Ouro, a riquezaeterna

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    17-Mar-2016

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A HISTRIA, O FASCNIO E, CLARO, SEU VALOR FAZEM DO METAL OBJETO DE DESEJO. MAS SUA EXTRAO PODE GERAR CONFLITOS E PROBLEMAS AMBIENTAIS

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  • A HISTRIA, O FASCNIO E, CLARO, SEU VALOR FAZEM DO METAL OBJETO DE DESEJO. MAS SUA EXTRAO PODE GERAR CONFLITOS E PROBLEMAS AMBIENTAIS

    TEXTO NATLIA MARTINO, DE PARACATU

    OUROa riqueza eterna

    HORIZONTE GEOGRFICO 31HORIZONTE GEOGRFICO30

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  • HORIZONTE GEOGRFICO32

    Os registros mais remotos de uso do ouro datam do Egito antigo

    Mscara pr-hispnica do Museu do Ouro (Bogot, Colmbia) mostra que as civilizaes antigas tambm veneravam o metal

    Dirceu Frederico Sobrinho, diretor da Associao Nacional do Ouro (Anoro), fez, durante dcadas e com pessoas das mais variadas procedncias sociais e culturais, o seguinte teste: de um lado,

    uma barra de ouro; de outro, um mao de notas de dinheiro. Qual voc escolheria? O ouro,

    ainda que o valor do dinheiro fosse maior? Todos sempre fizeram essa opo sem que houvesse muita explicao para isso. O estranho fascnio que esse metal exerce capaz de conduzir a algumas reflexes, mas dificilmente a uma resposta objetiva sobre os motivos de tanta valorizao.

    O belo sempre fascina. Mas no se pode dizer que o ouro seja um metal de indiscutvel beleza em algumas situaes pode ser at de mau gosto exibi-lo. Ah, sim, ele caro e raro mas no mais do que a platina, um minrio muito til e admirado, mas incapaz de seduzir de maneira to unnime quanto o ouro.

    Resta apenas acreditar no carisma, nas tradies e na fora emblemtica desse precioso metal. A historiadora e designer de joias Julieta Pedrosa atribui histria a admirao provocada pelo ouro. um apelo quase ancestral. Ter ouro, nas mais diferentes culturas, sempre significou ter poder.

    Faz sentido. Afinal, existem registros sobre o uso e a venerao do ouro desde o Egito antigo mais de 5 mil anos atrs , quando os mortos de boa estirpe, como os prprios faras, eram contemplados com objetos do metal, como mscaras morturias, em suas cmaras eternas. Desde aquela poca, e talvez antes at, o ouro vem sendo associado diretamente riqueza, ao poder e, no raras vezes, divindade.

    Que o digam os alquimistas, cujas lendas sobreviveram aos sculos justamente porque buscavam aquilo que no fundo todos queriam: transformar os metais vis em ouro. Mas,

    na verdade, no buscavam o ouro apenas como riqueza a inteno era adquirir

    a sabedoria de encontrar o perfeito, aquilo que purifica e conduz imortalidade.

    Pelos sculos e continentes, o ouro foi apenas consolidando ainda mais o seu estigma de pre-ciosidade, pureza e qualidade. Nas Amricas, as civilizaes nativas igualmente veneravam o metal dourado como o sol, ainda que no por motivos to pecunirios quanto os espanhis, que promoveram genocdios de incas e astecas para se apropriar da riqueza: o ouro identificava a presena da divindade e era usado em adornos pelos imperadores incas em festas de carter religioso.

    O tempo operou mudanas nesses comporta-mentos, mas a venerao ao ouro continua a mesma. At 1967, todos os dlares que estavam em circula-o deveriam ter, como lastro, um valor correspon-dente em ouro nos cofres do governo americano: US$ 1 valia 0,88 g de ouro puro uma garantia do poder de compra da moeda americana. Se essa regra foi extinta, no importa: o ouro continua a ser associado a riqueza e poder, ainda que a forma de expressar essa relao seja diferente nas culturas

    R E C U R S O S M I N E R A I S >

    Beleza e utilidade

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  • HORIZONTE GEOGRFICO 33

    A maleabilidade e a resistncia fazem do metal uma tima opo para jias

    mundo afora. Os abastados que frequentam Dubai, nos Emirados rabes, gostam de exibir sua riqueza utilizando o ouro como ingrediente em receitas um tanto exticas. Os rappers americanos exibem seu sucesso imprevisto revestindo os dentes com o preciso e ofuscante metal. Nos rinces perdidos da Amaznia, o garimpeiro bem-sucedido usa colares e pulseiras de ouro onde, talvez, um quilo de caf seja uma raridade. Alianas que no sejam de ouro no podem celebrar dignamente um matrimnio. Enfim, no importa onde ou como, a majestade e a divindade do ouro sobrevivem ao longo dos sculos e nas mais diferentes culturas.

    Mais do que beloA verdade, no entanto, que o ouro, muito

    alm de seu fascnio e de seus simbolismos, , de fato, um minrio especial tem caracters-ticas fsicas que, somadas, o tornam nico. malevel, ou seja, permite que seja moldado. resistente, suportando presso, carga e estresse quando exigido em situaes crticas. E inerte, portanto, no reage a outras substncias. Essas no so caractersticas exclusivas deste metal, mas o conjunto delas, sim.

