SIMBOLISMO, MODERNISMO E VANGUARDAS ??Ttulo: Simbolismo, Modernismo e Vanguardas 3. edio, revista Autor: Fernando Guimares Edio: Imprensa Nacional-Casa da Moeda Concepo ...

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    07-Feb-2018

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  • temas portugueses

    Fernando Guimares

    INCM

    Fernando Guim

    ares

    Hoje temos a percepo de que o desenvolvimento do Moder-nismo corresponde a um processo que encontrou as suas razesem certas derivas do Romantismo e, mais directamente, do Sim-bolismo, para, de certo modo, se autonomizar com as Van-guardas. Por sua vez, a criao literria dos nossos dias oscilaentre dois plos. Um representa o reencontro da modernidade;o outro corresponde ao que se convencionou designar por Ps--Modernismo. Tais derivaes ou influncias so abordadas naspginas deste livro.

    SIMBOLISMO, MODERNISMOE VANGUARDAS

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  • Ttulo: Simbolismo, Modernismo e Vanguardas3. edio, revista

    Autor: Fernando Guimares

    Edio: Imprensa Nacional-Casa da Moeda

    Concepo grfica: Departamento Editorial da INCM

    Capa: Vitral, desenho de Correia Dias

    Tiragem: 1000 exemplares

    Data de impresso: Novembro de 2004

    ISBN: 972-27-1255-1

    Depsito legal: 218 281/04

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    O MODERNISMOE A TRADIO DA VANGUARDA

    Entre ns, o surto da Vanguarda literria est, sem dvida,relacionado com o aparecimento do movimento modernista, so-bretudo a partir da publicao em 1915 da revista Orpheu. A sefaz sentir, realmente, uma violncia no campo expressivo quemuito contribuiu para uma essencial subverso de formas. Talmovimento acabou por pr em questo os processos de expres-so tradicionais, os quais se dirigiam a um pblico de gostoconservador os lepidpteros burgueses, como lhes chamaMrio de S-Carneiro , que logo denunciar como loucura oque esses escritores iam realizando. Mas a nfase posta polemi-camente nesta subverso concorreu tambm para esquecer asmuitas linhas que unem tal movimento a uma renovao que,por volta de 1890, os poetas simbolistas anunciavam e, em al-guns aspectos, conseguiram efectivamente realizar.

    Com efeito, o Modernismo, enquanto designao de um pe-rodo que a si mesmo se referencia num tempo que afinalprojectivo, representa na histria da literatura um momento quecorresponderia conscincia de uma ruptura total. A apreensodessa ruptura talvez advenha de uma vocao especial para emitirjuzos de valor, atravs daquela atitude polmica a que nos re-ferimos e que se poderia tornar to provocatria como a dofora tu atirado s mais destacadas figuras literrias do seutempo por lvaro de Campos, no Ultimatum.

    Mas h um certo perigo em confundir esses juzos de valorcom a tal ruptura que, visvel na sua aparncia cultural, acabariapor no existir como algo que se demarcasse em termos absolu-tos. Julgava-se, afinal, como totalidade isolvel o que era ummomento o momento de uma superadora diversidade dacontinuidade aberta por um certo discurso. Neste caso, aquilo

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    que era entendido como ruptura poder ser entrevisto em ter-mos de sutura 1.

    Com efeito, a palavra continuidade pode ser entendida, rela-tivamente produo literria, em dois sentidos bem diferen-tes. Por um lado, significaria algo que aplainaria a prpria rea-lidade textual ao nvel de um denominador comum de naturezatemtica ou estilstica. Por outro lado, apontaria para a realiza-o de uma leitura renovada dos textos, aferida por um discur-so que acaba por se tornar homlogo e que era capaz, no deencontrar, mas, antes, de lhes propor uma identidade na suadiferena real.

