We Used to Be Friends

  • Published on
    05-Oct-2015

  • View
    222

  • Download
    0

DESCRIPTION

little book

Transcript

Quatro de Maro de Dois Mil e Dez

Quatro de Maro de Dois Mil e Dez

Eu uso esse programa fantstico que deixa a tela toda preta pra escrever sem distraes, j viu? Enfim, s uma meta-observao pra fingir que eu sei como comear. Voc diz que eu sempre quis parecer o lado com menos traumas e isso tem um tanto de verdade, mas talvez voc tambm nunca tenha perguntado o que me incomoda e quais problemas me parecem insolveis. Mas a questo que mesmo que voc tivesse perguntado eu provavelmente teria feito alguma piada e mudado de assunto. Eu sempre quis te mostrar meu lado bom e que faria voc ficar, ou o lado ruim que nunca te fizesse mais querer manter a porta aberta. O que voc (voc e mais ningum, provavelmente) nunca viu meu lado fraco, meu lado que eu escondo em mil camadas. Toda a minha vida adulta eu tentei evitar as questes que me formaram, meus grandes problemas impressos na minha infncia e realmente complicados de resolver. Bem, eu acho que cheguei ao ponto inevitvel em que eu j tinha crescido tudo que eu podia crescer nos espaos no doloridos da minha cabea (gato escaldado tem medo de gua fria e tudo o mais) que acabei comeando a mexer nas reas que eu sempre evitei, e olha, eu descobri um monte de coisa que eu fiz questo de esquecer pra sempre. Acho que a gente romantiza demais a infncia e no fundo todo mundo teve uma infncia de merda, mas a minha vida pr-independncia muito estranha pra ser contada, at porque pra contar eu teria que relembrar e cada factide desenterrado tem umas pedras maiores do que eu achei que poderia levantar, mas eu cresci e agora elas parecem nem to definitivas assim, n? (Um amigo estava contando que ele acha que o cachorro, um boxer gigantesco, o respeita at hoje por um dia que ele desobedeceu ainda filhote e fez uma viagem horizontal pelo ar at o canil. Ento at hoje ele pensa: tenho que respeitar esse ser gigante e super forte que consegue at me fazer voar pra longe. Eu acho que esse era o respeito que eu tinha pelas minhas pedras. but everything underground, we gotta dig it out somehow) Eu no sei se sei falar de tudo que me incomoda e que no voc, mas eu quero tentar falar porque voc sempre foi um espelho bem sincero e eu no diria pra quem s me daria sorrisos de condescendncia em troca. If i tell you all my secrets would you stay? Would you stay anyway? Ou eu vou ficar chato como um brinquedo que voc j desvendou? Eu sempre tive facilidade de contar minha vida (e ouvir a vida) de pessoas que no esto no mesmo mundo que eu. Pessoas casadas, pessoas que j conquistaram muita coisa, pessoas que j desistiram de tudo, pessoas que j sabem (na prtica) o segredo da vida e sabem que o peso do mundo insuportvel se voc descobre cedo demais ento vamos beber mais uma cachaa. Esse um prlogo intil, o gatilho j foi puxado e agora eu estou s me acostumando com a idia, esperando a temperatura da gua ficar do jeito que eu gosto. Eu acho que eu no respondi nenhuma pergunta e no sei se deixo gancho pra dilogo, mas eu acho que isso, tenho mais um pargrafo breve, mas vou deixar pra depois.

Seis de Maro de Dois Mil e Dez

Eu estou bbado e um pouco desconexo ento vou escrever o que eu ia guardar pra um pouco mais tarde. Eu estou achando isso tudo um tanto esquisito porque minhas vontades originais seriam fazer o que a gente sempre fez que voltar como se nada nunca tivesse acontecido e ontem vi um filme e blablabl. Eu acho que essa fase de readaptao deve ser longa mesmo. Eu acho que essa talvez seja a nossa chance de consertar as coisas, no sei com que resultado, se o resultado vai ser o free ourselves ou alguma outra soluo. Mas eu estou realmente satisfeito de estar te conhecendo de novo de alguma maneira. No lembro quem, provavelmente eu, criou essa regra de no mostrar os defeitos, os pontos fracos e sempre tratar o outro como se uma guerra estivesse prestes a acontecer. Eu fao isso bastante, ento assumo a culpa. Por outro lado eu sempre quis te enxergar como perfeita e que todos os seus passos em falsos, desmemrias e despropsitos pudessem ser explicados simplesmente por ela m. Eu sei que no , pelo menos no s isso. A questo que eu quero que voc conhea tudo agora e quero conhecer tudo pra que a gente possa ter uma dimenso mais humana e aceitar que meus erros so fruto de umas razes tortas que eu tive l atrs e no tem nada contigo nem com minha vontade de ser mais forte, independente, fazer ginstica e andar de bicicleta. Voc provavelmente no sabe da minha segunda (e mais frutfera) incurso no zen budismo, foi depois de voc. A verdade que eu no entendia as coisas direito e achava que o fato de eu no querer te fazer mal nem me fazer mal justificava minha/sua ausncia nas nossas vidas. Mas eu no acho que essa seja a soluo, mesmo. E mesmo que seja, uma soluo covarde. Eu quero estar por perto (mesmo que no agora, no ainda) e quero conhecer suas cicatrizes e te mostrar as minhas pra que as coisas valham um pouco mais que deixar pra l que ela se recupera com qualquer nova distrao. Eu decidi que no quero fazer parte disso se no existir um lado positivo. E o lado positivo, pelo menos no momento, querer ouvir. Eu quero voltar a te ouvir, quero voltar a te conhecer do zero. Eu sei que no existe como apagar todas as coisas imbecis que j disse, mas tem como as coisas novas se tornarem mais relevantes que. Eu sei que provavelmente a gente ainda vai ter que gritar mentiras um com o outro, porque assim que a gente faz, mas eu no quero ter que fingir que vou embora pra sempre de novo. Well find a way. We are scientists we will not be afraid. Eu s sei que tem horas que parece que tudo s comea a fazer sentido quando eu comeo a escrever, e quando eu comeo a escrever eu s consigo pensar em escrever pra voc. E eu espero que um dia a gente faa essa viagem que eu possa contar todos os detalhes que esqueci pra voc enquanto eu durmo no banco de passageiro. Eu sei que isso que eu escrevi e no vou reler talvez soe como um peso exagerado no nosso momento de jogo de xadrez e responsabilidades adultas, mas no tanto. Enfim, mais uma vez eu escrevo mil coisas e no comeo a dizer o que eu queria e muito menos a te responder, mas talvez seja isso mesmo, nascer leva um bom tempo. Eu no quero mais ser um personagem pra ti, quero ser eu, com todas as minhas falhas e problemas e canes ruins.

