ÃO UTÓPICA NAS REPRESENTAÇÕES SOBRE

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    10-Jan-2017

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<ul><li><p>Educao &amp; Sociedade</p><p>ISSN: 0101-7330</p><p>revista@cedes.unicamp.br</p><p>Centro de Estudos Educao e Sociedade</p><p>Brasil</p><p>Almeida Neto, Antonio Simplcio de</p><p>DIMENSO UTPICA NAS REPRESENTAES SOBRE O ENSINO DE HISTRIA: MEMRIAS</p><p>DE PROFESSORES</p><p>Educao &amp; Sociedade, vol. 31, nm. 110, enero-marzo, 2010, pp. 219-239</p><p>Centro de Estudos Educao e Sociedade</p><p>Campinas, Brasil</p><p>Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87315813012</p><p> Como citar este artigo</p><p> Nmero completo</p><p> Mais artigos</p><p> Home da revista no Redalyc</p><p>Sistema de Informao Cientfica</p><p>Rede de Revistas Cientficas da Amrica Latina, Caribe , Espanha e Portugal</p><p>Projeto acadmico sem fins lucrativos desenvolvido no mbito da iniciativa Acesso Aberto</p><p>http://www.redalyc.org/revista.oa?id=873http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87315813012http://www.redalyc.org/comocitar.oa?id=87315813012http://www.redalyc.org/fasciculo.oa?id=873&amp;numero=15813http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87315813012http://www.redalyc.org/revista.oa?id=873http://www.redalyc.org</p></li><li><p>219Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010Disponvel em </p><p>Antonio Simplcio de Almeida Neto</p><p>DIMENSO UTPICA NAS REPRESENTAES SOBRE OENSINO DE HISTRIA: MEMRIAS DE PROFESSORES</p><p>ANTONIO SIMPLCIO DE ALMEIDA NETO*</p><p>Es cierto que la desesperacin, momento de la accinpoitica, difiere de la angustia, ese vaco del cual no sesale. Quienes rechazan el riesgo porque no quieren sufrirya no quieren la alegra. (Henri Lefebvre)</p><p>RESUMO: Esse artigo trata das representaes de professores deHistria acerca da dimenso utpica em sua disciplina, ou seja, amaneira como representam certa concepo prospectiva ao lecio-narem uma disciplina escolar que lida com o passado. Considera-mos que a educao tem como pressuposto uma viso projetiva,uma vez que supe uma perspectiva de homem, sociedade emundo no ato educativo, e o ensino de Histria, mais especifica-mente, por ser uma disciplina que lida com as transformaestemporais e com temas eminentemente polticos e sociais, inserin-do o homem neste processo. Situamos a discusso atual acerca dotema no ensino de Histria, inserido no debate da crise damodernidade e postulados ps-modernistas, a oscilar entre umapostura de pensar a disciplina como inexorvel instrumento detransformao scio-poltica ou v iluso prospectiva. Visandouma melhor compreenso da questo proposta, valemo-nos daanlise de relatos orais obtidos atravs de entrevistas com profes-sores da disciplina, que lecionaram nos anos de 1960/70 e 1980/90, tendo por perspectiva a teoria crtica das representaes de HenriLefebvre e o debate sobre memria e histria oral.</p><p>Palavras-chave: Ensino de Histria. Utopia. Representao. Memria.Histria oral.</p><p>* Doutor em Educao e professor do Centro de Educao e Cincias Humanas da Univer-sidade Federal de So Carlos (UFSCAR). E-mail: toninhosaneto@uol.com.br</p></li><li><p>220</p><p>Dimenso utpica nas representaes sobre o ensino de Histria...</p><p>Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010</p><p>Disponvel em </p><p>UTOPIAN DIMENSION IN THE REPRESENTATIONS ON HISTORY TEACHING:MEMORIES OF TEACHERS</p><p>ABSTRACT: This paper explores the representations of Historyteachers on the utopian dimension in their discipline, that is, howthey represent a certain prospective conception when teaching aschool discipline dealing with the past. We consider that educationhas assumed a projective vision, since it supposes the perspectiveof man, society and world in the educative act. This is even morethe case with History teaching, since it is one of the disciplinesthat eminently deals with the secular transformations