Raul Leal, O Bando Sinistro

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    09-Jul-2016

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Raul Leal, O Bando Sinistro

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  • Brandindo o cutelo da Maldio Em torno do manifesto O Bando Sinistro de Raul Leal

    Antonio Almeida*

    Palavras-chave

    O Bando Sinistro, Raul Leal, Fernando Pessoa, modernismo portugus, Afonso Costa, poltica monrquica.

    Resumo

    Reproduz-se aqui, integralmente, o texto do manifesto poltico-literrio O Bando Sinistro de Raul Leal (1886-1964), marco da literatura modernista portuguesa, dadas as suas repercusses no seio do grupo de colaboradores da revista Orpheu. A apresentao do documento inclui, como posfcio, uma detalhada anlise das diligncias tomadas para a produo e distribuio do manifesto, assim como dos antecedentes sociais e polticos que lhe serviram de base.

    Keywords

    The Sinister Band, Raul Leal, Fernando Pessoa, Portuguese modernism, Afonso Costa, monarchist politics.

    Abstract

    The political-literary manifesto The Sinister Band (O Bando Sinistro) by Raul Leal (1886-1964) is here reproduced in its entirety. The manifesto represents a landmark in the Portuguese modernist literary movement, due to its repercussions for the group of collaborators of the modernist magazine Orpheu. The presentation of the document includes, as postscript, a detailed analysis of the steps taken for the production and distribution of the manifesto, as well as a study of the underlying social and political context.

    * Universidade Nova de Lisboa, CETAPS.

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    Profeta da Vertigem, invocador do fim dos tempos, criador de singulares utopias, Raul Leal (1886-1964) construiu uma obra em grande parte indita, que, dado o seu interesse para o panorama do modernismo literrio e artstico portugus, urge reabilitar.

    Nesse sentido, o documento que aqui se apresenta o texto integral do virtualmente esquecido manifesto poltico-literrio O Bando Sinistro Appello aos Intellectuaes Portuguezes, lanado por Raul Leal em julho de 1915, como colaborador de Orpheu. Produzido na sequncia da revoluo que deps o regime ditatorial de Pimenta de Castro no dia 14 de maio, o manifesto lealino constituiu a primeira de muitas intervenes de carter poltico.

    Ditado pelas emoes e insuflado por um esprito de misso, o Apelo encerra um estilo quase proftico. Raul Leal visa a congregar os intelectuais portugueses em torno de um Ideal: o derrube do regime republicano, cumulado na figura de Afonso Costa, lder mximo do Partido Democrtico. Este regime encontrava-se assente naquilo que, na sua perspetiva, eram indivduos medocres e sem relevo espiritual, impreparados para a difcil arte de governar, quando confrontados com os monarcas que os precederam e com a aura sagrada que lhes estava associada. A tese aqui sustentada a de que, com a revoluo do 5 de outubro de 1910, Portugal se foi transformando gradualmente num pntano, constituindo a tarefa das almas nobres e livres banir os inferiores republicanos e, deste modo, tornar a iluminar o mundo, libertando-o das trevas.

    O panfleto, editado com a preciosa colaborao de Santa-Rita Pintor, provocou definitivamente mais ondas de choque no seio do grupo de Orpheu do que primeira vista o seu contedo faria supor, muito por conta da coincidncia de ter sido lanado no mesmo dia do acidente de eltrico que vitimou Afonso Costa. Este aspeto, a par da carta provocatria do engenheiro sensacionista lvaro de Campos com que Pessoa retribuiu uma alfinetada do vespertino A Capital aos de Orpheu, motivaria a reao imediata por parte de alguma da imprensa republicana.

    Embora tenham optado por exprimi-lo de modo diverso, Raul Leal e Fernando Pessoa tinham pontos de vista comuns relativamente a Afonso Costa, e ambos quase sofreriam na pele a audcia de afrontar o lder do Partido Democrtico. A polmica daqui surgida estaria ainda na base do afastamento voluntrio de alguns dos colaboradores de Orpheu. Este reduziu de forma drstica as chances de publicao de um terceiro nmero, pelo que, a par da apresentao do texto integral do manifesto, se inclui tambm neste artigo um historial do impacto deste episdio na revista e nos intervenientes na polmica.

    Como foi referido, O Bando Sinistro constituiu um momento de viragem na escrita de Raul Leal, uma vez que at este momento a sua interveno se tinha cingido meramente aos campos filosfico, sociolgico e de crtica musical. Assim, com a produo deste manifesto, o autor inaugurou um perodo de ininterrupta

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    colaborao em jornais monrquicos em prol da restaurao, que durou mais de uma dcada e culminaria com a edio a expensas prprias dos sete nmeros dO Rebelde Panfleto Monrquico Independente (1927).

