Zola, Emile - Do Romance

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    17-Dec-2015

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Zola, Emile - Do Romance

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Do Romance

Do RomanceEMILE ZOLA

Plnio Augusto Coelho traduo

http://br.groups.yahoo.com/group/digital_sourceDo Romance rene quatro estudos nos quais mile Zola, um dos principais escritores do movimento realista francs, apresenta toda a sua crena em uma concepo artstica desprovida de qualquer indulgncia em relao raa humana e influenciada pelo positivismo e pelas descobertas cientficas do sculo XIX.Essas caractersticas do realismo so bastante conhecidas e acabaram-se tornando verdadeiros esteretipos. Mas Zola mostra-se aqui muito mais erudito e perspicaz - s vezes beirando a contradio -, ao defender outros requisitos para o seu escritor ideal. Victor Hugo, o papa do maneirismo romntico, chega a ser citado como exemplo de um estilo refinado, porm perigoso. Por outro lado, a "mo pesada" de alguns escritores realistas repreendida, assim como a crtica social sem a expresso prpria de cada artista.O melhor deste livro, no entanto, encontra-se nas trs deliciosas peas crticas dedicadas a Stendhal, Flaubert e os irmos Goncourt. Apesar do elogio a esses autores, Zola no fecha os olhos para as imperfeies dos seus colegas realistas e denuncia, por exemplo, uma composio literria fraca na obra de Stendhal, ou satiriza os excessos detalhistas de Flaubert.Aos crticos cidos do movimento realista, pode-se revelar que talvez exista muito mais bom-humor do que apatia na famosa frase de Stendhal; "Todas as manhs leio uma pgina do Cdigo Civil para pegar o tom".SUMARIO

A Utopia NaturalistaO Senso do Real

Stendhal

Gustave Flaubert

Edmond e Jules de Goncourt

A UTOPIA NATURALISTA

talo Caroni

Todo artista , a seu modo, um mstico. Uma f permanente sustenta e consolida o arcabouo geral da grande obra arquitetada ao longo de toda uma vida. Qual Prometeu, ele rouba o fogo sagrado, luz criadora de mundos, chama que anima sua criao e suas criaturas.

Assim Zola, cuja crena naturalista alcana os contornos de uma verdadeira utopia. Afirmativa capaz at de surpreender o pblico j habituado leitura picante ou viso pessimista de um escritor responsvel, entre outras coisas, por textos como Nan e A Besta Humana. Felizmente, porm, Zola no se reduz a vulgares esteretipos de amplo consumo e descartveis. Para fazer-lhe justia, impe-se muito alm de qualquer verniz pornoertico ou sadodeterminista.

Qual o seu credo, afinal? Na base, sem dvida, um enfoque negativo da condio humana centrada na sua dimenso natural e sem o reconforto de nenhum suporte espiritual: coisa no universo das coisas o homem est condicionado pelo meio ambiente e pelo estigma hereditrio que se renovam sem parar no ciclo vida-morte. Como a pedra e a planta, o ser humano tem o seu destino inscrito no cosmos universal, e no escrito numa bblia qualquer. A metafsica cede seu lugar fsica, mesmo se o mistrio persiste... E se, no imaginrio zoliano, Eros e Tnatos presidem o movimento do eterno retorno como propriedades da matria ou como divindades annimas, pouco importa! Queira-se ou no, toda uma mitologia cosmonatural e bioorgnica acaba povoando a sua vasta criao, que descreve foras geradoras e destruidoras. E, de permeio a tanta misria, luzem os vislumbres otimistas da constatao pura e simples de que a vida sadia teima em renovar-se sempre e sempre, como o ilustra de modo quase potico o Doutor Pascal, elo derradeiro da saga dos Rougon-Macquart.

