O Outro, O Mesmo

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    06-Jul-2015

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O OUTRO, O MESMO____________

JORGE LUIS BORGES

Este livro: O Outro, o Mesmo parte integrante da coleo:

JORGE LUIS BORGESOBRAS COMPLETAS VOLUME II1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A. 1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/00 Edio baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenao editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emec Editores Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge Schwartz Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparao de originais: Maria Carolina de Araujo Reviso de textos: Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguar, 1485 CEP 05346-902 - Tel.: 3767-7000, So Paulo, SP

e-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica Crculo CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte - Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - So Paulo : Globo, 2000. Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-250-2877-0 (v. 1) ISBN 85-250-2878-9 (v. 2) 1. Fico argentina 1. Ttulo. CDD-ar863.4 ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 20 : Literatura argentina ar863.4 1. Sculo 20 : Fico : Literatura argentina ar863.4

O OUTRO, O MESMO El Otro, El Mismo Traduo de Leonor Scliar-Cabral

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O O u tr o , O M esm o

PRLOGO

Dentre os muitos livros de versos que minha resignao, meu descuido e s vezes minha paixo foram rabiscando, O Outro, O Mesmo o que prefiro. A esto o "Outro poema dos dons", o "Poema conjectural", "Uma rosa e Milton" e "Junn", que, se a parcialidade no me engana, no me desonram. A esto tambm meus hbitos: Buenos Aires, o culto aos ancestrais, a germanstica, a contradio do tempo que passa e da identidade que perdura, meu estupor de que o tempo, nossa substncia, possa ser compartilhado. Este livro no outra coisa seno uma compilao. Os poemas foram sendo escritos para diversos moods e momentos, no para justificar um volume. Disso decorrem as previsveis monotonias, a repetio de palavras e talvez de linhas inteiras. Em seu cenculo da rua Victoria, o escritor chamemo-lo assim Alberto Hidalgo assinalou meu costume de escrever a mesma pgina duas vezes com variaes mnimas. Lamento ter-lhe respondido que ele no era menos binrio, com a ressalva, porm, de que, em seu caso particular, a primeira verso era de outro. Tais eram as deplorveis maneiras daquela poca, que muitos olham com nostalgia. Todos queramos ser heris de episdios triviais. A observao de Hidalgo era justa: "Alexander Selkirk" no difere notoriamente de "Odissia, livro vigsimo terceiro", "O punhal" prefigura a milonga que intitulei "Uma faca no Norte" e talvez a narrativa "O encontro". O estranho, o que jamais entenderei, que minhas segundas verses, como ecos apagados e involuntrios, costumam ser inferiores s primeiras. Em Lubbock, na fronteira do deserto, uma moa alta me perguntou se, ao escrever "O Golem", eu no havia intentado uma variao de "As runas circulares"; respondi-lhe que tivera de atravessar todo o continente para receber essa revelao, que era verdadeira. Ambas as composies, alm disso, tm suas diferenas; o sonhador sonhado est em uma, a relao da divindade com o homem e talvez a do poeta com a obra, na que depois redigi. As lnguas dos homens so tradies que carregam algo de fatal. Os experimentos individuais so, de fato, mnimos, salvo quando o inovador se resigna a lavrar um espcime de museu, um jogo destinado discusso dos historiadores da literatura ou ao mero escndalo, como o Finnegans Wake ou as Soledades. Atraiu-me s vezes a tentao de traduzir para o espanhol a msica do ingls ou do alemo; se tivesse executado essa aventura quase impossvel, eu seria um grande poeta, como aquele Garcilaso que nos deu a msica da Itlia, ou como aquele annimo sevilhano que nos deu a de Roma, ou como Daro, que nos deu a da Frana. No passei de um rascunho urdido com palavras de poucas slabas, que sensatamente destru.

