Zola, Emile - Do Romance

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    17-Dec-2015

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Zola, Emile - Do Romance

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Do Romance

Do RomanceEMILE ZOLA

Plnio Augusto Coelho traduo

http://br.groups.yahoo.com/group/digital_sourceDo Romance rene quatro estudos nos quais mile Zola, um dos principais escritores do movimento realista francs, apresenta toda a sua crena em uma concepo artstica desprovida de qualquer indulgncia em relao raa humana e influenciada pelo positivismo e pelas descobertas cientficas do sculo XIX.Essas caractersticas do realismo so bastante conhecidas e acabaram-se tornando verdadeiros esteretipos. Mas Zola mostra-se aqui muito mais erudito e perspicaz - s vezes beirando a contradio -, ao defender outros requisitos para o seu escritor ideal. Victor Hugo, o papa do maneirismo romntico, chega a ser citado como exemplo de um estilo refinado, porm perigoso. Por outro lado, a "mo pesada" de alguns escritores realistas repreendida, assim como a crtica social sem a expresso prpria de cada artista.O melhor deste livro, no entanto, encontra-se nas trs deliciosas peas crticas dedicadas a Stendhal, Flaubert e os irmos Goncourt. Apesar do elogio a esses autores, Zola no fecha os olhos para as imperfeies dos seus colegas realistas e denuncia, por exemplo, uma composio literria fraca na obra de Stendhal, ou satiriza os excessos detalhistas de Flaubert.Aos crticos cidos do movimento realista, pode-se revelar que talvez exista muito mais bom-humor do que apatia na famosa frase de Stendhal; "Todas as manhs leio uma pgina do Cdigo Civil para pegar o tom".SUMARIO

A Utopia NaturalistaO Senso do Real

Stendhal

Gustave Flaubert

Edmond e Jules de Goncourt

A UTOPIA NATURALISTA

talo Caroni

Todo artista , a seu modo, um mstico. Uma f permanente sustenta e consolida o arcabouo geral da grande obra arquitetada ao longo de toda uma vida. Qual Prometeu, ele rouba o fogo sagrado, luz criadora de mundos, chama que anima sua criao e suas criaturas.

Assim Zola, cuja crena naturalista alcana os contornos de uma verdadeira utopia. Afirmativa capaz at de surpreender o pblico j habituado leitura picante ou viso pessimista de um escritor responsvel, entre outras coisas, por textos como Nan e A Besta Humana. Felizmente, porm, Zola no se reduz a vulgares esteretipos de amplo consumo e descartveis. Para fazer-lhe justia, impe-se muito alm de qualquer verniz pornoertico ou sadodeterminista.

Qual o seu credo, afinal? Na base, sem dvida, um enfoque negativo da condio humana centrada na sua dimenso natural e sem o reconforto de nenhum suporte espiritual: coisa no universo das coisas o homem est condicionado pelo meio ambiente e pelo estigma hereditrio que se renovam sem parar no ciclo vida-morte. Como a pedra e a planta, o ser humano tem o seu destino inscrito no cosmos universal, e no escrito numa bblia qualquer. A metafsica cede seu lugar fsica, mesmo se o mistrio persiste... E se, no imaginrio zoliano, Eros e Tnatos presidem o movimento do eterno retorno como propriedades da matria ou como divindades annimas, pouco importa! Queira-se ou no, toda uma mitologia cosmonatural e bioorgnica acaba povoando a sua vasta criao, que descreve foras geradoras e destruidoras. E, de permeio a tanta misria, luzem os vislumbres otimistas da constatao pura e simples de que a vida sadia teima em renovar-se sempre e sempre, como o ilustra de modo quase potico o Doutor Pascal, elo derradeiro da saga dos Rougon-Macquart.

Alm do que, como um esprito autntico de seu tempo, Emile Zola vai introduzir, nessa viso naturalista, a esperana moderna por excelncia do milagre cientfico. Pois na verdade a cincia torna-se, para ele como para sua poca, um libi espiritual. Com ingenuidade, acredita-se ento no poder sobre-humano de um progresso cientfico apto a regenerar e apurar a espcie humana. E isto mesmo que seus livros dizem. Cada romance descreve a mecnica humana em funcionamento donde, s vezes, o aspecto francamente demonstrativo ou obsceno , mas para detectar o rgo doentio a fim de san-lo ou extirp-lo. Novo sopro otimista estremece dessa forma o conjunto de uma obra, toda ela voltada para o futuro mirfico onde se implantar sobre a Terra uma sociedade perfeita para a raa regenerada. Mdico e socilogo implcito, Zola aparece como um mstico materialista trabalhando por uma cincia e um socialismo forjadores da miragem paradisaca. Que esta crena impregne seus escritos j no h dvida alguma para os seus leitores no-ocasionais, bem como para a crtica especializada, que tem enfatizado o arranjo por assim dizer messinico da arquitetura global de uma produo artstica em que o ciclo dos Rougon-Macquart figura uma espcie de Antigo Testamento precedendo o conjunto final dos Evangelhos. Essa postura profunda vai, como lgico, sedimentar todas as suas convices de artista. Emile Zola remete alis, por analogia, a certos outros escritores-pensadores franceses; e, sem possuir a ironia irreverente de um Voltaire nem o pensamento sistematizado de um Sartre, acaba por confundir-se ele tambm com a imagem do filsofo que se exprime atravs da fico. Existe portanto nele uma concepo de arte como coisa sria, que se ope desde logo ao ldico ou ao ornamental. O que no difcil constatar ao longo dos textos tericos e crticos reunidos neste volume.

Que no se espere, entretanto, nenhuma teoria do romance de algum que nunca foi terico do gnero. No fundo, trata-se de reflexes mais ou menos tericas a servio da prtica. E de uma prtica que, por sua vez, vem impregnada daquela vocao humanitria evocada linhas atrs. Com a certeza ferrenha ou feroz que o excita, Zola ataca o inimigo e defende seus princpios, ao mesmo tempo humanitrios e artsticos. A arte confunde-se com o pensamento, ambos a servio da crena pessoal. Donde a veemncia de muitas de suas diatribes, a comear pelo contundente Meus dios, com que abriu os combates no incio da carreira.

Nas pginas que seguem, o tom moderado de quem fala de colegas e amigos segue mpetos mais arrebatadores. O primeiro texto discute aspectos um tanto tcnicos e portanto no necessariamente polmicos, da arte romanesca; os trs finais discorrem sobre escritores que esto ou, pelo menos, deveriam estar ao lado de Zola no campo de batalha.

O captulo sobre "o senso do real" ataca os contistas imaginativos, para melhor defender os romancistas srios que sacrificam o imaginrio ao real. No a primeira vez, nem a ltima, que Zola questiona a imaginao em literatura, e de modo particular no romance. Como tambm o nome de Victor Hugo no surge por acaso no alvo de suas flechadas, pois esse virtuose da linguagem encabea a coorte dos romnticos "podres de lirismo", que escrevem obras de pura imaginao, baseiam-se no sobrenatural e no irracional, admitem foras misteriosas e permanecem no nvel dos sentimentos, sem jamais respeitar a realidade e o determinismo dos fatos nem controlar as reaes e comportamentos pela experincia etc. etc. Enfim, quem, em tudo e por tudo, no respeita o receiturio naturalista da arte literria que ele prprio est codificando.

No deixa todavia de ser curioso o modo pelo qual Emile Zola acaba por escamotear a mesma imaginao na sua esttica pessoal. Pois o que vem a ser afinal aquela famosa "experincia", que ele tanto apregoa, seno uma operao puramente imaginria, associada por metfora aos procedimentos dos cientistas? O romancista naturalista no faz experincia alguma; ele rene, apenas, a mais vasta documentao sobre o tema romanesco escolhido e, diante da pgina em branco, deixa trabalhar as suas faculdades imaginativas, que vo urdindo tramas e redigindo textos, como qualquer outro escritor de fico.Onde intervm, ento, o tal de sentido da realidade ou dom de "sentir a natureza e exprimi-la tal qual"? Como se a natureza fosse algo perceptvel com objetividade absoluta! Quando muito, tal qual a capta Zola; e, a sim, tem-se algo que lhe peculiar. Para prov-lo, basta percorrer muitas das belas pginas espalhadas por diversos de seus textos mais tocantes, como O Pecado do Padre Mouret, Uma Pgina de Amor, A Besta Humana, O Doutor Pascal, nos quais se revela um romancista-poeta dotado de rara sensibilidade. A este aplica-se com toda propriedade o "sinto, logo existo", aforismo cartesiano adaptado atravs da leitura do fisiologista Letourneau, que faz parte do abundante material coletado e comentado nas anotaes prvias elaborao do ciclo dos Rougon-Macquart.

No tpico sobre "a expresso pessoal", flagra-se nova proposta contraditria. Sua postulao terica nunca se cansa de proclamar em alto e bom som que o autor deve desaparecer por trs da obra. Ideal de impassibilidade que s um Flaubert quase logrou alcanar, mas com grandes riscos de escrever para ningum!... Em todo caso, e pelo menos no plano terico, Zola institui o princpio sagrado do artista imparcial, objetivo tanto quanto o cientista que, por exemplo, no se irrita com as reaes imprevistas do azoto utilizado em sua experincia.

Ora, nestas rpidas elucubraes, o leitor depara-se com o oposto simtrico desse postulado, visto que o escritor autntico passa a ser aquele que, como seu amigo Daudet, tem a virtude de fundir vida e arte. Apenas a vivncia humana decantada e trabalhada pode subsidiar o ato criativo. Sem ela, a arte degenera em artifcio que os mais hbeis conseguem ate dominai ou copiar, mas que permanecera morto enquanto molde no preenchido por matria viva, que cada um s pode tirar de si mesmo. Logo, a expresso pessoal, ou para usar um termo mais desgastado a originalidade, no implica nem aspectos formais nem existenciais. Pouco importam a gramtica e o estilo se, atravs da prosa correta e envernizada, no se sente vibrarem seres palpitantes de vida.

Reaparece, dessa forma, a obsessiva fidelidade natureza. Feitas as contas, no causa tanta perplexidade v-lo, apesar de tudo, elogiar os escritores que riem e choram com os seus protagonistas ou exigir deles que insuflem sua vida pessoal na reconstituio do real. E o arauto da literatura cientfica conforma-se ao fato comumente admitido de que as criaes artsticas constituem sempre uma percepo personalizada do universo ou um universo recriado por uma sensibilidade nica e inconfundvel. Na falta desse princpio integrador, fica apenas a retrica, desembocando seja no ornamento, seja nos exerccios de abstrao laboratorial. Em ambos os casos, revela-se incompatibilidade com o mandamento zoliano que investe o ato criador de uma misso muito mais austera. Como acontece em nossa era ps-estruturalista, tambm imps-se ao sonho cientfico do sculo passado uma sub-reptcia reinsero do "sujeito" na arte.

Com pequena variante, Emile Zola remexe outra temtica que andou extasiando bastante a crtica literria pr-ps-moderna, a saber, o sempre servido e s vezes requentado prato da "crtica-criao". Inverta-se to somente a ordem dos fatores: hoje a crtica se diz arte, ao passo que ento o romance procurava afirmar-se como crtica. Reiteradas vezes, chefe e sectrios da escola naturalista reivindicaram o enobrecimento do romance que no dizer dos irmos Cronpourt por exemplo, evolura da simples categoria de leitura andina e ftil de leitura andina e ftil para o honroso status de estudo crtico e aprofundado. Tal valorizao do gnero passa, portanto, por essa pleiteada afinidade com o trabalho de crtica, que abrange por seu turno arte e sociedade.

Estes pressupostos sustentam a argumentao de "a frmula crtica aplicada ao romance". A equao clara e eloqente: o romancista procede, com relao personagem, exatamente como o crtico face ao autor. No obstante, mais que a similitude metodolgica, interessa a de contedo, que faz com que, na ptica naturalista, o romance se transforme em anlise crtica das paixes e comportamentos contextualizados. Alis, a prpria palavra "romance" incomodava Zola, que a aceitou por excluso, depois de ter tentado substitu-la por outras, como "estudo" ou "relatrio", mais adequados ao almejado enfoque cientfico, com a vantagem suplementar de facilitar a troca da imaginao gratuita por uma espcie de imaginao dedutiva.

