Ritual and Narrative - ?· ritual como um todo pode ser visto como um espetáculo conceitual de Roma…

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<p>Recebido 15 de maio de 2014 | Aprovado 25 de julho de 2014 http://dx.doi.org/10.1590/0104-87752015000100008 Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 31, n. 55, p. 193-220, jan/abr 2015</p> <p>Ritual e narrativaA supplicatio no mito da Fortuna Muliebris (Dionsio de Halicarnasso, Antiquitates Romanae, 8. 39.1-53.1)</p> <p>Ritual and NarrativeThe supplicatio in the Myth of Fortuna Muliebris (Dionysius of Halicarnassus, Antiquitates Romanae, 8. 30.1-53.1)</p> <p>Claudia Beltro RosaDepartamento de Histria Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Av Pasteur, 458, s. 17, Urca, Rio de Janeiro, RJ, 22.290-240, Brasil crbeltrao@gmail.com</p> <p>Resumo Mitos e rituais criam e reforam os laos entre indivduos e co-munidade, legitimando o grupo e a autoridade, envolvendo o potencial mimtico das performances. O principado augustano foi um momento rico de criao e de ressignificao de rituais e de mitos, expressos em aes e intervenes espaciais e numa literatura cuja observao permite uma via de acesso compreenso do sistema de valores, do uso das tradies e das inovaes no espao pblico romano. Este artigo tratar da etiologia do santurio da Fortuna Muliebris na verso de Dionsio de Halicarnasso. As narrativas etiolgicas da Fortuna Muliebris so um dos elementos mais significativos para a anlise do sistema de valores e das distines de gnero na Roma augustana, e estaro em pauta elementos verbais e visuais da performance das personagens, interessando anlise elementos vinculados a normas e tradies do ritual da supplicatio.Palavras-chave Dionsio de Halicarnasso, Fortuna Muliebris, mito e ritual.</p> <p>Claudia Beltro Rosa</p> <p>194 Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 31, n. 55</p> <p>Abstract Myths and rituals create and reinforce the links between individuals and community and legitimize authority, involving the mimetic potential of performances. The Augustan principate was plenty of creation and recreation of rituals and myths, expressed in actions, spatial interventions, and a literature whose analysis can give us important keys to the understanding of the system of values, the use of traditions and innovations in Roman public space. This paper focus on the etiology of Fortuna Muliebris according to Dionysius of Halicarnassus. The narratives of Fortuna Muliebris are significant for the analysis of the system of values and gender roles in Augustan Rome, and verbal and visual elements of the performance of the characters are linked to norms and traditions the ritual of supplicatio.Keywords Dionysius of Halicarnassus, Fortuna Muliebris, myth and ritual. </p> <p>Ali, ela permanece por longo tempo, seus olhos mirando a terra; Ela derrama suas lgrimas, e excita a compaixo em todos os coraes. </p> <p>(Dionsio de Halicarnasso)</p> <p>O estudo da religio romana, em seus elementos, prticas rituais e em suas narrativas associadas, um vis possvel para a compreenso das representaes identitrias romanas, criando e transmitindo contedos sobre Roma e sobre os romanos, reconhecveis por toda a comunidade e passveis de veiculao a outras comunidades, permitindo analisar a construo e a recepo de significados sobre o mundo e sobre a socie-dade. Nas ltimas dcadas, estudiosos da religio romana conseguiram, paulatinamente, ultrapassar barreiras historiogrficas provenientes, regra geral, de incompreenses e dificuldades tericas, religiosas e ideolgicas que prejudicavam a pesquisa das religies antigas. O estudo das religies antigas, especialmente da religio romana, uma das mais frteis reas dos estudos da antiguidade e, atualmente, poucos historiadores des-consideram o potencial das pesquisas sobre as religies e os