Reflexões para concluir - Jameson

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    REFLEXESPARACONCLUIR*

    * Este texto foi originalmente publicado como posfcio ao livro Asthetics and politics, que traztextos de interveno de T. Adorno, W. Benjamin, E. Bloch, B. Brecht e G. Lukcs no debate sobre orealismo. Cf. T. Adorno et al., Asthetics and politics, London, Verso, 1977. Traduo: Ana Paula Pa-checo e Betina Bischof.

    FREDRICJAMESON

    No s a histria poltica que aqueles que a ignoram esto condenados a

    repetir. A recente profuso de ps-marxismos comprova o argumento segundo oqual as tentativas de ir alm do marxismo terminam via de regra por reinventarvelhas posies pr-marxistas (desde os vrios ressurgimentos do neokantismo atos mais recentes retornos nietzschianos aos pr-socrticos, passando por Humee Hobbes). At mesmo no prprio marxismo os termos em que se colocam os pro-blemas, quando no as solues, so dados de antemo, e as antigas controvrsias Marx versusBakunin, Lenin versusLuxemburgo, a questo nacional, a questoagrria, a ditadura do proletariado voltam para assombrar os que pensavam quepoderamos seguir em direo a algo diferente e deixar o passado para trs.

    Em nenhum campo esse retorno do reprimido foi mais drstico do que no

    conflito esttico entre Realismo e Modernismo, cuja revisitao e rediscussoso ainda hoje inevitveis para ns; embora possamos sentir que cada uma dasposies de algum modo correta, ainda assim nenhuma delas permanece intei-ramente aceitvel. A disputa mais velha do que o marxismo e, em perspectiva delongo alcance, talvez seja uma reencenao poltica contempornea da Querelledes anciens et des modernes, na qual pela primeira vez a esttica se viu cara a caracom os dilemas da historicidade.

    No marxismo deste sculo XX, o elemento propulsor da controvrsia sobreRealismo e Modernismo foi a viva e persistente influncia do expressionismo en-tre os escritores da esquerda alem nos anos 1920 e 1930. Uma implacvel denn-cia ideolgica feita por Lukcs em 1934 inaugurou o palco de uma srie de deba-tes e trocas entre Bloch, Lukcs, Brecht, Benjamin e Adorno, publicada nestevolume. Grande parte do fascnio desses embates vem do dinamismo interno peloqual todas as possibilidades lgicas so rpida e sucessivamente geradas, de modoque logo o debate se estende para alm do fenmeno localizado do Expressinis-mo, e mesmo para alm do tipo ideal do prprio realismo, delinenando sob seu

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    escopo os problemas da arte popular, do naturalismo, do realismo socialista, dovanguardismo, da mdia e, finalmente, do modernismo em geral poltico e nopoltico. Hoje, muito de seus temas e preocupaes fundamentais foram transmi-tidos aos estudantes e aos movimentos antiguerra dos anos 1960 pela Escola deFrankfurt, em particular por Marcuse, enquanto o ressurgimento de Brecht garan-tiu sua propagao entre os modernismos de orientao poltica, tal como o dogrupo Tel Quel.

    O legado do expressionismo alemo, mais do que sua contraparte francesacontempornea, o surrealismo, deu ocasio ao desenvolvimento de um grandedebate no mbito do marxismo. Nos escritos dos surrealistas, e em particular nosde Breton, o problema do realismo nem sequer chega a aparecer, em primeiro lu-gar devido recusa inicial do romance como forma; enquanto, para seu principal

    adversrio, Jean-Paul Sartre o nico escritor importante de sua gerao que nopassou pela tutela do surrealismo e cuja noo de engajamento (engagement)Adorno mais tarde entendeu ser o prottipo de uma esttica poltica , o dilemaentre realismo/modernismo tambm no esteve em pauta, ainda que pela razooposta: por causa da excluso prvia da poesia e da lrica de sua concepo danatureza e funo da literatura (em O que literatura?). Assim, na Frana at asegunda onda modernista (ou ps-modernista), representada pelo nouveau romane pela nouvelle vague, pelo Tel Quel e pelo estruturalismo, o terreno pelo qualem outros lugares o realismo e o modernismo iam lutar de maneira to renhida oda narrativa estava repartido entre eles previamente, como se se tratasse de umadiviso amigvel. Se o problema da narrativa no ocupa um lugar preponderante

    nos textos recolhidos neste livro, isso se deve em parte ao fato de que Lukcs es-tava interessado principalmente em romances, enquanto o campo de atividademais importante de Brecht foi o teatro. Por sua vez, a importncia crescente docinema na produo artstica desde a poca desses debates (como atestam as fre-quentes aproximaes de Brecht e Godard) sugere, nesse sentido, que as diferenasestruturais entre os meios de produo e os gneros podem representar um papelmais significativo na composio dos dilemas da controvrsia entre Realismo eModernismo do que seus primeiros protagonistas estavam dispostos a admitir.

