VISIBILIDADE E DESCRIÇÃO

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  • MARIA DA CONCEIO BAPTISTA MARQUES PEREIRA

    VISIBILIDADE E DESCRIO

    Tese de Mestrado em Teoria da Literatura apresentada Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

    Para obteno do grau de Mestre em Teoria da Literatura

    1999

  • 1

    MARIA DA CONCEIO BAPTISTA MARQUES PEREIRA

    VISIBILIDADE E DESCRIO

    Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

    1999

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    Agradeo a todos os professores que orientaram os seminrios a que assisti durante o Curso de Mestrado, em particular ao Professor Miguel Tamen responsvel pelos Seminrios de Orientao II e III. O meu agradecimento muito especial ao Professor Antnio M. Feij pelo Seminrio de Orientao I e, acima de tudo, por ter orientado esta tese.

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    Este trabalho uma reflexo sobre a visibilidade e a descrio em pintura e em

    literatura e no pretende constituir-se como contributo para a(s) teoria(s) subjacente(s)

    aos assuntos tratados, nem tem como objectivo comparar literatura e pintura.

    A visibilidade pictrica abordada na sua relao com o medium

    deliberadamente mostrado de modo a que a pintura seja vista como pintura e no

    como representao da realidade. No que diz respeito visibilidade literria,

    questiona-se a possibilidade de consecuo do efeito da pintura atravs da literatura.

    Partindo de Big Two-Hearted River de Ernest Hemingway, aborda-se o conceito de

    descrio vvida, tal como implicaes contidas em designaes tais como escrita

    cnica e enunciado pictrico. Assim, tenta perceber-se at que ponto so lcitas

    metforas pictricas para falar de literatura, e igualmente de que modo a terminologia

    literria para falar de pintura usada. Procura definir-se descrio isoladamente e no

    confronto com a narrao, mais extensamente no que diz respeito narrativa literria,

    mas tambm relativamente pintura.

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    This dissertation is the outcome of my reflection on visibility and description

    in painting and in literature. It does not aim at contributing to the many theories

    involved in the issue or at comparing the two arts. Pictorial visibility is dealt with in

    its relation to the medium, when deliberately used to show that painting is to be seen

    as painting and not as a representation of reality. As for literary visibility, the focus is

    on the possibility of achieving the effects of painting by means of literary writing.

    Big Two-hearted River by Ernest Hemingway is used to discuss the concept of

    vivid description as well as the implications brought about by such designations as

    scenic writing or pictorial statement. Thus, the aim is to achieve a clearer

    understanding of the use of pictorial metaphors in literary criticism and the use of

    literary metaphors in art criticism. The attempt is to define description standing on its

    own or in confrontation to narration both in literary narrative and in painting.

  • 5

    NDICE Introduo ..................................................................................................................... 6 Captulo I ...................................................................................................................... 9 Captulo I I .................................................................................................................. 41 Captulo I I I ............................................................................................................... 73 Bibliografia ............................................................................................................... 101

  • 6

    INTRODUO

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    Visibilidade e Descrio o ttulo comum a trs captulos diferentes e

    independentes entre si, e um dos elos que os transforma em partes de um todo com

    alguma coerncia. O primeiro e segundo captulos incidem sobretudo na questo da

    visibilidade. A descrio igualmente um assunto tratado no primeiro captulo,

    enquanto no segundo o conceito usado sem problematizao. O terceiro captulo

    ocupa-se do problema da descrio. O conto Big Two-Hearted River de Ernest

    Hemingway permite igualmente estabelecer uma ligao entre os trs captulos: o

    segundo captulo dedicado a esta narrativa e sua tradio crtica, brevemente

    referida no primeiro captulo e usada como exemplo no terceiro.

    No primeiro captulo tratada a questo de visibilidade pictrica entendida

    como ostentao do medium. Isto , a visibilidade a que se refere o ttulo tem a ver,

    no com a representao enquanto imagem fiel e precisa da realidade em pintura, mas

    com o facto de tornar visvel o meio de representao. O problema da distino entre

    descrever e narrar e o uso da terminologia da literatura para falar de pintura so

    igualmente tratados.

    O segundo captulo parte de uma questo aflorada no primeiro, ou seja, da

    possibilidade de consecuo do efeito de uma arte atravs de outra arte,

    concretamente a produo do efeito da pintura atravs do medium da literatura.

