Tese Doutorado Sobre Clarice Lispector

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    10-Jul-2015

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EDGAR CZAR NOLASCO

RESTOS DE FICO:A CRIAO BIOGRFICO-LITERRIA DE CLARICE LISPECTOR

EDGAR CZAR NOLASCO

RESTOS DE FICO:A CRIAO BIOGRFICO-LITERRIA DE CLARICE LISPECTORTese de doutorado apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Letras Estudos Literrios, como requisito parcial para a obteno do ttulo de Doutor em Letras: Literatura Comparada. Orientadora: Profa. Dra. Maria Zilda Ferreira Cury

Faculdade de Letras da UFMG Belo Horizonte 2003

Tese de Doutorado aprovada pela banca examinadora constituda pelos professores:

__________________________________________ Profa. Dra. Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG) Orientadora

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__________________________________________ Profa. Dra. Maria Zilda Ferreira Cury Coordenadora do Programa de Ps-Graduao em Letras: Estudos Literrios FALE/UFMG

Belo Horizonte, ....... de ........................ de 2003

AGRADECIMENTOS

Profa. Maria Zilda F. Cury, pela orientao segura e amizade constante, com gratido. Professores Doutores da Banca Examinadora, pela leitura crtica, obrigado. Fernando Paiva e Marcos de Oliveira, pela amizade incondicional, sempre. Programa de Ps-Graduao em Letras: Estudos Literrios, na pessoa da Coordenadora, Profa. Dra. Maria Zilda F. Cury. Agradecimento Especial vai para Letcia. Alda Lopes Dures Ribeiro, amiga e decifradora incansvel de meus restos manuscritos. Profa. Dra. Eneida Maria de Souza, pelas disciplinas do Doutorado que nortearam minha pesquisa, pela carta presenteada e sobretudo pela amizade. CNPq, pela concesso de bolsa para a realizao da pesquisa.

RESUMO

A relao entre vida e obra de Clarice Lispector motivou e conduziu esta pesquisa. Valendo-se da visada mais contempornea da crtica biogrfica, a tese toma como ponto de partida o romance de estria da autora, Perto do corao selvagem, para investigar os meandros e restos textuais que vo constituir o projeto literrio clariciano.

SUMRIO

INTRODUO QUANDO A VIDA VIVE NA FICO ............................. CAPTULO 1 PERTO DO CORAO SELVAGEM E A CRTICA .............. 1. Perto do corao selvagem longe da crtica ................................................... 1.1. Mais perto de Clarice .................................................................................... CAPTULO 2 CLARICE E A CRTICA BIOGRFICA ............................... 1. A escrita biogrfica de Clarice ........................................................................... 2. As relaes literrias de Clarice ...................................................................... 2.1. Clarice e Lobato: as reinaes de uma leitora perversa ............................... 2.2. Clarice e Autran Dourado: a cumplicidade pela literatura ........................... 2.3. Clarice, Katherine e Virginia: a escrita do xtase ........................................ 2.3.1. O amor leitura ......................................................................................... 2.3.2. Leituras traduzidas ..................................................................................... 2.3.3. Clandestina felicidade da leitura ............................................................... CAPTULO 3 CLARICE E A TRANSMIGRAO TEXTUAL ................. 1. Nos limiares da vida e da fico ...................................................................... 2. As crnicas alheias .......................................................................................... 3. As folhas soltas do texto .................................................................................. 4. Outras pginas soltas .......................................................................................

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CONCLUSO PARA ALM DOS RESTOS ................................................. 225 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ............................................................... 231

O resto o resto eram sempre as organizaes de mim mesma, agora sei, ah, agora eu sei. O resto era o modo como pouco a pouco eu havia me transformado na pessoa que tem o meu nome. E acabei sendo o meu nome. Clarice Lispector. A paixo segundo G. H.

INTRODUO QUANDO A VIDA VIVE NA FICO

(Uma vida: estudos, doenas, nomeaes. E o resto? Os encontros, as amizades, os amores, as viagens, as leituras, os prazeres, os medos, as crenas, os gozos, as felicidades, as indignaes, as tristezas: em uma s palavra: as ressonncias? No texto mas no na obra.) Barthes. Roland Barthes por Roland Barthes.

