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Projecto desenvolvido no ambito da unidade curricular de Estudos de Design

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  • 5PREFCIO

    BRUNO ALMEIDA

    7A IGREJA SIZA VIERA

    13A LEITURA

    DA CIDADE PELOS SEUS SMBOLOS GRFICOS

    MARGARIDA FRAGOSO

    17A LETRA

    ENQUANTO OBJECTO DE ESTUDO JORGE DOS REIS

    25A POLARIZAO

    DA AMBIGUIDADE HEITOR ALVELOS

    29O CIRURGIO INGLS

    EDUARDO CRTE-REAL

    37MODOS DE VER

    O ESPAO JOO PALLA

    41FOTOGRAFIA

    DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO

    PEDRO BANDEIRA

    47HISTRIAS

    DE UMA MALAVASCO PINTO

    53NOTAS SOBRE

    PROJECTOS, ESPAOS, VIVNCIAS

    LIZ RAMALHO E ARTUR REBELO

    59DESIGNERS: ENTRE

    CTICOS E DOGMTICOS

    DIOGO DANIEL CASAS

  • 5Nascido a vinte e quatro de agosto do mil novecentos e oitenta e nove, na pacata freg-uesia de Caldas de So Jorge, eu, Bruno Filipe Pereira de Almeida, filho de Fernando Gomes de Almeida e Maria Magalhes Pereira, venho por este meio tornar pblica uma obra que me car-acteriza, quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista existencial.

    Actualmente a terminar a Licenciatura em Design de Comunicao na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, decidi publiciar a presente obra como forma de recordar o per-curso que realizei at ento. Este periodo repre-senta, ao mesmo tempo, o final de um cclo e o incio de um outro.

    Ao longo da obra sero abordadas diversas questes directa ou inderectamente ligadas ao Design, uma vez que essa uma das reas pela qual me interesso mais afincadamente.

    PREFCIOBRUNO ALMEIDA

    Em TEN AUTHORS, TEN IDENTITIES procurei re-unir uma basta colectnea de textos cujos temas abordados so os mais variados assim como os autores que os redigiram. Alm de apresentar dez autores diferentes, a presente obra pretende identificar dez identidades.

    A escolha dos diferentes temas e autores tem uma relao directa com histrias, contos ou passagens ou experincia pelas quais, ao longo dos ltimos quatros anos, tive a oportunidade de tomar conhecimento. Em certa forma estas apre-sentam patentes algumas das premissas pelas quais diariamente guio os meus destinos

    Por IDENTIDADE entendemos o conjunto de caracteres prprios e exclusivos com os quais se podem diferenciar pessoas, animais, plantas e objetos inanimados uns dos outros, quer di-ante do conjunto das diversidades, quer ante seus semelhantes.

  • 7A igreja para marco de canaveses, s uma parte de um conjunto religioso que prev ainda um au-ditrio, a escola de catequese e a habitao para o proco. A visita ao local pr-escolhido tinha-me perturbado profundamente: era um local dific-limo, com grandes diferenas de cota, sobran-ceiro a uma estrada com muito trfego. Como se no bastasse, aquela zona estava marcada por edifcios de pssima qualidade. A construo deste centro paroquial por isso e tambm a construo de um lugar, em substituio de uma escarpa muito acentuada.

    A igreja articula-se em dois nveis: um su-perior, da assembleia, e um inferior, da capela morturia. Como mostram os percursos de aces-so s duas cotas, trata-se de espaos com car-actersticas decisivamente diferentes. A capela morturia quase a fundao da prpria igreja: cria uma cota estvel, fixa, para que a igreja possa apoiar-se. Alm disso, com os seus muros de granito e o claustro, estabelece a distncia em relao estrada. Esta plataforma habitada devia portanto surgir como uma natureza con-

    A IGREJA SIZA VIERA

    struda. Mas muito importante tambm a co-locao, defronte do acesso principal, do centro paroquial e da residncia do proco. Estes vol-umes definem um grande U que se contrape ao pequeno u formado pelas duas torres, a do campanrio e a do baptistrio. Cria-se, assim, o espao necessrio para o grande volume vertical da fachada. Ao mesmo tempo, toma-se possvel uma relao com as construes de pequena es-cala que circundam esta acrpole. Fica, assim, demarcado o adro.

    A referncia inicial foi uma construo pr-existente, uma residncia para a terceira idade, de uma arquitectura correcta e ordena-da, situada na cota superior da escarpa e com uma extenso muito significativa em relao estrada. A partir deste novo nvel, tudo o resto se foi articulando, reagindo complexidade das construes existentes e permitindo finalmente a criao de um adro, aberto sobre o belssimo vale de Marco de Canaveses. Esperemos que novas construes no se venham a encostar s pssimas que j l existem e se mantenha a

  • abertura sobre o vale, que essencial. A prpria grande porta da igreja, com os seus dez met-ros de altura, tem razo de existir exactamente em relao a esta vastssima vista. A entrada faz-se, normalmente, atravs de uma porta de vidro, debaixo da torre da direita, enquanto a porta grande s aberta em circunstncias especiais. Depois do movimento lateral de en-trada, tem-se a percepo de uma janela baixa e comprida, do lado direito, que permite ainda a vista para o exterior. Naquele instante, no se sente a luz difusa que chega das altas aber-turas na parede curva e inclinada, esquerda: vem-se, ainda e imediatamente, o vale e as construes em frente. A janela contradiz o ambien-te de recolhimento a que estamos habituados numa igreja e por este motivo gerou polmicas.