Alm do que, como um esprito autntico de seu tempo, Emile Zola vai introduzir, nessa viso naturalista, a esperana moderna por excelncia do milagre cientfico. Pois na verdade a cincia torna-se, para ele como para sua poca, um libi espiritual. Com ingenuidade, acredita-se ento no poder sobre-humano de um progresso cientfico apto a regenerar e apurar a espcie humana. E isto mesmo que seus livros dizem. Cada romance descreve a mecnica humana em funcionamento donde, s vezes, o aspecto francamente demonstrativo ou obsceno , mas para detectar o rgo doentio a fim de san-lo ou extirp-lo. Novo sopro otimista estremece dessa forma o conjunto de uma obra, toda ela voltada para o futuro mirfico onde se implantar sobre a Terra uma sociedade perfeita para a raa regenerada. Mdico e socilogo implcito, Zola aparece como um mstico materialista trabalhando por uma cincia e um socialismo forjadores da miragem paradisaca. Que esta crena impregne seus escritos j no h dvida alguma para os seus leitores no-ocasionais, bem como para a crtica especializada, que tem enfatizado o arranjo por assim dizer messinico da arquitetura global de uma produo artstica em que o ciclo dos Rougon-Macquart figura uma espcie de Antigo Testamento precedendo o conjunto final dos Evangelhos. Essa postura profunda vai, como lgico, sedimentar todas as suas convices de artista. Emile Zola remete alis, por analogia, a certos outros escritores-pensadores franceses; e, sem possuir a ironia irreverente de um Voltaire nem o pensamento sistematizado de um Sartre, acaba por confundir-se ele tambm com a imagem do filsofo que se exprime atravs da fico. Existe portanto nele uma concepo de arte como coisa sria, que se ope desde logo ao ldico ou ao ornamental. O que no difcil constatar ao longo dos textos tericos e crticos reunidos neste volume.

Que no se espere, entretanto, nenhuma teoria do romance de algum que nunca foi terico do gnero. No fundo, trata-se de reflexes mais ou menos tericas a servio da prtica. E de uma prtica que, por sua vez, vem impregnada daquela vocao humanitria evocada linhas atrs. Com a certeza ferrenha ou feroz que o excita, Zola ataca o inimigo e defende seus princpios, ao mesmo tempo humanitrios e artsticos. A arte confunde-se com o pensamento, ambos a servio da crena pessoal. Donde a veemncia de muitas de suas diatribes, a comear pelo contundente Meus dios, com que abriu os combates no incio da carreira.

Nas pginas que seguem, o tom moderado de quem fala de colegas e amigos segue mpetos mais arrebatadores. O primeiro texto discute aspectos um tanto tcnicos e portanto no necessariamente polmicos, da arte romanesca; os trs finais discorrem sobre escritores que esto ou, pelo menos, deveriam estar ao lado de Zola no campo de batalha.

O captulo sobre "o senso do real" ataca os contistas imaginativos, para melhor defender os romancistas srios que sacrificam o imaginrio ao real. No a primeira vez, nem a ltima, que Zola questiona a imaginao em literatura, e de modo particular no romance. Como tambm o nome de Victor Hugo no surge por acaso no alvo de suas flechadas, pois esse virtuose da linguagem encabea a coorte dos romnticos "podres de lirismo", que escrevem obras de pura imaginao, baseiam-se no sobrenatural e no irracional, admitem foras misteriosas e permanecem no nvel dos sentimentos, sem jamais respeitar a realidade e o determinismo dos fatos nem controlar as reaes e comportamentos pela experincia etc. etc. Enfim, quem, em tudo e por tudo, no respeita o receiturio naturalista da arte literria que ele prprio est codificando.

