Revista Educacional 4ª Edição

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Revista Educacional publicada pela Gerncia Educacional da Provncia Marista Brasil Centro-Norte

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  • EXPEDIENTE

    A Revista Educacional uma publicao da Gerncia Educacional da Provncia Marista Brasil Centro-Norte UBEE-UNBEC.

    Provincial e Diretor-Presidente: Ir. Wellington Mousinho de MedeirosVice-Provincial e Vice-Presidente: Ir. Jos Wagner Cruz

    Superintendente Scio Educacional: Dilma AlvesGerente Educacional: Jaqueline de JesusCoordenadora Pedaggica: Maria Ireneuda NogueiraCoordenador Administrativo: Arthur Gomes Neto

    Analistas Educacionais:Aloimar SilvaAmanda WanderleiCarla FlorianaFernando SouzaIreneuda NogueiraPaulo de TarsoThiago Arajo

    Organizao: Carla FlorianaDiagramao: Fernando Souza

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    Estimados (as) internautas, blogueiros, educadores e pastoralistas maristas:

    Dentro das novas tecnologias, o computador, com todas suas funcionalidades (inclusive o acesso Internet), tm contribudo muito para o desenvolvimento da Sociedade do Conhecimento. A Internet, por sua vez, est mudando o mundo por oferecer s pessoas milhes de oportunidades e facilidades. A maneira como as informaes so oferecidas gera uma necessidade de movimento, de partir em busca do saber, visto que as mudanas ocorrem em velocidades assombrosas e a cada segundo.

    A nova evangelizao tem como mbito um mar sem limites, partindo de Jesus Cristo com destino humanidade atual. Surge encarnada no que sintetiza melhor a cultura do mundo em que vivemos. um novo faz-te ao largo, feito de novidades e constante mudana. Um mundo novo chamado ciberespao que est mudando o nosso modo de produzir mensagens, de gerir informao, de novas formas de interao associadas s novas tecnologias. Este o cenrio do mundo das infncias e das juventudes na Sociedade do Conhecimento. Basta um click, um play, um add... e estamos conectados a milhes de pessoas.

    A Coordenao de Evangelizao e Pastoral deseja estar ligada ao mundo ciberntico e Sociedade do Conhecimento, impelida a agir com urgncia para encontrar formas novas e criativas de educar, evangelizar e defender o direito das crianas e jovens pobres (XXI CG). Para tais realizaes, traz tela do seu computador e do seu smartfone os artigos cientficos produzidos pelos pastoralistas, no curso Escola em Pastoral. A produo de conhecimento na rea de Evangelizao assegura aos processos pastorais um arcabouo terico que fundamenta nosso pensar e agir, garantindo, assim, uma excelncia pastoral.

    Desejo a todos uma boa leitura,

    Ir. Luiz Andr da Silva PereiraCoordenador Provincial da Evangelizao e Pastoral

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  • O CAMINHO DE EMAS NORTEANDO A PRXIS PASTORAL

    NAS ESCOLAS CATLICAS1

    Autora: Celma Teresa Martins Cabral Cunha2

    Orientador: Aldemir Incio Azavedo3

    RESUMO

    Este artigo busca refletir sobre a ao dos agentes pastorais nas escolas catlicas da atualidade e sobre atitudes evangelizadoras que se tornam significativas frente realidade atual dos estudantes e das necessidades que surgem a partir da mesma. A reflexo se constri com base na anlise do Caminho de Emas, presente no Evangelho de Lucas, captulo 24. A partir da presena de Jesus e da pedagogia revelada por Sua ao, busca-se encontrar norteadores para uma significativa prxis pastoral. Os pontos de reflexo apontam para a necessidade de uma ao voltada para a realidade dos estudantes, para a importncia do dilogo, do cuidado e para a importncia de se trabalhar o protagonismo desses jovens, para que se promova a formao integral voltada para a construo de sujeitos que se vejam como corresponsveis pela vida e procurem construir um mundo mais justo, solidrio, fraterno e sustentvel.

    PALAVRAS-CHAVE: Prxis pastoral, Agentes de Pastoral, Pedagogia de Jesus, Formao humana, Formao Crist.

    I. INTRODUO

    Nas escolas catlicas, a pastoral se faz presente, buscando garantir, alm da formao intelectual de seus estudantes, a misso evanglica que as define. As aes que realiza possibilitam que a misso evangelizadora crist de levar o exemplo e a mensagem de Jesus aos estudantes se torne uma realidade nas comunidades educativas, proporcionando a esses jovens a vivncia de valores humano-cristos do amor, da justia e da solidariedade, e tambm relaes interpessoais embasadas nesses mesmos valores.

    Evangelizar crianas e jovens, hoje, representa um desafio diferente dos que se podem notar em outras pocas. importante discernir a vontade de Deus nos sinais dos tempos. Quais so as necessidades e os apelos atuais? O que caracteriza crianas e jovens hoje: quais so os seus interesses, amores, medos e angstias? Como a sociedade atual interfere no modo de vida dos estudantes, em suas relaes e na formao de valores? Diante das respostas a essas perguntas que a ao pastoral deve organizar-se e realizar-se.

    preciso estar atento e analisar a realidade atual para que se

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 PedagogaeagentedepastoraldoColgioMaristaD.Silvrio(BH/MG)3 TelogopeloInstitutoMaristadeCinciasHumanas-IMACH,GraduadoemCinciasSociais,MestreemDesenvolvimentoSocialeDoutorandoemDesenvolvimentoSustentvel.

    possa compreend-la. Vivemos em uma sociedade de consumo em que o sentimento de pertena e de valorizao entre as pessoas se d a partir do que se consome, do que se tem. O ter se sobrepe ao ser. Isso interfere decisivamente na formao de crianas e jovens. Nesta sociedade, a mdia tambm exerce uma grande influncia na vida e na formao de ideias das pessoas. De acordo com Mo Sung (2005, p.79),

    Como a cultura do consumo o meio em que a pessoa aprende a ver o mundo e a formatar o senso de pertencimento e a sua identidade pessoal e grupal, o que dito e mostrado nas propagandas reflete e refora as estruturas comunicacionais, o sentido de existncia, os valores e a prticas cotidianas aceitos e valorizados na sociedade.

    Evangelizar anunciar a Boa Nova. tambm denunciar os males da globalizao econmica, dentre eles o consumo, a competio e a excluso, e apontar para a necessidade de construirmos uma sociedade diferente, na qual a solidariedade entre os povos e entre as pessoas esteja voltada para o bem comum e as pessoas sejam valorizadas pelo que elas so, e no pelo que elas tm. Evangelizar possibilitar que os nossos estudantes aprendam a ver o mundo de uma forma diferente, construam valores humanos e sejam sujeitos ativos na constituio de uma sociedade mais justa e fraterna.

    Outro desafio que encontramos, atualmente, na ao pastoral nas escolas confessionais, que elas se abrem a todos os tipos de credo. A diversidade religiosa est presente nas salas de aula e nos educadores que fazem parte das instituies. Diante dessa realidade, a pastoral deve repensar a sua prxis. O sentido da evangelizao se amplia, no se restringindo mais atuao com sujeitos que compartilham a mesma religio, a mesma f. Como agir pastoralmente na diversidade? Que tipo de aes devem ser estabelecidas? Como professar a nossa f, respeitando essa diversidade e interagindo com ela? So muitos os desafios, mas inegvel que vivemos um tempo importante na concretizao do objetivo expresso nas palavras de Jesus (...) eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundncia (Jo 10,10). A mensagem que Jesus profetizou no foi restrita a um determinado grupo. Ele veio para promover uma vida boa para todos. Esse tambm deve ser o nosso objetivo cristo na ao pastoral nas escolas.

    Diante desses e de outros desafios encontrados, importante que a presena forte do exemplo de Jesus esteja presente na prxis pastoral. O ponto de partida da atuao de Cristo esteve sempre relacionado s necessidades e realidade que encontrava. Sua ao era coerente com sua Palavra, e esta revelava o Pai. Ele disse: Quem me v a mim v o Pai (Jo 14,9). Jesus falava de um Pai amoroso, e suas aes revelavam essa amorosidade.

    Pensando na Pedagogia de Jesus como um caminho que pode e deve nortear a ao pastoral com os estudantes, a mesma ser analisada a partir da vivncia dos discpulos e de Jesus no Caminho de Emas (Lc 24, 13-35). Jesus se fez presente nessa caminhada como presena amorosa que soube ouvir, que respeitou, que partiu da realidade e necessidade dos discpulos, que educou com firmeza e doura, que teve como objetivo promover o protagonismo e a construo da autonomia das pessoas, para que elas se tornassem, por opo prpria, seguidoras e perpetuadoras de Sua misso. Todas as

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  • aes educativas de Jesus, presentes em sua atuao nessa caminhada, podem auxiliar os agentes na promoo de uma prxis pastoral significativa e que leve os estudantes a construir um sentido mais humano e cristo para a vida pessoal, a vida dos outros e para a sustentabilidade do planeta.

    II. A AO PASTORAL NO CAMINHO DE EMAS

    Em nossas escolas, crianas e jovens caminham... A vivncia no espao educativo representa o caminho da formao e do desenvolvimento desses sujeitos, que no determinado apenas por processos de maturao. O meio, ou seja, a cultura, a sociedade, as vivncias e interaes com essa realidade so fatores que interferem no desenvolvimento humano.

    Nas escolas catlicas, a caminhada iluminada pelos ideais cristos e busca no s a formao intelectual, mas tambm a formao humana e crist dos alunos. Alegrias e tristezas, vitrias e desafios, tudo isso est presente na caminhada de todos ns. Em muitos momentos nos encontramos perdidos, tristes e sem esperana e confiana para prosseguirmos. Esses momentos representam a oportunidade de vencermos nossas limitaes e nos tornarmos pessoas melhores e confiantes. Para isso, fundamental que os jovens encontrem, nesse espao, a oportunidade de vivenciarem valores humanos e cristos, como o amor, o acolhimento e o cuidado, e possam tornar-se, a partir dessa vivncia, sujeitos que contribuam, por meio de suas aes, para a promoo de uma vida boa para todos, especialmente aqueles mais necessitados.

    Os discpulos iniciaram a caminhada de Emas desanimados, tristes e sem esperana. Com as intervenes de Jesus, transformaram-se e assumiram a misso de anunciar a Boa Nova para todos.

    2.1- O dilogo entre os discpulos

    13E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalm sessenta estdios, cujo nome era Emas. 14E iam falando entre si de tudo aquilo que havia sucedido. (Lc 28, 13-14)

    Os dois discpulos iniciaram a caminhada, falando sobre tudo o que havia ocorrido com Jesus e sobre suas ideias e sentimentos acerca dos fatos. Dialogar partilhar pensamentos, e na partilha buscamos entendimento, buscamos diminuir a angstia, buscamos sentido para os fatos da vida.

    Como os discpulos, nossos estudantes tambm sentem necessidade de partilhar ideias e sentimentos. Surge da o primeiro passo para concretizarmos a ao pastoral nas escolas: a criao de espao onde crianas e jovens possam dialogar com seus iguais, possam trocar ideias e construir sentido. A linguagem aspecto fundamental na construo de sentidos e conceitos.

    Os discpulos conversavam, utilizavam a linguagem para falar de seus sentimentos, partilhar ideias e entender os ltimos acontecimentos. Essa atitude fundamental para que ocorra o bom desenvolvimento humano. De acordo com a abordagem sociointeracionista de Vygotsky, o desenvolvimento humano se

    d na relao com o outro, nas trocas entre os sujeitos, e, nesse processo, a linguagem fundamental, pois permite a interao e a organizao do pensamento. Por meio dela, aprendemos a pensar sobre tudo e sobre ns mesmos, construindo conceitos e aprendizagens. Ns nos constitumos como sujeitos a partir do nosso encontro com o outro.

    Os fatores biolgicos preponderam sobre os sociais, apenas no incio da vida da criana; gradativamente as interaes sociais com adultos ou com companheiros mais experientes governam o desenvolvimento do pensamento e o prprio comportamento da criana. (VYGOTSKY, 1997)

    De acordo com Vygotsky, as interaes sociais governam o desenvolvimento tanto do pensamento quanto do comportamento. A ao pastoral nas escolas visa promover a educao desses dois aspectos e formar sujeitos que tenham um comportamento positivo na sociedade, ou seja, visa a formao de indivduos que, a partir de valores humanos e cristos, sintam-se chamados a intervir na realidade, de modo a torn-la melhor para todos e no apenas para si mesmos. Desse modo, os agentes de pastoral devem preocupar-se com a promoo de espaos onde os estudantes possam interagir com outras pessoas, com valores e aes que possibilitem uma formao tica e crist.

    A ao dos agentes de pastoral nas escolas tem tambm como objetivo possibilitar que os estudantes construam sentido para a vida pessoal. Isso favorece a valorizao da vida pessoal, da vida do outro e da vida no planeta. Para que esse sentido seja construdo, importante que os alunos aprendam a pensar significativamente, que sejam conscientes e que despertem o sentimento de cuidado e de responsabilidade por toda a criao. A criao de espaos de interao tambm fundamental para que esse objetivo seja alcanado.

    Clofas e seu parceiro de caminhada voltavam a Emas angustiados, tristes e sem esperana. A morte de Jesus representava, para eles, o fracasso Dele e da proposta que Ele anunciara. A desesperana e a angstia marcavam a caminhada dos discpulos. Eles retornavam sua casa, deixando para trs os sonhos que os levaram a deixar tudo na esperana de encontrarem e viverem uma vida nova. Os dois homens caminhavam desiludidos e com medo. Nossos alunos, em muitos momentos, tambm caminham assim. Chegam s nossas escolas deprimidos, com medo, angustiados, e isso interfere na sua formao e na construo de sentido sobre a vida. O olhar cuidadoso para essa realidade deve estar presente na prxis pastoral. importante reafirmar que os estudantes precisam encontrar espao para partilharem o que sentem e o que pensam. A ao pastoral visa resgatar a esperana, a capacidade de sonhar e de agir. Para isso, preciso conhecer a realidade dos alunos: seus desejos, sonhos, medos, angstias e promover espaos de interao que auxiliem no desenvolvimento e na construo de comportamentos que os levem a construir um mundo melhor.

    2.2- - A presena educativa de Jesus na caminhada dos discpulos

    2.2.1- Ouvindo para conhecer e intervir

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  • 15E aconteceu que, indo eles falando entre si, e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou e ia com eles. 16Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o no conhecessem.

    (Lc 28, 15-16)

    A partir do trecho anterior, podemos analisar diversos aspectos referentes presena de Jesus como educador na caminhada dos discpulos.

    Primeiramente, interessante observar a postura inicial de Jesus. Ele no interfere, inicialmente, no dilogo que est sendo realizado. Atentamente, observa o dilogo, e isso Lhe possibilita perceber a realidade, conhecer as inquietaes e o nvel do pensamento dos discpulos. Ele analisa a realidade, para compreend-la e, depois, intervir. Essa postura deve iluminar a ao dos educadores. Antes de qualquer interveno, precisam observar, analisar, conhecer a realidade dos estudantes, para traarem as metas e intervirem no processo de formao das crianas e jovens da escola.

    Outro aspecto que podemos observar nesse trecho bblico o fato de os discpulos no perceberem a presena de Jesus. O texto nos diz que os olhos deles estavam como que fechados, e isso impossibilitava que O vissem e O reconhecessem. Como os discpulos, quando vivenciamos a falta de esperana e a desiluso, agimos como se nossos olhos estivessem tambm vendados, no conseguindo encontrar sadas, solues... Ficamos cegos, no conseguimos pensar com clareza, pois nosso corao est desesperanoso e fechado para novidades.

    Diante da cegueira dos caminhantes, o educador Jesus se aproximou calmamente e observou-os, ouviu atentamente o que se passava com eles, para poder compreend-los. A Sua presena revelava o respeito quelas pessoas e situao que estavam vivendo. Os agentes de pastoral devem buscar, nessa atitude de Jesus, o exemplo para iniciarem seu trabalho. Compreender a realidade das crianas e jovens fundamental. No adianta planejar intervenes sem conhecer, de corao e mente aberta, essa realidade. Se pretendem uma prtica significativa, devem estar inseridos no caminho desses estudantes, sem julg-los e sem uma viso pessoal individualista e egocntrica. Respeitar o momento e o estgio de desenvolvimento de cada um fundamental. preciso conhecer para compreender e, assim, intervir como verdadeiro educador. Se intervenes e discursos so realizados sem que haja o conhecimento da realidade e o respeito diversidade, a transformao que se busca realizar no se efetiva significativamente.

    Em sua pedagogia, Jesus partia da realidade das pessoas, o que favorecia a converso das mesmas. Ele parte, em Emas, como visto anteriormente, da realidade dos discpulos. Como agentes de pastoral, precisamos partir tambm da realidade das crianas e jovens. Precisamos dialogar com eles como percebem o seu mundo pessoal e o mundo social. Precisamos conhecer os desafios que enfrentam e os sonhos que tm. Encontramos essa preocupao presente tambm no documento 85 da CNBB4: conhecer os jovens condio prvia para evangeliz-los. No se pode amar nem evangelizar a quem no se conhece. fundamental que conheamos a cultura e a realidade das crianas e jovens, para realizarmos uma ao pastoral significativa e transformadora junto a eles.

    4 EvangelizaodaJuventudeDesafiosePerspectivasPatorais/Doc.85CNBB,10

    A presena calma e atenciosa de Jesus na caminhada dos discpulos revela outro trao da Sua pedagogia. Ele procura ser mediador no processo de aprendizagem dos caminhantes, ou seja, procura ser aquele que busca auxiliar na formao daqueles que acompanha, promovendo o protagonismo dos mesmos. Para isso, sabe que importante conhecer o que pensam, pois as ideias que apresentam revelam os desejos, as necessidades, os interesses, e somente a partir do conhecimento de tudo isso que pode perceber como se deve atuar. Vygotsky discorre sobre a funo do mediador no processo de aprendizagem, enfatizando a importncia de compreender o pensamento e conhecer a motivao dos sujeitos no processo de aprendizagem. Segundo esse educador e pesquisador:

    O pensamento propriamente dito gerado pela motivao, isto , por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoes. Por trs de cada pensamento h uma tendncia afetivo-volitiva, que traz em si a resposta do ltimo porqu de nossa anlise do pensamento.

    Uma compreenso plena e verdadeira do pensamento de outrem s possvel quando entendemos sua base afetivo-volitiva... Para compreender a fala de outrem no basta entender as suas palavras temos que compreender o seu pensamento. Mas nem isso suficiente tambm preciso que conheamos a sua motivao. (1997, p. 129-130).

    Jesus assume a funo de educador, de mediador no processo de aprendizagem dos discpulos. Fazer-se presente nessa caminhada revela que Ele acredita no potencial dos mesmos e que enxerga neles a capacidade de se tornarem parceiros e protagonistas na construo do Reino que anunciou. Enxerga possibilidades e potencialidades, mas sabe que preciso intervir para que os mesmos avancem na concepo que tm da realidade dos fatos. Sabe tambm que, para que ocorra a aprendizagem que realmente transforma, necessrio conhecer o que os motiva e o que os desmotiva. O papel do educador, do mediador na formao dos aprendizes desenvolver estratgias, para que eles possam, por meio do que aprendem, enfrentar e resolver os desafios de modo autnomo. Os discpulos depositaram em Jesus a responsabilidade de transformao, mas no se enxergavam como agentes capazes de promover, por meio de suas aes, a construo do Reino que tanto sonhavam. Cristo, ao se fazer parceiro de caminhada, buscava intervir na aprendizagem deles, possibilitando que se tornassem agentes de sua histria pessoal e da histria do mundo.

    2.2.2- Dialogando para educar e transformar

    17E ele lhes disse: Que palavras so essas que, caminhando, trocais entre vs, e por que estais tristes? 18E, respondendo um, cujo nome era Clofas, disse-lhe: s tu s peregrino em Jerusalm, e no sabes as coisas que nela tm sucedido nestes dias? 19E ele lhes perguntou: Quais? E eles lhe disseram: As que dizem respeito a Jesus Nazareno, que foi homem profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20E como os principais dos sacerdotes e os nossos prncipes

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  • o entregaram condenao de morte, e o crucificaram. 21E ns espervamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, j hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. 22 verdade que tambm algumas mulheres dentre ns nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro; 23E, no achando o seu corpo, voltaram, dizendo que tambm tinham visto uma viso de anjos, que dizem que ele vive. 24E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porm, a ele no o viram.

    Aps ouvir sem interferir na caminhada dos discpulos, Jesus se faz presente, estabelecendo o dilogo com eles, marca constante de Sua ao educativa. Os caminhantes ainda no O reconhecem, mas passam a enxergar a presena de outra pessoa e a dialogar com ela.

    Jesus revela aos dois o Seu interesse por eles, ao perguntar-lhes sobre o que falavam. Torna-se parceiro de caminhada, e no apenas um simples acompanhante. O incio da conversa se relaciona no aos Seus pensamentos e ideias, mas aos deles. Sua posio revela o cuidado amoroso que tem com aqueles que caminham. Ele poderia ter iniciado a conversa revelando-se, apresentando logo suas ideias, mas no. Ele no queria abrir os olhos dos discpulos, queria que eles mesmos os abrissem e sabia que isso levaria um tempo. Respeitar o tempo de cada um fator que deve nortear tambm a relao dos agentes de pastoral com os estudantes.

    Analisando o texto bblico, percebemos que os discpulos revelam indignao com Aquele que se apresentou, pelo fato de no saber dos ltimos acontecimentos. No percebem, inicialmente, o cuidado e a verdadeira inteno de Cristo. Falam sobre um aspecto determinante da personalidade de Jesus: um profeta poderoso em obras e palavras. Interessante perceber que a ordem apresentada no texto: o termo obras veio anteriormente a palavras. Podemos analisar, a partir dessa sequncia, dois pontos. O primeiro se relaciona ao fato de que as nossas aes so mais poderosas que nossas palavras, no desconsiderando o valor destas ltimas. Aqui podemos remeter-nos ao fato de que, na ao pastoral e proftica, nossas aes que realmente evangelizam, pois revelam (ou no) aquilo que anunciamos e em que acreditamos. Educamos mais pelo exemplo do que pelas palavras que proferimos. O segundo ponto se relaciona importncia da coerncia entre nosso discurso e nossas atitudes, na ao evangelizadora. Podemos perceber discursos maravilhosos que se esvaziam e no transformam, pois so desprovidos da vivncia da essncia dos mesmos nas aes daqueles que os professam. Jesus foi exemplo, foi a encarnao de Deus em nosso meio. Suas aes revelaram seu amor incondicional ao Pai e ao Reino que anunciou. Na ao pastoral, necessrio estar sempre atento prxis que est sendo realizada. preciso que os agentes se tornem exemplos vivos da f e de tudo o que anunciam, pois isso fator preponderante para que alcancem o objetivo que pretendem alcanar. Vale ressaltar aqui a importncia da orao e da avaliao constante, aspectos tambm marcantes na caminhada de Jesus. Os grupos de pastoral precisam fazer disso um elemento imprescindvel no processo da ao que realizam. Precisam realimentar-se em oraes e avaliar a caminhada, para que possam perceber se esto indo no caminho certo e

    possam tambm perceber como agir e quando alterar a rota para alcanarem as metas que se propuseram realizar.

    Os discpulos falaram sobre a morte de Jesus e delegaram aos sacerdotes e prncipes a responsabilidade disso, mas no percebiam que eles mesmos matavam o Nazareno quando no reconheciam a Sua presena e quando no agiam como verdadeiros discpulos. Ser discpulo de Jesus fazer renascer a presena Dele por meio de aes, dar prosseguimento misso crist de promover a construo do Reino de Deus. Jesus ressuscita e se revela por meio de nossas atitudes e de nossa presena no mundo. O Reino est dentro de ns... Os discpulos ainda no entendiam isso, e para isso que Ele se fez presente na caminhada dos mesmos, como educador, como mediador no processo que promoveria essa aprendizagem. Esse conhecimento s se realizaria se partisse deles, se representasse uma vivncia e um desejo deles. Eles haviam se esquecido das palavras de Jesus: que os enviaria para anunciar a Boa Nova, ou seja, que eles continuariam a Sua misso. Ele conta com a ajuda dos Seus discpulos para a libertao do Seu povo, pois a libertao humana se faz com a colaborao das pessoas. No adiantaria falar tudo isso, eles precisavam realmente entend-lo. Por esse motivo que Jesus se fez parceiro de caminhada. Tal postura deve tambm orientar o trabalho pastoral nas escolas. Saber acompanhar o processo de desenvolvimento na f dos estudantes, respeitando as fases em que se encontram e tendo a certeza de que esse processo no se alcana com imposio, e sim, com redeno, vivncia individual. Mesmo sem ser reconhecido, Jesus se fez presena na caminhada, uma presena dialgica, significativa. Os agentes de pastoral precisam ser essa presena na caminhada de todos os estudantes, independente da f que professam, do estgio em que se encontram e da vida que levam. Ser agente de pastoral ser pastor, ser aquele que cuida, que orienta, que vai atrs das ovelhas que se afastaram do caminho, pois acredita na potencialidade delas e ama a todas, sem distino. Esse amor que promove a transformao e a converso das pessoas.

    A presena de Jesus buscava promover o protagonismo dos seus seguidores. interessante observar que, muitas vezes, temos a tendncia de dar as respostas e frmulas prontas para os desafios e as questes que outras pessoas nos apresentam. Agindo assim, impedimos a construo de habilidades e competncias por parte das mesmas, e tambm o desenvolvimento da confiana na capacidade que possuem de solucionar desafios e de realizarem aes. Surge aqui a lembrana de um provrbio: No d o peixe. Ensine a pescar. Esse exemplo deve tambm nortear a ao pastoral junto a crianas e jovens. necessrio que se oportunize o desenvolvimento do protagonismo infanto-juvenil, pois assim estaremos criando condies para a construo da autonomia e da confiana na formao da identidade desses sujeitos. Isso determinar, futuramente, a possibilidade de realizarem aes que, juntamente aos valores ticos e cristos, promovero a construo de um mundo mais justo e solidrio.

    No dilogo que estabeleceram com Jesus, os discpulos tambm revelaram a postura de So Tom. Falaram daqueles que anunciaram a ressurreio de Jesus, mas questionaram o fato. Eles no viram e, por isso, no acreditaram no que foi anunciado. Vivenciar a mstica, a espiritualidade, a f fazer a experincia do indizvel, daquilo que no pode ser mensurado. Nesse sentido, precisamos, como agentes de pastoral, oportunizar que os estudantes participem de momentos em que silenciaro a mente, a razo e ouviro o seu corao, possibilitando o

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  • encontro e a relao com o Transcendente.

    Os discpulos apresentaram, durante a caminhada, uma crise de percepo que fazia com que no conseguissem enxergar a realidade que estava presente no caminho. Os olhos estavam como que vendados para entender e perceber o Cristo Ressuscitado. Aos poucos, a vivncia no caminho faria com que os discpulos enxergassem e percebessem a presena viva de Cristo no mundo e se transformassem diante dessa descoberta. Este deve ser o nosso entendimento: o crescimento de nossos estudantes na f processual, e a transformao desses sujeitos em agentes transformadores que revelam a f crist e agem em prol da justia e da paz tambm . Para isso se faz necessria uma atuao amorosa e respeitosa na vida desses alunos.

    Aps a postura doce de ouvir os discpulos, Jesus interferiu com firmeza, visando fazer com que eles tivessem a oportunidade de avanar no entendimento sobre a situao. Em sua ao, Ele equilibrou firmeza e doura. Durante Sua vida, e tambm nesse momento, Ele educou e fez com que Seus seguidores avanassem por meio de posicionamentos firmes. Chamou ateno, naquele instante, para a anlise e a leitura que eles estavam realizando sobre os acontecimentos. Mostrou-lhes como estavam sendo imaturos diante de tudo o que j havia sido revelado, oportunizando que eles amadurecessem no entendimento do que havia sido anunciado. Apontou fatos importantes, relacionou, analisou, junto a eles, tudo o que j haviam ouvido anteriormente. Aquele que inicialmente foi desconsiderado pelos caminhantes revelou sabedoria, segurana e fez surgir e tambm ressurgir neles a compreenso real dos fatos. Clofas e seu companheiro passaram a ouvi-Lo, com interesse, e a valoriz-Lo devido Sua postura firme diante da situao. Aqui podemos encontrar outro aspecto importante para a prxis pastoral: agir com firmeza e com doura e apresentar segurana e domnio daquilo que se professa, tendo sempre o discurso proferido presente nas aes realizadas.

    Muitas vezes, como educadores, precisamos ser firmes e saber intervir nos momentos em que for necessrio. Uma interveno significativa gera crescimento. Na realidade em que vivemos, podemos perceber que crianas e jovens apresentam atitudes que revelam, muitas vezes, violncia, preconceito, discurso egocntrico e individualista, falta de solidariedade e de justia... Nisso tudo precisamos intervir, de forma a possibilitar que eles desenvolvam, aos poucos, valores mais humanos, valores cristos e tambm um olhar mais apurado e crtico sobre a realidade em que esto inseridos e sobre suas aes... um olhar mais cuidadoso com a vida... um olhar que suscite o desejo de agir a favor da vida.

    Ao ouvirem Jesus, os discpulos, mesmo sem perceber claramente naquele instante, foram transformando-se, foram aquecendo o corao e transmutando o corao de pedra, presente no incio da caminhada, em corao de carne, corao vivo, pulsante e que se move para dar significado para a vida.

    2.3 - O convite e a verdadeira converso

    28E chegaram aldeia para onde iam e ele fez como quem ia para mais longe. 29E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque j tarde, e j declinou o dia. E entrou para ficar com eles. 30E aconteceu que, estando com eles mesa,

    tomando o po, o abenoou e partiu-o, e lho deu. 31Abriram-se-lhes ento os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes. 32E disseram um para o outro: Porventura no ardia em ns o nosso corao quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras? (Lc 24, 28-32)

    Nesse trecho, outra caracterstica da ao de Jesus nos chama a ateno. Mesmo tendo sido companheiro no caminho, Jesus espera o convite para entrar na casa dos discpulos. Ele no imps a Sua presena; esperou ser convidado, esperou que houvesse o desejo real de Sua companhia. Jesus levou os caminhantes ao, ao protagonismo. A ao pastoral deve buscar promover tambm o protagonismo, oportunizando o crescimento e o amadurecimento na f. Deve ainda possibilitar a formao de sujeitos conscientes e atuantes no mundo.

    Temos a tendncia de achar que, ao ensinarmos por meio de nossas palavras, de nosso discurso, as pessoas aprendem e se tornam preparadas para aplicar tudo aquilo em suas vidas. Basta que lhes ensinemos. No cenrio educacional, imperou essa ideia durante muito tempo. Atualmente, sabemos que a aprendizagem um processo pessoal e que as pessoas aprendem no s pelo que lhes repassado, mas, principalmente, pelo desejo, pela necessidade, pela oportunidade que tm de estabelecer uma conexo entre o que lhes foi transmitido e o que j haviam aprendido. Quando nos apropriamos do sentido real do contedo, quando ele se torna realmente nosso que a aprendizagem se efetiva. Jesus, em suas aes, demonstrou que j sabia de tudo isso. Sabia que Suas palavras tinham que encontrar eco no corao e na mente das pessoas para que ocorresse a verdadeira aprendizagem, e que esta impeliria a transformaes. Ele partilhava conhecimentos, educava, mas no impunha mudanas. Esperava que Suas palavras ecoassem e se tornassem parte da vida das pessoas e, por isso, esperou, na vivncia com os discpulos de Emas, ser convidado, fato que denotaria o desejo de Sua presena.

    Aps receber o convite, Jesus entrou na casa dos discpulos e ficou com eles. Ele se revelou mesa, lugar que representa encontro. Como anteriormente, tomou o po, abenoou-o e o partiu. Nesse instante, os discpulos reconheceram Jesus: no momento da bno e da partilha. O Evangelho de Lucas registra um momento fundamental para a nossa f crist:

    Quando chegou a hora, Jesus se ps mesa com os apstolos. E disse: Desejei muito comer com vocs esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes digo: nunca mais a comerei, at que ela se realize no Reino de Deus. Ento Jesus pegou o clice, agradeceu a Deus, e disse: Tomem isto, e repartam entre vocs; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, at que venha o Reino de Deus. A seguir, Jesus tomou um po, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: Isto o meu corpo, que dado por vocs. Faam isto em memria de mim. Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o clice, dizendo: Este clice a nova aliana do meu sangue, que derramado por vocs. (Lc 22,14-20)

    Na ceia com os apstolos, Jesus sinalizou que chegara a hora de retornar ao Reino de Deus e que seu desejo era que eles

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  • continuassem a fazer da partilha a essncia crist. Em memria Dele, deveriam estar atentos e fazer, dessa ao, a marca da atividade apostlica. Jesus deixou claro tambm que Sua ao e Sua vida foram doadas para ns, tamanho era o Seu amor. Com os discpulos de Emas, fez o mesmo. Na partilha, revelou Seu imenso amor e o sentido de Sua vida, de nossa vida. A partir da, os discpulos reconheceram Aquele que veio para nos salvar e relembraram tudo o que Ele havia realizado e o que viveram com Ele. Isto deve representar tambm a ao pastoral: fazer da partilha a marca que permite que os agentes e outros integrantes da mesma sejam reconhecidos, e tambm a ao que revela Jesus e o Deus de Amor que anunciam para todos. importante fazer da partilha, da solidariedade, dessa vivncia de Jesus com os apstolos e com Seus discpulos a vivncia pastoral com as crianas e jovens das escolas onde se est inserido. preciso oportunizar que os estudantes vivenciem momentos assim entre eles, entre eles e a pastoral e entre eles e a comunidade/a sociedade qual pertencem.

    Jesus desapareceu, aps partir e partilhar o po. Mesmo no sendo mais visto pelos discpulos, com os olhos do corpo, a sua presena no desapareceu mais. Eles reconheceram, somente a, que o corao deles ardia quando Ele falava com eles no caminho. Os olhos deles se abriram, pois, aps a revelao, a esperana renasceu e se tornou uma presena viva na vida deles, fazendo-os retornarem misso.

    A esperana fora motivadora nas aes humanas. O trabalho da pastoral com crianas e jovens deve ter como objetivo tambm trazer, devolver a esperana vida deles. Deve possibilitar que os estudantes se tornem agentes que levam a esperana queles que se encontram desesperanados, tornando-se, assim, protagonistas da esperana.

    2.5 Discpulos em misso

    33E na mesma hora, levantando-se, tornaram para Jerusalm, e acharam congregados os onze, e os que estavam com eles, 34Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e j apareceu a Simo. 35E eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles fora conhecido no partir do po. (Lc 24, 33-35)

    Com o renascimento da esperana, com a certeza da ressurreio de Jesus e tambm com a certeza de que Ele contava com eles para dar prosseguimento Sua misso, os discpulos retornaram a Jerusalm. O caminho era o mesmo, a realidade era a mesma, mas a postura frente vida havia se transformado. Agora tudo tinha ganhado sentido. Eles haviam construdo esse sentido, a concluso foi uma conquista, uma aprendizagem deles, pois Jesus no Se imps nem Se apresentou como o Cristo Ressuscitado. Eles agora retornavam como verdadeiros discpulos e com a conscincia da importncia da misso que tinham pela frente, misso essa que no lhes foi imposta ou delegada, mas sim, assumida com fervor e responsabilidade. Eles agora se viam como aqueles que buscariam construir, por meio de suas atitudes, o Reino de Deus no mundo onde estavam. Agora seriam protagonistas da e na histria.

    As trevas foram dissipadas, pois o esprito de Deus habitava

    agora o corao dos discpulos. Uma vida nova se descortinava com coraes novos que lutariam por um mundo novo. A comunho entre discpulos e apstolos tornava-se uma realidade. A partilha de ideias, de sentimento agora estaria embasada na vivncia do Cristo, o que resgataria entre eles a fora para lutar, a alegria de estar sempre junto Daquele que veio para mudar o mundo e para nos revelar o Seu amor, o amor do Pai e a presena eterna desse amor em nossas vidas. Ficou como marca forte no aprendizado dos apstolos e dos discpulos, a importncia da partilha que revela o amor e o cuidado. Na partilha nos encontramos e revelamos Jesus para o mundo.

    Na atividade dos agentes de pastoral junto aos estudantes das escolas catlicas, deve-se ter como objetivo central a vivncia da partilha que liberta e que revela tudo o que Jesus veio ensinar-nos.

    III. CONCLUSO: CAMINHANDO HOJE, SEGUINDO O EXEMPLO DE JESUS

    Pensar sobre uma prxis pastoral significativa nas escolas catlicas pensar numa ao que promova a formao integral dos estudantes. pensar numa formao que possibilite o desenvolvimento de valores humanos e cristos e que leve os estudantes a se sentirem chamados a atuar na construo de uma sociedade mais justa, solidria, fraterna e sustentvel.

    A ao dos agentes de pastoral junto aos estudantes deve ser embasada na escuta, no conhecimento da realidade e das necessidades provindas da mesma. Deve ser embasada no respeito, no cuidado, no amor e em aes que revelem firmeza e doura. Como anunciadores da Boa Nova, os agentes devem revelar esse anncio em suas aes, em que a alegria, a esperana e a certeza de que podemos construir um mundo melhor estejam presentes. Eles precisam anunciar que outro mundo possvel, denunciando fatos e atitudes desumanas e excludentes, e realizando aes que promovam a nova realidade que profetizam. Devem ser exemplos que contagiam e que movem as pessoas a sonhar e a agir na concretizao do mundo que tanto sonham.

    Os agentes de pastoral das escolas catlicas devem estar conscientes de que a misso que desempenham se amplia neste tempo em que vivemos. Nas escolas catlicas, a diversidade religiosa est presente, e o desafio que essa realidade impe a realizao de uma prxis aberta ao dilogo inter-religioso, em que se possa anunciar a Boa Nova para todas as pessoas, em que se construa o verdadeiro respeito entre elas, enfraquecendo os preconceitos e as excluses. Ser pastoral ser aberto para todos; atuar, de acordo com a f crist, na construo de um mundo onde as diferenas se tornem oportunidade de crescimento e de encontro. E esse encontro possibilita que vejamos no outro o rosto de Deus e que nos sintamos interpelados a atuar na construo do mundo que Jesus veio anunciar.

    O exemplo de Jesus, especialmente no Caminho de Emas, deve nortear a ao pastoral em todos os momentos. Se somos discpulos de Cristo, devemos buscar agir como Ele. Alcanando isso, os objetivos da ao pastoral nas escolas catlicas se concretizaro, pois, como Jesus, por meio da parceria na caminhada dos estudantes, teremos oportunidade de inflamar os coraes dos mesmos, levando-os a se tornarem tambm discpulos, seguidores do grande Mestre.

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  • REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

    RIBEIRO, A. M. Curso de formao profissional em Educao Infantil. Rio de Janeiro: EPSJV / Creche Fiocruz, 2005.

    SUNG, Jung Mo. Sementes de esperana: a f no mundo em crise. Petrpolis, RJ: Vozes, 2005.

    VYGOTSKY, L. S. A formao social da mente. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1994.

    ______________. Pensamento e Linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1997.

    ______________. Psicologia pedaggica. Porto Alegre: Artmed, 2003.

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  • DESAFIOS E ESPERANAS PARA UMA ESCOLA MARISTA EM

    PASTORAL1

    Autora: Maria da Conceio Santana de Oliveira2

    Orientador: Hudson Silva Rodrigues3

    RESUMO

    O presente artigo pretende mostrar a educao como espao propcio evangelizao. Cada integrante da comunidade educativa pastor e protagonista na construo de uma sociedade justa, humana e solidria. Tornar Jesus Cristo conhecido e amado a misso da Escola Marista que, atravs da mstica do cuidado e da promoo da paz, continua a misso do Bom Pastor. A Escola Marista, situada numa sociedade marcada pela forte presena dos elementos da cultura ps-moderna, ressalta a importncia da evangelizao na ao pedaggica, reconhecendo os limites e as possibilidades para uma Escola em Pastoral. Os princpios educativos Maristas so colocados a servio do processo de humanizao integral da escola, fundamentados no Evangelho e nas explicitaes dos documentos que caracterizam e formam a identidade Marista. Objetivamente, Jesus Cristo o centro da ao pedaggico-pastoral e os princpios Maristas so modelo para uma gesto democrtica, dialgica, transformadora e participativa.

    Palavras-Chave: Educao Marista, Gesto, Escola em Pastoral.

    INTRODUO

    Somos profetas de um mundo que no conhecemosD. Oscar Romero

    Em uma sociedade com numerosos sinais de contradies sociais, culturais e religiosas, os valores da educao Marista so fundamentais para a ao evangelizadora, possibilitando a formao de crianas, de jovens e de adultos para o discipulado.

    O papa Bento XVI, em encontro com procos da diocese de Roma, advertia sobre a dificuldade da vivncia crist, principalmente para os jovens, diante dos estilos de vida dominantes na sociedade. Indicava a presena de Deus na educao, porque jamais basta uma formao profissional sem uma formao do corao. (Bento XVI, 2008)4. So Marcelino Champagnat, fundador do Instituto Marista, pensava a educao como meio para tornar Jesus Cristo conhecido e amado, principalmente, para as crianas e para os jovens, especialmente os mais

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Professora,LicenciadaemFilosofiapelaUniversidadeFederal de Pernambuco UFPE, Especialista em EnsinoReligiosopelaUniversidadeCatlicadeBrasliaeCoordenadorado Setor Pastoral do Colgio Marista Nossa Senhora daConceioRecife/PE.3 Telogo, Licenciado em Lngua Portuguesa pelaFaculdadedaTerradeBrasliaFTB,EspecialistaemEnsinoReligioso pela Universidade Catlica de Braslia e Analistade Pastoral da Coordenao de Evangelizao e Pastoral daProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.4 Bento XVI em reunio: Jovem, Educao eEvangelizao,Roma(2008).

    abandonados.5

    O tema Desafios e Esperanas para uma Escola Marista em Pastoral foi escolhido para comparar a vivncia de um Colgio Marista com os resultados das reflexes, discusses e estudos incentivados, no curso Uma Escola em Pastoral.

    1 A REALIDADE

    1.1 Sociedade: encontros e desencontros

    Numa sociedade que se caracteriza por mudanas num ritmo volumoso e acelerado em todos os aspectos da vida, resultado do desenvolvimento tecnolgico e cientfico as possibilidades de vida e de satisfao concentram-se no aqui e agora. A comunicao, em tempo real, com qualquer parte do mundo, sugere decises imediatas e emocionais sem reflexo e amadurecimento, constatando a facilidade de encontrar mais companhias virtuais do que estabelecer relaes afetivas. Vive-se uma poca de medo, de pressa, de consumo como esperana de realizao individual que destri a capacidade de partilhar e de formar comunidades.

    Aos jovens so apresentados padres de beleza, de sade, de alegria centrados na busca do prazer, principalmente, por meio das propagandas e das novelas. O subjetivismo tico permite que cada um possa agir segundo os seus prprios interesses, na cultura do vale tudo e, segundo Murad (2001) vai-se perdendo a noo objetiva e comunitria do certo e do errado. Na prpria famlia, faltam critrios e limites claros para nortear atitudes. Os noticirios apresentam os jovens, de um lado, caracterizados pela fora, pela coragem, pelo esprito de aventura e, de outro lado, envolvidos com problemas de violncia, de prostituio, de alcoolismo, de trfico de drogas, na maioria das vezes negros e/ou vindos de setores populares.

    Alguns fenmenos so percebidos no campo religioso juvenil: a busca por uma expresso de f que d sentido vida; a atrao por manifestaes religiosas exticas; a adeso a espiritualidades que integram o ser humano ao cosmo, numa dimenso holstica (Nova Era). Nessa diversificada oferta de escolha do sagrado, a herana religiosa familiar j no mais corresponde aos anseios dos jovens, optando, ento, por outros sistemas religiosos ou mesmo pela desvinculao religiosa.