    O mesmo se deu com a colocao da esttua da Virgem, que quase to alta como os fiis e no est assente em pedestal. Todavia curiosamente, um telogo, muito esti-mado no Porto elogiou o respeito pelos actuais princpios da liturgia, que acentuam a funo de mediao da Virgem entre Deus e os homens e por consequncia entre os homens. De facto a es-ttua da Nossa Senhora tem uma posio in-termdia: colocada na extremidade da janela e sujeita a uma luz muito intensa, introduz ao espao do altar, que quem entra no nota imediatamente. Trs degraus elevam o plano da celebrao, que conclui com duas portas, pelas quais entra uma luz clara, filtrada por uma alta chamin. Esta disposio dialoga com o banho de luz sobre as formas curvas dos limites laterais da abside e sobre o espao

    da igreja em geral. A iluminao natural varia com o tempo, dependendo da posio do Sol, e vai desde a projeco do desenho do raio de luz at ao silncio da asperso: um grande intervalo, rigoroso e palpvel. A montagem de todos os elementos , evidentemente, coer-ente. Todavia esta ordem, caracterizada por algumas contradies existentes e desejadas, foi construda de maneira lenta e laboriosa. No houve ideias pr-definidas, dadas a prio-ri. Aquilo que agora legvel o resultado da decantao de determinadas ref lexes sobre o espao, hoje to difcil, da igreja. Esta dificul-dade devida a uma srie de importantes

    alteraes na liturgia: pense-se na celebrao da missa, que agora encontra o sacerdote virado para a assembleia e j no de costas. Uma tal mudana transforma por completo o carcter da celebrao e anula o sentido de or-ganizao espacial tradi-cional, nas suas vrias formas e na sua lenta e permanente evoluo. Ao mesmo tempo, esta nova condio no justifica a interpretao da igreja como auditrio. A quase totalidade dos projectos recentes no aprofunda devidamente este as-pecto. Era indispensvel,

    por conseguinte, uma ref lexo sobre as novas condies, poderamos dizer funcionais, do espao da igreja. E no entanto as discusses com os telogos puseram em evidncia a con-tradio que envolve hoje as diversas inter-pretaes. Trata-se, por isso, de um programa instvel, ainda por resolver. Todavia era evi-dente a necessidade de criar uma projeco do celebrante, uma comunho com a assembleia, sem que, inevitavelmente, se criasse aquela

    O TRAADO DO PERCURSO QUE, NO PISO INFERIOR,

    LIGA O EXTERIOR CAPELA MORTURIA O RESULTADO

    DO ESTUDO DAQUILO QUE ACONTECE NESTES

    ESPAOS

    LVARO JOAQUIM DE MELO SIZA VIEIRA NASCEU A 25 DE JUNHO DE 1933 EM

    MATOSINHOS TENDO GANHO, EM 1992, O PRMIO PRITZKER.

    CIZA VIERIA ESTUDOU, ENTRE 1949 E 1955, NA ESCOLA SUPERIOR DE BELAS ARTES DO

    PORTO, ONDE LECIONOU ENTRE OS ANOS DE 1966 A 1969, VOLTANDO

    POSTERIORMENTE EM 1976

  • 9distncia prpria de qualquer auditrio. Por esta razo propus, para a abside, curvaturas j no cncavas mas antes convexas. E tambm neste caso no se trata de uma ideia pr-con-cebida, imediatamente derivada da variao da liturgia: uma intuio, nascida de uma srie de exigncias, entre as quais a necessidade de conservar a relao entre os objectos e os movi-mentos que fazem parte da celebrao.

    No espao em volta do altar existe uma srie de elementos que participam no ritual: o ambo, o prprio altar, o sacrrio, as cadeiras dos cel-ebrantes e a cruz, os quais lentamente tomaram corpo e definiram depois o espao, no respeito pelos movimentos, pr-estabelecidos, da missa. Assim a igreja adquiriu forma como uma escul-tura em negativo, na qual se foram estabelecen-do relaes de continuidade e de tenso entre as vrias partes.

    O traado do percurso que, no piso inferior, liga o exterior capela morturia o resultado do estudo daquilo que acontece nestes espa-os. Foi determinante, na realidade, o conhe-cimento do significado do funeral na regio do Minho. Quando visitei o maravilhoso cemitrio crematrio do arquitecto holands Pieter Oud, tive a possibilidade de assistir a uma cerimnia fnebre. Verifiquei que a atmosfera e a rela-o das pessoas so decisivamente diferentes do que acontece em Portugal. Aqui, durante o funeral, a famlia e os amigos ntimos esto muito prximos do defunto, enquanto muitas outras pessoas, vizinhos e conhecidos, seg-uem a uma certa distncia, naturalmente com menor dor e emoo. Tomou-se por isso ne-cessria uma sequncia de espaos com carac-tersticas diferentes. E tambm por esta razo pensei num claustro, em que as pessoas vo fumar, conversar ou eventualmente, por que no, tratar de negcios: uma maneira de re-agir quele relativo desconforto determinado pelo encontro, to directo, com o problema da morte. Esta reaco dor no se encontra, por exemplo, nos funerais na Holanda, durante os quais domina o silncio total.

    Ao claustro segue-se uma primeir