No deixa todavia de ser curioso o modo pelo qual Emile Zola acaba por escamotear a mesma imaginao na sua esttica pessoal. Pois o que vem a ser afinal aquela famosa "experincia", que ele tanto apregoa, seno uma operao puramente imaginria, associada por metfora aos procedimentos dos cientistas? O romancista naturalista no faz experincia alguma; ele rene, apenas, a mais vasta documentao sobre o tema romanesco escolhido e, diante da pgina em branco, deixa trabalhar as suas faculdades imaginativas, que vo urdindo tramas e redigindo textos, como qualquer outro escritor de fico.Onde intervm, ento, o tal de sentido da realidade ou dom de "sentir a natureza e exprimi-la tal qual"? Como se a natureza fosse algo perceptvel com objetividade absoluta! Quando muito, tal qual a capta Zola; e, a sim, tem-se algo que lhe peculiar. Para prov-lo, basta percorrer muitas das belas pginas espalhadas por diversos de seus textos mais tocantes, como O Pecado do Padre Mouret, Uma Pgina de Amor, A Besta Humana, O Doutor Pascal, nos quais se revela um romancista-poeta dotado de rara sensibilidade. A este aplica-se com toda propriedade o "sinto, logo existo", aforismo cartesiano adaptado atravs da leitura do fisiologista Letourneau, que faz parte do abundante material coletado e comentado nas anotaes prvias elaborao do ciclo dos Rougon-Macquart.

No tpico sobre "a expresso pessoal", flagra-se nova proposta contraditria. Sua postulao terica nunca se cansa de proclamar em alto e bom som que o autor deve desaparecer por trs da obra. Ideal de impassibilidade que s um Flaubert quase logrou alcanar, mas com grandes riscos de escrever para ningum!... Em todo caso, e pelo menos no plano terico, Zola institui o princpio sagrado do artista imparcial, objetivo tanto quanto o cientista que, por exemplo, no se irrita com as reaes imprevistas do azoto utilizado em sua experincia.

Ora, nestas rpidas elucubraes, o leitor depara-se com o oposto simtrico desse postulado, visto que o escritor autntico passa a ser aquele que, como seu amigo Daudet, tem a virtude de fundir vida e arte. Apenas a vivncia humana decantada e trabalhada pode subsidiar o ato criativo. Sem ela, a arte degenera em artifcio que os mais hbeis conseguem ate dominai ou copiar, mas que permanecera morto enquanto molde no preenchido por matria viva, que cada um s pode tirar de si mesmo. Logo, a expresso pessoal, ou para usar um termo mais desgastado a originalidade, no implica nem aspectos formais nem existenciais. Pouco importam a gramtica e o estilo se, atravs da prosa correta e envernizada, no se sente vibrarem seres palpitantes de vida.

Reaparece, dessa forma, a obsessiva fidelidade natureza. Feitas as contas, no causa tanta perplexidade v-lo, apesar de tudo, elogiar os escritores que riem e choram com os seus protagonistas ou exigir deles que insuflem sua vida pessoal na reconstituio do real. E o arauto da literatura cientfica conforma-se ao fato comumente admitido de que as criaes artsticas constituem sempre uma percepo personalizada do universo ou um universo recriado por uma sensibilidade nica e inconfundvel. Na falta desse princpio integrador, fica apenas a retrica, desembocando seja no ornamento, seja nos exerccios de abstrao laboratorial. Em ambos os casos, revela-se incompatibilidade com o mandamento zoliano que investe o ato criador de uma misso muito mais austera. Como acontece em nossa era ps-estruturalista, tambm imps-se ao sonho cientfico do sculo passado uma sub-reptcia reinsero do "sujeito" na arte.

Com pequena variante, Emile Zola remexe outra temtica que andou extasiando bastante a crtica literria pr-ps-moderna, a saber, o sempre servido e s vezes requentado prato da "crtica-criao". Inverta-se to somente a ordem dos fatores: hoje a crtica se diz arte, ao passo que ento o romance procurava afirmar-se como crtica. Reiteradas vezes, chefe e sectrios da escola naturalista reivindicaram o enobrecimento do romance que no dizer dos irmos Cronpourt por exemplo, evolura da simples categoria de leitura andina e ftil de leitura andina e ftil para o honroso status de estudo crtico e aprofundado. Tal valorizao do gnero passa, portanto, por essa pleiteada afinidade com o trabalho de crtica, que abrange por seu turno arte e sociedade.