    Mais do que isso, a prpria histria da esttica sugere que algumas das viravoltasmais paradoxais que se deram no debate marxista dentro da cultura alem brotamde contradies internas ao prprio conceito de realismo, com uma frequnciamuito maior do que nos debates envolvendo categorias estticas tradicionais,

    como a comdia e a tragdia, a lrica, a pica e o drama. Essas ltimas seja qualfor a funo social que lhes seja invocada neste ou naquele sistema filosfico soconceitos puramente estticos, que podem ser analisados e avaliados sem refernciaa outra coisa que no o fenmeno do belo ou a atividade do jogo artstico (termosnos quais tradicionalmente a esttica tem sido isolada e constituda como umdomnio separado ou uma funo com direitos prprios). A originalidade do con-ceito de realismo, no entanto, reside em sua reivindicao de conhecimento tantoquanto de distino esttica. Sendo um novo valor, contemporneo da secularizaodo mundo sob o capitalismo, o ideal do realismo pressupe uma forma de expe-rincia esttica que ainda reclama um vnculo estreito com o prprio real, isto ,

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    com as esferas do conhecimento e da prxis que tradicionalmente tinham sidoapartadas do domnio do esttico, com seus juzos desinteressados e sua constitui-o como pura aparncia. Mas extremamente difcil fazer justia a ambas as pro-priedades do realismo simultaneamente. Na prtica, a excessiva nfase na funocognitiva frequentemente conduz a uma recusa ingnua do carter necessaria-mente fictcio do discurso artstico, ou mesmo aos apelos iconoclastas pelo fimda arte em nome da militncia poltica. No outro polo dessa tenso conceitual, anfase de tericos como Gombrich ou Barthes em tcnicas pelas quais uma ilu-so de realidade ou um effet de rel alcanado, tende sub-repticiamente a trans-formar a realidade do realismo em aparncia, e a minar a afirmao de seu pr-prio valor de verdade ou valor referencial , pelo qual ela se diferencia de outrostipos de literatura. (Entre os muitos dramas secretos da ltima obra de Lukcs

    deve-se certamente levar em conta a habilidade com que ele caminha sobre essacorda bamba, da qual ele nunca cai, nem mesmo nos momentos mais ideolgicosou formalistas.)

    Isso no significa que o conceito de modernismo, contrapartida histrica dorealismo e sua dialtica imagem especular, no seja igualmente contraditrio,1ede tal modo que ser instrutivo justapor suas contradies s do prprio realismo.Por ora, suficiente observar que nenhuma dessas contradies pode ser entendidainteiramente se no for situada no contexto mais amplo da prpria crise da histo-ricidade e se no for enumerada entre os dilemas que a crtica dialtica confrontaquando tenta fazer a linguagem comum funcionar simultaneamente em doisregistros excludentes: o absoluto (caso em que realismo e modernismo se tornam

    abstraes atemporais, tanto quanto o lrico ou o cmico), e o relativo (caso emque regressam inexoravelmente aos limites estreitos de uma nomenclatura de an-tiqurio, reduzidos designao de movimentos literrios do passado). A lingua-gem, no entanto, no se submete de modo pacfico tentativa de usar seus termosdialeticamente isto , como conceitos relativos e por vezes mesmo extintos, deum passado arqueolgico, que entretanto continuam nos transmitindo seus ape-los tnues porm absolutos.

    Enquanto isso, o ps-estruturalismo acrescentou ainda um outro tipo de pa-rmetro controvrsia entre Realismo e Modernismo, um parmetro que comoa questo da narrativa ou o problema da historicidade estava implcito no debateoriginal, embora pouco articulado ou tematizado. A assimilao do realismo ao ve-lho conceito filosfico da mimese por escritores como Foucault, Derrida, Lyotard

    ou Deleuze reformulou o debate entre Realismo e Modernismo em termos de umataque platnico aos efeitos ideolgicos da representao. Nessa nova (e velha)polmica filosfica, os pontos de referncia da discusso original se encontraminesperadamente elevados, e suas controvrsias antes concernentes a um pontode vista fortemente poltico ganham implicaes metafsicas (ou antimetafsi-cas.) Tal artilharia filosfica sem dvida mobilizada para aumentar a atitude

    1 Para uma anlise complementar das contradies internas ideia de modernismo, ver Paul deMan, Literary History and Literary Modernity, in Blindness and Insight, New York, 1971.

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    defensiva dos defensores do realismo; ainda assim, sinto que no seremos capazesde avaliar as consequncias do ataque representao, e do ps-estruturalismo demodo geral, at que possamos situar seu trabalho no campo da ideologia.