    A participao juvenil, de diferentes identidades religiosas, nas manifestaes artsticas e culturais, faz crescer o nmero de cantores e de bandas religiosas. So presenciadas manifestaes, em favor da preservao do planeta, confirmando o desejo de viver em harmonia com a natureza e com todas as demais criaturas. A convivncia dos jovens, nos trabalhos pastorais voluntrios, tem fortalecido a manuteno do vnculo religioso em Igrejas e em Escolas Confessionais.

    1.2 Sociedade e Escola Marista

    Num cenrio descrito com tantos elementos da cultura ps-moderna, situa-se a Escola Marista, com o objetivo de Formar bons cristos e virtuosos cidados 6, o que exige tornar Jesus Cristo conhecido e amado7. Isso impulsiona evangelizao na e por meio da Educao.

    Evangelizar anunciar Jesus Cristo com palavras e aes, fazer-se instrumento da sua presena e da sua ao no mundo, no que se pode, ento, afirmar que Evangelizar continuar a misso de

    5 MissoEducativaMarista:umprojetoparaonossotempo(2003).6 (MissoEducativaMarista:umprojetoparaonossotempo,p.39)7 Idem

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  • Jesus Cristo. Conhec-lo e reconhec-lo provoca mudana no comportamento. A novidade que, inicialmente, acontece nos coraes das pessoas estendida aos relacionamentos e resulta na transformao da realidade, pois quando o verdadeiro encontro com Jesus acontece a pessoa no mais a mesma. Portanto, necessrio resgatar a capacidade de maravilhar-se, de contemplar, de desfrutar pequenos gestos e atitudes que transformam e geram vida (SOELA, 2004).

    A ao evangelizadora numa Escola Marista deve incentivar para o envolvimento com questes mais amplas diante da realidade e dos seus desafios, pois como afirmam as Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista,

    [...] a realidade juvenil meio para a construo de um novo lugar socializador, de reorganizao da subjetividade, de reconstruo de identidade do ser humano, de valorizao das diferenas e da construo de novos papis sociais em que os jovens estejam insertos (2006: p.71).

    Joo Paulo II dirigindo-se aos jovens brasileiros, em 1980 (Belo Horizonte-MG), orientava para a importncia de colocar Jesus como alicerce da existncia humana. Afirmava que a vida, o destino, a histria presente e futura de um jovem, dependia da resposta pergunta do Cristo: Para voc, quem sou eu? Esse continua sendo um desafio, no apenas para os jovens, mas para todos.

    E como tornar Jesus Cristo conhecido e amado? Nossa presena precisa ser um modo a favorecer o reflexo simples, mas alegre da nossa f, alimentada pela orao e pelos sacramentos, com a conscincia de que, mais forte do que as mensagens o jeito de ser, a postura, a forma de relacionamento com Deus, com o outro e com o mundo, pois to importante quanto a ao o modo como se age (BRIGHENTI, 2009)8. As aes devem sinalizar as dimenses da evangelizao: acolhimento da ao do Esprito Santo, que atua dentro e fora da Igreja, como primeira ao evangelizadora; conhecimento da pessoa de Jesus atravs dos Evangelhos, refletindo sua mensagem, suas atitudes, sua maneira de tratar as pessoas, de acolher os pecadores, sua coragem proftica e a coerncia entre seu discurso e sua vida (Estudos da CNBB-doc. 93: p.27)

    Numa sociedade marcada pelo imediatismo, em que som e imagens so recursos fortes, principalmente, para as geraes jovens, percebem-se a relao de empatia e de simpatia (escuta e dilogo) e o atendimento s necessidades (que vo alm da distribuio de comidas e roupas) estabelecendo uma relao com os princpios do acolhimento, do esprito de famlia, da pedagogia da presena, do amor ao trabalho, da vivncia das 12 virtudes ensinadas por Marcelino Champagnat, viabilizando a evangelizao no espao escolar. Na ao evangelizadora o contedo se faz mtodo e o mtodo se faz contedo, assim compreende-se o protagonismo infanto-juvenil na Pastoral Juvenil Marista e na Infncia e Adolescncia Missionria no processo de educao da f; as Misses de Solidariedade despertando o compromisso solidrio e identificando aes em defesa da vida; o processo de formao especfica capacitando crianas, jovens e adultos para o discipulado; a supremacia das virtudes abrindo espao para o dilogo ecumnico.

    1.3 Gesto democrtica, dialgica, transformadora, participativa numa obra Marista e a comunidade em pastoral.

    8 Curso:EscolaemPastoral/mdulo1/FundamentosdaEvangelizao

    Quando se quer fazer algo, preciso empenhar-se, ao mximo, para consegui-lo. O ser humano que tem vontade capaz de fazer aquilo a que se prope, porque aprendeu a superar-se, a lutar, a sacrificar o imediato, a esperar pelos frutos que semeou, transformando desejos em realidade.

    Percorrer o caminho educativo luz dos princpios Maristas , sem dvida, uma viagem emocionante que conduz reflexo sobre o papel de evangelizador na educao. Em Marcelino Champagnat, encontram-se atitudes educativas e evangelizadoras capazes de responder aos anseios atuais, pois, configurava-se em um homem situado no contexto em que vivia, um educador para alm do seu tempo, um missionrio alm das fronteiras. Bondoso e amoroso para com todos, revelava, no exerccio dessas virtudes, a preocupao de atrair as pessoas a Deus, especialmente as crianas e os jovens. Para bem educar as crianas preciso, antes de tudo am-las, e am-las todas igualmente9: eis a regra de ouro para os educadores Maristas. Esse amor que corrige com firmeza, equilbrio e credibilidade, fazendo progredir o bem.

    A educao Marista, caracterizada por uma abertura reviso, permite que se redescubram novos caminhos e novos critrios com possibilidades de transcendncia (COTTA, 1985). Segundo Brighenti (2009)10, na evangelizao, aps a descoberta das culturas e das religies... j no se pode evangelizar como antes. Reconhecendo a ao do Esprito Santo, Ele quem inspira a descoberta de novas maneiras de ser presena como Igreja, igualmente o mesmo Esprito que impulsiona, na escola, a fidelidade aos princpios cristos e ao carisma Marista. Segundo Puebla, a educao humaniza e personaliza o homem. Da a necessidade de uma avaliao sistemtica, com possveis intervenes nos contedos, nos processos e nos mtodos pedaggicos e a compreenso de uma escola em pastoral.

    O 20 Captulo Geral Marista projeta o desejo de construir comunidades humanizadoras que vivam em clima de confiana, em relaes interpessoais sadias, com esprito de famlia11. Esse desejo so motivos acalentadores para refazer o caminho. E neles reside a preocupao para ser comunidades onde existam, em abundncia, o leo do perdo para curar as feridas e o vinho da festa para celebrar tanta vida partilhada12. Assim encontram-se o cuidado e o zelo, inspirados na pessoa de Jesus Cristo e no seu projeto de vida, permeando todos os processos efetivados na escola e para alm dela.

    Uma gesto que assim concebe a sua ao assume a postura de autoridade a servio, por meio da sua proposta de valores e de formao moral, espiritual e apostlica, possibilitando o desenvolvimento das boas potencialidades presentes na comunidade educativa, sendo sinal visvel de coerncia entre a sua f e o seu engajamento profissional. Partilhando da espiritualidade e da pedagogia Marista, os educadores leigos ampliam, simultaneamente, seu saber humano e o desenvolvimento da sua personalidade crist, favorecendo, em seus educandos, a formao do esprito e do corao.

    O acolhimento, como ao pedaggico-pastoral, representa a incluso das pessoas, para que cresam nos valores humanos e na promoo dos valores evanglicos, por meio das iniciativas pastorais Maristas, favorecendo-as a participarem da construo do Reino de Deus no aqui e agora (MEM-70)13.

    9 MissoEducativaMarista:umprojetoparaonossotempo10 Curso:UmaescolaemPastoral/Mdulo1/FundamentosdaEvangelizao200911 Escolhamosavida:DocumentodoXXCaptuloGeral,p1012 Idem13 MissoEducativaMarista:umprojetoparaonosso

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  • Evangelizar significa testemunhar uma atitude de respeito e de acolhida das pessoas e da sua realidade, por causa de Deus e da obra que Ele realizou no seio delas.

    O esforo em estabelecer processos educativos eficazes e vnculos significativos exige uma gesto disponvel ao dilogo e que acolha a construo interativa, com reviso de atitudes em relao vida, educao e escola, fundamentada no Evangelho e nos documentos da Educao Marista que formam a sua identidade. A gesto democrtica, dialgica, participativa e transformadora assume, em gestos concretos, os recursos e o mtodo para validar a evangelizao (na escola e fora dela), comungando com o ideal de Champagnat e assumindo a figura do bom pastor. Segundo Varona (2009) como suporte da misso, dando visibilidade Igreja como sacramento do Reino14, a Escola pode constituir-se em parbola do Reino de Deus, adotando uma poltica inclusiva, com responsabilidade e com compromisso.

    Na Obra Marista, todos devem contribuir para que todos aprendam a vencer pequenos dissabores e dificuldades, luz da Boa Nova, para alcanarem grandes vitrias e conquistas, transcendendo o hoje e construindo o futuro. Portanto, o educador cristo deve pretender que a escola seja um meio de educao voltado para a realizao pessoal, com sentido social, e ambiente de vida crist inspirado no objetivo fundamental da evangelizao. fundamental lembrar que escola humanizada o espao de gente cultivando gente, transformando espaos (DARDENHO, 1997) formando o agora e o sempre uma Escola em Pastoral.

    Para Julliato (2009) a educao , essencialmente, um ato de valorao. Deste modo, a preocupa-se no apenas com a capacidade tcnica do professor, mas, sobretudo com a sua postura tica. Ressalta-se a necessidade de ser exemplo, testemunho, referncia: a coerncia do ser com o fazer.

    A parbola do bom samaritano revela a preocupao com o outro na sua necessidade mais imediata. a caridade que s exige a gratuidade do cuidado. A pessoa com suas necessidades materiais e espirituais central na mensagem de Jesus. Ele se preocupa tanto com todo o rebanho quanto com cada ovelha, orientando a ateno para o tratamento personalizado.

    Na obra Marista, todos devem contribuir, para que todos aprendam a vencer pequenos dissabores e dificuldades, luz da Boa Nova, com vistas a alcanar grandes vitrias e conquistas, transcendendo o hoje e construindo o futuro.

    3. CONSIDERAES FINAIS

    A forma como Marcelino Champagnat enfrentou as dificuldades e os contratempos na evangelizao pela educao, constitui verdadeira lio para os seus seguidores. Atualizar os princpios Maristas responder aos anseios e desafios atuais, transformando a vida e a situao das crianas e dos jovens, atravs da educao integral, humana e espiritual, tendo como fundamento o amor. (MEM, 2003)15. No se substima o acesso ao conhecimento, entretanto deve-se estar atento a outras formas de aprendizagem, concebendo a educao como um todo

    O Colgio Marista Nossa Senhora da Conceio, situado na cidade do Recife, atendendo uma populao infanto-juvenil de grande vulnerabilidade social, tem assumido a misso de ser cuidadora da pessoa e das pessoas. Percebe-se, uma gesto

    tempo14 Curso:UmaescolaemPastoral/Mdulo2/PodeumaescolacatlicaserparboladoReino?15 MissoEducativaMarista:umprojetoparaonossotempo.

    receptiva, sensvel e serena, com abertura ao dilogo, tornando as relaes interpessoais mais harmoniosas e valorizadas. O exerccio dos valores cristos coloca a autoridade a servio da misso e das pessoas, animando o seguimento a Jesus e ao carisma Marista.

    A cordialidade, a escuta, o acolhimento, a solidariedade, o clima de respeito s diferenas, o desejo de conhecer aos alunos (sua histria), o esforo de compreender a realidade a partir da perspectiva do outro, a credibilidade na superao, a interao entre os segmentos da escola (educandos, educadores, colaboradores em geral, familiares), o reconhecimento da necessidade de ajuda, a substituio da competitividade pela cooperao entre os educadores so sinais que traduzem a pastoral humanizadora do Colgio. Conscientes dos desafios e esperanosos em transformar muitas realidades, pode-se afirmar que essa Unidade tem sido parbolas do Evangelho, que ajudam a resgatar a dignidade humana e o reconhecimento do amor de Deus no seu exerccio dirio. A realizao do amor ao prximo faz com que a Igreja16 acontea.

    REFERNCIAS

    BRIGHENTI, Agenor. Fundamentos da evangelizao. Disponvel em: >. Acesso com login e senha.

    CNBB 61. Diretrizes Gerais da ao evangelizadora da Igreja no Brasil: 1999-2002. So Paulo: Paulinas, 1999.

    CNBB 80. Evangelizao e misso proftica da Igreja: novos desafios. So Paulo: Paulinas, 2005.

    CNBB 93. Evangelizao da juventude: desafios e perspectivas pastorais. So Paulo: Paulus, 2006.

    CONFERNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANA. Documento de Puebla, 1979.

    COTTA, Gildo. Princpios educativos de Marcelino Champagnat. Braslia: FTD, 1996.

    DARDENGO, Vilma Maria. Escola humanizada. Disponvel em: Acesso em: 15 jul. 2009.

    GROLLI, Dorilda et al. Gesto acolhedora: estabelecendo vnculos com a comunidade acadmica. Educ. bras, Braslia, v. 29, nos. 58 e 59, p. 37-48, jan./dez. 2007.

    INSTITUTO MARISTA. Documento do XX Captulo Geral. Escolhamos a vida. Roma, 2001.

    MURAD, Afonso. Aquele que passeia em ns: Deus no corao de todas as coisas. So Paulo: Paulinas, 2001.

    PJM / SECRETARIADO INTERPROVINCIAL MARISTA. Diretrizes nacionais da Pastoral Juvenil Marista. So Paulo: FTD, 2006.

    PUJOL, J.M.E.; BARRIO, J. J. M.; LLANSANA, L. S. O educador Marista sua identidade, seu estilo educativo. Porto Alegre: EDPUCRGS, 1985.

    SOELA, Vanderlei. Deus no corao da vida A vida no corao de Deus. So Paulo: Paulinas, 2004.

    Textos do Curso: Escola em Pastoral. Disponvel em: >. Acesso com login e senha.

    16 Entenda-seIgrejanaconcepodoVaticanoII

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  • PRXIS EDUCATIVA: UMA REFLEXO A PARTIR

    DO PARALELO ENTRE A PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

    DE PAULO FREIRE E A PEDAGOGIA DE JESUS1

    Autor: nio Zeferino de Souza2

    Orientador: Aldemir Incio Azevedo3

    RESUMO

    O objetivo deste artigo apresentar uma reflexo sobre a prtica educativa que favorea ao ser humano a autonomia, o protagonismo e a liberdade. Para tanto, defendemos que os valores cristos aliados aos princpios da Pedagogia da Autonomia, de Freire, possam servir de motivao e estmulo aos docentes que creem numa escola em pastoral e numa educao que perpetue para a autonomia e humanizao do ser humano, a partir de uma mudana em sua prxis educativa. Essa prtica educativa ser objeto de reflexo neste trabalho, por meio de um paralelo entre a Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, e a pedagogia de Jesus, narrada nos Evangelhos. Sabedores de que, atualmente, muito se tem discutido, nas esferas educacionais, sobre a ausncia de valores evanglicos nos espaos educativos, entendemos que tais valores tambm devem ser foco de uma escola que se pensa em pastoral. A metodologia de pesquisa bibliogrfica possibilitou-nos a percepo de que Freire e Jesus defendem valores que so vitais a uma formao e que podem fundamentar toda uma prtica educativa que contemple esse fim.

    PALAVRAS-CHAVE: Prxis educativa. Valores. Autonomia.

    ABSTRACT

    The objective of this paper is to present a reflection on educational practice to promote the human autonomy, leadership and freedom. To this end, we want the Christian values combined with the principles of the Pedagogy of Autonomy of Freire can serve as motivation and encouragement to teachers who believe in a school in a pastoral and education that perpetuates for autonomy and humanization of man, through a change in their educational praxis. This educational practice will be reflected in this work through the parallel between the pedagogy of Paulo Freires Autonomy and the pedagogy of Jesus told in the Gospels. Knowing that today much has been discussed in the educational sphere about the absence of Gospel values in educational spaces. So we believe that these values should also be the focus of a school that believes in ministry. The methodology used in literature, allows us the realization that Jesus Freire and defend values that are vital to training and that can possibly justify an entire educational practice that addresses this purpose.

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 PedagogoePs-graduadoemGestoContemporneadePessoasnoUNIBH,AgentedePastoraldoColgioMaristaDomSilvrioemBeloHorizonteMG.3 Telogo pelo Instituto Marista de CinciasHumanas-IMACH,GraduadoemCinciasSociais,MestreemDesenvolvimento Social e Doutorando em DesenvolvimentoSustentvel.

    Key-Words: Educational prxis; Values; Autonomy

    1. INTRODUO

    O homem um ser pluridimensional. Ele deve crescer em todas as suas dimenses: cultural, econmica, social, poltica, psicolgica, moral, religiosa, cognoscitiva, educacional e pedaggica. um ser em crescimento e, por isso, est em situao de vir-a-ser e em contnua transformao.

    A realizao humana e profissional do homem requer um programa educacional construtivo que o conduza para a autonomia e para a libertao de sua conscincia. Assim, o processo educativo no pode ser entendido como ponto final, mas como ponto de partida.

    A educao existe em funo do homem. Sua finalidade maior promover a relao total do ser humano; para tanto, necessrio que a educao corresponda ao tipo histrico de homem que se pretende construir: se autnomo e livre ou se alienado e oprimido em si mesmo.

    A presena de valores humanos tambm de suma importncia nesse processo. Assim, pertinente lembrar o questionamento que Chalita (2003) faz em sua obra Pedagogia do Amor, ao mostrar-se preocupado com a extino cada vez mais frequente de valores morais, ticos e cristos em nossa sociedade, que valoriza mais a aparncia, a competio, o individualismo, distanciando cada vez mais o homem da sua realizao e humanizao.

    O objetivo deste trabalho propor uma reflexo e possvel reorientao sobre uma prtica educativa que favorea a humanizao, a autonomia e a liberdade do homem. Nesse sentido, defendemos que os valores cristos, aliados aos princpios da obra Pedagogia da Autonomia, de Freire, podem ser referncia, motivao e estmulo aos educadores que, ao mudarem sua prxis educativa4, acreditam ser possvel tal proposta educativa que caracteriza uma escola em pastoral.

    Essa educao catlica pautada em valores cristos, que humaniza e liberta, ser apresentada neste trabalho por meio do paralelo entre a Pedagogia da Autonomia, de Freire (1996), e a pedagogia de Jesus, narrada nos Evangelhos.

    Para tanto, faremos uma aproximao da Pedagogia da Autonomia, de Freire, pedagogia de Jesus, em que buscaremos pontuar aes, reflexes e valores que podero servir de referencial e estmulo prxis educativa de uma escola em pastoral.

    Este artigo se coloca na trilha dos esperanosos da humanidade, de educadores que se percebem desafiados e empenhados em ressignificar sua vida e a vida de seus educandos com prticas criadoras de situaes fecundas de aprendizagem, comprometidas com a vida e autonomia humana.

    2. PEDAGOGIAS DE FREIRE E DE JESUS:

    Freire (1996) introduz a obra Pedagogia da Autonomia, explicando suas razes para analisar a prtica pedaggica do professor em relao autonomia de ser e de saber do educando.

    O pensamento freireano marcado por uma viso esperanosa, otimista e crtica, na qual condena uma mentalidade fatalista

    4 Aqui entendida como prtica educativa, didtica,mtodos,atitudesouaesqueoprofessor,educadoroumestreutilizaparafavoreceroaprendizadodoeducando.

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  • que se conforma com uma ideologia fatalista: a de que a realidade imutvel.

    Romo (2002, p. 62), ao falar da educao como forma de interveno crtica no mundo concreto, histrico e real, e citando Freire, parece apontar sentimentos de inquietao que caracterizam a falta dessa educao libertadora, que promova o ser humano rumo sua autonomia e humanizao:

    No junto minha voz dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignao. Minha voz tem outra semntica, tem outra msica. Falo da resistncia, da indignao, da justa ira dos trados e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgresses ticas de que so vtimas cada vez mais sofridas (FREIRE, 1996 p. 113).

    Paralelamente citao de Freire, Jesus tambm se empenhou numa educao que permitia s pessoas assumirem a sua autonomia bem como participarem ativamente da sociedade em que vivem, sustentando-se em suas prprias foras.

    A prxis de Jesus, segundo Orofino (2002), de uma educao que permitia aos paralticos (numa analogia com a citao de Freire, referimo-nos aos paralticos como sendo os enganados), andarem com suas prprias foras e pernas:

    (...) vieram trazer-lhe um paraltico, transportado por quatro homens (...) Jesus disse ao paraltico (...) Levanta-te, toma teu leito e anda (...). O paraltico levantou-se e, imediatamente, carregando o leito, saiu diante de todos, de sorte que ficaram admirados (...), dizendo nunca vimos coisa igual. (BBLIA SAGRADA 2002, p. 1761-1762).

    Freire (1996) tambm atribui tal importncia educao. Para ele, educar construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a histria um tempo de possibilidades. como quem fala com a fora do testemunho. um ato comunicante, coparticipativo, de modo algum produto de uma mente alienada ou burocratizada.

    A fora do testemunho era um fator relevante na prtica pedaggica de Jesus, que sempre a iniciava com um convite a caminhar juntos, mestre e discpulo. Jesus faz escola! Seus discpulos chamados a fazer parte de sua misso (MEIER 2006. p.36).

    Aproximando as duas pedagogias, tanto Freire como Jesus salientam a importncia da coparticipao compromissada no processo de educar. Jesus a v como condio primria (atribuda ao chamado a estar com Ele) para que a educao libertadora acontea.

    Essa experincia coparticipada foi vivida praticamente por todos os discpulos seguidores de Jesus. Aps se encontrarem e experimentarem a docncia humanizadora do Mestre, eles eram capazes de largar tudo, ou seja, o jugo opressor que o sistema ideolgico da poca lhes havia imposto, fazendo-os se submeterem e acreditarem no que Freire chama de transgresso tica, ao pensarmos o ser humano e sua formao distante da tica: No possvel pensar seres humanos longe, sequer, da tica, quanto mais fora dela. Estar longe, ou pior, fora da tica, entre ns, mulheres e homens, uma transgresso. (FREIRE, 1996, p. 38)

    Para Freire, o sinal de respeito natureza do ser humano no colocar o ensino alheio formao moral do educando, subtraindo a experincia educativa em puro treinamento

    tcnico e reduzindo o que h de fundamentalmente humano no exerccio de educar.

    Mier (2006) aponta que Jesus, no seu exerccio, tambm fazia com que as pessoas acreditassem em si mesmas e no poder da vida que pode sempre transcender o momento presente, possibilitando-lhes tomar conscincia dessa realidade e, ao mesmo tempo, desalienando suas conscincias e promovendo o reconhecimento do poder que carregam em si.

    Ainda segundo esse autor, cabe ao educador conscientizar-se de que sua prxis acontece em meio a pessoas muitas vezes alienadas ou marcadas por sentimentos de inferioridade que as oprimem em si mesmas, fruto de uma ideologia social e outra transgressora da tica: Todo educador, a exemplo da postura do Mestre de Nazar, encontra-se, muitas vezes, diante de pessoas desacreditadas de si, dos outros, do mundo (MEIER, 2006, p. 37 -38)

    Na passagem bblica5 que relata o milagre da pesca, Jesus faz o convite a Simo para ser um de seus discpulos, e este se acha indigno de aceitar o chamado, por se ver como pecador 6 diante da pessoa pura e humana de Jesus. Entendemos que a postura de Simo reafirma o complexo de inferioridade que o oprime em si mesmo, fruto talvez de uma ideologia social, cultural, religiosa e outra.

    Aproximando as pedagogias de Jesus e Freire, notamos que ambas parecem apontar o caminho da educao como sendo singular e plural, no qual cada ser desafiado a construir-se na relao com os outros, caracterizando, assim, uma prtica educativa que se faz em uma escola que se pensa em pastoral.

    Freire, quando diz Minha voz tem outra semntica, tem outra msica. Falo da resistncia, da indignao, da justa ira dos trados e dos enganados (FREIRE, 1996, p.113), e Jesus, ao falar vinde a mim todos vs que estais cansados e carregados de fardos (...) tomai sobre vs o meu jugo, pois meu jugo suave e meu fardo leve (BBLIA SAGRADA, p. 1724), do indcios de que o processo educativo nasce da inquietude e da saudvel angstia diante da fragilidade humana e do carter provisrio das realidades criadas por parte do educador consciente do exerccio de sua prtica pautada em valores e na tica.

    Mier, referindo-se ao incio desse processo educativo na s inquietude de fazer algo, de contribuir para uma nova configurao social, pontua algumas atribuies ao ato de educar do docente: (...) Educar desentranhar, exprimir, liberar e orientar, no falamos em imprimir, formar, pois no se trata de imprimir no educando um suposto molde previamente estabelecido por algum de fora. (MEIER, 2006, p. 26)

    O autor refere-se ao ato de educar baseado tambm na metodologia maiutica7ou questionadora das realidades, que s vezes tendem a oprimir as expresses prprias, autnticas dos educandos. Tal prtica explicita traos de uma educao que busca cada vez mais familiaridade e afinidade com a essncia humana.

    Freire (1996) parece reafirmar o pensamento anterior de Mier (2006), ao apontar que o ensinar um ato profundo e dinmico, no qual a identidade cultural que atinge a dimenso individual e a classe dos educandos essencial prtica educativa progressista8:

    5 Bblia Sagrada traduo da CNBB p. 1796, noEvangelhodeLucas,captulo5,versculos1-11.6 Entende-se pecador como sendo uma qualidade dequemfraco,incapaz,alienadoeoprimidoemsimesmo.7 Prtica utilizada por Scrates, por meio dequestionamentosdarealidadeeverdadesprontas.8 Prticaseducativasquepropiciemaoseducandos,em

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  • A experincia histrica, poltica, cultural e social dos homens e mulheres jamais pode se dar virgem do conflito entre foras que obstaculizam a busca da assuno de si por parte dos indivduos e dos grupos e das foras que trabalham em favor daquela assuno. (FREIRE, 1996, p. 58).

    Ainda segundo o autor, no respeitar a ascenso individual ir contra a prtica democrtica, na qual cada um pode ser mais do que si mesmo.

    Jesus tambm tinha, como um sinal claro de sua prtica pedaggica, o aceitar gente das mais extremadas posies sociais em Israel, e, dentro de sua ao, permitia e respeitava a individualidade de cada um: Sua proposta era construir uma sociedade baseada no respeito e tolerncia que traduzisse toda a diversidade social de seu tempo. (OROFINO, 2002, p. 74).

    Jesus via na diversidade a possibilidade de superao das barreiras de gnero, de raa ou de classe. Ele acolhe e conversa com Nicodemos (BBLIA SAGRADA, 2002 p. 1846), que era um membro da alta classe judaica; adiante o vemos acolhendo e conversando com uma mulher samaritana9, e, at na escolha dos doze discpulos, so visveis as diferenas de classe, cultura etc., existentes entre eles.

    Como se v, o movimento que percorremos at o momento refora que Freire e Jesus reafirmam a importncia do compromisso, por parte do educador, em relao identidade individual e coletiva de cada ser no processo de educao e formao dos educandos.

    Acerca desse compromisso, Mier diz que o educador comprometido com o ato e a atitude de educar percebe nas pessoas uma inquietao existencial profunda em meio s suas buscas e inquietudes cotidianas. (MEIER, 2006, p.32)

    Ainda segundo o autor, essa inquietao refere-se ao desejo de vida com maior sentido e brilho por parte do ser humano, e atentar para tal inquietao respeitar a cultura e ser fiel a ela e ao pensamento individual e social.

    Freire, referindo-se ao ato de educar, mostra-nos que ele no se resume mera transferncia de conhecimentos e sua assimilao, mas tal ato cria possibilidades para a construo prpria do indivduo e, ainda, desenvolve nele a conscincia do seu inacabamento, formando, portanto, um ser aberto a perspectivas de mudana:

    Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconcluso prprio da experincia vital. Onde h vida, h inacabamento (...) gosto de ser gente porque a histria em que me fao com os outros e de cuja feitura tomo parte um tempo de possibilidades e no de determinismo. (FREIRE, 1996, p.58-60).

    Jesus tambm atribui ao homem a corresponsabilidade de assumir-se como sujeito protagonista de sua histria pessoal e coletiva, buscando sua insero social, sentido de existncia e no dependendo dos meios e do contexto que o circunda:

    Vs sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insosso, com que o salgaremos? Para mais

    suasrelaes,assumir-secomosersocialehistrico,pensante,comunicante,transformadorerealizadordesonhos,assumindotambm sua identidade cultural.VerFreire, emPedagogia da Autonomia.P.41.9 SegundoaBblia,osjudeusodiavamossamaritanos,pelofatodeseremumpovoquecultuavavriosdeusescontrriossleisjudaicas,queadotamocultoaumsdeus.

    nada serve, seno para ser calcado e pisado pelos homens. Vs sois a luz do mundo. No se pode esconder uma cidade sitiada sobre o monte, nem se acende uma lmpada e se coloca sob um alqueire10 mas na luminria e assim ela brilha para todos os que esto em casa. (BBLIA SAGRADA, p. 1711).

    De acordo com Mier, entende-se que Jesus no alimenta o pessimismo, mas tem como objetivo fazer uma leitura das condies em que a vida se encontra, para melhor colocar-se a seu servio: para tanto, preciso operar o processo de deso-cultao, de fazer ver com outros olhos, libertos de toda alienao. (MEIER, 2006, p. 44).

    O autor ainda afirma que Jesus opera com a pedagogia da luz, revelando a verdade, a grandeza e tambm a degradao do ser; mostra o desejo e a luta pela liberdade e libertao, ou seja, a luz convoca o ser a assumir seu destino. E tambm, ao atribuir a responsabilidade de ser educador nesse processo, cita: Ser educador sair de si mesmo e buscar a vida l onde ela quer e precisa ser encontrada (MEIER, 2006, p. 44).

    Inferindo uma aproximao, notamos que Freire (1996), ao referir-se importncia de nos conscientizarmos de que somos inacabados, mas condicionados a fatores sociais, culturais, genticos que influenciam na prtica educativa que conduza autonomia, parece seguir a mesma linha de pensamento exposta quando Jesus fala sobre o sal da terra e a luz do mundo.

    Mier parece pontuar a qualidade de uma educao discutida neste trabalho, pautada em valores cristos, que culmine na humanizao, autonomia e libertao do educando, ao dizer: afinal, minha presena no mundo no a de quem a ele se adapta, mas de quem nele se insere. posio de quem luta para no ser apenas objeto, mas sujeito tambm da Histria. (MEIER, 2006, pg. 63).

    Diante do exposto, entendemos que sermos protagonistas de nossa histria individual e coletiva vai alm de adaptarmo-nos s diferentes situaes e contextos que se nos apresentam diariamente; abrange tambm a forma como nos inserimos nesses contextos.

    Se somos cientes de nosso inacabamento, permitimo-nos maior crescimento por meio da experincia nesse processo de participao como veculo de uma construo progressiva de nossa existncia. Por outro lado, se alienados, apenas reproduziremos aquilo que Freire chama de produto de uma mente burocratizada que reproduz a mentalidade de um sistema opressor e fatalista.

    Ao atribuir responsabilidades ao educador, Mier (2006) afirma que, numa prtica pautada em valores cristos, o mesmo corresponsvel nesse processo de libertao, para que um indivduo passe de alienado a protagonista de sua prpria histria. O autor salienta o valor esperana como motivador dessa prxis: Em contexto de ideologia ps-moderna, que engendrou a morte das utopias e o reino da desesperana e do desencanto, uma primeira tarefa fundamental do educador colocar-se a servio da vida, alimentando a esperana e a utopia. (MEIER, 2006, p.168).

    Para Mier (2006), o educador faz parte da corrente esperanosa do mundo, que acredita na possibilidade de o Ser conviver e fazer diferente, que considera importante educar as futuras geraes para o coletivo, para a promoo das diferenas e a defesa da coletividade. Para tanto, requer-se uma educao para o convvio responsvel e solidrio.

    10 SegundoaBbliaSagradadaCNBB,naantiguidade,alqueiresignificavamvel(p.1711).

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  • Defender o paralelo entre as duas pedagogias - da autonomia, de Freire, e da de Jesus - surge da esperana de construir uma prxis que forme o ser mais humano.

    A obra de Kein traz uma carta que nos servir de referencial para clarearmos o objetivo de tal proposta:

    Sou sobrevivente de um campo de concentrao. Meus olhos viram o que nenhum homem poderia ver: cmaras de gs construdas por engenheiros formados, crianas envenenadas por mdicos diplomados, recm-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebs fuzilados e queimados por graduados de colgios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a educao. Meu pedido : ajudem seus alunos a tornarem-se mais humanos. Seus esforos nunca devero produzir monstros treinados ou psicopatas hbeis. Ler, escrever e aritmtica s so importantes para fazer nossas crianas mais humanas. (KEIN, 2002, p. 69).

    O texto da carta annima acima chama a ateno, pela indignao, desconforto e desafio, com questes referentes s aes dos docentes. Entre elas, destaca-se o que motivou o uso de termos como formados, diplomados, treinados, graduados e hbeis, indicando o grau e a formao de assassinos e/ ou construtores de instrumentos de morte de Auschwitz.

    A frase em que o sobrevivente declara ter suspeitas sobre a educao, o pedido aos professores para que ajudem seus alunos a se tornarem mais humanos e a afirmao de que conhecimentos s so importantes quando fizerem nossas crianas mais humanas (KEIN, 2002, p. 69) so o apelo gestao de uma humanizao com a efetiva participao de educadores e educadoras por meio de uma prtica baseada em valores cristos.

    Segundo Oliveira, em nossas atualidades, poder-se-ia dizer que muitos campos de Auschwitz esto ativos e impunes a olhos descobertos, nos mais diferentes pontos do planeta, sob as mais diferentes formas de discriminao e excluso social, desrespeito vida, gerando dores, misrias, mortes e a mais absoluta desolao. Essas atividades so:

    Alimentadas pela insensibilidade e pela falta de compromisso de muitos, entre eles formados e diplomados, que perderam ou nunca aprenderam a capacidade de perceber o outro e neste se perceber, e, no estar face a face, viabilizar a possibilidade de ser e desenvolver a humanidade. (OLIVEIRA, 2002, p. 64).

    Em sua ltima carta, Freire adverte:

    Se estamos a favor da vida e no da morte, da equidade e no da injustia, do direito e no do arbtrio, da convivncia com o diferente e no de sua negao, no temos outro caminho seno viver plenamente a nossa opo; encarn-la, diminuindo assim a distncia entre o que dizemos e o que fazemos. (FREIRE, 2000, p. 67).

    Tal contexto requer e desafia a elaborao de um novo desenho para as aes da prtica docente, por meio de projetos, conjugando as disciplinas como tica, filosofia ou cultura religiosa e outras, e objetivando uma prxis mais humana.

    Orientados por tais perspectivas, acreditamos ser possvel que os docentes tenham menos possibilidades de produzir monstros

    treinados e psicopatas hbeis (palavras do sobrevivente de Auschwitz), a servio da intolerncia e discriminao, que geram eliminao do diferente, seja no campo social, cultural, tico ou religioso.

    Diante do exposto at o momento, entendemos que formar para a responsabilidade tica, humana, autnoma, livre, alm da tcnica, o grande desafio e exigncia para os docentes como formadores, na atualidade. compromisso que desaloja, desafia, move e d rosto ao exerccio formativo.

    3. CONSIDERAES FINAIS

    Sabedores de que, atualmente, muito se tem discutido nas esferas educacionais sobre a ausncia de valores, como tolerncia, pacincia, amor, empatia e outros, em salas de aulas e demais espaos educativos, acreditamos ser pertinente o interesse por esta reflexo. Entendemos que os valores tambm devem ser foco, ainda que de forma subjetiva, de uma educao que promova a autonomia do educando por meio de mudanas nas prticas dos educadores pertencentes a uma escola que se pensa em pastoral.

    Para quem assume a tarefa de educador, muitas so as inquietaes, interpelaes e desafios.

    Visualizar a educao como formadora do sujeito pensante e construtor de sua prpria histria implica quebrar modelos e concepes formadas por educadores sobre a educao ao longo de suas trajetrias como educandos e, posteriormente, educadores.

    Propusemos, como Jesus e Freire, uma reflexo sobre a prxis a partir de uma tica mais humana e promotora da vida, que leve autonomia e libertao desse ser humano das ideologias fatalistas que o circundam.

    A apresentao de Jesus como inspirador para a proposta de educao explanada neste trabalho baseou-se em sua ao humanizadora, no seu modo de valorar o ser humano, sem omitir a co-participao deste ser na sua prpria libertao e autonomia, e tambm sem isentar a responsabilidade cabida famlia, sociedade e s instituies educacionais e governamentais nesse processo libertador por meio da educao.

    Ao optarmos pela Pedagogia da Autonomia, de Freire, levamos em considerao que no temos outro caminho seno viver plenamente nossa opo por formar cidados que estejam preocupados com o mundo em que vivem, no apenas no plano material, mas tambm no plano emocional, social e espiritual.

    Acreditamos que o indivduo se completa quando deseja conhecer-se mais, e o plano espiritual no pode ser desconsiderado nesse movimento por uma educao que seja transformadora da sociedade, na busca por valores mais ticos e justos, focos de uma escola em pastoral.

    E, ainda que o educador paute a sua prxis em valores cristos, ticos e morais, tal educao condicionada a diversos fatores sociais, culturais, institucionais e outros, no isentando, assim, que tal prxis tenha sua consequncia na autonomia do indivduo.

    Finalizando, visualizamos que a educao o processo de efetivao da humanidade em ns, por isso preciso entender a ao de educar como uma ao formadora, como campo de experimentao de ns mesmos, e no como uma ao meramente instrutora.

    Precisamos formar-nos permanentemente, porque o nosso ser

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  • no mundo projeto de abertura e, desse modo, carente de um sentido que experimentamos como acontecimento, mas no possumos; assim, formar/educar aprender a realizar, conviver, sonhar, existir e ser. E, aqui, aprender mais importante do que ensinar, pois a aprendizagem transformao, engajamento, vivncia.

    Quando aprendemos, j no somos os mesmos e somos mais, pois a aprendizagem se efetiva quando encarnamos o que sabemos, quando agregamos e nos reconhecemos naquilo que aprendemos. E a aprendizagem saber viver.

    4. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

    BIBLIA. Portugus. A Bblia Sagrada. Traduo por CNBB. 1. ed. So Paulo: Edies Loyola, 2002.

    CHALITA, Gabriel. Pedagogia do amor: a contribuio das histrias universais para a formao de valores das novas geraes. So Paulo: Editora Gente, 2003.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessrios prtica pedaggica. Coleo Leitura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

    ____. Pedagogia da indignao: cartas pedaggicas e outros escritos. So Paulo: UNESP, 2000. 134p. FURB, Projeto de autorizao do curso de licenciatura em Cincias e Religio, habilitao em ensino Religioso. Blumenau: 1996.

    MEIER, Celito. A educao luz da pedagogia de Jesus de Nazar. Coleo Educao e F. So Paulo: Paulinas, 2006.

    OLIVEIRA, Llian B. de. Apresentao, In: Luiz S. ALVES; Srgio R. JUNQUEIRA (Org.). Educao religiosa: construo da identidade do ensino religioso e da pastoral escolar. Curitiba: Champagnat, 2002. p. 7-10.

    OROFINO, Francisco. Pedagogia de Jesus Freire. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAO VERBITA, 1, 2002, Santa Isabel. Anais... Santa Isabel: Santa Isabel Editora, 2002. p. 72-78.

    ROMO, Jos Eustquio. Pedagogias de Paulo Freire. In: In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAO VERBITA, 1, 2002, Santa Isabel. Anais... Santa Isabel: Santa Isabel Editora, 2002, p. 48- 49.

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  • BOM PASTOR, O PARADIGMA PARA EVANGELIZAR1

    Aluna: Esmeraldina Laurinda da Silva2

    Orientador: Hudson Silva Rodrigues3

    RESUMO

    A idia de evangelizar um desafio a ser vencido. E todos que se encontram diante desse desafio procuram qual a melhor forma para alcanar esse objetivo. Nesse artigo falo do Bom Pastor como um paradigma para evangelizar, com o intuito de que nos aproximemos da melhor forma. Portanto, fao alguns questionamentos diante da ao evangelizadora na sociedade contempornea, como: Como evangelizar numa sociedade que est constantemente em mudana? Esse um dos grandes desafios. E depois apresento um olhar para o testemunho de vida de Jesus, o ato de perdoar, a sua f, a esperana e sua relao com os companheiros. Aponto Jesus tambm como o Bom Pastor que ensina suas ovelhas.

    Sabendo do grande desafio, preciso ter audcia missionria, ter criatividade, no desanimar, apoiar-se e seguir Jesus, manter viva a espiritualidade. E por fim, ter sempre em mente que a melhor forma de evangelizar pela atitude. E cada atitude depende do momento, da situao, do lugar. tendo-se esse bom senso que, aos poucos, vai-se desenvolvendo a evangelizao de uma forma natural e com exemplos de vida, assim como fez o Bom Pastor.

    Palavras-Chave: Evangelizar. Bom Pastor. Desafios.

    INTRODUO

    Frequentemente ouvimos e falamos da necessidade desafiadora de evangelizar as pessoas, sejam crianas, jovens, adultas ou idosas, especialmente na sociedade atual. No nos lembramos, no entanto, de questionar como deve ser esse anncio.

    O mundo contemporneo nos mostra que as discusses esto voltadas muito para as verdades e implicaes das cincias e da poltica. E isso pressupe a perda de valores entre as pessoas, pois essas discusses se resumem a nmeros e estatsticas. E assim nos encontramos com o desafio de como anunciar a verdade, o caminho e a vida, o Cristo.

    No papel de educadores, somos convictos de que muitos

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Pedagoga, Licenciada pela Universidade do Tocantins, PsgraduadaemDocnciaUniversitriapelaUniversidadeCatlicadeBrasliaeProfessoradeEnsinoReligiosonoColgioMaristadePalmasPalmas-TO.3 Telogo, Licenciado em Lngua Portuguesa pelaFaculdadedaTerradeBrasliaFTB,EspecialistaemEnsinoReligioso pela Universidade Catlica de Braslia e Analistade Pastoral da Coordenao de Evangelizao e Pastoral daProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.

    sofrem pela desvalorizao, pela falta do encontro com a paz, com o melhor caminho, pela falta do encontro com a vida plena, e a nossa misso evangelizar. Para isso, precisamos encontrar meios eficazes e eficientes para fortalecer cada vez mais a trilha daqueles que mais precisam.

    A verdade deve ser buscada pelo modo que convm dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto , por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistrio ou do ensino, da comunicao e do dilogo, com os quais os homens do a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente. (CNBB, 1999, p. 40).

    Referindo-se a meios, pensamos em metodologias para tentar vencer esse desafio de cumprir com a misso, anunciando a verdade e apresentando a beleza que acreditar nos valores que fazem verdadeiramente a vida e vida plena. entender que preciso um exemplo, e Jesus o exemplo maior; conhecer seu testemunho como Bom Pastor, seu exemplo de vida; entender como ser uma Boa Ovelha, como evangelizar; enfim, perceber que evangelizar uma misso e que ser Bom Pastor uma questo, no de opo, mas de necessidade tica.

    1. A AO EVANGELIZADORA NA SOCIEDADE

    A ao evangelizadora no desejo de prolongar a prtica de Jesus como um modelo de inculturao assume o compromisso de defender a vida em qualquer que seja a circunstncia. vivendo e assumindo a misso de Jesus para servir ao Reino de Deus, anunciando e testemunhando a Boa Nova da vida que se promove a ao evangelizadora.

