Thompson - Transformação da visibilidade

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JOHN B. THOMPSON

,A MIDIA E A MODERNIDADEUMA TEORIA SOCIAL DA MIDIA

,

Traduo de Wagner de Oliveira Brando

Reviso da traduo: Leonardo Avritzer

28

Edio

"

Y

VOZES EDITORAPetrpolis

1999

4A Transformao da Visibilidade

Hoje ns estamos acostumados a pensar que os indivduos que aparecem em nossos televisores pertencem a um mundo pblico aberto para todos. Podemos sentir certo grau de familiaridade com as personalidades e os lderes polticos que aparecem regularmente na televiso e na rrdia. Podemos at consider-los amigos, e referirmo-nos a eles com certa intimidade. Mas sabemos tambm que eles aparecem diante de milhares ou milhes de outros, que eles so acessveis a muitos outros alm de ns. E por isso, embora possamos ver e ouvir estas celebridades com certa freqnda, muito pouco provvel que alguma vez as encontremos no curso de nossas vidas cotidianas. Estas consideraes so indicadoras do fosso que separa nosso mundo de hoje do mundo que existiu h poucos sculos atrs. Antes do desenvolvimento da mdia (especialmente da mdia eletrnica, como o rdio e a televiso), quantas pessoas puderam alguma vez ver ou ouvir indivduos que detinham posies de poder poltico? Quando a nica forma de interao disponvel para a maioria das pessoas era face a face, quantas poderiam alguma vez interagir com os lderes polticos que as governavam? E como, por sua vez, poderiam os lderes polticos aparecer em pblico, seno diante de um relativamente pequeno nmero de indivduos reunidos no mesmo local? Antes do desenvolvimento da mdia, os lderes polticos eram invisveis para a maioria das pessoas que eles governavam, e podiam restringir suas aparies pblicas a grupos relativamente fechados em assemblias ou a reunies da corte. Mas hoje no mais possvel restringir do mesmo modo a atividade de auto-apresentao. Querendo ou no, os lderes polticos hoje devem estar preparados para adaptar suas atividades a um novo tipo de visibilidade que funciona diversamente e em nveis completamente diferentes. Neste captulo quero explorar esta transformao na natureza da visibilidade e na sua relao com o poder. Tentarei mostrar que ela faz parte de uma evoluo mais ampla na natureza da esfera pblica. Retomarei e seguirei, num rumo um tanto diferente, algumas questes que j surgiram nos captulos 1 e 2. Comearei por considerar a distino entre pblico e privado. Ao distinguir os dois sentidos dicotmicos de pblico e privado (seo 1), podemos reavaliar como o desenvolvimento da mdia109

transformou a natureza do carter pblico (seo 2) e reconstituir a evoluo das relaes histricas entre poder e visibilidade (seo 3). Enquanto a transformao na natureza da esfera pblica criou novas oportunidades para os lderes polticos, ela tambm fez surgir novos riscos; e na seo final irei descrever algumas das novas fontes de preocupao, de gafes a escndalos, que so um permanente risco para o exerCcio do poder na era da visibilidade mediada.

o pblico

e o privado

A distino entre pblico e privado tem uma longa histria no pensamento social e poltico ocidental]. Ela pode remontar aos debates filosficos da Grcia Clssica sobre a vida da polis, quando os cidados se reuniam para discutir questes de interesse comum e criar uma ordem social orientada para o bem comum. A explcita formulao da distino provavelmente deriva dos primeiros desenvolvimentos do direito romano, que separava lei pblica de lei privada, e da concepo romana de res publica. Contudo, no ltimo perodo medieval e no incio da era moderna, a distino entre pblico e privado comeou a adquirir novos significados relacionados em parte com as transformaes institucionais que aconteciam naquele tempo. medida que as antigas instituies cediam lugar s novas, os termos "pblico" e "privado" comearam a ser usados com sentidos novos e, at certo ponto, redefinidos pelas mudanas no campo objetivo a que eles se referiam. Se pusermos em foco o desenvolvimento das sociedades ocidentais desde o ltimo perodo medieval, podemos distinguir dois sentidos bsicos nesta dicotomia; que no esgotam, bvio, os sentidos destes termos polissmicos, mas que destacam algumas formas mais importantes usadas desde o final da Idade Mdia. O primeiro sentido da dicotomia tem a ver com a relao entre o domnio do poder poltico institucionalizado, que cada vez mais era exercido por um estado soberano, por um lado, e o domnio da atividade econmica e das relaes pessoais, que fugiam ao controle direto do poder poltico, por outro lado. Assim, a partir de meados do sculo XVI em diante, "pblico" comeou a significar atividade ou autoridade relativa ao estado e dele derivada, enquanto "privado" se referia s atividades ou esferas da vida que eram excludas ou separadas daquela. Este sentido cobre em parte a distino que foi se evidenciando nos escritos de tericos da poltica e do direito no curso dos sculos XVIII e XIX- isto , a distino entre o estado e a sociedade civil. O termo "sociedade civil" foi usado de muitas maneiras pelos primeiros pensadores modernos, maneiras muitas vezes incompatveis umas com as outras2. O uso mais comum do termo hoje o que se atribui principalmente a Hegel, ou melhor, a uma certa interpretao da filosofia do direito de Hegel, de acordo com a qual a sociedade civil constituda da esfera de indivduos privados, organizaes e classes110

