O patriarcado no discurso falado

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    11-Sep-2015

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Analise de conversao do ponto de vista da diferena de genero

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<p>27</p> <p>Prof DR Marli Quadros Leite</p> <p>Ana Beatriz Augustinho (8973098)Bianca Coelho de Azevedo (8973205)Felipe Lopes (8976192)Nicolas Leonezi (8973042)Vitria Aniz (8973101)</p> <p>Trabalho de Introduo aos Estudos da Lngua Portuguesa II</p> <p>USP UNIVERSIDADE DE SO PAULOFFLCH - FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANASDLCV DEPARTAMENTO DE LETRAS CLSSICAS E VERNCULAS</p> <p>SO PAULO2014Ana Beatriz Augustinho (8973098)Bianca Coelho de Azevedo (8973205)Felipe Lopes (8976192)Nicolas Leonezi (8973042)Vitria Aniz (8973101)</p> <p>Patriarcado no discursoA influncia do gnero no comportamento lingustico de dois informantes (em dialogo)</p> <p>Trabalho de transcrio e anlise apresentado professora Marli Quadros Leite da disciplina Introduo aos Estudos da Lngua Portuguesa II da turma de 2014, do segundo horrio matutino do curso de Letras da USP.</p> <p>Sumrio</p> <p>1INTRODUO32CONTEXTUALIZAO43RECURSOS CONVERSACIONAIS53.1Simetria e Assimetria no dilogo53.2Monitoramento73.3Interrupes104CONCLUSO155BIBLIOGRAFIA166Anexo A Transcrio17</p> <p>INTRODUO</p> <p>Neste trabalho, procuramos analisar um dilogo sob a tica do gnero e como ele influencia a interao. Os tpicos que abordamos dizem respeito histria das anlises de gnero, aos recursos de conversao utilizados por homens e mulheres, a quais mtodos de pesquisa tiveram foco no meio acadmico ao longo dos anos e a como as relaes de poder e o contexto social influenciam todo o resto. A metodologia utilizada foi a transcrio de udio, contagem de termos, turnos, perguntas, interrupes e assaltos e a posterior anlise dos dados coletados com base nas teorias de Marcuschi (1988), Tannen (2003), Wodak &amp; Denken (2005) e Galembeck (1999). A tese tem como objetivo problematizar as diferenas entre gneros no discurso, levando em conta os aspectos sociolgicos envolvidos.O dilogo transcrito de carter familiar entre dois interactantes casados, ambos pertencentes segunda faixa etria (36-55 anos): um professor de cinquenta e um anos, nascido em So Paulo, de pais baianos; e uma biloga de quarenta e seis anos, tambm nascida em So Paulo, de pais pernambucanos. Gravado no dia trinta de outubro de dois mil e quatorze, o udio tem quarenta e sete minutos, mas apenas trinta minutos foram transcritos. O tema proposto para os entrevistados foi lembranas de infncia.</p> <p>CONTEXTUALIZAO</p> <p>Estudos sobre variaes lingusticas determinadas a partir de gnero comearam a ser feitos a princpio por William Labov na dcada de 1960. Nesses estudos ele declarou que a diferena de gnero seria um fator, dentre vrios outros, que interferiria na conversao e, dessa forma, ocasionaria variaes no comportamento lingustico. Para explicar essa variao sociofonolgica, ele usou o argumento de que as diferenas sociais entre homens e mulheres interferem no desenvolvimento do lxico de ambos desde o incio e no seu comportamento diante de uma interao.Nas dcadas seguintes mais estudos foram realizados e diferentes teorias sobre gnero na conversao surgiram, e elas so frequentemente divergentes. Lakoff (1975) estabeleceu que o modelo conversacional feminino seria deficiente com relao ao masculino e apresentaria caractersticas de subordinao no dilogo. No entanto, outra teoria conferiu mais prestgio ao modelo feminino, pois as mulheres tendem a cooperar com o interlocutor para construir a interao, enquanto o estilo masculino competitivo e menos benfico progresso do dilogo.Pesquisadores, em geral, realizaram estudos que consideram apenas o aspecto biolgico dos interlocutores e negligenciaram