Estes pressupostos sustentam a argumentao de "a frmula crtica aplicada ao romance". A equao clara e eloqente: o romancista procede, com relao personagem, exatamente como o crtico face ao autor. No obstante, mais que a similitude metodolgica, interessa a de contedo, que faz com que, na ptica naturalista, o romance se transforme em anlise crtica das paixes e comportamentos contextualizados. Alis, a prpria palavra "romance" incomodava Zola, que a aceitou por excluso, depois de ter tentado substitu-la por outras, como "estudo" ou "relatrio", mais adequados ao almejado enfoque cientfico, com a vantagem suplementar de facilitar a troca da imaginao gratuita por uma espcie de imaginao dedutiva.

Imprpria lhe parecia, da mesma forma, a palavra "descrio", agora tambm enobrecida com a misso de "completar e determinar". No mais, portanto, os encantos do belo estilo, mas sim o detalhamento minucioso da ecologia humana. Por isso mesmo, as melhores performances descritivas devem ser creditadas, no aos exerccios arte-pela-arte maneira de Thophile Gautier, mas antes pintura necessria de Flaubert ou escrita humana dos Goncourt.

De sbito, irrompe inesperado mea culpa, com Zola arrependido em parte pelos excessos descritivos com os quais procurou ampliar o quadro humano e natural desenhado em certos romances. O caso e a justificativa das ultra-simtricas cinco descries de Uma Pgina de Amor tem muito de sintomtico. De novo, a arte suplanta a teoria. Dizer que a descrio apenas completa o grfico do homem em seus condicionamentos naturais reduzi-la por demais a uma simples tcnica de pesquisa cientfica... Por trs do iderio de proslito ocultam-se "intenes sinfnicas" que se apossam do artista, apesar dele. Zola se documenta, planeja, classifica, esboa mas, no instante nico em que a chama criativa se acende, quem pega da pena mesmo e conduz o processo o demnio da arte. E os mpetos artsticos, que assim triunfam, nascem da experincia vivida, confirmando de certa forma a justeza do binmio vida-arte que, neste ponto pelo menos, d razo ao terico.

Nos trs estudos que formam o ncleo destes textos crticos escolhidos, Emile Zola prossegue em sua tarefa de codificao artstica, mas agora mais propenso, como em outras ocasies, ao mapeamento dos domnios do Naturalismo. Duas preocupaes de base orientam, aqui e alhures, sua dmarche argumentativa: congregar os componentes da escola, opondo-os, via de regra, aos adversrios; definir, o mais das vezes de modo inconsciente, a especificidade de sua esttica pessoal.

O "Stendhal", que encabea a trade examinada, vai caracterizar-se por contraste com o todo-poderoso e ainda idolatrado Victor Hugo. Por sinal, quem quiser ter uma idia mais enftica da guerra sem trgua que Zola moveu contra o autor de Os Miserveis ganhar em ler a veemente "Carta Juventude", que ataca com igual vigor Ernest Renan, outro monstro, mais ou menos sagrado porm. Para Zola, Stendhal faz parte do grupo dos reconhecidos como afins, apesar de certos matizes particulares de sua arte. Valorizando desde o incio a documentao disponvel, Zola procede a uma interessante resenha dos trabalhos assinados por Balzac, Sainte-Beuve e Taine, cujos perfis ganham em nitidez, tanto quanto o do prprio Stendhal. A grande virtude deste, aos olhos do terico naturalista, chegar, sem arroubos retricos, pintura da natureza humana tal como ela ; seu grande defeito, tratar a alma humana com abstrao e sem encarn-la num corpo mergulhado na natureza, alm da ausncia de lgica na composio e no estilo. Em outras palavras, Stendhal, que tem o grande mrito de repudiar o falso brilho verbal dos romnticos e trazer em si um fundo de verdade humana indiscutvel, no chega a ser um naturalista legtimo e, menos ainda, um escritor zoliano capaz de compor com toda lgica e clareza possveis textos...