    Fazendo memria da pessoa de Jesus, sabemos de um Jesus humano, que sente o que o outro sente, exigente com o que do Pai, faz tudo pela salvao dos mais necessitados, justo, acolhe as pessoas, principalmente nos momentos de desespero, que ensina com sabedoria; enfim, um homem perfeito. Evangelizar, portanto, chegar pelo menos prximo de uma perfeio.

    O campo de trabalho para a ao evangelizadora amplo, pois podemos agir na rea da sade, nos grupos de 3 idade, na famlia, na igreja; e um dos espaos mais amplos o da educao, em que possvel encontrar crianas, jovens e adultos com o fim de aprender. Eis, ento, a oportunidade para ensinar. Isso favorece, s vezes, at como um meio para evangelizar.

    Como compreender e assumir a misso de Jesus? Como evangelizar numa sociedade que est constantemente em mudana? Esse um dos grandes desafios.

    As transformaes acontecem com intensidade; a velocidade das mudanas no permitem, muitas vezes, uma metodologia de ensino se firmar. O mundo sempre evoluiu, mas este em que vivemos passa veloz, no havendo tempo para a essncia das coisas. Alm de ser veloz, tambm vem em grande quantidade, ou seja, em todos os aspectos: familiar, pessoal, educacional, tecnolgico, profissional. Nada espera ou a nada se condiciona, por causa do seu ritmo ou princpios. Tudo isso acaba implicando os princpios ticos, a base das formaes, a educao. E a tendncia ver cada pessoa como diferente e jamais como semelhante, como concorrente e jamais como parceiro. Por isso, a misso de evangelizar, ao mesmo tempo em que desafiadora, traz consigo a riqueza da diversidade, dos fenmenos, das culturas, da globalizao. Elementos de estudo,

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  • de pesquisa, que despertam curiosidade nas pessoas, que trazem incertezas, que contradizem princpios milenares, tudo isso desafio, mas tambm motivo para encontros, estudos, dilogos, tornando-se meio para a evangelizao.

    So abrangentes os desafios diante da ao evangelizadora. Assume-se o batismo como um compromisso cristo, um chamado e uma misso junto igreja, onde se encontra a base da histria crist, e agora com um olhar voltado para a realidade, no dissociando Igreja-ReinoMundo. Sabe-se que o reino no est somente na igreja; as pessoas esto em toda parte, e o reino de Deus deve acontecer em todos os lugares, entre homens, mulheres, crianas, leigos ou no. Sendo assim, preciso concretude na misso, relacionamento, encontros de insero no mundo, seja entre os ministrios ordenados ou no.

    Evangelizar sempre foi uma preocupao dos cristos: fazer bem feito, com detalhes, estar disponvel, estudar bem a Bblia e ensin-la aos que no a conhecem, entender as expresses de exigncias, cumprir mandamentos.

    Existem inmeros caminhos para se evangelizar: em casa, entre familiares; no trabalho, com os companheiros; buscando pessoas de casa em casa; por meio de teatro, msica, mural, festas, jogos evanglicos; tambm por e-mails, cartas, panfletos, artigos, jornais, encontros e outros.

    Hoje, tem-se que apresentar novidade no que se vai contar, preciso preocupar-se em administrar as tradies religiosas absorvidas pelo culto a uma pastoral de evangelizao explcita e decididamente missionria. E, para tanto, so necessrios sinais vivos, fortes e claros de Jesus. preciso empolgar-se, animar-se, levar o ato missionrio a srio. Deixar de ser apenas um frequentador de igreja ou grupo pastoral e praticar a ao por onde passar. Uma das novidades poder envolver o leigo cada vez mais como protagonista. O leigo deve sentir-se chamado, deve qualificar-se e assumir multiplicadores de servios.

    Com esse empenho e com a pretenso de formar multiplicadores de missionrios de Jesus, podemos cada vez mais contemplar o servio de Deus e dos irmos na humanidade. E, ainda, preciso que o missionrio carregue uma slida espiritualidade, que possa ajudar a ser coerente e testemunhar o filho de Deus.

    A ao evangelizadora deve comprometer-se com a proposta de Jesus missionrio, pastor, que defende a vida em todas as suas circunstncias, desde o momento do nascimento sua permanncia por onde for - na famlia, na escola, no trabalho, nas festas, nas dores; enfim, o ser pastor deve estar atento a todo instante, no se esquecendo do testemunho da sua vida.

    2. JESUS TESTEMUNHO DE VIDA

    Diante de tantas lies que podemos ver em Jesus, a maior , sem dvida, o exemplo de vida que ele nos deixou, mostrando-nos com suas atitudes. Ele no s falava, mas fazia, segundo o Evangelho de Marcos. E, dentre esses exemplos, como testemunha, podemos dizer alguns que so muito fortes e importantes para a vida de um Bom Pastor, especialmente em sua conduta em uma Escola:

    2.1 O ato de perdoar: perdoar a quem feriu, quem traiu. O ato de perdoar no fcil, requer experimento para que se sinta o seu valor. A abertura para essa experincia, dificilmente podemos encontrar, no entanto necessria, pois, com o perdo, o corao recebe o direito de libertar-se de ressentimentos que armazenam o que podemos chamar de lixo. Com o perdo, um Bom Pastor pode construir pontes para a paz interior. Poder at no esquecer quem

    feriu, mas afasta a dor que sente quando lembra o ferimento.

    2.2 A f: mesmo diante das dificuldades, manter-se seguro ao Pai e superar seus limites. A f que Jesus manteve era sublime, era firme. Nunca duvidou da presena e do amor do Pai. Tinha discernimento e sentia o amor divino, no pessoalmente, mas puramente espiritual de Deus. Quando interrogou, foi como interrogar o prprio Deus: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mc 15,34). Ou por que abandona-te a ti mesmo?

    2.3 A esperana: a diversidade existe e, conforme o tempo vai passando, ela aumenta e faz com que a esperana das pessoas fique comprometida. Jesus tambm viveu em tempo de crise e de turbulncias histricas, como o domnio do imprio romano, a crise do templo em Jerusalm, dentre outras, mas nunca pensou em desistir, parar de lutar, transferir a responsabilidade que o Pai lhe concedeu para outros. Ele foi at o fim.

    A esperana crist a esperana na plenificao universal, mas ela tambm no ingnua. O que faz com que diminua esta contra-esperana a experincia da gratuidade. (SOBRINO, 1976, p.399).

    2.4 Os companheiros: o trabalho dividido, o passar para os outros o que realmente tem que fazer, no faz-lo sozinho, buscar ajuda junto aos outros. Os doze apstolos so exemplos de companheiros que aprenderam com Jesus e foram treinados por ele. Mesmo eles demonstrando, em alguns momentos, que nada tinham entendido, ele os enviou para que fossem suas testemunhas em nome do Pai, e inspirados e iluminados pelo parclito.

    Enfim, so muitos os exemplos de vida de Jesus que um Bom Pastor pode carregar em seu alforje, na sua misso, para que no se perca e no mude o foco principal, que ser uma referncia de Bom Pastor.

    3. JESUS O BOM PASTOR

    No Evangelho de Joo 10, 11-18, Jesus diz: Eu sou o Bom Pastor, aquele que d a vida pelas ovelhas. Eis o verdadeiro sinal de zelo com aquilo que do Pai. O cuidado de correr e buscar, mesmo quando no est bem, no cabe somente ovelha que caminha rpido, mas tambm quelas que ainda no encontraram o caminho, que se perderam.

    Com seu exemplo de vida, Jesus indica, com sinais visveis, que um Bom Pastor deve dedicar-se ao seu rebanho com docilidade e ateno. Ele cuida de seu rebanho como nico e precioso, com a responsabilidade que lhe foi concedida. No busca um sucesso pessoal com vaidade, zela para que todos caminhem juntos. O Bom Pastor ensina suas ovelhas e alerta-as de que no o tero por todo o tempo; precisam caminhar, pois existem outros rebanhos.

    Essa valiosa misso requer ainda um pastor que revele o nome do Pai, o verdadeiro Pastor.

    4. PARA SER BOM PASTOR PRECISO SER BOA OVELHA

    Faz-se necessrio ressaltar a importncia de um Pastor (aqui entendido como lder) que d exemplo. Isso nem sempre acontece, e, nesse caso, a condio de ser bom sofre alterao: talvez fique s Pastor, ou s lder, e no um bom lder.

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  • notrio que o caminho de ser alm de Pastor, ser bom muito mais difcil. E o caminho mais difcil o de ser exemplo de servio, de humildade, de amor e deixar que esse exemplo sirva de influncia e inspirao para outros. Essa responsabilidade sempre maior naquele que est frente de algum grupo (coordenaes, sala de aula, familiares, igreja, comunidades).

    Quando se fala em exemplo, tambm bom lembrar que se precisa de uma referncia de exemplo, e aqui nos reportamos s caractersticas de Jesus, o Bom Pastor, s suas tcnicas, ao comportamento, ao perdo, esperana, dentre outras.

    O exemplo de um bom lder pode ser o que apresenta coerncia em defender e viver os valores de equipe. So tambm marcas exemplares: a assiduidade, o planejamento, a disposio para servir, a valorizao do ser humano, a organizao, a busca constante de inovao, a pontualidade e outras.

    Ser honesto, confivel, cuidadoso, comprometido, bom ouvinte, mantm as pessoas responsveis, trata as pessoas com respeito, incentiva as pessoas, gosta das pessoas, tem pacincia, bondade, humildade, compromisso. (HUNTER, 2004, p.78).

    O maior exemplo talvez seja reconhecer que o melhor exemplo pode no ser o lder, pois ele tambm est em constante aprendizado e se apresenta como aprendiz , um Pastor que tambm ovelha.

    5. EVANGELIZAR

    Evangelizar passa pela dimenso do testemunho de forma organizada, que possa expressar a boa nova (a novidade), a vida eterna, plena. E ser testemunho no somente falar da boa nova, mas expressar, por meio das atitudes, desde as pequenas s grandes decises. Alm de falar, preciso agir. Expressar tambm caminhar junto, levar vida s pessoas, favorecer bons relacionamentos, saber ouvir, no fomentar rivalidades e debates impulsivos, mas sim, o amor, a compreenso, o dilogo.

    Um Bom Pastor precisa, alm de impressionar, tambm impactar, para alcanar a evangelizao, estar com as pessoas, senti-las, sonhar com as mesmas, de forma que faa realmente diferena. No uma diferena que chame a ateno para si, mas uma diferena para a vida, a vida plena.

    uma tarefa desafiante. Expressar aos outros a boa notcia de Deus exige responsabilidade e seriedade; s vezes parece simples, mas delicado. preciso conhecer e saber defender a verdade com convico. O interesse deve ser de adeso e no de converso.

    Evangelizar dispor-se para tais desafios, sem esperar uma resposta imediata; como a vida de um beb: vai crescendo aos poucos. preciso atuar com organizao e juntar-se a muitos, para no padecer; ter convico; ouvir o despertar de Deus no corao e, com f, comprometer-se e agir.

    6. COMO VENCER O DESAFIO DE EVANGELIZAR

    O desafio geralmente assusta, mas, em contrapartida, podemos apresentar vontade e razo (o objetivo). A maior razo a misso de evangelizar (mostrar o Cristo da f e no parar no Jesus histrico), e a vontade passa pelo amor vida.

    Basta agir eficazmente. Sentir-se capaz, desenvolver suas potencialidades, acreditar nas possibilidades, no temer diante dos projetos propostos, sejam pessoais ou institucionais.

    Quando se fala em evangelizar, h quem pense que s pastores, irmos, missionrios ou pessoas ligadas igreja que podem e devem faz-lo. Mas, quando Jesus diz,em Marcos 16,15: Ide pelo mundo e pregai o evangelho a toda criatura, vale para todos os discpulos, portanto para todos os que acreditam na novidade. Todos precisam sentir-se responsveis por essa misso: pai, me, professor, jovem, adolescente, adulto, idoso. E quem precisa ser evangelizado todo aquele com quem nos encontramos, o nosso prximo.

    Sabendo do grande desafio, preciso ter audcia missionria, ter criatividade, no desanimar, apoiar-se e seguir Jesus, manter viva a espiritualidade, ter um carter de misso e agir como o Bom Pastor.

    7. CONCLUSO

    Concluir estas reflexes sentir ainda mais inquietude diante da misso de evangelizar. A conscincia deixa clara a realidade que traz mais responsabilidade, ao lembrar: Ide e anuncia Mc 16,15.

    Ento, a primeira etapa evangelizar a si prprio, ou deixar-se evangelizar, e, depois, criar estratgias eficazes para fazer o anncio. Esse anncio da boa nova mais do que falar de Jesus a algum. testemunhar com as atitudes, de forma que elas transpaream naturalmente atravs do amor, da vivncia, da convivncia, dos encontros, das msicas, dos programas diversos, das oraes, das aulas, do dilogo; enfim, por meio da vida no dia a dia.

    Outra responsabidiade a de anunciar a boa nova como nova, ou seja, com entusiasmo, com alegria, com comprometimento, convico e perseverana, lembrando a contemporaneidade.

    Por fim, ter sempre em mente que a melhor forma de evangelizar pela atitude, pelo exemplo, e o exemplo que deve ser apontado como primeiro o do Bom Pastor, aquele que cuida, que age, que percebe o que acontece ao redor e no fica esperando, vai em busca, ensina, acompanha, acredita. Cada atitude depende do momento, da situao, do lugar. Assim como, em muitos momentos, a melhor atitude falar, em outros, pode-se cantar, danar, escrever, ler, ouvir, silenciar. preciso respeito ao tempo de cada pessoa; enquanto para uma melhor falar, para outra prefervel ouvir. tendo-se esse bom senso que, aos poucos, vai-se desenvolvendo a evangelizao de uma forma natural e com exemplos de vida, assim como fez o Bom Pastor.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BBLIA. A Bblia Sagrada. 81 ed. So Paulo: Editora Ave Maria, 1992. P.1343 -1344; p.1398.

    CNBB, Dignitatis Humanae, 3. Misso e ministrios dos cristos leigos e leigas. Itaici, SP, 1999. p 40.

    HUNTER, James C. O monge e o executivo: uma histria sobre a essncia da liderana. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. p.78

    SOBRINO, Jon. Cristologia a partir da Amrica Latina. Petrpolis, RJ: Vozes, 1976. p.399.

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  • JUVENTUDE: CELEIRO DO DIVINO E DAS UTOPIAS1

    Autora: Janana Dantas Sales2

    Orientador: Aldemir Incio Azevedo3

    RESUMO

    Este artigo objetiva analisar a fase que divide a infncia da idade adulta, percebendo nela tudo que h de mais belo e bonito, e, sobretudo, analisar os indivduos nessa faixa como seres puramente teologais, encharcados de vitalidade e sonhos, ousadias e compromissos. A proposta desmistificar algumas opinies e valores que so neles depositados, que por muitas vezes subestimam sua capacidade crtica. Tem-se como proposta apresentar um itinerrio que pode ser vivenciado pela juventude, para ajudar na sua educao integral, ou seja, fazer com que ela seja educada por inteiro.

    PALAVRAS-CHAVE: Juventude, Grupo, Processo, Seguimento, Protagonismo.

    INTRODUO

    O jovem chamado a responder s demandas propostas por uma sociedade que, ao passo que caminha, exige, de forma avassaladora, algo no qual ele ainda imaturo para dispor. Uma sociedade meramente consumista, em que o ter muitas das vezes se sobressai ao ser, faz com que esses iniciantes na vida produtiva sintam dificuldade em estruturar-se e adaptar-se a tal realidade. vlido ressaltar que os jovens da atualidade sentem a necessidade de se tornarem adultos mais rapidamente que outrora. Isso lhes permite ter certa segurana sobre o que de fato so, uma vez que o jovem considerado indivduo sem responsabilidades e, portanto, no visto com bons olhos. O que a juventude precisa de instrumentos que lhe possibilitem ter autonomia diante das situaes, tornando-se protagonista do novo tempo, construtora de uma nova sociedade.

    Acreditar na juventude devolver a dignidade que, por vrias expresses que usamos em relao a ela, acabamos retirando. Se isso no acontece, ela induzida a responder a tais urgncias das mais variadas formas, dependendo do contexto em que est inserida, bem como das possibilidades que lhe so postas.

    Este artigo no tem como objetivo trazer respostas prontas, nem fazer com que os argumentos e ideias aqui expostos sejam adotados como verdade, mas instigar os leitores e as leitoras para um possvel alargamento nas discusses em vrios espaos, sobretudo nas instncias que trabalham com famlias e com grupos juvenis, nas diversas realidades e expresses.

    A fim de cumprir o objetivo proposto acima, o presente texto, alm desta breve introduo, est assim organizado: na segunda parte, apresenta-se um apanhado sobre a realidade da juventude brasileira, onde ela est inserida e de quem se trata, a fim de conhec-la e deixar-se enamorar por ela. nessa

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 GraduandadocursodeServioSocial,pelaFACEX/RN.AgentedePastoraldoColgioMaristadeNatal.3 Telogo pelo Instituto Marista de CinciasHumanas-IMACH,GraduadoemCinciasSociais,MestreemDesenvolvimento Social e Doutorando em DesenvolvimentoSustentvel.

    parte que descrita a faixa etria que abarca tal momento, percebendo-se que ele se confunde com a adolescncia, por isso utilizaremos o termo: adolescncia/juventude. Na terceira parte, busca-se apontar algumas necessidades que a juventude tem de estar em grupo, sinalizando o crescimento significativo dos grupos juvenis existentes nas comunidades eclesiais e nas escolas. Na quarta parte, destacada uma novidade antiga de seguimento: Jesus Cristo, o mestre de Nazar, para que O apresentemos aos meninos e meninas como referncia de vida. Na quinta parte, momento de descobrir o jeito com que os jovens Maristas desenvolvem seu processo de educao na f. Por fim, encerra-se este trabalho, tecendo-se algumas consideraes sobre os desafios de se cuidar dessa meninada; de se perceber que devemos acreditar na juventude, que semente do novo e que tanto grita por dignidade, e que acredita na fora do amor, da tolerncia e da diversidade.

    2. JUVENTUDE BRASILEIRA: QUEM E ONDE EST?

    importante termos claro que analisar a juventude no uma tarefa fcil. Isso porque no possvel se ter uma preciso a respeito da mesma. A discusso inicial se d em relao faixa etria que a compreende. Para a ONU, trata-se da fase entre quinze e vinte e quatro anos de idade. Aqui no Brasil, o Estatuto da Criana e do Adolescente estabelece para a fase da adolescncia a faixa etria dos doze aos dezoito anos. Para o Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), que trata das Polticas Pblicas, a faixa que abrange a juventude a idade de quinze aos vinte e nove anos. Aqui nos cabe abarcar tanto a adolescncia quanto a juventude, por se tratarem de faixas etrias imprecisas, que variam de acordo com o grau de desenvolvimento e as oportunidades que so dadas a cada indivduo.

    Podemos dizer que a adolescncia/juventude a idade do indivduo em crescimento, vivendo em uma etapa de transio, momento da descoberta do prprio corpo e de si mesmo. tambm a hora de afirmar sua identidade. Libanio considera que:

    A tendncia prolongar tal perodo por razes desde econmicas at demogrficas. Ao viver-se numa sociedade fundada na desigualdade e na exploso, os olhos sobre o jovem so de desconfiana, embora no verbalizada. (...) Por isso, atravessa essa idade certa angstia de ser ao mesmo tempo apta e inepta para a vida social. (LIBANIO, 2009, p. 13).

    Sociologicamente, a adolescncia/juventude um grupo social, com suas peculiaridades de quem no mais criana, mas tambm no chegou ainda ao perodo de responsabilidade prpria do adulto. Sendo assim, encontramos jovens em diversos setores, de acordo com as condies socioeconmicas ou culturais em que vivem. So eles: da roa ou do campo; estudantes; operrios-trabalhadores; universitrios; indgenas; em situaes crticas; dependentes de drogas; que delinquem; que se prostituem; que vivem na rua; homossexuais; soropositivos e doentes de AIDS; portadores de deficincias. Tratando-se de vulnerabilidade, provvel existirem outros setores com realidades diversas. Tambm, com os tempos modernos, surgiram vrias realidades que a cada dia ganham visibilidade e extenso em meio sociedade, como as mes solteiras, os jovens encarcerados e as vtimas de abusos diversos.

    Na atualidade, os estudiosos que se dedicam causa juvenil preferem tratar tal fenmeno definindo-o como Juventudes,

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  • como uma forma de abarcar as diversas realidades existentes.

    Para a Igreja, a adolescncia/juventude possui traos muito caractersticos, como est escrito nas concluses da Conferncia de Puebla:

    Ao perceberem que no so tomados a srio, os jovens se lanam por diversos caminhos: ou so perseguidos por diversas ideologias, especialmente as radicalizadas, j que, sendo sensveis s mesmas por seu idealismo natural, nem sempre tm a suficiente preparao para o claro discernimento, ou mostram-se indiferentes para com o sistema vigente ou se acomodam a ele com dificuldade e perdem a capacidade dinamizadora. (PUEBLA, 1979, n. 1170).

    Para os jovens, a vulnerabilidade social se d, sobretudo, pelas precrias condies de ensino. As escolas pblicas no atendem s necessidades bsicas, acarretando o despreparo intelectual dos estudantes. Em consequncia disso, o medo de no conseguir insero no mercado de trabalho muito frequente entre eles. Essa camada da sociedade muitas vezes vista com olhos desconfiados, uma vez que vive margem e no tem sua dignidade garantida.

    Diante de tamanha disparidade societria em que vivemos, podemos destacar um fator comum que existe em meio s juventudes. Trata-se da variedade de comportamentos, gerada pelo sistema econmico-social em que nosso pas est inserido. A inteno aqui no argumentar desfavoravelmente ao sistema capitalista, mas apont-lo como o gerador da conjuntura injusta em que vivemos, com vistas a facilitar o nosso entendimento acerca do fenmeno juvenil.

    3. O GRUPO O LUGAR DA FELICIDADE DO JOVEM

    Por diversas vezes, os pais, os adultos de um modo geral se perguntam: por que esses meninos gostam tanto de estar em rodas de conversa no meio da rua ou na esquina? O que tanto eles tratam? Ou ainda: O que essa menina vive fazendo na Igreja? Por que ela faz questo de estar no grupo de jovens?

    A resposta simples. O jovem no gosta de estar s. Ele vive alucinadamente o desejo de estar agrupado, seja simplesmente para ir a uma festa ou para conversar sobre assuntos como famlia, solidariedade, sexualidade, amizade, futuro. Ele no suporta a ideia de passar um fim de semana inteiro sem fazer nada, mesmo que esse fazer nada se refira a ficar na internet, apreciando as invenes da informtica. Alis, vlido dizer que, mesmo a nossa sociedade vivendo a era da internet, qual, indiretamente, os sites de relacionamento (Orkut) chegam com a inteno de substituir esse processo grupal, nunca se viu tanta procura de vivncia em grupo por parte dos jovens como atualmente.

    perceptvel o crescente engajamento da juventude nos espaos eclesiais, proveniente da necessidade que a meninada tem de encontrar aconchego, fazendo com que tais espaos tenham um significado marcante na vida e na histria de tantos. A Igreja Catlica reconhece a importncia dessas vivncias quando diz:

    Em nossa Igreja h uma presena significativa de jovens em vrios setores da vida eclesial: nas comunidades eclesiais de base e nas parquias, participando das equipes de

    liturgia e de canto, atuando como catequistas, em diversas pastorais. Esto presentes tambm nas pastorais da juventude, nos movimentos eclesiais, nas novas comunidades e nas diferentes iniciativas promovidas pelas congregaes religiosas e institutos seculares. (Doc. 85, CNBB, 2007, n. 47).

    Em contrapartida, faz-se necessrio que a Igreja pense em algumas mudanas de postura, como instituio, para assim conseguir acompanhar as novas demandas. Libanio ressalta que

    J no se torna possvel a poltica do avestruz. No se defende nem se protege algum, isolando-o do mundo. Isso j no cabvel nem nos noviciados mais fechados da vida consagrada, muito menos para os jovens imersos na sociedade de hoje. A nica defesa a formao de uma conscincia crist crtica, tranquila e lcida. (LIBANIO, 2004, p.91).

    Tomemos como objeto de estudo os diversos grupos de jovens espalhados nas parquias de todo o Brasil, observando neles vrias realidades ofertadas. Logo, teremos fortemente a certeza de que tais espaos tm a ver com alegria e amizade. onde acontece a descoberta da afetividade, do amor partilhado, e por que no dizer: da felicidade (no sentido mais amplo da palavra). Quando falamos de descobertas, cabvel ressaltar que nessa fase que o individuo se percebe, se encontra, amadurece, experimenta. ali que o vnculo afetivo se evidencia, favorecendo belas amizades, que podemos at citar como realidade divina, algo que surge no cotidiano, totalmente gratuito, que chega e garante o seu lugar. por meio dela que samos de ns mesmos e deixamos que o outro, a outra, penetre em nossos pores interiores. (DICK, 2004, p. 39).

    Outro sentimento que brota explosivamente do corao da juventude que a vida deve ser sempre uma festa. A alegria um aspecto fundamental que deve transbordar de todos os cristos, e onde h juventude h alegria e celebrao (DICK, 2004, p. 44). Pode-se dizer, at, que ele - o jovem festa. Ele vive tanta novidade que seria anormal no querer encontrar-se para rir, cantar e danar. (DICK, 2004, p. 50).

    Observar a juventude por todos esses ngulos nos faz reconhecer que Deus se manifesta a partir dela da forma que , pois se trata de uma realidade teolgica, ou seja, observ-la observar o sagrado existente em cada rosto juvenil, sentindo a presena do Pai que semente dentro dela. O jovem um ser mstico quando se torna um espao divino, onde Deus se manifesta em sua riqueza infinita. E o grupo o lugar privilegiado para que o jovem perceba que o Deus da juventude real e tem um rosto juvenil, como bem descreve Jorge Trevisol em sua cano: O rosto de Deus jovem tambm e o sonho mais lindo ele quem tem. Deus no envelhece, tampouco morreu, continua vivo no povo que seu. Se a juventude viesse a faltar, o rosto de Deus iria mudar. Sobre isso, o Papa Bento XVI, em seu discurso aos jovens, por ocasio da Conferncia de Aparecida, em 2007, disse: Sem o rosto jovem, a Igreja se apresentaria desfigurada. Tudo isso sinaliza a importante relevncia dada juventude.

    O adolescente/jovem tambm tem sua opinio espontnea e crtica no que se diz respeito Igreja:

    (...) a Igreja no pode assumir-se em ser sacramentalista, mas que ela chamada a ser comunidade. O que a juventude sonha uma Igreja que celebra a vida, que seja um povo

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  • de irmos, que seja comunho e participao, que tenha preferncia pelos pobres, que seja proftica e libertadora, que seja solidria e evangelizadora, que seja capaz de confiar e desafiar, isto , que seja comunitria. (DICK, 2004, p.52).

    Por isso, quando ele (o jovem) experimenta a vivncia grupal de forma apaixonante, sente-se fortemente chamado a intervir na sociedade de forma apostlica, sobretudo no que diz respeito a promover a dignidade daqueles que tm seus direitos corrompidos. O jovem sensvel realidade social, por se tratar da vtima primeira do sistema excludente em que vivemos.

    Aos poucos, comeamos a perceber que essa juventude se sente capaz. O desejo de ser protagonista da prpria histria deixa de ser algo ilusrio. bonito enxergar o rosto daqueles (as) que se dedicam a um outro mundo possvel e que sentem o desejo de construir uma nova civilizao. No como algo utpico no sentido de impossibilidade -, mas como algo desejvel, muito bem expresso na cano composta por Gonzaguinha: Eu vou luta com essa juventude que no corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que no est na saudade e constri a manh desejada.

    4. SEGUIR JESUS PARA FICAR COM ELE

    Os jovens buscam incansavelmente por modelos e referncias. bem verdade que nossa sociedade apresenta alguns stars que surgem na perspectiva de atingir o pice da fama, mas que, de modo descartvel, logo desaparecem, dando lugar a outros e, consecutivamente, outros dolos.

    Ao despedir-se da infncia, momento de reforo do egocentrismo, que no pe em questo o prprio centro de si, o adolescente sente a necessidade de encontrar modelos. Entra em jogo o papel do heri com que ele se esfora por identificar-se. (LIBANIO 2004, p.25).

    Tal inverso de valores, forjada pela sociedade de consumo em que vivemos, parece ser uma grande oportunidade para apresentar Jesus Cristo aos adolescentes e jovens, dando espao para o processo de evangelizao. Seguir Jesus parece ser algo fascinante, porm preciso apresent-lo de forma mais concisa e real. Devemos apresentar Jesus de Nazar compartilhando a vida, as esperanas e as angstias do seu povo. (cf. PUEBLA, n 176).

    Aparentemente, enxergamos no itinerrio mais fortemente a presena do mestre (no caso do cristianismo: Jesus), no entanto preciso perceber que o mestre nada mais que uma seta apontando um caminho. Jesus no veio autopromover-se nem tinha como principal objetivo falar si, mas apontar um Novo Reino de paz e justia, necessidade to urgente para a sociedade daquela poca e que se estende at os dias atuais. Dessa forma, Jesus cumpria sua misso, que era fazer a vontade do Pai. (Jo 6,38).

    O jovem, como todo cristo, convidado a seguir Jesus, o que significa imitar Seu exemplo e ter a Sua vida dentro de si. Essa ltima exigncia trata-se de viver a mstica do seguimento como fruto da ao do Esprito Santo, por Ele deixado como consolador, aps sua ressurreio e partida para junto do Pai. O chamado se d de forma nominal e intransfervel, assim como a resposta a esse chamado. O difcil escutar a voz de Cristo em meio a tantas outras vozes, por isso o grupo de jovens aparece

    como um meio canalizador de contato entre Jesus e os seus. A formao comunitria um grande passo para que haja o dilogo entre ambos. Os coordenadores e/ou responsveis pelos grupos devem promover espaos de vivncia e partilha, pois, na maioria das vezes, o encontro semanal e as aes solidrias promovidas pelo grupo so os nicos momentos que os jovens dedicam intimidade com o Pai. Tambm o contato pessoal com Deus no algo abstrato; acontece de forma viva e dinmica (assim como a Trindade Santa) por meio da (...) orao pessoal, o dilogo ecumnico e religioso, o cotidiano da vida (escola, bairro, trabalho, famlia...), as artes (msica, teatro, dana...) e toda a criao, numa relao harmoniosa com as criaturas. (Doc. 85, CNBB, 2007, n. 64).

    5. PASTORAL JUVENIL MARISTA SEGUIR JESUS NOS PASSOS DE CHAMPAGNAT

    As congregaes religiosas, inspiradas em seus fundadores, muito contribuem para que acontea o processo de educao de seus educandos na f. Nos dias atuais, cresce a necessidade de se desenvolver um trabalho pastoral-pedaggico que estimule na juventude atitudes como autonomia, responsabilidade e, sobretudo, solidariedade.

    Marcelino Jos Bento Champagnat (fundador da Congregao Marista), sensvel aos apelos de seu tempo (perodo que compreende a Revoluo Francesa), manifestou o desejo de ir onde os jovens estavam: vamos aos jovens l onde eles esto. Vamos com ousadia aos ambientes, talvez inexplorados, onde a espera de Cristo se revela na pobreza material e espiritual. (Constituies, n 83). bem verdade que, com o passar do tempo, tal prtica se torna mais eficaz, devido s diversas formas de organizao e estruturao por parte da Instituio Marista. O desejo de Champagnat de estimular os jovens a serem bons cristos e virtuosos cidados se torna algo cada vez mais real, como observamos:

    Educamos, sobretudo, sendo presena junto s crianas e aos jovens, demonstrando-lhes que nos preocupamos com eles e estamos atentos s suas necessidades. Dedicamos-lhes o nosso tempo, alm das relaes meramente profissionais, buscando conhecer cada um pessoalmente. Individualmente, e como grupo de educadores, estabelecemos com eles um relacionamento baseado no amor, que crie um clima favorvel aprendizagem, educao dos valores e ao seu desenvolvimento pessoal. (MISSO EDUCATIVA MARISTA, n. 99).

    Fomentar, em todas as unidades Maristas, grupos juvenis que favoream a desenvolvimento pessoal algo que faz parte da concretizao do sonho de Champagnat. Vale ressaltar aqui que no se trata apenas de desenvolver uma cultura de humanizao. No que isso no seja importante, mas preciso, sobretudo, despertar nos meninos e meninas um processo sadio e integral de evangelizao. Em alguns momentos, temos a impresso de que se trata da mesma coisa, o que no . Evangelizao o anncio da Boa Nova do Reino e do amor do Pai, manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado, para nossa salvao (FUENTES, 2008, p.21). A humanizao faz parte da evangelizao, como um excelente ponto de partida.

    De fato, bastante evidenciado que os grupos juvenis que surgem no seio das escolas encontram algumas aberturas que no percebemos quando tratamos dos grupos eclesiais. Segundo Libanio, isso se d uma vez que a espiritualidade, o carisma do fundador, a organizao oferecem estrutura estvel

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  • na qual os grupos se apoiam. (LIBANIO, 2004, p. 198). Para tanto, evidenciaremos aqui o trabalho desenvolvido juntos aos adolescentes e jovens nas unidades Maristas, o qual atualmente recebe o nome de Pastoral Juvenil Marista (PJM).

    A PJM surge como um agente canalizador que ajuda os adolescentes e jovens a encontrarem o caminho de seguimento de Jesus, como apresenta o seu Marco Referencial:

    A PJM , assim, uma experincia marista que se insere no universo maior da evangelizao juvenil, em consonncia com a Igreja do Brasil e da Amrica Latina. uma opo do Instituto Marista, fundamentada no carisma recebido por So Marcelino Champagnat de, pela educao, tornar Jesus Cristo conhecido e amado, especialmente entre as crianas e jovens. (D NACIONAIS DA PJM, 2006).

    A PJM, em seu processo, inspira-se nas vivncias das Pastorais da Juventude do Brasil, ao destacar a formao integral, que tem como objetivo fundamental considerar a pessoa humana em sua totalidade. No caso da adolescncia/juventude, tal procedimento se faz necessrio, uma vez que nessa fase que acontecem as transformaes biolgicas, socioculturais, psicolgicas, entre outras, a transformao teolgica.

    Quando pensamos em processo, temos claramente a noo de movimento, caminho, percurso. Assim, esse um itinerrio que vai sendo construdo, juntamente com a histria; e, tratando-se de processo de educao na f, a tendncia perceber-se a estagnao ou crescimento de cada individuo, na medida em que ele se relaciona com o meio, em destaque com o grupo juvenil. A PJM aparece como uma opo para a vivncia grupal, sobretudo no universo escolar, uma vez que a experincia de grupo se d no dinmico contexto escolar marista. Assim como o ser humano, os grupos no nascem prontos, por isso preciso levar em conta fatores como o tempo, disponibilidade, assimilao da proposta, amadurecimento pessoal. Ao falarmos em amadurecimento, preciso atentarmos a muitas coisas: descobertas, dvidas, leituras, conversas, rezas, seminrios de estudo, preguias, relaxamentos (UMBRASIL, COMISSO DE EVANGELIZAO, 2008, n. 08).

    A PJM abraa a ideia de Educao Integral, a partir da proposta apresentada pelo documento lanado pelo CELAM, no ano de 1997, e intitulado Civilizao do amor, na p. 203, que nos traz as seguintes dimenses: a relao do jovem consigo mesmo; a relao do jovem com o grupo; a relao do jovem com a sociedade; a relao com Deus, Pai e Libertador; a relao com a Igreja. Tambm foram acrescentadas outras dimenses: a relao com a natureza e com a ecologia, e a relao com o meio educacional.

    Dessa forma, a PJM assume sua dimenso eclesial, percebendo-se, contudo, em um lugar diferenciado, que o mbito escolar, sobretudo marista. O carisma do Fundador deve estar disposio da Igreja, como dom. A proposta fazer com que a meninada se sinta vocacionada e se permita fazer um lindo percurso rumo maturidade da f.

    6. CONCLUSES

    Ao passo que se comea a entender a adolescncia/juventude como uma transio bonita e mstica, passa-se tambm a depositar mais respeito e confiana em tudo o que inerente a ela, direcionando-se um olhar mais sensvel sua realidade, marcada por angstias e aspiraes. preciso firmar, em nossa

    sociedade, a certeza de que esse momento especial e nico um fenmeno ricamente divino; afinal, o Deus da vida habita nele e age por meio dele. A adolescncia/juventude necessita de lugares, ambientes que possam acolh-la, bem como favorecer o desenvolvimento de seus potenciais e habilidades a favor da vida, aceitando-a com suas especificidades e significados. A vida em grupo o lugar ideal para que se isso se torne verdade. Os grupos juvenis que se encontram nos espaos eclesiais ou escolares aparecem como uma opo, por serem instncias privilegiadas de comunho e fraternura. As escolas catlicas acreditam que os grupos juvenis gerados em seu meio so agentes canalizadores para que haja o seguimento ao Mestre de Nazar, possibilitando o protagonismo que capaz de gerar transformaes a sua volta.

    7. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BBLIA. A Bblia Sagrada. Edio Pastoral. So Paulo: Paulus, 1991.

    COMISSO INTERPROVINCIAL DE EDUCAO MARISTA (1995-1998). Misso Educativa Marista: um projeto para o nosso tempo. 3. ed. So Paulo: SIMAR, 2003.

    CONFERNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANA (CELAM). Documento de Puebla. So Paulo: Edies Paulinas, 1979.

    CONFERNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Evangelizao da juventude: desafios e perspectivas pastorais. Doc. 85. So Paulo: Paulinas, 2007.

    DICK, Hilrio. O divino no jovem. Po: Evangraf, 2001.

    LIBANIO, J. B. Jovens em tempo de ps-modernidade. Consideraes socioculturais e pastorais. So Paulo: Loyola, 2004.

    SECRETARIADO INTERPROVINCIAL MARISTA. Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista. So Paulo: FTD, 2006.

    UMBRASIL. Caminho da educao e amadurecimento na f. A mstica da Pastoral Juvenil Marista. So Paulo: FTD. 2008.

    VATICANO II. Compndio do Vaticano II. Constituies, Decretos, Declaraes. Petrpolis: Vozes, 2000.

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  • A ESPIRITUALIDADE COMO EIXO FORMATIVO DE UMA ESCOLA

    EM PASTORAL1

    Autor: Jos Braga Ribeiro Neto2

    Orientador: Adalberto Batista Amaral3

    RESUMO

    Este artigo estabelece a perspectiva de que a dimenso da espiritualidade deve ser considerada implcita e explicitamente no itinerrio educativo das escolas que se pretendem em pastoral. Aprofunda-se no significado da espiritualidade, no mundo hodierno, e nas diferentes possibilidades de concepo dessa dimenso; nas possibilidades de interface com o currculo na escola confessional e, por fim, na afirmao da mesma como eixo imprescindvel na formao dos educandos. Para tanto, provocou-se um dilogo com estudiosos diversos, como o telogo Joseph Ratzinger, o doutor em cincias da religio Jean-Guy Saint-Arnaud, o filsofo Robert Solomon e o pedagogo J. Gimeno Sacristn, alm de preciosas e pertinentes iluminaes dos conteudistas dos mdulos de estudo sobre escola em pastoral.

    PALAVRAS-CHAVE: Espiritualidade. Escola em pastoral. Currculo. Educao. Formao integral.

    INTRODUO

    Sendo este artigo uma produo cientfica que discorre sobre espiritualidade, permita-se dizer que necessrio baixar a guarda para a desconstruo de falsas concepes acerca do termo e da dimenso que posta em discusso. verdade que falar sobre espiritualidade na ps-modernidade passou a ser bastante comum. Basta verificar, ilustrativamente, a quantidade e diversidade de produes literrias voltadas para tal temtica que impulsionaram importantes livrarias comerciais do mundo a dedicarem a elas sees exclusivas e imensas, algo impensvel e inexistente durante grande parte do sculo passado. Apesar disso e da efetiva leitura de milhes de pessoas interessadas, no se corrobora maior clareza conceitual, tampouco vivencial acerca da espiritualidade no arcabouo formativo e ideolgico dos cidados comuns. Na prtica, tanto o mercado quanto os cidados leitores ainda encontram dvidas, por exemplo, ao classificarem determinadas produes literrias entre autoajuda, religio ou espiritualidade. Com isso, porm, no se ironiza nem se depe contra uma condenvel ignorncia do sistema e dos indivduos acerca dessa dimenso to autenticamente universal da condio humana. A falta de preciso terica e pertinncia prtica bastante comum em muitas culturas, especialmente no Ocidente. Para tanto que aqui se pretende descobrir analiticamente diferentes nuances da espiritualidade, tanto em seu aspecto cognitivo como emprico, para ampliar e no para reduzir sua concatenao na vida cotidiana de pessoas, escolas, comunidades e sociedades. 1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 FormadoemFilosofia(ITEP-CE),BacharelemTeologia(ICRE-CE)eespecialistaemEnsinoReligioso(UniversidadeCatlicadeBraslia). CoordenadordePastoraldoColgioMaristadeNatal.3 IrmoMarista,GraduadoemPedagogiapelaFaculdadedeFilosofiadeRecife,CoordenadordareadeVidaConsagradaeLaicatodaUnioMaristadoBrasil.

    Outra busca da presente elaborao identificar com maior clareza como se d implicitamente e como se pode dar explicitamente a interface do currculo de uma escola confessional com a dimenso da espiritualidade dos educadores e educandos, como sujeitos interlocutores desse itinerrio educativo. Nesse tpico, aproveitaremos para refletir um pouco mais sobre como perceber, vislumbrar e promover o acontecer pedaggico da espiritualidade com interlocutores ateus e agnsticos, sem proselitismos ou imposies. Algo que afirmamos desde j: mais que possvel, ntegro e desejvel.

    Por fim, ampliaremos a compreenso da espiritualidade como realidade que nos transborda e como eixo formativo imprescindvel a ser considerado no currculo de um educando de uma escola confessional. Com boa fundamentao acadmica, ponderamos sinalizar o quo natural, pertinente e coerente apresentar a espiritualidade ao lado de dimenses como a antropolgica, ideolgica, cultural, filosfica, ldica, psicolgica, etc., entre os fundamentos imprescindveis contemplados na perspectiva da formao integral de uma escola confessional que se pretenda em pastoral.

    1. POSSIBILIDADES DE COMPREENSO DA ESPIRITUALIDADE NA PS-MODERNIDADE

    Parece-nos pertinente que no se alcanar maior clareza acerca da espiritualidade promovendo uma mera discusso conceitual do termo. Mais ainda quando j sinalizamos, de antemo, que se trata de uma realidade que sempre nos supera. Por outro lado, reconhece-se que se disseminaram demasiadas preconcepes que podem ocasionar rudos no exerccio de aprofundamento acadmico acerca do sentido ou dos sentidos mnimos inegociveis a serem considerados neste estudo.

    Espiritualidade independe de Religio

    Trazemos preventivamente discusso algumas nuances daquilo que percebemos como no-espiritualidade ou como pseudoespiritualidade. No por arrogncia acadmica, mas por mtodo e intencionalidade elucidativa. Entre os estudiosos que nos fundamentam nesta discusso, destaca-se Robert Solomon. Trata-se de um filsofo que descreve uma genuna busca pessoal pelo sentido de sua vida e felicidade. Relata-nos, em seu livro Espiritualidade para cticos (2003), vrias percepes interessantes e dignas de ateno:

    Minha busca neste livro (...) de um sentido no-religioso, no-institucional, no-teolgico, no baseado em escrituras, no-exclusivo da espiritualidade, um sentido que no seja farisaico, que no se baseie em Crena, que no seja dogmtico, que no seja anticincia, que no seja mstico, que no seja acrtico, carola ou pervertido (p. 19).