Antes de Clarice Lispector se chamar Clarice, seu nome foi Haia, que em hebraico significa vida.1 A pequena que nascera trazia em seu nome a esperana de um futuro melhor para a famlia judia que emigrava pelo mundo e tambm a promessa de curar sua me de doena. Se a esperana se cumpriu com a famlia chegando e se instalando em terras brasileiras, o mesmo no aconteceu com a me, que fica cada vez mais enferma, vindo a falecer poucos anos depois. Foi no Brasil que a menina recebeu o nome de Clarice. A partir da tudo foi feito de forma tal que aquele passado fosse esquecido, aquela condio de famlia nmade fosse apagada, ou pelo menos foi assim que Clarice agiu: no se tem notcia de que ela tenha confessado ou escrito que seu primeiro nome fora Haia; procurou, a todo custo, esconder sua condio de judia, ou pelo menos no tratou da questo; evitou, o quanto pode, falar de sua me, como forma de esconder algo que a incomodava, como uma culpa; deu inmeras justificativas e explicaes sobre si mesma como forma de esconder seu estrangeirismo, como, por exemplo, o fato de ter lngua presa. Entretanto, nada disso adiantou muito: o fato de pertencer quele passado fez com que o mesmo continuasse ensombrando sua vida e sua escrita, por meio de algumas imagens e gestos da autora que acabaram tendo efeito contrrio. A questo da culpa/da me um exemplo de imagem do passado inscrito no presente da escrita.

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Cf. FERREIRA. Eu sou uma pergunta, p. 26.

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A culpa se torna uma temtica recorrente de fundo da escrita de Clarice. Seu conto Resto do Carnaval um exemplo dessa temtica biogrfico-literria. Nele, lem-se passagens como esta:o jogo de dados de um destino irracional? impiedoso (...) minha me de sbito piorou muito de sade, um alvoroo repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remdio na farmcia. (...) Na minha fome de sentir xtase, s vezes comeava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha me e de novo eu morria.2

O conto, a escrita do conto, assim, nos levam a inferir que a escritora, adulta, retoma o cotidiano daquela menina alegre, aquela infncia cortada por um carnaval to melanclico (eu era to alegre que escondia a dor de ver minha me assim.) como forma de mostrar para si mesma que est curada daquela culpa irremedivel. Talvez a escrita exera exatamente este papel: o do reparo dos restos, das perdas.3 Na crnica Pertencer, ao falar de seu novo estado de solido de nopertencer (apesar de reconhecer que pertence literatura brasileira por motivos que nada tm a ver com literatura), Clarice mostra-nos, mais uma vez, o quanto seu nascimento est intrinsecamente ligado sua culpa: s que no curei minha me. E sinto at hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma misso determinada e eu falhei.4 Sua escrita, por conseguinte, de certa forma, busca redimi-la dessa misso falhada, quando deixa entrever que a culpa (sentida na vida) serve como que de estofo para a fico: pudesse eu um dia escrever uma espcie de tratado sobre a

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LISPECTOR. Felicidade clandestina, p. 26.

Escrever desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor um desequilibrado que utiliza essas fices que so as palavras para se curar. Quantas angstias, quantas crises sinistras venci, graas a esses remdios insubstanciais! (CIORAN. Exerccios de admirao, p. 124) LISPECTOR. A descoberta do medo, p. 153.

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culpa. Como descrev-la, aquela que irremissvel, a que no se pode corrigir? (...) A culpa em mim algo to vasto e to enraizado que o melhor ainda aprender a viver com ela.5 Na esteira da pergunta de Clarice, reiteramos que pelo menos uma parte de sua escrita trata basicamente do trabalho de descrever essa culpa mesmo que saiba de antemo que ela incurvel e se no de corrigi-la, pelo menos de torn-la mais suportvel para a prpria autora. Ou seja, a escrita, enquanto exerccio de cura, porque escrever estar em anlise, torna possvel que a escritora aprenda a viver com a culpa6 e, em parte, a escrita de Clarice representa, metaforicamente, uma espcie de tratado sobre a culpa. De um modo geral, a figura da me na escrita clariciana inabordvel, esttica, morta e, no entanto, sempre to presente. Exemplo significativo dessa imagem encontra-se no conto Os desastres de Sofia, de matria eminentemente biogrfica, onde a menina de nove anos encontra-se totalmente desamparada diante da figura do professor: mas meu passado era agora tarde demais. (...) meu pai estava no trabalho, minha me morrera h meses. Eu era o nico eu.7 Mas talvez ainda o melhor exemplo seja o ttulo do terceiro captulo do romance Perto do corao selvagem. Esse captulo tinha originalmente como ttulo ...A me.... A partir da terceira edio, passou a chamar-se ... Um dia.... Consideramos que tal mudana foi uma interveno da prpria Clarice.8

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LISPECTOR. A descoberta do medo, p. 312. A crnica chama-se Aprender a viver. LISPECTOR. A legio estrangeira.

Marlene Gomes Mendes, na reviso que fez do livro, mesmo reconhecendo que a mudana foi feita pela autora, opta por manter o texto da primeira edio, o que, de nosso ponto de vista, parece discutvel. (Cf. MENDES. Not