Imprpria lhe parecia, da mesma forma, a palavra "descrio", agora tambm enobrecida com a misso de "completar e determinar". No mais, portanto, os encantos do belo estilo, mas sim o detalhamento minucioso da ecologia humana. Por isso mesmo, as melhores performances descritivas devem ser creditadas, no aos exerccios arte-pela-arte maneira de Thophile Gautier, mas antes pintura necessria de Flaubert ou escrita humana dos Goncourt.

De sbito, irrompe inesperado mea culpa, com Zola arrependido em parte pelos excessos descritivos com os quais procurou ampliar o quadro humano e natural desenhado em certos romances. O caso e a justificativa das ultra-simtricas cinco descries de Uma Pgina de Amor tem muito de sintomtico. De novo, a arte suplanta a teoria. Dizer que a descrio apenas completa o grfico do homem em seus condicionamentos naturais reduzi-la por demais a uma simples tcnica de pesquisa cientfica... Por trs do iderio de proslito ocultam-se "intenes sinfnicas" que se apossam do artista, apesar dele. Zola se documenta, planeja, classifica, esboa mas, no instante nico em que a chama criativa se acende, quem pega da pena mesmo e conduz o processo o demnio da arte. E os mpetos artsticos, que assim triunfam, nascem da experincia vivida, confirmando de certa forma a justeza do binmio vida-arte que, neste ponto pelo menos, d razo ao terico.

Nos trs estudos que formam o ncleo destes textos crticos escolhidos, Emile Zola prossegue em sua tarefa de codificao artstica, mas agora mais propenso, como em outras ocasies, ao mapeamento dos domnios do Naturalismo. Duas preocupaes de base orientam, aqui e alhures, sua dmarche argumentativa: congregar os componentes da escola, opondo-os, via de regra, aos adversrios; definir, o mais das vezes de modo inconsciente, a especificidade de sua esttica pessoal.

O "Stendhal", que encabea a trade examinada, vai caracterizar-se por contraste com o todo-poderoso e ainda idolatrado Victor Hugo. Por sinal, quem quiser ter uma idia mais enftica da guerra sem trgua que Zola moveu contra o autor de Os Miserveis ganhar em ler a veemente "Carta Juventude", que ataca com igual vigor Ernest Renan, outro monstro, mais ou menos sagrado porm. Para Zola, Stendhal faz parte do grupo dos reconhecidos como afins, apesar de certos matizes particulares de sua arte. Valorizando desde o incio a documentao disponvel, Zola procede a uma interessante resenha dos trabalhos assinados por Balzac, Sainte-Beuve e Taine, cujos perfis ganham em nitidez, tanto quanto o do prprio Stendhal. A grande virtude deste, aos olhos do terico naturalista, chegar, sem arroubos retricos, pintura da natureza humana tal como ela ; seu grande defeito, tratar a alma humana com abstrao e sem encarn-la num corpo mergulhado na natureza, alm da ausncia de lgica na composio e no estilo. Em outras palavras, Stendhal, que tem o grande mrito de repudiar o falso brilho verbal dos romnticos e trazer em si um fundo de verdade humana indiscutvel, no chega a ser um naturalista legtimo e, menos ainda, um escritor zoliano capaz de compor com toda lgica e clareza possveis textos-documentos extrados da natureza. Tambm no se lhe deve atribuir nenhuma superioridade sobre os naturalistas, visto que a concepo psicolgica do homem no superior fisiolgica. De qualquer forma, subsiste uma admirao contida e, at certo ponto, estratgica que sempre contrabalana um pouco a onipresena hugoana.

Dentre os parceiros literrios, quem ocupa o lugar de destaque sem dvida alguma Gustave Flaubert, amigo estimado e mestre cooptado. A quantidade certamente, mas sobretudo a qualidade das pginas que lhe so dedicadas testemunham essa marcante influncia artstica e humana. Zola compartilhou, com um pequeno grupo de colegas, da intimidade do homem e do artista Flaubert, que os recebia no isolamento normando de Croisset e os freqentava nas suas espaadas estadias parisienses. Seu testemunho pessoal, comovida homenagem pstuma, retraa circunstncias e lutas vividas por Flaubert, revelando assim um pouco da pessoa que o grande escritor francs sempre procurou ocultar por trs de suas produes artsticas. O discpulo naturalista ajuda portanto a resgatar em parte o homem Flaubert, que, segundo este, devia deixar para a posteridade a impresso de no ter existido.

Mas h tambm na homenagem zoliana o resgate do artista. Alm de reiterarem a prova de amizade, as consideraes sobre o artista denotam o incansvel nimo proselitista do Emile Zola chefe de escola literria brindando, mais uma vez, o leitor com um flagrante de rotulagem naturalista. Esse texto, como boa parte de seus escritos crticos, situa-se por volta de 1880, clmax do movimento naturalista, centrado todo ele na figura do chefe inconteste da nova gerao literria. E, como digno chefe, este demarca seu territrio e elenca os seus, entre vivos e mortos. Com que segurana no encampa ele o ilustre e recm-desaparecido criador de Emma Bovary!

Pouco importa se a questo tinha ou no sentido para Flaubert, mas Zola o inclui sem o menor escrpulo no patrimnio do Naturalismo. Madame Bovary? Ora, nada mais do que o prottipo do romance naturalista, smula das caractersticas da escola! Seu autor? O modelo do observador-experimentador segundo o estrito figurino naturalista! E, mesmo se um certo entusiasmo pela fora potica da prosa flaubertiana desponta de vez em quando na anlise de seus demais romances, a leitura que Zola faz de Flaubert baliza, no seu todo, um itinerrio eminentemente naturalista. Malgrado a admirao sincera, transparece aquele esprito partidrio sempre em busca do posies consolidadas. Com efeito, qual melhor represa contra eventuais transbordamentos romnticos do que o recm-falecido autor de A Educao Sentimental?

O leitor avesso a polmicas ser, por sua vez, sensvel penetrante avaliao zoliana que v em Flaubert a sntese das duas tendncias maiores das geraes ps-1830: a anlise exata de Balzac e o brilho do estilo Victor Hugo, admirado apesar de combatido. Nesta ordem de idias surgem os melhores lances do estudo crtico de Zola, com frmulas lapidares sobre o estilo "sbrio e brilhante" ou as imagens "precisas e soberbas" de um prosador que "poeta com um sangue-frio que faz ver com preciso". Esse mesmo leitor notar ainda a perplexidade implcita de Zola diante das aparentes contradies de Flaubert, eremita e mrtir do fazer artstico, gnio que levou as letras francesas a um prodigioso salto frente, mas que execra e abomina tudo o que traz marcas de modernidade. Como se em Flaubert tambm houvesse um conflito entre a teoria e a prtica... Equvoco que, logicamente, diz respeito ao prprio Zola teimando em fazer de Flaubert um esprito bem do seu tempo, moderno-progressista-positivista-naturalista, quando ele mesmo se diz, coerente consigo, um escritor acima de qualquer suspeita temporal, um asceta da arte eterna e cujo grande combate consiste em vencer os obstculos que se opem a uma perfeio sempre perfectvel: "Tudo foi dito antes de ns, resta-nos apenas redizer as mesmas coisas, numa forma mais bela, se for possvel".

Por no ser este o seu sonho, Zola vai mostrar-se pouco traumatizado pelo calvrio artstico do amigo e muito perplexo com suas intolerncias estilsticas, preferindo celebrar nele o filsofo experimentador que se ignora. que se ignora. Nas entrelinhas esboa-se o perfil de um ctico e satrico que pode contar como aliado precioso na cruzada zoliana pela verdade e pela justia.

No fecho desse percurso crtico cumprido por Emile Zola, os irmos Edmond e Jules de Goncourt completam, no por acaso, a simetria da coletnea, que comea e termina pela apologia das sensaes. Realmente, salta aos olhos que o grande fascnio exercido pela dupla de requintados estetas franceses resulta daquele to apregoado sentido, ou senso, do real, maneira muito particular de sentir e que comunicada por um estilo inventado de propsito. Graas a uma sensibilidade diferente, delicada e como que nervosa ou doentia, os Goncourt, ainda por cima hbeis manipuladores da linguagem, realizaram, segundo Zola, a proeza de abrir um novo caminho ao romance francs, que se encontrava num beco sem sada aps o fenmeno Balzac. Caminho este que, como reivindica novamente o chefe de escola, assegura-lhes um espao muito particular na marcha naturalista. Pois, mais uma vez, presencia-se um caso de encampamento literrio, mesmo se a produo de seus dois contemporneos desliza s vezes para uma elegncia e um maneirismo incompatveis com os caminhos estticos do austero Naturalismo.

Como era de se esperar, para Germinie Lacerteux que vo as preferncias de Zola quanto ao conjunto de oito romances compostos a quatro mos pelos irmos siameses das letras francesas. Todos os clichs naturalistas parecem ter sido empregados no verdadeiro exame clnico do triste destino da domstica Germinie: fisiologia patolgica, dissecao cirrgica, estudo de temperamentos, determinismo orgnico-ertico, degradao moral e fsica, impulsos coercitivos do meio scio-natural e evento capital- a entrada do povo mido na literatura sria. O romance um um marco na histria da literatura francesa (e ocidental, como dir Auerbach na sua magistral Mimesis). Talvez mais pelas intenes do que pela realizao.

Um significado simblico agrega-se a esse receiturio de escola, para justificar ainda mais o empenho proselitista de Emile Zola. Aqui, como no caso de Flaubert, aceita-se corajosamente o desafio da indiferena pblica e a hostilidade crtica para projetar de modo mais provocante o Naturalismo como movimento alvissareiro procura de pelejas consagradoras. E Zola, espcie de mata-mouros das letras, sai lia de peito aberto e conclamando briga... No registro implcito, caberia comentar tambm os acertos de contas com os prprios parceiros, como esses mesmos Goncourt ou o sempre admirado Balzac.

Contudo, se os meios revelam egosmo partidrio ou pessoal, os fins jamais deixam de ser generosos: a Germinie, dos Goncourt, como muitos dos tristes e sofridos protagonistas zolianos, ser salva quando se puder subtra-la do ambiente viciado e degenerador em que a sociedade a condenou a viver. De novo, sobe no horizonte o clarear da utopia naturalista anunciando a sociedade perfeita e o paraso terrestre. Ingenuidade humanitria, to ilusria quanto o prprio sonho positivista por excelncia de uma cincia e de uma arte absolutamente precisas e transparentes.

O SENSO DO REAL

O mais belo elogio que se podia fazer a um romancista, outrora, era dizer: "Ele tem imaginao". Hoje, esse elogio seria visto quase como uma crtica. que todas as condies do romance mudaram. A imaginao j no a qualidade mestra do romancista.

Alexandre Dumas, Eugne Sue tinham imaginao. Em Notre-Dame de Paris, Victor Hugo imaginou personagens e uma fbula do mais vivo interesse; em Pauprat, George Sand soube apaixonar toda uma gerao pelos amores imaginrios de seus heris. Mas ningum ousou associar a imaginao a Balzac e a Stendhal. Falou-se de suas faculdades poderosas de observao e anlise; eles so grandes porque retrataram sua poca, e no porque inventaram contos. Foram eles que conduziram essa evoluo, foi a partir de suas obras que a imaginao deixou de contar no romance. Vejam nossos grandes romancistas contemporneos, Gustave Flaubert, Edmond e Jules de Goncourt, Alphonse Daudet: seu talento no vem do que eles imaginam, mas do fato de reproduzirem a natureza com intensidade

Insisto nesse declnio da imaginao porque vejo nisso a prpria caracterstica do romance moderno. Enquanto o romance foi uma recreao do esprito, um divertimento ao qual no se pedia seno graa e verve, compreende-se que a grande qualidade era antes de tudo mostrar nele uma inveno abundante. Mesmo quando o romance histrico e o romance ilustrando uma tese apareceram, ainda era a imaginao que reinava onipotente, para evocar os tempos idos ou para chocar como os argumentos das personagens construdas segundo as necessidades da justificao. Com o romance naturalista, o romance de observao e de anlise, as condies mudam imediatamente. O romancista inventa ainda mais; inventa um plano, um drama; apenas, uma ponta de drama, a primeira histria surgida, e que a vida cotidiana sempre lhe fornece. Em seguida, na estruturao da obra, isso tem bem pouca importncia. Os fatos s esto l como desenvolvimentos lgicos das personagens. O grande negcio colocar em p criaturas vivas, representando diante dos leitores a comdia humana com a maior naturalidade possvel. Todos os esforos do escritor tendem a ocultar o imaginrio sob o real.