Oito de Maro de Dois Mil e Dez

De todas as minhas promessas no verbalizadas de reveillon, (ante?)ontem eu quebrei a ltima. Deve ser uma espcie de recorde. Teve esse namoro estranho que foi um plano de emergncia e uma opo alm de um dia a gente se odeia, um dia a gente odeia o resto do mundo junto. O plano era um ms de namoro e se no desse certo a gente nunca mais se via. E como a vida tem sempre novos jeitos de criar problemas, o primeiro ms foi perfeito e no aniversrio uma ida ao banheiro e uma olhada nos sms antigos transformou o prximo ms numa corrida nuclear. Teve uns momentos que eu achei que fosse funcionar, como quando ela se fantasiou fantasticamente bem e foi um doce com todo mundo na festa junina do estdio ou nos sbados que ela tambm preferia ficar vendo filmes em preto e branco e dormir cedo, mas por algum motivo no parecia suficiente. Bem, e acabou e o plano era nunca mais e bla bla bl. Sbado eu at estava com esta outra garota que apaixonada por noseiquem mas a gente sempre acaba se beijando e achando engraado e fantstico como a gente continua amigo no outro dia e consegue no estragar tudo mas por coincidncias foradas e a vontade dela de contar as histrias de Portugal ns acabamos juntos de novo e mais uma promessa quebrada. Pelo menos de manh isso acaba. Mas sempre uma pena, no por mim, quando eu no ligo eu sou muito resiliente. O problema que eu quero que ela se acostume a planejar uma vida sem mim, uma vida em que eu seja s mais um amigo de amigos ou uma pessoa que ouve os mesmos discos, mas no tem msicas em comum.Eu no sei se levaria qualquer pessoa do mundo pra uma ilha deserta. Eu tenho sido sozinho por tanto tempo que difcil pensar em qualquer outro plano. Eu continuo preferindo dormir com companhia, mas tenho preferido companhias que falem demais sobre si mesmas pra se preocuparem se eu corro ou se mato ou se jogo. Eu tenho cada vez mais olhado pra dentro e ficado em casa (essa uma das partes ruins de ficar o dia todo em casa, a casa parece cada vez mais confortvel). Isso tudo s pra dizer que cada vez eu odeio mais esses finais de semana. Sbado sempre tudo timo e ns temos muitas histrias pra contar, domingo sempre sou eu pensando que a vida no devia ser esse ciclo, sonhos estranhos com frases do futuro, todos os avanos na meditao que eu perdi em uma noite e que eu tenho preferido os livros e cafs dos dias teis e que eu tenho que voltar a correr e a ser feliz e lcido ao mesmo tempo e parar de achar que tudo que acontecer tudo bem, experincia e um dia vai virar livro, disco, filme, camiseta No sei se vai.

Nove de Maro de Dois Mil e Dez

Hoje eu quis ficar em casa pra escrever sobre meu problema em fazer planos, mas acabei indo pro cinema ver o filme que ganhou o Oscar e assim que comprei o ingresso decidi ir pro japons e fiquei horas me divertindo (e divertindo os outros) com o verbete da wikipedia sobre a novela renascer. A abertura dela foi a primeira em CGI. Foi feita com DOIS computadores que dividiam 20 MEGA de RAM. Tem microondas com mais que isso hoje em dia, quer dizer. E eu cantei a msica tema. Ando feliz sem motivo, talvez pra no lembrar da raiva que eu estou da estagiria que deletou 140 Gigabytes de trabalhos meus e eu no sei se vai dar pra recuperar. Eu tenho pensado bastante em ir embora, mas no consigo decidir pra onde, nem pra fazer o qu.Eu acho que primeiro preciso descobrir se ainda penso em letras, se j penso em imagens ou se estou voltando a pensar em nmeros. A cincia tem sido minha alegria, meu cobertor do linus. Ler sobre um novo algoritmo que salva vidas pois consegue fazer MRIs centenas de vezes mais rpido me d um n na garganta. Ler a histria do menino que construiu um moinho de vento com dois livros de fsica, uma bicicleta e mais algumas sucatas e salvou a aldeia dele, no meio da frica, faz com que eu me sinta um idiota. Ler sobre a improbabilidade de estar aqui, vivos, nesse planeta, a quantidade de acidentes felizes que nos trouxeram aqui e o quanto isso tudo instvel me enche de alegria e preguia. Os meus mergulhos no zen budismo tem me ensinado tantas coisas e 90% das pessoas que vivem comigo ainda acham que piada quando eu digo que alan watts mudou minha vida e o quanto parecido com os surrealistas e similares que eu sempre amei. Mas mudou, em muitas maneiras e um dia eu falo mais sobre isso s pra voc rir e desconversar, achar que eu estou s inventando uma nova moda e que quem dera que eu botasse em prtica essas coisas que eu prego(mas eu at boto, de um jeito torto, mas eu erro umas 99 vezes por dia. Eu sou um punhado de defeitos e erros que ainda bem que ningum percebe/comenta. um caminho muito longo quando a gente resolve tentar ser tudo que acha que devia ser. Provavelmente eu vou morrer antes disso, mas existe algum sentimento bom em estar contribuindo, tentando parar a roda do samsara. Mas repito, no me ache hipcrita por isso, eu realmente tento bastante, mas ainda estou longe de ser a pessoa desapegada e compassiva que eu quero. Talvez seja s sangue ruim ou uma criatividade mal direcionada. difcil ser bom, mas as pequenas recompensas valem a pena, quando eu consigo. Enfim. Its a long way, n?).

