poesia para quem não tem dicionário

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    30-Jul-2015

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poesia para quem no tem dicionrio

miguel tiago

letras gneas a primeira pgina da minha vida s tu.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo se alguma vez escrever um poema ter o cheiro dos dias de chuva em agosto.

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poesia para quem no tem dicionrio

verso fractal ao contrrio do universo, este verso infinito.

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poesia para quem no tem dicionrio

amanh curta a viagem quando desejamos a lonjura.

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poesia para quem no tem dicionrio

pensamento a poesia no mora nos becos dos dicionrios e pronturios, onde, ltima e infelizmente, a temos enfiado. mora-nos no sangue e na alma, onde involuntria e desumanamente, a temos calado.

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poesia para quem no tem dicionrio

viso do vazio o vazio um fascnio, uma viso inimaginvel de ausncia de cor de tempo ou movimento. o vazio enche quem no tem espao por dentro.

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poesia para quem no tem dicionrio

eu o passado para sempre.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo a lua persiste tanto nos cus escuros como em sibilar o teu nome que o nunca esquea, como no esquece a lua os meus sonhos.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo tudo o que efmero eterno.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo o poema no verbo transitivo, nem estado transitrio, no complemento, nem suplemento, essncia e acessrio, ncleo e orbital, periferia central. inspirao e expirao, cu, inferno, purgatrio, tua mais sagrada orao, teu canto expiatrio de pecados, indiferenas e virtudes. pedra fria, terra molhada montanha de insuperveis altitudes vulco incandescente, amor ardente, lugar comum. comum a toda a gente.

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poesia para quem no tem dicionrio

escuro tuas palavras acesas como pegadas incandescentes no manto escuro da floresta apontam, entre folhagens, o caminho que sigo na noite densa.

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poesia para quem no tem dicionrio

silhueta com os dedos no piano, percorro em mim o teu dorso, como se aqui te tivesse. sob as minhas mos, as teclas a preto e branco, lembram-me o vestido que trazias na nica noite em que te vi. e enquanto o piano me toca, reverberando as minhas cordas, espreito a porta com a esperana que se abra e de l, por entre o escuro e a fresta de luz amarela, surjas tu.

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poesia para quem no tem dicionrio

cinzento colheram-se-me as asas ora no vo porque o cu se cobriu e o sol se tapou.

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poesia para quem no tem dicionrio

tu vieste amanhecer-me e agora sou um campo pleno brilha dourado ondula sereno deita-me as sementes como beijos, quando te deitares a meu lado. percorre-me de mos dadas com o silncio, os caminhos do vento que me esculpiu.

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poesia para quem no tem dicionrio

terra o que da terra desprendem-se ptalas sem espasmos uma a uma terra o que da terra. como neve, naturalmente sobre o manto branco das slabas do tempo.

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poesia para quem no tem dicionrio

mensagem com a mo pousada na tua pele, percorrendo com meus dedos as tuas costas suaves, os meus lbios sobre os teus, com as tuas palavras esvoaantes, e os teus sussurros soprados no meu ouvido em murmrio que me ultrapasso, me acendo, facho de luz nas noites antigas distantes.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo o mar anseia o teu nome,

principalmente

quando as ondas o pulverizam pelo ar, em gotas de sal, viajantes, audazes em conquista da terra, como conquistar-te ousaria a minha coragem sumida, no tempo e na lenta espera dolente que faz definhar o mais belo poema.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo os teus olhos so uma tarde de vero com poucas nuvens.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo sussurro.

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poesia para quem no tem dicionrio

sente na relva hmida os ps descalos.

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engano beira do aqueronte esperando a imortalidade. nos confins da vida, vi a morte. pedi a caronte que me levasse, de inspirao fingida, para o meu fim. o bulo foi-lhe entregue na margem mas o sabor a nquel ainda me envenenava a boca. pouco agitadas as guas para um rio infernal. a meio, saltei e mergulhei fundo para a mortalidade.

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poesia para quem no tem dicionrio

gotas de chuva se me perguntares, um dia se te desejo aqui sempre apenas te poderei dizer, entre a respirao e a lgrima, que mesmo que a chuva chore sobre o meu corpo cado numa rua sem nome, escondida na noite, e que o frio do inverno me cubra da pele tremente aos ossos, cada gota de chuva seria amar-te ainda mais.

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poesia para quem no tem dicionrio

lagoa do fogo da gua nasce fogo, quando os deuses dos nossos sonhos, deixam sobre as ilhas o sublime toque do vento que esculpe a terra e o mar.

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poesia para quem no tem dicionrio

curva a vida, como a terra, tambm curva. por isso que no podemos ver o futuro.

