o Principe Eo Mendigo

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    09-Aug-2015

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<p>O PRNCIPE E O MENDIGO</p> <p>MARK TWAIN</p> <p>PREFCIO Vou-vos contar uma histria tal como me foi contada por algum que a ouviu do seu pai, cujo pai a tinha ouvido do pai DELE, este ltimo tendo-a ouvido, da mesma maneira, do pai DELE - e assim por diante, mais e mais para trs, este conto foi preservado durante trezentos anos ou mais, ao ser passado de pais para filhos. Pode ser Histria ou pode ser s lenda, uma tradio. Pode ter acontecido ou pode no ter; mas PODIA ser verdade. Nos velhos tempos talvez s os sbios e os cultos acreditassem nele; ou talvez s gostassem dele e o levassem a srio os ignorantes e os simples.</p> <p>I O NASCIMENTO DO prncipe E DO POBRE Na muito antiga cidade de Londres, num certo dia de Outono do segundo quartel do sculo XVI, nasceu um rapazinho de uma famlia pobre chamada Canty, que no o desejava. No mesmo dia, nasceu outra criana inglesa, essa de uma famlia rica, Tudor de nome, que o desejava muito. Toda a Inglaterra tambm o queria. O Reino tinha-o esperado tanto, e desejado tanto, e rezado a Deus para que ele nascesse, que agora, que ele tinha realmente chegado, o povo estava quase doido de alegria, a danar nas ruas de felicidade e jbilo, a rir e a chorar ao mesmo tempo. Todos se permitiram ter um dia de descanso, altos e baixos, ricos e pobres, e fizeram festas, bailaram e cantaram at quase endoidecer; esta festa durou vrios dias. Durante o dia, Londres valia a pena ser vista, com alegres pendes desfraldados em todas as varandas e telhados e esplndidos cortejos a desfilar. noite tambm valia a pena, com grandes fogueiras em todas as esquinas e grupos de folies a pular volta delas. No se falava noutra coisa em toda a Inglaterra seno no novo 7 menino, Edward, Prncipe de Gales (1), que dormia envolto em sedas e cetins, inconsciente desta agitao, sem saber que grandes senhores e damas tomavam conta dele e o admiravam - e tambm sem se importar muito com isso. Mas ningum falava do outro beb, Tom Carity, embrulhado nos seus pobres farrapos, a no ser na famlia de pobres que ele tinha acabado de importunar com a sua presena. II OS PRIMEIROS ANOS DE TOM Deixemos passar alguns anos. Londres tinha cinco sculos e era uma grande cidade para a poca. Contava com cem mil habitantes - h quem diga que havia o dobro. As ruas eram muito estreitas, tortas e sujas, especialmente na parte onde Tom Canty vivia, no muito longe da ponte de Londres. As casas tinham sido construdas em madeira, com o segundo andar projectado para fora do primeiro e o terceiro com as ombreiras para fora do segundo. Quanto mais altas as casas fossem, mais largas ficavam. Pareciam esqueletos formados por toros de madeira, fortes e cruzados, com argamassa coberta de estuque aplicada entre elas. As travessas eram pintadas de encarnado, azul ou preto, conforme o gosto do dono, o que lhes dava um aspecto muito pitoresco. As janelas faziam-se pequenas, fechadas, com vidros em forma de losango, e abriam para fora com dobradias, como se fossem portas. 1 1</p> <p>1 i 1 (1) Edward Tudor (1538-1553), filho de Henrique VIII com Jane Seymour, sua terceira esposa. Para mais informaes sobre o contexto em que viveram os personagens desta histria veja-se a nota histrica no final do livro. 