Revista de Trabajo Social – FCH – UNCPBA ?· conta da complexificação de um mercado de trabalho…

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    01-Dec-2018

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<ul><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 184 </p><p>O OBJETO DE TRABALHO E A FORMAO GENERALISTA EM SERVIO SOCIAL: EM DEBATE ATRIBUIES E COMPETNCIAS PROFISSIONAIS </p><p> Jane Cruz Prates: </p><p>Thaisa Teixeira Closs Beatriz G Aguinsky </p><p>Idilia Fernandes </p><p> O contexto atual, em tempos de reestruturao produtiva e revoluo informacional, impe um ritmo acelerado de transformaes s profisses, exigindo novas habilidades e competncias para atender s demandas de um mercado de trabalho cada vez mais restrito e competitivo. </p><p>Este cenrio agravado pelo desemprego estrutural e a precarizao do trabalho que se realiza a partir dos interesses do capital e que, na matriz atual, necessita de menos volume de mo de obra e mais trabalhadores polivalentes, com qualificaes mltiplas aos quais inseri e exclui, de modo flexvel, de acordo com seus interesses e necessidades. (PRATES, 2008). </p><p>O adensamento de reflexes sobre todos esses aspectos de fundamental importncia para que possamos acompanhar as transformaes do tempo presente de forma crtica, enfrentarmos os desafios postos a essa profisso e ao mesmo tempo nos fortalecermos enquanto categoria. Alguns destes temas so bastante complexos e contraditrios e exatamente por essa razo exigem de ns explicaes atentas para que no incorramos em avaliaes reducionistas. </p><p>O mercado de trabalho exige um trabalhador polivalente que execute mltiplas atividades, cada vez mais complexas e que requisitam operaes mentais e saberes originrios das mais diversas reas. Se, historicamente o saber foi fragmentado para dar conta da complexificao de um mercado de trabalho que crescia a partir da revoluo industrial exigindo especializaes, a reestruturao produtiva condensa e flexibiliza atividades para, a partir do sobretrabalho, ampliar os lucros do capital. Por outro lado, o reconhecimento de que nenhuma rea sozinha pode dar conta de explicar e intervir nos fenmenos sociais exige que cada vez mais caminhemos para leituras e aes interdisciplinares e intersetoriais que caracterizam a integralidade. </p><p> assistente social, mestre e doutora em Servio Social, professora dos Cursos de Graduao e Programa de Ps-Graduao em Servio Social da PUCRS (Brasil), Coordenadora do Programa de Ps-Graduao em Servio Social - PPGSS PUCRS (Mestrado e Doutorado), Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Teoria Marxiana, Ensino e Polticas Pblicas - GTEMPP, pesquisadora produtividade do CNPq. Contatos: jprates@pucrs.br assistente social da FASC, PMPA, mestre em Servio Social e realiza doutorado em Servio Social no PPGSS PUCRS, professora do Curso de Graduao em Servio Social da PUCRS assistente social, doutora em Servio Social, Diretora da Faculdade de Servio Social da PUCRS, professora dos Cursos de Graduao e Programa de Ps-Graduao em Servio Social da PUCRS PPGSS PUCRS (Mestrado e Doutorado), Pesquisadora Produtividade do CNPq assistente social, mestre e doutora em Servio Social professora dos Cursos de Graduao e Programa de Ps-Graduao em Servio Social da PUCRS (Brasil). </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 185 </p><p>E para alm do aspecto relativo a possibilidade de insero dos profissionais da rea nos espaos scio-ocupacionais, o que sem dvida interessa categoria, tambm temos como compromisso assumido coletivamente a luta por polticas pblicas de qualidade, e a perspectiva de reconhecer sujeitos e grupos como unidades dialticas cujas necessidades no podem ser atendidas por uma nica poltica ou explicada por fatores isolados, faz com que associemos essa qualidade a necessria materializao da integralidade. </p><p>O reconhecimento da contradio como negao inclusiva de suma importncia para que expliquemos o real no excluindo de modo simplista as oposies, mas reconhecendo que o movimento que resulta na superao pressupe por algum tempo a sua convivncia </p><p>A partir dessa perspectiva a necessria, mas insuficiente justificativa de responder s demandas de mercado, no o que orienta de modo central o nosso debate, mesmo porque historicamente respondemos ao mercado quando nos institumos como profisso nesse Pas para controle da populao e em especial da pobreza, servindo aos interesses do capital. </p><p>O prprio reconhecimento do Servio Social como profisso bastante recente em termos de histria e isto implica em nos assumirmos como trabalhadores que sofrem todas as refraes do mundo do trabalho, limitados pelo assalariamento, em que pese sermos, no Brasil, uma profisso liberal que tem como requisito a concluso do nvel superior e dispormos de um cdigo de tica e de uma lei que regulamenta nosso exerccio profissional. E esta no uma realidade mundial, pois em pases vizinhos, como Paraguai, no h lei de regulamentao ou cdigo