reguladas pelo direito dvil e formalmente distintas do estado. O domnio do privado poderia, ento, incluir a sociedade civil neste sentido, como tambm a esfera das relaes pessoais centradas principalmente, ernbora no exclusivamente, na famlia. bvio que esta larga distino entre o pblico e o privado nunca foi rgida ou definitiva no desenvolvimento histrico das sociedades modernas. A emergncia das organizaes de economia capitalista foi um processo que aconteceu dentro de um conjunto de estruturas jurdicas e polticas que foram estabelecidas e continuamente alteradas pelos estados. As atividades dos estados, por sua vez, foram influenciadas e constrangidas de vrias maneiras pelo desenvolvimento da economia - em particular, pela sua capacidade de aumentar a receita atravs dos impostos. Alm disso, desde o fmal do sculo XIX, as fronteiras entre o pblico e o privado se tomaram cada vez mais tnues. Os estados foram assumindo um papel cada vez mais intervencionista, buscando polticas de controle da atividade econmica e compensando as conseqncias negativas do crescimento econmico. Indivduos se uniram para formar organizaes e grupos de presso com o objetivo de influenciar a poltica governamental. Na verdade, a prpria fronteira entre o pblico e o privado tomou-se um marco importante nos debates polticos quando os governos procuraram redefinir o escopo da atividade estatal, expandindo os servios e investimentos pblicos ou, alternativamente, removendo preocupaes do setor pblico para o privado atravs de privatizaes.

Alguns aspectos desta larga distino entre o pblico e o privado, tal como foi desenvolvida nas sociedades ocidentais ao longo dos sculos XIX e XX, esto resumidos na figura 4.1. O domnio privado inclui organizaes econmicas privadas operando num mercado econmico e visando, de alguma maneira, fins lucrativos, como tambm uma vasta gama de relaes pessoais e familiares que podem ser informais ou formalmente sancionadas pela lei (por exemplo, o matrimnio). O domnio pblico inclui uma srie de instituies estatais e paraestatais: das corporaes legislativas, judiciais polcia, servios militares e secretos, dos servios sociais a uma variedade de organizaes de bem-estar; ele tambm inclui organizaes econmicas de propriedade do estado, como as indstrias nacionalizadas e as empresas de utilidade pblica. Entre os domnios pblico e privado, vrias organizaes intermedirias surgiram e prosperaram nestes ltimos anos. Estas organizaes no pertencem ao estado nem se situam inteiramente dentro do domnio privado. Elas incluem, por exemplo, as instituies no lucrativas de beneficncia e caridade; associaes de benefcio mtuo, como clubes e associaes comerciais: partidos polticos e grupos de presso que procuram articular pontos de vista particulares; organizaes econmicas administradas por cooperativas3 Estas organizaes intermedirias so instituies privadas no estatais em termos de seus estatutos legais, mas elas so juridicamente e operacionalmente distintas das organizaes econmicas privadas de fins lucrativos.111

Figura4.1 Domnios pblico e privado nas sociedades ocidentais contemporneas Domnio privado privadas operando no mercado econmico e Organizaes econmicas visando fins lucrativos Domnio pblico pertencentes ao estado (p. ex. indstrias Organizaes e empresas nacionalizadas econmicas de utilidade pblica)

Relaes pessoais e familiares

Organizaes estatais e paraestatais (incluindo as organizaes de bem-estar social)

Organizaes intermedirias (p. ex. organizaes beneficentes, partidos polticos e grupos de presso, cooperativas, etc.)

Ns podemos, contudo, distinguir um segundo sentido bsico desta dicotomia que emergiu no discurso sociopoltico ocidental. De acordo com este sentido, "pblico" significa "aberto" ou "acessvel ao pblico"4. Pblico neste sentido o que visvel ou observvel, o que realizado na frente de espectadores, o que est aberto para que todos ou muitos vejam ou ouam. Privado , ao contrrio, o que se esconde da vista dos outros, o que dito ou feito em privacidade ou segredo ou entre um crculo restrito de pessoas. Neste sentido, a dicotomia tem a ver com publicidade versus rip vacidade, om abertura c versus segredo, com visibilidade versus invisibilidade. ato pblico um Um ato visvel, realizado abertamente para que qualquer um possa ver; um ato privado invisvel, realizado secretamente atrs de portas fechadas. O segundo sentido desta dicotomia no coincide com o primeiro, mas historicamente h uma complexa e mutvel relao entre formas de governo e visibilidade ou invisibilidade de poder. Nas cidades-estado da Grcia Cl