o contexto social em que esto inseridos e que influenciam no comportamento lingustico. Esse outro aspecto pode ser relacionado com as variaes lingusticas que ocorrem entre homens e mulheres alm da questo de gnero, como o aspecto social, que pode interferir no histrico pessoal de um indivduo como um todo, desde sua classe social, at seu nvel de escolaridade, etc. Essas variaes lingusticas geram a identidade lingustica de cada indivduo e se mostram perante uma conversao.A conversao determinada como uma atividade coletiva da qual participam dois ou mais interlocutores que se alternam para falar e, dessa forma, organizam a fala em turnos e disponibilizam de uma srie de recursos conversacionais para manter o dilogo. Um dilogo geralmente acontece sem ter sido premeditado e todos os seus tpicos planejados e, por isso, natural que os interactantes faam pequenas pausas para organizarem seu texto falado e pequenos desvios ou mesmo insiram tpicos variados para prosseguir com a interao. Alm disso, fazem uso de outros recursos durante o desenrolar da conversao com a mesma finalidade de dar continuidade conversa como: interrupes, monitoramento, marcadores conversacionais, etc. No dilogo analisado neste trabalho pode ser constatado que alguns recursos conversacionais so usados mais do que outros e tambm que um locutor faz mais uso de determinado recursos do que outro. RECURSOS CONVERSACIONAIS</p> <p>Simetria e Assimetria no dilogo</p> <p>A assimetria conversacional ocorre quando apenas um dos participantes do dilogo desenvolve o tpico conversacional no seu turno por determinados motivos - como o maior nvel de conhecimento do assunto tratado, exposio de opinio, etc. -, com isso a conversa ganha tons de monlogo principalmente quando o outro participante aceita seu papel de ouvinte, porm quando este no aceita o papel e quer tambm desenvolver sua fala surge a necessidade da troca de turno - a alternncia de falas com o objetivo comum do desenvolvimento do tpico - , o que ocorre muitas vezes por assalto. J a simetria da conversao ocorre quando ambos os participantes respeitam as regras conversacionais e realizam a troca de turno permitindo o desenvolvimento do assunto de acordo com a teoria de Galembeck (1999).No dilogo transcrito o incio assimtrico com a predominncia do L1 (ex. 1), mas com os assaltos de turno de L2 comea uma leve disputa que deixa a conversa mais simtrica (ex. 2) conforme se desenvolve.Contudo, ainda existe a predominncia de L1, com turnos maiores. Considerando um turno de 4 ou mais linhas (na transcrio presente) como grande, L1 tem 9 turnos grandes, enquanto L2 tem apenas 3.</p> <p>Exemplo 1:L2 nasci na Lapa... s que eu morava em Osasco na poca que eu nasci na Lapa... e voc nasceu na Bahia...L1 eu nasci em So Paulo... na Vila Mariana no hospital So Paulo... os meus pais se mudaram para Osasco... em mil novecentos e sessenta e TRS:::... e es/ e esse bai/ essa casa onde eu moro a:: a mesma casa que os meus pais moraram... desde que eu nasci... aqui era um bairro... que era uma fazenda que foi loteAda... e a sa/ e:: a/ e::: os e os lotes foram divididos:::... e cada::: comprador pagou durante ach/ acho que QUINze anos::L2 mas o/ onde que comeava a::: fazenda e terminava?L1 Bradesco Linhas (3-14)Exemplo 2:L2 c lembra at HOje?L1 pegava a Narciso Esturli::ne e na saci... no final da Saci eu descia... direita tem uma praa... aquela praa atrs da pizzaria eu ia por ali e chegava na escolaL2 no eu sei mas quando voc ia com a sua tia voc ia at a casa delaL1 at a casa dela... daqui at a casa delaL2 a ela levo s por dois meses depois cs iam sozinhosLinhas (62-69)Durante a conversa, a maioria dos assaltos de turno de L1 so para manter do turno ou contestar L2 (ex. 3). Enquanto as interrupes de L2 so mais voltadas para o monitoramento, mas com o desejo da tomada da