Quem Ve Cara, Nao Ve Coraca

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    06-Nov-2015

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Sobre a violncia nas organizaes

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<ul><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>194 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>QUEM V CARA, NO V CORAO: ASPECTOS DISCURSIVOS E EUFEMSTICOS DA SEDUO ORGANIZACIONAL QUE DISFARAM </p><p>VIOLNCIA E SOFRIMENTO NO TRABALHO </p><p>WHAT IS SEEN DOES NOT REVEAL WHAT IS INSIDE: DISCURSIVE AND EUPHEMISTIC ASPECTS OF ORGANIZATIONAL SEDUCTION THAT DISGUISE </p><p>VIOLENCE AND SUFFERING AT WORK </p><p>Fernando de Oliveira Vieira </p><p>Universidade Federal Fluminense </p><p>prof.fernandovieira@gmail.com </p><p>Submisso: 17/12/2013 </p><p>Aprovao: 06/10/2014 </p><p>RESUMO </p><p>Esse ensaio tem o intuito de trazer ao debate o uso de aspectos discursivos e eufemsticos da </p><p>seduo organizacional, que podem disfarar violncia e sofrimento no trabalho. Discute-se o </p><p>conceito de seduo organizacional como um recurso discursivo. Este atrai o indivduo para </p><p>defender qualquer ideia ou ao, em nome da produtividade no trabalho. A dinmica </p><p>encontra-se calada no gerencialismo, sobre o qual se imputam prticas perversas de gesto. </p><p>Sugere-se pensar tal paradoxo das relaes de trabalho, por meio de referenciais crticos de </p><p>gesto, tais como a Psicodinmica e Clnica do Trabalho. Cumpre defender a manuteno do </p><p>sofrimento criativo, por meio da inteligncia prtica, dos coletivos de trabalho e do </p><p>reconhecimento, como balizadores importantes sade mental do trabalhador. </p><p>Palavras-chave: Discurso organizacional. Seduo organizacional. Psicodinmica e Clnica </p><p>do Trabalho. </p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>195 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>ABSTRACT </p><p>This paper has the intention to debate the use of euphemistic and discursive aspects, that may </p><p>disguise violence and suffering at work. The concept of organizational seduction is </p><p>discussed as a discursive resource. This one attracts individuals to defend any idea or action, </p><p>in the name of productivity at work. This dynamic is based on managerialism, which is </p><p>considered responsible for perverse management practices. It is suggested to think this </p><p>paradox of work relations by CMS Critical Management Studies, such as the </p><p>Psychodinamics and Work Clinical Approach. It is recommended that the maintenance of </p><p>creative suffering be worked by practical intelligence, collective of work and recognition, as </p><p>an important basis to mental health workers. </p><p>Keywords: Organizational discourse. Organizational seduction. Psychodinamic and </p><p>Work Clinical approach. </p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>196 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>Introduo </p><p>As pesquisas identificadas como Estudos Crticos Organizacionais j revelaram e </p><p>tm explicado o carter exageradamente prescritivo de modelos de gesto (Qualidade Total, </p><p>Reengenharia etc.) e de suas respectivas filosofias, conhecidas como tayloristas, fordistas, </p><p>toyotistas etc (MERLO; LAPIS, 2007; PAULA, 2008; FERNANDES; GOMES, 2012). A </p><p>Psicodinmica e Clnica do Trabalho, por exemplo, parte do pressuposto de que o real do </p><p>trabalho no permite o controle de gesto, pretensamente normatizado no discurso </p><p>organizacional. Esse real complexo e escapa ao previsvel (DEJOURS, 2000, 2006, 2012; </p><p>GAULEJAC, 2007; MENDES, 2007; VIEIRA; MENDES; MERLO, 2013; MERLO </p><p>MENDES; MORAES, 2013). </p><p>Argumenta-se que muitos trabalhadores modernos so capturados por um discurso </p><p>organizacional, que lhes promete bem-estar psicolgico e emocional, caso sejam leais e </p><p>obedientes. No nvel do discurso, quanto mais seduzidos pelo imaginrio social e </p><p>organizacional modernos (FREITAS, 1999), mais os indivduos se prendem nas