O IDOSO COMO MESTRE E ALUNO DAS NOVAS GERAÇÕES ?· A respeito da necessidade do diálogo na educação,…

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    09-Nov-2018

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<ul><li><p>CAPTULO 7</p><p>O IDOSO COMO MESTRE E ALUNO DAS NOVAS GERAESJos Carlos Ferrigno1</p><p>1 INTRODUO</p><p>O binmio educao e gerao caracteriza-se por um vnculo indissocivel. Aeducao est necessariamente articulada sucesso e renovao das geraes por meio do repasse da experincia, sem o qual a edificao da cultura humana no se concretiza e perpetua. A relao entre as geraes pressupe e suscita processos especficos de transmisso, socializao, formao, ensino e aprendizagem. Mas o professor tambm aprende com seus alunos, assim como o pai com seus filhos. A coeducao de geraes expressa a ideia dos mais velhos como educadores, mas tambm como educandos. Nessa troca, promove o desenvolvimento tico e cultural, alm da humanizao das relaes interpessoais. Por isso, o direito de ensinar e de aprender dos idosos deve ser legalmente garantido.</p><p>Este captulo pretende refletir sobre os processos educativos presentes na relao intergeracional no contexto da sociedade brasileira contempornea. Pretende-se tambm analisar como a Poltica Nacional do Idoso (PNI) se pronuncia a esse respeito e o que de concreto vem ocorrendo. Em relao educao entre geraes, busca-se ponderar sobre o que tem sido efetivamente implantado em observncia Lei no 8.842, de 4 de janeiro de 1994, que institui a PNI, e quais aspectos desta poltica ainda no foram concretizados. H, por fim, algumas sugestes de encaminhamento da questo intergeracional em prol de uma sociedade mais justa e igualitria.</p><p>2 SOBRE A NATUREZA DA EDUCAO</p><p>Uma discusso mais profunda sobre a educao, em suas diversas interpretaes e abordagens, extrapola em muito os limites deste captulo. Todavia, a ttulo de uma contextualizao e um reconhecimento do campo que estamos explorando, consideramos pertinente recordar sua abrangncia.</p><p>1. Psiclogo; consultor em planejamento, acompanhamento e avaliao de programas de preparao para a aposentadoria, de ocupao do tempo livre e lazer do trabalhador aposentado; e doutor em psicologia social pela Universidade de So Paulo (USP).</p></li><li><p>Poltica Nacional do Idoso: velhas e novas questes212 | </p><p>Geralmente aplicamos o termo educao limitando seu sentido e associando-o escola, mas sabemos que a educao se d inicialmente na famlia, prosseguindo nas relaes entre colegas de brincadeira, nos grupos da adolescncia, nas relaes de trabalho, e tambm via meios de comunicao. A educao, alm de tcnica e terica, igualmente esttica, moral e afetiva. No somente a criana dela necessita, mas tambm o adulto deve, conforme os valores contemporneos, se educar incessantemente.</p><p>Para captarmos o sentido maior do processo educacional, poderamos pensar o que o homem e o que o distingue do animal. Em resposta, diramos que o homem se caracteriza pelo trabalho, assim como pela linguagem e pela cultura. Mas no h trabalho, nem linguagem, nem cultura sem educao (Reboul, 1980, p. 7).</p><p>Os antigos gregos, sobretudo durante o perodo socrtico, contriburam decisivamente para o desenvolvimento do conceito de educao. As contribuies de Scrates, Plato e Aristteles foram muito importantes e at hoje permanecem vivas. Scrates empregava como mtodo de ensino a ironia e a maiutica. A primeira levava o discpulo a reconhecer sua ignorncia e a segunda lhe permitia buscar por si mesmo a resposta s suas questes. O ideal grego aparece como paideia, formao geral que tem por tarefa construir o homem como cidado. Para Plato, a essncia de toda a verdadeira educao ou paideia a que d ao homem o desejo e a nsia de se tornar um cidado perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justia como fundamento (Jaeger, 2001).