    Solomon se d conta de que sua busca transborda os muros conceituais milenares da histria ocidental que identificou, genericamente, espiritualidade e religio organizada. Mais que isso, atrelou-a a uma crena especfica num Deus judaico-cristo-islmico. Para ele, se genuno que milhes de fiis monotestas considerem sua crena como componente essencial da espiritualidade, tambm verdade que outros milhes de budistas, por exemplo, so intensamente espirituais sem necessidade de f em um Jav, Al ou qualquer ser divino especfico. Em sntese, a partir de Solomon, pode-se dizer que no necessrio pertencer a uma religio organizada, seja ela ocidental ou oriental, para ser espiritual. Quem no conhece pessoas que se vangloriam de serem devotas, mas so to

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  • desprovidas de espiritualidade quanto um sepulcro caiado? Misturar e reduzir espiritualidade a religio resulta em uma espcie de exclusivismo, que se traduz na prtica da intolerncia. Isso no quer dizer que a espiritualidade no esteja presente na religio organizada. Claro que est, mas que h lugar para a espiritualidade fora dos muros das religies estabelecidas, isso certo (Cf. 2003, p.18-19).

    Espiritualidade integra e plenifica a vida humana

    Outro estudioso que nos ajuda a aprofundar nosso exerccio de compreenso-aproximao espiritualidade Saint-Arnaud. Seu livro Sal de tu tierra (2001) traz-nos duas iluminaes fundamentais e pertinentes. A primeira delas que espiritualidade no se confunde simplesmente com vida religiosa (relao com um ser transcendente a partir de cdigos, smbolos e ritos), vida interior (que implica apenas fazer-se presente ante si mesmo, sem necessidade de um transcendente), vida moral (relativa a uma existncia coerente com princpios, sejam eles transcendentes ou no) ou vida mstica (relao com um transcendente que possibilita experincias inefveis) (Cf. p. 17-18). Essas so dimenses importantes e verdadeiras da existncia humana, mas no se podem confundir com espiritualidade, sob pena de se operarem reducionismos. Nesse sentido, vida espiritual e espiritualidade assumem, para ns, perspectiva quase idntica, ainda necessitada de um arremate, como veremos mais a seguir.

    A segunda iluminao, j afirmativa e estrutural para tudo o que se prope no desenvolvimento do presente estudo, parece-nos mais inteligvel e didtica se a entendemos analiticamente. Vejamos as seguintes assertivas:

    - S tenho uma vida, a que vivo nesse momento;

    - Minha nica vida pode ser considerada sob diversos aspectos (vida psquica, sexual, afetiva, intelectual, moral, poltica, econmica, profissional, espiritual, etc);

    - Cada uma de minhas dimenses se encontra organicamente unida a todas as demais e no podem desenvolver-se separadamente;

    - Minha vida est circunscrita ao tempo e ao espao em que se encontra;

    - Sem confundir-se, minha vida espiritual est unida organicamente a todas as demais dimenses e, mais que isso, ela que as integra e d plenitude.

    A anlise acima quer dar conta de perceber uma dimenso a espiritualidade extremamente abrangente e universal, mas ao mesmo tempo reconhecidamente especfica e particular, por isso optamos por utilizar oraes na primeira pessoa do singular. Aquilo que mais ntimo , por isso, o mais universal, j diziam os filsofos existencialistas. Saint-Arnaud afirma com convico e sutileza que no h autntica espiritualidade que no se circunscreva no espao-tempo, na vida historicamente vivida, sem abstraes incuas, nem fugas para outros planos csmicos.

    Mi vida espiritual est unida orgnicamente a todos los dems aspectos de mi nica vida. Mi vida espiritual se desarrolla com las aportaciones de mi vida fsica, sexual, afectiva,

    intelectual, moral y econmica; de lo contrario es vivida como uma esquizofrenia, como una vida com diferentes cajones, que se abren por la maana, el rato em que se hace oracin, o el domingo, durante la misa. Tocamos aqui el importante problema de la integracin, de la unificacin progresiva de nuestra vida espiritual con nuestra vida sin ms. Nos unimos as al planteamiento holstico (...), segn el cual es importante (...) no aislar nunca lo espiritual de la totalidad de la persona (2001, p. 15-16)4.

    O que referenda uma autntica espiritualidade no so simplesmente as possibilidades de interao com o divino, mas os fenmenos observveis nas relaes entre seres humanos concretos e com a natureza em geral. Em outras palavras, o que no nos pode escapar , respectivo s assertivas acima, que, mesmo falando em espiritualidade, s se considerou a vida vivida no aqui e no agora. Outra vida num plano celeste ou outras vidas encarnadas em outros espaos-tempos no so pertinentes para auferir maior ou menor profundidade de uma espiritualidade.

    Para dar contornos mais objetivos ao que se pretende assumir como espiritualidade e avanar nas reflexes, dizemos, com Saint-Arnaud, o seguinte: precisamos transformar o vivido em experincia. A passagem da vida espiritual para a experincia espiritual propriamente dita o que vai determinar o que, aqui, consideraremos espiritualidade. Mas algum poderia dizer: experincia no algo demasiado pontual? Sem rodeios, digamos logo que o que chamamos experincia comporta quatro caractersticas: uma vivncia feita consciente, uma vivncia repetida, uma vivncia real e uma vivncia verificada (Cf. 2001, p. 22).

    - Uma vivncia consciente: O primeiro trao essencial da experincia seu carter reflexo. Olhar-se e ver-se. Sem tomada de conscincia, no podemos falar do que vivemos e comunic-lo aos outros. Grande parte do trabalho espiritual consiste em fazer emergir do inconsciente a apreenso viva da realidade e a presena ativa do transcendente em nossa vida concreta.

    - Uma vivncia repetida: Refere-se objetivamente durao. Quando se fala de uma pessoa com experincia, faz-se referncia a algum que teve largo trato com uma realidade, que conseguiu familiarizar-se com ela, que a conhece por hav-la explorado no decorrer do tempo, debaixo de diversos ngulos.

    - Uma vivncia real: No uma teoria. diferente de adeso a uma doutrina tradicional, ou a um sistema de pensamento. Em cincia, a experincia se ope ao conhecimento terico, s ideologias. H uma diferena enorme entre falar de Deus, dissertar sobre sua existncia, ouvir falar dele, por um lado, e, por

    4 Minhavidaespiritualestunidaorganicamenteatodososdemaisaspectosdeminhanicavida.Minhavidaespiritualsedesenvolvecomascontribuiesdeminhavidafsica,sexual,afetiva,intelectual,moraleeconmica;docontrriovividacomoumaesquizofrenia,comoumavidacomdiferentescaixotes,queseabrempelamanh,otempinhoemquesefazorao,ouodomingo,duranteamissa.Tocamosaquioimportanteproblemadaintegrao,daunificaoprogressivadenossavidaespiritualcomnossavidasemmais.Unimo-nosassimaopensamentoholstico(...),segundooqualimportante(...)noilharnuncaoespiritualdatotalidadedapessoa.

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  • outro, falar-lhe, entrar efetivamente em comunicao com ele. Teologia (conhecimento especulativo-terico) diferente de espiritualidade (conhecimento experimental do transcendente).

    - Uma vivncia verificada: A experincia afeta no s o plano existencial da pessoa, determinando ou modificando seu modo de ver a vida, mas tambm o plano existentivo, ao pr-se em relao com o conjunto das sucesses nas quais ela est situada.

    Assim, pois, aquilo que se nos apresenta na existncia como espiritualidade pressupe a passagem de uma vida espiritual para experincia espiritual, um contato pessoal, que envolve a totalidade do protagonista no plano sensvel e no intelectual, que implica risco e exige audcia, que estimula a pessoa a permanecer viva e ativa frente ao que acontece (Cf. SAINT-ARNAUD, 2002, p. 27). Ou, desde outra perspectiva, espiritualidade (...) , nada menos, que amor bem pensado vida! (SOLOMON, 2003, p. 18). uma passagem que no se confunde com uma sucesso de experincias pontuais, mas que efetivamente se entranha na plenitude e integridade de pessoas, escolas e comunidades, criando liga e constituindo certo esprito.

    2. A INTERFACE DA ESPIRITUALIDADE COM O CURRCULO NA ESCOLA CONFESSIONAL

    Dar amplitude e ordem de significados do trabalho escolar se relaciona diretamente com o estabelecimento de comportamentos didticos, administrativos, polticos, econmicos, entre outros aspectos pertinentes identidade de qualquer comunidade educativa. Em uma palavra: construo de currculo. De imediato, a partir do que j dissemos sobre espiritualidade, percebemos grandes possibilidades de imbricao dessa dimenso com um currculo educacional formal. Aparecem limites, porm, quando sob as vestes de linguagem, essas prticas acabam se transformando numa espcie de currculo a posteriori.

    A prtica a que se refere o currculo, no entanto, uma realidade prvia muito bem estabelecida (...) atrs dos quais se encobrem muitos pressupostos, teorias parciais, esquemas de racionalidade, crenas, valores, etc. que condicionam a teorizao sobre o currculo (SACRISTN, 2000, p. 13).

    Promover a dimenso da espiritualidade no currculo no meramente um esforo de boa vontade terica, mas de uma construo cultural. No se trata de algum tipo de existncia fora e previamente experincia humana (Idem, p. 14). Quando se trata de espiritualidade, portanto, fala-se de uma prtica no restrita ao abstrato de uma ordenao terica. Por outro lado, no h autntica interface da espiritualidade com o currculo se ela no for contemplada previamente como outras dimenses fundamentais da formao humana integral. Que ela seja, efetivamente, colocada ao lado das demais dimenses antropolgicas, sociolgicas, filosficas, entre outras, na hora do embasamento e dos princpios norteadores da construo curricular.

    Desde uma perspectiva mais especfica nossa, Balbinot, facilitador do mdulo III do curso de Escola em Pastoral, partilha conosco a ideia de que educao e evangelizao tm um mesmo sentido: aes que se realizam entre pessoas com finalidade formativa (Texto VI, p.1). A partir disso, captamos que tanto a evangelizao quanto a educao partem de um substrato

    terico-vivencial dinmico para orientar suas iniciativas. Em outras palavras, ambas carregam, implcita ou explicitamente, concepes de ser humano, de mundo, de sociedade, de metodologia, consideradas pertinentes para desenvolver no seu currculo. Em alguma instncia, plasmar-se-, sutilmente ou no, uma concepo do divino, do transcendente, de Deus e, por conseguinte, de espiritualidade.

    Se toda ao educativa tem fundamentos antropolgicos, cosmolgicos e sociolgicos, somente a ao educativa nas escolas confessionais integra a estes, conscientemente, fundamentos teolgicos [e teleolgicos]. Assim, temos uma semelhana e, ao mesmo tempo, uma diferena entre escola laica e escola confessional. Na escola confessional evangelizao, [espiritualidade] (acrscimo nosso) e educao esto intimamente imbricadas (BALBINOT, Texto VI, p. 1, acrscimo nosso).

    Mesmo em escolas laicas, concepes diversas de Deus permeiam o processo de ensino-aprendizagem. Espontaneamente ou no. A partir de iniciativas pessoais, ou de um corpo tcnico. Na dinmica dos alunos ou dos educadores. A diferena da escola laica que a incidncia de espiritualidade se efetua num movimento espontneo e assistemtico. Enquanto a escola confessional se identifica com uma intencionalidade espiritualizadora, a laica abocanhada involuntariamente porque a supera por essa dimenso. H Projetos Poltico-Pedaggicos que sinalizam certa concepo de Deus nas entrelinhas dos outros fundamentos. Explicitamente, porm, s algumas confessionais que, diga-se de passagem, chegam a acrescentar um quarto P para conformar um: Projeto Poltico-Pedaggico-Pastoral.

    Escolas que optaram por associar seu projeto pedaggico com seu projeto pastoral, como dois lados de uma mesma moeda, desembocaram num caminho de vanguarda de escola em pastoral. Aponta-se da a perspectiva de uma escola toda pensada e operacionalizada a partir dos fundamentos da vida crist, sem deixar de respeitar o diferente. Enquanto isso, muitas propostas educativas catlicas se perfilaram ad intra e reproduziram uma pastoral de conservao, mantendo a Igreja dentro da sacristia (concepo de pastoral na escola), a partir de um trabalho paralelo ao resto do mundo escolar. Em profundidade o em pastoral significa o modo da escola ser. Diz respeito sua identidade, sua espiritualidade. Deste modo, a escola em pastoral no pode ser reduzida a um setor dentro da escola (BALBINOT, Texto VI, p. 3).

    As instituies religiosas e os lderes espirituais cada vez mais referendam o espao escolar como propcio para o desenvolvimento da espiritualidade. O Documento de Aparecida referenda a escola catlica como autntica comunidade eclesial e centro de evangelizao. Estabelece que a f deve, sim, ser integral e transversal ao currculo, levando em conta todo o processo de educao na f (PEF), amplamente disseminado por documentos da Pastoral da Juventude em todo o pas (2007, p. 133, n. 338). Aqui, vale a pena lembrar que reconhece a f crist unida espiritualidade, mas no aprisionada a ela.

    a partir da que nos lanamos pergunta: e os interlocutores ateus e agnsticos? Educadores e educandos? Eles ficariam alheios construo da espiritualidade prevista e proposta no currculo? A resposta objetiva : no! Justamente por ser em pastoral que est mais comprometida com a dimenso

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  • ecumnica e inter-religiosa. A diversidade religiosa no pode representar uma ameaa, e, sim, uma riqueza de possibilidades de crescimento. Se verdade que a evangelizao finalidade da escola catlica, a autenticidade desse processo fomentar o amadurecimento de uma espiritualidade desprendida de proselitismos ou doutrinaes, uma espiritualidade associada ao encantamento pela vida, que respeita o sacrrio da conscincia do outro. A pertinncia da espiritualidade de uma comunidade educativa est no saber congregar a diversidade de experincias e de projetos de vida dos educandos e educadores, para se constituir numa verdadeira comunidade de pertena (DA SILVA A. J., O planejamento da pastoral escolar, p.4).

    Por fim, conseguimos captar que a interface do currculo com espiritualidade resulta da imbricao natural de uma ordenao de contedos, prticas, vivncias, experincias que so previstas e propostas no itinerrio de um projeto educativo com uma dimenso da vida humana que plenifica e integra a pessoa por inteiro, projetando-a a um plano de encantamento e amor existncia e ao que transborda dela.

    3. A ESPIRITUALIDADE COMO EIXO IMPRESCINDVEL NA PROPOSTA FORMATIVA DE UMA ESCOLA EM PASTORAL

    O que orienta nossos critrios de ver-julgar-agir so, em ltima instncia, experincias terico-vivenciais que adquiriram significado para nossa existncia. Trata-se de recorrer a fontes inspiradoras que orientam nossas posturas e comportamentos. Se a isso somamos um pano de fundo de intenso amor vida e a tudo que nos rodeia, teremos mais uma possibilidade de compreenso da dimenso espiritual. ela que nos oferece mnimos referenciais sobre nossos critrios de julgamento, sobre os valores que realmente contam para ns, sobre os interesses centrais de nosso desejo e at sobre os trilhos que organizam nossos pensamentos. Trata-se, como vimos, de uma vivncia feita consciente, repetida, real e verificada que resulta concretamente num estilo de vida, num jeito de ser. Parafraseando Joseph Ratzinger, a espiritualidade no fruto de especulao filosfica, mas fruto do esforo de elaborao enamorada de experincias histricas (Cf. 2006, p. 121).

    As escolas confessionais catlicas so, em sua maioria, espaos propcios de viabilizao e amadurecimento da espiritualidade. Em termos de referncia, os prprios documentos da Igreja sinalizam, com notvel abertura, possibilidades de prtica explcita dessa dimenso. Seno, vejamos o que o Papa Paulo VI escreveu na encclica Evangelii Nuntiandi, n. 19:

    Para a Igreja no se trata tanto de pregar o Evangelho a espaos geogrficos cada vez mais vastos ou populaes maiores em dimenses de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela fora do Evangelho os critrios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade.

    Como se pode perceber, a partir de uma identidade crist catlica, o discurso eclesial j ultrapassou o meramente dogmtico e normativo. Aps o Vaticano II, premente uma religio de espiritualidade e no mais uma espiritualidade presa a um tradicionalismo anacrnico.

    Vale a pena, aqui, alertar para uma prtica, a nosso ver equivocada, mas comum de diversas famlias no tocante ao tema. A profuso de elementos, movimentos, igrejas, religies

    e pregaes proselitistas nos ltimos tempos vem deixando os pais muito em dvida sobre como criar os filhos na dimenso da espiritualidade. Chamam ateno os inmeros casais que optam por deixar a criana crescer para escolher sua religio. Saint-Arnaud nos ajuda a refletir que essa atitude de absteno dos pais que no querem influenciar seus filhos resulta numa miragem e pode produzir um grave risco de atrofia da dimenso espiritual e um vazio axiolgico desastroso, que poderiam gerar, na verdade, segundo os temperamentos, depresso, violncia ou refgio nas drogas (Cf. 2001, p. 21).

    Finalmente, acredita-se que as escolas confessionais catlicas j tm suficiente subsdio terico-vivencial para delinear, explicitamente, a interface da espiritualidade com o seu currculo. H necessidade, certamente, de se esmiuar mais, de dialogar mais, de aprofundar mais. Como transformar uma vida espiritual, inata, em uma espiritualidade como vivncia consciente, repetida, real e verificvel? Esse um dos desafios que se lanam e que merecem um cuidado intenso na construo do currculo de uma escola que se pretenda em pastoral.

    CONCLUSO

    Qualquer projeto educativo que se arvore de um srio arcabouo terico dever contemplar, o mais explicitamente possvel, como trabalhar o sentido da vida dos sujeitos de seu currculo: educandos e educadores. Falar de sentido da vida tocar, com intencionalidade, no tema e na dimenso da espiritualidade.

    Sem que nos escape que os projetos de vida so, a priori, de carter individual, pleiteamos que o espao educativo escolar tenha todas as possibilidades de oferecer referenciais mnimos, princpios, contedos cognitivos e valorativos que sejam capazes de oferecer experincia espiritual de encantamento pela vida s geraes de crianas, adolescentes e jovens. Numa mesma sintonia, que esse encantamento se transforme em jeito de ser comprometido amorosamente com a alteridade.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BALBINOT, Robert. Educao e evangelizao: pastoral escolar e escola em pastoral. Disponvel em < http://ead.marista.edu.br/mod/resource/view.php?id=1250 > Acesso em: 25 nov. 2009.

    RATZINGER, Joseph. Introduo ao cristianismo. Traduo por Alfred J. Keller. So Paulo: Loyola, 2005.

    SACRISTN, J. Gimeno. O currculo: uma reflexo sobre a prtica. Traduo por Ernani F. da Fonseca Rosa.. 3.ed.Porto Alegre: Artmed Editora, 2000.

    SAINT-ARNAUD, Jean-Guy. Sal de tu tierra: la aventura de la vida espiritual. Traduo por Juan Padilla Moreno. Madrid: San Pablo, 2002.

    SOLOMON, Robert C., Espiritualidade para cticos: paixo, verdade csmica e racionalidade no sculo XXI. Traduo por Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003.

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  • EVANGELIZAO JUVENIL EM TEMPOS DE CULTURA PS-

    MODERNA1

    ALUNO: Jos de Assis Elias de Brito2

    TUTOR: Aldemir Incio de Azevedo3

    RESUMO:

    Este artigo fruto de uma pesquisa bibliogrfica e aborda a juventude e sua evangelizao em tempos de ps-modernidade. Nele discorreremos sobre os conceitos de juventude, evangelizao e ps-modernidade, e ainda destacaremos as contribuies e os desafios da cultura ps-moderna na formao integral dos jovens. Destacaremos tambm atitudes e posturas a serem assumidas para que a construo do Reino de Deus continue acontecendo por meio da evangelizao ps-moderna, uma vez que existem muitos valores nessa cultura, tais como: leveza, flexibilidade, cotidianidade, esttica e corporeidade, que, se vividos numa perspectiva evanglica e humanizadora, podem contribuir de modo significativo para o sucesso da evangelizao em nossos dias.

    PALAVRAS-CHAVE: Juventudes. Evangelizao. Ps-modernidade.

    INTRODUO

    Em tempos de cultura ps-moderna, faz-se necessrio que assumamos nossa insero nesse contexto cultural, em vez de neg-lo, e busquemos comunicar-nos, tentando encontrar meios que possam favorecer a nossa vida e evangelizao, mesmo que muitas pessoas nem considerem a possibilidade de existncia da ps-modernidade.

    certo que a cultura ps-moderna tem seus desafios, mas tambm apresenta muitas atitudes valorativas que devem ser consideradas e vividas, de modo que a evangelizao continue pertinente, sendo relevante e fazendo sentido. Para isso, esta precisa ser realizada a partir de novos princpios, que levem em conta as peculiaridades da gerao ps-moderna.

    Dessa maneira, vimos, por meio deste artigo e a partir de pesquisas, identificar elementos e atitudes que nos ajudem a discernir sobre os desafios e possibilidades da evangelizao juvenil contempornea neste tempo de fortes influncias da cultura ps-moderna.

    1. JUVENTUDE CONTEMPORNEA

    Durante muito tempo, estudiosos de diversas reas do conhecimento humano se empenharam em estudar a juventude, tentando conceitu-la, enquadr-la, defini-la em

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 IrmoMarista,graduandoemPedagogiapelaUniversidadeCatlicadeBrasliaUCB,CoordenadordareadeVidaConsagradaeLaicatodaUnioMaristadoBrasilUMBRASIL.3 TelogopeloInstitutoMaristadeCinciasHumanas-IMACH,GraduadoemCinciasSociais,MestreemDesenvolvimentoSocialeDoutorandoemDesenvolvimentoSustentvel.

    breves palavras. Tanto Joo Batista Libanio (2004) quanto Jorge Baran (2001) afirmam ser a juventude uma fase, um tempo de transio, e ainda a descrevem como um tempo de grandes descobertas, incertezas, exageros, alegria, formao, rebeldia, sonhos, construo de valores e outros.

    O telogo Joo Batista Libanio, descrevendo a juventude contempornea e ps-moderna, afirma:

    Essa juventude ps-moderna fruitiva. Estabelece o dogma principal do prazer em torno do qual erige os cultos, os ritos, os smbolos. E busca um prazer a curto prazo, imediato, presente. Revive o carpe diem goza do presente de Horcio, ou como diz o slogan espanhol: Las flores no las quieren para el funeral, sino ya As flores no as querem para o funeral, mas para j. Expresso consumada de individualismo ps-moderno. (LIBANIO, 2004, p. 104 105).

    O jovem de hoje caracterizado como aquele que vive o momento, no importa como, onde, por qu. A sua meta vivenciar o prazer, sentir o gozo em seus mais variados aspectos. No se permite deixar de curtir a noite, de ir balada, fica, zoar e tantas outras situaes descritas com termos prprios da linguagem das juventudes.

    Aps muitas tentativas de enquadrar ou definir esse perodo significativo da vida humana, percebemos que h um consenso entre pesquisadores e estudiosos do desenvolvimento humano em relao dificuldade de apresentar possveis conceitos sobre a juventude, dadas as diferentes realidades em que ela vive e as influncias que recebe. A Conferncia Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho (CELAM, 1997) afirmou, a esse respeito, ser preciso considerar toda a conjuntura atual, com destaque para as razes e origem tnicas, a cultura, poltica, economia e assim por diante, pois tudo isso exerce uma forte influncia sobre o modo de ser, agir e pensar dos jovens.

    O caminho que acreditamos ser mais significativo, encontrado por muitos estudiosos da rea, como Joo Batista Libanio, falar sobre a juventude a partir de uma observao conjuntural profunda e minuciosa do mundo em que vive. Em primeiro lugar, iremos descobrir a existncia de modos diferentes de se viver e expressar a juventude, o que nos far de imediato perceber a existncia das muitas juventudes (catlica, protestante, emo, punk, indgena e tantas outras). Essa diversidade necessita ser encarada a partir de suas prprias peculiaridades, pois, de fato, os jovens so e agem de modo diferente, seja pelos rituais, celebraes, uso de smbolos e outros. S a partir desse mergulho profundo e lento na sua vida e cultura que seremos capazes de compreend-los melhor, pois muito do que eles so hoje est intimamente ligado s influncias do meio em que vivem e esto inseridos.

    A esse respeito, as Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista (PJM, 2006) afirmam:

    Os jovens so uma espcie de termmetro da sociedade. Falar sobre eles pensar sobre modernidade, sociedade de mercado, conhecimento, globalizao, internet, e sobre um grupo social situado no centro das questes que comovem o pas e o mundo, seja como as maiores vtimas da excluso e das desigualdades sociais, seja como esperana para a construo de um planeta mais desenvolvido, justo e solidrio.

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  • A Igreja Catlica tambm vem buscando conhecer e encontrar lugar para os jovens em seu seio, e reconhece o potencial dos mesmos: A Igreja confia nos jovens. Eles so a sua esperana. A Igreja v na juventude da Amrica Latina um verdadeiro potencial para o presente e o futuro de sua evangelizao... A Igreja faz uma opo preferencial pelos jovens... (PUEBLA, 1186, 1979). imprescindvel traduzir esse reconhecimento, essa aceitao em acolhida e respeito aos jovens, buscando garantir espaos propcios para o seu desenvolvimento integral, o que os tornar capazes de construir um novo mundo, uma nova sociedade.

    Segundo o censo 2000 do IBGE, os jovens superam a marca de 34 milhes, na faixa etria de 15 a 24 anos de idade, totalizando um pouco mais de 20% da populao brasileira. Destes, 6,3 milhes residem na zona rural; 16,2 milhes so pretos ou pardos; 145 mil so indgenas; 60% dos presos do pas tm entre 18 e 29 anos, segundo dados de 2007 do Ministrio da Justia; 51,4% dos jovens do Brasil no frequentam a escola; 1,2 milhes de jovens brasileiros so analfabetos. Pesquisa do Instituto Cidadania revelou que, para 74% dos jovens, a escola importante para entender a realidade; 17 milhes de jovens no estudam; apenas 1% dos jovens universitrios preto; 15% so pardos (Censo 2000); 0,1% so indgenas.

    Essa situao em que se encontra parte de nossas juventudes consequncia da no criao e vivncia de polticas pblicas que atendam suas demandas mais urgentes. A fora do consumismo, a preocupao com o imediato, a efemeridade na viso de mundo, a pouca participao nas polticas do pas esto nos dizendo que boa parte de nossas juventudes vive alheia de seus prprios direitos, correndo o risco de serem os indivduos transformados em meros aparelhos de reproduo poltica injusta e desumana.

    Esse retrato anteriormente apresentado nos questiona se de fato entendemos o que ser jovem e qual o seu valor. Enquanto discutimos se a juventude uma etapa, ou ainda um estgio, como bem trabalhou Jean Piaget, a juventude como perodo importante de nossa vida, tempo valioso de nosso existir, est sendo exterminada pela falta de Polticas Pblicas capazes de reconhec-la como um presente para o tempo em que vivemos.

    Por outro lado, ainda e j encontramos entre essas juventudes sinais de esperana e vida. Como afirma a PJM (2006),

    Existem projetos de cidadania e conscientizao poltica dos jovens, as parcerias com instituies diversas como igrejas, ONGs e rgos pblicos para defesa dos direitos do cidado e construo de polticas pblicas para atendimento das necessidades das juventudes, o crescente interesse dos jovens pela poltica, cursos de formao e atualizao e outros.

    Se de fato acreditamos em outro mundo possvel, mais justo, solidrio, sustentvel e livre, faz-se urgente uma maior valorizao das juventudes, com toda a riqueza que elas trazem consigo. Ainda h muito a ser feito no sentido de deixarmos os jovens ser jovens e gerar esse mundo novo. E, nesse novo tempo, tudo importa: eu, voc, o outro, a natureza, a espiritualidade e Deus.

    2. EVANGELIZAO JUVENIL EM TEMPOS PS-MODERNOS

    A V Conferncia Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, realizada em Aparecida, So Paulo, em 2007, reconhece que vivemos uma mudana de poca, e seu nvel mais profundo o cultural (n. 44). A mudana de poca se faz notar em todos os mbitos da vida humana, inclusive na evangelizao.

    Entendemos por evangelizao o anncio da Boa Notcia do Reino, proclamado e realizado em Jesus. Esse anncio um dos maiores desafios encontrados hoje pela Igreja Catlica, mesmo nas reas onde ela j se encontra implantada, devido s necessidades, possibilidades, desafios e divises criadas neste tempo de ps-modernidade.

    A realidade em que vivemos e estamos inseridos hoje nos pede ateno para um novo modo de evangelizar, se de fato queremos continuar exercendo o mandato que o Senhor nos confiou: Ide, pelo mundo inteiro, e anunciai a Boa-Nova a toda criatura! (Mc 16, 15).

    De todos os questionamentos suscitados pela ps-modernidade, como continuar evangelizando a juventude o que faz com que nos lancemos em busca de respostas que nos ajudem a continuar oferecendo espaos propcios boa educao da f juvenil, pois o fruto da evangelizao verdadeira consiste em fazer discpulos e missionrios do Senhor.

    Segundo o documento de Aparecida, 2007, ser discpulo e missionrio do Senhor acolher a Palavra, aceitar Deus na prpria vida, como dom da f, e colocar-se a servio do Reino. Isso tudo exigir de cada um de ns muitas renncias: sairmos do egosmo do eu, para pensarmos o ns, o interesse da comunidade, o coletivo. Segundo o Diretrio Nacional de Catequese, 2006, o discipulado nos levar proximidade e intimidade com Jesus Cristo e ao compromisso com a comunidade crist e com a sua misso.

    O momento em que vivemos nos faz pensar que no d mais para continuarmos vendo a ps-modernidade como algo pecaminoso e criando mundinhos especiais nos quais no somos atingidos pelos valores e contra valores ps-modernos. Devemos, sim, buscar meios adequados para continuarmos nossa misso de evangelizar.

    O primeiro passo a ser dado rumo a uma nova modalidade de evangelizao conhecermos, estudarmos, pesquisarmos a ps-modernidade, para sabermos lidar com as suas influncias, sem cairmos na tentao de fazer julgamentos de valores, o que nos impediria de conhec-la verdadeiramente. Em seguida a esse primeiro e difcil passo, importante buscarmos adequar a nossa postura, linguagem, atitudes pedaggicas, material didtico e outros s necessidades reais dos jovens impactados por toda essa realidade. E termos em mente que servimos ao Reino por meio da evangelizao da juventude, o que mais expressivo.

    Aps reconhecimento da realidade ps-moderna e organizao para continuarmos servindo ao Reino de Deus, importante estarmos atentos s nossas atitudes de evangelizao propriamente ditas, tais como: adequar nossa linguagem ao pblico; ter em mente que a nossa tarefa tirar os entraves que impedem as pessoas de crer; demonstrar que faz sentido acreditar em Deus e ter uma vida Nele; criar espaos celebrativos em que a experincia com o sagrado esteja presente; ser testemunho fiel de Cristo na comunidade; pregar para a pessoa toda; no eternizar a tristeza da sexta-feira da paixo, mas a alegria do domingo da ressurreio; ter uma prtica coerente com o discurso.

    As pessoas ps-modernas esto dispostas a aceitar quase

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  • tudo, devido sua nfase no pluralismo e na relatividade, mas continuam no aceitando a incoerncia daqueles que se definem de um jeito e vivem de outro. Um ponto muito importante, ao evangelizar, no passar a impresso de superioridade; isso um princpio ecumnico defendido pela Igreja Catlica Apostlica Romana.

    Evangelizar na ps-modernidade , sem sombra de dvida, uma misso desafiadora que exigir de ns, cristos, um processo de desconstruo e ressignificao de muitos conceitos e at de valores, pois, como diz o Evangelho,

    Ningum costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ningum pe vinho novo em odres velhos; do contrrio, o vinho romper os odres; e tanto se perde o vinho como os odres. Mas pem-se vinho novo em odres novos. (Mc 2, 21-22).

    De nada adiantar nossa angstia por no conseguirmos educar a f dos jovens, se olharmos para a ps-modernidade e permanecermos iguais. Apesar desses possveis mtodos e metodologias, fruto do empenho de muitos cristos comprometidos, o que mais deve ser ressaltado quanto evangelizao na ps-modernidade o fato de que determinante a criatividade e a pluralidade de nossas aes. preciso destacar que a diversidade social ps-moderna demanda a pluralidade evangelizadora; se acharmos que tudo j foi feito e que tudo j foi falado, decretaremos o fim da ao evangelizadora junto aos jovens.

    preciso, urgente e essencial, diversificarmos as estratgias, as aes pedaggicas, as dinmicas junto s juventudes. Faz-se necessrio investir em tipos de ministrios diferentes, em formas novas de abordagens, sem a pretenso de acharmos que o que d certo em um lugar, com uma determinada juventude, vai dar certo em outros lugares, com outras pessoas.

    A ps-modernidade um desafio nossa criatividade, dinmica e coragem para continuar a evangelizao de modo relevante, de tal modo que mais pessoas se tornem discpulos de Cristo, como sempre ocorreu na histria da Igreja e da Teologia. Um fato certo: no basta boa vontade; preciso muita coragem, estudo, espiritualidade, testemunho e muita f no Cristo ressuscitado.

    3. CONTRIBUIES E DESAFIOS DA CULTURA PS-MODERNA OU LIGHT PARA A VIDA DOS JOVENS

    O telogo e professor Afonso Tadeu Murad, em seu artigo intitulado Formar para fidelidade numa cultura light (2008), apresenta o termo light como uma imagem, uma analogia, que rene algumas caractersticas do que se convencionou chamar de cultura ps-moderna ou Modernidade lquida. (BAUMAN, 2001).

    Ainda segundo Murad (2008), o termo light, em ingls, tem muitos sentidos. O primeiro o substantivo luz. Da deriva o adjetivo, que significa claro, como, por exemplo, na expresso light blue (azul-claro). O termo light ganhou importncia e novo significado na sociedade atual devido associao com alimentos de baixo teor calrico. Todos os produtos ligh representam, no mnimo, a reduo de 25% de determinados nutrientes que fornecem energia (carboidrato, gordura e protena), em comparao com o alimento convencional.

    Com a utilizao dessas expresses, Afonso Murad busca chamar nossa ateno para o modo como estamos vivendo a ps-modernidade. Estamos buscando ser sinal do Reino em meio a ela ou estamos nos entregando completamente, sem nenhum tipo de discernimento? certo que vivemos um tempo de muita busca por facilidades, prazer momentneo e instantneo; fugimos das dores e de tudo que exija compromissos duradouros, sacrifcios e outros. Tudo isso faz parte da cultura light ou ps-moderna.

    Talvez seja um grande desafio encontrarmos valores nessa cultura ps-moderna, mas eles podem existir, caso vivamos estes momentos de nossa vida com clareza de identidade e numa perspectiva evanglica e humanizadora, afirma Afonso Murad. So eles: leveza, flexibilidade, cotidianidade, esttica e corporeidade. Vejamos em que consiste cada um desses elementos.

    A leveza consiste em cultivar a gratuidade, a alegria, o contentamento e o senso de humor, como elementos decisivos da vida, em contraposio ao pessimismo e ao perfeccionismo. o valor bsico do light. A leveza um contraponto s exigncias demasiadas do mercado, baseado na competio e nos resultados a qualquer custo.

    Na flexibilidade, a pessoa aprende a relativizar o que antes parecia intocvel e inquestionvel. Critica a rigidez dos cdigos de comportamento e aprende a exercitar o dilogo com os outros.

    A cotidianidade consiste no desejo de viver o hoje com intensidade, sem excesso de preocupao com o futuro.

    A esttica desenvolve a sensibilidade ao belo, em vrias instncias: desde as embalagens, at o corpo humano, contemplando tambm o design da casa e da cidade. Abre-se a oportunidade de uma nova sntese entre a bondade e a beleza, desde que a aparncia no seja o elemento determinante, e sim, a porta de entrada para o ser-que-se-manifesta.

    J a corporeidade consiste no respeito e na valorizao do corpo. Critica-se a violncia fsica contra os fracos, especialmente as crianas e as mulheres. Aps sculos de negao, abre-se a possibilidade de uma viso unificadora de corpo-esprito. O corpo expresso carnal da pessoa e de seu mistrio.

    importante lembrar que esses valores anteriormente citados, para serem vividos dentro dessa ps-modernidade, exigiro muita maturidade e sacrifcio daqueles que se dispuserem a tal vivncia. Isso um grande desafio para todas as juventudes, dadas as dificuldades de se assumir compromissos e ser fiel a eles, o que exige sacrifcios e renncias. Viver os compromissos e manter a fidelidade sempre foi desafiador; agora, muito mais.

    No tempo em que vivemos, as condies de vida, as expectativas e os relacionamentos humanos mudam com mais facilidade. As pessoas tm acesso a mais informaes e a experincias diversificadas. Os laos relacionais e institucionais, em todos os nveis, esto mais tnues. Segundo Murad (2008), o perigo reside no medo de compromissos, na pouca generosidade em se arriscar por uma pessoa, uma causa ou um projeto. H pessoas que, previamente, negam-se a pensar na possibilidade de casar-se ou de entrar numa congregao religiosa, porque no suportam a ideia de assumir um compromisso por toda a vida.

    Os nossos jovens se encontram numa grande encruzilhada e necessitam ser bem formados para poderem saber escolher por meio de bom discernimento; caso contrrio, sero engolidos pelos encantos da ps-modernidade, sem nem se darem conta de que esto sendo conduzidos por um caminho extremamente

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  • perigoso. Assim se configurar um cenrio devastador de jovens vivendo sem ideais de vida, indiferentes s grandes questes econmicas, polticas, sociais e ambientais, fugindo de compromissos e responsabilidades, apenas preocupados com a aparncia pessoal e sobrevivncia individual, mergulhados num consumismo desenfreado e sem limites, vivendo uma espiritualidade superficial e tendo muita dificuldade em tomar decises e guiar sua prpria vida.

    importante relembrar: h elementos positivos da cultura light ou ps-moderna. A leveza uma caracterstica saudvel no ser humano e necessria nas suas instituies. O problema quando ela se manifesta de maneira unilateral, ou seja, absolutiza somente um lado e ignora o outro: o do compromisso, da perseverana, do sacrifcio, da dor. O mesmo se diga para os outros valores ps-modernos anteriormente apresentados.

    Se desejamos evangelizar os jovens, devemos ir l onde eles se encontram, j dizia So Marcelino Champagnat, sem medo de frequentar os lugares, sentir os mesmos medos, alegrias e inseguranas dos mesmos. O mundo ps-moderno e light o grande palco da evangelizao do sculo XXI. Eis o desafio de cada dia da Igreja, da sociedade e tambm nosso. sempre bom lembrar que, como construtores do Reino, onde quer que estejamos, somos promotores de vida, e vida em abundncia, como afirma o evangelista So Joo.

    CONSIDERAES FINAIS

    Na sociedade em que vivemos e estamos inseridos, desejar e lutar para construir um mundo mais democrtico, sem excluso, com fundamentos na justia, fraternidade, solidariedade e amor, no qual todos possam viver com dignidade, valorizando o humano e respeitando as diferenas culturais, caminhar na contramo da mesma.

    Como evangelizadores, homens e mulheres de Deus, no devemos temer andar na contramo da sociedade, pois isso significa, apesar dos muitos desafios da ps-modernidade, continuarmos acreditando nas juventudes e no poder da evangelizao como instrumento de preparao de nossos jovens para o enfrentamento das demandas que surgiro no dia a dia de suas vidas.

    A ps-modernidade apresenta desafios para a vida do ser humano, mas tambm nos d possibilidades de vivermos valores essenciais vida. Basta que faamos bons discernimentos nos momentos de realizarmos nossas escolhas e que, ao evangelizarmos, ns o faamos de modo contextualizado, com meios significativos para as juventudes com as quais partilhamos nossa vida e misso.

    As juventudes continuam sedentas por encontrar o real sentido de suas vidas e, para isso, tm feito muitas experincias boas (jovens evangelizando jovens, jovens participando da poltica, jovens engajados nas mais diversas PJs, e assim por diante). Pela falta de preparo, outras experincias os tm conduzido a caminhos tortuosos e, muitas vezes, sem volta.

    Ainda h muita esperana na construo de um mundo melhor, pois os jovens existem e desejam assumir a sua identidade, fazer brotar vida, ocupando novos espaos na sociedade. Dos adultos esperam parcerias que garantam espaos de crescimento, onde possam viver relaes sadias e equilibradas, sendo sujeitos e aprendizes de sua prpria histria na liberdade e felicidade.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BAUMAN, Zygmunt. Modernidade lquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

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    BBLIA. A Bblia Sagrada. Edio Pastoral. So Paulo: Paulus, 2001.

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    CELAM. A evangelizao no presente e no futuro da Amrica Latina. Concluses de Puebla. So Paulo: Loyola, 1979.

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    SECRETARIADO INTERPROVINCIAL MARISTA. Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista. So Paulo: FTD, 2006.

    Referncias Eletrnicas

    Acesso em: 2 nov. 2009.

    RETRATO da Juventude Brasileira. Acesso em: 16 out. 2009.

    JNIOR, Reginaldo Jos dos Santos. Reflexes sobre evangelizao na ps-modernidade. Disponvel em:

    < http://www.revistatheos.com.br/Artigos/Artigo_04_04.pdf. > Acesso em: 2 nov. 2009.

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  • A DIMENSO DA ESPIRITUALIDADE NA AO

    EVANGELIZADORA DAS EQUIPES DE PASTORAL DA PROVNCIA

    MARISTA BRASIL CENTRO NORTE1

    Autor: Jos Ivaldo Arajo de Lucena2

    Orientador: Hudson Silva Rodrigues3

    RESUMO

    A espiritualidade uma dimenso inerente a todos os seres humanos e, na atuao pastoral, ela indispensvel para que o processo evangelizador ocorra de forma emancipatria. Este artigo uma reflexo sobre a espiritualidade que perpassa a ao evangelizadora das equipes de pastoral da PMBCN no mbito missionrio, metodolgico e de gesto.

    PALAVRAS-CHAVE: Espiritualidade. Escola em pastoral. Educao. Valores. Formao integral.

    INTRODUO

    Vivemos numa sociedade globalizada na qual as inovaes tecnolgicas, especialmente nos meios de comunicao (rdio, televiso, celulares, internet, etc), so renovadas em curtos espaos de tempo. A ltima inveno sai ao mercado com seus dias contados. o mundo do provisrio, do passageiro, do descartvel e do efmero (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 2, 2009, p. 6).

    Nesse contexto, as mudanas nos modos de funcionamento social e cultural so evidentes e os grandes pilares estruturais da modernidade permanecem slidos: o mercado, a eficincia tcnica e o indivduo.

    Esse cenrio, tambm denominado de hipermoderno,

    se caracteriza por uma rpida e inabalvel expanso das prticas de consumo, por tudo quanto potencializa a comunicao em massa, pelo desfalecimento da lei e das normas, pelo enaltecimento do desejo, pelo desinvestimento na crena em mudanas revolucionrias e no poder dos movimentos organizados. (UEA 4, p. 14)

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparcialparaaconclusodoCursodeExtensodaPMBCNsobreEscola em PastoralereconhecidopelaPUC-PR.2 Formado emPedagogia comHabilitao emGestoEducacional (UniversidadeCatlicadeBraslia) e especialistaem Ensino Religioso e Direitos Humanos (UniversidadeCatlicadeBraslia).PresidentedoCentroPopulardeFormaodaJuventudeVidaeJuventudeeCoordenadordePastoraldoColgioMaristaChampagnatTaguatingaSul-DF.3 Telogo,LicenciadoemLnguaPortuguesapelaFaculdadedaTerradeBrasliaFTB,EspecialistaemEnsinoReligiosopelaUniversidadeCatlicadeBrasliaeAnalistadePastoraldaCoordenaodeEvangelizaoePastoraldaProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.

    Segundo Brighenti, atualmente se d a passagem do social ao cultural por meio da emergncia do indivduo, para alm das instituies, o indivduo hiper-narcisista, hiper-individualista e hiper-consumista. um dos principais fatores da passagem da sociedade multido (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 2, 2009, p. 7).