sistemas </p> <p>Ritual e narrativa</p> <p>p. 193-220, jan/abr 2015 195</p> <p>religiosos para a lide historiogrfica. As religies dizem respeito no apenas a sentimentos ou percepes individuais, mas aos grupos sociais, sendo um dos principais fatores que instituem, consolidam, transformam e mantm o sistema de valores, a coeso e o ordenamento social, repre-sentando-os como uma ordem sagrada (Paden, 1996, p.3-18). </p> <p>Sob este aspecto, a anlise de rituais religiosos romanos pode ser considerada profcua para a construo do conhecimento sobre a anti-guidade. Os rituais religiosos romanos podem ser analisados como me-canismos que sacralizavam o ordenamento poltico e social da urbs, esta-belecendo o lugar de cada coisa e de cada ser na cidade, bem como suas relaes com o mundo exterior. Considerar os rituais como timos ndices para a anlise, por reunirem comunicao e performance e por veicularem diversos contedos que, reiterados no tempo e no espao, so agregados ao universo cognitivo e afetivo de seus participantes ofi-ciantes ou espectadores , reafirmando ou alterando uma determinada viso de mundo e de ordem social, perceb-los como um fenmeno social. Rituais reforam os laos entre indivduo e comunidade, legiti-mando o grupo e a autoridade, envolvendo o potencial mimtico das performances o drama, os atores, os espectadores, os gestos, os sons, as palavras, os objetos comunicando, reforando e consolidando laos sociais, hierarquias polticas, ideias, ideais, aspiraes e valores compar-tilhados, assim como instituindo e legitimando mudanas e inovaes. </p> <p>Algumas ideias de Clifford Geertz, Stanley Tambiah, Catherine Bell, Mary Douglas e Jonathan Z. Smith so fundamentais para esta anlise.1 Para esses estudiosos, os rituais so formas altamente eficazes de comu-nicao simblica, e seus participantes oficiantes e espectadores ao compartilharem, pelos diversos processos educacionais, formais e infor-mais, de valores e significados comuns, podem compreender os signifi-cados veiculados pelas aes rituais, mesmo que tal compreenso seja polissmica. Rituais no veiculam uma nica mensagem e seus emissores podem ser diversos, bem como a compreenso dos significados pode </p> <p>1 As referncias principais para as consideraes que se seguiro so: GEERTZ, 2008, p.65-91; TAMBIAH, 1985; BELL, 2009; BELL, 1992; DOUGLAS, 1996 e SMITH, 1992. </p> <p>Claudia Beltro Rosa</p> <p>196 Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 31, n. 55</p> <p>no ser igual entre os participantes, mas gestos, objetos e palavras co-municam ideias, aspiraes, distines etc., que potencialmente podem ser compreendidas. A performance ritual uma metalinguagem para os participantes, e Tambiah, por exemplo, cita a repetio que reitera os elementos do culto, criando a expectativa (Tambiah, 1985, p.133). Douglas, por sua vez, considera a formalidade e a repetio como con-venes que criam a ordem, enquanto Smith as considera convenes que criam a impresso de ordem.2 </p> <p>O aparato e a performance ritual, portanto, so poderosos meios de se consolidar e reiterar a ordem social, vinculando seus participantes a um modo de ver e sentir as coisas, a autoridade, as hierarquias, as distines sociais, e Catherine Bell, insistindo sobre a importncia da anlise do vocabulrio e das aes rituais, relevando sua eficcia ao levar os grupos humanos a assunes sobre a ordem das coisas e sobre seu lugar nesta ordem, chama a ateno tambm para as frmulas arcaizantes, mesmo quando h novos elementos no ritual, ou seja, quando se trata de um novo ritual, ajudando a separar o momento do ritual de outras experincias da vida quotidiana (Bell, 2009, p.160). Imagens e emoes apresentadas, criadas e despertadas no ritual criam, em suma, ideias e modos de ver e perceber a realidade.