Treze de Maro de Dois Mil e Dez

Eu ainda no te contei sobre esse negcio de trabalhar em casa, n? Agora que provavelmente est acabando, deixa eu contar. fantstico, mas aumenta exponencialmente a minha estranheza com o mundo. O fato de conviver diariamente com pessoas extremamente normais acaba me deixando com uma casca de normalidade. Em todos esses anos, eu que sempre vivi olhando pra dentro, passei a usar cada vez menos meus fones e virar cada vez mais a pessoa que soluciona os problemas, paciente pra ouvi e tem boa vontade. Eu sempre achei que eu fosse o contrrio. O meu mito de ser mau e egosta sempre me protegeu de muita merda na vida, de repente perceber que eu sabia trabalhar em equipe e no ficar puto com o colega que ralou o joelho e fez o time perder a corrida foi um susto. Eu sempre fui individualista e centralizador, sempre achei que se eu no pudesse fazer algo era melhor no ser feito, provavelmente sairia uma porcaria. Com o tempo eu passei a ser mais compreensivo com as limitaes dos outros, sei l, nem todo mundo leu os livros que eu li, mas eu morro de vergonha at de pedir uma pizza no telefone. Morria. Eu acho que essa convivncia me fez perder um pouco da timidez. engraado que hoje em dia tem gente que eu digo sou tmido e recebo uma gargalhada de volta. Eu continuo me sentindo estranho 99% do tempo. Eu no sei o que as pessoas fazem nos intervalos de tempo, sabe? O que se faz enquanto espera um nibus, a digesto, o garom, a garota do travesseiro ao lado acordar. No sei o que fazer com as mos, acho que por isso bebo tanto, confortvel girar o gelo com o canudo ou segurar uma long neck. Sei l porque eu no fumo regularmente, nunca funcionou comigo. De vez em quando eu acho que isso explica boa parte do meu receio em deixar as pessoas chegarem perto. Tenho medo de que na convivncia diria as pessoas percebam minha confuso, meus vcuos, meus medos dos espaos vazios entre as horas teis. Meus pargrafos chatos. Meu jeito errado de amarrar os cadaros, o destino que eu no sei dar aos caroos de azeitonas. Isso provavelmente vem do fato de eu ter sido uma criana selvagem por uns cinco anos. Na idade que eu devia estar me civilizando, dos 9 aos 14, provavelmente, meus pais estavam muito preocupados em fazer a minha irm sobreviver. O Matheus sempre foi inteligente, sabe se virar sozinho. Ento era o dia inteiro sozinho com a minha imaginao, super mario world, os dois ou trs livros que me interessavam naquela casa e horas e horas no terrao observando o movimento dos pssaros. A cidade era cheia de pardais, minha rua tinha muitas andorinhas. Chegou um ponto que eu acho que eu poderia pegar uma delas no ar, de to traadas que as parbolas dos vos estavam na minha cabea. Eu tentei uma vez, mas tive medo de esmagar alguma delas e acabei deixando pra l e voltei a escrever meu nome 300 vezes no fundo da caixa dgua e esperar a hora de ir jantar na minha v e meu pai chegar e perguntar como foi o dia? vamos marcar um mdico? vamos comer direito? vamos ver novela? quer alugar algum faroeste? Ento quando isso acabou tudo que eu queria era ir pra longe e a primeira opo parcial foi passar 12 horas por dia na cidade ao lado e depois a fuga final e entre todas essas fugas no deu tempo pra aprender muita coisa que as pessoas normais faziam. Quer dizer, eu sempre era convidado pras festas, mas gostava do meu canto e dos eventuais platonismos mas isso provavelmente tambm j outra histria. Voltando ao tpico principal agora que eu revelei o trauma nmero 2, ou como no aprendi a lidar com a proximidade de pessoas e relaes comuns fantstico trabalhar em casa, mas eu acho que vou voltar, primeiro porque eu estou com medo de perder meus poucos vnculos com essa espcie de sanidade. Segundo porque l eu tenho um exemplo fantstico de uma pessoa que eu admiro e que sabe muito mais sobre a vida e sobre tudo do que eu, mas mesmo assim eu consigo ensinar alguma coisa (aprendo bastante sobre humildade tambm). E finalmente, porque l eu sinto que tenho muito mais maneiras de ajudar os outros. Eu acho que eu vou ter que aprender a ser uma espcie de lder, que afinal esse o caminho natural, mas vai ser difcil. E acho que por isso eu quero tentar, eu estou cansado de no tentar, eu preciso aprender a quebrar a cara de novo. Cair, rir do tombo, levantar, tentar de novo. Eu estou cansado de acertar de primeira, acho que estou mirando nos alvos fceis demais.

p.s.: eu estou caindo de sono e desculpa se eu no ando muito potico, mas que eu quero te contar tudo e tem umas histrias que so simplesmente chatas e banais. Talvez voc prefira o mistrio.Dezesseis de Maro de Dois Mil e Dez

Eu acho que a gente devia se ver algum dia desses (e pode ser, sei l, daqui uns meses, acho que no precisamos ter pressa, j que pelo menos eu decidi no ir embora mais). Mas eu acho que a gente devia fazer diferente. Eu queria tomar um caf, ver um filme ou fazer alguma coisa do tipo com voc. Mas eu queria o silncio. Eu acho que seria uma coisa divertida a ser feita. Esse seria s um primeiro exerccio, depois inventamos outros. Ns obviamente no somos dois malucos, mas ns somos bem estranhos, e eu acho que a gente devia celebrar isso e no ficar pensando em como as outras pessoas so normais. Aquilo que voc disse sobre entender eu querer ter relacionamentos normais com pessoas normais, eu no sei se quero. Se eu tiver que contar os frios na barriga e os momentos que eu realmente lembro quando eu penso em fazer um filme ou pintar um quadro, eu vou buscar nos momentos mais estranhos que eu passei com voc, uma mo apertada embaixo da mesa ou a milsima despedida esquisita. Eu sei que voc talvez nem se lembre dos momentos bons, esses foram os textos que voc sempre apagou, mas eu achei por acaso um no meu e-mail e achei bonito e uma pena que s eu que lembro deles (quando s uma pessoa lembra, parece mentira/loucura). Mas no quero ficar acusando a sua desmemria mais, um dia desses fui procurar uma foto e descobri um milho de histrias e pessoas que eu nem lembrava que existiam. Resumindo: se voc tiver tempo, se voc tiver vontade, se voc no achar que cedo demais e vai estragar a cura que estamos conseguindo, a gente pode fazer isso, mas no tenho pressa, foi s uma idia solta num sonho, depois num bloco.

