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Revista ANTHROPOLGICAS, ano 11, volume 18(2):49-74 (2007)

Expresses contemporneas de festas e santos catlicosLuciana Chianca1

Devoo e diverso:

ResumoDe origem europia, a festa junina recuperou no Brasil a sua expresso de festa laica e popular, mesmo com a influncia da Igreja Catlica desde sua colonizao no sculo XVI. Ligada ao poder coercitivo do Estado, a Igreja catlica no aniquilou experincias religiosas cotidianas e muito particulares aos fiis. Em Natal (RN), cidade do Nordeste, percebemos como alguns rituais contemporneos de origem eclesistica foram ressignificados pelas culturas locais, gerando tradies particulares da festa que se exprimem de modo solene ou jocoso, mas revelando sempre a presena dessa religiosidade nas prticas festivas e quotidianas dos citadinos. Palavras-chave: festas juninas, So Joo, catolicismo, ritual, sociabilidade urbana.

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Professora Assistente do Departamento de Antropologia, UFRN/CCHLA, Campus Universitrio Lagoa Nova 59072-970 Natal (RN). E-mail: luchianca@cchla.ufrn.br. Agradecimentos aos bolsistas Janaina Hallais e Rafael Barros (UFRN).

Revista ANTHROPOLGICAS, ano 11, vol. 18(2), 2007

AbstractThe Brazilian tradition of celebrations in honor of Catholic saints during the month of June (So Joo) has recovered its secular and popular tradition, even under the influence of the Catholic Church since the colonization beginning in the XVI century. Although associated with the coercive power of the Nation, the Catholic Church hasnt annihilated the peculiar daily lives religious experiences of the population. In Natal (Rio Grande do Norte state), it is possible to realize how some contemporary rituals with ecclesiastic origin were re-signified by the local culture. It has generated particular traditions which are expressed in a solemn or playful fashion, revealing the presence of this religiosity in the festive practices of the daily lives of the population. Key words: June festivals, So Joo, Catholicism, ritual, urban sociability.

Para os fins desse artigo2 apresentaremos as comemoraes religiosas relativas ao So Joo (ou ciclo junino) brasileiro que se inicia na vspera do dia de santo Antnio (12 de junho) e se estende at o dia 29 do mesmo ms (dia de so Pedro). O so Joo festejado nos dias 23 e 24, vspera de e dia do santo3. Sabemos que as festas catlicas foram trazidas ao Brasil ainda no sculo XVI pelos padres jesutas como o frei Ferno Cardim (1584) e que a sua aceitao foi imediata pelo contedo esttico dos fogos e fogueiras. Entretanto, como salientou Lima (1961:18), um outro aspecto viabilizou a sua ampla aceitao pela populao brasileira: O So Joo ,2

Esse artigo se origina de uma pesquisa realizada em 2001 sobre a festa aos santos catlicos de junho em Natal e que forneceu subsdios para uma tese de doutorado defendida na Universit Bordeaux 2 em 2004. A perspectiva adotada nesse artigo etnolgica, pois privilegia a anlise dos dados etnogrficos extrados de uma pesquisa de campo que compreendeu observao direta e tambm pesquisa histrica (sculo XX) e da memria local, em Natal (RN) Brasil, no ano de 2001.

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particularmente entre ns, uma festa do lar, da casa, da famlia. uma boa ocasio de reunir a famlia e os amigos mais prximos: nesse aspecto ela possui uma funo sexual bem definida. C. Cascudo (1988:404-6) tambm afirma que a fogueira acesa diante de cada residncia uma responsabilidade familiar, e que essa festa celebrada com abundncia de alimentos, msicas, danas, bebidas e uma tendncia sexual marcada nas comemoraes populares. Assim, o So Joo uma festa coletiva na qual uma comunidade estreita sua identidade atravs de smbolos e prticas que reafirmam este pertencimento. A dimenso e a extenso da rede social o que garante o sucesso da festa. Esse aspecto grupal e identitrio o elemento que permite que essa festa seja considerada por muitos migrantes residentes nas grandes cidades como a ocasio para um retorno s suas localidades de origem4 a tal ponto que quando se aproxima o So Joo alguns trabalhadores preferem se demitir a ter recusados alguns dias de frias segundo Morice (1993). Em Natal, at 2006, as festas do ciclo junino so postuladas por diversas instituies sociais de conotao religiosa, como o noivado, casamento e compadrio, civilizado a sexualidade e a paixo amorosa, constantes dessa festa de unio e associao. Observaremos aqui como essas festas religiosas foram ressignificadas pelos seus atores ao longo do sculo XX na cidade de Natal, e como at o presente a sua expanso envolve uma religiosidade catlica amplamente difundida e partilhada numa sociabilidade cotidiana fundamentada nos vnculos familiares e vicinais. Embora as autoridades eclesisticas locais emitam freqentemente restries ao modo de festejar local, pode-se perceber que para seus atores no existe tenso entre a experincia festiva eclesistica/oficial e laica, sendo ambas acionadas em contextos especficos. Assim, o calendrio festivo dedicado aos santos marcado por momentos alternados de devoo e diverso, com predominncia circunstancial de um ou outro aspecto conforme o momento histrico e a experincia pessoal de cada ator/situao, como veremos a

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Vrios autores discutem essa questo, em geral acessria. Ver Chianca (2006), Estrela (1998), Menezes et al. (1990), Morice (1993), Rigamonte (1999), Santana (1998), Souza (1980).