</p> <p>Rituais religiosos independem dos mitos que eventualmente lhes so associados. Contudo, quando rituais e mitos convergem, criam instru-mentos cognitivos pelos quais o mundo da experincia interpretado, fornecendo normativas de ao e de pensamento para as comunidades em seu presente e para o futuro. Tais mitos potencializam o efeito das </p> <p>2 Destaque-se uma coerente definio de ritual de Stanley Tambiah que fornece uma boa base para a anlise de rituais religiosos romanos: Ritual um sistema culturalmente constitudo de comunicao simblica. constitudo de sequncias padronizadas e ordenadas de palavras e atos, frequentemente expressos em media mltiplos, cujo contedo e arranjo so caracterizados em vrios graus pela formalidade (convencionalidade), estereotipia (rigidez), condensao (fuso) e redundncia (repetio) (TAMBIAH, 1985, p.128). Essas ideias podem ser comple-mentadas pela definio de Daniel Gargola: (Ritual )uma forma de comunicao simblica, disseminando uma representao idealizada da comunidade, de sua liderana, suas unidades constituintes, as relaes necessrias entre elas e o lugar de tudo e de cada coisa no mundo (GARGOLA, 1995, p.6). </p> <p>Ritual e narrativa</p> <p>p. 193-220, jan/abr 2015 197</p> <p>performances rituais e, para John Scheid, as etiologias transcrevem o rito em narrativa, explorando um ou outro aspecto do culto ou do fes-tival para produzir narrativas e especulaes sobre suas origens, que so aplicadas tradio ritual ou a algum de seus elementos (Scheid, 2003, p.126).</p> <p>Analisar mitos uma ao cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos, e o mito um objeto de pesquisa muito complexo, especial-mente porque se criou um mito moderno de que o mito a anttese da histria. Esta viso moderna , no mnimo, superficial e redutora, se no equivocada. Transformar dados da realidade vivida em mito um trao fundamental da sociedade romana que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetria no tempo e no espao, pelo que desconsiderar o mito na pesquisa arriscar deixar escapar elementos centrais da ex-perincia coletiva antiga. E, neste ponto, o principado augustano um momento mpar para a anlise. Trata-se de um momento rico de criao e de ressignificao de rituais e de mitos, principalmente no que tange aos sacra publica,3 expressos em aes rituais, intervenes espaciais e numa literatura cuja observao permite uma via de acesso compre-enso do sistema de valores, do uso das tradies e das inovaes no espao pblico romano. Observando as consideraes de Mary Beard,</p> <p>3 A distino entre sacra publica e sacra priuata fornecida por Festo um guia para a compre-enso dos sacra romanos: Os ritos pblicos so aqueles realizados a expensas pblicas em benefcio do povo (...) em contraste com os ritos privados que so realizados em benefcio de indivduos, das famlias, dos descendentes (Publica sacra, quae publico sumptu pro populo fiunt quaeque pro montibus pagis curis sacellis; at priuata, quae pro singulis hominibus familiis gentibus fiunt: 350L). Sacra priuata, como podemos depreender, no eram apenas os ritos da religio domestica, mas tudo o que no se inseria na definio de publica sacra, ou seja, os ritos realizados em benefcio do povo romano (pro populo), por oficiantes sancionados e finan-ciados pelo tesouro pblico, com participao ativa de magistrados e sacerdotes, diante da grande massa do pblico assistente, que geralmente participava no todo ou em parte do banquete aps o sacrifcio e em outras aes, e.g., nas grandes procisses que caracterizavam as supplicationes. A prpria definio de sacrum reservada para coisas e lugares consagrados oficialmente pelos pontfices (cf. Gaio. Inst. 2,5; Ulpiano, Dig. I, 8.9.). Podemos assumir que a definio de sacra ao menos juridicamente seguia os mesmos passos que definiam o ritual pblico, ou seja, um objeto ou lugar que se tornava sagrado atravs de um ato ritual especfico a consecratio que devia ser autorizado pelo Senado, presidido por sacerdotes e magistrados e promovido com fundos pblicos.