    No mbito da f, ... a experincia religiosa entrou no circuito do mercado, transformando-se num bem de consumo, rentvel. (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 3, 2009, p. 2).

    O nosso tempo est marcado tambm pelo excesso e pelo vazio. A civilizao moderna est cada vez mais prxima de tocar o vazio (de valor, do ser humano, do mundo, etc). A crise , na realidade, de sentido. (BRIGHENT, Nead, Md. I, leitura selecionada II, 2009, p. 5).

    Segundo o referido autor, a nica forma de criar um mundo novo a partir do nada que nos resta, ou seja, do capitalismo como potncia, promover uma transformao do interior do atual projeto. Para tanto,

    preciso flexibilidade para saber mudar, no s uma mudana de mentalidade, mas, sobretudo uma mentalidade de mudana, capaz de nos situar no dinamismo do Esprito de Deus na histria da salvao. (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 3, 2009, p. 7).

    Em outras palavras, estamos vivendo tambm uma mudana de poca que exige, especialmente por parte dos membros das equipes de pastoral, uma mudana de atitude e comportamento. No d para fazermos pastoral como fazamos h cinco ou dez anos, haja vista as novas formas de interao (consideradas as inovaes tecnolgicas) entre as crianas, adolescentes e jovens, que no se sensibilizam facilmente diante de qualquer proposta.

    Na atual conjuntura, como escola em pastoral, somos convidados a ser protagonistas de aes transformadoras da sociedade. No daremos conta de tudo, mas faremos a diferena com o pouco que realizarmos, pois

    O discpulo no tirado do mundo; ao contrrio, chamado e enviado para a salvao do mundo. um seguidor de Jesus, no somente do que ele disse, mas tambm do que Ele fez, de seu modo de agir. (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 4, 2009, p. 2).

    Este artigo tratar da dimenso da espiritualidade na ao evangelizadora das equipes de pastoral da Provncia Marista Brasil Centro-Norte.

    1. DESAFIOS DA AO EVANGELIZADORA NOS COLGIOS MARISTAS

    No h dvida de que podemos pensar na escola como instituio que pode contribuir para a transformao social.

    (PARO, 1998, p. 10).

    Dentre os diversos desafios da pastoral escolar, est a misso de evangelizar os seguimentos da escola para alm da dimenso

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  • religiosa, pois ... o retorno do religioso no necessariamente uma volta do sagrado (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 3, 2009, p. 2).

    O sagrado deve ser percebido como dimenso da vida humana nas relaes interpessoais, na famlia, entre os amigos, na sala de aula, nos momentos de lazer, nas festas, nas celebraes eucarsticas; enfim, na relao dos educadores, educandos, funcionrios, tcnicos, famlias, consigo mesmos, com o prximo e com o Transcendente.

    Para tanto, faz-se tambm necessrio o estabelecimento de uma comunicao eficaz por meio de um dilogo permanente entre as partes envolvidas na ao pastoral e demais interlocutores.

    Entretanto, a atitude mais coerente com a essncia de um Evangelho emergente, o dilogo ecumnico e macro-ecumnico, inter-religioso. (BRIGHENT, Nead, Md. I, aula 3, 2009, p. 7).

    O planejamento das aes deve ter uma intencionalidade alinhada com os objetivos da escola em pastoral.

    No h mtodo neutro e, portanto, inocente, ainda que inconsciente. No campo da misso, eles trazem sempre subjacente uma viso de mundo, de Deus de Igreja e do ser humano. (BRIGHENT, Nead, Md. I, leitura selecional I, 2009, p. 3).

    Nesse sentido, os educadores podem desenvolver, por meio dos componentes curriculares, alm dos contedos de cada rea de conhecimento, uma intencionalidade que garanta, como significados, um novo tipo de homem e de mulher conscientes do seu papel na igreja, na sociedade e na vida como um todo. Essa intencionalidade pode tambm contribuir para alinhar os conhecimentos cientficos desenvolvidos em sala de aula com um novo projeto de sociedade, espelho do Reino de Deus presente em nosso meio.

    Por ltimo e no menos importante, est a avaliao da caminhada para a percepo dos frutos produzidos e das lacunas a serem corrigidas e preenchidas no prximo perodo.

    Vale ressaltar que os mtodos evangelizadores so indispensveis, mas variam de acordo com o contexto no qual a escola est inserida.

    A perspectiva da escola em pastoral no pode ser utilizada para se fazer uma evangelizao sem propsito e de qualquer maneira. Exige de todos uma sintonia como formao e uma espiritualidade comprometida, para que haja comunho de objetivos. Vale dizer que ningum d aquilo que no tem. Para que as pessoas assumam, junto com a pastoral, o trabalho de evangelizao, necessitam ter conhecimento terico e prtico do que isso significa.

    Considerando que a proposta da escola em pastoral acontece por meio da adeso dos atores envolvidos (direo, equipe tcnica, professores, pais, mes, estudantes e funcionrios) no processo de evangelizao, cabe Equipe de Pastoral o acompanhamento das aes, para que haja a garantia da identidade e do carisma da instituio, tendo como referncias a pessoa de Jesus Cristo, So Marcelino Champagnat e Maria, a Boa Me.

    2. A METODOLOGIA COMO DIMENSO MSTICA DA EQUIPE DE PASTORAL

    A metodologia uma das dimenses fundamentais para o processo evangelizador. Ela deve ser dialgica, flexvel diante das mudanas e transformaes da sociedade, crtica sobre os procedimentos mais adequados e criativos, para que possa chegar ao corao das pessoas. Portanto, metodologia, no contexto da evangelizao, um modo de ser, uma espiritualidade que perpassa toda a ao da Equipe de Pastoral e que tambm convidada a assumir-se como discpulos missionrios do Reino. A ao pastoral , sobretudo missionria, haja vista a misso que lhe confiada, de tornar Jesus Cristo conhecido, amado e seguido.

    Uma metodologia pastoral e missionria deve utilizar, sempre que possvel, o itinerrio de Jesus na caminhada com os discpulos de Emas: aproximar-se das crianas, adolescentes e jovens da comunidade educativa; caminhar com eles, para conhec-los melhor; perguntar sobre a vida deles, para melhor entend-los; ouvir suas necessidades; partilhar a leitura das Escrituras, contextualizando com elementos da realidade; e permanecer com eles no dilogo permanente, no acompanhamento dos grupos e espaos de formao.

    Essa perspectiva de ao evangelizadora bastante instigante, pois nos convida a discernir a vontade de Deus nos sinais dos tempos, na histria, no mundo e na realidade... especialmente quando olhamos para a realidade da comunidade educativa da qual fazemos parte. H sempre a necessidade de confrontarmos as prticas realizadas e as decises tomadas com a motivao essencial da misso: a vontade de Deus. A misso da Equipe de Pastoral deve estar, de alguma forma, ligada ao seu projeto de vida pessoal. inadmissvel um processo evangelizador conduzido por uma equipe esvaziada de significado sobre o sentido maior de seu protagonismo missionrio. Caso isso ocorra, o processo evangelizador corre o risco de se tornar estril de contedo e de espiritualidade. Por outro lado, o alinhamento entre projeto de vida e dimenso missionria pode garantir uma ao evangelizadora encarnada na pessoa de Jesus Cristo e transformadora da comunidade educativa.

    Nesse contexto, a evangelizao como instrumento de transformao na escola deve ser concebida e planejada coletivamente pela Equipe de Pastoral com o envolvimento dos demais segmentos pedaggicos e administrativos, pois todos so co-responsveis na efetivao da escola em pastoral.

    Na escola em pastoral, as sementes do Verbo so lanadas por meio das diversas aes evangelizadoras, e o seu efeito depende da adeso das pessoas, que, em contato com os contedos, smbolos e ritos, podem ou no assumir valores diferenciados para a sua vivncia cotidiana.

    No mbito catequtico, os sacramentos devem ser sinais da presena de Deus na vida das crianas, adolescentes e jovens. Para tanto, devem ser ministrados por meio de uma catequese inculturada, com linguagem, espiritualidade e metodologia envolvente e prazerosa, que tambm promova o resgate de valores diferenciados na sociedade.

    A escola o reflexo da sociedade na qual est inserida. Nesse sentido, fazer escola em pastoral promover transformaes que contribuam para que a sociedade possa ser e ter vida e vida em abundncia (Joo 10, 10).

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  • Aliar a prtica solidria ao processo de evangelizao outro aspecto que contribui para o engajamento dos estudantes. O ato de colocar-se no lugar do outro, sair de sua realidade para ir ao encontro de outra menos favorecida, para no dizer empobrecida, pode promover uma reflexo mais aprofundada sobre projeto de vida e sobre qual sociedade almejamos.

    A dimenso da presena qualificada e acolhedora e da escuta atenta aos destinatrios da ao pastoral/evangelizadora (educadores, funcionrios, pais, mes, crianas, adolescentes e jovens) exige grande sensibilidade da Equipe de Pastoral para perceber as demandas e contextualizar as propostas de ao.

    Buscar a sinergia entre as aes pastorais, culturais e esportivas, outro aspecto importante, pois toda atividade dentro do ambiente escolar pode ser mediada por um contedo mstico-evangelizador.

    A perspectiva da escola em pastoral um convite a sermos testemunhas da Boa Nova, pois

    ...no s o contedo do Evangelho mensagem; o modo como se evangeliza tambm mensagem; o mensageiro tambm mensagem; a maneira como se apresenta e se organiza a instituio que respalda o mensageiro tambm mensagem. (BRIGHENTI, Nead, Md. I, leitura selecionada I, 2009, p. 6)

    3. ESCOLA EM PASTORAL: A MISSO E A GESTO A SERVIO DA EVANGELIZAO

    A Misso Educativa Marista caracteriza os colgios maristas como centros de aprendizagem, de vida e de evangelizao (p. 55). Nesse contexto, a contribuio e o papel da gesto fundamental para a implementao de uma comunidade educativa em pastoral.

    Para aprofundarmos a discusso, vamos refletir sobre as caractersticas de gesto que podem contribuir com mais efetividade para a consolidao da escola em pastoral:

    Gesto democrtica: devido sua abrangncia, organizar o trabalho pedaggico e evangelizador na escola no tarefa fcil. Para que ocorra da melhor forma possvel, requer do gestor muita sensibilidade para promover a autonomia e a emancipao4 dos atores envolvidos no processo educativo (direo, educadores, educandos, funcionrios, etc).

    Gesto dialgica: na escola, o dilogo verdadeiro e sincero fundamental. Segundo Freire (1983, p. 91), no h palavra verdadeira que no seja prxis. Da que dizer a palavra verdadeira seja transformar o mundo. Ento, prxis toda palavra verdadeira que motiva uma ao transformadora e, simultaneamente, a reflexo sobre essa mesma ao:

    Gesto transformadora: a educao pressupe transformao das pessoas por meio da mudana de conscincia. Segundo Juliatto (2007, p. 125), A educao integral exige, necessariamente, a educao da conscincia. Para Freire (1983, p. 80), a gesto transformadora deve ser problematizadora,

    4 Emancipao, nesse contexto, tem o significado delibertao.Atodaquelequeprotagonistadesuaautolibertao.

    pois quanto mais se problematizam os educandos, como seres no mundo e com o mundo, tanto mais se sentiro desafiados.

    Gesto participativa: segundo Bordenave (1994, p. 8), participao um estado de esprito e um modo de relacionamento entre as pessoas. A participao tambm o esteio do processo educativo e o palco onde se desenvolvem os talentos dos estudantes em duas bases complementares: uma base afetiva participamos porque sentimos prazer em fazer coisas com outros; e uma base instrumental participamos porque fazer coisas com outros mais eficaz e eficiente do que faz-las sozinhos. (BORDENAVE, 1994, p. 16).

    No contexto da gesto democrtica, dialgica, transformadora e participativa, o educador j no o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, educado, em dilogo com o educando. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os argumentos de autoridade j no valem (FREIRE, 1983, p. 78).

    Por fim, a atuao das equipes de pastoral deve ser espelhada na pessoa de Jesus Cristo e em So Marcelino Champagnat, que nos impulsiona a educar na perspectiva da formao de bons cristos e virtuosos cidados.

    CONCLUSO

    A ao evangelizadora na perspectiva da escola em pastoral fundamentada especialmente na vivncia da pedagogia de Jesus, que prope que as pessoas respondam por si prprias proposta do Reino de Deus. Esse Reino utpico5, mas possvel de se realizar no microcosmo educativo das unidades Maristas. Para isso, preciso promover as dimenses pastoral-pedaggica e de gesto das equipes de pastoral no processo evangelizador.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

    BORDENAVE, Juan E. Diaz. O que participao. 8. ed. So Paulo: Brasiliense, 1994, p. 8, 16.

    BRIGHENT, Agenor. Diagnstico de um tempo marcado por profundas transformaes. Taguatinga, DF: Nead, Md. I, aula 2, 2009, p. 6, 7.

    ______. Fim da histria ou tempo pascal. Taguatinga, DF: Nead, Md. I, aula 2, leitura selecionada II, 2009, p. 5.

    ______. A fragmentao da igreja numa sociedade fragmentada. Taguatinga, DF: Nead, Md. I, aula 3, 2009, p. 2, 7.

    ______. Desafios para a ao evangelizadora. Taguatinga, DF: Nead, Md. I, aula 4, 2009, p. 2.

    ______. A misso evangelizadora no contexto de ontem.

    5 Nossa concepodeutopiabaseia-senadeEduardoGaleano, jornalista e escritor uruguaio: A utopia est l nohorizonte.Meaproximodoispassos,elaseafastadoispassos.Caminhodezpassoseohorizontecorredezpassos.Pormaisque eu caminhe, jamais alcanarei. Para que serve a utopia?Serveparaisso:paraqueeunodeixedecaminhar.

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  • Taguatinga, DF: Nead, Md. I, leitura selecionada I, 2009, p. 3, 6.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 78, 80, 91.

    INSTITUTO MARISTA. Misso Educativa Marista: um projeto para o nosso tempo. Traduo por Jos Manoel Alves & Ricardo Tescarolo. So Paulo, 1998, p. 55.

    JULIATTO, Clemente Ivo. Parceiros educadores: estudantes, professores, colaboradores e dirigentes. Curitiba: Champagnat, 2007. p. 125-132.

    PARO, Victor Henrique. Gesto democrtica da escola pblica. 2. ed. So Paulo: tica, 1998.

    UNIVERSIDADE CATLICA DE BRASLIA. Catlica Virtual. Educao a Distncia. Curso de ps-graduao lato sensu em Direitos Humanos: Proteo e assistncia a vtimas e a colaboradores da Justia. UEA 04 A Psicologia nos programas de proteo. Braslia, 2009. Disponvel em: . Acesso em: 18 abr. 2009.

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  • A EVANGELIZAO COMO ELEMENTO INTEGRADOR NA FORMAO DOS JOVENS NO

    ESPAO ESCOLAR1

    Autor: Jos Leonardo dos Santos Borba2

    Orientador: Adalberto Batista Amaral3

    RESUMO

    Este artigo fruto do trabalho de concluso do curso de Educao a Distncia Escola em Pastoral, tendo como objetivo aprofundar os conceitos de evangelizao da juventude e a ao evangelizadora no espao escolar. No processo da escrita, buscamos refletir acerca dos conceitos de evangelizao, da ao evangelizadora, tendo como ponto de partida o Conclio Vaticano II. Para tal, utilizamos diversos autores e autoras que compuseram nosso referencial terico, dentre eles: Agenor Brighenti, Carmem Lcia Teixeira, Helena Abramo, Paulo Freire, Hilrio Dick e outros. Buscamos realizar, ao longo do estudo, uma reflexo acerca da evangelizao dos jovens e, ao mesmo tempo, refletir sobre a ao evangelizadora no espao escolar, destacando-a como elemento integrador na formao das juventudes.

    PALAVRAS-CHAVE: Evangelizao. Juventude. Ao evangelizadora.

    INTRODUO

    Este artigo parte da monografia que tem como ttulo Um olhar e muitos olhares: os jovens do ensino mdio e a evangelizao na escola catlica, elaborada por Jos Leonardo dos Santos Borba, como requisito para a concluso do Curso de Ps-Graduao em Adolescncia e Juventude no mundo Contemporneo, na Faculdade Jesuta de Teologia e Filosofia FAJE. Foram feitas diversas modificaes no texto.

    Nele, discutiremos acerca da compreenso de evangelizao da juventude, a partir do conceito proposto pelo Conclio Vaticano II; depois, faremos um pequeno resgate da evangelizao da juventude no Brasil, tomando por parte a compreenso de alguns tericos. Discutiremos ainda alguns elementos para a evangelizao na escola e a sua relevncia na formao dos jovens.

    Sabemos que a educao um desafio para todos ns, seja por questes polticas, sociais, culturais, econmicas ou pedaggicas. Ela um dos espaos que agrega muitos jovens e adolescentes

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Irmo Marista, Especialista em Adolescncia eJuventude no mundo contemporneo pela Faculdade Jesutade Teologia e Filosofia de Belo Horizonte, Graduado emCinciasBiolgicaspelaUniversidadeCatlicadePernambuco.EstudantedeTeologiadoInstitutoSoTomsdeAquino,BeloHorizonteMG.3 IrmoMarista,GraduadoemPedagogiapelaFaculdadedeFilosofiadeRecife,CoordenadordareadeVidaConsagradaeLaicatodaUnioMaristadoBrasil.

    em nosso pas, e onde passam boa parte de seu tempo com as diversas atividades curriculares e complementares.

    A escola pode tambm ser entendida como um espao de relaes que buscam cuidar da vida para que a comunidade educativa as cultive de forma profunda, assumindo-se como construtora da histria.

    Nessas relaes de cuidado, vem a dimenso evangelizadora que integra o projeto da escola catlica, tendo como proposta refletir os valores do Evangelho, que so transformadores, criadores e geram a admirao, conflitos e mistrio. O processo de educao, vivido como misso evangelizadora, pode possibilitar s pessoas uma mudana na forma de conceber o mundo, de relacionar-se, criando estruturas mais justas. Para isso, preciso termos clareza do que significa a evangelizao e a sua ao no espao escolar.

    1. ENTENDENDO A EVANGELIZAO

    Antes de apresentar este olhar sobre a evangelizao dos jovens, convm apresentar algumas consideraes a respeito do tema. De acordo com o documento da Igreja Catlica Evangelii Nuntiandi, a evangelizao entendida da seguinte maneira:

    Evangelizar, para a Igreja, levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transform-las a partir de dentro e tornar nova a prpria humanidade. (...) A finalidade da evangelizao, portanto, precisamente essa mudana interior; e se fosse necessrio traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potncia divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a conscincia pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam e a vida e o meio concreto que lhes so prprios. (Paulo VI. 1976. p. 24)

    Ainda preocupada com o modelo de evangelizao que atendesse a realidade das pessoas, a Igreja fez, em sua natureza, uma grande parada para retomar a essncia e a mstica de Jesus Cristo com os pobres na construo do Reino de Deus. Esse momento tido como um novo Pentecostes para a Igreja, devido ao compromisso de dar testemunho do Evangelho de Jesus Cristo com os destinatrios de sua misso, os pobres.

    Vejamos, a seguir, uma percope que apresenta perspectivas da evangelizao. Segundo Brighenti, o termo Evangelizao na perspectiva do Conclio Vaticano II

    Expressa a ideia de levar gratuitamente o Evangelho e estabelecer, com o interlocutor, uma relao dialgica, que pode redundar na converso. Mas isso no depende do evangelizador. Seu papel dar de graa. O que vem depois depende da liberdade do interlocutor e da graa de Deus. Na perspectiva da Evangelizao, tanto na Igreja como fora dela, busca-se impulsionar o Reino de Deus, do qual a Igreja uma mediao privilegiada, mas no nica. Nessa perspectiva, importa por um lado, acolher os frutos do Reino presentes na vida do interlocutor e seu contexto e ajud-lo a encarnar, a seu modo, o Evangelho em sua vida e em sua cultura. (BRIGHENTI 2006. p. 87)

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  • Se tomarmos a afirmao de Brighenti, percebemos que a evangelizao acontece num processo de liberdade e dilogo, tendo a Igreja como uma das possveis formas de mediao, mas no nica. O mais importante, segundo o autor, contribuir para que o Evangelho seja encarnado a partir da vida e da cultura das partes envolvidas. A evangelizao atualiza a obra da salvao como um todo, em estreita relao com a pessoa humana.

    [...] o homem que h de ser evangelizado no um ser abstrato, mas sim um ser condicionado pelo conjunto de problemas sociais e econmicos; laos de ordem teolgica, porque no se pode nunca dissociar o plano da criao do plano da redeno, um e outro a abrangerem as situaes bem concretas da injustia que h de ser combatida e da justia a ser restaurada. (Paulo VI. 1976. p.38)

    Dessa forma, a evangelizao deve entrar num fecundo intercmbio com as manifestaes religiosas e culturais que caracterizam a pluralidade existente no mundo atual. Somos chamados a discernir os sinais dos tempos no cotidiano e descobrir os anseios e problemas dos seres humanos, percebendo o plano de Deus sobre a vocao do homem na sociedade, para torn-la mais humana, justa e fraterna.

    A Igreja tem o papel de levar o Evangelho ao corao da histria, ao longo dos sculos, nos diferentes contextos socioculturais, para ali ser semente do Reino de Deus. (Paulo VI. 1984. p.17)

    Na Conferncia Episcopal de Medelln, foi retomada a discusso proposta por Paulo VI, apresentando a juventude como um tema atual e de grande interesse, e considerando-a como uma grande fora nova de presso e como um novo organismo social com valores prprios. A autenticidade, a sinceridade e a aceitao do diferente so apontadas pela conferncia como qualidades inerentes juventude. Em Medelln, os bispos tomaram conscincia de um novo fenmeno e descreveram a juventude como novo corpo social, grande fora de presso, com seus prprios ideais, valores e dinamismo inteiro. (CNBB, 2007. p. 149-150)

    A partir de Puebla, a Igreja Latino-Americana aponta um lugar especial aos jovens no trabalho de Evangelizao da Ptria Grande, sendo vistos como protagonistas da ao evangelizadora.

    A Igreja v na juventude uma enorme fora renovadora, smbolo da prpria Igreja. E a Igreja faz isto no por ttica mas por vocao, j que chamada constante renovao de si mesma, isto um incessante rejuvenescimento. (Joo Paulo II, Alocuo Juventude 2- AAS, LXXXI, p.218). O servio prestado com humildade juventude deve fazer com que mude na Igreja qualquer atitude de desconfiana e incoerncia para com os jovens. (CELAM, op. cit., p. 362)

    Segundo as concluses do documento de Puebla, conforme citao anterior, o reconhecimento da juventude como essa fora renovadora da Igreja e como um sinal proftico da revelao de Deus, presente na sociedade, possibilita-nos compreender alguns posicionamentos dessa Igreja, a partir de ento, na Amrica Latina.

    O documento ainda afirma que os jovens e os pobres constituem

    a riqueza e a esperana da Igreja na Amrica Latina, e sua evangelizao prioritria.

    Segundo Ribeiro, a opo pelos jovens foi de alguma forma estratgica: eles so a grande maioria da populao do continente, mas no por isso deixa de ser evanglica, j que os jovens da Amrica Latina so na imensa maioria pobres. (RIBEIRO, 2006. p.24)

    Nesse contexto, a Conferncia de Puebla foi tambm o espao de reflexo para uma nova forma de evangelizao, apresentando o Cristianismo no como uma ideologia, mas como uma experincia do amor de Deus, atravs de Jesus Cristo, que deseja a vida em plenitude para todos. Para evangelizar, no podemos deixar de considerar a diversidade juvenil na Amrica Latina, os indgenas, camponeses, mineiros, pescadores, operrios, estudantes, entre outros.

    Na Conferncia de Santo Domingo, foi reafirmada a opo pela juventude feita em Puebla, no s de modo afetivo, mas tambm efetivamente por uma Pastoral da Juventude Orgnica, com acompanhamento, apoio real, dilogo e com maiores recursos humanos e materiais.

    Segundo Teixeira, a partir da Conferncia de Santo Domingo,

    a ao pastoral que reafirmar a opo preferencial pelos jovens dever responder s necessidades de amadurecimento afetivo e de acompanhamento; capacitar de maneira crtica frente aos impactos culturais sociais; propiciar um encontro de f e vida, bem como a promoo da justia e gerao de uma nova cultura de vida; assumir, a partir da cultura juvenil, novas formas celebrativas; anunciar o amor de Deus pela juventude; promover o protagonismo juvenil e a participao dos jovens na Igreja; e dar relevncia Pastoral da Juventude de meios especficos. (TEIXEIRA, 2006)

    Na Conferncia de Aparecida, a juventude apresentada como enorme potencial para o presente e futuro da Igreja e dos povos. A realidade vivenciada por muitos jovens no Continente causa preocupao Igreja, sobretudo no tocante pobreza, globalizao, violncia, ao desemprego, educao de baixa qualidade e ausncia dos jovens na esfera poltica, devido desconfiana que geram as situaes de corrupo e o desprestgio dos polticos, procura de interesses pessoais em detrimento do bem comum. A Conferncia quer privilegiar, na Pastoral da Juventude, processos de educao e amadurecimento na f.

    A Pastoral da Juventude ajudar os jovens a se formar de maneira gradual, para a ao social e poltica e a mudana de estruturas, conforme a Doutrina Social da Igreja, fazendo prpria a opo preferencial e evanglica pelos pobres e necessitados. (CELAM, 2007. p. 198-201)

    Tais afirmaes nos possibilitam perceber que h o interesse da Igreja em aproximar-se dos jovens, todavia necessrio que as reflexes apresentadas pelos documentos sejam efetivadas na prtica, sem desconsiderar as culturas e os tempos em que esto inseridos esses jovens.

    O futuro da sociedade e da Igreja depende da capacidade de escutar o que acontece no

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  • mundo dos jovens, de respeitar a sensibilidade prpria do jovem, que vive o momento presente, de encontrar novas solues prticas e de pressentir novos rumos. Trata-se de aprender do jovem e deixar-se evangelizar por ele. No jovem no h, apenas, contravalores! Ao contrrio, h valores novos, que, em geral, s o jovem capaz de criar e desenvolver. O jovem garantia da juventude da Igreja. (CNBB. 1984. p. 85)

    Essa capacidade de escuta contribuir de forma efetiva na aproximao das juventudes, em que os jovens se sentiro valorizados e respeitados.

    Para evangelizar a juventude de hoje, no podemos permanecer no mtodo, linguagem e lugar, porque o mundo est mudando continuamente. Ento no basta a Igreja entender a juventude, precisa buscar uma nova compreenso de si mesma. A Igreja hoje tem que ser como Israel no deserto: pr a casa nas costas para acompanhar a dinmica das pessoas. E no esquecer os pontos intrnsecos da evangelizao, cujo comeo o servio. A Igreja comea com o lava-ps: estamos para servir juventude, no para arrebanhar os jovens. Temos que estar bem em vista da misso, sem querer saber quem est certo, quem salva mais. Colocar-se a servio, depois dialogar e ento partir para o anncio, dar razo a nossa esperana. E dando testemunho de comunho, retornar ao servio. (BASTOS, 2006, p.3)

    Nessa afirmao, Dom Jos Mauro convida a Igreja a uma maior proximidade do universo juvenil e, com os jovens, descoberta de caminhos novos na evangelizao, contemplando seus reais anseios, considerando-os uma realidade teolgica (CNBB, op. cit., p. 55.) que precisamos desvelar, acolhendo a voz de Deus que fala por eles.

    Dick apresenta o jovem como sacramento da novidade. A juventude um sacramento que anuncia novidades. Ela no somente um segmento que recebe a realidade feita, ou seja, tem a misso de fazer na realidade recebida, a vida dela. (DICK, 2004. p. 26-27)

    A Igreja, inserida na sociedade, sofre inmeras transformaes, seja por ordem social, cultural, poltica ou econmica. Diante dessas transformaes, a Igreja tem procurado participar do processo histrico da juventude, buscando encontrar (e at mesmo construir) algumas respostas e emiti-las por meio do trabalho de evangelizao com os jovens no nosso pas. Tais respostas no so definitivas, sendo ressignificadas a partir dos diversos cenrios em que se encontram, conforme perceberemos a seguir.

    1.1. A EVANGELIZAO DA JUVENTUDE NO BRASIL

    Ao analisarmos a evangelizao da juventude no Brasil, almejamos definir cenrios, dentre eles a escola catlica como um espao de evangelizao.

    Sabemos que, na sociedade, h inmeras iniciativas de trabalho

    com a juventude, assim como sabemos, tambm, que h vrias formas de evangelizao da juventude pelas diversas Igrejas. Neste artigo, optamos por uma reflexo a partir da Igreja Catlica Apostlica Romana.

    Ao tratarmos da evangelizao da juventude no Brasil, refletimos sobre algumas iniciativas que ficaram na histria, dentre elas a Ao Catlica Especializada, a partir de 1960; os movimentos de encontros para jovens, a partir de 1970; e a Pastoral da Juventude, a partir de 1980; bem como a pluralidade na evangelizao, percebida a partir de 1990.

    A dcada de 60 foi marcada pela Ao Catlica Especializada, que, apesar de ter sido iniciada no Brasil no comeo da dcada de 50, ganhou destaque diante das transformaes que aconteceram na sociedade brasileira por conta do crescimento econmico, da industrializao, da urbanizao, das mudanas de comportamento e das revolues polticas, especialmente com o regime militar. Na Ao Catlica, o que aconteceu foi a especializao da ao juvenil, a partir da Igreja, especificamente em movimentos como Juventude Agrria Catlica (JAC), Juventude Estudantil Catlica (JEC), Juventude Independente Catlica (JIC), Juventude Operria Catlica (JOC) e Juventude Universitria Catlica (JUC).

    Nesse perodo, percebeu-se a existncia de uma tentativa de assumir a ideia de ser presena, de ser fermento da Igreja na sociedade, e, ao mesmo tempo, assumir uma participao crtica na dinmica das transformaes pastorais. A Ao Catlica tambm contribuiu no desenvolvimento do mtodo ver, julgar, agir, proporcionando uma espiritualidade que despertava nos jovens o engajamento na comunidade eclesial e na sociedade. Tal mtodo foi assimilado por outros setores da Igreja, que passaram a analisar os problemas sociais a partir da tica dos empobrecidos e a favor das lutas por transformao social.

    Apesar das limitaes e at mesmo perda dos direitos civis durante o regime militar brasileiro, esse perodo foi marcado por intensa ao juvenil dentro e fora da Igreja.

    A partir de 1970, ainda no perodo do regime militar, e com a desarticulao dos movimentos da Ao Catlica Especializada, surgiu uma nova maneira de organizao juvenil: os movimentos de encontro de jovens, que se inspiravam na metodologia dos Cursilhos de Cristandade, um movimento para a evangelizao dos adultos, nascido na Espanha.

    Nessa poca, os jovens participavam de encontros de fim de semana coordenados por adultos. Havia palestras que davam importncia ao testemunho pessoal, evitavam-se palestras intelectualizadas, utilizavam-se cantos que tocassem o emocional dos participantes e se propunha um encontro com Deus e de converso. Esses movimentos buscavam solues para os problemas pessoais dos jovens, no entanto a emoo durava pouco, e, por falta de um processo que garantisse a continuidade desse trabalho, muitos jovens voltavam vida anterior.

    Apesar das limitaes, alguns movimentos evoluram e incorporaram outros elementos que enriqueceram sua proposta evangelizadora e possibilitaram um trabalho junto com a Pastoral da Juventude.

    Depois de 1978, aps a Conferncia Episcopal de Puebla, em que o episcopado fez a opo preferencial pelos jovens, houve grande mobilizao pastoral envolvendo a juventude, o que provocou, nos anos seguintes, o surgimento do primeiro Instituto de Pastoral da Juventude (IPJ) em Porto Alegre - RS.

    A dcada de 1980 foi marcada inicialmente pelo perodo de redemocratizao, uma tomada gradativa pelos direitos do

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  • cidado e a construo de uma nova proposta de trabalho com a juventude. Surgiu o Setor Juventude da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tendo D. Cludio Hummes como bispo responsvel pela juventude e Pe. Hilrio Dick como assessor. Esse Setor foi um grande motivador para a evangelizao da juventude no Brasil, por meio das Pastorais da Juventude.

    Nesse perodo, as lideranas eram influenciadas pela cultura moderna, pela razo, teorias repletas de desejo de liberdade, de superao da imposio exercida durante o regime militar, de luta pelos direitos e anistia; enfim, ideologias que propunham a transformao social. Os jovens voltaram s ruas e a evangelizao passou a adequar-se para acolher sentimentos de liberdade, de participao poltica e de conscincia crtica. Percebeu-se o surgimento de uma gerao de jovens catlicos protagonistas de seu processo de educao na f4 e em dilogo com a realidade em que estavam inseridos.

    Nessa dcada, percebemos tambm a organizao e articulao das pastorais especficas no Brasil, dentre elas: a Pastoral da Juventude Estudantil (PJE), a Pastoral da Juventude Rural (PJR), a Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e a Pastoral Universitria (PU). Os jovens passaram a organizar-se em assembleias diocesanas, regionais e nacionais.

    Em 1984, aconteceu um Encontro Latino-Americano de responsveis nacionais pela Pastoral da Juventude (ELARPJ), organizado pela Conferncia Episcopal Latino- Americana (CELAM). Em 1985, a ONU declarou o Ano Internacional da Juventude, e, no Brasil, a CNBB, por meio do Setor Juventude, oficializou o Dia Nacional da Juventude, no ltimo domingo de outubro. Na verdade, foram momentos de mobilizao e luta pelas causas sociais, mesmo que tal mobilizao no fosse vivida e respeitada por todos.

    Ao mesmo tempo, tambm, conviveram outros movimentos, como a organizao dos jovens das Congregaes Religiosas, Juventude Marista (JUMAR), Articulao da Juventude Salesiana (AJS), a Renovao Carismtica Catlica (RCC), o movimento de comunho e libertao, e outros. Tanto as Pastorais da Juventude quanto os movimentos eclesiais foram convocados pela CNBB para elaborar um caderno de estudo em que apresentassem o carisma, a metodologia e as linhas de atuao em comum.

    A dcada de 90, ainda sob os impactos da queda do muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, foi marcada pelo capitalismo neoliberal, pela privatizao, pela centralidade das emoes, possibilitando o aparecimento de jovens voltados para a subjetividade e os sentimentos.

    Durante a realizao da Campanha da Fraternidade de 1992, Juventude e caminho aberto, percebeu-se um adolescer dos grupos de jovens e, consequentemente, inmeras crises, ora

    4 Processos de Educao na FPensaraevangelizaodajuventudeapartirdeumProcessodeEducaonaF(PEF)foi uma das grandes contribuies da Pastoral da Juventudepara a Igreja do Brasil e daAmrica Latina. Essencialmente,oPEFdeve ser umprocessoque leveo/a jovemadescobrirsuaprpriavocao,o chamadodeDeusemsuahistria, e aencaminhar a concretizao de uma resposta num projeto devida e num compromisso militante. Trata-se de um processodeamadurecimentointegralquesupeetapasemomentosquesevorealizando.Essesmomentoseetapasnecessitam,defatoaomesmotempo,deumacompreensodinmicaedeumadescrioclaradasutopias e imagensque temosdapessoa,de Igreja e de Sociedade. (Cf. Projeto deVida, CaminhoVocacionaldaPastoraldaJuventude.SoPaulo:CCJ,2003.p.73-74).

    pelos processos experimentados nos grupos e que no atendiam a todos, ora pelas diferenas ideolgicas que motivavam os participantes, ora por uma srie de situaes entre a Igreja e a juventude, o que ocasionava conflitos e afastamento dos mesmos.

    Na transio do sculo XX para o sculo XXI, percebemos um movimento de crise nas Pastorais da Juventude, proporo que a Igreja passou a assumir um discurso de menor insero social. Os movimentos eclesiais de jovens ganharam grande projeo, at mesmo com a utilizao dos meios de comunicao e das diversas tecnologias. As questes culturais tambm interferiram nesse momento de crise em que viviam as pastorais e acabaram por apontar novos caminhos para aqueles jovens mais crticos, que muitas vezes optavam pela atuao em movimentos sociais, nem sempre guiados por uma ideologia, mas, diante de todo o contexto, por interesses pessoais.

    certo que, na atualidade, despontam tambm alguns processos que facilitam o surgimento de jovens conscientes e que assumem seu protagonismo, contribuindo com a construo de uma nova sociedade.

    Nesses inmeros contextos apresentados, as escolas catlicas esto inseridas e ao mesmo tempo sujeitas aos mltiplos olhares sobre a evangelizao da juventude. A discusso que faremos a seguir possibilitar a anlise da escola como um espao de evangelizao.

    1. A ESCOLA CATLICA COMO ESPAO DE EVANGELIZAO

    Depois de observarmos um pouco da histria da evangelizao da juventude no Brasil, queremos discutir a escola catlica como um espao de evangelizao. Sendo assim, ns nos propomos a apresentar alguns elementos no s da escola, mas especificamente da escola confessional catlica a partir dos Parmetros Curriculares Nacionais, de alguns autores e do Projeto Poltico-Pastoral-Pedaggico de uma escola Marista.

    Segundo os Parmetros Curriculares Nacionais (PCN`s), do Ministrio da Educao (MEC), a escola apresentada como:

    (...) um espao de formao e informao, em que a aprendizagem de contedos deve necessariamente favorecer a insero do aluno no dia a dia das questes sociais marcantes em um universo cultural maior. A formao escolar deve propiciar o desenvolvimento de capacidades, de modo a favorecer a compreenso e a interveno nos fenmenos sociais e culturais, assim como possibilitar aos alunos usufruir das manifestaes culturais nacionais e universais (MEC/SEF, 1997. p. 45)

    A afirmativa acima a referncia do MEC para os diversos modelos de escola no Brasil. Essa definio questionada em vrias situaes, porque o modelo de escola atual, por vezes, no est aberto ao mundo juvenil, dificultando o interesse dos alunos, desmotivando-os ao aprendizado e participao. A evaso escolar e a reprovao, entre outras situaes, surgem como consequncia. Mais importante do que ensinar a leitura da palavra fazer a leitura do mundo, o que possibilita aos jovens a construo do saber a partir de suas vivncias. Assim, a escola poder ser agente de transformao, iluminando e facilitando a emergncia de um ser humano pleno, pertencente

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  • a uma sociedade que potencialize a vida em todas as suas dimenses.

    Se estabelecermos um paralelo entre a compreenso de educao a partir de Freire, abordando que o essencial nas relaes entre educador e educando, entre autoridades e liberdades, entre pais, mes, filhos e filhas a reinveno do ser humano no aprendizado de sua autonomia (FREIRE, 1981. p.94) e a compreenso de evangelizao a partir de Brighenti, que prope uma relao dialgica, percebemos que os interlocutores da evangelizao caminham juntos, apoiam-se , escutam, valorizam o que cada um traz consigo, partindo de suas histrias de vida, da sua cultura para o exerccio significativo da cidadania.

    Ensinar no transferir conhecimentos, contedos, nem formar ao pela qual um sujeito criador d forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. No h docncia sem discncia, as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenas que os conotam, no se reduzem condio de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. (FREIRE, 1981. p. 23)

    O autor apresenta o conhecimento alm dos contedos, valorizando a relao dialgica entre educadores e educandos, e contribuindo de forma significativa para uma melhor interao entre os mesmos. Assim, ningum educa ningum, ningum se educa sozinho, todos se educam em comunidade (FREIRE, 1981 p. 68), ou seja, ocorre uma construo coletiva, em que todos ensinam e aprendem, e o conhecimento est em constante transformao.

    Essa proposio encontrada no discusso de Freire possibilitar, dentre outras coisas, a formao de conscincia e do cidado. E, nesse caso, podemos tomar a compreenso de Spsito de que a instituio escolar, ao se expandir, surge tambm como um espao de intensificao e abertura das interaes com o outro, privilegiando as experincias vivenciadas pelos jovens, o que culminar com a sua insero no mercado de trabalho e, tambm, no favorecimento de uma prtica consciente dos mesmos como cidados. (SPSITO 2005. p. 90),

    No Brasil, a relao formal entre famlia e escola deu-se na dcada de 60, com iniciativas pequenas em que a escola solicitava aos pais que motivassem seus filhos a superarem as exigncias apresentadas pela sociedade. Iniciou-se, nessa poca, o processo de democratizao escolar e a abertura de escolas pblicas, ampliando aos jovens o acesso educao.

    Na atualidade, de tamanha exigncia e produtividade, o jovem est sujeito a integrar-se ao mercado de trabalho e responder s demandas impostas pela sociedade, sendo o fator econmico um dos grandes indicadores que influenciam na evaso escolar e tambm nas decises a serem tomadas quanto entrada na Universidade.

    Segundo o Marco Referencial da Pastoral da Juventude Estudantil, a escola catlica normalmente mantida por congregaes religiosas e tem uma preocupao com a formao humano-crist dos jovens. (PJE, [s.n.], p.55). Ainda hoje, existem escolas catlicas onde os valores e os assuntos pertinentes realidade dos jovens so de responsabilidade dos professores que trabalham com o Ensino Religioso. Em contrapartida, h escolas cujo currculo contempla a formao integral do jovem, possibilitando seu protagonismo na escola e na sociedade.

    Segundo Junqueira e Cndido,

    A escola catlica tem ampliado sua compreenso de confessionalidade. Por muito tempo se depositou essa responsabilidade ao Ensino Religioso, que deveria ser catlico. Hoje reconhece a pluralidade e a necessidade de um Ensino Religioso aberto, entendido como disciplina e no como confessional catlico. Entende a importncia da confessionalidade transparecer em tudo que faz, em todos os setores, sem deixar tal responsabilidade a uma disciplina especfica ou a um setor. (JUNQUEIRA, Sergio; CANDIDO, Viviane. 2006, p.139-140.)

    Nesse contexto, podemos compreender a evangelizao de forma profunda, perpassando vrios setores da escola e integrada proposta curricular. Cabe aqui compreender a escola como uma sociedade plural, em que concepes convivem, seja por justaposio, seja de forma conflitante, nos diversos espaos da sociedade 5. A escola catlica desafiada a ser uma presena evangelizadora, atendendo a uma comunidade, que no , em sua totalidade, pertencente a essa confisso.

    O desafio apresentar uma proposta que ultrapasse a perspectiva catequtica e dogmtica, respeitando o papel da escola, seus processos garantindo a incluso dos seus destinatrios, respondendo s necessidades da sociedade atual e aos apelos do Evangelho.

    Para viabilizar a concretizao dessa proposta, que orienta a reflexo e organizao do contexto escolar, necessria a elaborao de um projeto pedaggico que oriente as aes nesse espao, que se d de maneira processual, participativa e dinmica, e por meio do qual constituiremos um instrumento coletivo de construo da sociedade. Ressaltamos que, no sentido etimolgico, o termo projeto vem do latim projectu, particpio passado do verbo projicere, que significa lanar para diante.

    Nessa perspectiva, ainda tomaremos a compreenso de Veiga, quando afirma que o projeto poltico-pedaggico vai alm de um simples agrupamento de planos de ensino e de atividades diversas.

    O projeto busca o rumo, uma direo. uma ao intencional, com um sentido explcito, com um compromisso definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedaggico da escola , tambm, um projeto poltico por estar intimamente articulado ao compromisso sociopoltico com interesses reais e coletivos da populao majoritria. poltico no sentido de compromisso com a formao do cidado para um tipo de sociedade. (JUNQUEIRA, Sergio; CANDIDO, Viviane. 2006. p. 140.)

    Afirmamos que o projeto poltico-pedaggico de fundamental importncia e deve ser pensado e elaborado por todos os segmentos da escola, ressaltando-se, em especial, a contribuio dos educandos. essa ampla participao que torna a escola um espao democrtico.