Seria um estudo curioso dizer como trabalham nossos grandes romancistas contemporneos. Quase todos estabelecem suas obras a partir de notas, tomadas longamente. Quando estudaram com um cuidado escrupuloso o terreno onde devem caminhar, quando se informaram em todas as fontes e tm em mos os mltiplos documentos dos quais necessitam, somente nesse momento decidem-se a escrever. O plano da obra lhes trazido por esses prprios documentos, pois acontece de os fatos se originarem logicamente, este antes daquele; estabelece-se uma simetria, a historia se compe de todas as observaes recolhidas, de todas as notas tomadas, uma puxando a outra, pelo prprio encadeamento da vida das personagens, e a concluso nada mais que uma conseqncia natural e inevitvel. V-se, nesse trabalho, o quanto o imaginrio tem pouca importncia. Estamos longe de George Sand, por exemplo, que, segundo dizem, ficava diante de um caderno em branco e que, tendo partido de uma primeira idia, avanava sem parar, compondo medida que, confiando com toda certeza em sua imaginao, acrescentava tantas pginas quantas eram necessrias para fazer um volume. Um de nossos romancistas naturalistas quer escrever um romance acerca do mundo dos teatros. Ele parte dessa idia geral sem ter ainda um fato nem uma personagem. Seu primeiro cuidado ser reunir em notas tudo o que puder saber a respeito desse mundo que pretende retratar. Conheceu tal ator, assistiu a tal cena. Eis a documentos, os melhores, aqueles que amadureceram nele. Em seguida, sair a campo, ouvir os homens mais bem informados sobre a matria, colecionar as expresses, as histrias, as descries. No tudo: ir, depois, aos documentos escritos, lendo tudo o que lhe pode ser til. Enfim, visitar os locais, viver alguns dias num teatro para conhecer seus mnimos recantos, passar suas noites num camarim de atriz, impregnar-se- o mximo possvel do ar ambiente. E, uma vez completados os documentos, seu romance, como j o disse, se estabelecer por si mesmo. O romancista ter apenas que distribuir logicamente os fatos. De tudo o que tiver apreendido resultar a ponta do drama, a histria que ele necessita para montar o arcabouo de seus captulos. O interesse j no se encontra na estranheza dessa histria; ao contrrio, quanto mais banal e geral ela for , mais tpica se tornar. Fazer mover personagens reais num meio real, dar ao leitor um fragmento da vida humana, a se encontra todo o romance naturalista.

Visto que a imaginao j no a qualidade mestra do romancista, o que, ento, a substituiu? preciso sempre uma qualidade mestra. Hoje, a qualidade mestra do romancista o senso do real. E a isso que eu gostaria de chegar.

O senso do real sentir a natureza e represent-la tal como ela . Parece, inicialmente, que todo mundo possui dois olhos para ver e que nada deve ser mais comum do que o senso do real. Entretanto, nada mais raro. Os pintores sabem muito bem disso. Coloquem alguns pintores diante da natureza, eles a vero do modo mais barroco do mundo. Cada um a perceber sob uma cor dominante; um a far tender ao amarelo, um outro ao violeta, um terceiro ao verde. Para as formas, os mesmos fenmenos se produziro; um arredonda os objetos, outro multiplica os ngulos. Cada olho tem, assim, uma viso particular. Enfim, h olhos que no vem absolutamente nada. Possuem sem dvida alguma leso, o nervo que os liga ao crebro sofre de uma paralisia que a cincia ainda no pde determinar. O certo que de nada adiantar observarem a vida se mover ao seu redor, jamais sabero reproduzir exatamente uma cena.

No quero citar aqui nenhum romancista vivo, o que torna rainha demonstrao bastante difcil. Os exemplos esclareceriam a questo. Mas todos podem observar que alguns romancistas permanecem provincianos, mesmo depois de terem vivido vinte anos em Paris. So timos nas descries de sua regio, e, assim que abordam uma cena parisiense, perdem-se, no conseguem dar uma impresso justa de um meio, no qual, entretanto encontram se h anos. Eis a um primeiro caso, uma ausncia parcial do senso do real. Sem dvida, as impresses de infncia foram mais vivas, o olho fixou os quadros que o arrebataram inicialmente; depois, a paralisia se declarou, e intil o olho observar Paris, ele no a v, jamais a ver.

O caso mais freqente , por sinal, o da paralisia completa. Quantos romancistas crem ver a natureza e s a percebem atravs de todos os tipos de deformaes! Eles so de uma boa-f absoluta, na maioria das vezes. Persuadem-se de que puseram tudo num quadro, que a obra definitiva e completa. Sente-se isso pela convico com a qual acumularam os erros de cores e formas. Sua natureza uma monstruosidade que eles reduziram ou ampliaram, desejando cuidar do quadro. Apesar de seus esforos, tudo se dilui em tintas falsas, tudo clama e se aniquila. Podero, talvez, escrever poemas picos, mas nunca construiro uma obra real, porque a leso de seus olhos se ope a isso, porque, quando no se tem o senso do real, no possvel adquiri-lo.

Conheo contistas encantadores, fantasistas adorveis, poetas em prosa de cujos livros gosto muito. Esses no se ocupam em escrever romances e permanecem excelentes, fora do real. O senso do real s se torna absolutamente necessrio quando nos prendemos s pinturas da vida. Ento, nas perspectivas em que nos encontramos hoje, nada poderia substitu-lo, nem um estilo apaixonadamente elaborado, nem o vigor da pintura, nem as tentativas mais meritrias. Vocs pintam a vida, vejam-na antes de tudo tal como ela e dem a exata impresso dela. Se a impresso barroca, se os quadros so mal-estruturados, se a obra descamba para a caricatura, quer seja pica ou simplesmente vulgar, uma obra natimorta, que est condenada a um rpido esquecimento. No est amplamente assentada sobre a verdade, no tem nenhuma razo de ser.

Esse senso do real me parece muito fcil de constatar num escritor. Para mim, uma pedra de toque que decide sobre todos os meus julgamentos. Quando leio um romance, condeno-o se me parece faltar senso do real ao autor. Quer ele esteja num fosso ou nas estrelas, embaixo ou em cima, -me igualmente indiferente. A verdade tem um som sobre o qual estimo que no nos poderamos enganar. s frases, os pargrafos, as pginas, o livro inteiro devem soar a verdade. Dir-se- que so necessrios ouvidos delicados. So necessrios ouvidos justos, nada mais. E o prprio pblico, que no poderia pretender uma grande delicadeza de sentidos, compreende, todavia, muito bem as obras que soam a verdade. Ele vai pouco a pouco a estas, enquanto faz rapidamente silncio sobre as outras, sobre as obras falsas que soam o erro.

Assim como se dizia outrora de um romancista: "Ele tem imaginao", peo, portanto, que se diga hoje: "Ele tem o senso do real". O elogio ser maior e mais justo. O dom de ver ainda menos comum do que o dom de criar. Para melhor me fazer entender, volto a Balzac e a Stendhal. Ambos so nossos mestres. Mas confesso no aceitar todas as suas obras com a devoo de um fiel que se inclina sem exame. S os acho verdadeiramente grandes e superiores nas passagens em que tiveram o senso do real.

No conheo nada de mais surpreendente em O Vermelho e o Negro do que a anlise dos amores de Julien e de madame de Renal. preciso levar em considerao a poca em que o romance foi escrito, em pleno romantismo, quando os heris se amavam no lirismo mais desenfreado. E eis um rapaz e uma mulher que se amam, enfim, como todo mundo, loucamente, profundamente, com as e quedas e os sobressaltos da realidade. uma pintura superior. Darei por essas pginas todas aquelas em que Stendhal complica o carter de Julien, mergulha nos duplos temas diplomticos que adorava. Hoje, ele s verdadeiramente grande porque, em sete ou oito cenas, ousou mostrar o elemento real, a vida no que ela tem de verdadeiro.

O mesmo com Balzac. H nele um sonolento desperto, que sonha e cria, s vezes, figuras curiosas, mas que no engrandece, com certeza, o romancista. Confesso no ter admirao pelo autor de A Mulher de Trinta Anos, pelo inventor do tipo de Vautrin na terceira parte das Iluses Perdidas e em Esplendor e Misria das Cortess. a isso que chamo a fantasmagoria de Balzac. Tambm no gosto de seu grand monde, que ele inventou inteiramente e que faz rir, com exceo de alguns tipos magnficos imaginados por seu gnio. Em resumo, a imaginao de Balzac, essa imaginao desregrada que se lanava em todos os exageros e que queria criar o mundo de novo, sobre planos extraordinrios, essa imaginao me irrita mais do que me atrai. Se o romancista tivesse tido somente essa imaginao, seria apenas, hoje, um caso patolgico e uma curiosidade em nossa literatura.

Felizmente, entretanto, Balzac possua alm disso o senso do real, e o senso do real mais desenvolvido j visto at aquele momento. Suas obras-primas o atestam, essa maravilhosa A Prima Bette, na qual o baro Hulot to colossal de verdade, essa Eugnia Grandet que contm toda a provncia em uma determinada poca de nossa histria. Seria ainda preciso citar O Pai Gonot, La Rabouilleuse, O Primo Pons, e tantas outras obras sadas todas vivas das entranhas de nossa sociedade A est a imortal glria de Balzac. Ele fundou o romance contemporneo, porque foi um dos primeiros a mostrar e empregar esse senso do real que lhe permitiu evocar todo o mundo.

Todavia, ver no tudo, preciso reproduzir. E por isso que, depois do senso do real, h a personalidade do escritor. Um grande romancista deve ter o senso do real e a expresso pessoal.

A EXPRESSO PESSOAL

Conheo romancistas que escrevem corretamente e que conquistaram, com o tempo, renome literrio. So muito laboriosos, abordam todos os gneros com a mesma facilidade. s frases fluem sozinhas de suas penas, e eles tm por tarefa produzir quinhentas ou seiscentas linhas todas as manhs antes do almoo. E, repito, um trabalho correto, a gramtica no absolutamente estropiada, o movimento bom, a cor aparece, s vezes, em pginas que fazem o pblico dizer, tomado de respeito: " muito bem escrito". Em resumo, esses romancistas tm toda a aparncia de verdadeiros talentos.

A infelicidade que eles no tm a expresso pessoal, e o bastante para torn-los para sempre medocres. Ser intil amontoar volumes sobre volumes, usar e abusar de sua incrvel fecundidade; nunca emanar de seus livros seno um odor repugnante de obras natimortas. Quanto mais produzirem, mais a pilha mofar. Sua correo gramatical, o esmero de sua prosa, o verniz de seu estilo podero iludir durante um certo tempo o grande pblico; mas tudo isso no bastar para dar vida a suas obras e no ter finalmente nenhum peso no julgamento que os leitores faro deles No tm a expresso pessoal, esto condenados, ainda mais porque, quase sempre, tambm no tem o senso do real, o que agrava sobremaneira seu caso.

