Vozes de nós

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    22-Mar-2016

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Livro edio: ACEP Coordenao: Alain Corbel Design: Armanda Vilar

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  • Dli MAPUTO

    PRAIAcoordenao: ALAIN CORBEL

  • Permito-me comear por enderear uma palavra de reconhecimento ACEP (Associao para a Cooperao entre os Povos, congratulando-a por esta segunda edio do livro Vozes de Ns, desta feita com um olhar mais vigilante a vivncias experimentadas em Cabo Verde, Moambique e Timor-Leste.Desde o momento da sua aprovao inicial, no quadro da XIX Reunio de Pontos

    Focais de Cooperao da CPLP, realizada na cidade da Praia, em Julho de 2009, que a CPLP vem dedicando um especial carinho e ateno a este projeto que tem como objetivo dar voz a crianas e jovens em situao de vulnerabilidade ou excluso, sensibilizando e corresponsabilizando a sociedade no atendimento que deve ser devido a estes contextos de particular dificuldade.

    A presente publicao transmite-nos um conjunto de percees, simultaneamente comoventes e enternecedoras, relativas segunda fase do projeto Meninos de Rua: incluso e insero que, na sua fase anterior, abrangeu trs pases: Angola, Guin- -Bissau e S. Tom e Prncipe. um desejo de toda a CPLP que as crianas e meninos de rua dos nossos pases no corram o risco de serem vtimas do no reconhecimento por parte da sociedade da sua condio infantil. No sustentvel que se continuem a negar as suas condies concretas de existncia como indivduos. A estas crianas e jovens no pode ser negada a razo, a palavra, o conhecimento e o poder de deciso, entre outras competncias.

    Desta forma, no mbito das reflexes conjuntas que a CPLP vem desenvolvendo com os seus parceiros da sociedade civil, tem sido afirmada a perceo clara de que necessrio continuar a apostar no reforo das capacidades humanas e institucionais desses atores, o que, no mbito da presente atividade, foi possvel atravs da capacitao de organizaes locais que intervm na promoo e desenvolvimento das crianas e jovens em situao de vulnerabilidade. Neste mbito, cumpre igualmente destacar a possibilidade da criao ou consolidao de redes informais de intercmbio e disseminao de boas prticas dentro de cada pas beneficirio e entre os pases participantes no projeto. Assim, esta atividade constituiu uma experincia pioneira de articulao nestes domnios, entre pases de contextos e culturas distintos, que possuem uma lngua comum, o que se configura, tambm por esta via, como um claro contributo para as polticas sectoriais da CPLP.

    Apraz-me, por isso, verificar que, no obstante constrangimentos vrios e graas a um esforo conjunto e solidrio, que incluiu a participao dos pases e organizaes intervenientes na fase anterior, foi possvel viabilizar a elaborao deste importante projeto que, adotando prticas inovadoras e ancorando-se nos Objetivos de Desenvolvimento do Milnio, promove um claro exerccio de educao para a cidadania e para o desenvolvimento, procurando projetar uma nova dimenso de cooperao, com carter estruturante, com vista melhoria das condies de vida das crianas e jovens no espao da CPLP.

    A vontade e o empenho poltico no fortalecimento da cooperao multilateral a nvel dos Direitos Humanos e da Educao para a Cidadania e Desenvolvimento, no quadro da CPLP, devem continuar a fortalecer-se e a consolidar-se em Atividades que respeitem os princpios e objetivos que estiveram presentes na origem e nascimento da nossa organizao.

    Acreditamos, pois, que a plena execuo deste projeto representa um importante contributo para o dilogo em curso sobre a construo e reforo dos processos de desenvolvimento na nossa Comunidade. E, como no pode deixar de acontecer, esse compromisso poltico, ter de ser prosseguido pela CPLP auscultado a sociedade civil e envolvendo os parceiros internacionais. Tal parceria alargada potenciar benefcios mtuos decorrentes da partilha de experincias e criar um ambiente propcio viabilizao de um trabalho em rede no quadro da CPLP.

    Formulamos votos de que a leitura deste documento sirva como mais um alerta e nos inspire a continuar a prosseguir esforos nas diferentes dimenses das nossas responsabilidades e reas de interveno.

    Manuel Clarote Lapo / Secretariado Executivo da CPLP / Diretor de Cooperao

  • O projecto Meninos de Rua: Incluso e Insero comeou por juntar trs organizaes de trs pases de lngua oficial portuguesa da Costa Ocidental de frica (a AMIC na Guin-Bissau, a Fundao Novo Futuro em So Tom e Prncipe, a Okutiuka em Angola) e uma organizao portuguesa (ACEP).Intervindo em contextos diferentes, com culturas e abordagens diferentes,

    partilhvamos uma mesma vontade de defender e promover os direitos das crianas. Juntos embarcmos numa viagem que tinha como objectivo reforar a auto-estima das crianas e jovens em situao de vulnerabilidade socioeconmica com os quais essas organizaes trabalhavam, dando-lhes voz e criando oportunidades para se expressarem e serem ouvidos.

    Ao longo dos ltimos trs anos, trilhmos um caminho composto por mltiplas geografias. Passmos pelo Brasil onde tecemos laos com organizaes congneres que utilizam teatro, dana, poesia, fotografia e muitas outras expresses artsticas como metodologia de insero. A meio do percurso juntaram-se mais trs organizaes, de horizontes to distantes e distintos como Cabo Verde, Moambique e Timor-Leste.