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seguir. Ao invs de exprimir um paradoxo, essa dualidade presente ao longo da histria dessa festa, como ser explicitado a seguir.

Festa e liturgia junina em Natal no sculo XXNesta cidade desde o incio do sculo XX as festas juninas eram fortemente pontuadas pelos rituais oficiais da Igreja catlica, como revela a presena de temas religiosos na imprensa local. Nestes artigos se discutia o significado religioso das celebraes correntes nesse perodo, sendo as historiografias dos santos (suas histrias exemplares) um dos temas mais presentes. O principal jornal dirio daquela poca, - a Repblica revela como a Igreja catlica tinha um papel importante no seio da dinmica sociocultural da cidade. Entre 1900 e 19205 os trs santos de junho (So Joo, Santo Antnio e So Pedro) eram festejados com missas e procisses, que louvavam o santo Antnio nos dois bairros da cidade, ou seja, Cidade Alta e Ribeira. Este ltimo e o so Joo eram ruidosamente celebrados com missas, novenas e procisso, esta ltima saindo da Igreja do Rosrio6. Apenas So Pedro era festejado de modo mais discreto, aparecendo pouco ou quase nada na imprensa. Mas as festas juninas de ento no se limitavam aos rituais oficiais catlicos: durante esse perodo certos servios da cidade feriavam por causa da festa, como o jornal ele mesmo, que suspendia duas edies dos dias 13 e 23 de junho. A festa profana acontecia tambm em paralelo festa oficial da Igreja e ocupando espaos sociais diferentes. Era freqente que os fiis passassem desta ltima primeira, logo que terminavam os ofcios. A festa tambm profana era celebrada, ento, como um momento de sociabilidade familiar e vicinal, ou seja, nas imediaes e residncias e ultrapassando o espao domestico, indo ocupar as ruas da cidade que, como salienta Martin (1998:348-9) nessa poca ne dispo5

Os anos de 1919 e 1927 no puderam ser cobertos por nossa pesquisa, por causa de uma lacuna nos arquivos de imprensa do Arquivo Pblico Estadual e no Instituto Histrico Geogrfico do Rio Grande do Norte. AR: 26/06/1900. Os jornais locais sero citados por suas iniciais. AR significa A Repblica, TN o Tribuna do Norte e DN o Dirio de Natal.

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saient pas despace intermdiaire entre le priv et le public. Le chemin daccs (calada) ntait quune extension de la maison autant quun lieu privilgi des relations informelles. Ruas e caladas eram o espao de uma sociabilidade festiva convivial que acontecia primordialmente fora de casa. A religiosidade local se exprimia tambm atravs de uma forma literria bastante corrente no incio do sculo XX, os almanaques. Esta literatura particular pouco praticada nos dias de hoje veiculava textos acessveis s famlias letradas da cidade, sugerindo por ocasio da festa alguns ttulos que testemunhavam suas ligaes com a festa, atravs da evocao de sua periodicidade (A Estrella de Junho) ou do alimento de base da festa (A Espiga de milho)7. Os almanaques tambm eram conhecidos como revistas da sorte, pois eram redigidas de modo a satisfazer a demanda prpria das festas de Santo Antnio e So Joo (namoros, noivados e casamentos)8. Assim eles traziam ditados, curiosidades meteorolgicas e astrolgicas, jogos, prosa e poesia nos quais os amores e a fertilidade davam a tnica, tal qual revela o quotidiano local A Repblica (21/05/1905):Casarei? Sers feliz no futuro, dentro em breve casars/ e o teu marido asseguro/ te amar cada vez mais/ disseram-me teus vizinhos/ e teu primo Possidnio/ que, com medo dos sobrinhos/ amarraste o Santo Antonio.

Esse versinho se refere prtica conhecida ainda em nossos dias de impor castigos fsicos ao santo Antonio, o qual nesse caso foi amarrado. Esse costume parte da crena de que o santo achador pode ajudar as7

Editada em Recife pelo Dirio de Pernambuco. O milho verde o alimento tpico deste perodo festivo constituindo hoje um dos seus smbolos. Dos anos 1920 a 19401 circulavam no meio letrado e culto de Natal as ltimas publicaes do tipo almanaque, sendo que A canjica e Milho Verde substituram as antigas A Espiga e Estrella de Junho. Recheadas de poemas, adivinhaes de casamento e temas ligados fecundidade, elas se dirigiam a um publico essencialmente feminino e jovem (alm de solteiro). Segundo Mello Morais Filho (1843), tais publicaes eram bastante consumidas no final do sculo XIX e vrias so citadas em sua obra, como O orculo das damas, Os dados da fortuna e A Roda do Destino.

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