Esses romancistas assumem o estilo que est no ar. Agarram as frases que voam em torno deles. Nunca as frases emanam de sua personalidade, eles as escrevem como se algum, por trs deles, as ditassem; e talvez seja por isso que lhes basta abrir a torneira de sua produo. No digo absolutamente que plagiam estes ou aqueles, que roubam de seus colegas pginas inteiras; ao contrrio, so to fluidos e superficiais que no se encontra neles nenhuma forte marca, nem mesmo a de algum ilustre mestre. Apenas, sem copiar, eles tm, em vez de um crebro criador, um imenso depsito repleto de frases conhecidas, locues-correntes, um tipo de mdia do estilo usual. Esse depsito inesgotvel, l eles se podem servir com ps para cobrir o papel. Eis um monte, e ainda mais! Sempre, sempre ps cheias de matrias frias e terrosas, que enchem as colunas dos jornais e as pginas dos livros.

Ao contrrio, vejam um romancista que possui a expresso pessoal, vejam Alphonse Daudet, por exemplo. Refiro-me a esse escritor porque um daqueles que mais vivem suas obras. Alphonse Daudet assistiu a um espetculo, a uma cena qualquer. Como possui o senso do real, mantm-se impressionado com essa cena, conserva dela uma imagem muito intensa. Podem passar os anos, o crebro conserva a imagem, o tempo, amide, s faz aprofund-la ainda mais. Ela acaba por se tornar uma obsesso, preciso que o escritor a comunique, descreva o que viu e fixou. Ocorre, ento, um fenmeno, a criao de uma obra original.

E inicialmente uma evocao. Alphonse Daudet se lembra do que viu, e rev as personagens com seus gestos, os horizontes com suas linhas. -lhe preciso descrever isso. Desde esse momento, ele representa as personagens, habita os locais, entusiasma-se ao confundir sua prpria personalidade com a personalidade dos seres e mesmo das coisas que quer retratar. Acaba por se tornar apenas um com a obra, pois absorve-se nela e ao mesmo tempo a revive por sua conta. Nessa ntima unio, a realidade da cena e a personalidade do romancista j no so distintas. Quais so os detalhes absolutamente verdadeiros, quais so os inventados? o que seria muito difcil dizer. O que h de certo que a realidade foi o ponto de partida, a fora de impulso que lanou possantemente o romancista; ele continuou, em seguida, a realidade, ampliou a cena no mesmo sentido, dando-lhe uma vida especial e que lhe prpria, unicamente a ele, Alphonse Daudet.

Todo o mecanismo da originalidade encontra-se ai, nessa expresso pessoal do mundo real que nos cerca. O encanto de Alphonse Daudet, esse encanto profundo que lhe valeu uma posio to elevada em nossa literatura contempornea, vem do sabor original que ele d frase mais simples. Ele no pode narrar um fato, apresentar uma personagem sem se colocar por inteiro nesse fato ou nessa personagem, com a vivacidade de sua ironia e a suavidade de sua ternura. Reconhecer-se-ia uma de suas pginas entre cem outras, porque suas pginas possuem vida prpria. E um encantador, um desses contistas meridionais que representam o que contam, com gestos que criam e uma voz que evoca. Tudo se anima sob suas mos abertas, tudo assume uma cor, um odor, um som. Eles choram e riem com seus heris, tratam-nos com intimidade, tornam-nos to reais que a gente os v em p, enquanto falam.

Como querem vocs que semelhantes livros no emocionem o pblico? Eles so vivos. Abram-nos e os sentiro palpitar em suas mos. E o mundo real: e ainda mais, o mundo real vivido por um escritor de uma originalidade extraordinria e intensa ao mesmo tempo. Ele pode escolher um tema mais ou menos feliz, trat-lo de um modo mais ou menos completo; a obra no ser menos preciosa por isso, posto que ela ser nica, visto que s ele pode dar-lhe essa aparncia, esse tom, essa existncia. O livro dele, isso basta. Classific-lo-o um dia, mas no deixa, por isso, de ser um livro parte, uma verdadeira criatura. Apaixonam-se por ele, amam-no ou no, ningum permanece indiferente. J no se trata de gramtica, de retrica, e no se tem mais sob os olhos somente uma pilha de papel impresso; um homem se encontra l, um homem do qual se ouve pulsar o crebro e o corao a cada palavra. Entregam-se a ele, porque ele se torna o senhor das emoes do leitor, porque tem a fora da realidade e a onipotncia da expresso pessoal.

Compreendam agora a impotncia radical dos romancistas dos quais falei mais acima. Nunca eles arrebataro e fixaro a ateno dos leitores, pois no sentem e no reproduzem um modo original. Buscar-se-ia em vo em suas obras uma impresso nova, expressa em um tour dephrase1 inventado. Quando fazem estilo, quando colhem aqui e acol frases felizes, essas frases, to vivas num outro, neles soam o nada no ha por trs dela um homem que verdadei-ramente sentiu e traduz por um esforo de sua criao; h somente um bcleur2 de prosa, abrindo as torneiras de sua produo. E ser intil aplicar-se, desejar escrever bem, acreditar que se pode fazer um belo livro como se faz um belo par de botas, com mais ou menos cuidado, jamais criaro uma obra viva. Nada substitui o senso do real e a expresso pessoal. Quando no se tem esses dons, melhor seria vender candeia do que se ocupar em escrever romances.

Citei, h pouco, Alphonse Daudet, porque ele me oferecia um exemplo surpreendente. Contudo, eu teria podido citar outros romancistas que esto longe de possuir seu talento. A expresso pessoal no se d necessariamente numa frmula perfeita. Pode-se escrever mal, incorretamente, de maneira descuidada, ainda que possuindo uma verdadeira originalidade na expresso. O pior, na minha opinio, , ao contrrio, esse estilo correto, fluindo de uma maneira fcil e prtica, esse dilvio de lugares-comuns, de imagens conhecidas, que faz o grande pblico apresentar este juzo irritante: "Est bem escrito". Pois bem, no, est mal escrito, uma vez que isso no tem uma vida particular, um sabor original, mesmo em detrimento da correo e das conformidades da lngua!

O maior exemplo da expresso pessoal em nossa literatura o de Saint-Simon. Eis um escritor que escreveu com seu sangue e sua blis, e que deixou pginas inesquecveis de intensidade e vida. Estou mesmo errado em cham-lo de escritor; ele era melhor do que isso, pois no parece ter-se preocupado em escrever, e alcanou de uma s vez o mais elevado estilo a criao de uma lngua, a expresso viva. Em nossos mais ilustres autores sente-se a retrica a afetao da frase; um cheiro de tinta escapa das pginas. Nele, nada dessas coisas; a frase nada mais do que palpitao da vida, a paixo secou a tinta, a obra um grito humano, o longo monlogo de um homem que vive com altivez. Isso est bem longe de nossa maneira romntica de entender uma obra, em que nos consumimos em todos os tipos de esforos artsticos.

1. Maneira de apresentar o pensamento segundo a disposio das palavras num enunciado (N do T )

2. Neologismo criado a partir do verbo bacler, que significa fazer algo rapidamente e Bem cuidado (N do T)

O mesmo vale para Stendhal. Este procurava dizer que, para obter o tom, lia todas as manhs algumas pginas do Cdigo Civil, antes de se pr ao trabalho. Deve-se ver nessa declarao uma simples bravata lanada escola romntica. Stendhal queria dizer que o estilo, para ele, era apenas a traduo mais clara e mais exata possvel da idia. Ele tambm possua a expresso pessoal em um grau muito elevado. Sua aridez, sua frase curta, to incisiva e to penetrante, torna-se em suas mos um maravilhoso instrumento de anlise. No se poderia imagin-lo escrevendo amenidades. Ele tinha o estilo de seu talento, um estilo de tal forma original, em sua incorreo e aparente indiferena, que permaneceu tpico. J no a intensa torrente de Saint-Simon, arrastando maravilhas e escombros, esplndida de violncia; como um lago congelado na superfcie, talvez fervendo em suas profundezas, e que reflete com uma verdade inexorvel tudo o que se encontra em suas margens.

Balzac foi, como Stendhal, acusado de escrever mal. Escreveu, entretanto, nos Contos Engraados, pginas que so jias primorosas; no conheo nada de mais esplendidamente inventado como forma, nem de mais finamente executado. Mas censuraram-no pelos pesados comeos de seus romances, pelas descries muito densas, sobretudo pelo mau gosto de certos exageros na pintura de suas personagens. E evidente que ele tem a mo enorme e que esmaga, em alguns momentos. Contudo, deve ser julgado no conjunto colossal de sua obra. V-se, ento, um lutador herico, que lutou contra tudo, mesmo contra o estilo, e que saiu cem vezes vitorioso do combate. Por sinal, intil ele aventurar-se em frases difceis, seu estilo lhe sempre prprio. Ele o modela, o refunde, o refaz inteiramente em cada um de seus romances. Procura incessantemente uma forma. Encontramo-lo, com sua vida de produtor gigante, nas mnimas alneas. Encontra-se l a forja rimbosa, e ele malha com toda a fora sua frase, at que ela tenha a sua marca. Essa marca, ela a conservar eternamente. Quaisquer que sejam os exageros, trata-se a de um grande estilo.

Tive simplesmente a inteno, ao dar alguns exemplos, de melhor explicar o que entendo por expresso pessoal. Um grande romancista , hoje em dia, aquele que possui o senso do real e que exprime com originalidade a natureza, fazendo-a viva por sua prpria vida.

A FRMULA CRTICA APLICADA AO ROMANCE

Recentemente lia eu um comentrio em que um romancista era tratado bastante desdenhosa-mente como crtico. Negavam-se seus romances, admitiam-se seus estudos literrios, sem perceber que as faculdades do crtico tendem hoje a se confundir com as faculdades do romancista. H nisso uma questo que me parece interessante discutir.

Sabe-se o que a crtica se tornou hoje em dia. Sem fazer a histria completa das transformaes por que ela passou desde o sculo passado histria que seria das mais instrutivas e que resumiria o movimento geral dos espritos , basta citar os nomes de Sainte-Beuve e do Sr. Taine para estabelecer a que distncia estamos dos julgamentos de La Harpe e at mesmo dos comentrios de Voltaire.

Sainte-Beuve foi um dos primeiros a compreender a necessidade de explicar a obra pelo homem. Recolocou o escritor em seu meio, estudou sua famlia, sua vida, seus gostos, viu, em resumo, uma pgina escrita como o produto de todos os tipos de elementos que se deveria conhecer se se quisesse elaborar um julgamento justo, completo e definitivo. Da os estudos profundos que escreveu, com uma leveza de investigao maravilhosa, com um senso refinado das mil nuanas, das contradies complexas do homem. Estava-se longe dos crticos julgando como pedagogos segundo as regras da Escola, fazendo abstrao completa do homem nos escritos, aplicando a todas as obras a mesma medida comum e considerando-as desdenhosamente como gramticos e como retricos.

Taine veio, por sua vez, e fez da crtica uma cincia. Reduziu a leis o mtodo que Sainte-Beuve empregava um pouco como virtuose. Isso deu uma certa rigidez ao novo instrumento de crtica; mas esse instrumento adquiriu uma fora indiscutvel. No preciso lembrar os admirveis trabalhos de Taine. Conhece-se sua teoria dos meios e das circunstncias histricas aplicados ao movimento literrio das naes. Taine atualmente o chefe de nossa crtica, e de se lamentar que se feche na histria e na filosofia, em vez de se imiscuir em nossa vida militante, em vez de dirigir a opinio como Sainte-Beuve, julgando os pequenos e os grandes de nossa literatura.

Eu gostaria simplesmente de constatar como procede a crtica moderna. Por exemplo, Taine quer escrever o belo estudo que fez sobre Balzac. Comea por reunir os documentos imaginveis, os livros e os artigos publicados sobre o romancista; interroga as pessoas que o conheceram, aqueles que podem prestar informaes verdadeiras sobre ele; e isso no basta, preocupa-se ainda com os locais onde Balzac viveu, visita a cidade onde nasceu, as casas que ocupou, os horizontes que atravessou. Tudo se encontra, assim, investigado pelo crtico, os ascendentes, os amigos, at que ele conhea absolutamente Balzac, em seus mais ntimos recnditos, como o anatomista conhece o corpo que acaba de dissecar. Assim, ele pode ler a obra. O produtor lhe d e lhe explica o produto.