    Ao longo dos anos, Raul Leal continuaria a desenvolver a sua doutrina de ndole poltica, destacando-se neste particular os conceitos de Monarquia Graciana, de Super-Estado ou, numa fase mais avanada da sua vida, em plena Guerra Fria, de Sindicalismo Personalista, com o qual procura dar uma resposta situao do ps-guerra, alertando para a urgncia duma nova ordem mundial, produto da fuso utpica de todas as tendncias contemporneas de organizao poltico-social. Ter sido este aspeto que levou Almada Negreiros a cunhar o epteto Raul Leal, o especulador de Poltica (NEGREIROS, 1965: 10), com que o qualifica no volume comemorativo do cinquentenrio de Orpheu.

    O apagamento de um dos autores mais empenhados nas iniciativas em prol da afirmao do modernismo em Portugal nas dcadas de 10 e 20 ter comeado, porventura, na polmica da Sodoma Divinizada (1923), devido reao violenta dos meios conservadores e tradicionalistas ao teor dos seus escritos, que acabou por lhe fechar algumas portas.

    No obstante as episdicas tentativas de reabilitao do poeta de LAntechrist et la Gloire du Saint-Esprit Hymne Pome Sacr, intentadas pela revista Presena que, entre outros textos, publicou nas suas pginas excertos de Messe Noire e alguns Psaumes e, j durante os anos 50, por parte dos surrealistas do Caf Gelo, no seguimento da sua presena ativa nos debates do Jardim Universitrio das Belas-Artes (J.U.B.A.), pela mo de Guilherme Filipe e Antnio Pedro seria apenas nos anos finais, que rodearam a sua morte, que Raul Leal teria uma maior fortuna crtica. Em primeiro lugar, com a publicao de Sindicalismo Personalista Plano de Salvao do Mundo (1960) e com a reedio de Sodoma Divinisada (1962) na Contraponto de Luiz Pacheco; em segundo lugar, com a incluso de artigos seus em algumas revistas e jornais conservadores como Tempo Presente, Dirio Ilustrado, Dirio da Manh ou Debate; e, em ltimo lugar, por intermdio dos esforos do seu bigrafo e maior exegeta, Pinharanda Gomes, que postumamente recolhe e anota os artigos includos nas obras O Sentido Esotrico da Histria (1970) e Problemas do Desporto: Ensaios de Filosofia Desportiva (1970).

    Incompreendido pelo facto de trilhar o caminho de um Ideal inatingvel, o filsofo de A Liberdade Transcendente resistiu ao longo da sua vida atravs de obstinadas investidas quixotescas contra os moinhos do establishment, sendo em todas elas derrubado, mas persistindo em avanar atravs da Vertigem.

    Concluindo, faamos nossas as palavras do seu amigo Fernando Pessoa que afirmou a dada altura: O seu espirito viveu demasiadamente o seu systema (PESSOA, 2009: 320). Desta maneira, o filsofo ter-se- sacrificado em face da importncia capital da sua Obra, qual se entregou to completamente que, minado pela doena, se deixou (sobre)viver com o sonho de encontrar editor para

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    os numerosos inditos. Tratou-se da opo vital de um homem rebelde que se posicionou fora das normas de atuao moral e social vigentes na sua poca e se entregou sem limites sua misso. Raul Leal demonstraria, assim, um total desprendimento no que se refere a aspetos materiais, em funo da liberdade de poder afirmar o seu Esprito, e sujeitar-se-ia a um ocultamento que apresenta agora novamente indcios de chegar a um termo com a publicao, nos ltimos anos, de vrias peas inditas e artigos crticos sobre o autor e a sua obra.

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    Documentos:

    I. Facsmile do manifesto O Bando Sinistro Appello aos Intellectuaes Portuguezes, lanado por Raul Leal em julho de 1915.

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    O BANDO SINISTRO

    APPELLO AOS INTELLECTUAES PORTUGUEZES

    A vs que illustraes a vida com os vossos pensamentos elevados

    que s em almas livres, em almas nobres se pdem gerar illuminando o mundo, a vs me dirijo cheio de commoo e de revolta perante o desenrolar sombrio do lodo que pavorosamente se derrama na alma enlouquecida dos portuguezes, que tragicamente avilta, ignobilisa o genio divino de Portugal! Momentaneamente nos debatemos em sangue de peste e em trevas lamacentas e preciso se torna riagirmos poderosamente contra os crimes aviltantes, contra as villezas sinistras, de novo arrebatando o mundo em Espirito, de novo derramando Espirito pela Vida! Numa synthese vigorosa de almas livres unamo-nos para sempre e brandindo o cutelo da Maldio despenhemo-lo dos cos sobre esse inferno momentaneo de Lama a ns como Espiritos nobres, como Almas livres que compete desfazer as malhas emaranhadas, as cadeias lodosas dum charco, dum pantano!...