    Entendendo-a quanto ao primeiro dos dois sentidos aquireferenciados, seria a palavra continuidade a mais adequada para

    1 Se se considerar a crtica francesa, sobretudo a partir da publicao deDe Baudelaire au Surralisme, de Marcel Raymond (e, com uma repercussomenor, de Le Dynamisme de lImage dans la Posie Franaise, de Marc Eigeldin-ger), verificar-se- que h tendncia para referir a poetas ligados ao movi-mento simbolista a criao de condies que conduziriam a uma expressoliterria que se afirmou em termos de modernidade ou de vanguarda. Esteponto de vista no deixa de estar implcito quando Julia Kristeva, em LaRvolution du Langage Potique, considera que tal revoluo, assumida pelavanguarda do sculo XX, comeara j a ser praticada por Mallarm e Lautra-mont. Octavio Paz, em Los Hijos del Limo, ao partir do pressuposto de queo moderno uma tradio, considera que as vanguardas do incio do s-culo XX no representariam uma ruptura em relao tradio literria, so-bretudo que, provindo do Romantismo ingls e alemo, veio a confluir noSimbolismo francs. Entre ns, Feliciano Ramos, em Eugnio de Castro e a PoesiaNova (1943), comeou a apontar traos comuns no Simbolismo dos anos 90 eno Modernismo. Mas foi Pedro da Silveira quem, de uma maneira mais ex-plcita, veio chamar a ateno para o enraizamento desse Modernismo napoesia simbolista (a ponto de afirmar: em vez de 1915, 1889 poderia, at,com bastante justeza, classificar-se de Ano I do Modernismo Portugus;cf. Um simples apontamento, in Vrtice, n.o 228, Setembro de 1962). Recen-temente, Jos Carlos Seabra Pereira (em Decadentismo e Simbolismo na PoesiaPortuguesa, 1975, p. 458) refere-se ao prolongamento do Decadentismo e doSimbolismo no nosso Modernismo. Com uma inflexo diferente, anote-setambm o ponto de vista de Joo Gaspar Simes (em Literatura, Literatura,Literatura, 1964, pp. 253-256), que, sob uma forma hipottica, admite a in-fluncia do Simbolismo brasileiro apreendido especialmente por LusMontalvor, quando esteve no Brasil na transio do Simbolismo para oModernismo nas letras portuguesas. Mas num ensaio anterior, includo emO Mistrio da Poesia (1953), Gaspar Simes admite tambm a influncia dasprimeiras obras de Eugnio de Castro na formao da mentalidade artsticados primeiros modernistas do Orpheu (2.a ed., p. 123).

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    que se pudesse falar, ao considerar-se a histria da literatura,em precursores e em heranas. E esta pista no deixa de estar pre-sente em alguns bons crticos e historiadores de poesia, comoacontece em C. M. Bowra no seu livro significativamente intitu-lado The Heritage of Symbolism, onde se estuda tal herana napoesia de alguns modernos europeus.

    Se considerarmos, todavia, o outro sentido, expressaramospor continuidade a impossibilidade de fechar a realidade dos tex-tos literrios em unidades histricas, porque estas como que sedesagregariam perante um discurso superior que seria o que seprojectava a partir da leitura capaz de criar, pelo seu exerccio,uma identidade fundamental, onde no faz sentido sequer falarem passado ou futuro, isto , nos tais precursores e nas taisheranas que conduziriam a uma espcie de sntese continustatalvez pouco fecunda.

    Esta ocasio de leitura, onde h um certo apelo liberdadee ao prazer de reler, poder ser encontrada na ausncia de umaruptura radical e profunda entre os campos da linguagem quesimbolistas e modernistas por caminhos diferentes conquistaram.Com efeito, e inadequadamente, o Simbolismo portugus foidurante muito tempo analisado fora da configurao dos novoscampos de realizao expressiva ou formal que criou, pela ten-dncia manifestada pela generalidade dos crticos de, por umlado, aproximarem demasiado da gerao de 1915 a obra deCamilo Pessanha e ngelo de Lima e, por outro, de no valori-zarem os chamados nefelibatas Eugnio de Castro, Antnio deOliveira-Soares, D. Joo de Castro, Jlio Brando, Henrique deVasconcelos, etc. em funo de uma real modernidade da suapoesia, cuja leitura, alis, se tornar mais adequada se for pro-vocada pela que fizermos de um modernismo que lhe foi poste-rior sem que dele se tornasse uma banal herana.