Leiam o estudo de Taine. Vero o funcionamento de seu mtodo. A obra est no homem; Balzac, perseguido por seus credores, acumulando projetos extraordinrios, atravessando noites para pagar seus billets3, a cabea sempre fumegante, desemboca em A Comdia Humana. No julgo aqui o sistema, exponho-o, e digo que a crtica atual essa, com mais ou menos parti pris. Doravante, j no se separar o homem de sua obra, estudar-se- aquele para compreender esta.

Pois bem! Nossos romancistas naturalistas no tm, eles prprios, outro mtodo. Quando Taine estuda Balzac, faz exatamente o que o prprio Balzac faz quando estuda, por exemplo, o pai Grandet. O crtico age sobre um escritor para conhecer suas obras como o romancista age sobre uma personagem para conhecer seus atos. Dos dois lados, a mesma preocupao com o meio e com as circunstncias. Lembrem-se de Balzac determinando exatamente a rua e a casa onde vive Grandet, analisando as criaturas que o cercam, estabelecendo os mil pequenos fatos que decidiram acerca do carter e dos hbitos de seu avaro. No se trata a de uma aplicao absoluta da teoria do meio e das circunstncias? Repito-o, o trabalho idntico.

3. Soma de mil francos antigos (N do T.)

Dir-se- que Taine caminha sobre o terreno do real, que s aceita os fatos provados, os fatos que realmente acontecem, enquanto Balzac livre para inventar e usa com certeza dessa liberdade. Mas sempre se reconhecer que Balzac fundamenta seu romance sobre uma verdade inicial. Os meios com que descreve so exatos, e as personagens que constri tm os ps no cho. Dessa maneira, pouco importa o trabalho que se vai seguir, desde que o mtodo de construo empregado pelo romancista seja idntico ao do crtico. O romancista parte da realidade do meio e da verdade do documento humano; se em seguida ele a desenvolve num certo sentido, j no imaginao, a exemplo dos contistas, deduo, como entre os cientistas. Por sinal, no tive a pretenso de que os resultados fossem completamente semelhantes no estudo de um escritor e no estudo de uma personagem; aquele, com certeza, aproxima-se do real mais de perto, ainda que deixando um amplo espao para a intuio. Todavia, digo-o ainda, o mtodo o mesmo.

Ainda mais, trata-se de um duplo efeito da evoluo naturalista do sculo. No fundo, se se investigasse, chegar-se-ia ao mesmo solo filosfico, investigao positivista. Com efeito, hoje o crtico e o romancista no concluem. Contentam-se em expor. Eis o que eles viram; eis como tal autor deve ter produzido tal obra, e eis como tal personagem deve ter chegado a tal ato. Dos dois lados, mostra-se a mquina humana no trabalho, nada mais. Da comparao dos fatos, acaba-se, verdade, por formular leis. Entretanto, quanto menos nos apressamos em formular as leis, mais sbios somos; pois o prprio Taine, por ter-se apressado um pouco, pde ser acusado de ceder ao sistema. Estamos, por um momento, a colecionar e a ordenar os documentos, principalmente no romance. J uma tarefa bem grande procurar e dizer o que . preciso deixar a cincia pura formular leis, pois, por enquanto, no fazemos seno verbalizar, ns romancistas e crticos.

Portanto, para me resumir, o romancista e o crtico partem hoje do mesmo ponto, o meio exato e o documento humano apreendido na natureza, e empregam, em seguida, o mesmo mtodo para chegar ao conhecimento e explicao, de um lado, da obra escrita de um homem e, do outro, dos atos de uma personagem, a obra escrita e os atos considerados como os produtos da mquina humana submetida a determinadas influncias. Da, evidente que um romancista naturalista um excelente crtico. Basta-lhe introduzir no estudo de um escritor qualquer o instrumento de observao e anlise do qual se serviu para estudar as personagens que ele apreendeu na natureza. um erro crer que o diminuem como romancista quando dizem frivolamente dele: " apenas um crtico".

Todos esses erros vm da falsa idia que se continua a fazer do romance. , inicialmente, desagradvel que no tenhamos podido mudar essa palavra "romance", que nada mais significa, aplicada a nossas obras naturalistas. Esta palavra traz uma idia de conto de fabulaco, de fantasia, que destoa de modo singular das nossas verbalizaes. H quinze ou vinte anos j se sentira a impropriedade crescente do termo, e houve um momento em que se tentou colocar nas capas a palavra "estudo". Mas isso ficava muito vago, e apesar de tudo a palavra "romance" se manteve. Seria necessria, hoje, uma feliz descoberta para substitu-la. Por sinal, esses tipos de mudanas devem se produzir e se impor por si prprios.

No que me diz respeito, a palavra no me feriria, se se quisesse admitir, ainda que a conservando, que a coisa se modificou por completo. Encontraramos cem exemplos, na lngua, de termos que exprimiam outrora idias radicalmente contrrias quelas que eles exprimem hoje. Nosso romance de cavalaria, nosso romance de aventuras, nosso romance romntico e idealista tornaram-se, portanto, uma verdadeira crtica dos costumes, das paixes, dos atos do heri representado, estudado em seu ser prprio e nas influncias que o meio e as circunstncias tiveram sobre ele. Conforme escrevi, para grande escndalo de meus colegas, a imaginao j no representa a um papel dominante; torna-se deduo, intuio, age sobre os fatos provveis que se pde observar diretamente e sobre as conseqncias possveis dos fatos que se trata de estabelecer logicamente segundo o mtodo. esse romance que uma verdadeira pgina de crtica, que coloca o romancista diante de uma personagem da qual ele vai estudar uma paixo, nas condies exatas em que se encontra um crtico diante de um escritor do qual quer demonstrar o talento.Preciso concluir? O parentesco do crtico e do romancista deve-se unicamente ao fato de que ambos, como j o disse, empregam o mtodo naturalista do sculo. Se passssemos ao historiador, ns o veramos, ele tambm, fazer na histria um trabalho idntico, e com o mesmo instrumento. O mesmo sucede com o economista, com o homem poltico. Esses so fatos fceis de provar e que mostram o cientista frente do movimento, conduzindo hoje a inteligncia humana. Valemos mais ou menos conforme a cincia nos tenha tocado mais ou menos profundamente. Deixo parte a personalidade do artista, indico aqui apenas a grande corrente dos espritos, o sopro que nos arrasta a todos ao sculo XX qualquer que seja a nossa retrica individual.

DA DESCRIO

Seria bem interessante estudar a descrio em nossos romances, desde Mlle de Scudry at Flaubert. Seria fazer a histria da filosofia e da cincia durante os dois ltimos sculos; pois, sob essa questo literria da descrio, no h outra coisa alm do retorno natureza, essa grande corrente naturalista que produziu nossas crenas e nossos conhecimentos atuais. Veramos o romance do sculo XVII, bem como a tragdia, fazer mover-se criaes puramente intelectuais sobre um fundo neutro, indeterminado, convencional; as personagens so simples mecnicas de sentimentos e paixes, que funcionam fora do tempo e do espao; e assim, o meio no importa, a natureza no tem nenhum papel a representar na obra. Depois, com os romances do sculo XVIII, veramos despontar a natureza, mas em dissertaes filosficas ou em parti pris de emoo idlica. Enfim, nosso sculo chega com as orgias descritivas do romantismo, essa reao violenta da cor, e o emprego cientfico da descrio, seu papel exato no romance moderno, s comea a se estabelecer graas a Balzac, Flaubert, os Goncourt e outros mais. Tais so os marcos de um estudo que no tenho tempo para fazer. Basta-me, por sinal, indic-lo, para dar aqui algumas notas gerais acerca da descrio.

Inicialmente, essa palavra "descrio" tornou-se imprpria. Ela hoje to ruim quanto a palavra "romance", que no significa mais nada quando aplicada a nossos estudos naturalistas. Descrever no mais o nosso objetivo; queremos simplesmente completar e determinar. Por exemplo, o zologo que, ao falar de determinado inseto, se achasse forado a estudar longamente a planta sobre a qual vive esse inseto, do qual extrai sua existncia, at sua forma e sua cor, faria uma descrio; mas essa descrio entraria na prpria anlise do inseto, haveria a uma necessidade de cientista, e no um exerccio de pintor. Isso significa dizer que j no descrevemos por descrever, por um capricho e um prazer de retricos. Achamos que o homem no pode ser separado de seu meio, que ele completado por sua roupa, por sua casa, por sua cidade, por sua provncia; e, dessa forma, no notaremos um nico fenmeno de seu crebro ou de seu corao sem procurar as causas ou a conseqncia no meio. Da o que se chama nossas eternas descries.

Atribumos natureza, ao vasto mundo, um espao to amplo quanto ao homem. No admitimos que s o homem exista e que s ele importe, persuadidos, ao contrrio, de que ele um simples resultado e de que, para ter o drama humano real e completo, preciso busc-lo em tudo o que existe. Sei muito bem que isso agita as filosofias. por essa razo que nos situamos no ponto de vista cientfico, nesse ponto de vista da observao e da experimentao que nos d, atualmente, as maiores certezas possveis.

No podemos habituar-nos a essas idias, porque elas quebram nossa retrica secular. Querer introduzir o mtodo cientfico na literatura parece algo de um ignorante, de um vaidoso e de um brbaro. Por Deus! No somos ns que introduzimos esse mtodo; ele se introduziu sozinho, e o movimento continuaria, mesmo que se quisesse elimin-lo. Apenas constatamos o que acontece em nossas letras modernas. A personagem j no uma abstrao psicolgica, eis o que todo mundo pode ver. A personagem se tornou um produto do ar e do solo, como a planta; a concepo cientfica. A partir desse momento, o psiclogo deve se duplicar num observador e num experimentador, se quiser explicar claramente os movimentos da alma. Deixamos de estar nas amenidades literrias de uma descrio em belo estilo; estamos no estudo exato do meio, na constatao dos estados do mundo exterior que correspondem aos estados interiores das personagens.

Definirei, portanto, a descrio: um estado do meio que determina e completa o homem.

Agora, certo que no nos manteremos absolutamente nesse rigor cientfico. Toda reao violenta, e reagimos ainda contra a frmula abstrata dos ltimos sculos. A natureza entrou em nossas obras com um lan to impetuoso que as invadiu, afogando, s vezes, a humanidade, submergindo e arrastando as personagens, no meio de uma destruio de rochas e grandes rvores. Era fatal. preciso dar tempo nova frmula para se balancear e atingir a sua expresso exata. Por sinal, mesmo nesses excessos da aprender, muito a dizer. Encontram-se a documentos excelentes que seriam preciosos numa histria da excelentes, que seriam preciosos numa evoluo naturalista.

Disse eu, algumas vezes, que gostava pouco do prodigioso talento descritivo de Thophile Gautier. que, justamente, encontro nele a descrio pela descrio, sem nenhuma preocupao com a humanidade. Quanto ao estilo, ele era descendente direto do padre Delille. Nunca, em suas obras, o meio determina um ser; ele permanece pintor, tem apenas palavras como um pintor tem somente cores. Isso introduz em suas obras um silncio sepulcral; s h nelas coisas, nenhuma voz, nenhum estremecimento humano emana dessa terra morta. No posso ler cem pginas seguidas de Gautier, pois ele no me emociona, no me arrebata. Aps admirar nele o feliz dom da lngua, os procedimentos e as facilidades da descrio, s me resta fechar o livro.

Vejam, ao contrrio, os irmos Goncourt. Esses tambm nem sempre permanecem no rigor cientfico do estudo dos meios, unicamente subordinado ao completo conhecimento das personagens. Deixam-se levar pelo prazer de descrever, como artistas que brincam com a lngua e que so felizes de dobr-la s mil dificuldades do representado. S que eles pem sempre sua retrica a servio de sua humanidade. J no so frases perfeitas sobre um dado assunto; so sensaes experimentadas diante de um espetculo. O homem aparece, junta-se s coisas, anima-as pela vibrao nervosa de sua emoo. Todo o gnio dos Goncourt encontra-se nessa traduo to viva da natureza, nesses estremecimentos observados, nesses cochichos balbuciados, nesses suspiros tornados sensveis. Neles, a descrio respira. Sem dvida, ela transborda, e as personagens danam um pouco em horizontes muito dilatados, entretanto, mesmo que se apresente so, que no permanea em sua condio de meio determinante, ela sempre observada em suas relaes com o homem e assume um interesse humano.