    Depois de Bissau, So Tom e Huambo, em 2010, o ilustrador Alain Corbel esteve, em 2012, em Dli, Maputo e Praia, dinamizando atelis criativos com crianas e jovens e recolhendo histrias de vida. Foram intensos momentos de conhecimentos e interconhecimento, cujo resultado est agora entre as mos do leitor.

    Vozes de Ns Dli, Maputo, Praia rene histrias de vida e ilustraes de raparigas e rapazes de Cabo Verde, Moambique e Timor-Leste. Estes jovens co-autores iro tambm participar na sua divulgao e levar a outras crianas a aspirao de fazer ouvir a sua voz.

    Este segundo volume Vozes de Ns ir atravessar oceanos e cruzar continentes para chegar ao maior nmero de pessoas, ser lido e partilhado por crianas, jovens, pais, professores, animadores, jornalistas, responsveis polticos e muitos mais. Ambicionamos/desejamos que possa contribuir para a criao de uma conscincia de co-responsabilizao de toda a sociedade na proteco das crianas e jovens e promoo dos seus direitos.

    Mais do que um projecto, tem sido um caminho feito de mltiplos desafios. Entre eles, o de tecer uma rede que v para alm do intercmbio, que favorea a aprendizagem mtua e a mobilizao colectiva no sentido da realizao dos direitos das crianas e jovens no espao CPLP. Nesse sentido, foram tambm criados espaos de conhecimento e reflexo, com a colaborao do socilogo Orlando Garcia, sobre metodologias de interveno com crianas e jovens ao nvel dos oito pases da CPLP, que servem de base de trabalho nos diferentes contextos.

    Juntaram-se vontades, criaram-se pontes, alargaram-se perspectivas, mas o destino ainda vai longo e no h atalhos possveis. Lanmos as bases de um edifcio que s se constri no longo prazo. Esperamos agora dar corpo a esta rede que permite conhecer outras realidades, debater problemas, articular solues, respeitando a especificidade de cada um.

    Os direitos no esperam. Mos obra! o convite que deixamos a quem nos l.

    ACEP/ Lisboa, ACRIDES / Praia, FCJ/ Dli, MDM/ Maputo

  • Tive a sorte de ser uma criana feliz, aberta ao mundo pela minha av e outros camponeses que gostavam de mim. Hoje, sou pai de 3 filhos. No sei se suficiente para criar uma ligao com as crianas mas digamos que, na rea da recriao, consigo entender alguma coisa. uma linguagem que nunca perdi e que as crianas entendem perfeitamente. na recriao que qualquer um pode inventar-se, reinventar e continuar a sonhar com o seu futuro. Estou imensamente grato aos participantes dos atelis por terem desenhado o seu quotidiano e por terem conseguido anim-los atravs dos seus jogos e risos. Foi em Dli que tive uma das experincias que mais me encantou com um grupo de crianas que tinha vivido histrias difceis. Numa dedicao inimaginvel eles criaram dezenas de imagens absolutamente fabulosas. As crianas adoram desenhar. um acto criativo necessrio, mas tambm teraputico. Desenhar apelar poesia onde j no h esperana. Muitos de ns gostamos de desenhar. Mas quantos de ns desenhamos? Basta um olho sarcstico para aniquilar todos os nossos esforos. Um pouco mais de ateno e de perseverana, e algum poderia ser feliz.

    Crianas so continentes. Continentes na escala de uma semente. preciso tempo e cuidado para perceber cada um delas e cabe aos adultos proteger essas sementes. Ensinar dogmaticamente uma criana no de todo uma atitude muito corajosa. Desenvolver e aprimorar o pensamento crtico de uma criana tarefa muito mais complicada. Mas tambm um desafio formidvel. No h nada mais bonito que o desejo duma criana, a sua capacidade de apreciar e o seu prazer quando explora as maravilhas do mundo ao seu redor. Infelizmente, muitos de ns recusamo-lhes a sua qualidade de criana. Ganhar dinheiro extra fazendo truques sujos parece tarefa muito mais lucrativa. Neste esquema, uma criana pode tornar-se uma ferramenta til. Basta primeiro desrespeit-la. Mas as crianas so respeitveis e venerveis e no deveramos esquecer essa dimenso: o sagrado. No preciso ser religioso ou acreditar para considerar essa noo. Uma criana sagrada e devemos proteg-la. A todo o custo.

    Em Dli, Maputo ou Praia, notei que, s vezes, apesar das suas condies mnimas de vida, as crianas gostavam do local onde viviam a partir do momento em que se sentiam protegidas e amadas. Para elas, a verdadeira felicidade ser amada pelos seus pais ou familiares. Quando fazia falta um telhado, ou uma escola, o impacto dos centros era crucial. Quando a escola faz falta, as crianas gostam de estar num lugar que lhes dedicado, um lugar onde fazem amizades, aprendem alguma coisa, e, especialmente, sonham com algo mais. Durante esse tempo curto da infncia, os adultos tm a responsabilidade de as ajudar a serem o que elas j so. Apenas devemos acompanh- -la