Revista de Trabajo Social – FCH – UNCPBA ?· social), e são atendidas por estagiários (estudantes)…

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  • RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA

    Tandil, Ao 5 - N 8, Diciembre de 2012 ISSN 1852-2459 63

    REFLEXO TORICO-PRTICA SOBRE O TRABALHO INTERDISCIPLINAR E O SERVIO SOCIAL NO PROJETO DE

    EXTENSO ESCRITRIO DA CIDADANIA

    Brbara Lucas Bruna Mello Izabele Silva

    Fernanda Kilduff

    APRESENTAO.

    O objetivo deste trabalho refletir sobre a nossa experincia de estgio no Escritrio da Cidadania, que um projeto que est inserido no Programa NIAC - Ncleo Interdisciplinar de Aes para a Cidadania -, visando analisar as principais dificuldades e desafios no trabalho interdisciplinar. Para isso procuramos realizar uma primeira aproximao terica aos debates e polmicas em torno da interdisciplinaridade no mbito do Servio Social para finalizar com os desafios profissionais nos diferentes espaos socio-ocupacionais.

    INTRODUO:

    Buscamos socializar algumas reflexes feitas a partir de nosso trabalho realizado no Escritrio da Cidadania, as mudanas na metodologia, que resultou em vrios avanos e tambm alguns questionamentos, como iremos apresentar a seguir. Atravs de uma reflexo crtica, pretendemos problematizar o trabalho interdisciplinar, nossa viso sobre como o Servio Social visto dentro deste campo de trabalho, muitas vezes sofrendo questionamentos ainda conservadores sobre a profisso, como por exemplo reduzir o trabalho do Servio Social apenas a Assistncia.

    1. ACERCA DO PROJETO DE EXTENSO.

    O Programa Ncleo Interdisciplinar de Aes para a Cidadania (NIAC) - criado pela Diviso de Integrao Universidade e Comunidade/Pr-Reitoria de Extenso (DIUC/PR5) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em julho de 2006 - prope-se articular quatro reas de conhecimento e projetos de pesquisa e extenso oriundos das Unidades de Ensino de Arquitetura e Urbanismo, Faculdade Nacional de barbaralucas89@gmail.com Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) - Escola de Servio Social (ESS). bruninhamello5@gmail.com Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) - Escola de Servio Social (ESS). izabelecarolina@hotmail.com Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) - Escola de Servio Social (ESS). ferkilduff@yahoo.com.ar Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) - Escola de Servio Social (ESS).

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    Direito, Instituto de Psicologia e Escola de Servio Social. Surge com o propsito de potencializar e infundir sistematicidade gesto dos mltiplos projetos de extenso que se situam na linha Direitos Humanos e Justia da Pr-Reitoria de Extenso da UFRJ.

    Os projetos, dentre suas particularidades, ofertam uma base comum de servios: assessoria tcnica e assistncia scio-jurdica orientadas para a promoo dos direitos humanos populao das comunidades da Mar e vizinhas Ilha do Fundo da UFRJ.

    Dentro do NIAC se insere o Projeto Escritrio da Cidadania, que desenvolve diversas atividades desde o surgimento do programa em 2006, oferecendo assessoria jurdica gratuita populao, gesto de conflitos atravs de formas alternativas de administrao, atendimento psicolgico e social diante de diversas problemticas que geralmente desdobram-se das demandas jurdicas.

    Chegam a este espao demandas de ndole individuais (e familiares) e/ou coletivas (quando envolve usurios enquanto pertencentes a uma organizao ou grupo social), e so atendidas por estagirios (estudantes) e supervisores (professores e estudantes de ps-graduao) das reas de direito, psicologia e servio social.

    2. ACERCA DE NOSSA INSERO NO PROJETO E A LEITURA SOBRE O LUGAR DO SERVIO SOCIAL NO TRABALHO INTERDISCIPLINAR.

    Iniciamos o estgio em maro de 2011 e neste perodo identificamos algumas dificuldades no trabalho interdisciplinar. Algumas observaes feitas acerca do trabalho interdisciplinar envolve a questo de que at o incio desse ano, apenas em alguns momentos ocorria uma real interlocuo entre os saberes sobre o atendimento s demandas dos usurios, pois cada rea direcionava seu atendimento de maneira separada.

    Na tradicional forma de abordagem das problemticas trazidas pelos usurios assumia-se uma postura de trabalhar apenas com as demandas explicitamente colocadas - e de forma imediata - pelos usurios. Dessa forma, poucas eram as demandas identificadas pelo Servio Social, tendo em vista que a maior parte dessas eram para o Direito. Assim, os estagirios de Servio Social tinham sua prtica restringida pelas outras profisses, que adotavam uma postura de conduzir o atendimento e na maioria das vezes j partiam da idia de que no havia demandas para o Servio Social. A maioria das demandas colocadas sobretudo pelo Direito para o Servio Social o que reflete o carter de subalternidade tcnica da profisso eram de ordem burocrtico-administrativas.