Dezessete de Maro de Dois Mil e Dez

Eu queria inventar minha prpria cincia. Eu tenho uma raiva danada dessas pessoas, to seguras nos seus cursos numerados de 00 a 99 e profisses catalogveis. No exatamente raiva, que todo mundo tem que fazer alguma coisa na vida n e graas a deus que tem algum pra fazer com que esse prdio no caia e as mas cheguem fresquinhas no mercado. mais inveja mesmo. Eu queria ter um caminho pronto, de vez em quando. At os pretensos caminhos que eu poderia seguir no fazem muito sentido. O que eu escrevo? No prosa, no poesia, no fico, no jornalismo. Eu sempre estou interessado nas fissuras, nas encruzilhadas Quando eu escrevia programas em C++ eu comecei a ouvir pavement e tudo que eu queria era uma guitarra eltrica, ou escrever sobre pessoas que tinham guitarras eltricas. Quando eu podia escrever sobre pessoas que tocavam guitarras tudo que eu queria era descobrir eu no sei mais o que eu queria descobrir, a que tudo ficou vago. Tudo que eu queria era escrever sobre as coisas que estavam aqui dentro. E ler. E quanto mais eu lia maior ficava o aqui dentro e mais coisa eu tinha pra escrever e cada vez mais certeza de que no ia dar tempo, que o mundo ia ser atingido por um cometa ou uma gripe antes de eu botar pra fora tudo que eu queria. E mesmo assim eu continuei lendo e aumentando o problema. Mas de repente eu perdi a certeza. Eu leio as coisas que eu escrevi no comeo e eu tinha tanta certeza, dava socos no ar e com certeza colocaria qualquer um que discordasse na guilhotina. Agora tudo que eu consigo saber que eu no sei de nada e tentar colocar em perspectiva o vetor resultante das minhas idias tortas, meus sentimentos sinceros e minhas aes invariavelmente estpidas. Isso sem contar as outras milhes de variveis que so o resto do mundo envolvido. As pessoas dizem que eu sou inteligente, mas eu no consigo ficar feliz com isso. O que as pessoas vem como inteligncia de um prognstico ou dois que acertei, eu s consigo ver um milho de pedaos que tremem e se esbarram o tempo inteiro preenchendo meu corpo/crebro/conscincia e tentando chamar isso de uma coisa s. um pazinho, uma repblica de bananas em que cada habitante um general tramando um novo golpe e um novo sistema e eu nunca sei onde pegar os documentos pra abrir uma quitanda ou conhecer a Europa. Eu tive uns meses de sade, eu apaziguei tudo, ia malhar cinco horas da manh, no chegava atrasado no trabalho, bebia s o suficiente pra rir pras visitas e fazer humor saudvel, mas parece que a sementinha do caos est sempre l guardando, esperando pra chutar portas e janelas e um ou dois dias eu consegui estragar tudo e acordar em alguma piscina bbado e gastando meus ltimos crditos em vodka. Mas eu sou resiliente demais e acabei sobrevivendo e ningum desconfiou que alguma coisa tinha mudado. Eu acho que esse o meu problema, eu nunca consigo me destruir o suficiente pra que a queda tenha algum significado. Eu sempre vou sobreviver mais ou menos, com uns 50%. Parece que eu sou pesado demais pra voar, leve demais pra me espatifar no cho. Eu estou to cansado de tanta segurana.

Dezenove de Maro de Dois Mil e Dez

Eu queria dizer que eu estou triste porque tudo que eu planejei na vida deu errado. Mas no deu, eu nunca planejei nada e tudo at que saiu direitinho, no fundo. Talvez eu s esteja triste com essa dor de cabea e ressaca de ter bebido sem motivo e sem vontade. Eu andei lendo os sintomas da Sndrome de Burnout e t com bastante medo. Eu tenho muita dificuldade em perceber quando eu estou cansado ou passando dos meus limites, tudo parece natural. Eu acho difcil perceber que existe amanh, tudo tem que ser feito de uma vez s, sem correes, sem adendos. E sei l, difcil fazer alguma coisa que presta em um dia. Ter que fazer meu anteprojeto agora est me fazendo pensar mais ainda nisso, como ter certeza que eu vou gostar do que eu escolher daqui um ano? Conviver com uma escolha, um assunto que eu posso j ter esgotado tudo que me interessa em alguns dias. Eu me interesso em tudo, mas por alguns dias, eu leio tudo, devoro, viro especialista e de repente j estou interessado em outro jogo, outra particularidade, outra expresso (a ltima foi aprs moi, le dluge, aquela da msica da Regina Spektor, uma expresso bem interessante). Parece que eu tenho que inventar ocupaes inteis pra no enfrentar nada realmente relevante e que eu tenha a possibilidade de fracassar. Eu fracassei pouco demais na vida pra saber lidar com minhas falhas. Ser a criana mais inteligente da turma um saco, te d poucas oportunidades de falhar e at quando voc falha as pessoas costumam ignorar ou ento achar que elas que no esto entendendo nada. duro, eu tenho medo de nunca fazer nada que eu me orgulhe e ao mesmo tempo morro de medo de chegar na metade do caminho de alguma coisa muito grande e ver que no vale, no serve, no preenche. Eu acho que isso vem do meu trauma #1, o que eu no gosto de conversar sobre, que ter sido criado por uma me que tem certeza que o mundo vai acabar de repente e s um punhado de gente vai ser salva (e obviamente, no vo levar nada desse mundo). E no muito bom ouvir voc no vai continuar rindo assim no juzo final, no h como escapar de deus e Ele sabe todas as coisas que vo te fazer sofrer da pior forma. Por mais que racionalmente e emocionalmente eu j acredite em uma verso muito mais macia e agradvel do universo, difcil apagar completamente o rastro das histrias que eu ouvi novo demais. Eu ainda acordo suado a noite por algum pesadelo ruim de fim do mundo e perco semanas achando que no tem porque fazer nada que o tempo ou a catastrfe vo destruir tudo mesmo. Eu queria ter a capacidade de fazer dos menores planos (do tipo, um almoo semana que vem) at os maiores (patagnia em agosto) mas eu simplesmente no consigo, acho que por isso que to difcil pra mim estar com as pessoas normais que querem carros, piscinas e vinhos caros Eu sei que nada disso vai preencher o vazio, mas tambm no sou esperto o bastante pra saber o que vai, se que alguma coisa vai. A como se vive? Se preenche o buraco com alguma coisa? Inventa planos falsos? No nem que eu seja um pessimista, eu at sou otimista demais. O problema que eu no consigo enxergar o futuro o suficiente pra fazer coisas bsicas como preservar meu fgado ou deixar pra comprar aquele livro ms que vem. E por isso que eu procuro a cincia, eu procuro saber como o mundo surgiu de uma exploso de uma bola de vazio e milhes de anos depois estamos aqui ou eu vou pro mato procurar fantasmas que provariam que est tudo errado, mas claro, nunca vejo nada, o mundo continua perfeitamente inescrutvel e racional pra mim. Eu queria qualquer resposta, mas por todo lado s encontro mais dvidas e menos paz.