    Portugal vive hoje um pesadelo enorme de lama e de sangue! Os arrebatamentos extaticos que atravez dos mares arrastaram Espiritos, uma

    torrente sangrenta de ldo inundou em ancias sinistras de chacaes, em evocaes purulentas de pantanos... As tragicas chimras do mundo medieval, sombrias na sua latente anciedade de dr, nos seus inquietantes presentimentos de mrte, evoluindo, degenerando-se, o seu espiritualismo vgo e vagamente ancioso, duma ancia como que tragicamente fossilisada, pelo spro glacial do tumulo, o seu espiritualismo sonhando dolorosamente vibraes diffusas de trevas num vacuo de Immensidade dissiparam todo para sempre e para se tornarem atravez da Europa jacobinisada os monstros repugnantes do Extremo Oriente que a alma pavorosamente perturbam em nojo e em vmitos de sangue quando sob ns estalam, esmigalhados inteiramente por ns!... Esses monstros immensos e vazios dalma absorveram ainda das chimeras medievais as ancias de trevas mas, degenerando-as em aviltamentos convulsos de fome, ignobilisaram-nas por entre gargalhadas lugubres de reptis vampirisados. Soffrem a ancia, mas a ancia perversa e asquerosa de cobardemente rasgar a carne indefeza dos Anjos... De dr

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    se enchem pelo odio! E essa dr odiosa de perversas ancias jamais a compaixo pde inspirar mas atulhada em escarros negros de peste enche-nos a alma de enjoos e de vomitos convulsos... O genio jacobino duma negrura esverdeada, porque o genio da lama, da podrido! A revolta delle uma revolta de inveja sinistra, e a revolta do pria esfomeado contra a luz do Espirito que as trevas da sua alma jmais poder illuminar.

    O jacobino, o plebeu sente horrivelmente cravarem-se-lhe no peito os grilhes eternos da ignominia com que Deus o fatalisou e, como aranha corpolenta, debatendo-se na teia aprisionadora que ella propria cria, o jacobino, o plebeu, cheio de rancores obscuros que s em trevas cobardes trabalham a morte, com sangue desprender-se procura das peias agrilhoantes da fome e da miseria as quaes um prolongamento tragico so apenas, uma sombria exalao dessas outras peias intimas criadas num fatal inferiorismo dalma. Como elemental de lodo elle nasceu inferior, a sua inferioridade natural que lhe enche a alma de paixes escravisadoras, de perversidades que toda a alma contorcem, toda a alma que s no Bem, no Espirito se liberta em vertigens, essa inferioridade fatal que a uma vida apertadamente limitada, a uma vida de escravido propria todo o obriga sempre, elle rancorosamente sente e debatendo-se na fome, na miseria, producto da sua absoluta incapacidade de espirito, contra a Luz, contra a verdadeira Liberdade obscuramente reage atravez de crimes repugnantes, ignominiosos no s para vencer a fome indignamente que, doutro modo, jamais a poderia vencer como escravo natural que , mas sobretudo para satisfazer os odios impuros gerados sempre por entre invejas nas almas naturalmente, abjectamente inferiores. No o poder exterior, o ouro que elle principalmente inveja, mas a grandeza natural dos Espiritos que elle, mesmo coberto de ouro, jamais poderia attingir. A nobreza dalma, suprema libertadora, como poderia ella ser alcanada por quem vive fatalmente de vilezas oppressoras, de abjeces que s poder brotar das almas acanhadas, das almas vis!... E essa impossibilidade fatal enche de maiores abjeces a alma odienta do jacobino! Ella vive de cadeias apertadas porque naturalmente apertada toda a sua vida que jamais se pode expandir em espirito, e nessas cadeias se geram outras e outras, essencias dos odios oppressores e das invejas sinistras que dolorosamente contorcem, apertam, esmigalham, os seres abjectos que em si proprios as criam.

    Vde a ancia fervente com que Costa, chefe de bando, imitar procura os mais insignificantes gestos do Grande Rei que foi D. Carlos I. Quando nos logares rgios que elle torpemente usurpou, toda a magnanimidade do rei anciosamente quer copiar, copiando duma frma que seria ridicula se no fosse abjecta os minimos movimentos de nobreza e distino s proprios de espiritos superiores, de almas livres.

    E como pde um elemental de lama elevar-se belleza divina dum principe?...

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    E Costa sente bem a sua propria inferioridade, incapaz se sente de se elevar ao Espirito, de se elevar at Deus, num charco inmundo que elle se debate por entre chammas purulentas de peste, e, cheio de raiva, de rancores sinistros, a sua ftida baba derrama na Vida para que a Vida, descendo at elle, se cubra de podrido e de ignominia:

    Sim, todo o plebeismo torpe que ftidamente se desenrola aqui, empsta...

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