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poesia para quem no tem dicionrio

antes que partas a minha caveira podia estar descoberta ao vento do deserto, expondo os versos de um esqueleto to pouco potico, os escaravelhos sagrados podem satisfazer-se das slabas que voam aqui to perto, e as crislidas converter-se-o, depois de lagartas, no em mariposas azuis, mas em anjos de solido, antes que partas lonjura e linha infinita da imensido.

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poesia para quem no tem dicionrio

tudo o que s quando o pensamento se esvai como sangue rubro e vivo, porm, incontido, e pelos espaos entre os dedos escorre a areia intemporal dos desertos irrefragveis da vida, da vida pura, da vida suja, da vida morta, quando entre as nuvens vs a escurido de um cu sem lua, negro de horas cujo sol no abenoou, quando a alma se te foge dos arrumos onde a guardaste, cuidada, bem aprisionada, acondicionada nas estantes desse armrio infinito, de madeira roda pelos bichos da memria que te correm o crebro exausto, quando tudo te passa frente velocidade do metropolitano do futuro e na tua cara correm os ventos quentes do abismo, viras as costas mortalidade, porque tudo j passou sem permisso, porque tudo o que fizeste nunca mereceu perdo, porque tudo o que s se condensa no espao fechado de uma mo.

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lucifer quando as veias pulsam chamas e fazemos de ns instrumento do mundo ento as foras so divinas, que deus s tu e eu e o resto. e somos tambm os demnios que portam a luz e o fogo purificador dos silncios e cumplicidades dos nossos confessionrios.

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a rapariga e a raposa haver no mundo poucas coisas que nos faam estremecer ante a maravilha. porventura at difcil dizer-lhes os nomes. bem sei que nos filmes, os nomes que no se dizem so os do mal puro, mas no menos verdade que no se diz em vo o nome de deus. num dia de primavera, em que o cu aberto abraava aquela humidade que fica no cume das montanhas pela manh e o sol teimava em se vir insinuando sobre a escurido do inverno hmido, a poesia caminhou no nosso mundo e, como na mais bela pintura, sobre o verde da Serra, longos cabelos negros ondularam no suave vento que descia a encosta a norte. o cheiro a rosmaninho e os pontos vermelhos do medronho afirmam-se no fundo verdejante que nasce no suo mediterrnico. quando ela se sentou numa pedra pediu Arrbida que lhe contasse os segredos, que partilhasse as riquezas, como se quisesse ligar-se a cada pedra, cada gruta ou

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poesia para quem no tem dicionrio

estalactite, cada pequena rvore ou grande carvalho. conta-me os teus segredos, pediu-lhe. e a Arrbida contou-lhos, num murmrio secreto. um murmrio que era afinal cada uma das batidas do seu corao. com as mos sobre a pedra, e o cabelo desvendando um sorriso puro, sentiu mais profundo cada pulsar do ar, da terra, do mar. uma raposa, sentou-se, algo hesitante, mesmo a seu lado. conta-me os teus segredos, disse-lhe. e a rapariga contou.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo sob a linha tnue da luz que passa da janela para dentro, ainda vejo o teu corpo afastar-se, sem sons, como uma sombra longnqua. o cigarro apagado incensa ainda o quarto e a cama onde, como seda, me cobriste com teu corpo, est quente, como as manhs de primavera.

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poesia para quem no tem dicionrio

Lisboa um barco no tejo, um abrao, um beijo, ao longe uma ponte sobre os telhados inmeros, antigos, confusos.

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poesia para quem no tem dicionrio

navegao ser o vento a trazer-me o teu nome nos dias de esquecimento. ser o teu nome a lembrar-me de quem sou nas noites sem estrelas.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo as pontas dos meus dedos suaves sobre a pele das tuas ancas e o meu sussurro atrs do teu corpo nu, sopra-te no ouvido a palavra absolutamente necessria.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo todo o passado o que nos enche, mesmo o que nos deixa vazios.

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poesia para quem no tem dicionrio

humanidade cado aos ps de deus, o homem renegou ao demnio. extenuado, vencido, prostrou-se ao poder magnnimo do relmpago e do trovo.

e a humanidade, assim vencida, abandonou-o.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo as nossas mos, na verdade, so asas.

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poesia para quem no tem dicionrio

o tempo no poema em cada letra do verso, est uma flor que que no definha. em cada slaba, um beijo que no desvanece.

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poesia para quem no tem dicionrio

sem ttulo nas artrias, sangue, como nos versos. e o sangue no rima, como no rimam os versos.

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poesia para quem no tem dic