ia jan-tar em casa. Eu disse que no, mas ele pegou o celular: Tia, tem feijo?. A mame deve ter dito sim, e ele disse que ele iria jantar l, lembrou Nadiele.</p><p>Conversaram aquela noi-te inteira, e, no dia seguinte, Mrio comearia um novo emprego. Por volta de 4h30, foi pra casa. Vi ele se distan-ciar e acenei com a mo. Ele respondeu com um largo sor-riso. Por volta de 6h30, meu celular tocou, era o pai dele, chorando. Havia gritos dolo-rosos e amargos. Ele morreu, se matou. Fiquei em choque. Minha me desmaiou, disse Nadiele. </p><p>Alm da dor daquele mo-mento, a jovem lembrou que uma vizinha abraou-a e dis-se: Voc sabe que ele vai para o inferno n?. Na hora, acho que nem escutei. Da casa dele pra minha so 120 passos, a gente contou aos 14 anos. Vi a me dele ajoelhada, chorando. Olhei mais frente e o vi, com as mos fechadas. Pendurado </p><p>pelo pescoo com a corda que amarrava a rede do pai.</p><p>Eu olhava sem pensa-mento nenhum, sem lgri-ma nenhuma. S lembro que, em algum momento, surgiu o primeiro de muitos por qus, expressou Nadiele, para quem Mrio deixou uma nica carta. Ele pediu desculpas por ter sido fraco, por no ter lutado pelos sonhos. Mas no sabia o que estava acontecendo. Acha-va que no seria capaz de enca-rar a nova vida, era tudo muito maravilhoso. Ele no merecia. Era sujo, indigno, incapaz de cuidar de tanta coisa boa que Deus tinha confiado a ele, e para no frustrar ningum, decidiu partir, pois assim se-ria melhor pra todo mundo. Fiquei emocionalmente de-siquilibrada durante um ano, recebendo visitas da psicloga voluntria todos os dias, com a camisa dele numa mo e a carta na outra. Convivo com resqucios h trs anos. Sinto impotncia por no ter per-cebido e traio da parte dele por no ter se permitido viver, confessou Nadiele.</p><p>A data de 10 de setembro foi declarada como o Dia In-ternacional de Preveno do Suicdio para que haja mais abertura entre as pessoas de conversarem sobre o tema. Segundo dados do Centro de Valorizao da Vida, pelo me-nos nove em cada dez suic-dios poderiam ser prevenidos se o suicida pedisse algum tipo de ajuda, ao contrrio do que muitos pensam. Porm, para que isso acontea, ne-cessrio liberdade em falar do assunto.</p><p>Sendo uma das organi-zaes no-governamentais (ONG) mais antigas do Brasil, O CVV foi fundado em 1962 por um grupo de voluntrios. O objetivo escutar as pesso-as em suas necessidades, mo-mentos de angstia e desespe-ro. Os mais de um milho de atendimentos anuais so rea-lizados por 2.200 voluntrios em 18 estados mais o Distrito Federal, 24 horas por dia, pelo telefone 141, pessoalmente nos 68 postos de atendimento, pelo site www.cvv.org.br, via chat, Skype ou e-mail.</p><p>O grito da vIDA</p><p>Nay FerNaNdesnayafernandes@gmail.com</p><p>CerCa de 25 pessoas se </p><p>suiCidam por dia no </p><p>Brasil; lidar Com o taBu a melhor maneira de </p><p>prevenir</p></li></ul>