    O documento da UBEE, Projeto Poltico-Pastoral-Pedaggico, afirma:

    A escola marista deve ser um espao dinmico, de criatividade inovadora, de admirao pelo

    5

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  • desconhecido e pelo vir a conhecer. Esse espao tambm local para disseminar os valores do Evangelho, que so transformadores, criadores e geram a admirao pelo mistrio. O processo de educao, vivido como misso evangelizadora, pode proporcionar s pessoas uma mudana na forma de conceber o mundo, de relacionar-se e de criar estruturas mais justas. Educar levar os outros a caminhar, a trilhar seus prprios percursos em busca da superao de limites. Essa dimenso da educao est intrinsecamente ligada ao Evangelho. (UBEE, 2003. 26-31)

    O mesmo documento afirma que a funo da Escola Marista no apenas transmitir conhecimentos, mas propiciar ao indivduo a construo de uma slida e diversificada base cultural, bem como orient-lo na definio de um projeto de vida alicerado em valores cristos, que propicie o desenvolvimento harmnico de suas diferentes potencialidades, a sua realizao como pessoa e a integrao consciente, crtica, participativa e solidria vida social.

    A seguir, justificaremos o ttulo A Evangelizao como elemento integrador na formao dos jovens no espao escolar.

    2. A EVANGELIZAO COMO ELEMENTO INTEGRADOR

    Sabemos que a evangelizao passa necessariamente pelo empenho dos cristos na construo de uma nova sociedade onde todos so chamados a participar. O anncio da pessoa de Jesus Cristo vem a partir das perguntas que o testemunho suscita.

    E esta Boa Nova h de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. (...) Por fora desse testemunho sem palavras, estes cristos fazem aflorar, no corao daqueles que os veem viver, perguntas indeclinveis: por que que eles so assim? Por que que eles vivem daquela maneira? O que ou quem que os inspira? Por que que eles esto conosco? (PAULO VI, 1976. p. 26.)

    Concordamos com o autor, ao afirmar que o testemunho muito significativo, sobretudo quando nos dispomos a ajudar as pessoas. Em 2007, por ocasio do trabalho de ps-graduao, entrevistamos um grupo de alunos do Ensino Mdio e constatamos que a ao evangelizadora de uma escola catlica ajuda, e muito, no seu processo de formao. Algumas falas dos jovens entrevistados voltavam-se para a ajuda e a troca de experincias entre as pessoas, proporcionadas pela pastoral. Essas atividades so espaos de participao e envolvimento da juventude, e, quando planejadas de forma coletiva e participante, os mesmos podem exercitar o seu protagonismo, construindo a sua autonomia.

    Nesse sentido, importante que essas atividades estejam integradas no currculo. Se no esto, quais os elos que poderiam ser estabelecidos para um maior envolvimento dos jovens?

    Sabemos que existem diferentes concepes sobre a evangelizao, por isso relevante termos o cuidado de discuti-las, trabalhando-as com todos os setores da escola, para que, a partir das vivncias, os jovens as percebam de forma ampla.

    Vejamos o que alguns jovens falam, ao serem questionadas sobre qual contribuio as atividades propostas pela escola acrescentam s suas vidas. As atividades desenvolvidas pela escola ligadas formao humana esto voltadas para a formao do indivduo como cidado completo, de carter, ciente dos seus direitos e deveres. As atividades ligadas ao profissional/acadmico esto relacionadas ao emprego e formao de bons profissionais para o futuro. As atividades ligadas religio/ valores esto relacionadas integrao, formao de carter, incentivo ao lado religioso. As atividades sociotransformadoras esto ligadas ao despertar da solidariedade nas pessoas, ao ensinamento de boas aes, ajuda ao prximo e contribuio para a construo de uma sociedade maior.

    As atividades representam uma maneira de educar e preparar os alunos para a vida, alm de apenas ensinar um saber cientfico. Representam a interao para os alunos e o desenvolvimento dos mesmos. (L.P.B, 16 anos ,2 EM).

    As atividades propostas pelo colgio representam para mim um modo de integrao dos alunos em atitudes concretas, ou at mesmo espirituais... Tambm conscientizam atravs das atividades ideais de um futuro bom, do que seria certo/errado hoje em dia. (A.J.B, 16 anos, 2 EM).

    Para mim representam a vontade da escola de formar cidados completos na formao acadmica e na formao espiritual, do carter, a formao para a cidadania, da crtica para com todos os assuntos. (D.P. S, 1 EM).

    Representam uma oportunidade para os jovens de poder ajudar e fazer a diferena. Uma ao de conscientizao do jovem aluno e a preocupao de formar cidados cientes de seus direitos e deveres. (T.S.P, 1 EM).

    Diante desse cenrio, percebemos que as atividades propostas pela escola tm importncia na vida desses jovens e contribuem na sua formao de cidados. Elas possibilitam uma aproximao com outras realidades sociais, refletindo com eles acerca do seu papel frente aos desafios da sociedade e motivando-os a contribuir de forma efetiva na transformao pessoal e social, ao romper com a viso desumana da globalizao. O engajamento de alguns jovens por meio dos trabalhos de acompanhamento sistemtico em obras sociais e em algumas comunidades pode ser visto como fruto dos trabalhos desenvolvidos pela escola. Essa sensibilizao contribui medida que os mesmos passam a defender a vida por meio de valores como a cidadania, respeito, solidariedade e dignidade para todas as pessoas.

    Este estudo teve como objetivo apresentar os conceitos de evangelizao e identificar a contribuio dada pela escola aos jovens a partir do processo de evangelizao numa escola confessional.

    Podemos apontar alguns desafios e tendncias para a ao evangelizadora dessa escola.

    A ao evangelizadora vista, na maioria das vezes, por meio das atividades desenvolvidas pela pastoral. Dessa forma, a evangelizao se restringe a esse setor, caracterizando-o como nico responsvel pela ao evangelizadora no espao escolar.

    A pastoral deve perpassar e envolver todas as pessoas da comunidade educativa, numa ao articulada, partindo

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  • de um processo de discernimento sobre a realidade atual, reconhecendo as diferenas e o pluralismo existente na escola, num processo de dilogo e liberdade, e contribuindo para que o Evangelho seja encarnado a partir da vida e da cultura das pessoas envolvidas.

    Sabemos que a escola no o nico espao de evangelizao para a maioria da juventude, mas no podemos esquecer-nos daqueles jovens que apenas tm acesso evangelizao a partir da escola. Assumir a evangelizao como centro do processo educativo estar aberto autoconverso, autorreviso em busca contnua da recriao de um ambiente onde cada vez mais os valores do Evangelho sejam no s proclamados, mas, sobretudo vivenciados (UBEE, 2003, p.27).

    O desafio construir um projeto pedaggico que valorize a diversidade, garantindo a interdisciplinaridade como via de dilogo entre a f, cultura e cincia, implicando sensibilidade e inteligncia nas relaes com o conhecimento e com os sujeitos do mundo acadmico. Dessa forma, a escola catlica busca a excelncia acadmica e tambm um diferencial tico, proftico e evanglico, superando as vises fragmentadas da realidade. A concepo da pastoral apenas como um setor da escola precisa ser superada, e, para isso, o projeto pedaggico precisa mensurar, em seu conjunto, essa dimenso. Assim, teremos, de fato, uma escola em pastoral, onde os valores evanglicos esto presentes, revigorando a ao educacional, tornando-se um compromisso de toda a comunidade educativa (UBEE, 2003, p.26). Nessa tica, a evangelizao deixar de ser tarefa de um setor da escola.

    REFERNCIAS

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  • EDUCAO E EVANGELIZAO1

    Autora: Maria das Graas Silva2

    Orientador: Ir. Adalberto Amaral3

    RESUMO

    Este artigo apresenta uma anlise das teorias educacionais e uma abordagem do pensamento de alguns tericos da educao em relao ao processo ensino-aprendizagem, que se realiza na e fora da instituio escolar, enfatizando tambm a dimenso evangelizadora da educao, em especial nas escolas catlicas. Destaca pontos que favorecem esse processo de educao, apresentando a vivncia da cidadania e a formao do cidado como instrumentos presentes no processo da evangelizao. A hiptese principal do trabalho em questo sustenta que a educao no propriedade de uns poucos, pois est presente em todas as culturas e povos, por isso necessita ser trabalhada em sua totalidade, ou seja, em todos os setores da sociedade. A evangelizao caminha com a vida da comunidade, perpassa o ser humano e acontece no cotidiano. Dessa forma, a educao e a evangelizao na Escola Catlica visam favorecer a descoberta dos valores educacionais e religiosos presentes nas culturas e tradies dos povos, bem como contribuir para a busca da valorizao da aprendizagem e da experincia de f e vida processadas na comunidade escolar, social e eclesial.

    PALAVRAS-CHAVE: Educao. Evangelizao. Processo. Cidadania. Desafios. F.

    INTRODUO

    Diante dos mltiplos desafios da vida, a educao e a evangelizao surgem como valores indispensveis humanidade, na construo dos ideais de paz, de liberdade e de justia. Assim, faz-se necessrio conhecer o mundo da educao e evangelizao para poder intervir, construindo paradigmas que reforcem um novo agir pedaggico e uma nova forma de perceb-las, destacando a atuao em todos os nveis da vida humana, bem como perceber a importncia do trabalho evangelizador na vida da comunidade educativa que ultrapassa os muros da escola e ganha forma na sociedade.

    A educao e a evangelizao nessa perspectiva vm refletir sobre a necessidade de uma maior abertura para o social, considerando os conceitos de educao que se perpetuaram ao longo da histria e apontando caminhos que favoream a prtica da solidariedade, que fortaleam a vivncia da cidadania. A educao ao longo da vida conduz, diretamente, ao conceito de sociedade educativa, uma sociedade em que so oferecidas mltiplas oportunidades de aprender na escola, como na vida

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Maria das Graas Silva graduada em Teologiapela Lumen Christi Salvador/Bahia. Filosofia pela UECE Universidade Estadual do Cear. Ps graduada emPsicopedagogia e em Metodologia e Docncia do EnsinoSuperior. Atualmente assume a coordenao da Pastoral doColgioMaristadeAracati.

    3 Irmo Marista, Coordenador da rea de VidaConsagradaeLaicatodaUnioMaristadoBrasilUMBRASILBraslia/DF,tutordocursoEscolaemPastoral.

    social e cultural, de utilizar o espao escolar para anunciar Jesus Cristo, aquele que se faz presente na vida do povo: Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes (Mt 25, 35)

    Dessa forma, somos convidados a retomar e atualizar o conceito de educao e evangelizao construdo ao longo da histria, de modo a conciliar a competio que estimula, a cooperao que refora e a solidariedade que une. Isso quer dizer: educar para a vivncia dos valores fundamentais da vida humana, como solidariedade, justia, fraternidade, amizade, etc., fortalecendo o vnculo com a comunidade e com a educao de forma geral, pois ela vida que se processa em todos os ambientes. a presena do ressuscitado por meio de aes que promovem vida, encontros, orao, ao.

    Educamos e evangelizamos na vida e para a vida. Educamos e evangelizamos na escola e fora dela, por isso necessrio ter conscincia do papel da educao. Como agentes do ato de educar, rompemos limites para proporcionar o conhecimento sistematizado, ou seja, buscamos mtodos e tcnicas para transmitir, de forma clara, aquilo que aos poucos vai tornando-se saber universal. E assim vai sendo armazenado, durante geraes, nas pginas da histria.

    Temos clareza de que a misso educativa rdua, no entanto sabemos que outros j trilharam o mesmo caminho que ns, por isso hoje estamos tambm fazendo histria para a educao. Educar para alm das escolas, educar para alm do prprio ato de educar, ou seja: hoje somos educadores, amanh educadores sero os que hoje so educandos. O processo contnuo, difcil a misso, mas caminhar preciso, pois sabemos do muito que ainda temos a construir para que a evangelizao ganhe fora e vena os limites impostos pelo sistema educacional das escolas. Visamos uma educao e uma evangelizao que se processem em busca da formao do homem em todas as suas dimenses, da sua formao integral.

    Nesse sentido, temos como objetivos: compreender a educao e a evangelizao como fatores presentes na vida humana, buscando proporcionar um maior embasamento que venha a favorecer uma prtica pedaggica alicerada nos valores evanglicos que no seja restrita s instituies escolares catlicas; favorecer a compreenso da evangelizao como responsabilidade de todos, e no apenas de um grupo, destacando os desafios da educao evangelizadora como tarefa a ser realizada por cada cristo.

    EDUCAO E EVANGELIZAO

    Educao um termo amplo, por isso necessitamos restringi-lo para uma melhor compreenso. Cada vez mais, a educao ocupa espao na vida das pessoas, medida que aumenta a participao e o desempenho na dinmica das sociedades modernas, devido aos variados processos nela existentes. Ester Grossi (2000, p.22) afirma que a educao o campo amplo dos princpios e da prtica sobre como um indivduo se transforma em uma pessoa, em um cidado; por isso, inclui a problemtica do sentido da vida, da sociedade e da cultura. Para uma instituio catlica, alm da educao, temos a evangelizao, que deve acompanhar todo o processo educativo, pois o empenho em anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados pela esperana, mas ao mesmo tempo torturados muitas vezes pelo medo e pela angstia, sem dvida alguma um servio prestado comunidade dos cristos, bem como a toda a humanidade. (PAULO VI, 1982, n. 1).

    De acordo com Morais (1986, p.56), a escola uma escada, cada degrau prepara para o degrau posterior. Escolarizar-se frequentar essa sequncia. Cada degrau cumpre sua funo que

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  • retoma a anterior e desemboca na posterior. J no contexto da evangelizao, sabemos que uma realidade rica, complexa e dinmica que requer: o testemunho de vida; o anncio explcito; a adeso do corao; a insero na comunidade; o acolhimento dos sinais e dos sacramentos; a transformao e a renovao da humanidade. (CNBB, 1986).

    Sabemos que o essencial, na vida de um pas, a educao, que d os instrumentais para a qualificao dos profissionais que se desejam. Assim, quando os sistemas educativos formais tendem a privilegiar o acesso ao conhecimento, em detrimento de outras formas de aprendizagem, importa conceber a educao como um todo. De fato, preciso reconhecer que a prtica evangelizadora deve ser sempre processo que integra f e vida, em nvel social e pessoal, e, por outro lado, a prtica educativa autntica carrega sempre em si dimenses e valores da boa nova do Reino. (CNBB, 1992, n. 89). Da a necessidade de se ter uma educao evangelizadora, uma educao que se deixe permear por valores.

    Podemos afirmar que a educao se processa na vivncia do dia a dia. Aprendemos com os antepassados, a cultura, o meio ambiente, etc., por isso cabe ao educador transmitir ao educando o que a humanidade j aprendeu acerca de si mesma e da natureza, tudo o que ela descobriu de essencial, uma vez que o homem aspira igualdade e participao, duas formas de conscientizao de sua dignidade na busca da realizao. A aspirao do homem se exprime cada vez mais, medida que nele se desenvolve a capacidade de buscar informao e educao.

    A educao e a evangelizao devem ser teis sociedade, funcionando como instrumentos que favoream a criao e a difuso do conhecimento, da f e da cincia, e colocando-se ao alcance de todos. Nesse sentido, papel da escola catlica acompanhar as questes contemporneas e atuar de maneira a formar indivduos que estejam preparados para a construo de uma sociedade democrtica, participativa e aberta pluralidade cultural e tnica, tendo em vista a formao do cidado como um todo. Dessa forma, a escola tem um papel fundamental nesse processo, onde as condies concretas vivenciadas no so as fontes alimentadoras do processo de aprendizagem. (GONH, 1994, p.15).

    Severino (1994) apresenta os compromissos da educao, destacando a atividade educativa como uma forma de trabalho, por ser uma atividade produtiva. uma forma de preparao para o trabalho, uma vez que constitui um investimento para inserir novos profissionais nas relaes de produo, somente atingindo seus objetivos se for realizado pelo trabalho, ou seja, pela atividade prtica, conforme refora o autor, quando destaca:

    Quando encarado como preparao para o trabalho, o processo educacional refere-se prioritariamente situao do sujeito educando, ao aprendiz. Aqui temos a educao na perspectiva daquele que o alvo da ao educativa. Entretanto, se visto como modalidade de atividade especificamente pedaggica, o processo educacional envolve educandos e educadores. (SEVERINO ,1994, p.115).

    Nessa perspectiva, percebemos a necessidade de uma educao que favorea a vivncia de uma formao de conscincia crtica que prime pelo bem comum. Este o contexto da educao para a cidadania: mtua, colaborao, respeito, amor a si mesmo e ao outro, postura que todos podem e devem assumir.

    Ser cidado no disputar; colaborar para criar uma vida fraterna na sociedade. Para isso, a escola deve estar vinculada a esse processo, como agncia educativa que atenda as necessidades e hbitos civilizados, que corresponda vida nas cidades. H que se ressaltar aqui o papel poltico da educao escolar como formao para a cidadania. A escola catlica, afinada com os valores cristos, dever imprimir uma marca tica e solidria no corao de cada um dos seus educandos, e isso o seu maior legado. Para tanto, imprescindvel um testemunho do amor cristo e dos valores cristos de modo institucional, permanente e processual.

    Faz-se necessria uma compreenso global da realidade, que o homem vai elaborando em cada situao e em cada contexto. S assim, podemos dizer que cidadania a vivncia dos valores formados ao longo da vida pelo indivduo consciente do seu papel social, ou melhor, da sua responsabilidade como ser social e cristo autntico. preciso, no entanto, educar o cidado formando o cristo, pois ele o artfice dessa histria que tentamos escrever ao longo da vida no processo educativo evangelizador.

    Evangelizar significa, ao mesmo tempo, testemunhar e anunciar o Evangelho, isto , viver e proclamar as exigncias da mensagem crist. Ide e evangelizai a toda criatura no traz apenas uma conotao geogrfica e cultural que engloba todas as regies e raas do mundo, mas tambm uma referncia a todas as classes e ambientes sociais, incluindo as escolas. Reconhecemos, com alegria e entusiasmo, que cresce, em muitos educadores, religiosos e leigos, a conscincia de que sua prtica educativa precisa ser sempre mais uma presena da Igreja evangelizando o mundo da educao. (CNBB, 1992, n. 49).

    EDUCAO E EVANGELIZAO: CONVITE A UMA NOVA PRXIS

    A educao como processo contnuo da vida humana no pode ser desvinculada do seu objetivo: o homem e o mundo. Assim, no pode sustentar-se com objetivos limitados, nem enderear suas metas para situar o homem no mundo material. Somos uma totalidade, e a educao deve voltar-se para o ser humano como um ser de relao, cidado, construtor de uma histria que se faz gradativamente dentro de um grupo social, tendo em vista o seu processo evangelizador. Gaddotti afirma:

    A educao tem um papel poltico fundamental. Deve desempenhar um papel eminentemente democrtico, ser um lugar de encontro, de permanente troca de experincias. Assim, a educao consiste em esperar que o mundo seja dividido com justia entre os homens. (GADOTTI, 1978, p.157).

    partindo desse pressuposto que percebemos que ningum consegue ficar por fora da educao, pois a mesma acompanha tudo e todos. essa reflexo que Brando nos apresenta quando diz:

    Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos ns envolvemos pedaos da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educao. (1995, p.7).

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  • Nesse processo interativo, percebemos a educao evangelizadora criando formas de vida, assumindo e assumindo-se para a sociedade, ou seja, estabelecendo paradigmas educativos e estimulando a sociedade a vivenci-los de forma prtica. A essa reflexo podemos acrescentar o pensamento de Paulo Freire, quando diz: A educao deve ser vivenciada como uma prtica concreta de libertao e de construo da histria. (1987, p.8). Histria esta, que nos permite perceber que a educao se desenvolveu junto com o ser humano, evoluindo com o passar dos tempos.

    Ainda hoje, existem regies onde no h escolas, mas h Igrejas, h evangelizao, h crentes que anunciam e comunicam a mensagem da salvao, o Evangelho. No h escolas, no entanto a educao e a evangelizao so constantes, no deixam de ocorrer, embora aconteam por processos diferentes daqueles utilizados pelo sistema escolar institucionalizado.

    O processo educativo e evangelizador independe da escola, mas esta necessria s culturas que a utilizam como instrumental na forma de educar e evangelizar. No queremos negar o valor da escola no processo educativo evangelizador; ao contrrio, queremos dizer que a mesma importante na misso de educar e que est onde o povo estiver, ou seja, acompanhando culturas e ideologias, sustentando-se da vida das comunidades e ganhando espao na ao do homem em seu meio social.

    A educao permanente, processo que deve continuar durante a vida inteira e que acontece fora da escola. Segundo Paulo Freire:

    A educao permanente no porque certa linha ideolgica ou certa posio poltica ou certo interesse econmico exijam. A educao permanente na razo, de um lado, da finitude do ser humano, de outro, da conscincia que ele tem de sua finitude. Mais ainda, pelo fato de, ao longo da histria, ter incorporado sua natureza no apenas saber que vivia, mas saber que sabia e, assim, saber que podia saber mais. A educao e a formao permanente se fundem a. (1987, p.20).

    Partindo dessa perspectiva, percebemos o quanto a educao evangelizadora se faz necessria, uma vez que contravalores so veiculados pelos meios de comunicao de massa, que nem sempre educam. necessria a educao que se processa nos movimentos de jovens que juntam sonhos e esperanas; que envolve as crianas nos jogos e brincadeiras infantis; que cria espaos para um mundo imaginrio aonde ningum ousou chegar. Educao que vida vivida e que faz o ser humano pensar. Educao que foi sonhada e desejada por tantos homens e mulheres ao longo da histria.

    nesse processo de busca contnua que precisamos envolver-nos para conseguir transpor os limites de uma educao tecnicista e transform-la numa educao humanizadora, tendo a centralidade do Evangelho como farol a iluminar as prticas educativas. Uma educao que faa o ser humano renascer e buscar ser semente de transformao pela e para a educao, pois uma escola no existe s para si, mas representa uma base sobre a qual muitas coisas podem desenvolver-se pelo bem da sociedade. Ela constitui um meio propcio para a aprendizagem ativa das relaes humanas e do conhecimento do Deus que se fez homem para permanecer mais perto dos homens. .

    Ao estabelecer um verdadeiro sistema de relacionamentos com o grupo de educadores, educandos, famlia, sociedade, a escola se enriquece e, por sua vez, contribui para o crescimento das pessoas, ultrapassando suas prprias paredes e assumindo o

    compromisso com Jesus Cristo, quando nos diz: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.(Mc 16,15). A escola catlica deve ter um sentido comunitrio e ser julgada, em ltima instncia, pela qualidade das relaes existentes, tanto dentro quanto fora de sua circunscrio imediata. preciso considerar tambm qual trabalho evangelizador desenvolve, que semente do Reino est sendo plantada.

    nessa perspectiva que refletimos, buscando favorecer ao educador uma nova postura frente aos desafios que lhe so apresentados, convidando-o a uma prxis que seja promotora de vida, de liberdade e ao no imenso mundo da educao evangelizadora.

    CONSIDERAES FINAIS

    O caminho no est feito, ele se faz ao andar. (Thiago de Melo).

    na perspectiva de caminheiro que chegamos ao final no do caminho, mas de uma etapa da caminhada, desejando colaborar na construo de uma viso e proposta educativa que favorea o desenvolvimento do ser humano em sua totalidade em vista da evangelizao.

    Durante a pesquisa em busca de referenciais, muitas perguntas surgiram e, para cada pergunta, buscvamos uma resposta prtica, para que no nos limitssemos s teorias. Percebemos que, muitas vezes, como educadores, ns nos sentimos limitados e no tentamos fazer surgir uma educao evangelizadora, por termos medo de mexer nas estruturas.

    Quando nos perguntamos como fazer surgir uma educao evangelizadora, pensamos na totalidade do que o ser humano e, para essa pergunta, apresentamos vrias respostas, como, por exemplo, que o ser humano um ser de relaes, portanto deve ser visto como um todo e no como unidades separadas. Nesse sentido, a educao evangelizadora seria aquela que primasse por desenvolver as potencialidades de forma sistemtica.

    A educao no serve apenas para fornecer pessoas qualificadas ao mundo do trabalho. Desenvolver os talentos e as aptides de cada um corresponde, ao mesmo tempo, misso fundamentalmente humana da educao, bem como proporcionar o encontro com o transcendente ao longo da histria.

    Faz-se necessrio pensar uma educao para alm de uma simples adaptao ao emprego, mas uma formao que se desenvolva ao longo da vida, concebida como condio de desenvolvimento harmonioso e contnuo da pessoa.

    Queremos compreender a educao como processo de vida. Educao que seja uma reflexo mais aprofundada sobre a misso e o papel do educador, pois, quanto mais limitarmos o nosso conhecimento aos muros das escolas, mais limitaremos o processo educativo e evangelizador.

    O mundo est sendo construdo a cada instante, por isso a necessidade de perceber que a escola no detm o poder de educar, e a Igreja, o de evangelizar; que a educao e a evangelizao perpassam o domnio das instituies escolares e eclesiais e, por isso mesmo, devem abrir-se para as mudanas, alicerando-se na vida da comunidade, consciente do seu papel de construtora da cidadania e responsvel pelo destino do seu pas.

    As crianas chegam escola transportando consigo imagens de um mundo real ou fictcio, que ultrapassam, em muito, os

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  • limites da famlia e da comunidade. As mensagens mais variadas - ldicas, informativas, publicitrias -, transmitidas pelos meios de comunicao social, entram em concorrncia ou em contradio com o que os alunos aprendem na escola. Como os educandos passam menos tempo na escola do que diante da televiso, a seus olhos grande o contraste entre a gratificao instantnea oferecida pelos meios de comunicao, que no lhes exige esforo, e o que lhes exigido para alcanarem sucesso na escola. A educao precisa ser redescoberta, e a escola, reencantada. Estabelecendo um sistema de relacionamentos com o grupo de educadores, educandos, famlia, sociedade, a escola se enriquece e tambm contribui para o crescimento das pessoas, ultrapassando seus limites.

    preciso reestruturar o processo ensino-aprendizagem-evangelizao, favorecendo um maior envolvimento com a educao sistematizada, aquela que se processa fora da escola, na vida, no cotidiano, pois educao cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bssola que permita navegar por ele.

    Assim, o educador poder sentir-se confiante no complexo mundo em que vive, tendo instrumentos que o ajudem no processo de adaptao e na vida em sociedade. Saber para onde ir e como ir sentir-se seguro diante dos desafios que so apresentados constantemente.

    A educao e a evangelizao constituem uma proposta de reflexo, desejando que cada indivduo saiba conduzir o seu destino, num mundo onde a rapidez das mudanas se conjuga com o fenmeno da globalizao, para modificar a relao que homens e mulheres mantm com o espao tempo; e aspirando por descobertas cientficas e tecnolgicas que possibilitem uma melhor qualidade de vida e o encontro desse indivduo consigo mesmo.

    Educar e evangelizar so meios de se chegar a um equilbrio entre trabalho e aprendizagem, bem como ao exerccio de uma verdadeira cidadania pautada nos valores evanglicos e no testemunho do mestre Jesus. Assim, favorecem a construo contnua da pessoa humana, do seu saber e de suas aptides, da sua vida de f na comunidade, da sua capacidade de discernir e agir, levando-a a tomar conscincia de si prpria e do meio que a envolve, e a desempenhar o papel social que lhe cabe na Igreja (comunidade de f) e na sociedade.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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  • EDUCAR PARA O PROTAGONISMO E EVANGELIZAR PARA A

    COMUNIDADE: O DESAFIO DA ESCOLA EM PASTORAL DIANTE DE UM CONTEXTO GLOBAL E

    MERCADOLGICO1

    Autor: Renato Daniel Arajo de Faria2 Orientador: Hudson Silva Rodrigues3

    RESUMO:

    Este artigo apresenta alguns pressupostos bsicos para a proposta de uma escola em pastoral que pretende educar para o protagonismo juvenil e evangelizar para o sentimento de pertena a uma comunidade, no caso a comunidade crist. Considera o desafio contemporneo de se trabalhar esses conceitos num mundo cada vez mais globalizadado e regido pelas leis e valores mercadolgicos, com interesses implcitos de sobrepor seus valores aos valores de fraternidade, igualdade e justia propostos pelo cristianismo.

    PALAVRAS-CHAVE: Escola em pastoral. Educao. Evangelizao. Protagonismo.

    INTRODUO

    Neste artigo, discutiremos sobre o desafio que uma escola que possui uma proposta pastoral enfrenta para educar para o protagonismo e evangelizar para a comunidade, frente a uma situao histrica que impulsiona cada vez mais para o individualismo e para a alienao. Para isso, faz-se necessrio recuperar a viso do processo histrico que nos constitui, pois esse um gesto salutar contra o imediatismo capitalista e a absolutizao do presente que o sistema nos impinge. Sem essa perspectiva, o trabalho educacional ser irremediavelmente reprodutivista e mediocremente acrtico. Afinal, um dos atributos do ser humano pensar-se ao longo do tempo, e como construo social em perene transformao.

    A Educao existe desde que o ser humano surgiu. Revelar ao outro a produo e a conservao do fogo, fundamental para a sobrevivncia da espcie, era educao. Ensinar o manejo de um porrete para controlar uma mina dgua, expulsando outros grupos do acesso a esse bem comum e inaugurando a apropriao privada, tambm era educao. Dominadora e classista, mas era educao.

    Por isso, educao cultura e ideologia, e pode servir para aproximar e afastar pessoas e classes sociais.

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Filsofo, Ps-Graduando em Gesto PedaggicapelaPUC-PR,AssistentedePastoraldoColgioMaristaDomSilvrioemBeloHorizonteMG.3 Telogo, Licenciado em Lngua Portuguesa pelaFaculdadedaTerradeBrasliaFTB,EspecialistaemEnsinoReligioso pela Universidade Catlica de Braslia e Analistade Pastoral da Coordenao de Evangelizao e Pastoral daProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.

    preciso afirmar isso para que possamos comear do nosso lugar, do lugar em que pretendemos evangelizar: a escola. Podemos falar que, no contexto educacional brasileiro, muito se progrediu, mas tambm muito temos a caminhar para que a educao cumpra seu papel de humanizao.

    Como foi dito, esse resgate histrico um exerccio que continuamente nos traz o controle sobre ns mesmos. Fincar a memria no cho da ps-modernidade uma afronta cultura lquida que experimentamos.

    J que falamos de escola, passemos agora para o outro fator que norteia nossa discusso: a evangelizao.

    Comemorar , literalmente, lembrar junto. recordar -pensando com o corao- a conflitante saga do cobrimento que nos constitui como massa que deveria virar povo.

    Neste texto, lancemos nosso olhar pastoral pelo contexto de evangelizao que, em certo momento, foi imposio de valores sobre os nativos. A cruz, dizendo-se luz, foi fincada sobre a mente dos brbaros e dos gentios. Civilizao? Na evangelizao imposta que sempre antievanglica-, os conquistadores ofereciam os 10 mandamentos e tomavam em troca as terras dos silvcolas. Quem no se convertia ou fugia, morria. Dos estimados seis milhes de nativos de 1.500, restam hoje pouco mais de 300 mil. Evangelizao ou dizimao? Quem sobrevivia sofria uma espcie de genocdio cultural.

    Os interesses do Estado, da Igreja e da empresa colonial estavam imbricados. Os negcios do poder, da f e do dinheiro se misturavam.

    Resgatar esse pequeno, quase insignificante histrico da evangelizao no Brasil importante para ns, que evangelizamos por meio da educao, para percebermos que ainda existem alguns resqucios desde 1500, daqueles que nos querem isolados, individualistas, dispersos e apticos na caravela-presdio do cada um por si, no s na Igreja, mas em toda a sociedade, com suas especficas relaes de poder.

    A necessidade de relembrarmos o passado doloroso a certeza de que no podemos seguir esse exemplo de uma sociedade que mais bania do que agregava e de uma comunidade que, em sua prtica evangelizadora, desconsiderava os valores culturais de determinada populao.

    O Evangelho nos convida especificamente para assumirmos a misso de um posicionamento proftico contra um sistema socioeducacional e, consequentemente, cultural e ideolgico que se proponha a ensinar como virtude apenas o egosmo, o medo, a apatia e o desrespeito, passando quase imperceptivelmente pela domesticao das disciplinas lecionadas.

    Cabe a ns olhar a realidade de nossos povos e de nossa Igreja, suas limitaes, com seus valores, suas limitaes, suas angstias e esperanas. (D.A, p. 21-22).

    Diante disso, s podemos afirmar que a proposta de uma escola em pastoral no comunga com os pressupostos do atual conceito de globalizao, que, servindo aos desejos neoliberais, decreta que no h mais sociedade, mas apenas indivduos. Por isso, decidimos ser discpulos de missionrios de um Cristo que anuncia a Novidade da comunidade, frente a esse velho mundo individualista, e a novidade do engajamento e do protagonismo frente aos velhos coraes apticos que no acreditam na mudana e na construo efetiva da Civilizao do Amor.

    Revista Educ@cional - N. 4 | 2010 | Pgina 050

  • 1. Pastoral inculturada

    Para pensar a juventude no Brasil, no podemos desconsiderar o contexto em que ela est inserida. preciso analisar a cultura que se propaga entre diversas formas de fenmeno juvenil e como esse fenmeno se apresenta a ns, educadores e educandos. Pensando assim, podemos destacar os espaos frequentados pelos jovens e a relao existente entre cada tipo de tribo, e tentar correlacion-los ao espao educativo. Fazer essa relao extremamente necessrio para entendermos a perspectiva que nossos estudantes possuem da vida, sua maneira de pensar e agir, a forma como eles se relacionaro conosco, bem como suas angstias, seus questionamentos, insatisfaes, preocupaes, etc.

    Temos que partir do princpio de realidade dos jovens para alarmos nosso objetivo de torn-los bons cristos e virtuosos cidados. Dessa forma, podemos falar de uma pastoral inculturada, ou seja, uma prtica pastoral que no descarta os valores culturais, familiares e reflexivos de nossos estudantes, mas sim, penetra nesses valores de forma to transformadora que capaz de cativar todos os jovens na prpria linguagem e cultura deles. Essa pastoral inculturada no pode descartar, em momento algum, os smbolos trazidos pela juventude, at mesmo se esses smbolos forem contrrios aos valores que pretendemos formar. Devemos partir deles para fornecer ao jovem a possibilidade de refletir sobre esses smbolos que ele carrega e no condizem com a postura de um cidado virtuoso ou um bom cristo. Embrenhados na vida da juventude, podemos, a sim, falar de uma f encarnada, mesclando f, cultura e vida, que devem ser elementos indissociveis no nosso processo de evangelizao.

    Devemos, ento, analisar o jovem em seu fenmeno, ou seja, como um ser que se manifesta em seu espao. Essa abordagem fenomenolgica nos permitir criar mecanismos de interpretao, coleta de dados e anlise de como vivem os jovens estudantes de hoje e em que valores eles esto fundamentados.

    2. A juventude como mercadoria

    Na sociedade de mercador paga-se pela troca de bens e servios. Vende-se e compra-se. No se doa e no se agradece. Ao pagar liquidada qualquer dvida. A sociedade de mercado nos afasta das razes da rvore da vida, que so amor, ddiva, fraternidade e solidariedade. (CF 2010, p. 19).

    Dentro desse contexto, e partindo dessa linha de pensamento, trazemos nossa reflexo um fator preocupante e que exerce grande influncia sobre a juventude: o mercado. Falar de mercado falar das relaes econmicas e sociais que definem, delimitam ou conceituam determinada forma de agir, que influencia todo o nosso contexto histrico.

    Numa breve retomada, podemos dizer que a humanidade, e consequentemente a juventude, por fazer parte dela, sempre precisa de uma espcie de eixo referencial para indicar os caminhos que ela deveria percorrer e nortear as relaes de poder entre os seres humanos. Resgataremos aqui quatro fases importantes para a nossa constituio humanstica que se enquadram nesse contexto de Divindade Norteadora. Em nossa histria, passamos por quatro perodos que marcaram nossa humanidade.

    O primeiro deles surgiu na Grcia antiga, desde a concepo

    mitolgica do mundo, at o surgimento do Logos Filosfico. Nesse perodo, experimentamos uma forma de explicar a vida por meio dos questionamentos. Assim, a Divindade a qual o homem ocidental seguiria seria, num primeiro momento, a explicao mitolgica do mundo e seus servios vontade dos deuses mitolgicos.

    No segundo momento, durante a passagem para a explicao filosfica, o homem encontrou uma forma de justificar sua existncia, baseada na explicao e conceituao filosfica de mundo e de realidade, que nessa fase da humanidade era o que ditava as normas.

    Dando um grande salto histrico, destacamos outro perodo, que, sem dvida, marcou nossa forma de pensar: a Idade Mdia. Nessa poca, por meio do poder exercido pelo clero, a justificao de mundo se dava pela explicao teolgica deste. Assim, Deus era o grande validador de todas as questes existentes naquela poca. Um Deus nico, pessoal, onipotente e onipresente era a explicao de todas as coisas, de todos os acontecimentos e relaes.

    Com o Iluminismo, passamos para outro grande momento da nossa histria. Na poca das luzes, tnhamos que ousar saber, o que significava o uso da razo como instrumento explicativo para o mundo e o homem. Tudo teria que passar pelo crivo da razo para conseguir o certificado de validade. Dessa forma, o que no fosse racionalmente comprovado no era vlido. Junto com essa validao do aparato racional, constatamos o progressivo crescimento da Cincia, que, de fato, transformou-se em base argumentativa para explicao de todas as coisas. Nessa poca, era a razo (s vezes com o nome de Cincia) que situava e dava sentido existncia do homem do mundo. Assim, o que no fosse aprovado por esse crivo no era vlido e no poderia ser considerado como parte do que comumente chamamos de realidade.

    Com novos conceitos de sociedade, relaes e valores, chegamos a uma nova concepo de mundo e da prpria condio humana. Assim, o quarto momento o que estamos vivendo. Independente dos conceitos de ps, hiper, ultra ou megamodernidade, constatamos que, mais uma vez, existe uma divindade influenciando o ser humano. Nos tempos atuais, o ser norteador de todas as relaes do homem com o prprio homem e do homem com a natureza se chama mercado. Fazendo essa leitura da sociedade na qual nossos jovens esto inseridos, percebemos que todas as decises, relaes e atitudes so direcionadas por esse novo deus, o deus mercado.

    Atualmente, a validao de um estilo de vida, a justificao de uma determinada atitude, at mesmo uma escolha profissional, que comea a ser feita pelos nossos estudantes nos anos anteriores ao exame do vestibular, esto todas merc da vontade do mercado. At as escolhas mais profundas do ser humano, as escolhas existenciais, significadas, passam pela ideia do rentvel ou no, ou seja, devem ser delimitadas pela ideia de um lucro futuro, como se o mercado fosse um ser onipresente, onipotente e, logicamente, com vontades e leis prprias; um ser diferente de ns e que est acima de qualquer deciso e conceito, um ser supremo. Assim, todos os valores que conservamos h muito tempo esto subjugados ao valor supremo: o valor mercadolgico.

    Essa anlise e sua posterior constatao caem como uma bomba sobre ns, que falamos em autenticidade, partilha, comunho e valores que no desejam conservar o status quo da realidade social.

    sabido que nossa juventude vive atingida por meios de comunicao, propagandas e anncios que do prevalncia ao fator mercadolgico em detrimento do fator humano.

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  • Alis, isso no se restringe aos meios de comunicao. Muitas vezes, nossos jovens so advindos de famlias que deixam os valores mercadolgicos penetrarem de tal forma em seu seio que, como dito anteriormente, qualquer deciso apenas ser tomada se passar pelo fio condutor dos ditames do mercado.

    Para aqueles que no concordam com essa linha de pensamento, indicaramos a observao de algumas posturas e atitudes presentes na juventude contempornea. Cotidianamente, escutamos dos prprios jovens sua venerao e adorao ao deus mercado, quando eles levam todos os fatores da vida ao campo econmico e reduzem a existncia ao financeiro. Viver virou sinnimo de comprar, logo quem no consegue comprar no vive. Se um jovem no consegue adquirir algum adereo que lhe permita fazer parte de determinado grupo, ele simplesmente excludo daquele grupo. Todas as conversas de nossos jovens giram em torno da compra; at nos jogos digitais existe um mercado de jogadores de futebol, em que se compram e vendem craques do futebol mundial. Desse jeito, pensar, sentir, agir, sofrer, amar, saborear no faz sentido se no for sinnimo de comprar.

    O prejudicial nesse sistema de mercado, com sua lgica de que tudo se paga pela troca de bens e servios, que ele anuncia que, em nossa sociedade, tudo se transforma em mercadoria. A, chegamos ao ponto que realmente nos interessa, pois a prpria juventude, que outrora era um perigo para esse sistema, com seus sonhos e conquistas, transformada em mercadoria. Parece que o mercado realmente um inimigo quase invencvel, pois ele capaz de transformar em mercadoria at mesmo aquilo que antes o contestava. Foi assim com o prprio movimento hippie. O movimento outrora contestava as bases mercadolgicas da nao norte-americana e tudo aquilo que ia contra ele. O que era um movimento de contestao ao sistema econmico e social existente naquela poca se transformou em mercadoria em qualquer loja, em qualquer esquina, pois o mercado o converteu apenas num estilo de vida, e, como todo estilo de vida, pode ser comprado e vendido. Hoje esse movimento no passa de algumas sandlias e camisas vendidas a uma clientela que conserva esse status. Esse um dos grandes problemas trazidos pela globalizao.

    3. A globalizao

    A novidade dessas mudanas, diferentemente do ocorrido em outras pocas, que elas tm alcance global que, com diferenas e matizes afetam o mundo inteiro. (D.A. , p. 29).

    Falar de uma sociedade globalizada pensar num estilo de vida globalizado. Como isso acontece? um estilo de vida, ou uma condio humana, que esteja interligada com os estilos de vida de todos os outros seres do globo terrestre. Uma globalizao que torna cada habitante do planeta no mais um cidado de determinada localidade - um cidado brasileiro, por exemplo -, mas sim, um cidado do globo, um cidado do planeta. Nessa perspectiva, todas as fronteiras so derrubadas, tudo o que for empecilho para o sistema global deve ceder, para que os interesses planetrios sejam garantidos.

    Seria dessa forma no papel ou no conceito, mas o que vemos e percebemos, e o que nos chega por meio de nossa abordagem da realidade fenomenolgica diferente. Um sistema organizado que serviria para juntar os habitantes do planeta acabou por ser um dizimador das liberdades sociais, culturais e econmicas. A globalizao tornou-se um rolo compressor que aniquila qualquer manifestao que contrarie os interesses da maioria globalizada, ou melhor, dizendo dos detentores do poder

    global. O que seria um estado de liberdade planetria, com livre comrcio e transies culturais, acabou transformando-se numa conservao de um poder institudo, excludente e injusto. Nessa relao de poder, existe o controle daqueles que detm o poder econmico-social j estabelecido.

    O fenmeno da globalizao vem provocando mudanas nos parmetros da condio humana por meio do que os especialistas chamam de compresso do espao/tempo, em que as distncias se encurtam, o tempo se acelera, ideias e notcias difundem-se numa velocidade espantosa, investimentos so transferidos de um local para outro, sempre visando uma menor resistncia local e maior lucro. Os acontecimentos no ocorrem mais acol, mas aqui. No foi mais naquela hora, mas agora. A concorrncia desleal e desenfreada provoca a perda de milhes de empregos, para uns; para outros, ganhos imensos. A promessa de uma globalizao social e econmica limitada a um pequeno grupo e deixa uma enorme maioria sombra das vantagens e dos confortos prometidos. A maior parte da populao v-se excluda do desenvolvimento global, sofrendo, como nunca, do custo de manter os privilgios de uma minoria. Promessas de riqueza e fama instantneas, a instigao ao consumismo, o valor de uma pessoa dado pelo que tem e pelo que aparenta, mostram uma realidade cruel que divide o mundo em dois: os abastados e os excludos.Essa anlise aponta o fato de que a globalizao como um clube, cheio de regras e exigncias, de onde os scios rebeldes so expulsos com frieza.