    Implicaes do uso de designaes como descrio vvida, escrita cnica e

    enunciado pictrico so igualmente apresentadas.

    No terceiro captulo a distino entre descrever e narrar problematizada e

    tenta encontrar-se um modo de integrar nesta distino o conceito descrio de

  • 8

    aces, designao usada no segundo captulo, relativamente narrativa a analisada,

    de um modo no problemtico. Descrever e narrar, ou descrio e narrao, so

    termos geralmente usados numa relao que os ope, e a definio feita geralmente

    atravs do recurso ao termo oposto. O isolamento e definio do conceito de descrio

    ocupa uma parte significativa do captulo.

    Decidi no incluir neste trabalho qualquer concluso geral, embora em cada

    um dos captulos se aponte para algumas concluses possveis dos problemas tratados.

    Pretendi apenas problematizar algumas questes relacionadas com a visibilidade e a

    descrio.

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    CAPTULO I

  • 10

    Doesnt one find so many times that the full meaning of a picture i. e., its aesthetic fact is, at any given visit to it, most fully revealed at the very first glance? And that this meaning fades progressively as continued examination destroys the unity of impression? Clement Greenberg

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    Este captulo tem como ponto de partida um artigo de Michael Fried de 1967

    intitulado Art and Objecthood. Central a este artigo a questo do medium em

    pintura, cuja ostentao fundamental na arte modernista e negligenciada pela arte

    literalista. O modo como o observador considerado pelos dois tipos de arte um

    factor igualmente importante para Fried. Para este autor a verdadeira arte, a arte

    modernista, exclui o observador das suas preocupaes.

    A centralidade do medium e a excluso do observador constituem, assim, duas

    caractersticas fundamentais para definir arte modernista cujo iniciador, defende

    Fried, douard Manet. Esta convico leva-o a empreender um projecto de histria

    de arte iniciado com o estudo da pintura francesa da segunda metade do sculo XVIII

    e concludo com o estudo de Manet e que deu origem a dois livros: Absorption and

    Theatricality: Painting and Beholder in the Age of Diderot (1980) e Manets

    Modernism: or the Face of Painting in the 1860s (1996). Entre estes Fried publicou

    ainda um livro sobre Gustave Courbet, Courbets Realism (1990). Os trs livros

    referidos so igualmente objecto de reflexo neste captulo.

    Embora possa parecer inusitada, a incurso na crtica e na histria de arte

    numa tese de teoria da literatura funda-se na presuno de que os argumentos de

    Fried, assim como os de Clement Greenberg, E. H. Gombrich e Svetlana Alpers,

    relativos pintura, contribuem para repensar questes colocadas em relao

    literatura.

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    O conceito de teatralidade abordado por Michael Fried num artigo sobre arte

    minimalista publicado em 1967, intitulado Art and Objecthood.1 Neste artigo, Fried

    estabelece uma relao de oposio entre dois tipos de arte contempornea: a arte

    minimalista, ou literalista como Fried prefere design-la, e a arte modernista, tomando

    o partido da segunda. A teatralidade a noo fundamental que permite ao autor opor

    arte literalista a arte modernista: a primeira aceita e assume a teatralidade que encena

    e suscita, a segunda pretende suspend-la ou mesmo derrot-la. Ao definir teatralidade

    Fried entra em linha de conta com as noes de objecthood2 e de beholder.3 A

    objecthood, caracterstica da arte literalista, consiste em tomar a forma, no como

    medium (da pintura ou da escultura), mas como propriedade dos objectos. Isto , a

    forma encarada literalmente e no na sua qualidade pictrica ou escultrica, como

    forma em si e no como representao de uma forma. A arte literalista aspira a

    descobrir e projectar a objecthood enquanto tal, como se a mediao fosse eliminada,

    ao contrrio da arte modernista cuja inteno suspend-la ou mesmo elimin-la,

    ostentando esta o meio de representao. O que est em causa nos dois modos de

    pensar e concretizar a arte , ento, a maneira como os objectos artsticos so

    experimentados pelo observador (Fried, 1967 [1998]: 151):

    1 Originalmente publicado em Artforum 5, June 1967 (pp. 12-23), voltou a ser publicado, nomeadamente em Gregory Battock (ed), Minimal Art: A Critical Anthology, New York: The University of California Press,