Gustave Flaubert o romancista que at aqui empregou a descrio com maior medida. Nele, o meio intervm num sbio equilbrio: ele no submerge a personagem e quase sempre se contenta em determin-la. , inclusive, o que faz a grande fora de Madame Bovary e de A Educao Sentimental. Pode-se dizer que Gustave Flaubert reduziu estrita necessidade as longas enumeraes de leiloeiro oficial com as quais Balzac obstrua o comeo de seus romances. Ele sbrio, qualidade rara; emprega o trao proeminente, a grande linha, a particularidade que se mostra, e isso basta para que o quadro seja inesquecvel. em Gustave Flaubert que aconselho estudar a descrio, a pintura necessria do meio, cada vez que ele completa ou explica a personagem.

Ns outros, na maioria das vezes, fomos menos sbios, menos equilibrados. A paixo pela natureza amide nos arrebatou, e demos maus exemplos, por nossa exuberncia, por nossa embriaguez de ar livre. Nada perturba mais, seguramente, um crebro de poeta do que uma insolao. Sonha-se, ento, com todos os tipos de loucuras, escrevem-se obras em que os crregos pem-se a cantar, carvalhos conversam entre si, rochas brancas suspiram como peitos de mulher ao calor do meio-dia. E so sinfonias de folhagens, funes dadas grama, poemas de luzes e perfumes. Se h uma desculpa possvel para tais desvios, que sonhamos em dilatar a humanidade e a aplicamos at nas pedras dos caminhos

Ser-me- permitido falar de mim? O que me censuram, sobretudo, mesmo espritos simpticos, so as cinco descries de Paris que retornam e terminam as cinco partes de Uma Pgina de Amor. Vem nisso apenas um capricho de artista de uma repetio fatigante, uma dificuldade vencida para mostrar a destreza da mo. Posso ter-me enganado, e me enganei, com certeza, visto que ningum compreendeu; mas a verdade que tive todos os tipos de boas intenes quando persisti nesses cinco quadros da mesma paisagem, vista em horas e estaes diferentes. Eis a histria. Na misria de minha juventude, eu morava em guas-furtadas de subrbio, de onde se descobria Paris inteira. Essa grande Paris imvel e indiferente, que estava sempre enquadrada em minha janela, aparecia-me como o testemunho mudo, o confidente trgico de minhas alegrias e de minhas tristezas Tive fome e chorei diante dela; e diante dela amei, tive minhas maiores felicidades. Pois bem, desde meus vinte anos desejei escrever um romance do qual Paris, com o oceano de seus telhados, seria uma personagem. Alguma coisa como o coro antigo. Eu precisava de um drama ntimo, trs ou quatro criaturas num pequeno cmodo, em seguida a imensa cidade no horizonte, sempre presente, olhando com seus olhos de pedra o tormento pavoroso dessas criaturas. Foi essa velha idia que tentei realizar em Uma Pgina de Amor. Eis tudo.

verdade, no defendo minhas cinco descries. A idia era ruim, visto que ningum a compreendeu e defendeu. Talvez tambm a tenha construdo por procedimentos muito rgidos e muito simtricos. Cito o fato unicamente para mostrar que, no que denominamos nosso furor de descrio, no cedemos quase nunca exclusiva necessidade de descrever; isso sempre se complica em ns pelas intenes sinfnicas e humanas. A criao inteira nos pertence, fazemo-la entrar em nossas obras, sonhamos com o imenso arco. diminuir injustamente nossa ambio desejar nos encerrar numa mania descritiva, no indo alm da imagem mais ou menos cuidadosamente borrada.

E terminarei por uma declarao: num romance, num estudo humano, censuro absolutamente toda descrio que no , segundo a definio dada mais acima, um estado do meio que determina e completa o homem. Pequei o suficiente para ter o direito de reconhecer a verdade.

STENDHAL

IStendhal com certeza o romancista menos lido, mais admirado e mais negado pelas informaes. Nada se escreveu sobre ele de definitivo, e ele permaneceu um pouco em estado de legenda. Muito preocupado com seu talento, muito desejoso de estud-lo, hesitei, todavia, longamente antes de me lanar nesse trabalho, por temor de no estabelecer a figura do escritor sob uma luz franca e lmpida. Entretanto, o papel de Stendhal em nossa literatura contempornea de tal forma considervel que devo aventurar-me, com o risco de no lanar tanta luz quanto gostaria sobre obras complexas, que determinaram, com as de Balzac, a evoluo naturalista atual.

E preciso dizer que ao prprio Stendhal aprouve, em vida, envolver-se de mistrio. No era um esprito de bonomia, uma natureza ampla e reta, de velho sangue gauls, produzindo tranqilamente diante de todos. Ele complicava sua tarefa com todos os tipos de raciocnios e finuras, com ares de diplomata que viaja incgnito e que se deleita com prazeres solitrios a escarnecer do pblico. Inventava pseudnimos imaginava farsas das quais era o nico a compreender o chiste. Isso, naturalmente, no se dava sem um desdm simulado pela literatura. Nascido em 1783, homem do sculo passado por laos mundanos e filosficos, sentia-se vexado pela nossa grande produo literria, no imaginando que se pudesse viver da pena, nada fazendo para isso, por sinal, e encarando desde o princpio as letras como um entretenimento, uma recreao do esprito, e no como uma carreira. Tentou sucessivamente a pintura, o comrcio, a administrao; em seguida, depois de ter feito a campanha de 1812, seguindo os passos de nossos exrcitos, acabou entrando na diplomacia, para onde o chamava certamente a estrutura de seu intelecto; mas l conservou uma situao modesta, foi durante muito tempo e morreu simples cnsul em Civitavecchia. Seus contemporneos representam-no como mais orgulhoso de seu posto de funcionrio do que de seu ttulo de escritor; conta-se que, quando o Governo de Julho o condecorou, quis absolutamente que essa cruz recompensasse o cnsul, e no o romancista. A posio de Stendhal foi a de um escritor amador. Distinguia-se assim dessa pululao de homens de letras, de dedos manchados de tinta, dos quais tinha horror. Escapava da arregimentao, mostrava pela retrica o desdm de Saint-Simon, permanecia a seus prprios olhos o homem de ao que sempre sonhara ser. A se crer nisso, sua obra permanecia como o acidente em sua existncia.

O que chamarei de legenda de Stendhal partiu da. Apesar do que ele escreveu de si mesmo, apesar do que os contemporneos puderam deixar, nele o homem muito pouco reconhecido. Desconfia-se, teme-se incessantemente uma mistificao com esse esprito complicado que sempre parece desejar "enrolar" a massa, como um diplomata "enrolaria" um rei, junto ao qual ocuparia uma embaixada. Li tudo o que apareceu sobre Stendhal, e declaro no ter avanado mais por isso. Os contemporneos, como Sainte-Beuve, do qual falarei mais tarde, parecem t-lo julgado flor da epiderme. Ele no se entregava absolutamente, e no se fazia nenhum esforo para conhec-lo. Hoje, a tarefa se torna ainda mais difcil. Sei muito bem que o melhor tomar as coisas de forma ingnua, no se deixar aturdir por todos esses subterfgios, dizer que, em suma, as mquinas mais carregadas de engrenagens so com mais freqncia aquelas que ocultam o motor mais simples; o que vou fazer, por sinal. Entretanto eu quis antes de mais nada constatar o estado da questo, mostrando quo pouco, neste momento, conhecemos Stendhal, em conseqncia dos disfarces e das complicaes em que ele se comprouve, de um modo bem natural, sem dvida. Sua natureza estava a.

S nos resta procur-lo em suas obras. o meio mais seguro de chegar a uma verdade, pois as obras so testemunhos que ningum pode recusar. No obstante, deve-se dizer que as obras de Stendhal, at aqui, redobraram a obscuridade em torno dele. Julgadas com paixo, e em sentidos contrrios, so negadas ou aclamadas, sem que ainda exista sobre elas um juzo exato, que coloque em definitivo o autor em seu lugar. Reencontramos mesmo aqui a legenda. No campo dos artistas, citam-se sempre estas palavras de Stendhal: "Todas as manhs leio uma pgina do Cdigo para pegar o tom"; e isso basta para faz-lo execrado pelo bando romntico, enquanto as palavras so aplaudidas pelos raros adversrios da retrica triunfante. A frase pode ter sido dita e reescrita, mas no basta realmente para etiquetar um escritor. Penso que o estudo do papel de Stendhal no movimento de 1830 muito esclareceria a histria desse movimento, pois Stendhal comeou apoiando o romantismo; s se separou dele mais tarde, quando o ato de loucura lrica dos grandes poetas da poca triunfou definitivamente. Hoje, erra-se em acreditar que Victor Hugo criou o romantismo inteiro, apresentando-o com sua originalidade prpria. A verdade que, ao contrrio, ele o encontrou todo formado e apenas o conquistou, por suas poderosas faculdades de retrico; fez dele coisa sua, dobrou-o ao seu despotismo. Dessa forma, viu-se afastarem-se os espritos originais, que no aceitavam ser absorvidos. Stendhal, que era vinte anos mais velho que Victor Hugo, permaneceu nas tradies de estilo do sculo XVIII, muito chocado com a nova linguagem, repleta de zombarias contra esse fluxo de eptetos que ele julgava intil, esses festes e esses astrgalos sob os quais o velho estilo francs perdia sua clareza e sua vivacidade. Acrescentemos que a nfase dos sentimentos e dos caracteres, a demncia e o humanitarismo das obras o vexavam ainda mais. Ele desejava a evoluo filosfica, a revoluo nas idias, mas recusava com toda a sua natureza essa insurreio de carnaval, fantasiando os eternos gregos e os eternos romanos em cavaleiros da Idade Mdia. Da sua expresso sobre o Cdigo, que ainda amotina os artistas e que permaneceu, para muitas pessoas, a caracterstica de seu talento. Na verdade, o documento insignificante. Repito-o, continuamos na legenda.

Escreveu-se muito pouco sobre Stendhal, sobretudo se pensa na massa enorme de artigos e at mesmo de livros que temos sobre Balzac. S conheo trs estudos consagrados sobre Stendhal que realmente contam: os de Balzac, Sainte-Beuve e Taine. Ora, a concordncia est longe de se dar. Balzac e Taine so a favor, Sainte-Beuve contra; acrescento que os trs no me parecem ir ao fundo do tema, que cada um v o romancista por um lado, sem mostr-lo em seu verdadeiro lugar e no papel que representou. Aps ter lido os trs estudos, permanecemos inquietos, no ficamos plenamente satisfeitos, sentimos muito bem que Stendhal ainda nos escapa.