    Seja como for, est claro que a controvrsia entre Realismo e Modernismoperde seu interesse se por antecipao decidirmos pela vitria de uma das partes.O debate entre Brecht e Lukcs, por si s, um dos raros confrontos em que am-bos os adversrios tm a mesma estatura, ambos de incomparvel importnciapara o desenvolvimento do Marxismo contemporneo; o primeiro, um grandeartista e provavemente a maior figura literria produzida pelo movimento comu-nista; o segundo, um filsofo central sua poca e herdeiro de toda a tradiofilosfica alem, o qual enfatizou singularmente a esttica como disciplina. certo que nas recentes exposies dessa polmica2Brecht tendeu a ganhar a bata-

    lha; o velho estilo plebeu e as identificaes schweikianas demonstraram ser emnossos dias mais atraentes que o mandarinismo cultural a que apelava Lukcs.3Nelas, Lukcs via de regra tratado como um professor, um revisionista, um sta-linista ou, em geral, da mesma maneira como Moses Mendelssohn tratava Es-pinosa poca de Lessing, tal qual um cachorro morto, nas palavras com queMarx descreveu a viso estandartizada de Hegel que circulava entre seus contem-porneos radicais.

    O modo como Lukcs sozinho conseguiu inverter o debate sobre o expressio-nismo at torn-lo uma discusso sobre o Realismo, forando os defensores doprimeiro a lutar neste campo e com seus termos, explica a exasperao destes comLukcs (a prpria animosidade de Brecht se mostra de forma particularmente v-

    vida nestas pginas). Por outro lado, tal interferncia em terreno alheio compat-vel com tudo o que fez de Lukcs a figura principal do marxismo no sculo XX em particular a insistncia, durante toda a vida, na importncia crucial daliteratura e da cultura para toda poltica revolucionria. Sua contribuio funda-mental nesse ponto consistiu no desenvolvimento de uma teoria das mediaescapaz de revelar o contedo poltico e ideolgico do que at ento pareciam serfenmenos estticos puramente formais. Um dos exemplos mais famosos foi a suadecodificao das descries estticas do naturalismo em termos de reificao.4Ao mesmo tempo, foi precisamente essa linha de investigao ela mesma umacrtica implcita e uma negao da anlise tradicional do contedo a responsvelpela caracterizao brechtiana do mtodo de Lukcs como formalista: com o termo,

    2 Ver Werner Mittenzwei, Die Brecht-Lukcs Debatte, Das Argument46 (March, 1968), EugeneLunn, Marxism and Art in the Era of Stalin and Hitler: A Comparison of Brecht and Lukcs, NewGerman Critique 3 (Fall, 1974), 12-44; e, para o perodo anterior da revista Die Linskskurve(1928-1932), Helga Gallas, Marxistische Literaturtheorie-Kontroversen im Bund proletarisch-revolutionrerSchriftsteller, Neuwied, 1971.

    3 Ver Lunn, Marxism and Art in the Era of Stalin and Hitler: A Comparison of Brecht andLukcs, op. cit., p. 16-18.

    4 Ver especialmente Narrate or describe? in Georg Lukcs, Writer and Critic, London, 1970[Narrar ou descrever, trad. Giseh Vianna Konder, in Georg Lukcs, Ensaios sobre literatura, Rio de

    Janeiro, Civilizao Brasileira, 1965, p. 43-94.]

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    Brecht apontava a confiana cega de Lukcs na possibilidade de deduzir posiespolticas e ideolgicas a partir de um protocolo de propriedades puramente for-mais do trabalho artstico. A reprimenda nasceu da experincia de Brecht comohomem de teatro, terreno no qual ele construiu uma esttica da performance euma viso do trabalho artstico em situao, que estava em contraste diametralcom a leitura solitria e o pblico burgus suposto pelo objeto de estudo privile-giado por Lukcs, o romance. Brecht poderia ento ser arrolado nas campanhasatuais contra a noo de mediao? provavelmente mais produtivo tomar o ata-que de Brecht ao formalismo lukacsiano (junto com a contrassenha brechtianaplumpes Denken [pensamento sem requinte]) em um nvel menos filosfico emais prtico, como uma advertncia teraputica contra a permanente tentao doidealismo, presente em toda anlise ideolgica enquanto tal, ou contra a inclina-

    o profissional de intelectuais por mtodos que no precisam de verificao ex-terna. Haveria ento dois idealismos: um, a variedade corrente que se encontra nareligio, na metafsica ou no literalismo, outro, o recalcado e inconsciente perigode idealismo aplicado ao prprio marxismo, inerente ao prprio ideal da cinciaem um mundo profundamente marcado pela diviso entre trabalho manual emental. Contra esse perigo, o intelectual e o cientista nunca estaro suficiente-mente alertados. Ao mesmo tempo, o trabalho de Lukcs com a mediao, pormais rudimentar que s vezes seja, pode se inscrever entre os precursores do tra-balho mais interessante que hoje se faz no campo da anlise ideolgica aqueleque, assimilando as descobertas da psicanlise e da semitica, busca construir ummodelo de texto como ato ideolgico simblico e complexo. A acusao de for-

    malismo, cuja relevncia para a prpria prtica de Lukcs evidente, poderia, emconsequncia, estender-se com maior amplitude pesquisa e reflexo em nossapoca.

    Mas tal acusao constituiu apenas um dos pontos do ataque de Brecht pos-tura de Lukcs; seu corolrio e contrapartidafoi a indignao quanto aos juzosideolgicos que Lukcs sustentava fazendo uso de seu mtodo. A primeira mani-festao naquele momento foi a denncia que Lukcs fazia das supostas conexesen...