    Entre os nomes anteriormente citados, torna-se oportuno darespecial relevo, devido sobretudo a uma certa desfocagem quanto posio que ocupa na nossa literatura, a ngelo de Lima. Tra-ta-se de um poeta que, ao lado de Antnio Nobre e CamiloPessanha, se revelou como uma das mais importantes e origi-nais figuras do nosso Simbolismo, embora a parte mais signifi-cativa da sua obra tenha comeado a ser publicada na segundadcada do sculo XX.

    Nascido em 1872, apenas cinco anos mais novo que Ant-nio Nobre e Camilo Pessanha, que nasceram no mesmo ano(1867), e trs anos mais novo que Eugnio de Castro (1869); em

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    relao a Antnio Patrcio e Joo Lcio que dele esto maisprximos pela publicao ou situao da sua obra , maisvelho, respectivamente, seis e oito anos. Por se ter tornado em-blematicamente nosso, como diria Fernando Pessoa, em rela-o gerao do Orpheu, tem sido ngelo de Lima em demasiacolado aos poetas dessa mesma gerao, embora uma mais justaapreciao da sua obra nos permitisse aproxim-lo antes dos sim-bolistas. Alis em poucos poetas portugueses foi levado to longeo modo de privilegiar os significantes, a significao divergenteou plurissignificao, um nsito sentido gnsico, a compreensosimblica anteposta explicitao temtica caractersticas queno deixam de demarcar o Simbolismo em relao ao Deca-dentismo. E este facto ainda mais valorizar a obra simbolista(e, liminarmente, de vanguarda) que devemos a ngelo deLima 2, sabendo-se como o Decadentismo est prximo de umasentimentalidade sub-romntica que, no raro sem grande ori-ginalidade, se espalhou ou generalizou muito mais entre ns 3.

    Alis, tanto o Decadentismo como o Simbolismo tm sidopor vezes incorrectamente valorizados. Na sua generalidade, odesinteresse quanto ao estudo deste perodo resulta de duasrazes. Uma delas provm de os seus crticos ainda hoje se fi-xarem, no raro, na iluso normativa que consiste em duvidardo bom gosto que a generalidade destes poetas teriam (e que,certamente, alguns deles no passaram a ter quando, mais ou

    2 Efectivamente a poesia de ngelo de Lima ir merecer o interesse, nos, como j se disse, dos poetas do Orpheu, mas tambm do mais recentemovimento dos nossos concretistas. Numa antologia que acompanha PoesiaExperimental, I (1964), encontra-se um seu soneto, Eddora addio Miasoave!; no captulo A modernidade como pesquisa, E. M. de Melo eCastro analisa alguns aspectos da poesia de ngelo de Lima, usando comoexemplo o mesmo poema (O Prprio Potico, 1973, p. 54).

    3 A nossa poesia a partir do Romantismo est cheia de meandros, desolues de continuidade que parecem ser o resultado de se no ter total-mente realizado entre ns e em devido tempo uma autntica poesia romn-tica, como, na Alemanha e na Inglaterra, exemplarmente aconteceu. Essetempo literrio como que retomado atravs de uma evoluo, por vezescheia de equvocos, cujo ponto de partida poderia ser procurado em Anterode Quental e, passando por poetas para-simbolistas, chegaria a um Teixeirade Pascoaes ou, melhor, sua fase inicial, que encontra um dos momen-tos mais altos e conseguidos nas primeiras edies de Sempre, nomeadamen-te a segunda (1902), onde se ressalva o que h de incipiente no seu primeiro(e renegado) livro Embries (1895).

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    menos arrependidos, desvalorizaram com o assentar dos anosos momentos mais polmicos da sua poesia). Estaria a outrarazo na acusao feita a decadentistas e simbolistas de seremto-s formalistas, puros defensores da arte pela arte, em facede uma poesia de interveno ou empenhamento cuja nfase seprolonga de Junqueiro ao Neo-Realismo tpico dos anos 40.