O estudo de Balzac um lan de entusiasmo. Admira tudo, elogia seu rival em frases extraordinrias. E essa admirao era sincera, pois a reencontramos em sua correspondncia. Em 29 de maro de 1839, ele escrevia a Stendhal, aps ter lido o episdio da Batalha de Waterloo em Le Constitutionnel: " feito como Borgognone e Wouwerman, Salvatore Rosa e Walter Scott". Em seguida, depois de ter lido o livro, em 6 de abril, escrevia de novo: "A Cartuxa um grande e belo livro: digo-vos sem lisonja, sem inveja, pois eu seria incapaz de faz-lo, e podemos elogiar francamente o que no de nosso ofcio. Fao um afresco e vs fizestes esttuas italianas [...]. Aqui, tudo original e novo [...]. Explicastes a alma da Itlia". Tudo isso est repleto de boa-f e lan, mas confesso no compreender muito bem as esttuas italianas opostas ao afresco; e, por outro lado, o Borgognone e o Wouwerman, o Salvatore Rosa e o Walter Scott, essa estranha salada de nomes, me surpreendem e me incomodam. Em crtica, creio que no so necessrias idias claras. Balzac sentia fortemente o gnio de Stendhal. Procurou comunicar-nos sua admirao, sem demonstrar a personalidade do romancista, sem nos fazer encostar o dedo no mecanismo desse raro esprito, funcionando, no incio do sculo, nas letras francesas. Se passamos a Sainte-Beuve, encontramos um estudo repleto de bosquejos engenhosos, girando em torno do assunto sem nunca concluir. Isso fino e vazio. Entretanto, Sainte-Beuve deixou-se levar um dia, a propsito de Stendhal, at o ponto de exprimir um julgamento decisivo, o que lhe acontecia bem raramente. Escreveu, num artigo consagrado a Taine:

Uma vez, Taine menciona Stendhal; ele o citar sobretudo em seu livro Filsofos, e o qualificar nos termos do mais magnfico elogio: "grande romancista, o maior psiclogo do sculo". Mesmo que eu tivesse de me perder a invocar da parte de Taine mais severidade nos julgamentos contemporneos, direi que, tendo conhecido Stendhal, tendo-o analisado, tendo relido ainda bem recentemente ou tentado reler seus romances to preconizados (romances sempre mal sucedidos, apesar de belos trechos e, em resumo, detestveis), -me impossvel partilhar da admirao que professam hoje por esse homem de esprito, sagaz, fino, penetrante e excitante, mas desconexo, afetado, privado de inveno

A palavra foi pronunciada, os romances de Stendhal so detestveis.

Em outra parte Sainte-Beuve declara preferir Viagem ao redor de Meu Quarto, de Xavier de Maistre. H aqui, evidentemente, um choque de dois temperamentos diferentes. Deve-se recusar Sainte-Beuve, que, apesar de sua finura de anlise habitual, se atm a uma apreciao superficial. Sem dvida Stendhal desconexo, sem dvida s vezes afetado; entretanto, concluir que seus romances so detestveis, sem fornecer outras razes, sem fazer um esforo para ir mais fundo, arriscar uma condenao sem fundamento, pelo menos apresentar um julgamento brutal, negligenciando fazer-nos conhecer os motivos. O estudo de Sainte-Beuve o discurso de um letrado a quem revolta uma natureza oposta sua, nada explica e no pode concluir.

Com Taine, entramos numa admirao absoluta. Sei que seu estudo sobre Stendhal, publicado em 1866 em seus Ensaios de Crtica e de Histria, no para ele completo e definitivo; ele teria desejado retom-lo, ampli-lo, pois o considera como indigno de Stendhal. Todavia, tambm no encontramos nele as razes muito claras de sua admirao. Inicia com estas linhas: "Procuro uma palavra para exprimir o gnero de esprito de Stendhal; e essa palavra, parece-me, esprito superior". Dessa forma, parte da, e empregando seu procedimento sistemtico atribui a essa palavra, ou melhor, faz derivar dela tudo o que encontra na personalidade de Stendhal. Contentar-me-ei com a citao seguinte. Aps ter dito que Victor Hugo um pintor e Balzac um fisiologista do mundo moral, acrescenta: "No mundo infinito, o artista escolhe seu mundo. O de Stendhal s compreende os sentimentos, os traos de carter, as vicissitudes de paixo, em resumo, a vida da alma". Est tudo dito, a admirao de Taine est explicada. O filsofo que h nele encontrou seu romancista no idelogo Stendhal, como ele prprio o designa, no psiclogo e no lgico ao qual devemos O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma. igualmente desse ponto que partirei; em todo caso, no concluirei como Taine, dizendo, em relao a Julien Sorel, que "semelhantes caracteres so os nicos que merecem que por eles nos interessemos hoje". A frmula literria atual mais ampla e, ainda que colocando Stendhal frente mesmo do movimento, preciso determinar estritamente sua ao e no fechar a via atravs dele, em conseqncia de uma pura admirao de filsofo. Aps os elogios exuberantes de Balzac, o discurso revoltado de Saint-Beuve e a satisfao filosfica de Taine, tempo, creio, de se procurar dizer sobre Stendhal a verdade exata, analisando-o sem parti pris de nenhum tipo e dando-lhe sua verdadeira contribuio ao sculo.

Quando apareceram, os dois principais romances de Stendhal, O Vermelho e o Negro (1830) e A Cartuxa de Parma (1839), no tiveram nenhum sucesso. O estudo to elogioso de Balzac no motivou o grande pblico a l-los; permaneceram nas mos dos letrados, e ainda por cima foram pouco apreciados. foi somente por volta de 1850 que um tipo de ressurreio se produziu. Ela surpreendeu muito Sainte-Beuve, que acabou por se mostrar escandalizado. Em seguida, Taine, exprimindo sem dvida a opinio do grupo de amigos que conhecera na Escola Normal, lanou as palavras de "grande romancista" e "o maior psiclogo do sculo". Assim, declararam abertamente admirar muito Stendhal, sem que fosse mais lido e sem julg-lo melhor. Essa a questo entre os artistas que o negam e os lgicos que o exaltam.

Estudarei nele apenas o romancista, e mesmo assim ater-me-ei a dois de seus romances, O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, negligenciando suas numerosas novelas e no me detendo em sua primeira obra, Armance, Algumas Cenas de um Salo de Paris, publicada em 1827.

II

Para facilitar minha anlise, definirei de incio o talento de Stendhal, em seguida passarei ao exame de seus livros e apoiarei meu julgamento sobre exemplos. Antes de tudo, darei aqui, invertendo a tarefa, uma concluso das notas que tomei ao reler, de caneta em punho, O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma. Entretanto, penso que a nica maneira de ser claro.

Stendhal antes de tudo um psiclogo. Taine definiu muito bem seu domnio, dizendo que ele se interessava unicamente pela vida da alma. Para Stendhal, o homem composto apenas de crebro, os outros rgos no contam. Situa, evidentemente, os sentimentos, as paixes, os caracteres, no crebro, na matria pensante e agente. Ele no admite que as outras partes do corpo tenham uma influncia sobre esse rgo nobre, ou pelo menos essa influncia no lhe parece de modo algum bastante forte nem bastante digna para que nos inquietemos com ela. Alm disso, raramente leva em conta o meio, quero dizer, a atmosfera da qual impregna sua personagem. O mundo exterior mal existe; no se preocupa nem com a casa onde seu heri cresceu, nem com o horizonte onde viveu. Eis, portanto, em resumo, toda a sua frmula: o estudo do mecanismo da alma pela curiosidade desse mecanismo, um estudo puramente filosfico e moral do homem, considerado apenas em suas faculdades intelectuais e passionais e tomado parte na natureza.

E, em suma, a concepo dos dois ltimos sculos clssicos. Sem dvida, as primeiras idias sobre o homem, os dogmas puderam mudar; mas nos encontramos ainda diante de uma metafsica que estuda a alma como uma abstrao, sem desejar averiguar a ao que as engrenagens da mquina humana e que a natureza inteira exercem evidentemente sobre ela. Assim, Taine foi levado a comparar Stendhal a Racine. Diz ele:

Foi o aluno dos idelogos, o amigo de Tracy, e esses mestres da anlise ensinaram-lhe a cincia da alma. Elogia-se muito em Racine o conhecimento dos movimentos do corao, de suas contradies, de sua loucura, e no se observa que a eloqncia e a elegncia pronunciadas, a arte de desenvolver, a explicao sbia e detalhada que cada personagem d de suas emoes lhes retira uma parte de sua verdade [ ] Stendhal no possui em absoluto esse defeito, e o gnero que escolheu ajuda a preserv-lo disso

O paralelo pode no princpio surpreender, mas estritamente justo No poeta trgico e no romancista, o procedimento o mesmo; porm ele empregado com retricas diferentes. sempre, repito, uma psicologia pura, libertada de toda fisiologia e de toda cincia natural.

Num psiclogo, h um idelogo e um lgico. a que Stendhal triunfa. preciso v-lo partir de uma idia para mostrar, em seguida, o desabrochar de todo um grupo de idias que nascem umas das outras, que se complicam e se resolvem. Nada de mais fino, de mais penetrante, de mais imprevisto do que essa anlise contnua. Ele se compraz nisso, desenrola a cada minuto o crebro de sua personagem, para faz-la sentir suas mnimas tortuosidades. Ningum conheceu em semelhante grau a mecnica da alma. Uma idia se apresenta, a engrenagem que vai dar o impulso a todas as outras; em seguida outra idia nasce direita, outra esquerda, outras frente, outras atrs; e h avanos, retornos, um trabalho que se organiza pouco a pouco, que se completa, que acaba por mostrar a alma inteira no trabalho, com suas faculdades, seus sentimentos, suas paixes. Isso enche pginas; pode-se inclusive dizer que a obra feita dessa anlise. O lgico conduz suas personagens com um rigor extremo, no meio dos desvios mais contraditrios na aparncia Sentimo-lo sempre l, friamente atento ao funcionamento de sua mquina. Cada um dos caracteres que cria uma experincia de psiclogo que se aventura sobre o homem. Inventa uma alma com certos sentimentos e certas paixes, lana-a numa seqncia de fatos e se contenta em constatar o funcionamento dessa alma no meio de circunstncias dadas. Stendhal, para mim, no um observador que parte da observao para chegar verdade graas lgica; um lgico que parte da lgica e que amide chega verdade passando por cima da observao.

Mencionam com muita freqncia Stendhal ao lado de Balzac e no parecem ver o abismo que h entre eles. Taine, que os compara, permanece vago. D a Stendhal a psicologia, a vida da alma, e acrescenta para Balzac:

O que que Balzac constatava em sua Comdia Humana? Todas as coisas, diro vocs, sim, mas como cientista, como fisiologista do mundo moral, como doutor em "cincias sociais", conforme ele prprio se denominava, de onde resulta que suas narrativas so teorias, que o leitor, entre duas pginas de romance, encontra uma lio da Sorbonne, que a dissertao e o comentrio so a peste de seu estilo.No compreendo absolutamente a conseqncia que o crtico estabelece aqui. Um doutor em cincias sociais no precisa dissertar nem comentar: basta-lhe expor. Taine observa a natureza do temperamento literrio de Balzac e a apresenta sem razo como o defeito fatal de sua frmula. O que verdade que Balzac partia como cientista do estudo do tema; todo o seu trabalho tinha por base a observao da criatura humana, e achava-se assim levado, como o zologo, a atribuir uma importncia imensa a todos os rgos e ao meio. Deve-se v-lo numa sala de dissecao, escalpelo na mo, constatando que no h apenas um crebro no homem, descobrindo que o homem uma planta provinda do solo, e decidido desde logo, por amor ao real, a nada subtrair do homem, a mostra-lo em sua inteireza, com sua verdadeira funo, sob a influncia do vasto mundo. Enquanto isso, Stendhal permanece em seu gabinete de filsofo, remoendo idias, utilizando do homem s a cabea e contando cada pulsao do crebro. No escreve um romance para analisar um canto de realidade, seres e coisas; escreve um romance para aplicar suas teorias sobre o amor, para aplicar o sistema de Condillac sobre a formao das idias. Tal a grande diferena que h entre Stendhal e Balzac. Ela capital, no provm somente de dois temperamentos opostos mas, ainda mais, de duas filosofias diferentes.