conduo do turno.Exemplo 3:L2 porque quando eu te conheci... a rua:: esse pedao da rua num era asfalTAdo por que que num era asfaltado?L1 noL1 por que a prefeitura num afa/ asfaltou responsabilidade da do asfaltamento da prefeitura... na verdade o asfaltamento pago pelo... ((bate na mesa)) pela:::s pessoas da casa... pelos donos da casa num pago pela prefeitura a prefeituraL2 e quem que mora/Linhas (54-61)Sendo L1 homem e L2 mulher claro um grande motivo para os assaltos recorrentes no dilogo: homens costumam ter turnos de fala maiores do que os das mulheres, e no s isso, eles tambm tem a confiana de que possuem mais lgica e razo em seus argumentos - devido ao respaldo da sociedade patriarcal que d voz razo deles, o que dificulta que as mulheres, mesmo com argumentos lgicos e embasados, sejam ouvidas e aplaudidas dignamente assim como o so os homens -, o que pode levar a situaes onde ele corrija a mulher no tpico de especialidade dela, no permita a troca de turno deixando a tentativa do assalto como nica forma possvel de conseguir falar, que nem sempre se realiza-, e etc. (ex. 4).Exemplo 4:L1no existia... o frangoL2 e o chuveiro? o chuveiroL2 o chuveiro era um balde... todo furadoL1 e aquele chuveiro era moderno/L2era modernoLinhas (319-323)</p> <p>Monitoramento </p> <p>Nos dados do entrevistador sobre fatores de personalidade dos entrevistados, constam duas informaes muito relevantes para essa anlise: (1) L1 e L2 so marido e mulher e (2) L1 raramente troca informaes sobre experincias vividas na infncia. Isso interessante, j que algo que chama ateno no texto que praticamente inteiro sobre as lembranas de L1, suscitadas pela a determinao de L2 para faz-lo falar, sempre colocando em questo as situaes narradas por aquele, problematizando-as, em forma de pergunta. O que se explorar nesse tpico ser qual a motivao das perguntas de L2 e porque L1 reage deste modo a elas.Pode-se explicar este questionamento constante de L2 pela informao anteriormente citada, a respeito da postura de L1 quando se trata de conversar sobre lembranas: L2, aproveitando-se do tema que lhes foi proposto, faz de tudo para conseguir informaes de L1 sobre este tema. Mas, mais que isso, deve-se pensar por que to importante para L2 obter essas informaes sobre a experincia do outro, uma vez que L1 no parece importar-se em fazer o mesmo com a interlocutora, como observa-se, por exemplo, no trecho a seguir, quando os dois esto falando do tpico escola, e L2 diz:</p> <p>L2 hum... c lembra o nome da sua primeira professora?... eu lembroL1eu no lembroL2no... c aprontava muito... que acho que c era... a minha professora chamava ElianaL1 s sei que ela batiaLinhas (661-665)Em seguida pergunta, L2 diz que lembra o nome de sua professora, o que nos diz que sua pergunta no era apenas para extrair informaes do interlocutor, mas tambm para expor para este informaes sobre si. Porm isto no ocorre: L1 apenas responde e no pergunta de volta. Na linha 657 observa-se ento certo embarao por parte de L2 j que a resposta de L1 no correspondeu s suas expectativas. Por fim, acaba falando o nome de sua professora, mas seu interlocutor ignora isso, e continua ainda respondendo pergunta que lhe foi feita: no lembra o nome da professora, entretanto lembra que ela batia. Aps isso, L2 diz que nunca apanhou na escola e que no tinha palmatria na sua poca, ao que L1 rebate, explicando como era a palmatria e outras punies. E L2, querendo revolver o dilogo para suas experincias, diz:L2 eu stenho boas lembranasL1 voc ficava ajoelhado no milhoL2 a:: professora Elia:: neL1 eu tambm s tenho boas lembranasL2 que voc apanhoL1 ce ficava ajoelhado no mi::lho... voc vinha pro canto da sa:: laLinhas (691-696)</p> <p>Observa-se que, por duas vezes, na linha tal e tal, L2 tenta compartilhar suas experincias, mas no consegue: L1 est obstinado