and socialand political subjects, inserting man in this process. We locate thecurrent discussion on the subject in History teaching, inserted inthe debate of the crisis of modernity and post-modern postulates,oscillating between the stance of thinking this discipline as an in-exorable instrument of social political transformation or a vain pro-spective illusion. To better understand the proposed issue, we ana-lyze verbal stories from interviews with professors of this disciplinewho have taught in the 60s-70s and in the 80s-90s, under theperspective of Henri Lefebvres critical theory of representationsand the debate on memory and oral history.</p><p>Key words: History teaching. Utopia. Representation. Memory. Oralhistory.</p><p>o conhecido texto Sobre o conceito da histria, escrito em1940, Benjamin (1986) faz uma bela e assombrosa anlise doquadro Angelus Novus, de Paul Klee, o anjo da histria: uma</p><p>figura de olhar catatnico, pasmado, asas estendidas, impelida para ofuturo ao mesmo tempo em que observa o passado, suas catstrofes e ru-nas. Esse anjo gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar osfragmentos (p. 226), mas no pode, pois a tempestade o progresso que sopra do paraso o impede de fechar as asas. Perplexidade e desola-o rondam seu olhar, a angstia mobiliza um desejo lancinante de trans-formao.</p><p>No debate sobre o ensino de Histria,1 nas ltimas dcadas, essainterpretao benjaminiana serviria como eptome, pois ilustra bem acondio de seus professores, a angstia de seu olhar sobre o passado, aobservao dos despojos, a vontade de reconstruo, o medo da repeti-o dos erros, o desejo de intervir na transformao. Falamos de umaespcie de Angelus Novus do ensino, um arauto do passado que espera</p></li><li><p>221Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010Disponvel em </p><p>Antonio Simplcio de Almeida Neto</p><p>que seus ensinamentos promovam, se no a reconstituio dos fragmen-tos, ao menos um porvir com menos runas.</p><p>Essa concepo d sinais de esgotamento, pelo simples fato deter sido erigida de maneira frgil, quando se supunha portentosa. Laville(1999, p. 127), em artigo que prope desanuviar as iluses em tornodo ensino de Histria, aponta como um grande equvoco (...) se acre-ditar que, pela manipulao dos contedos, possvel dirigir as consci-ncias ou as memrias, quando a experincia do presente sculo mostraque est longe de ser to certo assim quanto tantos parecem acreditar, oque provavelmente no passa de uma grande iluso. Essa crena de queatravs do ensino de Histria seria possvel regular conscincias e com-portamentos, aglutinar descontentamentos e decepes, catalisar movi-mentos de transformao, , para o autor, apenas e to somente uma viluso. No entanto, tem mobilizado esforos e paixes.</p><p>Mas esse arranjo pode ser pensado de outra maneira. Retornando interpretao de Benjamin sobre o quadro de Klee, numa no menosinstigante anlise, Sevcenko (1993, p. 49-50) prope:</p><p>O anjo da histria assim um anjo decado e sua rebeldia o tornou im-potente para auxiliar os vencidos, mortos e humilhados. No estandomais sintonizado com o poder, ele prprio est condenado a ser um ven-cido e um enxovalhado. Sua natureza de ser destinado vida eterna osubmete ao castigo de assistir paralisado, ele, cuja misso precpua agire salvar, destruio do mundo e degradao de si mesmo.</p><p>O que se apresentava como possibilidade, promessa e propsitotransmuta-se em paralisao, frustrao e imobilismo. Para esse autor,Benjamin e Klee vaticinaram o fim da modernidade e sua crena noprogresso e na utopia da igualdade perfeita, produzida pela razo, go-vernada pela tcnica e desfrutada pela arte (idem, ibid., p. 47), re-presentando aqueles que, aturdidos, (...) no esto mais voltados parao infinito radiante do futuro e sim para a tragdia impronuncivel dopassado. No acreditam mais no absoluto, nem se deixam levar por suasfalsas promessas. Esto ss, reduzidos aos limites estreitos de sua fra-queza, seu horror e sua fria (p. 50).