Visus Clarice Lispector - Márcia Fusaro

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    14-Dec-2015

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Artigo acadmico sobre a imagem como visus em Clarice Lispector

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    Para uma educao do olhar: o visus fotogrfico-literrio de Clarice Lispector

    Mrcia do Carmo Felismino Fusaro marciafusaro@terra.com.br marciafusaro@cefle.org.br

    Universidade Nove de Julho - UNINOVE

    Resumo: Quando se pensa em Clarice Lispector, aspectos, em geral literrios, emergem em nossa memria. Todavia, um olhar mais voltado construo da imagem da escritora sugere outras interessantes abordagens sobre a maneira como ela prpria, no apenas por meio de um comportamento singular, norteado por uma aura de mistrio, mas tambm pelo uso peculiar e bem definido com que aplicava sua maquiagem, delineando com mais nfase o contorno e a expresso de seus olhos e lbios. A construo de um visus torna Clarice Lispector algum com uma imagem muito singular, ao lado de outras mulheres de visus igualmente marcantes, escritoras e atrizes de cinema, como Virginia Woolf, Marlene Dietrich e Greta Garbo, conforme ser analisado. Palavras-chave: Clarice Lispector; visus; imagem.

    Abstract: When we think about Clarice Lispector, some aspects, most of them concerning literature, emerge from our memory. However, a more accurately looking to the writers image construction suggests other interesting approachings towards de way she constructed and kept a misterious aura, including the way she used her makeup, emphasizing her eyes and her lips. A visus construction turns Clarice Lispector in someone with a very peculiar image, alongside other women with similarly outstanding visus, writers and movie acretesses, like Virginia Woolf, Marlene Dietrich and Greta Garbo as it will be analyzed. Keywords: Clarice Lispector; visus; image.

    Para uma educao do olhar: o visus fotogrfico-literrio de Clarice Lispector

    Quando se pensa em Clarice Lispector, vrios aspectos, em geral literrios,

    emergem em nossa memria: a designao de escritora hermtica, obscura,

    termos que ela prpria detestava e dos quais alguns crticos literrios j a redimiram,

    dentre eles o saudoso filsofo Benedito Nunes, autor de pelo menos duas obras de

    referncia sobre a literatura de Clarice: O Drama da Linguagem: uma leitura de Clarice

    Lispector (1995) e Clarice Lispector: a Paixo Segundo G.H. (1988, edio crtica).

    Conforme Nunes, obscura no a linguagem de Clarice, mas a experincia da qual

    ela trata. Sobre a possvel obscuridade de seus romances, em referncia quele

    intitulado A Paixo Segundo G.H, afirma o filsofo:

    Parece-nos que o contedo mstico da experincia da personagem (...) fundamental para compreendermos as intenes da romancista. Precisamos levar em conta esse dado para no corrermos o risco de aplicar narrativa

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    critrios inadequados, um dos quais seria, por exemplo, exigir que ela obedecesse a um padro de clareza ou de expressividade direta. Se o objeto de A Paixo Segundo G.H. (...) uma experincia no objetiva, se a romancista recriou imaginariamente a viso mstica do encontro da conscincia com a realidade ltima, o romance dessa viso ter de ser, num certo sentido, obscuro. A linguagem de Clarice Lispector, porm, no nada obscura. Obscura a experincia de que ela trata (NUNES, 2009, p. 110).

    Todavia, um olhar mais voltado construo da imagem da escritora sugere

    outras interessantes abordagens sobre a maneira como ela prpria, no apenas por

    meio de um comportamento singular, norteado por uma aura de mistrio, mas tambm

    pelo uso peculiar e bem definido com que aplicava sua maquiagem, delineando com

    mais nfase o contorno e a expresso de seus olhos e lbios. A construo de seu

    visus, conforme definio do antroplogo Massimo Canevacci e que ser abordada

    com mais detalhes adiante, torna Clarice Lispector algum com uma imagem muito

    singular, ao lado de outras mulheres de visus marcantes, escritoras e atrizes de

    cinema, como Virginia Woolf, Marlene Dietrich e Greta Garbo, conforme veremos.

    Aquela pessoa rara, que parecia Marlene Dietrich e escrevia como Virginia

    Woolf (MOSER, 2009, p. 2). com a reproduo dessa afirmao do tradutor norte-

    americano Gregory Rabassa, que o pesquisador e jornalista, tambm norte-

    americano, Benjamin Moser descreve Clarice Lispector logo nas primeiras pginas de

    sua biografia sobre a autora, Why This World: a Biography of Clarice Lispector (2009).

    Tambm luz dessa afirmao, iniciamos essa anlise sobre a construo da imagem

    de Clarice Lispector, por meio de alguns de seus textos jornalsticos e algumas de

    suas fotografias comparadas s imagens fotogrfico-cinematogrficas de Marlene

    Dietrich e Greta Garbo, alm de fotografias de Virginia Woolf, todas elas em contraste

    ao conceito de imagem estupefata, apontada pelo antroplogo Massimo Canevacci

    em sua leitura do visus cinematogrfico que se contrape ao visus televisivo, e que

    tem como exemplo a divina Greta Garbo comparada estupefata Joan Collins.