    Pedro Antunes, representante de uma empresa especializada em hardwares, explica que o ouro est em quase todos os contatos eltricos de equipamentos de alta tecnologia. Processadores e placas-me de computadores domsticos so interligados por filamentos de ouro ou banhados a ouro. Segundo Antunes, o ouro no o melhor condutor eltrico e sim o cobre , mas o mais resistente. Outra ca-racterstica que faz do material uma boa opo para usos tecnolgicos sua alta ductibilidade. Isso significa que ele pode ser comprimido e esticado com relativa facilidade sem se romper. possvel esticar um grama de ouro at dois quilmetros de comprimento. Mesmo sendo caro, o ouro oferece a melhor relao custo-benefcio por todas essas vantagens.

    A medicina tambm prdiga nos usos que faz do ouro e h milhares de anos: os prprios egpcios usavam medicamentos preparados com o metal. As primeiras aplicaes do ouro na medicina chinesa, por exemplo, destinavam-se ao tratamento de doenas como varola e lceras na pele. Metais sempre foram usados com fins mdicos desde a Antiguidade, desde os primei-ros alquimistas, afirma Carlos Alberto Fiorot, presidente da Associao Mdica Homeoptica

    Brasileira. No caso do ouro, alm das j citadas maleabilidade e resistncia, outras duas caracte-rsticas fazem do metal uma boa opo.

    A primeira a sua biocompatibilidade, ou seja, o corpo humano no rejeita o material. A segun-da sua resistncia colonizao por bactrias. Sendo assim, o ouro um metal recomendvel para, por exemplo, implantes ou procedimentos cirrgicos em locais de alto risco de infeco, como a boca. Os implantes dentrios de ouro tm, ainda, a vantagem de apresentar alta resistncia corroso. Assim como na Grcia antiga, o metal tambm pode ser usado para combater problemas relacionados com humor. A depresso, por exem-plo. H mais de 200 anos, mdicos homeopatas utilizam um medicamento base de ouro, o aurum metalicum, nesses tratamentos.

    Por todos esses motivos, e muitos outros que residem no imaginrio coletivo das geraes que se sucedem, o ouro , e sempre ser, o mais co-biado dos minrios.

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  • HORIZONTE GEOGRFICO34

    Os conflitos da extrao

    o Brasil, a explorao do metal teve incio com o ciclo do ouro, depois da chegada dos colonizadores portugueses (veja quadro na

    pgina 42) e era feita de forma manual com a uti-lizao de mo de obra escrava. Foram os africanos os responsveis por introduzir o uso das famosas bateias espcie de bacia de madeira, redonda e achatada nas lavras brasileiras, substituindo os pratos de estanho. Nesse primeiro momento, a garimpagem era feita com padres tecnolgi-cos muito rudimentares. Predominava o tipo de garimpeiro que, hoje, chamado de faiscador e trabalha com a bateia ou com o chamado caixote, ferramenta artesanal que ajuda na separao do ouro. Aureliano Lopes tem 98 anos e conta que foi faiscador durante grande parte da sua vida. Mora-dor da pequena cidade de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, ele diz que vendeu sua primeira pepita aos 15 anos. Nessa poca, era s mexer um pouco essa terra que voc encontrava pedrinhas de ouro, diz, apontando para a pequena estrada que passa em frente a sua casa.

    A cidade, fundada em 1798, no fim do ciclo do ouro, sustentou muitos dos seus moradores com essa riqueza. Da poca em que Aureliano encontrava ouro na rua, ainda no fim da dcada de 1920, at o incio da dcada de 1980, quase todas as famlias de Paracatu tinham pelo menos um faiscador, mesmo que a atividade fosse paralela a outra profisso. Quando a notcia da presena de ouro na regio se espalhou, muitos garimpeiros chegaram cidade procura do metal. No auge, eram cerca de quatro mil garimpeiros trabalhando, segundo as contas de Ansio Gomes, garimpeiro em Paracatu na dcada de 1980. Ele saiu da capital paulista para a pequena cidade mineira com o objetivo de vender mquinas de garimpo na regio. Acabou se rendendo ao fascnio do ouro e passou a se dedicar a procur-lo. Aureliano, que j havia se rendido a esse fascnio muito antes, no ficou rico em seu quase um sculo de vida. Vive hoje em uma casa simples na periferia de Paracatu. Bem ao lado da atual residncia, est uma construo muito modesta, j antiga, feita com barro. Essa a eu levantei com o dinheiro do ouro, aponta ele. No foi de fato uma grande recompensa.

    A verdade ningum ficou rico, mas, pelo menos, tambm nunca faltou nada afinal, ganhava-se mais do que trabalhando na lavoura ou nos pastos, como afirma o paulista Ansio Gomes. A grande maioria das pessoas comea a lavrar a terra com a inteno de bamburrar, ou

    Quem dono do ouroAtualmente, quem mais lucra com a extrao do ouro no mundo a China: com 295 toneladas do metal extradas por ano, o pas o maior produtor mundial de ouro. O Brasil est em 13o lugar no ranking e o mercado no pas dominado por trs grandes empresas: Anglo Gold Ashanti, Yamana Gold e Kinross. Juntas, elas extraem 62% do ouro brasileiro. Outros 11% ficam por conta dos garimpos e o restante explorado por empresas menores.

    Para conseguir separar o ouro dos sedimentos, o garimpeiro usa mercrio, que apo