Revista de Trabajo Social – FCH – UNCPBA ?· pobreza no espaço urbano, contribuindo para espetacularizar…

  • Published on
    08-Nov-2018

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

<ul><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 430 </p><p>AS IMPLICAES DAS ATIVIDADES RELIGIOSAS NAS FAVELAS </p><p>PRAIA DA ROSA E SAPUCAIA. </p><p>MOTTA, Thaiany Silva1 </p><p>I. INTRODUO. </p><p>Este artigo visa aprofundar as anlises acerca da interveno de instituies religiosas em duas favelas da cidade do Rio de Janeiro, Praia da Rosa e Sapucaia, articulado a elementos que perpassam pela produo do meio urbano. </p><p>Experincias em pesquisa de campo nestas duas favelas junto ao Ncleo de Pesquisa Favela e Cidadania (FACI), da Escola de Servio Social (ESS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possibilitaram percepes acerca da complexidade da interao entre religies em um espao como a favela, onde as desigualdades sociais da sociedade capitalista se explicitam e se reproduzem. O FACI sustenta atividades de extenso e pesquisa em Praia da Rosa e Sapucaia desde a dcada de 80, e participou ativamente da elaborao e execuo de programa de urbanizao (1996/98) Programa Bairrinho a partir de convnio com a Secretaria Municipal de Habitao2, quando realizou um levantamento censitrio com as caractersticas fsicas, sociais e econmicas das duas favelas. </p><p>O ncleo retomou os estudos sobre as favelas nos anos de 2008 a 2010 para realizao de pesquisa de tipo follow up, durante o qual foi possvel identificar uma forte relao entre as favelas e prticas religiosas de ocupao do espao, no mais por meio do catolicismo. Este fato parece acompanhar o retraimento de religies tradicionais no pas e o crescimento de pentecostais e neopentecostais, especialmente a partir da dcada de 80 (Pierucci, 2004). </p><p>Para a elaborao deste estudo, nos debruamos sobre extenso acervo bibliogrfico que analisam o tema, e pesquisas realizadas pelo FACI. Como caminho metodolgico, faremos uma reflexo acerca de intervenes religiosas em favelas, e, posteriormente, uma anlise acerca de prticas religiosas em Praia da Rosa e Sapucaia e suas implicaes na produo espao. Utilizaremos ainda os dados impetrados pelo FACI e fotos para ilustrar os fenmenos mencionados. </p><p>Resultados mostram que as religies so constantemente responsveis por preencher as lacunas deixadas pelo Estado, com caractersticas particulares que so concomitantes consolidao do neoliberalismo, no apenas na Amrica Latina, mas tambm no mundo. </p><p> 1 PPGS/ESS/UFRJ. thaianymotta@yahoo.com.br 2 A Secreraria Municipal de Habitao (SMH), subordinada a prefeitura do Rio de Janeiro, tem por objetivo garantir o acesso a moradia legal e a infra-estrutura urbana como direito social bsico (...) (GOMES et al, 2006: p. 69) </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 431 </p><p>Estas instituies contribuem com recursos materiais, mas especialmente espirituais, compondo uma rede de ajuda aos irmos e fiis pertencentes quela igreja. </p><p>Cabe ressaltar que este fenmeno compe uma possibilidade de produo e reproduo do espao urbano (Lefebvre, 2008), mediatizados pelo trabalho. Esta representao no espao vai desde a construo de monumentos, delimitaes de espaos, mobilidades de grupos religiosos, entre outros. </p><p>Este fenmeno corresponde parte importante da interao humana e da reproduo das relaes sociais, incluindo as relaes de produo, da se coloca a relevncia deste estudo. O nosso ponto referencial a sociedade capitalista, desenvolvida na era ps-moderna, cujo marco a intensificao de processos de miserabilidade da razo burguesa, da mercantilizao das relaes sociais e do agravamento da desigualdade social. </p><p>II. A PRODUO DO ESPAO URBANO. </p><p>Para compreender melhor a dinmica das expresses de instituies religiosas em favelas, iminente apreender algumas premissas sobre a produo e a reproduo do espao urbano. Tomamos aqui como referencial terico para discutir o espao, a bibliografia de Lefebvre (2008) e Santos (1988), cujas contribuies so de extrema relevncia para o tema. </p><p>O fenmeno urbano, como sinaliza Lefebvre (2008), estende-se a esferas alm da proposta de dualidade entre urbano e rural. Este fenmeno indicado pela industrializao intensa da sociedade capitalista, ou pelo extenso desenvolvimento das foras produtivas, o que remete a uma problemtica urbana dentro de uma dialtica3 espao-temporal. Santos (1988) define que </p><p>O espao seria um conjunto de objetos e de relaes que se realizam sobre esses objetos; no entre estes especificamente, mas para as quais estes servem como intermedirios. Os objetos ajudam a concretizar uma srie de relaes. O espao o resultado da ao dos homens sobre o prprio espao, intermediados pelos objetos, naturais e artificiais. </p><p>A cidade, ou sociedade urbana, a produzida pelo trabalho do homem, por uma prxis urbana. Ela , de fato, um produto das relaes humanas mediatizadas pelo trabalho, unindo capacidade teleolgica e prtica