    No decorrer do estgio e das trocas com o conjunto de estagirios de Direito e Psicologia observam-se posicionamentos tais como reconhecer o Servio Social pelo seu potencial humanista num sentido de saber acolher afetivamente os usurios. Neste sentido podemos analisar que esse entendimento relaciona-se com o que Iamamoto (1997) diz a respeito da gnese do Servio Social, que dizer, como nossa profisso nasce ligada ao pensamento reformista- conservador cujo universo terico

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    balizado pela filosofia humanista crist. Ento, essa marca da origem persiste at hoje quando se observa que o Servio Social se pensa contendo um componente humanitrio, tal como se observa no campo de estgio realizado. Assim mesmo, outra expresso, por exemplo, do entendimento confuso em torno do que fazer profissional por parte das outras reas no campo de estgio, aparece quando se reduz o Servio Social a uma tarefa meramente assistencial, de forma que se no incorporssemos os usurios a Programas de Assistncia no teramos outras possibilidades de atuao.

    Pelas situaes acima mencionadas, que a equipe do Servio Social reformula sua insero no Projeto propondo as seguintes mudanas: se retirar do primeiro atendimento o que no significou se abster do trabalho articulado entre as diversas profisses que agora realizado pelo Direito e pela Psicologia. Logo em seguida o Servio Social realiza uma entrevista social com os usurios, pois esta, ajuda a identificar aprofundadamente os aspectos scio-econmicos, culturais e polticos, alm das redes de instituies que oferecem servios na comunidade de pertena dos usurios. Alm disso, contribui para os atendimentos e possveis encaminhamentos para instituies de referncia, qualificando assim a interveno profissional. O objetivo da utilizao desse instrumento o direcionamento crtico e propositivo da interveno.

    Com a implantao desta nova forma de trabalho do Servio Social, em que se utiliza um novo instrumento tcnico-operativo, pde-se perceber claramente uma certa insatisfao das outras reas diante do fato. Seno todos, boa parte dos integrantes das equipes de Psicologia e Direito no apoiaram o novo procedimento de trabalho, em que o Servio Social passa a fazer parte de uma segunda etapa do primeiro atendimento possibilitando uma maior centralidade do Servio Social no trabalho interdisciplinar comparado ao que exercia anteriormente.

    A partir da implantao da nova proposta de trabalho, com a realizao de uma entrevista aprofundada, podemos perceber significativos avanos no que diz respeito identificao de demandas que no eram expostas inicialmente nos atendimentos, podendo assim intervir melhor sobre aspectos scio-econmico e culturais dos usurios e com isso qualificar a interveno profissional.

    Um exemplo de demandas que no eram levadas ao NIAC como primeiro atendimento, mas que com a entrevista social pudemos identificar e explorar a violncia contra a mulher. Muitas mulheres no se reconhecem como vtimas de uma violao de direitos, no se enxergam como sujeitos de direitos, situao que se explica pelo fato da histrica submisso de gnero, que perpassa geraes.

    A partir desse quadro recorrente de violncia domstica - que atinge um nmero considervel de usurias do NIAC - e de sua naturalizao, uma proposta que assume o projeto de extenso pensar de forma mais sistemtica uma proposta que aborde essa problemtica no intuito de garantir uma interveno propositiva e crtica modificando a vida das usurias que se defrontam cotidianamente com a vulnerao de seus diretos.

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    A princpio tem-se trabalhado a ideia da realizao de oficinas informativas e de formao que tratem de diferentes temas que perpassam a violncia contra a mulher, nessas participariam os estudantes, professores e usurios do projeto. Por isso enxergamos a necessidade de uma maior aproximao e colaborao das diferentes reas quanto das instituies comunitrias, pois o trabalho interdisciplinar e interinstitucional se torna fundamental na abordagem das complexas expresses da questo social.

    Concordando com Grave , entendemos que a troca dos saberes por si s no suficiente, mas consideramos que para que ocorra a interdisciplinaridade necessrio que haja uma interlocuo horizontal entre os diversos saberes e prticas, sem desconsiderar as particularidades de cada profisso, e principalmente a natureza da contribuio que cada um desses sujeitos profissionais capaz de oferecer.(2010, p.:329) Assim, trabalhamos na tentativa de direcionar integradamente as intervenes sem a hegemonia de um e outro campo de saber.