de tica profissional, o que tem implicaes importantes no exerccio da profisso. Em tempos de desregulamentao este um aspecto importante a ser observado pela categoria. Significa dizer que importante reafirmar atribuies especficas e particularidades que caracterizam essa profisso, bem como legitimar competncias que temos logrado serem socialmente reconhecidas e ampli-las, sem contudo nos descaracterizarmos como profisso. </p><p>O trabalho interdisciplinar em reas que tem como eixo estruturante a integralidade, como as polticas pblicas de assistncia social e sade, conforme mencionamos anteriormente, e em especial a ltima, pela prpria natureza do trabalho, quando o processo de trabalho partilhado por um campo nico ou rea, muitas vezes faz com que os profissionais tenham dificuldades em reconhecer a diversidade de seus objetos de trabalho. Em algumas situaes chegam a confundir a profisso com a prpria poltica, em outras o objeto com os objetivos do trabalho. </p><p>Estudos realizados em nvel de mestrado, como os Closs (2010), confirmam essa afirmao aportando dados que mostram essa dificuldade de apreenso por parte dos profissionais no mbito da residncia em sade em Porto Alegre. </p><p>Isto tambm se evidencia na relao Servio Social e poltica de assistncia social, visto a relao histrica da profisso com essa poltica. A expresso de assistentes sociais em cursos de capacitao dos quais participamos para trabalhar essa poltica nos do base para fazer essa afirmao. Em que pese o fato de profisses diversas terem objetos distintos, podem, num processo de trabalho onde se inserem, construrem objetivos comuns. Na verdade a interdisciplinaridade pressupe a construo de objetivos comuns e a diversidade de </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 186 </p><p>reas que faz com que seja enriquecido o modo de apreenso da realidade e interveno integrada exatamente, a nosso ver, o aporte do olhar diverso proveniente do trato de polticas e sujeitos a partir de objetos distintos, mediados pelas reas que se articulam, o que no significa a construo de um nico objeto ou de um novo objeto que resultou do processo de interface entre as reas.. O processo de construo do objeto no sua modificao enquanto tal, mas o seu desocultamento, a sua apreenso a partir das mltiplas determinaes que o conformam, a sua reelaborao, contemplando as lgicas de sujeitos diversos que a percebem, a identificao de suas refraes que podem ser diversas, e se manifestarem de modos distintos dependo do campo a partir do qual a explicamos e no qual intervimos. </p><p>Logo, nosso objeto no so os sujeitos ou suas relaes, mas o conjunto de desigualdades que rebatem no seu modo e condio de vida, que rebatem nas suas relaes e as formas de resistncia a esses processos por eles utilizadas sejam estratgias singulares ou construdas coletivamente, como, por exemplo, as polticas pblicas. </p><p>Essas desigualdades e resistncias assumem caractersticas diversas em campos distintos, em termos de necessidade/demandas e respostas, por essa razo to importante mediarmos o trato da questo social que particulariza essa profisso nos mais diversos campos e junto as demais reas que partilham conosco a insero em processos comuns de trabalho. Mas tambm importante reconhecermos sua gnese comum, muitas vezes subsumida em aspectos subjetivos, simblicos ou fragmentados, em razo do processo de alienao que mascara o real, o que caracterstico do modo de produo capitalista. O movimento de relao entre a universalidade e a particularidade que conforma a totalidade concreta precisa ser resguardado nos processos de anlise/interveno, esta precisa ser uma preocupao e vigilncia constantes no trato da questo social, pois no podemos perder de vista a contextualizao necessria a uma explicao mais densa dos fenmenos, porm a sua mediao para o tempo midos dos homens em carne e osso que viabiliza que ela assuma sentido na vida dos sujeitos e possa efetivamente provocar o desenvolvimento de processos sociais emancipatrios, como a mobilizao e a conscincia. </p><p>Quanto mais amplas nossas cadeias de mediaes, maior a possibilidade de contribuirmos para o desocultamento e a reduo de desigualdades, bem como para a identificao, reconhecimento e o fortalecimento de resistncias, na perspectiva de materializarmos no cotidiano de trabalho nosso projeto tico-poltico, ou o estaremos reduzindo a um tratado de intenes. Por outro lado a partir dessa contribuio concreta e efetiva que nos legitimamos enquanto profisso junto sociedade. Esse processo requer de ns uma formao consistente e processual e no nos referimos aqui apenas a formao acadmica, que embora seja de suma importncia, no a nica alternativa de nos qualificarmos. Inclumos aqui a participao em eventos cientficos, debates, grupos de estudo, pesquisas, sistematizao de experincias, entre outras estratgias de troca e produo de conhecimentos. </p><p>O processo de precarizao e flexibilizao do trabalho atinge a todos os trabalhadores