    No entanto, uma leitura mais rigorosa da poesia finissecularj estava prometida nas to lcidas pginas de Fernando Pes-soa, publicadas em 1912 na revista A guia, sobre A nova poe-sia portuguesa Talvez no haja mesmo demasiada audciaem se fazer uma abordagem dessas pginas como se de umamais vasta reflexo se tratasse para alm de o ser quanto poesia saudosista ou, nas suas entrelinhas, que Pessoa come-ava a realizar, na sua fase palica , pois parece apontar parao que a prpria poesia efectivamente enquanto realidade ver-bal ou expresso. Esta oscila entre dois plos: o da subjectividadee o da objectividade. Da a necessidade de estabelecer entreeles uma mediao ou equilbrio (que poder ser o conseguidopela intelectualizao das emoes e a emocionalizao das ideias,como Fernando Pessoa sugere), de modo que a presena subjec-tiva do autor, mesmo que ela se revele distanciadamente pelasua fala ou estilo, recue para o plano do texto, como acontecequando na poesia pessoana se recorre despersonalizao hete-ronmica ou ao fingimento, no deixando este ltimo de retomaro valor dramtico dessa despersonalizao heteronmica, emborao heternimo se apresente aqui simplesmente como annimo.

    No manifesto intitulado Ultimatum, Fernando Pessoa-l-varo de Campos faz um apelo para que tanto a violncia estti-ca como os poderes da linguagem no acabem por se incarnarna prpria individualidade ou voz nica do poeta. Isto adviria,como afirma, da abolio do dogma da personalidade. Assim, afastada a tentao de o escritor exprimir o que sente, pas-sando a sentir por um certo nmero de Outros. Talvez estejaaqui uma das mais fascinantes aventuras da vanguarda literriaportuguesa, a qual, como veremos, se manifestou atravs de doisaspectos bem diferentes. Um representa a transformao dopoeta, neste caso Pessoa, em toda uma literatura graas cria-o dos seus trs mais significativos heternimos que, com Fer-nando Pessoa ele mesmo, constituiro o poeta pulverizado ereunido na sua alteridade; o segundo aspecto consistir na in-teno manifestada pela gerao modernista de uma diversifica-o de opes literrias que constituem verdadeiros embries

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    de correntes literrias, todas elas divididas entre um fundo co-mum simbolista e a influncia mais recente do Futurismo: o sen-sacionismo, o paulismo e o interseccionismo. curioso notar, toda-via, que j em 1915 Pessoa considerava alguns destes movimentoscomo quase-blague, o que contrasta significativamente com ovalor jamais desmentido que reconheceu produo heteron-mica.

    Tem-se considerado em geral essa verdadeira intervenopotica de um sujeito plural ou drama em gente assim lhechamava Pessoa como um dos aspectos mais originais quepermitem compreender a nossa vanguarda, sobretudo pelo fac-to de nos conduzir liberdade de experimentar no domnio daprpria linguagem.

    Ficaram, assim, abertas novas possibilidades para uma se-gunda vanguarda que s viria a surgir depois de um perodointervalar que corresponde aproximadamente ao tempo que de-corre entre os anos 20 e 40, nos quais se assiste ao desenvolvi-mento de uma orientao literria que oscila entre o prolonga-mento da experincia ps-simbolista ou modernista e a aceitaode uma tradio que, de certo modo, regressa ao romantismopelos caminhos longamente traados a partir de 1910 pelo mo-vimento saudosista. Ser esta a orientao, onde h uma certatnica de conservantismo esttico, da maioria dos poetas e es-critores que ficaram ligados revista Presena e, na passagemdos anos 30 para os 40, ao movimento neo-realista.

    Com efeito, s na dcada de 50 uma nova viragem se dese-nhar. Para isso contribuiu a irrupo, alis tardia em Portugal,do movimento surrealista. A complexidade perseguida pelos pre-sencistas no campo psicolgico transformar-se-, com o Surrealis-mo, em complexidade da prpria funo imaginativa, a qual,em parte sob o seu impulso, se h-de converter, ao acompa-nhar as derivas da escrita, num discurso assumidamente trans-gressivo, marcando, assim, o aparecimento de uma nova van-guarda que se fixa num experimentalismo conseguido mediantea fuga ao estatuto das formas ficcionais ou, como acontece so-bretudo na poesia, do campo unilateralmente significativo dalinguagem.

    Foi Eduardo Loureno quem, no surto deste m...

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