</p><p>A concepo de um sistema educacional articulado a uma dimenso poltica e tica faz de Plato o pioneiro da pedagogia. Para ele, a meta suprema da educao era a formao moral e a construo de um Estado justo. Na sequncia seu discpulo Aristteles, enriquecendo a reflexo grega sobre a educao, a vincula tica e noo de bem comum, sobretudo em sua magistral obra tica a Nicmaco (Aristteles, 2007).</p><p>Uma definio longe de definitiva, porm mais contempornea sobre o processo educativo a que nos oferece Olivier Reboul. Diz o autor:</p><p>educao a ao que permite a um ser humano desenvolver suas aptides fsicas e intelectuais, assim como seus sentimentos sociais, estticos e morais, com o fim de cumprir, tanto quanto possvel, sua tarefa de homem (Reboul, 1980, p. 8).</p><p>Todavia, essa definio, a despeito de sua abrangncia, deixa ainda muitas questes em aberto. Uma delas, talvez a mais importante, por ser um divisor de guas entre os tericos, se refere autoridade daquele que ensina e liberdade ou autonomia daquele que aprende, e isso tem muito a ver com as relaes entre jovens e velhos.</p></li><li><p>O Idoso como Mestre e Aluno das Novas Geraes | 213</p><p>2.1 Educao autoritria versus educao libertria</p><p>Com o advento da modernidade e a institucionalizao da escola, definies dos papis de professor e aluno dividiram os pensadores da educao, que se posicionaram entre um ensino mais autoritrio ou mais libertrio. A partir dos sculos XVII e XVIII, com as posies opostas de John Locke e Jean Jacques Rousseau, intensificaram-se as discusses sobre mtodos pedaggicos.</p><p>Para Locke, em uma perspectiva de educao mais tradicional, o indivduo nasce na condio de uma tabula rasa, isto , sem contedo, tal como uma pgina em branco. Cabe sociedade mold-lo. Tudo a ele deve ser fornecido pelos adultos, restando pouco ou nenhum espao para a inveno e a criatividade. Ao contrrio, Rousseau considerava que a sociedade que deforma o ser humano, por isso recomendava uma interferncia mnima em favor de um desenvolvimento natural das aptides das crianas, num clima de liberdade e espontaneidade (Doll, 2008). Aanlise da oposio entre autoridade e liberdade no campo educacional, repetimos, muito importante para pensarmos as relaes educativas entre as velhas e as novas geraes, como veremos adiante.</p><p>As modernas teorias pedaggicas se distinguem e se opem educao tradicional, entre outros aspectos, pelo papel atribudo ao educador, ou seja, pela questo do poder presente na relao educador-educando. Paulo Freire diferencia uma concepo conservadora, antidialgica, bancria e, portanto, autoritria de educao, na qual o educador deposita seus conhecimentos no educando, sendo este entendido como um ser passivo, vazio e completamente ignorante, de outra concepo na qual a educao problematizadora, transformadorae dialgica (Freire, 1977, p. 78-79).</p><p>Em clima de igualdade, o dilogo torna possvel superar a contradio entre educador e educando. Assim, no mais educador do educando, no mais educando do educador, mas educador-educando e educando-educador. O educador, ento, j no apenas o que educa, mas o que, enquanto educa, educado, em dilogo com o educando, que, ao ser educado, tambm educa. Ambos se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e no qual argumentos de autoridade j no fazem sentido. Se esse raciocnio vale para uma ideia genrica de educao, com mais fora ainda deve caracterizar um processo de coeducao, que j em sua prpria expresso pressupe um trabalho compartilhado e uma relao igualitria.</p><p>A respeito da necessidade do dilogo na educao, Reboul (1980, p. 45-46) observa que, no lugar da questo cuja resposta certa presumivelmente preexistente, deve haver o dilogo durante o qual o mestre pode constatar que est errado. Certamente, ele possui saber e vivncias mais slidas, mas o que traz mais seu ponto de vista, um entre outros. Sua funo, ento, valorizar essas outras percepes, por meio do direito palavra. Dessa forma poder surgir uma nova ideia, um jeito novo de </p></li><li><p>Poltica Nacional do Idoso: velhas e novas questes214 | </p><p>olhar a realidade. O professor corajoso e democrtico rende-se possibilidade de ser ensinado e de ser superado pela verdade do discpulo, abrindo-se promissora contingncia da coeducao de geraes.