a continuar no tpico que aquela pergunta de L2 sugeriu. Dessa forma parece seguir o texto inteiro: L2 introduz um tpico por meio de uma pergunta para L1, que responde, no pergunta e no tem o cuidado de deix-la comunicar o que quer.Desconsiderando as marcas conversacionais n?, tem-se noventa e trs ocorrncias de perguntas vindas de L2 e apenas dez vindas de L1, sendo que dessas dez, cinco so respondidas por ele prprio e duas, que sero mostradas adiante, so feitas em um tom de crtica. Trs so perguntas comuns, porm diferem-se das perguntas de L2 no sentido que nunca introduzem um tema novo para o interlocutor desenvolver, parecem ser usadas apenas quando surge alguma questo-problema que empaca a continuidade do tpico do qual falava: a primeira logo no incio da transcrio, quando L1 comea a falar onde L2 nasceu, porm se d conta de que no sabe e pergunta voc nasceu em Osasco ou So Paulo?; as duas outras em um momento em que L1 tenta fazer L2 entender uma localizao, perguntando num tem a viela? e depois aquela viela que desce?.As duas perguntas restantes aparecem em um contexto de tenso na conversa: L2 ao falar da viagem que fizeram Bahia, mostra que se sentiu mal diante das diferenas com as quais se deparou l, com nfase no tamanho da cidade e na comida, o que no agrada L1:L2 ::... nossa... a cidade muito pequena n... no grandeL1 mas... peQUEna? mas a cidade cresceu inclusive pro ouTRO ladoL2 a sua tia fez:: frango ao molho pardo... ah::: ela matou a galinha, tirou o sangue da galinha e fez o frango ao molho pardo...L1 galinha no vende no aougueL2 ai... serviu um prato desse tamanho... com aquele monte e eu ai meu deus e agora? eu tenho que comer issoL1 mas a gente... mas isso era comumL2 ai e eu punha pra um lado e punha pro outroL1 mas... mas era coMUML2 ::::::... mas o o ...L1 sua me no matava galinha?L2 minha tia Quininha, minha me... no sabia matar galinhaLinhas (209-310)Observa-se que essas duas perguntas marcam a tenso desse trecho, porque condenam a viso de L2: primeiro sobre o tamanho da cidade, L1 no acha que a cidade era pequena; e aps a pergunta, entende-se um argumento para essa questo (mas a cidade cresceu inclusive pro ouTRO lado), portanto, quando pergunta a ela peQUEna?, no quer simplesmente uma resposta, mas pretende que ela explique sua viso e, ainda, que concorde com ele.Depois, sobre a questo de ser ou no comum matar galinha, L1 quer mostrar que era comum e por essa razo faz a segunda pergunta, que polemiza a situao para demonstrar que L2 quem a exceo, o que fica claro um pouco depois no trecho da linha tal quando diz a questo cultural... c/ c acostumada com frango de aougue. Essas perguntas tm ento um carter no de compartilhamento de experincias como as de L2, mas sim de juzo muito explcito.Segundo Tannen (2003), para as mulheres, a troca de experincias algo muito importante para um bom relacionamento. um mecanismo de conexo, uma forma de criar proximidade com o outro. Porm, Quando um homem e uma mulher membros de uma famlia interagem, as diferenas de gnero nas expectativas em relao ao uso da conversao para criar proximidade podem levar a intercmbios desequilibrados. Um ritual comum que ilustra esses intercmbios desequilibrados nas famlias o que ela chama de Telling Your Day, quando as mes encorajam os filhos a contar ao pai como foi seu dia e os pais tomam o papel de julgar as aes recontadas nas histrias porque eles acham que por esse motivo que as histrias esto sendo contadas. Porm, Tannen afirma que a real meta das mes ao tomarem essa atitude , na verdade, envolver o pai na vida dos filhos, criando proximidade entre eles com base na troca de experincias, e no suscitar o juzo daquele sobre as aes dos filhos.Da mesma forma pode-se assumir que a real meta de L2 no fazer um interrogatrio sobre o passado de L1, mas compartilhar inf...</p>