teias </p><p>organizacionais (ENRIQUEZ, 1997) e sujeitam-se servido voluntria (DEJOURS, 2006; </p><p>LA BOTIE, 2009). </p><p>Nesse processo, os indivduos acatam, produzem e reproduzem ideias e aes, que </p><p>podem ocultar violncia psicolgica a si prprios e a outrem. Em nome da produtividade, so </p><p>convidados a dar a sua contribuio, mesmo que isso signifique promover injustias sociais, </p><p>para salvar a economia financeira da empresa. O objetivo desse ensaio pensar esse </p><p>cenrio, por meio da Psicodinmica e Clnica do Trabalho. Tem-se o intuito de se discutir </p><p>aspectos discursivos e eufemsticos, em contextos de precarizao da sade psquica do </p><p>trabalhador. Trata-se de se debater como ideias aparentemente inofensivas e ligadas ao bem-</p><p>estar psicolgico dos indivduos podem disfarar violncia e sofrimento no trabalho. </p><p>O texto est organizado em trs sees, alm dessa introduo e das consideraes </p><p>finais. Na primeira parte, busca-se pensar bases conceituais sobre aspectos discursivos e </p><p>seduo organizacional, numa perspectiva ideolgica, ancorada, principalmente, em Eugne </p><p>Enriquez, Maria Ester de Freitas e Marcus Siqueira. A segunda seo visa trazer ao debate </p><p>como as organizaes empresariais contemporneas conseguem adeso para ampliar e </p><p>solidificar esse discurso. Trazem-se exemplos que auxiliam a visualizar a materializao de </p><p>tais ideias e prticas. Por ltimo, sugere-se pensar esse processo em uma dimenso que </p><p>ultrapassa o aspecto semntico e que se reconstri continuamente. Apontam-se conceitos-</p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>197 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>chave da Psicodinmica e Clnica do Trabalho, como teoria e mtodo de diagnstico de </p><p>problemas relacionados com o binmio prazer x sofrimento no trabalho. </p><p>1 Aspectos discursivos e seduo organizacional </p><p>O conceito de discurso pode ser definido como um fenmeno complexo, sobre </p><p>o qual no h consenso. H diferentes vertentes sobre discurso, que tentam caracterizar os </p><p>respectivos elementos lingusticos e contextuais, os quais do vida aos processos dinmicos </p><p>de comunicao e de relaes sociais. </p><p>Nesse ensaio, trata-se de apontar como aspectos discursivos um conjunto de </p><p>conhecimentos produzidos socialmente e que servem aos interesses dos atores sociais de </p><p>determinado contexto (NATIVIDADE; PIMENTA, 2009, p. 25). </p><p>Discursos so conhecimentos e mensagens (implcitas e explcitas) socialmente </p><p>construdos. Podem ser relativamente cristalizados, dependendo do jogo de foras, da </p><p>conscincia crtica e da apropriao lingustica, em vias de (trans)formar a realidade de seus </p><p>atores (LIMA et al., 2009). </p><p>Um discurso pode ser relativamente solidificado, ao usar ideias, palavras, </p><p>imagens, valores, gestos, entonaes, artefatos e outros elementos subjetivos. Revela de onde </p><p>se fala e para quem se fala, caracterizando um determinado pblico, que vai reagir </p><p>positivamente ou no a esses elementos. Pode ocultar contradies, pois nem sempre </p><p>consegue sustentar relativa coerncia entre as ideias e aes que determinam a sua dinmica. </p><p>Um discurso pode ser delineado via ideologia. Esta pode ser conceituada como </p><p>um processo de dominao. Para se sustentar, o discurso ideolgico composto por espaos </p><p>em branco, por lacunas; ele no pode se mostrar por completo; caso contrrio a mensagem </p><p>explcita revelaria a dominao e a violncia. O discurso ideolgico se sustenta, justamente, </p><p>porque no pode dizer at o fim aquilo que pretende dizer. Se o disser, se preencher todas as </p><p>lacunas, ele se autodestri como ideologia [...](ROCHA, 2013, p. 127). </p><p>A ideologia se apresenta com direta conexo e correlao com o discurso.1 Nesse </p><p>texto, entende-se por discurso um conjunto de elementos que vo desde o contexto no qual </p><p>determinados grupos esto inseridos, tais como caractersticas da Economia e da Poltica, na </p><p> 1 Para