    Embora cada profisso tenha a sua particularidade importante que o trabalho em equipe seja orientado por uma perspectiva de totalidade, compreendendo que as demandas trazidas pelos sujeitos no esto desvinculadas das relaes sociais estabelecidas numa sociedade capitalista, que est assentada na explorao do trabalho pelo capital e na apropriao privada da riqueza produzida coletivamente, tendo por isso em sua gnese a desigualdade econmica, social e poltica. Esta noo de totalidade permite ento superar a culpabilizao do indivduo e a fragmentao do sujeito (na qual a demanda do indivduo dividida em jurdica, psicolgica, social, etc, sem que haja relao entre elas).

    importante ainda, numa prtica interdisciplinar que cada rea conhea sua particularidade para que seja possvel uma contribuio no trabalho em equipe. A partir disso pensamos que uma particularidade do Servio Social seria sua formao generalista, o que possibilita que o assistente social atue em diferentes campos de trabalho.

    Concordando com Grave o assistente social capaz de: [...] conectar a demanda singular posta pelo usurio, que muitas vezes no sabe nem exatamente o que ele precisa do servio, a uma dinmica estrutural e scio histrica mais ampla. Por isso sabemos reconhecer na solicitao que o usurio trs instituio, seu carter de classe, de gnero, de raa e de etnia e, principalmente identificamos na sua fala, na sua demanda os elementos que a vincula a formao social brasileira e latino-americana. Consideramos ainda, que a demanda trazida por um determinado usurio tpica de uma sociedade de classes, de um pas perifrico como o Brasil e de um contexto de crise como o que vivemos nas ltimas dcadas. Portanto, sua condio de vida no foi uma obra do destino e nem est exclusivamente fundada em suas ms escolhas pessoais (2010,p: 330)

    Quando o profissional adota uma postura plural, de respeito s particularidades e aos marcos regulatrios das outras profisses ele capaz de obter uma melhor

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    compreenso acerca da situao trazida pelo usurio. Faz-se necessrio, porm, ressaltar que respeitar o diferente no significa abrir mo da direo social e poltica do projeto profissional defendido por cada profisso.

    A prtica da interdisciplinaridade incentivada e regulamentada pelo Cdigo de tica Profissional do Servio Social, assim, em seu captulo III, art. 10, diz: incentivar, sempre que possvel, a prtica profissional interdisciplinar (CEFESS, 1993). Essa enriquece a interveno, pois requer que o profissional se aproprie de uma qualificao constante sobre as particularidades de sua profisso, j que precisar domin-las para que o trabalho em conjunto seja possvel.

    Neste sentido, no Servio Social, segundo Melo: preciso descobrir, da anlise de conjuntura, da crtica profissional constante e da busca cotidiana de informaes especficas e seguras sobre o objeto da nossa interveno, a direo das iniciativas que esto sendo tomadas, e a possibilidade concreta de se associar a elas, construindo parcerias consoantes com o projeto tico-poltico da profisso (2000, p.235).

    Melo e Almeida apontam a existncia de trs tendncias na anlise da interdisciplinaridade. A primeira tendncia constituda por tericos tais como Japiassu (1976), Minayo (1994), Martins de S (1995) - que viviam ainda num momento de ditadura na sociedade brasileira, entre as dcadas de 70/80. Esses se opunham fragmentao do saber em muitas profisses e defendiam a idia da interdisciplinaridade para um conhecimento mais completo. Nessa tendncia,: Surge [...] a idia do educador interdisciplinar, cujo maior compromisso era com a elaborao de uma teoria geral da cultura capaz de integrar todos os saberes em vista do fazer. (Japiassu in Melo e Almeida, 2000: p.:228) . Alguns movimentos na rea da sade, como a Reforma Sanitria e a Luta Antimanicomial, sofreram influencia desta tendncia, j que comum nessa rea o trabalho com equipes interdisciplinares.

    A segunda tendncia apoiada por Almeida Filho (1997), Garcia (1994), e outros, defende a transdisciplinaridade, colocando que os problemas devem ser abordados com a criao de uma nova metodologia a partir das que j existiam, que eram baseadas em solues tcnicas pontuais.

    A terceira tendncia formada por autores como Frigotto (1995) e Coimbra (1990) que possuem uma viso crtica e marxista da interdisciplinaridade, criticando o fetiche da pan-interdisciplinaridade.

    De acordo com esses autores a primeira tendncia defende a interdisciplinaridade como se ela fosse capaz de sanar todos os problemas institucionais, partindo do pressuposto que tais problemas se devem unicamente ausncia de integrao das profisses. No se considera que tais problemas so tambm reflexos das relaes sociais que esto vinculadas a um momento histrico e nesse caso estabelecidas no marco de uma sociedade capitalista, em que as instituies cumprem tambm um papel de controle, de apaziguamento dos conflitos e das expresses da questo social. Acreditam que esse fetiche referencia a integrao dos saberes apenas

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    Tandil, Ao 5 - N 8, Diciembre de 2012 ISSN 1852-2459 68

    dimenso terica, o que no o bastante, devendo-se levar em conta que o desafio...

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