</p><p>A vontade de compreender e de aceitar o que peculiar no outro em decorrncia dos fatores que modelaram sua gerao fator imprescindvel para o processo coeducativo. Trata-se de algo que transcende a tolerncia, pois se traduz no empenho em buscar relaes igualitrias, acatando (e no abolindo) as diferenas, j que por meio delas que se renovam as possibilidades de modificao recproca dos sujeitos. Pela percepo do outro como diferente que se torna possvel a constatao de nosso inacabamento, visualizando, no outro, elementos para nossa transformao (Oliveira, 1999, p. 277). Assim, a possibilidade de admirao por esse diferente e o desejo de aproximao buscando nele a complementao permitem sentir-se pleno.</p><p>Quando pensamos em alteridade, igualitarismo, solidariedade, pensamos em amizade, sentimento dos mais nobres. Em tica a Nicmaco, tambm de Aristteles a preocupao com a solidariedade entre as geraes. Considerando o que os velhos podem fazer pelos jovens e estes por aqueles, ele pondera: amigos constituem um auxlio ao jovem a fim de proteg-lo do erro; aos velhos, para deles cuidar e suplementar sua capacidade de ao que lhes falta em sua fraqueza (Aristteles, 2007, p. 235).</p><p>Contudo, relaes igualitrias entre aluno e professor no retiram deste ltimo sua autoridade. A relao educacional, mesmo ocorrendo dentro de um modelo informal, como nas atividades de lazer, caracteriza-se por uma assimetria constitutiva. Ou seja, se algum ensina algo a algum porque detm um conhecimento a ser transmitido, condio que lhe confere poder e autoridade. Idealmente, a autoridade do educador deve ficar circunscrita aos seus saberes especficos. Para isso, preciso distinguir autoridade de autoritarismo. Como pessoas, como cidados, como professores e como alunos, podemos e devemos desenvolver relaes democrticas, portanto, humanizadoras.</p><p>Ao reconhecermos e defendermos a assimetria de poder na relao professor e aluno, consideramos que na educao deve haver um certo conservadorismo, isto , algo a ser conservado, preservado: as tradies e os valores fundamentais (Arendt, 1997, p. 225). Por isso, ao criticar a permissividade das escolas norte-americanas, j nos anos 1950, Arendt defende a ideia de que deve haver autoridade do professor em relao ao jovem. Autoridade que se traduz na responsabilidade dos adultos em apresentar o mundo, tanto seu lado luminoso quanto seu lado sombrio, s geraes que chegam. Mas, observa a pensadora, preciso preservar a ousadia, a criatividade e o esprito revolucionrio dos jovens, vidos por mudanas, caractersticas necessrias para a construo de um futuro </p></li><li><p>O Idoso como Mestre e Aluno das Novas Geraes | 215</p><p>melhor. Os professores, assim como os mais velhos em geral, no devem ver como derrota a superao dos mais jovens sobre seus mestres, mas sim perceber que a reside a esperana por melhores dias para a humanidade (Arendt, 1997).</p><p>3 O DIREITO E A NECESSIDADE DE UMA EDUCAO PERMANENTE</p><p>Sempre tempo de aprender. O ser humano jamais est pronto. Ao contrrio, se mantm em constante processo de construo, de aprendizagem, at seu ltimo suspiro. Essa condio humana de incompletude torna-se mais evidente em nossos dias de mudanas aceleradas. O homem atual se mostra, em todas as dimenses do cotidiano, como um ser inacabado. A insuficincia de sua formao, inevitvel em um mundo marcado pela transformao permanente das tcnicas, torna imprescindvel uma educao permanente.