Vinte e Dois de Maro de Dois Mil e Dez (I)

No penso em muita coisa no chuveiro, eu acho que minha hora preferida quando eu estou andando pra qualquer lugar, quando as solues chegam (talvez seja s a endorfina liberada, mas me engana bem). Eu achei que te ver fosse deixar as coisas menos turvas, mas foi bom, eu vi o bal das suas unhas azuis combinando displicentemente com a camiseta, seu jeito de deixar a franja cair, seu desenho, a cantora que parece com voc na televiso e eu achei que fosse ser menos esquisito porque o plano era ser esquisito, sabe? Mas eu tambm fiquei meio estranho depois. E com menos respostas. E voc existir entre os meus amigos que eu no tenho mais visto desde que decidi ter uma vida mais saudvel (em todos os campos: corpo, cabea, esprito) tambm me preocupou um pouco, no que eu me preocupe de voc comear a fazer coisas estpidas na vida a essa altura do campeonato, mas o problema so as mudanas sutis de conviver com pessoas que dispensaram o futuro como um plano chato, como se as formigas fossem a causa dos piqueniques, no um efeito colateral. Mas enfim, as coisas se ajeitam, de um modo ou outro. Eu no consigo responder nunca direito o que voc significa, o que a gente significa. Parece que se eu usar qualquer palavra que j usei com qualquer outra pessoa, seria uma mentira. Ou eu teria mentido pra todas as pessoas que eu j coloquei nessas categorias ou estaria mentindo pra voc (mesmo que mentindo por aproximao, arredondando umas casas decimais, mas esses detalhes fazem muita diferena no final). Eu no sei o que ns estamos fazendo. Eu acho que o objetivo principal tentar curar essas feridas que a gente foi deixando pra l esse tempo todo, esses band-aids mal colocados roando o calcanhar. Eu sempre quis ser perfeito e acreditar na sua perfeio, ento admitir esses band-aids j foi um passo grande. Mas o que tem me preocupado um pouco que talvez seja impossvel a gente fazer isso, de curar e conhecer as cicatrizes, sem estar construindo alguma coisa no processo. E meu medo que seja alguma coisa que a gente no saiba/possa lidar. A soluo provisria tem sido tentar viver cada dia, saber que est sendo bom e que qualquer coisa que venha pela frente, tambm vai acabar. Mas a pequena poro historiadora que tem em mim de vez em quando vem dizer vocs nunca duraram mais que um ano em paz, como as coisas podem mudar agora?. Eu nunca quis ir embora, mas eu acho que eu nunca soube ficar por muito tempo. how can I explain I need you here and not here, too? Ns somos tanta gente de tantos modos que tem hora que eu acho que vou embora pra voc no conhecer os eus que sou com os outros. O meu eu preferido ainda o que fala com voc. Ser que ns vamos sobreviver se chegarmos nesse cubismo de ver todos os lados e arestas que nem sempre so muito agradveis? Eu no sei tambm, mas eu acho que a nica sada pra que a gente invente algum jeito ou que a gente se liberte.

Vinte e Dois de Maro de Dois Mil e Dez (II)

Eu li num livro muito tempo atrs (nos dias que voc no estava por perto) sobre a memria _________(no lembro o nome). O autor dizia que ns temos esse outro tipo de memria, que bem diferente da nossa noo comum de que est tudo dentro da gente. Parece que ns no somos to infinitos ento guardamos umas partes dentro dos outros. O exemplo mais banal quando a sua me no consegue de jeito nenhum aprender a usar a internet ou o dvd, afinal sempre vai ter voc pra ser o especialista da famlia, voc quem sabe dessas coisas. E eu acho que isso a definio mais prxima da saudade que eu senti. claro que eu senti falta de te ver, de te abraar, do seu cheiro, de ouvir suas histrias na sua voz. Mas o que sempre me matou foi as coisas que eu deixei de lembrar, as memrias perdidas, as referncias que ningum entende. Eu sempre achei que estar com voc era como escrever um novo dicionrio, uma nova mitologia. Desistir de voc foi quase um exlio de mim tambm, voc por muito tempo foi onde eu guardava as melhores coisas que eu aprendia (e eu gosto de achar que eu tambm era um pouco assim pra voc). por isso que eu me preocupo com voc, mesmo sabendo que voc no precisa. Eu no quero que voc seja minha, no quero ter que te dizer o que fazer, eu s quero que voc saiba que voc faz parte do meu tempo e do meu espao e que as coisas ficam bem chatas e incompletas sem a sua parte, seja l qual for.