social. Esta prxis urbana pode, no entanto, carregar-se de alienao. Lefebvre (2008) discorre sobre a fragmentao da prtica no perodo posterior ao desenvolvimento do capitalismo, criando realidade e cincia particionadas, aspectos constitutivos da fase crtica. Esse mesmo autor concebe a fase crtica, ou zona crtica, pela industrializao dentro do capitalismo, como mencionado </p><p> 3 Referncia da dialtica marxista, cujo movimento do real constitui-se em contradio e encontra-se em constante transformao. </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 432 </p><p>acima, que contribuem para eclodir contradies inerentes a esta sociedade, riqueza e pobreza no espao urbano, contribuindo para espetacularizar este espao urbano. </p><p> O conceito de sociedade urbana trazido por Lefebvre (2008) compreende uma construo e desconstruo do papel da cidade relacionando-o industrializao. Neste sentido, e entende-se a sociedade urbana (cidade), atravs da dialtica, como produto das relaes de produo e re-produo das relaes de produo (Lefebvre, 2008). As relaes de troca possuem, ento, uma delimitao scio-espacial, no apenas, o que coloca a cidade como lugar destas relaes. Na cidade, a mais-valia se realiza, enquanto no campo, ela produzida (Lefebvre, 2008). </p><p>Este urbano incorporar a construo de objetos e signos vazios de contedo, fetichizados, no qual praas, parques, monumentos, entre outros elementos, obedecero logica dos gestores do espao, reconhecida como burguesia, ou o Estado como comit desta. </p><p>A autonomia dos sujeitos diante da prxis urbana limitada pela acumulao, e submetida ao consumo e ao controle das formas de uso (pragmtico) do espao. Dentro deste espao utilizado para a acumulao, qual o lugar dos pobres na cidade? O lugar da pobreza na cidade globalizada para a produo margem da cidade, no que Lefebvre (2008) chama de imploso-exploso, riqueza e pobreza, acumulao e segregao, coexistindo nos signos da sociedade urbana, que intensifica os processos de esgotamento do espao e de recursos, agravando a fase crtica do fenmeno urbano. </p><p>Segundo Lefebvre (2008), a organizao neocapitalista do consumo vai alm da poltica e da violncia, e os componentes da cidade simbolizam o desenvolvimento da sociedade, das relaes sociais de produo e das foras produtivas. Santos (1988) nos adverte que a situao de classe determina a possibilidade de mobilidade no territrio, negando aos menos favorecidos capacidade plena de mobilidade no espao. </p><p>A prxis urbana ser recomendada, ento, por enlaces de poder e pelo acirramento de relaes tensionadas pela luta de classes. No o lugar apenas que explica a si mesmo, mas sim as relaes que nele se desenvolvem em suas articulaes dialticas (Santos, 1988). </p><p>Em relao a produo do espao pela ao do homem articulada religio, podemos lembrar da construo de monumentos, como o Cristo Redentor na cidade do Rio de Janeiro como uma demanda da Igreja Catlica, ou a mobilizao/criao de cidades inteiras em funo da motivao religiosa. A cidade de Meca, na Arbia Saudita Oriente Mdio, mobiliza milhes de muulmanos para a realizao de preces, e a entrada de no muulmanos proibida na cidade. Esta mesma regio palco de intensos conflitos de cunho religioso, com fundo tambm economicista. Outro exemplo o Vaticano, pas sede do catolicismo situado na Itlia Continente europeu. </p><p>Conforme Lefebvre (2008), os monumentos possuem uma relao dialtica com o espao, pois estes podem tanto reprimir, ao organizar o espao no sentido de coloniz-</p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 433 </p><p>lo, ou podem reproduzir uma concepo de mundo de grupos sociais, recebendo nele a projeo da vida social. </p><p>III. O FENMENO RELIGIOSO EM FAVELAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. </p><p>Aps analisar brevemente a dinmica de produo e reproduo do espao, cabe a este tpico problematizar a favela. </p><p>Considerando toda a complexidade que pressupe o fenmeno da favela, podemos indicar que este consequncia da distribuio desigual de riquezas e da explorao da fora de trabalho pelo capital. Este produto da fase crtica do fenmeno urbano, medida que parte da populao no absorvida pelo mundo do trabalho e se defronta com um dficit habitacional, ocupa reas adjacentes aos centros urbanos para facilitar mobilidade ao trabalho, escola e acesso a servios oferecidos pela cidade. </p><p>No caso da cidade do Rio de Janeiro, a falta de programas de habitao popular, a ineficincia de sistemas de transportes e a precariedade das relaes de trabalho se traduziram na ocupao de morros e reas desocupadas prximas ao centro da cidade (Gonalves e Frana, 2009). Estes espaos reuniram, basicamente, a ilegalidade da posse da terra, ausncia de servios pblicos, e em muitas vezes remontam situaes de risco. Estas favelas se expandiram medida que a reestruturao produtiva reconfigurou o cenrio do universo do trabalho, no sentido de flexibilizar tais relaes, precarizando-as ainda mais. </p><p>As primeiras ocupaes irregulares