curiosa a sorte do escritor. No incio barroco, vaidosamente barroco, e depois de alguns anos pode conseguir, se os astros forem favorveis, no a simplicidade, que no nada, mas a modesta e secreta complexidade. Menos que as escolas, educou-me uma biblioteca a de meu pai ; apesar das vicissitudes do tempo e das geografias, creio no ter lido em vo aqueles queridos volumes. No "Poema conjectural", verificar-se- a influncia dos monlogos dramticos de Robert Browning; em outros, a de Lugones e, assim o espero, a de Whitman. Ao rever estas pginas, senti-me mais prximo do simbolismo que das seitas ulteriores que sua corrupo engendrou e que agora o negam. Pater escreveu que todas as artes propendem condio da msica, talvez porque nela o fundo a forma, j que uma melodia no pode referenciar como o podem as linhas gerais de um conto. A poesia, admitido esse ditame, seria uma arte hbrida: a sujeio de um sistema abstrato de smbolos, a linguagem, a fins musicais. Os dicionrios tm a culpa desse conceito errneo. Costuma-se esquecer que so repertrios artificiosos, muito posteriores s lnguas que ordenam. A raiz da linguagem irracional e de carter mgico. O dinamarqus que articulava o nome de Thor e o saxo que articulava o nome de Thunor no sabiam se essas palavras significavam o deus do trovo ou o estrpito que sucede ao relmpago. A poesia quer voltar a essa antiga magia. Sem leis prefixadas, opera de modo vacilante e ousado, como se caminhasse na escurido. Xadrez misterioso a poesia, cujo tabuleiro e cujas peas mudam como em um sonho e sobre o qual me inclinarei depois de morto.

J. L. B.

INSNIADe ferro, de encurvadas vigas de enorme ferro tem de ser a noite, para que no a rebentem e a desenrazem as muitas coisas que meus abarrotados olhos viram, as duras coisas que insuportavelmente a povoam. Meu corpo fatigou os nveis, as temperaturas, as luzes: em vages de extensos trilhos, em um banquete de homens que se detestam, no fio rompido dos subrbios, em uma quinta quente de esttuas midas, na noite repleta onde abundam o cavalo e o homem. O universo desta noite contm a vastido do esquecimento e a preciso da febre. Quero em vo distrair-me do corpo e do desvelar de um espelho incessante que o prodigalize e que o espreite e da casa que repete seus ptios e do mundo que segue at um despedaado subrbio de becos onde o vento se cansa e de barro torpe. Em vo espero as desintegraes e os smbolos que precedem o sonho. Segue a histria universal: os rumos minuciosos da morte nas cries dentrias, a circulao de meu sangue e dos planetas. (Odiei a gua crapulosa de um charco, detestei, ao entardecer, o canto do pssaro.) As fatigadas lguas incessantes do subrbio do Sul, lguas de pampa lixeira e obscena, lguas de execrao no querem abandonar a memria. Lotes pantanosos, ranchos amontoados como ces, charcos de prata ftida: sou a detestvel sentinela dessas colocaes imveis.

Arame, terraplenos, papis mortos, sobras de Buenos Aires. Creio esta noite na terrvel imortalidade: nenhum homem morreu no tempo, nem mulher, nenhum morto, porque esta inevitvel realidade de ferro e de barro tem de atravessar a indiferena de quantos estejam adormecidos ou mortos ainda que se ocultem na corrupo e nos sculos e conden-los viglia espantosa. Toscas nuvens cor de borra de vinho infamaro o cu; h de amanhecer em minhas plpebras apertadas. Adrogu, 1936.

TWO ENGLISH POEMS1To Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich

I

The useless dawn finds me in a deserted streetcorner; I have outlived the night. Nights are proud waves: darkblue topheavy waves laden with all hues of deep spoil, laden with things unlikely and desirable. Nights have a habit of mysterious gifts and refusals, of things half given away, half withheld, of joys with a dark hemisphere. Nights act that way, I tell you. The surge, that night, left me the customary shreds and odd1

DOIS POEMAS INGLESES A Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich I

A intil alvorada me encontra em uma esquina deserta; sobrevivi noite. / As noites so ondas orgulhosas: ondas de pesada crista azul-escura cheias de tons de esplios fundos, cheias de coisas improvveis e desejveis. / As noites tm o hbito de misteriosas ddivas e recusas, de coisas meio dadas, meio retidas, de alegrias com escuro hemisfrio. As noites procedem assim, creia-me. / A vaga, nessa noite, deixou-me os pedaos e as sobras avulsas de costume: uns amigos odiados para bater papo, msica para sonhos e o fumegar de cinzas amargas. Coisas