</p> <p>Claudia Beltro Rosa</p> <p>198 Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 31, n. 55</p> <p>(...) compreendo que os festivais do calendrio ritual, junto com as narrati-vas etiolgicas a eles associadas, ofereciam aos participantes romanos, ano aps ano, sries de quadros evocando diferentes momentos da religio e da histria romanas. Ou seja, cada festival, com todas as suas diferentes associaes, apresenta e representa uma imagem da romanidade unindo o passado ao presente, e reunindo aspectos aparentemente diversos da religio romana e da tradio cultural. Em certo sentido, o calendrio ritual como um todo pode ser visto como um espetculo conceitual de Roma e do que ser romano (Beard, 2003, p.281) (grifo da autora).</p> <p>Os mitos etiolgicos so, portanto, um dos instrumentos pelos quais os conhecimentos religiosos so adquiridos, ao fornecerem explicaes e interpretaes dos rituais que, publicizadas atravs de diversos media, incrementam os processos de codificao e comunicao de postula-dos e de conhecimentos religiosos, consolidando formas autorizadas de crenas e rituais e o estabelecimento de hierarquias, incrementando a dinmica dos sistemas religiosos, que implica comunicao de seus contedos.4 O conhecimento religioso codificado na linguagem verbal e em verses escritas uma tima ferramenta na construo de siste-mas religiosos de larga escala e expansveis a outros grupos humanos externos ao seu locus original, com variaes regionais, decerto, mas sem perder suas caractersticas principais, como ocorreu no imperium romanum (Whitehouse, McCauley, 2005;Whitehouse, Martin, 2004). </p> <p>4 Como foi pontuado recentemente: Em relao documentao literria, atualmente podemos definir algumas tendncias da historiografia internacional da religio romana antiga: uma ten-dncia ctica em relao obteno de qualquer conhecimento seguro sobre o perodo arcaico romano, e uma tendncia mais otimista que se apoia nos estudos da etimologia e do ritual, renovando o interesse pela releitura das fontes textuais. Desse modo, acreditamos que a anlise da documentao literria pode ser profcua para o estudo da religio romana. Esses textos trazem, nitidamente, alguns elementos de fundo arcaico (cf. D. Hal. 7, 70, 2-3: tas archaias kai topicas historias), que sobreviveram no fossilizados, ou seja, num contexto dinmico, pois cada gerao reconstitua e ressignificava o ritual e o mito. Certamente, o registro literrio nos apre-senta tais rituais num momento tardio de seu desenvolvimento, ou mesmo em sua recuperao pela restauratio augustana, mas tambm e isso dificulta a pesquisa validava novos cultos e prticas inovadoras com referncia a antigas tradies religiosas (BELTRO, 2011, p.85). </p> <p>Ritual e narrativa</p> <p>p. 193-220, jan/abr 2015 199</p> <p>Os relatos histricos e literrios do perodo augustano so plenos de mitos etiolgicos que, lanando mo de personagens e aes explicavam e interpretavam as aes rituais e a topografia sagrada da urbs, veicu-lando, ao mesmo tempo, contedos centrais da chamada restauratio augustana. Tais mitos, junto com os rituais, criavam a histria e a iden-tidade romanas no perodo augustano e, a fim de explorar alguns dos variados meios pelos quais a experincia e os contedos religiosos foram organizados, transmitidos e politizados em termos de representaes culturais, dentre os diversos mitos criados e veiculados pela literatura augustana, este artigo tratar de um em particular, o mito etiolgico do santurio da Fortuna Muliebris na verso do historiador grego Dionsio de Halicarnasso, no L. 8 de suas Antiquitates Romanae. Este mito foi vinculado, no sculo I a.E.C., ao pico do Coriolano e das guerras contra os volscos e h muito se discute o significado, o valor, a...</p>