Trinta de Maro de Dois Mil e Dez

Eu preciso de umas frias, eu no sei ter frias. Esses meses em casa (de dezembro pra c, talvez voc ache que foi mais tempo, voc no estava aqui quando eu comecei) me fizeram questionar muito quem eu sou. Ser que eu s consigo me definir positivamente na presena dos outros? Com todo mundo me dizendo todo dia que eu sou legal, que eu sou bom, que eu ajudo? Ser que a iluso dos outros me torna uma pessoa melhor? Eu sei que eu estou feliz de voltar. Eu gosto de estar sozinho porque eu aprendi a ser sozinho, mas eu acho que egosmo no compartilhar as quatro ou cinco coisas que eu sei, que vai ver algum tem algum uso pra elas, j que eu Muito tempo eu tive iluso que o jornalismo era isso, ensinar pros outros alguma coisa que voc ache importante. Mas no , basicamente gerar massa de manobra. Da Veja ao jornalzinho do DCE, o que importa manipular baseado em alguma ideologia imbecil, afinal mais importante manter o comunismo longe (ou perto) que ensinar alguma coisa que deixe a vida mais bonita e mais simples. Eu tenho vontade de ensinar alguma coisa um dia, alguma coisa boba que melhore o mundo, sem compromissos acadmicos. Eu j ensinei um amigo a usar a internet, j dei uns palpites sobre histria da arte pros fotgrafos e eu fui bem feliz fazendo isso, to bonito abrir portas pra algum (e aprendi junto tambm, tem hora que eu s aprendo 100% quando tenho que contar o que vi pra algum). Tem muita coisa que eu no acho to legal na minha vida, mas a maior parte do tempo eu me sinto bem sortudo e me chateia no saber compartilhar isso. Tem hora que eu sou meio rspido e impaciente com os outros, principalmente quando eu vejo algum cometendo os mesmos erros que eu. Tanto erro novo pra errar, pra qu repetir? Eu vejo muito potencial nos outros e todo mundo vive usando sei l, uns 10% da capacidade que tem? (eu acho que uso 1% da minha, os sistemas de conservao de energia deviam estar orgulhosos). Eu queria um dia que todo mundo, comeando por mim, estivesse a escrevendo livros, gravando discos, pintando quadros, levantando casas, domando cavalos, correndo de bicicleta, cozinhando pratos fantsticos, inventando mquinas incrveis, tirando fotos bacanas. Mas em vez disso eu fico aqui, olhando pro teto, esperando alguma coisa gigante acontecer pra tudo mudar. E provavelmente no vai acontecer nada. Eu quero viver sem tempo morto (e acho to bonito quando voc diz que no existe o tdio, porque eu sei disso tambm, mas no coloco em prtica).

Trs de Abril de Dois Mil e Dez

Eu ando meio perdido demais pra escrever pra voc. No pense que voc tem alguma culpa ou que eu no tenho nada mais pra contar ou que perdeu a graa. Eu s ando meio vazio de tudo. Hoje de manh eu acordei me sentindo um idiota. Eu estava estupidamente feliz de te ver num contexto diferente, em que a gente podia beber, danar, rir e isso foi timo de todas as maneiras. Mas a tem essa pequena mquina demonaca na minha cabea que faz as coisas desandarem de vez em quando. Ento eu sentia uma certa necessidade de no ficar muito perto pra voc no achar que eu estava te vigiando ou querendo atrapalhar sua liberdade, que era a coisa racional a ser feita. Mas a eu me pegava no outro canto da festa, acompanhando meus amigos fumantes ou conversando com algum semi-conhecido e com vontade de estar com voc, de no perder nenhum momento e senti cimes, senti vontade que voc s conversasse comigo, mas eu tentei ser maduro e ficar quieto tomando minha tequila e acho que at consegui ser racional. Mas doeu, e eu acho que s t contando isso pra manter essa poltica de contar tudo e eu acho que est sendo timo isso de no mentir, estamos mais bonitos assim. Aquela pontadinha de cime me chateou muito, eu no acho que voc merece isso, nem que voc tenha culpa e eu acho cime um veneno em qualquer coisa. Eu no quero ser egosta com nada, eu quero ser maduro e me comportar, mas eu ainda sou imperfeito demais e toda vez que eu lembro to claramente disso eu tenho vontade de me esconder embaixo de alguma pedra. Normalmente eu teria ido embora e ficado uns tempos longe, no querendo admitir que se eu baixo meus escudos e deixo voc entrar eu tambm tenho que aceitar que voc ainda livre e do mundo inteiro, no gosto de ser essas pessoas idiotas que s do presentes com a etiqueta esperando ganhar alguma coisa equivalente. E eu acho que a sua liberdade e sua curiosidade fazem parte do seu pacote, e eu no quero que voc mude nada por minha culpa, eu quero que voc mude no seu ritmo e nas suas vontades e que seus erros te deixem melhor, que voc sempre foi muito melhor nisso de evoluir que eu. Eu s quero dizer que dessa vez eu no vou embora me trancar no meu quarto na primeira vez que ralar o joelho e sair dizendo que nunca mais ando de bicicleta na vida, e isso eu acho que uma coisa que eu estou aprendendo com voc. Por favor seja paciente, im a slow learner in hearts stuff e erro umas oitenta vezes por dia. Espero que voc ainda queira ficar por perto pra ver meus dois ou trs acertos. difcil inventar a nossa prpria histria, mas t ficando to bonita.