8 1 A casa onde o pai de Tom vivia chamava-se Offal Court, perto de Pudding Lane. Era pequena, degradada e pouco firme, e estava pejada de famlias extremamente pobres. A tribo dos Carity ocupava um quarto no terceiro andar. O pai e a me tinham uma espcie de estrado no canto; mas Tom, a av e as duas irms, Bet e Nan, tinham o cho todo para eles e podiam dormir onde quisessem. Havia ali restos de um ou dois cobertores e alguns molhos de palha velha e suja, mas esses no podiam ser verdadeiramente chamados de camas; de manh, eram arrumados num monte e, noite, podia-se escolher na pilha, para uso prprio. Bet e Nan tinham quinze anos - gmeas. Eram raparigas bem dispostas, sujas, vestidas com farrapos, * profundamente ignorantes. A me era como elas. Mas * pai e a av eram um bom par de diabos. Embebedavam-se sempre que podiam; ento zangavam-se um com o outro ou com algum que se lhes metesse no caminho; bbedos ou sbrios, estavam sempre a dizer palavres e blasfmias; John Canty era um ladro e a sua me uma mendiga. Transformaram as crianas em mendigos, mas no conseguiram faz-los ladres. No meio da terrvel escumalha que morava na casa, mas sem fazer parte dela, havia um velho padre que o rei tinha expulso de casa C) com uma penso de alguns fartbings C) e que tinha o hbito de se esconder com as crianas e ensinar-lhes o bom caminho. O padre Andrew tambm ensinou a Tom um pouco de latim e a ler e escrever; e teria feito o mesmo com as raparigas, mas elas tinham medo que os amigos fizessem troa perante uma instruo to esmerada. Todo o beco de Offal Court era um cortio igual casa dos Carity. Bebedeiras, desordens e discusses eram de (') Henrique VIII, ao separar-se da Igreja Catlica e criar a Igreja de Inglaterra, expulsou dos templos e conventos os padres que se recusaram a converter-se, dando-lhes uma penso simblica. (1) Farthing: moeda de cobre equivalente a um quarto de peny, ou seja de muito pouco valor. No mesmo sentido que tosto, em portugus. 9 praxe todas noites e durante quase toda a noite. Ali, as cabeas partidas eram to habituais como a fome. Contudo, o pequeno Tom no se sentia infeliz. Tinha uma vida muito difcil, mas no sabia. Era a mesma vida que tinham os outros midos de Offal Court, portanto ele achava que era normal e confortvel i noite, quando voltava para casa com as mos vazias, j sabia que, primeiro, o pai ia insult-lo e agredi-lo e que, quando tivesse acabado, seria a vez da av fazer-lhe o mesmo, com mais requintes; e que, durante a noite, a sua me esfomeada lhe passaria s escondidas qualquer resto ou casca que tivesse conseguido guardar-lhe, mesmo passando ela fome, embora muitas vezes o marido lhe batesse violentamente por causa disso. Mesmo assim, a vida de Tom corria-lhe bastante bem, especialmente no Vero. Pedia apenas o suficiente para escapar do pior, pois as leis eram severas e os castigos pesados- ento, podia ficar bastante tempo a ouvir o padre Andrew contar velhas lendas cheias de encanto e fbulas sobre gigantes e fadas, anes e gnios, castelos encantados e maravilhosos reis e prncipes. A sua cabea acabou por ficar cheia dessas coisas to bonitas e, muitas noites, enquanto estava deitado s escuras na palha pobre e suja, cansado, esfomeado e com o corpo modo, dava asas sua imaginao com imagens deliciosas da vida agradvel de um prncipe mimado, a morar num lindo palcio. Com o tempo, um desejo passou a persegui-lo noite e dia; queria ver, com os seus prprios olhos, um prncipe verdadeiro. Um dia falou nisso aos seus camaradas de Offal Court, mas os outros midos riram-se dele e fizeram troa com tanta</p> <p>crueldade, que desde a Tom resolveu guardar os seus sonhos para si mesmo. Lia muitas vezes os livros velhos do padre e pedia-lhe para lhos explicar. Aos poucos, os sonhos e as leituras provocaram-lhe algumas mudanas. As pessoas com que sonhava eram to finas que comeou a lamentar-se das roupas esfarrapadas e da sujidade, a querer ser mais limpo e estar mais bem arranjado. Continuava a brincar 10 na lama da mesma maneira e no deixava de se divertir; mas, em vez de chapinhar no Tamisa s por gosto, comeou a achar que tambm valia a pena pelos banhos a que dava ensejo. s vezes Tom presenciava algum acontecimento no mastro de Cheapside (1) ou nas