</p><p>Repensando aquele Angelus Novus do ensino, prenhe de desejosde mudana face crise to alardeada existente na educao, nos depara-mos com um professor de Histria impotente diante das impossibilida-des, seu olhar para o passado adquire ares de nostalgia, suas tentativas</p></li><li><p>222</p><p>Dimenso utpica nas representaes sobre o ensino de Histria...</p><p>Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010</p><p>Disponvel em </p><p>de juntar os fragmentos resultam inteis, seu projeto prospectivo soaanacrnico.</p><p>As discusses sobre as quais me deterei2 referem-se dimensoutpica presente no ensino de Histria. Via de regra, o ensino dessadisciplina tem, por dcadas, trabalhado com uma virtual capacidadede, atravs de um resgate pretensamente crtico do passado, apostarnuma transformao positiva e projetar um novo futuro.</p><p>Em tempos de transformaes significativas como a que vimosatravessando nas ltimas dcadas, particularmente no Brasil, os anseiospor mudanas promissoras so proporcionais s angstias geradas pelafalta de solues e respostas a problemas sociais, econmicos e polti-cos. No poderia ser diferente na educao, j que inerente s ativi-dades do professor o ato de operar com projees, uma vez que prevum fim a atingir com seus alunos, seja de ampliao do conhecimen-to, seja de formao de valores.</p><p>No ensino de Histria, tal questo se faz sentir com maior evi-dncia, pois que os professores lidam com o tempo passado e, dessamaneira, tm como matria-prima uma vastido de temas intrincadoscom suas variantes e contradies a serem exploradas e explicadas, po-dendo dar algum sentido e significado ao presente e, inevitavelmente,serem lanados nas projees do ato educativo, considerando que osensinamentos dessa disciplina seriam capazes de contribuir para umasociedade melhor que a passada e aquela que se est vivendo. Algunstemas habitualmente abordados pela disciplina, como poder, relaesde classe, revolues, guerras, regimes polticos, movimentos sociais,concorrem para esta viso da histria como provedora de lies do pas-sado a serem aprendidas pelo presente.</p><p>Considerando, ento, que essa dimenso utpica presente no en-sino de Histria tem mobilizado aes concretas, influenciado pessoase levado a novos projetos, como trat-la como mero devaneio, coisa fal-sa? Como poderia uma v iluso possuir tanta fora?</p><p>Ocorre que essa dimenso utpica no se constitui como um todocoerente, dotado de sentido nico. As referncias a essa concepo,presentes no ensino de Histria, variam desde as posturas marcada-mente revolucionrias at posicionamentos mais diludos, mal defini-dos e, eventualmente, atrelados a uma estratgia de marketing, haja vis-ta como algumas editoras apressam-se em incorporar aos antigos e</p></li><li><p>223Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010Disponvel em </p><p>Antonio Simplcio de Almeida Neto</p><p>novos livros o adjetivo crtica, conduzindo a utopia ao sabor do mer-cado. Verifica-se, ainda, um desejo de construir novas utopias, comose algumas antigas bandeiras empunhadas no passado no mais servis-sem diante das novas problemticas socioeconmicas que esto postas.Por outro lado, de se observar a existncia de discursos utpicos ela-borados em perodos diferentes e que se assemelham.</p><p>Diante desse quadro, alguns questionamentos so concernentes:Como se originam esses discursos utpicos no ensino de Histria? Es-sas utopias pautam-se na realidade? O que falam de seu perodo? Quaisfatores interferem na formao e transformao dessa dimenso utpi-ca? Como agem esses elementos, acirrando ou drenando o desejo demudana? Possuem anacronismos? Essa dimenso utpica apenas umailuso? Quais seus efeitos na prtica de sala de aula? Apresentam con-tradies? Como os professores percebem essa dimenso utpica em suadisciplina e prtica cotidiana?