aprofundar entendimento sobre diferentes noes de ideologia, pode-se recorrer a DUNKER, 2008, p. </p><p>185-214. Alm deste artigo, ver, tambm, outras referncias, tais como ALTHUSSER, 1999, p. 275-283, </p><p>MZAROS, 2004 e MARX; ENGELS, 2002. </p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>198 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>atualidade, at a linguagem, que traduz as palavras, os smbolos, as conexes, a entonao, o </p><p>explcito, o implcito etc. </p><p>Rocha (2013, p. 124-130), destacando os Escritos de Marilena Chau, explica que </p><p>a ideologia pretende coincidir o que diz sobre a realidade com a prpria realidade; que o </p><p>trabalho especfico do discurso ideolgico consiste em realizar a lgica do poder, [...] </p><p>fazendo com que as divises e as diferenas apaream como simples diversidade das </p><p>condies de vida de cada um [...]. Estabelece-se um entrelaamento harmnico, com ares de </p><p>universalidade. </p><p>No que se refere ao carter de dominao ideolgica, de valores, crenas e </p><p>artefatos do discurso organizacional, Gaulejac (2007) aduz que a gesto se apresenta como </p><p>uma cincia, pretensamente neutra, cuja funo seria estabelecer os princpios da eficincia, </p><p>da inovao e da melhoria contnua de produtividade. A falsa neutralidade dos instrumentos </p><p>de gesto contestada por esse autor, ao questionar a forma autoritria como so construdas </p><p>suas bases, sem dilogo com os principais atores, que desempenharo seus papis, no </p><p>cotidiano organizacional. </p><p>Torna-se imprescindvel apontar a funo que a ideologia gerencialista exerce na </p><p>manuteno desse poder das organizaes. Para Gaulejac (2007, p. 65) Designar aqui o </p><p>carter ideolgico da gesto mostrar que, por trs dos instrumentos, dos procedimentos, dos </p><p>dispositivos de informao e de comunicao encontra-se em ao certa viso de mundo e um </p><p>sistema de crenas. Ora, a prpria ideologia se apresenta como racional, neutra, mas que </p><p>dissimula seu carter de dominao. </p><p>A seduo organizacional ser entendida, nesse texto, como um fenmeno que se </p><p>localiza nas entrelinhas, nas insinuaes, nos espaos subentendidos, nos cdigos, na </p><p>linguagem subjacente, no que agua a curiosidade. Trata-se de um aspecto discursivo. </p><p>A seduo pode ser descrita, originalmente, como um processo ligado a uma </p><p>perspectiva ertica e sexual. Geralmente, no nvel popular, a primeira analogia que se faz </p><p>seduo remete-se figura de Dom Juan, o cavalheiro encantador, bonito, elegante, </p><p>conquistador, que tem mais prazer na seduo do que na conquista em si; quer dizer, quando o </p><p>objeto desejado se rende, quando sua vitima capturada, o conquistador parte para a prxima </p><p>conquista, pois, para ele, o prazer est mais na seduo, no processo de inebriar o outro, de </p><p>faz-lo dependente psicolgica e emocionalmente do sedutor. Nesse sentido, o papel do </p><p>sedutor seria alimentar essa dependncia, num jogo em que a(o) seduzida(o) esteja disposta(o) </p><p>a dar sua vida, em troca do suposto amor do conquistador. </p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>199 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p> esse um dos aspectos que Freitas (1999, p. 158) confere ao conceito de </p><p>organizao sedutora, que: </p><p>[...] assim como o carisma ultrapassa o mbito individual e pode ser desenvolvido </p><p>por uma empresa atravs de sua misso ou de seu projeto nobre, a seduo um </p><p>processo que no se restringe apenas relao sexual, podendo tambm manifestar-</p><p>se nas organizaes modernas atravs de suas tentativas de personificao e </p><p>apropriao do raro. </p><p>Essa organizao sedutora prope um jogo, uma fantasia, na qual os indivduos </p><p>so levados a crer que somente alguns privilegiados podem fazer parte desse grupo. Conforme </p><p>complementa Freitas (1999, p. 158): O conjunto de qualidades excepcionais que forma essa </p><p>imagem ou aparncia encantadora no est disponvel para todos, mas apenas para um grupo </p><p>seleto que, de to privilegiado, responde com adeso revigorada. </p><p>Os imaginrios social e organizacional modernos se confundem como se fossem </p><p>um s. Os valores, smbolos, ideias de sociedade passam, no limite, pela aprovao ou </p><p>reprovao das grandes organizaes. So elas que ditam as regras e que defendem o </p><p>desenvolvimento do mundo moderno. </p><p>O progresso e a civilizao dos tempos atuais, sobretudo nas referncias </p><p>ocidentais, so subordinados aos ditames da Economia. Primeiro, o desenvolvimento </p><p>econmico, ao qual todas as outras esferas devem estar subordinadas. Em outras palavras, os </p><p>desenvolvimentos social, psicolgico, cultural e humano devem pedir beno ao universo </p><p>econmico. H uma crena quase dogmtica no consumo como ponto de partida para se ser </p><p>algum na vida. </p><p>As organizaes, sobretudo as grandes organizaes empresariais, usam a </p><p>legitimidade, conferida pelo poder econmico para se institurem como o nico projeto </p><p>possvel de desenvolvimento das sociedades, em tempos de globalizao (SANTOS, 2000). </p><p>H muitas empresas com riqueza superior ao PIB Produto Interno Bruto de </p><p>muitos pases (SIQUEIRA; MENDES, 2009). Se, por um lado, essas organizaes recolhem </p><p>impostos e empregam, por outro, determinam, em ltima anlise, como devem ser as relaes </p><p>sociais, em nveis macro, meso e micro. </p><p>Em um universo mais amplo, se as autoridades governamentais (federal, estadual </p><p>e municipal) no atendem s reivindicaes das grandes empresas, estas ameaam deixar o </p><p>territrio e recolher impostos/dar empregos em outras comarcas. Ou pelo menos essa ameaa </p><p>est implcita. </p></li><li><p> E&amp;G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606 </p><p>200 Revista Economia &amp; Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014 </p><p>Dentro das estruturas organizacionais, em nvel meso, muitos altos executivos se </p><p>submetem quase religiosa lgica de Mercado (PAGS et al., 2008), para dar continuidade </p><p>ao jogo agressivo da competio. Estes indivduos incorporam os projetos organizacionais </p><p>como se fossem suas prprias vidas. Creem que preciso doar-se integralmente, sacrificando </p><p>suas vidas pessoais, inclusive, para realizarem tais projetos (FREITAS, 1999, p. 131-132). </p><p>Em nvel micro, as comunidades onde as grandes organizaes esto inseridas </p><p>podem usufruir de benfeitorias, sob a classificao de responsabilidade social e ambiental. </p><p>E, para os indivduos, no lado psicolgico, preciso se esforar, para chegar l. Dedicar-se, </p><p>para merecer fazer parte, por exemplo, do status das melhores empresas para se trabalhar. </p><p>Todo esse quadro permite compreender a fora das organizaes na nossa forma </p><p>de pensar e agir, no mundo contemporneo. A esse respeito Pags et al. (2008) revelaram </p><p>como O poder das organizaes se constitui como uma doutrina, que busca a adeso </p><p>voluntria de fiis, para, em nome do progresso, do consumo, do conforto material e do bem-</p><p>estar dedicarem-se integralmente liturgia organizacional, por meio do trabalho. Se preciso </p><p>for, haver sacrifcios pessoais, pois uma causa est em jogo. </p><p>Do lado dos indivduos, muitos esto predispostos a serem alcanados por essa </p><p>seduo (LA BOTIE, 2009). O processo s se concretiza porque tais indivduos desejam </p><p>entrar na fantasia, no mundo imaginrio sugerido pelas Organizaes (FREITAS, 1999). Na </p><p>medida em que a promessa organizacional lhes alcana, pois, em muitos casos, o Estado </p><p>falha, por exemplo, em oferecer satisfaes de necessidades bsicas, tais como Sade e </p><p>Educao, as organizaes preenchem essa lacuna, por meio de planos de benefcios, </p><p>extensivos aos familiares. Logo, pertencer ao quadro de uma grande organizao pode </p><p>significar poder ser atendido por planos de sade privados etc. </p><p>Ao prometer o paraso, no nvel imaginrio, a dimenso do prazer acionada. Se </p><p>aqui na terra o sofrimento humano faz parte...</p></li></ul>