Sete de Abril de Dois Mil e Dez

Eu estou quase dormindo e talvez nada disso faa sentido, mas eu queria saber melhor o que te faz feliz. a felicidade um negcio meio natural e sem causalidade na minha vida, de repente me pego feliz e aproveito o quanto dura. Ultimamente eu venho tentando traar com giz em volta dela pra ver o formato, de onde veio, pra onde vai, o que come pra eu no ficar s com cara de bobo e pensando que voc devia ser feliz o dia inteiro, se eu mandasse um pouco no mundo. Mas no mando, a eu quero gravar discos, tirar fotos, saber as melhores conversas e escrever as coisas mais sinceras pra ver se voc fica bem. Eu sei que seus planos so longe daqui e bem maiores do que eu possa fazer alguma coisa, a tem hora que eu me sinto meio que como o seu pintar as unhas vs. mestrado. Eu sou s umas consolaes bobas enquanto os planos de verdade no chegam. No que eu pense que isso seja uma exceo injusta na vida, a maioria dos nossos planos e felicidades so assim, no dependem muito de ningum alm da gente, so da pele pra dentro e contra mundos e engrenagens impossveis. Mas o que eu queria poder te ensinar um dia que a felicidade (pelo menos do jeito que funciona pra mim) no tem muito a ver com nossos planos. So esses momentos de estar estranhamente contente e que duram uns segundos e voc tem que aprender a segurar eles e no deixar ir embora, e vo ficando cada vez mais longos e de vez em quando voc at consegue produzir uns deles sozinha, como quem canta uma cano esquisita ou descobre uma textura nova num casaco antigo. Desde que voc voltou eu tenho aprendido tanta coisa sobre ns dois, cada pedao novo que eu descubro em voc, que voc resolve que hora de me mostrar e como se ningum tivesse visto antes. E eu tambm te mostro coisas que ningum nunca viu, que nem eu sabia que existiam. E cada momento parece ser um desafio de agora que voc viu mais essa cicatriz, quer continuar? e eu sempre penso que sim, quero ir at o fundo e isso me faz to forte e esperto e sortudo, como se eu finalmente pudesse escrever aquele livro ou te fazer esquecer como ser triste, e eu escolho fazer os dois, pelo menos at onde minha parte escolher. Antes era como se eu tentasse destruir tudo quando voc parecia chegar perto demais de qualquer porta, como se j fosse bvio que voc ia deixar de gostar quando visse um novo quarto, agora eu quero que voc tenha todas as chaves e todos os mapas e se ainda assim voc estiver por perto, eu tenho uma sorte danada mesmo e devia at ser mais feliz que eu sou.

Oito de Abril de Dois Mil e Dez

Eu no quero que voc suma. Eu no sei manter distncias saudveis, tem hora que me assusta saber que logo logo ns vamos j que os espaos que ocupamos so to novos e estranhos colocar outras pessoas nos espaos vazios e infelizmente o tempo no tem a generosidade dos espaos e ns vamos sumir um pouco, e eu acho que isso vai doer bastante em mim. Eu quero que voc seja sempre o ouvido que vai receber meus segredos e histrias que eu no quero dividir com mais ningum, os novos sabores de sorvete ou os acho que bebi demais. Tem hora que parece que eu tenho tudo que quero, at algum medo bobo ir entrando por baixo da coberta e se alimentando at a cama ficar pequenas pra ns dois. Eu sou bem irracional de vez em quando. Tem hora que eu queria que nossos espaos sem nome se somassem aos espaos com nome, talvez fosse uma soluo besta que a gente nunca tentou colocar em prtica, tinha sempre um monte de coisas e gente e passado no caminho, talvez seja a hora de gastar as possibilidades clichs tambm. confortvel pra ns dois no ter nomes, nem regras. Esse deve ser o nico jeito de ficar pra sempre, mas ao mesmo tempo ns nunca vamos ter garantias, e a tendncia das no-garantias pelo menos pra mim acumular essas pequenas neuroses e esses o que fazer em caso de incndio e revisar mil vezes na minha cabea quais vo ser meus erros futuros e como domar uma conscincia que no obedece. Talvez pra isso eu precisasse tomar o volante, mas voc nunca vai me deixar dirigir, seus ps vo estar sempre no freio e a nica coisa que eu vou poder fazer trocar as msicas mesmo. Eu sei que ns passamos por um bom tempo de confuso e empurres trocados, mas agora eu s quero ficar do seu lado em qualquer viagem. Enquanto isso continue me avisando quando eu pisar suas linhas imaginrias ou meus ataques de lirismo te assustarem demais. Ou se eu estiver arruinando tudo com as palavras erradas ou os gestos que voc no queria. Eu sei que ser alegre o tempo inteiro no uma possibilidade plausvel, mas tudo que eu quero que isso funcione sem dores desnecessrias e no vire s mais um filhote indesejvel que pequeno demais pra deixar em alguma estrada e grande demais pra ficar correndo pelo apartamento.