    3.1 - Mercado, globalizao e comunidade

    Partindo do princpio de que estamos todos em movimento, impossvel que esse movimento seja igual para todos, porque no estamos no mesmo lugar no estrato mundial. Livres de fronteiras e restries espaciais, alguns se tornam globais e o resto da populao permanece limitada sua territorializao, isto , sua dependncia de referncias locais, o que se transforma numa caracterstica de menos valia, ampliando o abismo entre o clube e o resto. Ser local num mundo globalizado sinal de privao e degradao social. Os desconfortos da existncia localizada compem-se do fato de que, com os espaos pblicos removidos para alm do alcance da vida localizada, as localidades perdem a capacidade de gerar e negociar sentidos, e se tornam cada vez mais dependentes de aes que do e interpretam sentidos, aes que elas no controlam.

    Anuncia-se uma ausncia de referncias prximas que possam, ao mesmo tempo, permitir a identificao com o prximo e sua discriminao deste. A diluio de sentidos vivida de tal forma que o indivduo passa a ter a tarefa quase impossvel de autoengendrar-se, de constituir-se por si mesmo e de, ao mesmo tempo, tornar-se parte de um todo que lhe recusa parmetros visveis e identificveis. O cantor e compositor Cazuza proclama, em alto e bom som, precisar de uma ideologia para viver. E mais: Eu vou pagar a conta do analista/ Pra nunca mais ter que saber quem eu sou/ Pois aquele garoto que ia mudar o mundo/ Agora assiste a tudo em cima do muro.

    No mundo global, os muros so demolidos ou ignorados; os limites e leis, alm daqueles ligados ao mercado, so insultos; e as certezas so falcias. Ambiguidade, incerteza e volatilidade so critrios permanentes. medida que fronteiras e diferenas so dissolvidas, a globalizao dificulta o encontro e o reconhecimento de limites que sejam reais o bastante para oferecer uma resistncia slida. Com isso, impede o reconhecimento de um outro, do diferente, do irredutvel, de tudo aquilo que pode ser experimentado como real alm do sujeito.

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  • Assim, o encontro da alteridade uma experincia que nos coloca em teste. Dele pode nascer a tentao de reduzir a diferena a fora, mas desse encontro que gerado o desafio da comunicao, com um empenho constante e renovado. O estabelecimento da identidade humana um processo cultural e simblico realizado a partir de diversos enraizamentos. Os membros de um grupo particular como aqueles ligados por gnero, faixa etria, estrato social, etnias, religio, possuem uma extensa rede de articulaes tanto na linguagem como nas crenas partilhadas. Mas, num plano mais geral ainda, estabelecido outro tipo de identidade, mais ampla, que se superpe, cobrindo, de certa forma, todas, numa pretenso universalista. Poderia chamar-se de uma identidade poltica do homem, ligada intimamente s condies sociais da poca.

    Construmos a famlia humana, nica e rica na sua grande diversidade. Nascemos para conviver. Somos responsveis por nossos irmos e irms, seja qual for o lugar onde vivem, perto ou longe de ns. (CF 2010, p. 20).

    A globalizao pode ser um exemplo ntido desse tipo de identidade- homens globalizados, pertencentes a um clube que exige uma identidade homognea e puramente conceitual. As dimenses individuais, particulares, tnicas, religiosas ficam subordinadas, anuladas, nesse ponto abstrato identificatrio. Isso funciona maravilhosamente bem enquanto lidamos com abstraes, mas falha quando trata de seres humanos que no podem prescindir de valores, significados que ofeream referncias sua experincia.

    As fronteiras naturais, as identidades distintas de cada cultura, os valores e referncias de cada grupamento humano, etnias, tudo parece mais tnue. Lado a lado, condizente com o aspecto paradoxal da natureza humana, o surgimento contnuo dos movimentos nacionalistas e de faces extremistas sugere uma resposta reativa a essa identidade poltica que avassala o conceito de indivduo e at mesmo de ptria ou nao.

    Em meio a essa crise, est a juventude sem fora de ao, perdida em meio s ofertas e desejos provocados por esses sistemas de poder, que, alm de tudo, criam na juventude um desejo antes mesmo que eles possam desejar. A rotatividade de informao, a oferta do comrcio to grande e gira numa velocidade to absurda que o valor de outrora no existe mais, obrigando a uma mudana de postura de vida contnua, o que prejudica o segmento da vida e a experimentao de todas as etapas com completude e significncia. merc da globalizao, encontra-se uma juventude informada, mas certamente sem saber o que fazer com essa informao.

    Em vista disso, a globalizao se tornou um grande problema. Sobretudo para ns, pois, com seu desejo de universalizao econmica, ela apenas universalizou as relaes de um poder j estabelecido; universalizou contraditoriamente para poucos o acmulo de capital; globalizou o sentimento de competitividade; globalizou os valores do capitalismo selvagem, as bases para uma corrida armamentista, mas no globalizou as prticas de solidariedade e justia. A sociedade globalizada derrubou as fronteiras entre os pases, mas no criou pontes para as prticas de partilha e comunho.

    Nossos estudantes fazem parte dessa sociedade e se manifestam em nossos colgios medida que aderem a esse estilo de vida, a esse status.

    Como foi dito anteriormente, nossa juventude perde o carter de contestao e liberdade, quando levada, de forma massificada, a reproduzir esses valores propagados pela sociedade atual.

    Infelizmente, o que percebemos que os jovens que transitam em nossos colgios no conseguem produzir coisa alguma do que esteja fora dos ditames de um mercado globalizado; apenas reproduzem os valores disseminados pela atual conjuntura socioeconmica.

    A globalizao, ento, torna-se uma grande inimiga na medida em que priva nossos estudantes da possibilidade de experimentar seus processos naturais de amadurecimento e crescimento. O mercado globalizado se torna um inimigo tambm quando transforma em mercadoria tudo aquilo que vai contra ele. O sentimento de impotncia se torna presente, pois at mesmo a juventude, que teria um nimo para parar as engrenagens da globalizao do poder, transformada e usada como moeda de troca para o mercado. Os jovens, no atual contexto, so valorizados apenas pelo seu valor de mercado, pelo seu poder de compra ou por sua representatividade econmica. Justamente a parte da sociedade que detm um poder de transformao e transvalorao to grande j canaliza todas essa fora e coragem para os ditames do mercado e para o poder de compra.

    Alienados de uma realidade meramente mercadolgica, nossos jovens estudantes se transformam em mercadoria, pois so vistos apenas como consumidores e no como sujeitos histrico-sociais com desejos prprios, espiritualidade prpria e existncias singulares. Nossos protagonistas no passam de coadjuvantes no processo histrico.

    Essa informao muito preocupante em nosso meio educativo e, com certeza, reflete de forma negativa em nossa prtica pastoral, pois, com essa transformao da juventude em mercadoria, os valores cristos tm que se posicionar, com tenacidade, frente aos valores do mercado globalizado.

    Da surge a necessidade de proclamar, em alto e bom som: Juventude! Levante-se, oferecendo os valores evanglicos como uma verdadeira Novidade Libertadora frente ao vazio que essa nova ordem social cria em seus coraes.

    4. Concluso

    Olhar para essa realidade sem um eixo referencial pode, realmente, entregar-nos desolao e fazer brotar um sentimento de impotncia diante do que o sistema social oferece aos nossos jovens estudantes de hoje. Nossa referncia o prprio Cristo, que, com toda a sua pedagogia, oferece-nos duas pistas para conseguirmos anunciar a Novidade do Reino entre os nossos.

    Neste momento, com incertezas no corao, perguntamos com Tom: Como vamos saber o caminho? (Jo 14,5). Jesus nos responde com uma proposta provocadora: Eu sou o caminho, a verdade e a vida .(Jo 14,6). (DA, p. 61).

    Para que nossa misso seja efetiva e, consequemente, consigamos reverter esse quadro, precisamos dar prioridade formao de nossos estudantes em dois aspectos: educ-los para o protagonismo, para que eles tenham uma atitude autnoma diante da vida e do mundo, e evangeliz-los para a comunidade, para que eles tenham conscincia do ethos cristo, que tem sido desconsiderado em nossos dias, e possam conscientizar-se de que

    Cada pessoa tem direito ao direito fundamental vida e, portanto, o direito a todas as coisas necessrias para uma vida de qualidade. (CF

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  • 2010, p. 20).

    Educar para o protagonismo sugere, num primeiro momento, que orientemos nossos estudantes a uma postura autnoma diante de suas relaes consigo mesmos, com o outro e com o mundo. Freire (1996) nos alerta no sentido de que, para que acontea um verdadeiro processo pedaggico autnomo, devemos saber que o respeito autonomia e dignidade de cada um um imperativo tico e no um favor que podemos ou no conceder uns aos outros.

    Isso relevante, pois, se falaremos mais tarde de uma postura tica frente aos desafios, e mais ainda, diremos sobre a existncia de uma tica comunitria entre os cidados do planeta, devemos, em primeiro lugar, fazer transparecer essa postura tica em ns. Com certeza, para que alcancemos esse nosso objetivo, devemos fazer do local onde evangelizamos e educamos um espao de dialogicidade, pois

    A dialogicidade verdadeira, em que os sujeitos dialgicos aprendem e crescem na diferena, sobretudo no respeito a ela, a forma de estar sendo coerentemente exigida por seres que, inacabados, assumindo-se como tais, se tornam radicalmente ticos. (Pedagogia da Autonomia, p. 60).

    Se quisermos fomentar o desejo de uma coerncia tica em nossos estudantes, primeiro devemos form-los, para que eles mesmos, de forma autnoma e autntica, experimentem o compromisso tico como algo salutar e necessrio. Para que isso acontea, devemos perguntar-nos: estamos criando espaos para o exerccio do protagonismo juvenil, ou estamos delimitando os espaos onde os nossos estudantes tm a oportunidade de exercerem sua autonomia?

    Delimitar os espaos de trabalho da juventude no incentivar o protagonismo, desconsiderar que ali, nossa frente, est um sujeito histrico-social que carrega suas prprias experincias de vida e que estas so vlidas para a comunidade em geral, servindo de referncia para ele. Nesse caso, delimitar o espao de discusso e de vivncia desses jovens matar seu desejo de mudana, sufocar a vontade prpria da juventude de um novo mundo e de novos coraes, e, em casos mais extremos, transformar a juventude em massa de manobra. Onde existe delimitao no existe autonomia.

    Criar espaos e fazer com que o prprio jovem construa sua histria e a do grupo fazer com que ele se sinta parte do processo histrico em que vive e tome suas decises baseadas em seu senso crtico, formado pelas discusses e aprendizados fomentados por um espao de criao autnomo.

    O protagonismo nasce da autonomia, por isso ambos devem caminhar juntos no processo pedaggico pastoral do estudante e devem estar presentes em nossas prticas pastorais como as duas faces de uma mesma moeda.

    Tudo isso desembocar no prprio sentido de evangelizarmos para a conscincia de uma tica comunitria, um resgate do ethos cristo que tenha como fundamento aprender que a solidariedade significa amar o prximo tambm nas dimenses globais, em uma interdependncia mundial, e que somos responsveis por nossos irmos e irms, seja qual for o lugar onde vivem, perto ou longe de ns.

    Evangelizar para a comunidade resgatar o senso de responsabilidade em nossos estudantes, porque o

    enfraquecimento de uma percepo comunitria leva ao enfraquecimento desse senso, bem como ao enfraquecimento da solidariedade em que ningum mais preserve seu elo orgnico com a comunidade e com os indivduos.

    Sendo assim, a base de nosso discurso deve alicerar-se no ethos cristo, to necessrio a ns nos dias atuais: a Novidade do Amor, pois

    Encontramos no mandamento do amor dentro do cristianismo primitivo duas tendncias: de um lado, a superao das fronteiras entre grupos internos e externos; por outro lado, entre superiores e inferiores. (Theissen, 2009).

    Isso fala muito sobre nosso propsito e nos acalenta, pois evangelizar, tendo em vista essa formao da conscincia de um ethos cristo, de uma tica comunitria, levar a mensagem evanglica aos nossos educandos, ou seja, levar a Boa Nova para a existncia daqueles que j esto cansados com a velhitude da competio, da desigualdade, da injustia. Levar a Novidade do Amor a esses jovens tarefa de extrema importncia para ns, pastoralistas, que nos propusemos a seguir a travessia de nossa existncia, anunciando que, em breve, chegar o tempo do amor, da paz e da justia.

    Anunciar a Novidade de forma clara, coerente e precisa fator que nos irradia e reaviva o prprio cristianismo, pois a raiz da f crist est plantada sobre a prpria vivncia comunitria. Assim, podemos dizer que nossa evangelizao deve seguir os pressupostos bsicos para que os evangelizados experimentem esse sentimento de pertena comunidade e se sintam parte da mesma, e esse sentimento apenas ser criado com o despertar do prprio amor. Em muitos ambientes e coraes, neste incio de milnio, vale a dimenso do indivduo, sem compromisso com uma instituio ou vida de comunidade. Assim, cria-se um sujeito cheio de necessidades e direitos, mas sem responsabilidades e deveres. Da mesma forma, a religio do indivduo busca solues imediatas; vive de prticas sem convices; arrebanha, mas no une; satisfaz, mas no sustenta. Na religio do indivduo, cada um encontra motivaes e legitimao para a sua f dentro de si mesmo, desconsiderando o outro como caminho para Deus. Nessa perspectiva individualista, no h vida para o cristianismo nem futuro para a comunidade crist. Quando lemos o livro dos Atos dos Apstolos, compreendemos logo o valor da vida de comunidade para a vivncia dos valores cristos. No existe cristianismo sem comunidade, nem cristo isolado, solitrio, s. As primeiras comunidades crists so os frutos concretos da Palavra de Jesus.

    Nossa resposta, ento, a comunidade autnoma, uma comunidade proftica em meio a esse mundo aptico. Fazer brotar o desejo de construo dessa comunidade, tendo como base a fora do amor, nossa tarefa como homens e mulheres que evangelizam por meio da educao, na busca de perseguirmos um bem comum, o bem da comunho, que garanta a todos e a todas dignas condies sociais, culturais e espirituais, para que vivam a plenitude da pessoa humana.

    Finalizando, tomamos a liberdade de parafrasear o grande autor Mrio Quintana, dizendo que o amor no mudar o mundo, o amor mudar as pessoas, e as pessoas mudaro o mundo. Educar para o protagonismo e evangelizar para a comunidade fazer com que se cumpra nossa misso de educar crianas e jovens para a construo de um mundo mais fraterno, justo e solidrio.

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  • REFERNCIAS:

    CNBB. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferncia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Braslia: Paulus e Paulinas, 2007.

    CONIC. Campanha da Fraternidade Ecumnica 2010: Texto-base. Braslia: Edies CNBB, 2009.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessrios prtica educativa. So Paulo: Paz e Terra, 1996.

    THEISSEN, Gerd. A religio dos primeiros cristos: uma teoria do cristianismo primitivo. Traduo por: Paulo Valrio. So Paulo: Paulinas, 2009.

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  • A AO EVANGELIZADORA NA SOCIEDADE CONTEMPORNEA

    EM UMA ESCOLA MARISTA1

    Aluno: Sandro Roberto de Santana Gomes2

    Orientador: Hudson Silva Rodrigues3

    RESUMO

    O presente artigo discute o processo de evangelizao e sua articulao com a educao. Partindo dos textos de estudo do curso Escola em Pastoral, somos desafiados a olhar nossa prtica e esboar linhas metodolgicas que possibilitem prticas dialgicas capazes de fornecer referncias significativas para os adolescentes e jovens de nossas unidades educativas. Jesus, o bom samaritano, o modelo escolhido para essa reconstruo metodolgica. Ele se pe a servio daqueles que perderam sua dignidade e esto jogados nas vias da histria.

    PALAVRAS-CHAVE: Pastoral. Evangelizao. Metodologia. Mstica. Educao. Espiritualidade marista.

    1. INTRODUO

    Este artigo pretende discutir as prticas pastorais e as aes evangelizadoras em nossas comunidades educativas, inseridas em uma sociedade que constantemente passa por inmeros processos de transformao e nas quais os agentes da ao pastoral necessitam de uma caixa de ferramentas adequada s demandas da atualidade.

    Pela contemplao da realidade pastoral, somos desafiados a construir referenciais com posturas inovadoras que consolidem nosso projeto de educar e evangelizar. Com serenidade e entusiasmo, seguimos os passos de Champagnat, assumindo em nosso dia a dia a proposta de Jesus Cristo. O cuidado com as coisas do Pai era a sua grande preocupao; tambm ns, colaboradores e entusiastas do Reino, somos chamados a dar uma resposta de amor e compromisso.

    A realidade educacional extremamente desafiante e desafiadora. Ela nos convida a ler e reler nossas teorias e prticas,

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 Sandro Roberto de Santana Gomes formado emfilosofia pela UNICAP-PE, ps-graduado emMetodologia doEReMestreemCinciasdaReligio.Atualmente,coordenadordaPastoraldoColgioMaristaSoLus.Assessorpopularnascomunidadesdebairronareadecatequese,EnsinoReligioso,espiritualidadeeBblia.3 Telogo, Licenciado em Lngua Portuguesa pelaFaculdadedaTerradeBrasliaFTB,EspecialistaemEnsinoReligioso pela Universidade Catlica de Braslia e Analistade Pastoral da Coordenao de Evangelizao e Pastoral daProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.

    buscando novos paradigmas e novas interpretaes para o saber. A postura tica no campo educacional nos ajuda a olhar para a realidade com reverncia. fcil falar em tica, fcil exigir tica dos outros, porm difcil ter um comportamento tico, agir com responsabilidade e compromisso social, no exerccio cotidiano, quando se est inserido em um sistema que, por sua prpria natureza, antitico, vive da explorao humana.

    Por tudo isso, a pastoral no interior de nossas unidades educativas ser desafiada a ser farol, a indicar novas luzes em meio a tantas neblinas. Acreditamos que a melhor luz a indicar o caminho o testemunho de fraternidade e de amor que orienta nossas prticas. Somente assim, poderemos olhar para a realidade e apresentar pistas de superao aos desafios que nos so impostos.

    2. SOCIEDADE EM MUDANA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS

    A palavra no uma coisa que se diz, um rito que se vive. Ela no , ou no devia ser, apenas uma condutora de informaes. Ela , ou deveria ser, um gesto cotidiano de criao. 4

    A humanidade, ao longo de sua histria, passou por uma srie de estgios, e estes favoreceram, de forma significativa, a mudana do prprio ser humano, assim como da sua cultura e seus costumes, logo tambm mudou a sua tica e seus valores.

    Nesse contexto, a realidade atual, a era da globalizao enfrentou desafios e problemas ocasionados pelas novas variveis que surgiram no sistema, seja a globalizao do individualismo, a hegemonia do econmico e da propriedade privada, ou o choque de civilizaes, culturas e costumes, ocasionado pelas movimentaes humanas no planeta e o processo de empobrecimento de uma grande massa da sociedade, em que pobres se tornam cada vez mais pobres e ricos acumulam cada vez mais riquezas.

    Todos esses casos desafiam o comportamento tico, a responsabilidade social e o exerccio profissional de nossa ao pastoral, e, de modo especfico, no campo educacional, na atualidade, pois impe a necessidade de escolher entre o humano e o lucro, entre o certo e o rentvel etc.

    Esses so os dilemas impostos por um sistema que, por sua prpria natureza, antitico, pois vive da explorao humana, da apropriao de recursos pblicos e da privatizao de conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo de sua histria.

    A sociedade contempornea assiste com perplexidade a um tempo de mudanas significativas. Comportamentos, atitudes, valores so constantemente colocados em xeque por demandas que vo alm dos nossos anseios. O ser humano contemporneo , acima de tudo, um ser que vive mergulhado na expectativa. Nossa sociedade mantm aceso o desejo de consumo, criando, a todo instante, novas necessidades.

    Somos seduzidos pelos olhos por uma enxurrada de coisas que aparentemente preencheriam nossa vida de conforto e satisfao. O hedonismo e a busca do bem-estar

    4 ANTNIO,Severino.Educao e transdisciplinaridade:criseereencantamentodaaprendizagem.ColeoEducaoetransdisciplinaridade.V.1.RiodeJaneiro:EditoraLucerna,2002.p.13.

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  • econmico so metas que a maioria das pessoas procuram em nome de uma suposta realizao pessoal. Ilusoriamente, procuramos a felicidade nas coisas que passam e nos apegamos a desejos instantneos e superficiais.

    Cresce entre ns a lgica do pragmatismo individualista, em que o ter sobrepe o ser. O imediatismo e o narcisismo criam a iluso de liberdade e igualdade. Essa cultura de morte contagia a todos com sua proposta esvaziada de sentido.

    Por outro lado, sabemos que a busca pela felicidade, pela realizao pessoal, pela satisfao de nossas necessidades aspirao legtima e crist, contudo vale ressaltar que essa busca precisa ser orientada por valores cristos e humansticos, e no pelo individualismo e pelo egosmo.

    A Igreja na Amrica Latina nos desafia a ser discpulos e missionrios; assim, procuraremos encarnar o Evangelho de Jesus Cristo em todas as instncias em que nos encontrarmos. Esse desafio fundamental orientado pela prtica e pela misso libertadora do Divino Mestre. Conquistar o corao dos homens e mulheres do nosso tempo a grande meta dos que assumem o compromisso evangelizador.

    A evangelizao da cidade exige uma nova metodologia, pois, em meio ao pluralismo de experincias e de expresses, os indivduos possuem uma multiplicidade de opes. A escolha pela Boa Nova de Jesus Cristo deve ser uma opo clara e empolgante para os homens e mulheres do nosso tempo.

    2.1 Mtodos evangelizadores e a metodologia de Jesus.

    Recria as concepes e as prticas do ensinar e do aprender: assume a atitude multidisciplinar e a interdisciplinar, e vai ainda alm: conjuga o que existe de convergncia e interao nas disciplinas entre elas e para alm delas. No apenas um novo mtodo, mas uma nova concepo. 5

    Hoje se faz necessria a superao de mtodos evangelizadores centrados num clericalismo exclusivista. Em muitas comunidades, a figura do padre est no centro de todas as atividades pastorais. Nada acontece sem sua presena e a comunidade no consegue caminhar com os prprios ps. Essa centralizao atrofia as aes e, muitas vezes, inibe o protagonismo dos membros da comunidade. A misso evangelizadora fica a cargo dos ministros ordenados, e os leigos so apenas auxiliares nessa tarefa.

    Outro mtodo de evangelizao que precisa ser superado aquele centrado nos sacramentos. A catequese fica quase que exclusivamente ocupada com a preparao para os sacramentos de iniciao, esquecendo-se de que o mais importante o processo de evangelizao e converso do ser humano e de sua adeso proposta de Jesus Cristo, cujo nico interesse o de fazer valer a vontade de Deus.

    Por tudo isso se faz necessria uma definio de pastoral que nos ajude a descobrir mtodos adequados para que nossa ao possa conquistar o corao das pessoas:

    o ministrio da Igreja, povo de Deus, que, sob o impulso do Esprito Santo, atualiza a prxis evangelizadora de Jesus, voltada para a autoedificao dela mesma e para a expanso

    5 ANTNIO,Severino.p.28.

    do Reino de Deus no mundo. 6

    Essa delimitao da ao pastoral nos leva a descobrir uma nova metodologia que nos ajude fazer a experincia do ressuscitado7. O mestre se aproxima daqueles que caminham nas estradas da vida. Partilha com eles as desiluses, as tristezas, os medos e as incertezas. Silenciosamente, Jesus entra no nosso caminho e se faz caminheiro.

    Por isso, o primeiro passo metodolgico aproximar-nos das pessoas. Entrar no caminho, fazer a experincia que elas esto fazendo. Ouvir atentamente suas angstias, seus conflitos, suas dvidas e inquietaes. Essa escuta demorada possibilita uma compreenso dos desafios que a realidade impe e, ao mesmo tempo, ajuda-nos a entrar na lgica daqueles que caminham conosco.

    Na metodologia de Jesus, o questionamento sobre as causas de tanta tristeza, de tanta dor, de tanta desiluso ocupa lugar significativo. Ele no fica calado, questiona, quer saber o porqu, deseja descobrir as razes dos problemas que angustiam os coraes dos caminhantes.

    Hoje esse itinerrio parece cheio de luzes, entretanto caminhamos com inmeras dvidas. Nossos olhos no veem e no conseguimos fazer uma profunda experincia com Jesus. Nossas palavras esto repletas de dor, de solido, de medo. Mais uma vez, necessria a palavra do Divino Mestre. Ela nos faz recordar todo o itinerrio de f dos homens e mulheres do passado. Relendo os acontecimentos, ajuda-nos a perceber que o plano de amor de Deus se realiza apesar de nossas contradies. Essas palavras servem para aquecer o corao, animam nosso esprito para enfrentar os desafios que o cotidiano nos apresenta a cada instante.

    Na metodologia de Jesus, a palavra ocupa lugar significativo, oferece os instrumentos tericos que nortearam a caminhada dos discpulos e missionrios. preciso formar as pessoas; a formao permanente dos agentes da evangelizao no pode ser negligenciada. A palavra de ordem competncia. No texto de Lucas, Jesus no foi seletivo; ele ofereceu todo o contedo lei e os profetas , pois, relendo os textos do passado, novas veredas podem ser vistas.

    Vale pena ressaltar que a palavra por si s no transforma, no liberta, no abre os olhos. necessrio algo mais, preciso entrar na intimidade, entrar na vida das pessoas, sentar-se mesa, partilhar o po, a refeio. Nesse momento, os olhos se abrem, eles reconhecem o peregrino que caminhava com eles. noite; limitados pela pouca luz, redescobrem a grande luz que servir de farol para toda a vida. Se, no inicio da caminhada, era luz por fora e trevas por dentro, agora, como fruto dessa experincia com o ressuscitado, so trevas por fora e luz por dentro. Eles podem caminhar com os prprios ps. Seu protagonismo foi restabelecido por uma profunda intimidade com Jesus ressuscitado.

    Os jovens so atrados por essa espiritualidade da simplicidade. As imagens que lhes oferecemos de Deus, bem como a linguagem, os exemplos e os simbolismos que empregamos, so tocantes e acessveis. Quanto mais nossa evangelizao e nossa catequese

    6 FUENTES,SalvadorValadez.Espiritualidade Pastoralcomosuperarumapastoralsemalma?.Trad.CristianaPaixoLopes.SoPaulo:Paulinas,2008.p.20.7 C.f.Lc24OsdiscpulosdeEmas.Estetextoilustrativodoevangelistanosoferecepistassignificativasparapensarametodologiapastoral.

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  • forem inspiradas pela espiritualidade marista, mais eficazes sero. 8

    Servio, testemunho, anncio proftico e dilogo ganham nova fora pela presena inquietante daqueles que assumem o projeto libertador de Jesus Cristo. Nesse momento, o esprito de famlia do jeito de Maria, pela simplicidade, torna-se referencial concreto para nossa misso evangelizadora.

    3 AO EDUCATIVA DO BOM SAMARITANO

    Seguindo Marcelino Champagnat, buscamos ser apstolos da juventude, evangelizando pelo testemunho das nossas vidas e pela nossa presena junto s crianas e aos jovens, bem como pelo nosso ensino: nem s catequistas, tampouco apenas professores das diversas disciplinas escolares.

    Educar bons cristos e virtuosos cidados, eis a misso e a finalidade da escola marista. A educao um meio eficaz de evangelizar e essa tarefa deve ser assumida em sua radicalidade por aqueles que se propem a ensinar seguindo os passos de Marcelino.

    Neste caminho, encontramos algumas setas bastante significativas. Elas nos ajudam a seguir, com passos firmes, na direo daquilo que desejamos construir. A simplicidade nas aes, a humildade nos gestos e a modstia no uso das palavras asseguram, a todos ns, uma postura confivel neste caminho.

    Marcelino, sensvel realidade do ser humano, conseguiu perceber o homem cado na sarjeta do mundo. Ele quis oferecer um novo alento para aqueles que tiveram suas esperanas roubadas. O jovem moribundo retrato de uma juventude esquecida e abandonada.

    Os seguidores de Champagnat precisam perceber que o homem que desce na estrada de Jeric o retrato da humanidade que a todo instante entra num processo de decadncia diante de tantos obstculos (intolerncia, violncia, corrupo, etc.). Perdendo a sua humanidade, ele cai nas mos daqueles que lhe roubam a dignidade e o respeito; ele perde tudo: sonhos, esperanas, utopias...

    A gesto recebe uma fora transformadora e libertadora, quando consolida aes que promovem o humano em sua totalidade. Dessa forma, a promoo de valores ticos, o desenvolvimento de uma conscincia de participao e o compromisso social ressoam nos coraes e mentes da comunidade educativa. Nesse momento, a indiferena deve dar lugar ao engajamento que promove a vida e a dignidade, nosso olhar no pode deixar de enxergar a realidade de sofrimento e tristeza que nos circunda.

    Observa-se que o ser humano parece quase morto no caminho da histria, no consegue enxergar a beleza da vida, perde as referncias que lhe do sentido. Nesse caminho, trafegam homens que deveriam aliviar suas dores. A palavra da cincia e a palavra da f trilham o caminho desse homem cado beira da estrada. Parece que nenhuma delas foi capaz de estender-lhe a mo e resgat-lo.

    Perdido, sozinho, machucado, ele sofre e agoniza espera de algo que lhe devolva a esperana. Em sua montaria, o bom peregrino olha o sofrimento e se compadece (sente o sofrimento

    8 GUADAROCHA:EspiritualidadeMaristafluindonatradiodeMarcelinoChampagnat,n.35,p.34.

    do outro), desce de sua montaria (vai ao encontro e se coloca no mesmo nvel) e promove o verdadeiro encontro. Descer aqui colocar-se no mesmo nvel, ir ao encontro do outro, onde ele estiver.

    Nossa misso educativa precisa fazer esse roteiro para compreender o outro no lugar onde ele est. Para que isso acontea, faz-se necessrio um exerccio de humildade e competncia para que possamos construir um caminho de resgate da vida; descer para ficar ao lado, sem perder, porm, a capacidade de cuidar, promover e estancar as feridas abertas.

    O documento de Aparecida nos convida a fazer uma experincia profunda de encontro com o Cristo. Hoje, somos tentados a construir teorias e ideias a respeito do Senhor, porm o verdadeiro encontro com Ele se realiza no encontro pessoal com a pessoa e o projeto de Jesus Cristo, o que foi feito de forma muito significativa por Marcelino.

    A prpria natureza do cristianismo consiste, portanto, em reconhecer a presena de Jesus Cristo e segui-lo. Essa foi a maravilhosa experincia daqueles primeiros discpulos que, encontrando Jesus, ficaram fascinados e cheios de assombro frente excepcionalidade de quem lhes falava, diante da maneira como os tratava, coincidindo com a fome e sede de vida que havia em seus coraes. 9

    No basta cuidar das feridas, preciso conduzir a humanidade cada e ferida para a hospedagem, garantir-lhe a proteo e o abrigo necessrio para que ela possa redescobrir a beleza da vida. O bom samaritano Jesus dispe de sua montaria para conduzir-nos a uma nova realidade. Ele predispe sua vida para que tenhamos vida, e vida em abundncia.

    A escola precisa ser essa montaria, o meio pelo qual a humanidade conduzida para a proteo e o abrigo que a sua Igreja. Essa montaria segura nos fornece todo o suporte para enfrentarmos os perigos do caminho, pois ela que conduz nossos passos.

    Chegando hospedagem, a exemplo do bom samaritano, o discpulo precisa garantir a continuidade desse processo de cuidado. Cuidado que significa ateno, carinho, respeito, tolerncia, amor. na Igreja, comunidade de amor e fraternidade, que a humanidade ferida encontra o verdadeiro tratamento para suas dores existenciais. A Igreja no lugar de fuga ou de alienao, mas de reencontro de sua identidade, como afirma o documento de Aparecida:

    Jesus est presente em meio a uma comunidade viva na f e no amor fraterno. A Ele cumpre sua promessa: onde esto dois ou trs reunidos em meu nome, a estou eu no meio deles (Mt18, 20). Ele est em todos os discpulos que procuram fazer sua a existncia de Jesus, e viver sua prpria vida escondida na vida de Cristo (cf. Cl 3,3). Eles experimentam a fora da ressurreio de Cristo at se identificar profundamente com Ele: J no vivo eu, mas Cristo que vive em mim (Gl2, 20). 10

    A comunidade o lugar do encontro, da cura, da vida. A alegria de vivermos como irmos foi a grande descoberta de Marcelino; irmos que partilham a vida, trabalham juntos, comungam dos mesmos sonhos, alimentam os mesmos projetos e acreditam que so capazes de ressignificar a vida pela presena ainda hoje

    9 DocumentodeAparecida,n.244.p.11410 DocumentodeAparecida,n.256,p.119.

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  • ressoam nos coraes daqueles que acreditam em seu projeto de amor.

    Quando nossas comunidades educativas se transformarem na hospedagem para a qual o Senhor conduz a humanidade cada, elas se tornaro espao privilegiado de encontro, sem negligenciar a competncia e a excelncia acadmica, mas profundamente comprometidas com a vida, consolidando o grande projeto de construir coraes novos para um mundo novo. Que Marcelino, seguindo os passos de Jesus, ajude-nos a ir ao encontro das juventudes, com um olhar terno e atento para os desafios que a vida continuamente nos apresenta.

    4. METODOLOGIA A MSTICA DO DISCPULO MISSIONRIO

    Para compreendermos essa afirmao, importante buscarmos o sentido da palavra metodologia. Mtodo, palavra de origem grega methodos, met hodos, que significa, literalmente, caminho para chegar a um fim. O caminho a proposta inicial que motivou os discpulos de Jesus a realizarem seu projeto. Essa disposio inicial vitalizava a misso e possibilitava um testemunho eficaz e transformador da realidade. Diante de tudo isso, precisamos ter conscincia de que a prtica pastoral costuma ser um mero lugar de aterrissagem de uma teoria ou de uma ortodoxia previamente estabelecida. 11 Esse o grande desafio que a prtica pastoral precisa superar em sua ao. Ela precisa ser ponto de partida e, ao mesmo tempo, processo de fortalecimento de vivncias que ressignifiquem o nosso pensar, o nosso falar e o nosso agir.

    Diante disso, o discpulo missionrio convidado a caminhar em direo do novo, com a disposio daquele que descobriu a encantadora novidade da mensagem de Jesus Cristo. Ele predispe sua vida a fazer um itinerrio de f e de amor na histria e, dessa forma, transforma seu conhecimento num saber contextualizado. No mera utopia, no mera iluso. O projeto pastoral, assumido como discipulado, condio para a construo do Reino de Deus, que se realiza no tempo e se prolonga na eternidade.

    Sabemos que nossos esforos no do conta de realizar plenamente esse projeto; contamos sempre com a graa de Deus, que, em seu tempo, realiza em ns sua vontade de amor. Somos servos inteis, conscientes de nossas limitaes e, ao mesmo tempo, dispostos a construir esse projeto de amor. importante lembrar que a ao pastoral, enquanto ao humana no Esprito segundo o Evangelho, no puro empirismo ou pragmatismo pastoral. sempre uma ao pensada, ainda que de maneira precria e insuficiente. Portanto est apoiada em razes, nos fundamentos da f, consciente ou inconscientemente. 12. Planejamento, estratgias e disposio em caminhar devem ser os meios eficazes para fazer acontecer em nossas prticas os sinais do Reino. urgente e necessria a consolidao da misso em nossas unidades, por isso precisamos romper com o amadorismo, com a improvisao, com a acomodao. o prprio Jesus que nos convida a qualificar nossas prticas pastorais. Ele o pastor que conhece e d a vida pelas ovelhas.

    4.1 Uma palavra que faz ecoar.

    O humano, com todas as suas contradies e com todas as suas

    11 BRIGHENTI,Agenor.Apastoraldoquepensar:aintelignciadaprticatransformadoradaf.p.17.12 BRIGHENTI,Agenor.p.18.

    possibilidades, o terreno frtil onde a palavra pode encontrar abrigo, qual em terra boa, e, ao mesmo tempo, pode transformar-se em solo infrutfero, rido ou repleto de pedregulhos, onde a semente nada produz e morre. Diante disso, a prtica pastoral necessita de uma ao inteligente e competente que possibilite aos seus interlocutores visualizar caminhos possveis e viveis para chegar ao corao das pessoas e aos seus anseios.

    A pastoral o lugar onde o processo evangelizador ganha novo vigor pela presena dos agentes que revitalizam suas aes a partir da leitura e releitura da palavra de Deus. A misso, assumida pela presena proftica, pela reverncia sacerdotal e pela dignidade real, impressa nos coraes dos batizados, imprime renovado ardor e profundo entusiasmo queles que se propem a seguir os ensinamentos e as prticas do Divino Pastor e Mestre. O amor caritas a fora extraordinria que impele as pessoas a se comprometerem com coragem e generosidade no campo da justia e da paz. 13 Com essa afirmao nos sentimos impelidos a transformar nossos planejamentos em prticas de solidariedade e, ao mesmo tempo, a nos empenhar em favorecer testemunhos capazes de sensibilizar crianas, adolescentes e jovens ao compromisso com os insignificantes de nossa sociedade, os sem voz e sem vez que nossa sociedade empobreceu e excluiu, em nome do consumismo, do individualismo e da ganncia. Somente o amor solidrio ser capaz de romper com essa lgica cruel do capital.

    Ao nos afirmar que a caridade a via mestra da doutrina social da Igreja 14, o Papa Bento XVI nos convida a refletir sobre nossa responsabilidade e compromisso em fazer acontecer, no mundo e nas sociedades, o projeto de Jesus Cristo, por meio de um engajamento cada vez mais inovador e transformador das relaes.

    A Pastoral, para ser proftica, precisa revisitar a pedagogia do Amor ensinada por Jesus Cristo, que assume, at as ltimas consequncias, a defesa da vida e da dignidade de todo ser humano e do humano em sua plenitude. Essa pedagogia nos inspira, at hoje, a reinventar nossa presena no meio educativo por meio de nossa presena.

    As teses desenvolvidas no texto nos ajudaram a perceber a importncia de nossa ao pastoral no cotidiano escolar e so como indicativos do processo que precisa ser desenvolvido em nosso dia a dia, com vistas a um maior engajamento. Sabemos que no podemos fazer tudo, entretanto o possvel precisa ser viabilizado com planejamento e competncia; no podemos negligenciar nossa ao, pois o projeto de Jesus Cristo exigente.

    5. CONSIDERAES FINAIS

    Depois de apresentados esses fatos e questes que desafiam a nossa prtica pastoral, as perguntas inevitveis so: Qual a sada? Que caminhos trilhar?

    Contra o individualismo, o antdoto a pastoral do consenso, que abre caminho para o verdadeiro dilogo, por isso a busca do consenso, do entendimento, da disposio dialgica se torna uma caracterstica prpria da autorrealizao, sem sufocar a realizao de outros, mas, ao contrrio, com a verificao de que possvel a convivncia entre as autorrealizaes dos indivduos que mutuamente se sustentam em convvio.

    A pastoral do consenso projeta-se para a universalidade, porque garante a convivncia do diferente e permite a sua progresso cultural, e no aniquilatria, fazendo das diferenas intersubjetivas pontos favorveis para o crescimento do que

    13 BENTOXVI.Caritas in veritate,p.7.14 BENTOXVI.Caritas in veritate,p.7.

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  • comum a todos.

    preciso abrir espao para a afetividade, para o acolhimento, para a sensibilidade. Nossa pastoral ser cada vez mais comprometida com o projeto de Jesus Cristo medida que nos comprometermos com as pessoas em sua individualidade, superando os individualismos, o egosmo e a prepotncia.

    Olhando as pessoas que, no caminho da histria, muitas vezes esto cadas e sem esperana, precisamos ser os bons samaritanos, disponveis e atentos, para mudarmos o caminho de nossos projetos e nos adequarmos s necessidades daqueles que l esto. Que Maria, a Boa Me, ajude-nos neste propsito e nos ajude a ser fiis ao sonho do eterno caminheiro e peregrino Jesus.

    6. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    ANTNIO, Severino. Educao e Transdisciplinaridade: crise e reencantamento da aprendizagem. Coleo Educao e transdisciplinaridade. V. 1. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002.

    GUA da rocha: espiritualidade Marista fluindo na tradio de Marcelino Champagnat. Instituto dos Irmos Maristas. Casa Generalcia Roma, 2007.

    BENTO XVI, Papa. Carta Encclica Caritas in Veritate. So Paulo: Paulinas, 2009.

    BRIGHENTI, Agenor. A pastoral d o que pensar: a inteligncia da prtica transformadora da f. So Paulo: Paulinas, 2006.

    CONFERNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE, 5. Documento de Aparecida. 2. ed. So Paulo: Paulinas, 2007.

    FUENTES, Salvador Valadez. Espiritualidade Pastoral como superar uma pastoral sem alma? Traduo por Cristiana Paixo Lopes. So Paulo: Paulinas, 2008.

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  • A FORMAO E O PERFIL DO EDUCADOR MARISTA PARA UMA

    ESCOLA EM PASTORAL 1

    Autor: Valdeci Vieira Borges2

    Orientador: Aldemir Incio Azevedo3

    RESUMO

    O presente trabalho objetiva realizar um estudo acerca da realidade da formao e do perfil do educador em uma Escola em Pastoral, mais especificamente do educador marista. No decorrer da sua docncia, esse educador vai adquirindo conhecimentos sobre seu desenvolvimento, contedo, metodologia, didtica e modo como se cultivam e trabalham as relaes em classe, extraclasse e no ambiente educacional e pastoral, em coerncia com o que proposto. Segue, ainda, analisando e apontando os desafios e as possibilidades de mudanas, bem como suas possveis consequncias e transformaes no meio em que atua, em vista de sua importncia e valorizao como ser envolvido num processo de religiosidade e de religio. , principalmente, nesse espao que se desenvolvem capacidades de aprendizagens, visando as partilhas, as relaes, os conhecimentos, as habilidades e a formao de valores e atitudes, que so muito importantes para a vida de todos, pois se trata do respeito diferena do outro. Laos de afetividade, solidariedade e tolerncia da vida em sociedade sero fortalecidos, e o respeito para com o fenmeno religioso e para com a opo particular de cada ser ser praticado e vivenciado cada vez mais, sem empecilho para a escola Marista trabalhar a sua prpria identidade. Nesse contexto, reflete-se tambm sobre a presena e a concepo da proposta de evangelizao no meio educacional.

    PALAVRAS-CHAVE: Formao, perfil, educador, respeito, cidadania.

    INTRODUO

    126. Um Colgio Marista um centro de aprendizagem, de vida e de evangelizao. Como instituio escolar, leva os educandos a aprenderem a aprender, a fazer, a conviver e, principalmente, a ser. Como Escola Catlica, uma comunidade em que f, esperana e amor so vividos e comunicados, e na qual os educandos, progressivamente, so iniciados no permanente desafio de harmonizar f, cultura e vida. Como Escola Catlica de tradio marista, adota a abordagem educativa de Marcelino Champagnat para a educao das crianas e dos jovens, do jeito de Maria. (MEM Misso

    1 ArtigoapresentadocomorequisitoparaconclusodeCursodeExtensoEscolaemPastoralpromovidopelaProvnciaMaristaBrasilCentro-NorteemparceriacomaPUC-PR.2 LicenciadoemFilosofia,BacharelemTeologiaePs-graduadoemEnsinoReligioso.CoordenadordePastoraldoColgioMaristadeGoinia-ProvnciaMaristaBrasilCentro-Norte.3 TelogopeloInstitutoMaristadeCinciasHumanas-IMACH,GraduadoemCinciasSociais,MestreemDesenvolvimentoSocialeDoutorandoemDesenvolvimentoSustentvel.

    Educativa Marista, p. 57).

    A atual sociedade reconhece a escola como um instrumento e lugar privilegiado de educao onde so trabalhadas todas as dimenses do ser humano, a formao de valores e princpios que formam o cidado integrado no mundo atual, descobridor de valores para o seu existir e de meios para a transformao interior e exterior. Na escola Marista, bero de formao da e para a humanidade, harmonizando f, cultura e vida4, no diferente, esse um espao que promove a oportunidade de partilha, encontro e desenvolvimento integral, inclusive da espiritualidade, das crianas, dos adolescentes e jovens.