do Rio de Janeiro foram os cortios, ainda no sculo XIX, habitados basicamente por trabalhadores, vadios e malandros. Como representavam a classe perigosa, passaram por um processo de destruio. Os morros da cidade logo foram recebendo a populao que ali residia, e incorporando gradativamente soldados da Guerra de Canudos, imigrantes europeus, negros e posteriormente, migrantes nordestinos (Valladares, 2000). Valladares (2000) relata que, desde sua origem, a populao favelada era demonizada, considerada criminosa, e foi alvo de todos os tipos de aes dos representantes, que foram desde a higienizao, normatizao de comportamentos, remoes, aes coercitivas, porm, basicamente, conviveram com frequncia com as atividades policiais. </p><p>A partir da dcada de 1940, com uma nova proposta para lidar com as expresses da questo social pelo Estado, as favelas comearam a ser alvo de politicas pblicas. Houve uma movimentao do Estado para remover estas populaes, o que exigiu uma articulao dos moradores junto aos lderes comunitrios contra estas aes. Foi feita, ento, um convnio entre a Arquidiocese do Rio de Janeiro e prefeitura, em 1946, atuando em 34 favelas da cidade com servios, apoiada no trip educao, sade e habitao. Promoviam servios de assistncia moral e cristianizao, bem como assistncia material, com a manuteno de creches, escolas, ambulatrios, entre outros, </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 434 </p><p>assumindo tambm o controle das Associaes de Moradores de algumas destas favelas (Motta, 2011). As aes nestas reas eram voltadas para o controle e coero desta populao, atravs de cooptao de seus lderes comunitrios, proibio de novas construes e prestao de alguns servios. Foram duramente criticadas por manterem aes que contribuam para a perpetuao de favelas, e no a desejada erradicao deste mal (Gonalves, Simes e Freire, 2010). </p><p>Em 1955, criou-se a Cruzada So Sebastio, por Dom Helder Cmara, que acumulava a funo de mediadora entre Estado e lderes comunitrios. </p><p>As atividades de urbanizao desenvolvidas pela Cruzada tinham a finalidade de moralizar e oferecer condies mnimas de vida quelas populaes, tendo como marco a construo de conjunto habitacional de mesmo nome, no Leblon, bairro nobre da cidade (Motta, 201: 18). </p><p>A proposta de Dom Helder Cmara era garantir uma aproximao entre ricos e pobres, eliminando assim a luta de classes. As propostas da igreja no ponderavam a dimenso da desigualdade entre as classes inerente sociedade capitalista, pois acreditavam que a moralizao e cristianizao desta populao pobre permitiria a ascenso social destes. </p><p>Muitos segmentos da burguesia carioca criticaram duramente as atividades tanto da Fundao Leo XIII, quanto da Cruzada, por no contriburem de forma a alterarem a situao de vulnerabilidade vivida pela populao favelada, nem para minimizar as desigualdades sociais. De fato, a proposta no era atingir a estrutura da poltica econmica adotada pelos representantes brasileiros, que atendiam virtuosamente ao imperialismo dos pases centrais. Ainda assim, estas instituies no conseguiram neutralizar a mobilizao dos lderes comunitrios, nem impedir o crescimento das favelas. Em funo disso, o Estado torna a Fundao Leo XIII em autarquia do Estado em 1963, e a Cruzada tambm encerra suas atividades na dcada de 1960. </p><p>Conforme se instaura a Ditadura Militar em 1964, a mobilizao poltica duramente suprimida. Muitos lderes de Associaes de Moradores e ativistas polticos contra a ditadura foram presos, mortos, exilados ou desaparecidos. Este perodo foi embalado em muito por polticas remocionistas de favelas, controles e consertos das residncias. </p><p>Impulsionada pela crise da sociologia da Igreja Catlica que culminou na Teologia da Libertao4 nos pases de Terceiro Mundo, as Pastorais de Favelas atuaram na luta contra as remoes, prestando assessoria jurdica aos moradores destas reas. Este movimento foi concomitante a ascenso dos movimentos sociais no pas, que almejavam o fim da Ditadura Militar, que j se encontrava em meio a profundas crises econmicas e sociopolticas. Conforme Motta (2011: 21), </p><p>este segmento da Igreja incorpora uma srie de diretrizes no que tange a compreenso ao direito ao solo urbano, porm, mantm noes de bem </p><p> 4 Corrente de esquerda que teve espao em reas perifricas no mundo, que teorizava a pobreza e a excluso social enviesada pelo marxismo. </p></li><li><p>RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA </p><p>Tandil, Ao 4 - N 6, Diciembre de 2011 ISSN 1852-2459 435 </p><p>comum, desconsiderando o modelo de sociedade vigente e as lutas de classe. </p><p>Este movimento perdeu fora na dcada de 1980, medida que a sociedade brasileira foi se redemocratizando e ampliando os mecanismos de dilogo entre Estado e sociedade civil. </p><p>Em resultado ao processo de luta pela ampliao de direitos universais, dentre estes o direito cidade entrelaados ao movimento pela reforma urbana, g...</p></li></ul>

Recommended

View more >