feiras; e de vez em quando a criana e os outros habitantes de Londres tinham oportunidade de ver uma parada militar, quando algum famoso que tinha cado em desgraa era levado preso para a Torre (2) por terra ou pelo rio. Num dia de Vero viu queimar, na pira de Smithfield, a pobre Ana Askew e mais trs homens, ouviu o sermo que o bispo fez sobre eles, assunto que no lhe interessava. Realmente, a vida de Tom era variada e no desagradvel de todo. Aos poucos, as leituras e os sonhos de Tom sobre a vida principesca tiveram um efeito to forte sobre si prprio que, inconscientemente, comeou a fazer o papel de prncipe. As suas conversas e maneiras tornaram-se curiosamente cerimoniosas e corteses, para grande divertimento dos amigos mais prximos. Mas agora a influncia de Tom sobre esses midos crescia todos os dias e passaram a olh-lo com respeito, como um ser superior. Parecia saber tanto! E conseguia dizer e fazer tantas coisas maravilhosas! E, alm disso, era to profundo e esperto! Os comentrios e as representaes de Tom foram relatados pelos rapazes aos adultos; e esses tambm passaram a conversar sobre Tom Carity e a ach-lo a mais prendada e extraordinria criatura. Os crescidos traziam as suas dvidas a Tom para que lhes desse uma soluo e muitas vezes ficavam surpreendidos com a esperteza e sabedoria das suas decises. Na (') Em algumas praas levantavam-se i nastros, conhecidos como maypoles, porque eram engalanados com flores e fitas durante as festas de Maio. (1) A famosa Torre de Londres, castelo que foi priso e onde actualmente se guardam as jias da coroa. Henrique VIII mandava prender os seus inimigos de alta linhagem na Torre, onde eram torturados e geralmente acabavam decapitados, 11 realidade tinha-se tornado um heri para todos os que o conheciam, menos para a sua prpria famlia, que no lhe dava nenhum valor. Ao fim de algum tempo, Tom organizou uma corte real em privado! Ele era o prncipe; os seus camaradas mais especiais faziam de guardas, chanceleres, palafreneiros, fidalgos, aias e famlia real. Todos os dias o prncipe, de brincadeira, era recebido com os complicados cerimoniais que Tom tirava das suas leituras cavalheirescas; todos os dias os grandes negcios do reino faz-de-conta eram discutidos no conselho real e diariamente sua majestade faz-de-conta lavrava decretos para os imaginrios exrcitos, armadas e vice-reinos; terminada a comdia, l ia vestido de farrapos, recolhia algumas moedas na mendigagem, comia as cdeas, aturava os insultos e pancadas do costume e, finalmente, deitava-se num molho da palha pestilenta e voltava aos seus sonhos de v grandeza. Mesmo assim, o seu desejo de ver, pelo menos uma vez, um prncipe verdadeiro de carne e osso continuava a crescer-lhe l dentro, dia a dia, semana a semana, at absorver todos os outros desejos e tornar-se a nica paixo da sua vida. Num dia de janeiro, na habitual volta da mendigagem, Tom andava com desnimo para cima e para baixo, na rea volta de Mincing Lane e Littie East Cheap. Estava descalo e com frio, olhava para as terrveis empadas de porco e outras invenes mortais que estavam nas montras - para ele eram delcias prprias dos anjos; quer dizer, a julgar pelo cheiro, porque nunca tinha tido a boa sorte de possuir e comer uma delas. Caa uma neblina fria; o ambiente era sombrio; estava um dia melanclico. Nessa noite, Tom chegou a casa to molhado, cansado e esfomeado, que era impossvel que o pai e av no se comovessem com o seu aspecto desconsolado - moda deles. Assim, deram-lhe logo uma estalada e mandaram-no para a cama. Duante muito tempo a dor e a fome, a gritaria e pancadaria que</p> <p>12 iam pelo prdio mantiveram-no acordado; mas, por fim, os seus pensamentos voaram para terras romnticas e distantes e adormeceu na companhia dos prncipes cobertos de outro e jias. E ento, como