</p><p>Ao refletir sobre a importncia da continuidade do processo educacional ao longo da vida, Lapassade (1975, p. 16) aborda o fenmeno que intitula de inacabamento do sujeito, mostrando que, diferentemente de outras espcies, o ser humano nasce fsica e psiquicamente prematuro; e, ao contrrio do pensamento dominante, permanece inacabado para sempre ao longo da vida. Tal inacabamento entendido, aqui, como uma condio existencial inexorvel e imanente. Assim, Lapassade combate o mito da perfectibilidade humana, supostamente alcanada no incio da vida adulta e seguida de declnio.</p><p>A ideia de que o ser humano atinge o auge de suas capacidades na fase de jovem adulto uma das fontes de discriminao no somente em relao aos velhos, mas tambm s crianas geraes colocadas em posio de inferioridade social. Oliveira (1999, p. 31) lembra que, como seres destitudos do tempo presente, pergunta-se para as crianas o que sero e para os velhos o que foram.</p><p>A intensificao e a modernizao dos processos de produo industrial a partir dos anos 1950 criaram um contexto favorvel ao florescimento da ideia de uma educao permanente ao longo da vida. Em anos mais recentes, a revoluo digital, a rapidez da informao e a constituio de uma sociedade global aumentaram ainda mais a necessidade da reciclagem profissional e da atualizao geraldeconhecimentos.</p><p>Em 1977, um novo modelo de interveno educacional surge no cenrio brasileiro: as escolas abertas da terceira idade do Servio Social do Comrcio (Sesc). Estas proporcionam um conjunto de cursos voltados para a reflexo sobre temas da atualidade e para questes relativas ao envelhecimento, inspiradas em experincias europeias. Dentro dessa perspectiva, no incio dos anos 1980, vrias universidades brasileiras criaram as chamadas faculdades e universidades abertas terceira idade.</p></li><li><p>Poltica Nacional do Idoso: velhas e novas questes216 | </p><p>Entre as instituies de ensino voltadas a esse propsito, destaca-se a USP, que desenvolveu uma proposta original em sua dinmica de funcionamento, cuja natureza nos interessa de perto neste captulo. Trata-se de um encontro de geraes. De um lado, os idosos, na condio de alunos ouvintes. Do outro, os alunos da graduao dessa universidade. Jovens e velhos, portanto, compartilhando os mesmos bancos escolares, situao que pode ensejar interao e trocas de experincias. Aes educacionais desse tipo buscam responder s necessidades deatualizao de conhecimentos para que os mais velhos possam acompanhar as rpidas transformaes polticas, econmicas e culturais de uma sociedade cada vez mais acelerada e complexa.</p><p>4 AS GERAES NA EDUCAO FORMAL, NO FORMAL E INFORMAL</p><p>A intergeracionalidade est presente nas distintas relaes educativas, como as de carter formal, no formal e informal. A educao formal aquela que almeja a formao, sobretudo profissional, do indivduo. Implica o cumprimento de tarefas e um aproveitamento medido e avaliado de vrias formas, e d direito a um certificado que comprova e legitima o processo de aprendizagem. A nfase dada pela educao formal ao objetivo da profissionalizao , muitas vezes, alvo de crticas porque pode resultar em tecnizao do processo educativo, com prejuzo da finalidade maior de formao de cidados crticos, livres e conscientes de seus direitos e responsabilidades.</p><p>Vale lembrar que na escola ocorrem encontros de vrias geraes, que criam a oportunidade de processos informais de educao. O mais lembrado o encontro do aluno com seus professores. Mas h tambm interaes entre alunos e funcionrios e entre alunos mais novos e mais velhos que podem deflagrar interessantes processos coeducativos. Bem menos frequentes so as relaes que se estabelecem entre idosos da comunidade e os escolares que a eles se dirigem para transmitir seus saberes.</p><p>Tais aes dependem de iniciativas institucionais como o projeto Rede Escola Viva do Instituto Kairs2 de Minas Gerais. Outra possibilidade de relao a existente e...</p></li></ul>