Nove de Abril de Dois Mil e Dez

Ontem eu encontrei meus amigos, voltando da faculdade, num bar no caminho e acabei sentando pra tomar umas cervejas e lembrar que gosto deles. Eu voltei meio triste pra casa, era quarta-feira e eles j estava bem, digamos, em clima de final de semana. Me pediram pra pagar as cervejas, eles j tinham comprometido o dinheiro com outras coisas. Eu fico meio assustado, eles so amigos meio recentes mas vivem num ciclo que me lembra demais os amigos que eu reencontro em cataguases. Eles j tem festas tradicionais que sabem que vo estar marcadas daqui a seis meses pq ningum vai ter mudado nem vai ter novos compromissos/interesses. Esse negcio de viver rpido demais acaba deixando meio impossvel pra mim ser parte de grupos, sempre parece que eu cresci mais rpido e no tenho mais interesse nas brincadeiras, distraes e piadas internas. Eu acho que s umas trs ou quatro pessoas na minha vida so pra sempre, eu sei que vou encontrar novidades e sempre que eu olhar de novo a pessoa vai ter crescido e descobrido coisas novas. Eu tenho muitos amigos que parecem essas crianas prodgio que vo no fantstico quando tem cinco anos de idade tocar piano e depois passam o resto da vida sonhando em tocar piano de novo enquanto a vida vai passando e tudo que vo contar pros netos que poderiam ter sido pianistas fabulosos se o mundo fosse justo. Eu tive tudo pra ser assim tambm, talvez eu fosse se uma srie de coincidncias no tivessem levado ao mal-entendido de que eu sou uma pessoa produtiva e prestativa, que acabaram me transformando numa pessoa assim, que gosta de fazer coisas, ao contrrio do garoto que amava a teoria dos livros e sempre pensou em s trabalhar aos trinta. meio triste pra mim aceitar isso, meus modelos romnticos so outros, mas que eu me sinto bem sendo uma pessoa normal e produtiva, ser autodestrutivo nunca colou comigo, eu sempre quis ser dessas pessoas que no comem nem dormem e bebem at quase morrer, mas o mais certo que eu vou beber um pouco, enfiar a cara num livro ou comear a ir pro estdio e s voltar no outro dia, criando projetos mirabolantes pra no pensar no que me faz triste. E nem assim eu vou ser um workaholic, no trabalho eu sempre tive essa coisa de saber parar, tomar um caf, dar uma volta, folhear uma revista em vez de ter crises criativas terrveis. Eu me sinto feliz trabalhando, o nico lugar que eu tenho resposta pra tudo e todos os problemas so do meu tamanho. Tem hora que eu esqueo, mas eu acho que j tem um tempo que eu aprendi que sofrer no bom, definhar no bonito. Eu acho que isso um mito que ns superamos, o fato da gente ter escolhido tentar de novo em vez de carregar esse peso no peito j um bom sinal. Ns tivemos o suficiente de drama na vida, eu acho. A alegria a prova dos nove uma frase que eu aprendi a amar muito, e se tem uma coisa que eu tenho certeza que eu no quero inventar novos monstros imaginrios pra parecer interessante, sopre meu castelo de cartas quando eu comear a fazer isso, por favor. O passado pode estar abarrotado de chateaes mas daqui pra frente timas fotos e melhores filmes

Vinte e Cinco de Abril de Dois Mil e Dez

Engraado que parece que voc l minha mente e toma minhas decises antes de mim. eu quis te dizer que o nico jeito de sobreviver era a gente parar de escrever aqui, queria um jeito doce de dizer isso sem soar vingana que as coisas no ocorreram do jeito que eu queria. Se que eu queria isso mesmo, se que eu sei o que quero.E acho que entendo o que voc quer dizer, a sua no importncia de concluso, qualquer fim seria um resultado e eu acho que no fundo voc teme qualquer final, mesmo que seja feliz. Voc vai preferir mesmo passar a vida inteira andando mesmo que no tenha mais estrada nem sapato. No digo que no acho bonito mas eu no vou junto. Vai ver por isso que voc sempre vai me encontrar quando estiver cansada de tudo e precisando descansar os ps. Vai ver nosso papel esse, ser sempre essa interrogao de tempos em tempos na vida do outro o que a gente descobriu, o que a gente esqueceu, como a gente cresceu. Como copas do mundo definem com quem a gente tem andado e o que tem feito da vida. O dia que voc deixou tudo to claro (e tambm jogou com o seu pior lado, dos cigarros e da pinga roubada pra impressionar as visitas) eu voltei pra casa triste e ao mesmo tempo feliz, como se alguma coisa que faz tempo que s pesasse tivesse se partido em mil pedaos. A gente se acostuma at com o que no presta. At porque voc me pediu pra escrever junto mas j tinha definido o final da histria desde a primeira linha. Na outra manh eu acordei cedo, enfrentei a estrada, cortei meus cabelos e deixei a barba de lado. Foi como nascer de novo. E ouvir toda aquela cerimnia e aquelas metforas ruins de como deus se importa sem se importar e sem mexer um dedo foi bonito e estranho. Sabe que meu primo viajava duas horas todos os dias pra ver essa garota? Com chuva, vento, estrada caindo, calor infernal ou frio ele estava l todo dia. Eu ri e respondi cnico que no fundo ele gostava de dirigir, mas a verdade que provavelmente eu no faria isso por voc, a gente nunca teria sobrevivido no mundo real, na primeira crise, nos primeiros planos divergentes pro futuro. A gente seria um bom conto, uma boa novela, mas eu nunca consegui imaginar a gente durando um romance inteiro. Nesses mesmos dias, nas nossas sincronias esquisitas, eu comecei a ler esse livro que se espalha em cinco tempos e trs mulheres diferentes, em captulos alternados, e parece ( claro que o escritor mente tambm) que ele amou intensamente todas as trs e que guarda lembranas boas e ruins de tudo, mas guarda com carinho. E eu nas ltimas semanas venho revisitando todas as minhas garotas as que estiveram aqui depois de voc e eu vejo que eu tive bastante sorte nisso, todas so fantsticas e mereciam que eu tivesse pintado quadros e escrito canes de amor. As canes acabaram sendo todas pra voc, que foi a primeira e sempre foi impossvel. Mas eu errei, eu me confundi. Eu quis pensar que procurava voc em todas as bocas e cabelos e olhos cados mas a verdade que eu sempre gostei disso. Eu no estava te procurando, isso foi uma falcia que eu amei acreditar, voc s foi a primeira a ter um tanto das qualidades que eu queria sofrer por. Talvez se eu tivesse enxergado isso antes eu no teria sido to cruel ou to condescendente com todas essas outras garotas, eu teria tentado mais forte, de novo e de outras maneiras. O que eu quero te dizer e venho esperando esse tempo inteiro, sabendo que vai soar meio idiota, isso. Esse o fim dessa histria, eu acho que agora posso ser o irmo que voc sempre quis, eu quero que voc continue por perto pra eu nunca mais, em um surto de saudade, achar que voc the unified theory of everything, eu quero que voc mantenha seus segredos, quero que voc se divirta como bem entender, quero poder fazer planos contigo que no incluam filhos e samambaias, quero escrever pra outras garotas, danar com outro par, poder contar o que aconteceu sem amargar a boca, quero continuar te contando as histrias mais imbecis sem que isso tenha que doer em qualquer dos lados, quero te mostrar meus hematomas e rir das nossas tempestades em copos dgua. E mais que tudo, quero que voc seja feliz porque eu no importa as apostas contrrias e minha tendncia a apostar nos cavalos mais imbecis vou ser e pronto acabou. A vida curta demais pra tanta tristeza. At logo.***

Recommended

View more >