de costume, sonhou que ele mesmo era um prncipe. Toda a noite privou com grandes senhores e damas, num brilho de luzes, a respirar belos perfumes, a beber ao som de msica deliciosa; e, quando acordou de manh e viu a misria sua volta, o sonho tinha tido o efeito habitual - intensificara mil vezes a sordidez daquele ambiente. Vieram ento a amargura, a tristeza e as lgrimas. III O ENCONTRO DE TOM COM O PRNCIPE Tom acordou com fome e, esfomeado, foi vadiar, mas com os pensamentos ocupados nos esplendores imaginrios do sonho dessa noite. Vagueou ao acaso pela cidade, sem reparar para onde que ia. Por aqui e por ali, acabou por dar por si em Temple Bar, o mais longe de casa que j tinha ido, naquela direco. Parou e, por uns momentos, tomou conscincia de onde estava, para cair de novo nos sonhos, enquanto passava para fora das muralhas de Londres. Nessa altura, o Strand j tinha deixado de ser uma estrada rural e considerava-se uma rua, mesmo pouco construda; pois, embora houvesse uma fileira bastante compacta de casas de um dos lados, do outro s se viam algumas grandes construes dispersas, que eram palcios de fidalgos ricos, com amplos e maravilhosos jardins a estender-se at ao rio. Foi ento que Tom descobriu a aldeia de Charing, e sentou-se a descansar na bonita cruz ali erigida por um 13 algum rei esquecido de outros tempos (1) ; depois passeou por uma bela e pacata estrada, passou pelo palcio monumental do grande cardeal (2) e foi em direco a um palcio ainda mais imponente e majestoso - Westminster(3). E Tom ficou a olhar, agradavelmente surpreendido com o vasto volume de alvenaria, as alas que se abriam at ao longe, os carrancudos basties e torres, a imensa entrada de pedra com as suas barras douradas e magnfica fileira de lees de granito e as outras imagens e smbolos da realeza britnica. Como que poderia no esperar ver, numa altura destas, um principe, um prncipe em carne e osso, se os cus o permitissem? De cada lado do porto dourado estava uma esttua viva, quer dizer, uma sentinela empertigada, imponente e imvel, coberta da cabea aos ps com uma armadura de metal brilhante. A uma distncia respeitosa havia muitos camponeses e pessoas da cidade, espera de alguma oportunidade de espreitar a realeza. Magnficas carruagens, com magnficas pessoas dentro e magnficos lacaios fora, chegavam e partiam atravs de outras nobres entradas que se abriam na cerca real. O pobre Tom, todo esfarrapado, aproximou-se mais * ia a passar lenta e timidamente pelas sentinelas, com * corao a bater e a esperana a aumentar, quando de repente viu uma coisa atravs das barras douradas e quase o fez gritar de alegria. L dentro estava um belo menino, de tez bronzeada, cujas roupas eram todas em seda e cetim, com jias a brilhar; cintura trazia uma pequena espada e uma adaga, ambas cobertas de brilhantes- calava elegantes borzeguins com saltos vermelhos; e na cabea trazia um garboso chapu (1) O cruzeiro de Charing tinha sido construido por Edward I em 1291 para marcar a passagem do cortejo fnebre de sua esposa Eleanor. Na altura desta histria devia estar bastante degradado, sendo demolido em 1647. No local fica agora a Praa de Trafalgar. (1) Cardeal Thomas Wolsey (1475-1530), arcebispo de York, primeiro-ministro e homem de confiana de Henrique VIII, at cair em desgraa e morrer sob priso. (,) O actual palcio, que abriga o Parlamento, muito posterior ao que Tom viu e que ardeu em 1834. No entanto, algumas partes, como a pequena igreja de St. Margaret, so da poca de Henrique VIII. 14 carmesim com as plumas presas por uma grande pedra brilhante. Oh! Era um prncipe - um verdadeiro e autntico prncipe - sem sombra de dvida; e o desejo do corao do pobre menino estava finalmente</p> <p>satisfeito. A respirao de Tom tornou-se rpida e curta com a excitao e os olhos a...</p>