    As escolas Maristas tm sua misso voltada para a do seu fundador, Champagnat. Para Marcelino Champagnat, o ncleo da Misso fazer Jesus Cristo conhecido e amado.5 Ele considerava a educao como um meio para levar as crianas e os jovens experincia de f pessoal e de faz-los bons cristos e virtuosos cidados.6(MEM, p. 39). Nessa coerncia da formao crist, as escolas Maristas se tornam escolas em pastoral. Entendendo melhor, o vocbulo pastoral origina-se de Pastor, ideia que o evangelista Joo emprega para caracterizar Jesus e suas atitudes. Nesse sentido, pastoral trabalho articulado e ao planejada dos seguidores de Jesus para responder em favor da vida plena nos vrios setores sociais e suas conjunturas. Rodinei Balbinot, na aula 5, Leitura Selecionada, p. 1, Curso Escola em Pastoral, completa: A pastoral est entre os modos de ao que somente se realizam entre seres humanos.7 Esse servio, principalmente no meio educacional, na escola em pastoral, precisa ser de formato integralmente dialogal. Reforando esse argumento, Agenor Brighenti, na aula 3, p. 6, do Curso Escola em Pastoral, descreve: a atitude mais coerente de um Evangelho (...) o dilogo com a nova civilizao emergente, o dilogo ecumnico e macroecumnico, inter-religioso.8 Sendo assim, estamos buscando a elevao do desenvolvimento humano e social dos nossos educadores, funcionrios, alunos e da comunidade como um todo, cooperando para a formao espiritual, tica, solidria e cidad de pessoas inseridas e engajadas na transformao social por meio do processo da evangelizao. A Pastoral, sendo presena viva da proposta do Evangelho na escola em pastoral, torna-se servio a todos e, principalmente, aos mais excludos e necessitados, na perspectiva da opo preferencial pelos pobres. Revela-se numa atitude de recproco aprendizado e colaborao, testemunho de vida e anncio da mensagem crist, com abertura ecumnica e inter-religiosa, em vista da construo de uma evangelizao mais inculturada e um novo mundo aqui e agora.

    Nesse contexto, necessrio trabalhar a formao e o perfil do profissional marista, capacitando-o para os desafios que se apresentam. A responsabilidade do educador marista est em desenvolver o ensino-aprendizagem e propiciar o desenvolvimento dos educandos, abraando to nobre profisso, que uma verdadeira misso, e desenvolvendo, no meio escolar, um esprito de religiosidade, de cidadania e solidariedade.

    Percebe-se que o dilogo inter-religioso o centro das relaes no meio educacional. A escola, principalmente a Marista, um centro de convivncia, levando em conta que os alunos passam

    4 MEM.Misso Educativa Marista,p.57.5 Constituies,2;Vida,p.312,458.6 Cf.Guide des coles,p.11-13;Vida,p.498.7 NcleoMaristadeEducaoaDistncia,EscolaemPastoral,Mdulo3,aula5,LeituraSelecionada,p.1.8 NcleoMaristadeEducaoaDistncia,EscolaemPastoral,Mdulo1,aula5,LeituraSelecionada,p.6.

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  • ali uma boa parte do seu tempo e de sua vida. nela que cada estudante se manifesta como um todo, com sua individualidade e coletividade, como seres inseridos numa sociedade pluralista e que trazem suas realidades para a convivncia comum.

    Nos ltimos anos, perceptvel o esforo e os avanos da instituio na busca de abertura e prtica voltada para o pluralismo. A Escola em Pastoral tambm objetiva a educao do cidado, da dimenso da religiosidade do ser humano para uma dimenso pessoal e social com abertura ao Transcendente. Valoriza o pluralismo e a diversidade cultural existentes em nosso meio, alimentando a tolerncia, o respeito ao diferente, e incentivando o dilogo inter-religioso, a vivncia tica e de valores na sociedade. Isso acontece numa relao altamente produtiva de comprometimento com seus propsitos educacionais, mantendo uma excelente prestao de servio comunidade educativa em todos os nveis.

    Diante da grande importncia do trabalho pastoral no ambiente escolar, faz-se necessrio priorizar a formao e o perfil do educador marista como construtor de relaes saudveis e como fonte formadora e integradora na formao do cidado em uma dimenso pedaggica. Esses processos educativos, de uma escola em pastoral, que confirmam as aes pastorais humanizadoras, esto alicerados na construo da humanizao na educao, no nosso meio educacional. Cabe somente ao ser humano, tambm ao educador marista, a transformao do mundo e, consequentemente, o tornar-se o protagonista de sua prpria histria e de seu prprio universo. O ser humano/educador, que realiza os processos educativos, o intermedirio entre o conhecimento e o educando, com o objetivo de modificar a sociedade em que esto inseridos, por meio de uma leitura crtica e transformadora da realidade, e tambm por meio de aes evanglicas e evangelizadoras que trazem comprometimentos com o prximo. No entendimento cristo, o nosso prximo no est restrito nossa famlia, nossas amizades, nossa raa. Nosso prximo todo aquele que necessita de assistncia e a quem podemos auxiliar. A verdadeira religio a prtica concreta do amor. acreditar fazendo. viver aquilo em que se acredita aqui e agora. justamente por esse caminho que devem passar os processos educativos para a confirmao da ao pastoral humanizadora no meio educacional e por meio do educador marista. Paulo Freire diz: No se pode encarar a educao a no ser como um fazer humano. Que fazer, portanto, que ocorre no tempo e no espao, entre os homens uns com os outros. 9.

    1. A FORMAO E O PERFIL DO EDUCADOR MARISTA

    Ao refletir sobre a formao e o perfil do educador marista na nossa atual sociedade e em atuao em uma escola em pastoral, importante lembrar que a capacitao desse profissional, em nossa realidade, bastante desafiadora e, ao mesmo tempo, aponta vestgios de esperana. Existem, em nosso pas, vrias iniciativas que possibilitam a esse profissional acesso formao na rea de pastoral e crescimento em sua competncia. A formao nessa rea precisa ter mais prioridade e um desafio contnuo. Vrias instituies, principalmente as religiosas, que trabalham com o ensino confessional, oferecem e organizam cursos, alguns mais especficos e outros mais complexos e abrangentes, possibilitando o desenvolvimento do agente de pastoral. A fecundidade e a habilidade desses cursos de interferir na mentalidade e na cultura dos educadores e educandos em uma escola em pastoral depende da preparao

    9 PROJETOMEMRIA(2007)PauloFreire.

    e da contnua atualizao dos profissionais da rea, da convico interior e da paixo educativa que os anima. Nesse aspecto, quem nos esclarece Rosa Gitana:

    Este profissional, para atuar no conjunto de foras sociais, culturais, legais e pedaggicas que demarca o momento da ps-modernidade precisa ser olhado pela prpria gesto da escola como algum que necessita ser permanente e competentemente capacitado. H que se criar momentos e espaos especficos de educao dos professores a fim de que eles estejam habilitados ao difcil exerccio da docncia complexa. (ENSINO RELIGIOSO E SUA RELAO PEDAGGICA, 2002, p. 47).

    Aprofundando o conhecimento sobre o perfil do educador marista, perceptvel que a implicao tica mais imediata a sua responsabilidade diante da vida de seus educandos. Esse ser atuante deve, antes de tudo, perceber que crianas e jovens esto ali para aprender com as principais experincias acumuladas pela humanidade e desenvolver seus talentos pessoais (cognitivos, emocionais, fsicos, motores, expressivos, espirituais etc.). A responsabilidade desse educador est em realizar corretamente o ensino-aprendizagem e propiciar o desenvolvimento integral dos educandos.

    Algo que precisa ser tambm marcante no perfil desse profissional a capacidade de lidar com as diferenas no meio educacional em pastoral, entre os prprios colegas de trabalho e alunos, o que, s vezes, evidencia certo descompromisso e desobrigao em relao sua misso de evangelizador. As condies de exerccio do magistrio tm-se deteriorado muito, gerando desgaste desse compromisso. So observados, com muita frequncia, professores darem as costas diante de graves problemas que ocorrem na escola, no que se refere a comportamentos e relacionamentos. Muitos educadores esto distanciando-se da vida de seus alunos, perdendo contato com eles e, com isso, perdendo a sua confiabilidade e a sua autoridade. Nos Parmetros Curriculares, isso fica bem evidente:

    A constante busca do conhecimento das manifestaes religiosas, a clareza quanto sua prpria convico de f, a conscincia da complexidade da questo religiosa e a sensibilidade pluralidade so requisitos essenciais no profissional do Ensino Religioso. Desse profissional espera-se que esteja disponvel para o dilogo e seja capaz de articular a partir de questes suscitadas no processo de aprendizagem do educando. Cabe a esse educador escutar e facilitar o dilogo, ser o interlocutor entre Escola e Comunidade e mediar conflitos. (FRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO, 1998, p. 28).

    O educador, no processo da educao e na dimenso pastoral, deve buscar uma formao para produzir, reproduzir e recriar o sentimento de humanidade dentro de uma realidade que, por vezes, tratada de forma superficial. Alm da obrigao tica de criar e recriar, reproduzir e cuidar, preciso, acima de tudo, desenvolver o humano. A principal tarefa do educador a de atrair o educando para o desenvolvimento integral, faz-lo perceber a importncia vital daquilo que ensinado e vivenciado. Quando o estudante percebe a importncia do

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  • aprendizado na sua prtica, ele prprio se aprofunda no gosto pela convivncia e na busca do conhecimento.

    Em seu processo de formao, o educador marista precisa transmitir valores ticos bsicos aos seus alunos e demais, mas a ideia de transmisso apenas parcialmente boa. claro que algo sempre se transmite de gerao a gerao, algo se repete e se reproduz, mas, quando falamos de valores ou de uma cultura tica, a transmisso se faz sempre tambm como recriao. Na Escola em Pastoral, o que mais importante o exemplo do ser cristo. No apenas exemplos individuais de pessoas engajadas, mas exemplos institucionais da comunidade educativa. Valores ticos no so contedos ou informaes transmissveis independentemente da qualidade do transmissor (educador, professor de tica, Ensino Religioso, Sociologia, Filosofia, Teologia etc.). Esses valores s se transmitem ou se recriam sustentados por verdadeiros exemplos e por meio de uma maior e melhor compreenso dos fundamentos da tica e sua aplicao nas grandes questes deste novo sculo, encontrando solues para os grandes problemas da nossa realidade.

    A formao do educador marista precisa ser olhada com muita seriedade, pois ele no simplesmente um transmissor de contedos, de conhecimentos e habilidades; , acima de tudo, um cristo e educador que auxilia o educando a fazer uma anlise consciente e profunda da sua caminhada. Ele no uma pessoa neutra, mas um ser de convices enraizadas nas suas tradies e, por isso, tem maior sensibilidade para com os demais. Deve saber respeitar e evitar sectarismo e polmicas religiosas que no constroem o verdadeiro dilogo inter-religioso no espao educacional e pastoral.

    Esse profissional convocado a ter uma identidade definida, que adquirida na vivncia da prpria experincia transcendental, manifestando uma realidade pessoal e social na sua busca de crescimento e desenvolvimento. Precisa ser capaz de conviver com seres de culturas diferentes e, com eles, estabelecer dilogo e parceria mtua, buscando constantemente conhecer a realidade sociocultural, poltica, econmica e religiosa de seu tempo. Ser esse educador abraar essa to nobre profisso, uma opo vocacional, uma verdadeira misso, que o torna capacitado para animar e desenvolver, na instituio escolar, um esprito de religiosidade, de cidadania e solidariedade. Para isso, deve usar seu bom-senso, ter equilbrio emocional e afetivo, coerncia de vida, trabalhar em conjunto, ter uma boa qualificao profissional e espiritual, buscando sempre o preparo acadmico.

    1.2. O EDUCADOR MARISTA E A ESCOLA EM PASTORAL

    Educar para a religiosidade e cidadania, a partir do currculo, por meio dos conjuntos de experincias proporcionadas aos alunos em uma escola em pastoral, interligando saber, formao intelectual e educao integral, exige muito preparo. O educador precisa fazer da unidade educacional o ambiente em que educandos, educadores e familiares possam vivenciar os valores universais como agentes de transformao do mundo e da atual histria.

    Para incio de reflexo, a UEA 05 traz um posicionamento acerca de como acontece a nossa relao com a religio e de como ela est inserida em nossa cultura e realidade: Segundo a UEA 05 (2007, p. 03), A religio est no cotidiano nacional brasileiro como um fato social, independentemente de nossa crena ou descrena: no s ela ocupa lugar de destaque na vida de milhes e milhes de pessoas, imprimindo determinadas marcas em suas crenas e aes, como influi na maneira de a

    sociedade brasileira ser e perceber o mundo. 10

    nessa relao, nesse envolvimento complexo, nessa interligao com o todo e a formao integral, que somos influenciados direta ou indiretamente. nesse contexto que precisamos buscar o melhor relacionamento e convivncia com os nossos adeptos e com os diferentes, com aqueles que tm outros credos ou so ateus; e, na medida do possvel, crescer juntos na vivncia de valores comuns ou no, em prol de um ideal maior, numa dimenso sociocultural e epistemolgica sobre o relacionamento com o meio em que vivenciamos e partilhamos nossas experincias no cho educacional.

    justamente na relao, no conhecimento do diferente, que nos libertamos de preconceitos, rivalidades, temores e tabus, e aumentamos a compreenso de ns mesmos e do transcendente, que se manifesta na pluralidade da expresso religiosa. Aproveitar essa situao e fazer disso um campo de aproximao, de descobertas e experincias dar um grande passo rumo liberdade construda na alteridade por intermdio do meio educacional. Os Parmetros Curriculares Nacionais mencionam como isso deve acontecer e como se d a formao do educador:

    O educador algum que naturalmente vive a reverncia da alteridade e leva em considerao que famlia e comunidade religiosa so espaos privilegiados para a vivncia religiosa e para a opo de f. Assim, o educador coloca seu conhecimento e sua experincia pessoal a servio da liberdade do educando. Frente a isso, faz-se necessrio uma formao especfica onde sejam contemplados, entre outros, os contedos: Culturas e Tradies Religiosas; Escrituras Sagradas; Teologias comparadas; Ritos e Ethos, garantindo-lhe a formao adequada ao desempenho de sua ao educativa. (FRUM NACIONAL PERMANENTE DO ENSINO RELIGIOSO, 1998, p. 28).

    Nesse contexto, educadores e estudantes, tambm inseridos num processo educacional, precisam estar atentos e nunca perder de vista que o princpio da liberdade vale para todo ser humano e que este s comea quando permitimos ao outro ser livre; nesse processo, percebemos que ela est sempre em construo. A presena do educador marista, por meio de suas aes e atitudes, pode impedir ou destruir a liberdade dos outros, principalmente quando se trata de diversidade religiosa e cultural.

    O educador precisa desenvolver um persistente esforo para que se tenha um grande contingente de pessoas que possam ir alm do que j vivenciam no cotidiano. Precisa ultrapassar suas atitudes de religiosidade brasileira, que se apega mais a pequenos gestos satisfatrios de seu prprio ego, seu mundinho, seu relacionamento inter-religioso de grupinho, e no se aventura, no se socializa nos compromissos sociopolticos de uma perspectiva de f engajada que vai alm, do amadurecido na religiosidade, da postura cidad e csmica, capaz, em comunidade, de reorientar o mundo para o amor, a solidariedade, a justia e a paz.

    O desrespeito s culturas contribuiu para uma religio desencarnada da realidade e uma f sem compromisso social e poltico, omissa ou conivente com contradies como violncia,

    10 CursodeEspecializao emEnsinoReligioso.UEA05,OCampodasReligiesnoBrasil,UniversidadeCatlicadeBraslia /CentroCatlicaVirtual /EducaoaDistncia,DF.2007,aula01,p.03.

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  • escravido, opresso das culturas, desrespeito dignidade humana e violao dos direitos em geral. Nessa postura de pensamento e ao, destacamos um pargrafo de um texto do MEC que diz:

    [...] se conseguirmos avanar no microcosmos de nossa existncia, se construirmos na sociedade e no seu entorno um ambiente de fraternidade, de dilogo permanente, de abertura dos coraes para a convivncia das diferenas de gnero, de raa ou de etnia, ou de fundo cultural, religioso ou ideolgico, estaremos dando um grande passo. Estaremos criando as condies necessrias para minimizar os fatores que nos separam social e culturalmente e potencializar aquilo que nos motiva. (MEC, 2007, www.mec.gov.br).

    preciso dizer que no estamos mais na condio do se, mas no processo atual de construo desta necessria e urgente sociedade que, desde a poca de Jesus, j tinha seus srios problemas, e onde todos devem ser motivadores, formadores e multiplicadores de sonhos sonhados e vivenciados aqui e agora. Hoje, o utpico s serve para nos mostrar o caminho, caminho este que se faz caminhando, desde que caminhemos juntos e com excelentes referenciais, inclusive os evanglicos. Segundo os lderes espirituais, Deus est em todo lugar e, com certeza, abenoando o caminhar dos educadores e alunos rumo vida e vida com plenitude para todos.

    No basta o educador marista ter somente esse olhar csmico, mesmo que seja impregnado de religiosidade. a que aumenta ainda mais a responsabilidade, a coerncia entre teoria e prtica; preciso ter presena e postura pblica, sociopoltica e, sobretudo, no que se refere luta contra a injustia, a pobreza, os tipos de poderes alienadores e a marginalizao. No resolve ser somente um profissional que se diz rezador, kardecista, umbandista, catlico, evanglico, budista, islmico, ou seguidor de outros segmentos, ou tudo isso junto, e no possuir uma abertura e viso poltica, econmica, social, cultural, com razes profundas na atual sociedade, participao comunitria, pertena de grupo e engajamento transformador de realidades sociais.

    Os profissionais da Escola em Pastoral precisam ser agentes e meios de aglutinao no meio social, e tratar inclusive as religies como fatos socioculturais. A construo da liberdade requer a tica da alteridade, que o respeito pelo diferente e o convvio com este. essa convivncia que nos convoca, interpela, convida e nos revela o seu infinito. A diversidade religiosa, as religies como partes constitutivas dos fatos sociais e culturais convocam ao protagonismo leigo, que exige de todos uma qualificao mais adequada, sobretudo por meio de uma slida formao acadmica sobre os livros sagrados (no caso marista, especialmente a Bblia), sobre a teolgica, sociolgica, espiritualidade e anlise de conjuntura. Sobre a participao, Rodinei Balbinot diz, na aula 4, p. 5, do Mdulo 3, Curso Escola em Pastoral: A evangelizao vista como um processo participativo. Por participao entendemos a atitude de tomar, fazer e sentir-se parte de uma ao ou de um processo.11 Balbinot ainda completa na aula 5, p. 3: um processo participativo em que o agente assume, junto com a misso que tem em conjunto com outras pessoas, a misso para consigo prprio.12 Isso fundamental para fomentar o sentimento de pertena sociedade e propiciar a corresponsabilidade de todos, educador/educando, em aes concretas. A felicidade, a

    11 NcleoMaristadeEducaoaDistncia,EscolaemPastoral,Mdulo3,aula4,p.5.12 Id.,aula5,p.3.

    realizao planetria, ou seja, a construo de uma conscincia de pertena ao planeta e a demonstrao de zelo por ele, a construo coletiva, so frutos de relaes fraternas, solidrias e autnticas, no respeito dignidade humana. As aes do ser, em uma Escola em Pastoral, precisam ter visibilidade e vivncia na prtica cotidiana, na escola, famlia, sociedade e no cosmo. Devem ser perceptveis na convivncia e na transfigurao das relaes educador/educando, gerando gestos transformadores na construo e formao do SER integral.

    A Escola em Pastoral, dentro de sua proposta educacional, alm de ser um meio evangelizador, precisa tambm assumir o seu verdadeiro papel, como espao do sistema de ensino, cujos contedos devero voltar-se mais para a formao integral, estruturando conscincias, atitudes e prticas anteriores opo religiosa na formao do cidado. O seu interior deve ser um espao privilegiado de reflexo sobre limites, superaes e relaes saudveis como fonte formadora e integradora. Assim, no ambiente educacional, a Escola em Pastoral trabalhar a sua identidade e desenvolver a sua filosofia e seu carisma. Isso implica a necessidade de formao individual que favorea tal perspectiva, porque o que se objetiva fruto de uma experincia pessoal, na incansvel busca de respostas para tantas questes existenciais. preciso favorecer em todos os sentidos, possibilitando que o ambiente seja um eterno construtor de relaes saudveis e fonte de formao e integrao.

    1.3. ESCOLA EM PASTORAL COMO CONSTRUTORA DE RELAES SAUDVEIS E COMO FONTE FORMADORA E INTEGRADORA

    Num passado no muito distante, no sistema educacional tradicional, a relao educador/educando era vertical. O mestre, transmissor, ocupava o centro de todo o processo, cumprindo objetivos selecionados pela instituio em que trabalhava e pela sociedade. O educador administrava todas as aes da escola, e sua postura estava totalmente ligada transmisso de contedos e de seus conhecimentos. Ao educando, receptor, era reservado o direito de somente aprender, pela repetio e automatizao, de forma racional e passiva, sem muita liberdade para fazer interferncias ou questionamentos. Esse professor tradicional usava como estratgia, na escola, mecanismos de controle, tais como: avaliao punitiva por escrito, avaliao oral, chamada oral, controle de atividades, gestos agressivos etc.

    Nesse contexto, o discente tinha acesso ao conhecimento passando pelo docente, que era quem controlava toda a relao, todas as aes e exigia de seu pblico uma obedincia cega, que tambm era exigida no restante da sociedade. Saviani fala desse contexto:

    O elemento principal passa a ser a organizao racional dos meios, ocupando o professor e aluno posio secundria, relegados que so s condies de executores de um processo cuja concepo, planejamento, coordenao e controle ficam a cargo de especialistas supostamente habilitados, neutros, objetivos e imparciais. (Escola e Democracia, 1999, p. 24).

    Na sociedade atual, temos uma nova viso social. As transformaes esto muito aceleradas em todos os segmentos. As redes eletrnicas tomaram conta do processo de ensino e aprendizagem; estamos em um novo ambiente que exige novos educadores, ou melhor, educadores com novas posturas na educao. O perfil dos educadores est alterando-se devido ao

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  • novo contexto de mundo e, com isso, eles esto insatisfeitos, ansiosos, desanimados e estressados pela no compreenso e acompanhamento das novas necessidades sociais e do sistema educacional. Diante de tal situao, com mudanas radicais e rpidas na sociedade, atingindo diretamente todo o pblico educacional, e com a escola em fase de transio, o educador tambm precisa acompanhar o progresso e deixar o seu saudosismo com relao ao passado para trs. Buscar e vivenciar o novo. No mais possvel comparar os atuais educandos com os do passado, pensar se so menos ou mais religiosos, inteligentes, responsveis, afetivos, maduros ou preparados do que em outros momentos.

    O educador precisa dominar as redes eletrnicas e fazer bom uso delas, equilibrando os currculos e os procedimentos metodolgicos ligados ao sistema de aprendizagem dos educandos. Precisa encontrar uma ligao entre o processo cognitivo e emocional, aceitando os novos estilos de vida dos estudantes, adaptando-se a eles, e buscando, assim, com muita flexibilidade, um canal direto com o mundo ps-moderno. O educador pode ser o maior produtor de conhecimento, de meios para evangelizar e pesquisar neste novo sistema tecnolgico, e, ao contrrio do que muitos pensam, ele se aproximar mais de seu alunado, que j vive esta realidade de mundo virtual.

    Esse ambiente moderno, interativo, inovador e desafiador precisa estar disposio e a servio do processo ensino-aprendizagem, transformando-o para melhorar todo o sistema educacional do pas. O educador ser um profissional mais atualizado, dinmico e moderno. As redes eletrnicas lhe oferecero oportunidades emocionantes e prazerosas para a interao com pessoas distantes ou prximas, de diferentes culturas e etnias, e tambm com diferentes formas de conhecimento voltado para o seu pblico, no caso, o estudante.

    E como fica a Escola em Pastoral nesse contexto? A Escola em Pastoral, na educao, tem um papel fundamental na formao do ser humano como um todo, do cidado universal, seja ele virtual ou presencial. Aqui cabe lembrar que a Escola em Pastoral no o nico componente para trabalhar essa proposta, pois esta tambm uma tarefa de outros segmentos, que podem e devem contribuir para a formao cidad. Aqui se ressalta o papel do educador, que, no meio educacional, o eixo norteador desse processo. O trabalho do mestre nesse espao, seu relacionamento com os estudantes e demais parceiros expresso pela relao que ele tem com o seu meio, a sociedade e a cultura, refletindo valores e padres sociais, o que no acontecia antes, nem virtual e muito menos presencialmente, com tanta intensidade.

    As relaes humanas so peas fundamentais na realizao comportamental e profissional de um indivduo. Para que isso acontea, necessria a conscientizao do educador de que sua funo, na atual sociedade, de facilitador de aprendizagem, aberto s novas experincias e novos contatos, procurando compreender e entender, numa relao de empatia, tambm os sentimentos e os problemas de seus alunos, e lev-los autorrealizao. A atuao do docente marista precisa refletir esprito de presena, amor ao trabalho, afetividade, confiana, empatia e respeito, para que se desenvolva a leitura, a escrita, a reflexo, a aprendizagem, a pesquisa autnoma, a construo do conhecimento coletivo e a concreta evangelizao. Dessa forma, a relao entre educador e educando depende do clima estabelecido por esse profissional e pela Escola em Pastoral, da relao emptica com seus alunos e parceiros, de sua capacidade de ouvir, refletir e discutir o nvel de compreenso dos educandos e da criao das pontes entre o seu conhecimento e o deles. esse educador que deve instruir tambm para as mudanas, para a autonomia, para a liberdade, numa viso global, trabalhando o lado positivo dos alunos, e para a formao de um cidado consciente de seus direitos e

    deveres e de suas responsabilidades sociais, com clareza para o seu segmento religioso. Vale resgatar, como contribuio para nossa reflexo, o que Srgio nos diz:

    No se pode negligenciar a questo de educar o educando para ser uma pessoa de escolhas livres e responsveis. Harmonizar o pensamento e o sentimento do educando evitando posturas reducionistas, assim como estimular a formao de uma personalidade firme, mas flexvel, para poder respeitar e conviver com diversidades naturais. Colocar o esprito de grupo e a colaborao mtua entre os participantes como valor mais significativo do que a competio individual. E finalmente desenvolver a cidadania csmica, ou seja, a conscincia da responsabilidade do indivduo na ecologia global que inclui a humanidade, todos os outros seres vivos e no vivos da Terra e do universo. (ENSINO RELIGIOSO E SUA RELAO PEDAGGICA, 2002, p. 22).

    A profisso de educador uma das mais nobres dentre as outras, pois esse profissional tambm quem resgata o que h de mais precioso no ser humano: a sua capacidade de entendimento, compreenso, aceitao, abertura para o novo e crescimento em todas as dimenses, inclusive na espiritual. Quando tratamos do educador marista, isso fica ainda mais evidente, pois ele e deve sempre ser testemunho de servio pela vivncia da integralidade, pelo respeito dignidade humana, pela liberdade e pela igualdade de todo ser humano, buscando o bem comum e colocando-se no lugar do outro, a fim de torn-lo melhor e ajud-lo em suas necessidades. esse educador que se engaja efetivamente em Projetos de Solidariedade como excelente cristo e correto cidado, para interpretar toda a realidade em profundidade crescente e atuar na atual sociedade de modo transformador e libertador.

    Diante dessas relaes (educador/educando) que se faz demasiadamente necessrio o dilogo. Na obra Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, diz: aprender a dizer a prpria palavra toda a pedagogia, e tambm toda a antropologia13 Mas que tipo de dilogo? O dilogo comum, sim, em todos os momentos, mas se faz mais urgente e produtivo, nesse tipo de relao, o dilogo inter-religioso, que se abre para acolher a manifestao religiosa dos educandos, que lhe so confiados e que se dispem tambm ao trabalho de Ensino Religioso. Nessa perspectiva que o Ensino Religioso no deve ser proselitista, mas acolhedor de todos os que fazem parte de outras manifestaes religiosas, e deve respeitar com a mesma intensidade aqueles que no aderiram a nenhuma delas e que esto abertos formao cidad.

    o momento privilegiado de trabalhar o fenmeno religioso, trazendo propostas das vrias tradies religiosas que so a favor da vida nas dimenses da f, da esperana, da justia e do amor. A postura crtica diante da questo do sagrado foi e sempre necessria, pois ajuda a inclu-la na discusso cientfica e a constitui Cincia da Religio. por meio desse processo cognitivo, investigativo e questionador que desvelamos e fortalecemos as verdades sagradas de cada religio e cultura, e chegamos fortalecidos e encorajados a realizar mudanas significativas e transformadoras na sociedade por intermdio de relaes saudveis e com opes definidas. O educador marista precisa imbuir-se do fenmeno religioso e buscar constantemente instruo para fortalecer suas convices

    13 FREIRE,Paulo.Pedagogia do oprimido,17.ed.Rio

    deJaneiro:PazeTerra,1987,p.18.

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  • e aumentar seu desejo e necessidade de vivenciar a tica do bom relacionamento. Precisa ainda ser testemunho vivo na convivncia com outros seres, principalmente com seus alunos, para que eles percebam os valores fundamentais da vida por meio da prxis do educador no atual contexto de mundo profano e sagrado. Segundo Simes, Todo fenmeno religioso exprime uma experincia religiosa que se localiza no interior e nos limites de dois mundos: o mundo profano e o mundo sagrado vivenciados no como fechados um para o outro, mas em contnua interao o mundo sagrado impregna o profano na medida em que dele se utiliza para se revelar. 14

    Nas relaes docente/discente, o educador precisa despertar o ser humano, seu educando, para o senso de humanidade e faz-lo perceber pertencente a um senso csmico, a um grupo de convivncia, e no fortalecer ainda mais o sentido de concorrncia em tudo (o que acontece at mesmo entre as religies nmeros, adeptos, aumento de renda, sobrevivncia, convertidos, teologias, doutrinas, crenas, normas, preceitos, propostas espirituais e propostas distorcidas da realidade...). Agenor Brighenti, na aula 3, p. 2, Mdulo 1, Curso Escola em Pastoral, refora: O individualismo cultural e a busca de bem-estar imediato levam o indivduo a colocar tambm a religio a seu servio.15 O educador deve trabalhar, em seus projetos e atividades diversas, o dilogo comum e o dilogo inter-religioso como meios de conscientizao para a pertena e a convivncia num mundo onde todos devem ser cidados e responsveis por ele, independente de sua frmula doutrinria ou profisso de f, raa/etnia/cultura ou posio social. Deve trabalhar, por meio do dilogo, a formao do virtuoso cidado na esperana da construo de um mundo mais coerente, justo, fraterno e muito humano.

    A presena acolhedora, amiga, carinhosa, incentivadora, em especial do educador marista, que traz isso em sua identidade, fundamental para a formao e transformao integral do educando. Esse testemunho se torna mais significativo quando o educador regente tambm convicto de sua relao com o transcendente - o que vai, primeiro, dar exemplos na vivncia de cidadania e do transcendental. o testemunho vivo do que professamos, daquilo em que acreditamos e do que queremos viver com e para os educandos e pessoas prximas.

    O educador marista, ao declarar-se seguidor de sua religio, da espiritualidade crist e marista, deve ter o cuidado para no afastar seu prximo que no comunga da mesma crena; deve mostrar na prxis o valor da vida e como a vive em harmonia, com projetos slidos e transformadores da atual realidade. A salvao pessoal e planetria no est em um ou em muitos lderes religiosos, mas nas posturas virtuosas e harmoniosas de seus seguidores. Esse educador necessita de um conhecimento profundo a respeito das outras tradies religiosas para manter um saudvel dilogo inter-religioso construtivo e relaes humanas no meio educacional. Cabe a cada um de ns buscar formao/informao, indicar instituies srias, exigir, fazer valer direito e leis, e, na medida do possvel, criar grupos de trabalho e estudo, ampliando as relaes internas e externas. O mestre marista deve ser um cidado universal, um cidado do infinito e de mltiplas relaes, como o Cristo ensinou concretamente.

    A Escola em Pastoral indica uma recuperao da dimenso espiritual da existncia, ocupando uma lacuna deixada pela educao, que apresentou, durante longo tempo, predominncia do racional, do desenvolvimento cientfico e

    14 JORGE,SimesJ.Pe.Cultura religiosa: ohomemeofenmenoreligioso. SoPaulo:Loyola,1998.p.7.15 NcleoMaristadeEducaoaDistncia,EscolaemPastoral,Mdulo1,aula3,p.2.

    tecnolgico do educando, excluindo um pouco as razes e as finalidades ltimas da existncia. O ambiente educacional pastoral, atualmente, est fornecendo instrumentos de leitura da realidade social e vem preparando o educando para entender e compreender mais a si mesmo e a sociedade, buscando criar e dar condies para a convivncia entre as pessoas, relacionamento mais prximo com o meio ambiente e com o cosmo, ainda que paulatinamente.

    Centrada na evangelizao, a Escola em Pastoral se transforma num processo dinmico em que o educador o sujeito ativo da ao, o protagonista, e, assim sendo, no apenas o executor, um pesquisador de sua prpria ao. Rodinei Balbinot, na aula 4, p. 2, do mdulo 3, Curso Escola em Pastoral, deixa evidente que: A evangelizao, sendo uma ao humana, tambm tem uma dimenso pedaggica.16 o educador quem cria situaes de aprendizagens. Os mtodos de ensino-aprendizagem proporcionam que ele seja autor de sua ao pedaggica por meio da ao reflexiva, coletiva e autnoma. A construo do conhecimento e a construo do sujeito no se separam, a teoria e a prtica convergem em coerncia de atitudes e prxis no meio educacional e pastoral. O educador tambm mediador, animador, facilitador e quem d espao para que a aprendizagem seja significativa e transformadora da vida do educando.

    Para que a aprendizagem na Escola em Pastoral acontea, precisa ser significativa, o que pede uma compreenso de significados, de relacionamentos com as experincias anteriores e vivncias pessoais na realidade de cada educando. A aprendizagem possui dinamismo que exige aes de ensino direcionadas para que os educandos aprofundem e ampliem os significados elaborados diante de suas participaes nas atividades proopostas. O ensino precisa ser composto de atividades sistemticas, rigorosamente planejadas, nas quais o educador e o educando compartilham parcelas cada vez maiores de significados com relao aos contedos do currculo escolar. Em um relacionamento prximo, os alunos aprendem por diversos modos e formas de inteligncia, usando diversos meios e modos de expresso. Lizete Carmem nos fala sobre como isso pode acontecer:

    As inter-relaes didtico-pedaggicas revalorizam a busca de Transcendncia pelo conhecimento intuitivo e pela linguagem do simblico, do sensitivo e do numinoso. Consequentemente, integram pensamento e ao, valendo-se de recursos no tanto materiais como livros, subsdios, pesquisas, etc., mas de recursos suprassensoriais, que no separar mente-corpo: eufonia, dana, teatro, biodana, relaxamento, meditao, contemplao, artes plsticas, msica, pintura, contacto com a natureza, etc. e sempre na dimenso da experincia pessoal no grupo, pensando com o corpo de modo a us-lo como agente de conhecimento, de inter-relao com a variedade de organismos vivos do ecossistema global, onde o Ser Humano um deles. (Um paradigma didtico para o Ensino Religioso, 1994, p. 51).

    Para que isso acontea, necessrio que a Escola em Pastoral seja um lugar com espaos ambientados para atividades diversificadas e mais ldicas, animadas e mais produtivas. Com certeza, esse ambiente se tornar tambm um frum de debate

    16 NcleoMaristadeEducaoaDistncia,EscolaemPastoral,Mdulo3,aula4,p.2.

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  • e negociao de concepes e representaes da realidade, das ideias e mltiplas experincias pessoais e coletivas; um ambiente de conhecimento compartilhado no qual os educandos sejam considerados como seres capazes de elaborar, partilhar experincias espirituais, construir, modificar e integrar ideias. Dever haver momentos para interao dos jovens com outras pessoas, objetos e situaes que pedem envolvimento, priorizando-se o refletir acerca de seus comportamentos, de suas aprendizagens, dos problemas que tm que superar e para o quais tm que buscar solues, e de aes para colocar a produo de conhecimento em prol da vida, a servio do coletivo e da sociedade. importantssima a interveno e a mediao do educador marista, partilhando tambm suas experincias com os alunos, e ambos simultaneamente construindo a maravilha que o conhecimento a servio da vida e do prximo.

    Na Escola em Pastoral, pela sua postura aberta, assumindo essa dimenso de construo do conhecimento e do crescimento recproco, o planejamento deve ter como maior base a pedagogia do respeito mtuo, do dilogo, do afeto, da alegria e do ver e do olhar o outro/educandos e parceiros como sujeitos que possuem conhecimento, cultura e histria de vida. Nessa escola, mais que nas outras, os contedos, as estratgias e as metodologias, os recursos e as tcnicas devem proporcionar liberdade de expresso cultural, intelectual, afetiva e da religiosidade dos alunos. evidente que no ir negar nem deixar de trabalhar a sua identidade religiosa em toda a sua essncia. Atingindo os objetivos e contemplando os contedos, o educador marista alcanar o dilogo inter-religioso e reflexivo, espao para partilha de experincias; ir criar e desenvolver admirao e convivncia saudvel com a natureza, beleza, sexualidade e com a vida; ir suscitar questionamentos e indignao sobre a atual sociedade violenta, desigual e corrupta -; ir realizar comparaes, observaes, relatos e anlises dentro do fenmeno religioso. Tudo isso pode acontecer em um trabalho partilhado e cooperativo, proporcionando momentos de discusso, deciso, avaliao, celebrao, partilha, reflexo, meditao, orao, convivncia, confraternizao e vivncias dos diversos smbolos, festas e manifestaes dos inmeros segmentos religiosos, inclusive do cristianismo, que tanto contribui para a formao do virtuoso cidado e bom cristo.

    Na interao educador-educando e vice-versa, no fazer pedaggico da Escola em Pastoral, fica evidente a proposta pedaggica ali desenvolvida, pois, alm de participar do debate sobre vrias tendncias pedaggicas, ocorre a prpria escolha a partir da compreenso do que seja uma escola em pastoral educativa e de como a Igreja e a escola devem dialogar com a sociedade na sua realidade local. Nesse espao educacional, so desenvolvidos projetos nas dimenses cognitiva, psicolgica, artstica, esportiva, social, ambiental e espiritual. Para isso, segue uma pedagogia scio-interacionista, dando nfase para a formao da autonomia e responsabilidade pessoal e social voltada para uma disciplina preventiva, com base no dilogo, na justia e na seriedade, por meio da construo de competncias a partir do desenvolvimento das habilidades de leitura, pesquisa e atividades artstico-desportivas. Ocorre a constante vivncia de momentos espirituais, contemplativos e reflexivos, com prticas educativas baseadas no dilogo, no respeito e na confiana mtua. Nesse dilogo e parceria com a Igreja local, h grande preocupao com uma vivncia da religiosidade, que, de fato, tenha comprometimento com a justia e a cidadania. Essa proposta pedaggica objetiva a construo do conhecimento, o desenvolvimento pleno das potencialidades dos educandos e sua insero no meio social, contemplando as dimenses acadmica, esportiva, cultural e religiosa. Utiliza uma metodologia que permite a valorizao da iniciativa do educando e o conhecimento que ele traz, possibilitando seu avano na construo do saber e na formao para o exerccio da cidadania, de forma a desenvolver o esprito de

    famlia, de presena, de trabalho, de comunidade, conscincia e solidariedade entre todos, como Jesus e Champagnat almejavam.

    H vrias aes de grande necessidade que precisam ser reforadas em parcerias com outras instituies que comungam do mesmo propsito e que podem ser compartilhadas: criao de mais cursos na rea pastoral, para atender as demandas formativas; criao de mais cursos como o do Ncleo Marista de Educao a Distncia, de faculdades prprias para essa temtica da pastoral e para trabalhar esse contexto; criao de parcerias de cursos, seminrios, encontros, debates, workshop de formao e partilhas das prticas e experincias com as instituies locais (UCG, ANEC, Arquidiocese, Diocese, Parquias, Sindicato das Escolas Confessionais, etc.); planejamentos comuns de contedos, objetivos e metodologias compartilhados, contemplando as vrias realidades e vivncias de religiosidade e religio; formao de mais grupos regionais com intenes educacionais e ecumnicas para estudos, acompanhamento e nivelamento dos trabalhos nos estabelecimentos de ensino; realizao de pesquisas sobre relao, satisfao, envolvimento e abrangncia da Escola em Pastoral na atual sociedade, e, a partir delas, busca de melhoria e novas aes em prol da evangelizao, da vida em sua amplitude e de um mundo mais humano e tolerante para todos.

    CONCLUSO

    E disseram um ao outro: No ardia o nosso corao quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?17 Com base nos estudos realizados e apresentados, por meio da experincia e participao direta e ativa em uma Escola em Pastoral, ficam evidentes e solidificadas as nossas convices de que, ao refletirmos sobre a formao e o perfil do educador nesse ambiente, tornamo-nos mais propensos e sensveis a perceber e a experimentar os sentimentos dos discpulos de Emas, a ficar com o corao inflamado, e ainda a ser inspirados pelo Esprito Santo e seguir os exemplos do grande Mestre Jesus. Pretende-se, com esta proposta de formao, realizada em processo participativo, ter, na Escola em Pastoral, um educador experiente, comedido, evoludo, que construa sua identidade em parceria com a da instituio, equilibrando o emocional, o intelectual, o tico, o pedaggico e o espiritual.

    Esse educador, com tal proposta de formao, deve ser testemunho vivo da aprendizagem integral; testemunho impregnado na ndole e personalidade de quem evolui constantemente, aprende, humaniza-se, torna-se uma pessoa mais aberta, acolhedora, compreensiva e evangelizada. Ter uma trajetria coerente, de avanos, de bom-senso, de revigoramento, estimulado por novos desafios, pelo contato com seus educandos e comunidade educativa, pela vontade de continuar vivendo, aprendendo, realizando-se e mantendo o impulso de avanar e perseverar sempre em favor da vida em abundncia.

    com o perfil descrito neste trabalho que o educador ser capaz de relacionar-se, de comunicar-se, de motivar o educando de forma permanente e competente. Conseguir uma mobilizao afetiva e ativa de todos, simpatia, capacidade de sinergia, de estabelecer laos alm do ambiente escolar, facilitando todas as atividades propostas e com muita aproximao de seu prximo. Haver uma maior capacidade de expresso da competncia

    17 BBLIA. SOCIEDADE BBLICA CATLICAINTERNACIONAL E PAULUS, Edio Pastoral. So Paulo:Paulus,1990.p.1351.

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  • intelectual em vrios planos, deixando evidente que ns devemos relacionar-nos com os interesses da comunidade educativa, que podemos aproximar a teoria da prtica e a vivncia da reflexo terica. Assim se fortalecer a parceira nos procedimentos de evangelizao e formao cidad.

    Diante da grandeza do trabalho pastoral em um ambiente marista, e de sua vasta influncia no ambiente educacional e social, somos estimulados, diante do atual contexto social, a reforar o trabalho sobre a formao e o perfil do educador marista da Escola em Pastoral, capacitando-o cada vez mais para os desafios que esta apresenta. A responsabilidade desse educador est em desenvolver o ensino-aprendizagem e propiciar o crescimento dos educandos e de toda a comunidade. Sua to nobre profisso, que uma verdadeira misso/vocao, impulsiona, no meio escolar, o desenvolvimento de um esprito de religiosidade, de cidadania, de troca de experincia, de convivncia harmoniosa, de humanizao e transformao social e espiritual.

    REFERNCIA BIBLIOGRFICA

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    Revista Educ@cional - N. 4 | 2010 | Pgina 068