    Conforme Canevacci, o termo visus, retomado do latim, exprime muito bem uma

    ambiguidade que prpria do contexto moderno, ou seja, visus, como particpio

    passado o que se v e como substantivo o rosto verdadeiro e prprio

    (CANEVACCI, 1990, pp. 71-9).

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    Sem a pretenso de se desenvolver aqui uma anlise definitiva, posto que mero

    ponto de partida para sugestes de leitura relacionadas

    pessoa/personagem/escritora Clarice Lispector, refletiremos acerca do que

    denominamos, na esteira de Canevacci, de visus fotogrfico-literrio relacionado

    autora brasileira de origem ucraniana, que atuou no somente no campo literrio, mas

    tambm como jornalista curiosamente interessada no comportamento feminino de sua

    poca.

    Clarice Lispector tem sido estudada com interesse no exterior. Exemplo disso

    foram as pesquisas desenvolvidas pela argelina Heln Cixous e pela canadense

    Claire Varin, divulgadoras de sua obra na Europa e nos Estados Unidos ao longo das

    ltimas dcadas. A biografia lanada por Moser em 2009, nos Estados Unidos, fez

    ressurgir o interesse pela autora. Entretanto, ao que parece, trata-se de um interesse

    marcado por ndices de uma viso norte-americana. Nesse sentido, no nos parece

    gratuita a comparao visual, logo de sada, entre Clarice Lispector e Marlene Dietrich,

    assinalada por um tradutor nova-iorquino (Gregory Rabassa) e relembrada por um

    jornalista nascido em Houston (Benjamin Moser), ndices, portanto, de um contexto

    onde se destaca a fora da indstria cinematogrfica com seu poder tanto de construir

    quanto de destruir dolos, cones, imagens.

    Neste ensaio de busca por uma parole, no sentido de discurso, ou retrica,

    relacionada imagem de Clarice Lispector, busca-se tambm fundamentao a partir

    de aproximaes luz dos conceitos de studium e punctum, desenvolvidos por Roland

    Barthes em suas ponderaes sobre a fotografia, e de sua anlise sobre o rosto de

    Greta Garbo apresentada em seu Mitologias (1957), alm do conceito de mscara,

    entendido sob o ponto de vista de Massimo Canevacci.

    O conceito de fcies, latinismo utilizado na semiologia mdica como referncia

    modificao de aspecto imprimida face por certos estados mrbidos, serve-nos

    igualmente como sugesto de leitura para a anlise aqui proposta. Cabe, entretanto,

    a ressalva de que preciso se estar atento a possveis armadilhas conceituais e ticas

    de uma leitura desse tipo, que pode conduzir a um tendencialismo determinista,

    entendido no mesmo sentido questionvel utilizado pela fisiognomia e a eugenia,

    tendo sido esta ltima, inclusive, utilizada como argumento para grande parte dos

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    horrores ocorridos na Alemanha nazista. Nesse sentido, o que aproveitamos do

    conceito de fcies uma possvel aproximao de leitura, no definitiva, em relao

    condio retratada nas fotos de Clarice Lispector, com seu olhar quase sempre

    simultaneamente lancinante e melanclico e que praticamente se tornou a marca mais

    intensa de seu visus.

    A semiologia mdica define, dentre as vrias ocorrncias de fcies, duas que

    aqui ressaltamos particularmente: a fcies hipocrtica e a fcies parkinsoniana1. A

    fcies hipocrtica, definida por Hipcrates (c.460-377 a.C.), evidencia-se pelo rosto

    magro, ossos bem salientes, traos fisionmicos afilados; olhos encovados; palidez;

    olhar vago e inexpressivo; ligeira contrao dos msculos da mmica facial que

    aumentam a expresso de dor e angstia. A fcies parkinsoniana, descrita pela

    primeira vez por James Parkinson, em 1817, aponta a fisionomia inexpressiva, mmica

    facial diminuda, olhar parado, vago e fixo, elevao dos superclios e cabea um

    pouco inclinada para a frente, dando a impresso de uma figura de mscara, tambm

    chamada fcies de mscara.

    Diante de tais definies, difcil no se perguntar: por trs daquela notvel

    beleza, sempre ressaltada por discreta mas impecvel maquilagem, at que ponto

    teria sido a fcies de Clarice Lispector perpassada por tais caractersticas? O fato de

    haver ocorrncia de problemas neurolgicos em sua famlia sua me morreu como

    consequncia de degenerescncia no sistema neurolgico e seu filho, Pedro, sofreu

    de esquizofrenia tambm nos leva a esse questionamento, no demarcado,

    repetimos, por uma opinio ou aproximao definitivas.

    Em Clarice Fotobiografia (2009), notamos j desde sua infncia um rosto e

    principalmente um olhar marcado pela melancolia. Extraordinria, inclusive, a

    semelhana de poses e expresses da juventude e da maturidade capturadas por

    fotos de Clarice Lispector, Marlene Dietrich e Virginia Woolf (vide anexos2). A viso

    agudamente sensvel de