e a todas as profisses na medida em que altera as relaes de oferta e procura, expondo aqueles que vendem sua fora de trabalho a se sujeitarem a maiores nveis de explorao. Os dados so contra-prova histrica do que afirmamos: </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 187 </p><p>Estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (2006) aponta que a automao responsvel por 10 milhes de desempregos no Brasil. Outra investigao realizada pela Universidade Estadual de So Paulo - UNESP / Marlia SP (2008) mostra que h um novo proletariado precarizado e que mais de 50% da Populao Economicamente Ativa- PEA brasileira est no mercado informal. Segundo Reis (2008) o dficit de emprego formal na Amrica Latina chega a 126 milhes de trabalhadores, na sua maioria jovens e mulheres, que representam 53% da Populao Economicamente Ativa PEA. Conforme apontam Lavinas, Amaral e Barros (2004) O sub-grupo que se mostra mais sensvel aos movimentos de expanso e retrao da conjuntura econmica de fato o das mulheres (...) Isso particularmente evidente no caso das mulheres com nvel universitrio. E dizem ainda os autores: A expanso mais lenta nos ltimos anos dos servios e comrcio, onde o peso das mulheres representa aproximadamente 55% no agregado, pode explicar este fato. Entre as concluses apontadas pelo estudo destacamos duas: 1. As mulheres sofrem as repercusses do componente sazonal de modo mais acentuado do que os homens (oferta de empregos diferenciada no inicio e final de ano) 2. A ampliao da taxa de desemprego feminina na rea dos servios em razo do aumento da concorrncia masculina neste setor. importante destacar que, embora as taxas de desemprego sejam maiores na indstria e no comrcio, o estudo mostra que crescem com maior rapidez nos servios. (idem). Ressaltamos a questo de gnero considerando o fato de o Servio Social ter uma conformao marcadamente feminina. </p><p>Pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Servio Social - CFESS sobre o perfil do assistente social no Brasil, em 2005, mostra ainda que somos 74.521 profissionais inscritos nos conselhos, dos quais 78,16% encontram-se vinculados a esfera pblica estatal, sendo que destes, 40, 97% no mbito municipal, 24% no mbito estatal e 13,2 % em mbito federal (CFESS, 2005). Mostra o mesmo estudo que h uma expanso de contratos de assistentes sociais para atuarem nas Prefeituras em reas de Planejamento, descentralizao de polticas pblicas, assessorias e consultorias a programas e projetos sociais, elaborao de projetos e captao de recursos. </p><p> Mas, se por um lado, o mercado requisita um trabalhador polivalente, por outro, so destitudos espaos e competncias, dando nova configurao diviso social e tcnica do trabalho, ora super-especializando, ora reduzindo fronteiras entre as profisses, extinguindo algumas ou atribuindo-lhes novas configuraes, de acordo com os interesses do capital. </p><p>Este contexto avassalador atinge o Servio Social como uma especializao inserida na diviso do trabalho, portanto no trabalho do assistente social verificamos as refraes dessa precarizao, do sobretrabalho, do trabalho invisvel ( produes virtuais, e-mails e telefonemas que invadem nossas casas e horrios de descanso) a expanso de doenas do trabalho onde se destacam o estresse, as LER/DORT, as depresses. Mas esta no uma prerrogativa dessa profisso. </p><p>No I Simpsio de Sade do Trabalhador (2008) realizado em Porto Alegre, (FSS-PUCRS / COLSAT Mercosul), a renomada pesquisadora francesa Annie Thbaud-Mony, destacou que o trabalho esta chegando a limites que o ser humano no </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 188 </p><p>pode suportar nem fsica, nem emocionalmente, como conseqncia dos processos de globalizao, precarizao e flexibilizao, o que na Frana tem sido associado a dois problemas que tem crescido significativamente nos ltimos anos, os Cnceres e os suicdios, os ltimos, conforme afirma a pesquisadora, com mais de 11 mil ocorrncias no ano 2000, ou seja, mais de um por hora, destacando ainda que muitos so associados s presses excessivas no trabalho ou a falta de tempo para cumprir exigncias da vida pessoal em razo do mesmo. (THBAUD-MONY, 2008) Estudo realizado por Nogueira (2007) mostra a dupla subordinao vivenciada por professores em razo do prolongamento da jornada de trabalho. A produo do professor e sindicalista desoculta a barbrie absoluta, pois quando desqualificamos progressivamente a produo de conhecimentos, a formao de profissionais, os espaos que, por excelncia deveriam contribuir para o adensamento da crtica e os transformamos em mais um negcio a servio do capital, estamos entregando a alma e o futuro de nossos pases. Afinal, a universidade operacional, pobre de esprito, rasa e superficial, empreendedora e mercadolgica o cemitrio do conhecimento, ou parafraseando Marx, a misria no s da filosofia, mas da produo do conhecimento humano....</p></li></ul>

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