</p><p>Considero que o ensino de Histria no possa ser tratado comoequao de fceis resoluo e resultado, j que, com o desvelar de suasintenes e prticas, distingui-se um verdadeiro emaranhado de ques-tes que envolvem a disciplina, podendo, algumas dessas, levar a gran-des e desastrosos equvocos relativos a concepo da rea e suas reaispossibilidades, tornando o seu ensino incuo, quando no danoso parao aluno.</p><p>O entendimento dos questionamentos propostos pode contri-buir para um melhor esquadrinhamento do ensino de Histria nas l-timas dcadas e, mais especificamente, uma anlise de sua dimensoutpica, aspecto que vem sendo debatido com razovel intensidade naeducao de modo geral, mas de modo insuficiente nessa disciplinaque, no entanto, tradicionalmente ambiciona acordar os mortos e jun-tar os fragmentos.</p><p>A proposio de discutir a noo de utopia presente no ensinode Histria necessita de um suporte terico que se adeque inernciaslida e fluida, permanente e transitria, mobilizadora e paralisante,presente e ausente da temtica. A teoria crtica das representaesapresentada por Lefebvre (1983) busca resolver o impasse imo-bilizador referente ao suposto carter ilusrio ou verdadeiro da refe-rida dimenso que nos impede de aprofundar a anlise tanto dasvivncias concretas, como das concepes que sobre elas so formadas.</p></li><li><p>224</p><p>Dimenso utpica nas representaes sobre o ensino de Histria...</p><p>Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010</p><p>Disponvel em </p><p>Sobre o dilema envolto na questo, ele afirma que (...) las represen-taciones no son ni falsas ni verdaderas, sino a la vez falsas o verdaderas:verdaderas como respuestas a problemas reales y falsas como disimu-ladoras de las finalidades reales (1983, p. 62).</p><p>Deve-se, ento, compreender as representaes sem a pretensode recha-las, entendendo os processos pelos quais se formam, ga-nham fora, circulam e deslocam o representado, sobreposto por seurepresentante atravs da representao. Lefebvre prope que aquilo quese representa est presente e ausente na representao, que medeia es-sas duas ocorrncias no excludentes, faces de uma mesma condioem existncia mtua.</p><p>Somente atravs da anlise poderemos escapar das representaesenganosas que ocorrem nos processos de representao e que so suafora, resultando em simulacros, repeties e situaes mimticas. Sin-tetizando esta noo em Lefebvre, Lutfi (1996, p. 96) afirma que o</p><p>(...) papel da teoria crtica das representaes no destru-las, pois no possvel viver e compreender uma situao sem represent-la. A filoso-fia, tradicionalmente, quer eliminar as representaes. Sem elas, entretan-to, s restam a morte e o nada. A teoria deve expor o poder da represen-tao no mundo contemporneo, deslindar os mecanismos de sua produ-o e permanncia, e ao faz-lo, anunciar um pensamento novo e ativoj em marcha.</p><p>Para Lefebvre, as representaes formam-se no cotidiano, enten-dido como um nvel da realidade social onde ocorrem a construo etransformao da sociedade, sendo que o desvelamento desse nvel achave para a compreenso das representaes. Estas se constituem comoresultado das formulaes tericas o concebido e das experinciasda vida social e prtica, no plano individual e coletivo o vivido. Des-sa maneira, as representaes apresentam-se como manifestaes da re-lao do concebido com a vivncia, emergindo da conscincia indivi-dual e da correlao com as condies histricas particulares e gerais.So, portanto, fruto do ser individual e social. Assim, entende-se que arepresentao inerente ao viver e sua compreenso.</p><p>No entanto, se no cotidiano que se formam as representaescapazes de dissimular o vivido, a que se formulam as crticas, tam-bm na forma de representaes, que combatem a homogeneidade e aunidade pretendidas pelas representaes hegemnicas. Isso significa</p></li><li><p>225Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010Disponvel em </p><p>Antonio Simplcio de Almeida Neto</p><p>diz...</p></li></ul>

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