Em suma, Stendhal o verdadeiro elo que liga nosso romance atual ao romance do sculo XVIII. Ele era dezesseis anos mais velho que Balzac, pertencia a uma outra poca. graas a ele que podemos saltar por sobre o romantismo e nos ligar ao velho gnio francs. Entretanto, o que posso sobretudo fixar seu desdm pelo corpo, seu silncio sobre os elementos fisiolgicos do homem e sobre o papel do meio ambiente. Ns o veremos levar em conta a raa em A Cartuxa de Parma; dar esse primeiro passo de nos mostrar italianos reais, e no franceses disfarados; contudo, nunca a paisagem, o clima, a hora do dia, o tempo que faz, a natureza, numa palavra, intervir ou agir sobre as personagens. A cincia moderna ainda no passou, evidentemente, por a. Ele permanece numa abstrao desejada, pe o ser humano parte na natureza e declara, em seguida, que s a alma, sendo nobre, s ela tem prerrogativas na literatura. E por essa razo que Taine, como lgico, declara-o superior. Segundo ele, Stendhal est acima dos outros porque permanece na mquina cerebral, no esprito puro. Isto quer dizer que ele tanto mais elevado quanto desdenha a natureza, castra o homem e se encerra numa abstrao filosfica. Para mim, ele menos completo, eis tudo.

preciso insistir, pois o ponto interessante encontra-se a. Tomem uma personagem de Stendhal: uma mquina intelectual e passional perfeitamente montada. Tomem uma personagem de Balzac: um homem em carne e osso, com a vestimenta e a atmosfera que o envolve. Onde est a criao mais completa, onde est a vida? Em Balzac, evidentemente. verdade, tenho a maior admirao pelo esprito to sagaz e to pessoal de Stendhal. Todavia, ele me diverte como um mecnico genial que faz funcionar diante de mim a mais delicada das mquinas, enquanto Balzac me arrebata por inteiro, pela fora da vida que evoca.

No compreendo o alto e o baixo no homem. Dizem-me que a alma est em cima e que o corpo est embaixo. Por que isso? No me posso imaginar alma sem corpo, e coloco-os juntos. Em que Julien Sorel, por exemplo, que uma pura criao especulativa, superior ao baro Hulot, que uma criatura viva? Um raciocina, o outro vive. Prefiro este ltimo. Se separarem o corpo, se no levarem em conta a fisiologia, j no estaro mesmo na verdade, pois sem descer aos problemas filosficos certo que todos os rgos tm um eco profundo no crebro e que seu funcionamento, mais ou menos bem regulado, ajusta ou desajusta o pensamento. O mesmo acontece com os meios; eles existem, tm uma influncia evidente, considervel, e no existe nenhuma superioridade em suprimi-los, em no faz-los entrar no funcionamento da mquina humana.

Eis, portanto, a resposta que se deve dar aos adversrios da frmula naturalista quando censuram os romancistas atuais por se deterem no animal, no homem e por multiplicarem as descries. Nosso heri j no o puro esprito, o homem abstrato do sculo XVIII; ele o sujeito fisiolgico de nossa cincia atual, um ser que um composto de rgos e que est mergulhado num meio pelo qual penetrado a cada momento. Dessa forma, devemos levar em conta toda a mquina e o mundo exterior. A descrio apenas um complemento necessrio da anlise. Todos os sentidos vo agir sobre a alma. Em cada um de seus movimentos, a alma ser acelerada ou retardada pela viso, pelo cheiro, pela audio, pelo paladar e pelo tato. A concepo de uma alma isolada, funcionando sozinha no vazio, torna-se falsa. mecnica psicolgica, j no vida. Sem dvida, pode haver abuso a, sobretudo na descrio; o virtuosismo arrebata amide os retricos; luta-se com os pintores para mostrar a leveza e o brilho de sua frase. Mas esse exagero no impede que a indicao clara e precisa dos meios e o estudo de sua infncia sobre as personagens sejam necessidades cientficas do romance contemporneo.

Tomarei um exemplo para melhor me fazer compreender. H um episdio clebre em O Vermelho e o Negro, a cena em que Julien, numa noite, sentado ao lado de Renal, sob os ramos escuros de uma rvore, obriga-se a tomar-lhe a mo, enquanto ela conversa com Derville. um pequeno drama silencioso de grande fora, e nele Stendhal analisou maravilhosamente os estados de alma de suas duas personagens. Ora, o meio no aparece uma s vez. Poderamos estar em qualquer lugar, em quaisquer condies, a cena permaneceria a mesma, desde que estivesse escuro. Compreendo perfeitamente que Julien, na tenso de vontade em que se encontra no seja afetado pelo meio Nada v nada ouve nada sente quer simplesmente segurar a mo de Renal e conserv-la na sua. Entretanto, de Renal, ao contrrio, deveria sofrer todas as influncias exteriores. Dem o episdio a um escritor para quem os meios existem, e no infortnio dessa mulher ele introduzir a noite, com seus odores, suas vozes, suas volpias indolentes. E esse escritor estar dentro da realidade, seu quadro ser mais completo.

No se trata, repito-o, de escrever frases, mas de constatar cada uma das circunstncias que determinam ou modificam o funcionamento da mquina humana. Pois bem: essa observao, eu a farei em todos os lugares, nas obras de Stendhal. Prova de superioridade, repetiro. Por que isso? Ele no retrico, e tanto melhor para ele. Todavia, permanece na abstrao, e no vejo em que isso pode coloc-lo acima daqueles que vo s realidades. No h nenhuma razo para que um psiclogo seja um grau mais elevado do que um fisiologista.

Qual , ento, o golpe de gnio de Stendhal? Para mim, est na intensidade da verdade que freqentemente obtm com seu instrumental de psiclogo, por mais incompleto e por mais sistemtico que possa ser. Digo que no via nele um observador. Ele no observa e no descreve, em seguida, a natureza com bonomia. Seus romances so obras de cabea, humanidade quintessenciada por um procedimento filosfico. Ele bem viu o mundo, e muito; contudo, no o evoca em sua rotina real, submete-o a suas teorias e o pinta por meio de suas prprias concepes sociais. Ora, acontece que esse psiclogo, desdenhoso das realidades e por inteiro imerso em sua lgica, desgua, pela pura especulao intelectual, em verdades audaciosas e extraordinrias que nunca ningum havia ousado antes dele no romance. E isso o que me entusiasma. Confesso ser pouco sensibilizado por suas sutilezas de anlise, pelo tique-taque contnuo do relgio que ele faz ouvir sob o crnio de suas personagens; seu movimento me parece, s vezes, discutvel, e por sinal no se trata da vida plena e franca. Filsofos podem se extasiar; um esprito amoroso do que , do que se passa diariamente sob seus olhos, sempre experimentar um mal-estar ao se sentir engajado em teorias mais ou menos paradoxais. Todavia, bruscamente, cenas se abrem e a vida fala. Desse ponto de vista, prefiro O Vermelho e o Negro a A Cartuxa de Parma. No conheo nada de mais surpreendente do que a primeira noite de amor de Julien e Mlle de La Mole. Existe a um embarao, um mal-estar, uma falta ao mesmo tempo estpida e cruel, de rara fora, de tanto que os fatos parecem soar a verdade. Sem dvida isso no observado, deduzido; contudo, o psiclogo se livrou de suas complicaes laboriosas para ascender de um salto simplicidade, direi tolice do real. Eu poderia citar assim vinte trechos em que ele chega a observaes extraordinrias por pouco, apenas pela lgica. Ningum antes dele pintara o amor com mais realidade. Quando no se embaralha em seu sistema, apresenta documentos que desordenam todas as idias recebidas e que denotam clarezas sutis. Pensem nas dissertaes sobre o amor, nas banalidades dos romanos, e observem a anlise to clara e cruel de Stendhal. A est sua verdadeira fora. Se um de nossos mestres, se est frente da evoluo naturalista, no porque foi apenas um psiclogo, porque o psiclogo que existe nele teve bastante fora para chegar realidade, por sobre suas teorias e sem o socorro da fisiologia nem de nossas cincias naturais.

Portanto, para concluir, Stendhal e a transio, no romance, entre a concepo metafsica do sculo XVIII e a concepo cientfica do nosso. Como os escritores dos dois sculos que tem atrs de si, ele no sai do domnio da alma, no v no homem seno uma nobre mecnica de pensamentos e paixes. Mas, se ele ainda no est para o homem fisiolgico, com o funcionamento dos rgos, atuando no meio e sob a influncia da natureza, deve-se acrescentar que sua metafsica j no a de Racine, nem mesmo a de Voltaire. Condillac passou por a, o positivismo aparece, sentimo-nos no limiar de um sculo de cincia. Nenhum dogma esmaga mais as personagens. A investigao est aberta, e o romancista parte para a conquista da verdade; como ele prprio diz, leva um espelho ao longo de um caminho; entretanto, esse espelho s reflete a cabea do homem, a parte nobre, sem nos dar o corpo nem os lugares circunvizinhos. realidade reduzida por um temperamento de lgico e diplomata, que nem a cincia nem a arte tocaram. Acrescentem um esprito que se despojou de todos os preconceitos para cair amide em sistemas, uma inteligncia livre e penetrante, que sua superioridade torna irnica e que, no contente de zombar dos outros, zomba, s vezes, de si mesma.

Abordo agora O Vermelho e o Negro. No , por sinal, uma anlise regular que procuro dar aqui. Acabo de reler o romance, com um lpis na mo, e eis as reflexes que esta leitura fez nascer em mim.

III

Entretanto, antes de tudo preciso falar sobre a grande influncia que o destino de Napoleo exerce sobre a obra de Stendhal. O Vermelho e o Negro permaneceria incompreensvel se no nos reportssemos poca em que o romance foi concebido, e se no levssemos em conta o estado cerebral em que a prodigiosa ambio satisfeita do imperador havia deixado a gerao qual pertencia Stendhal. Esse ctico, esse trocista frio, esse moralista sem preconceitos, esse escritor que se preserva de todo entusiasmo, estremece e se inclina simples meno do nome de Napoleo. No toma diretamente a palavra, mas sentimo-lo sempre vibrando por uma admirao antiga, e sob o golpe dos estragos causados nele e ao redor dele pela queda do colosso. Desse ponto de vista, preciso ver seu Julien Sorel como a personificao dos sonhos ambiciosos e dos pesares de toda uma poca.

Irei mais longe. Na minha opinio, Stendhal ps muito de si mesmo em Julien. Imagino-o de bom grado tendo sonhado com a glria militar, num tempo em que os simples soldados tornavam-se marechais da Frana. Depois, o Imprio desmoronou, e toda a juventude da qual ele fazia parte, todos esses apetites exaltados, todas essas ambies que pensam encontrar uma coroa numa cartucheira, caem de uma s vez numa outra poca, nessa Restaurao, governo de padres e cortesos; as sacristias e os sales substituem os campos de batalha, a hipocrisia iria ser a arma todo-poderosa dos parvenus. Tal a chave do carter de Julien, no incio do livro; e no h nada, inclusive esse ttulo enigmtico, O Vermelho e o Negro, que no parea indicar o reino eclesistico sucedendo ao reino militar.Insisto, porque nunca vi estudar a influncia muito real que Napoleo exerceu sobre nossa literatura. O Imprio foi uma poca de produo literria bem medocre; mas no se pode negar o golpe de martelo com que o destino de Napoleo havia fendido os crnios de seu tempo. Foi mais tarde que a influncia se produziu e se pde ver o tremor das inteligncias. Em Victor Hugo, a leso se revelou por toda uma torrente de lirismo. Em Balzac, houve uma hipertrofia da personalidade; ele quis, evidentemente, criar um mundo no romance, como Napoleo tinha sonhado com a conquista do Velho Mundo. Todas as ambies inflavam, as aes degeneravam para o gigantesco, s se sonhava, nas letras como em tudo mais, com a realeza universal. Todavia, o que mais me surpreende ver Stendhal tambm afetado. No zomba mais, parece considerar Napoleo como um deus que arrastou consigo a franqueza e a nobreza da Frana.

Eis, portanto, Julien, tendo feito em segredo seu deus de Napoleo e forado a ocultar sua devoo, se quisesse elevar-se acima de sua condio. Todo esse carter, to complicado e primeira vista to paradoxal, vai ser construdo sobre esse dado, uma natureza nobre, sensvel, delicada, que, no mais podendo satisfazer sua ambio s claras, lana-se na hipocrisia e nas intrigas mais complicadas. Com efeito, suprimam a ambio, Julien feliz em suas montanhas; ou ento dem a Julien um campo de batalha digno dele, triunfar extraordinariamente, sem descer a contnuas astcias de diplomata. Ele , portanto, o filho dessa hora histrica, rapaz de uma inteligncia superior obrigado por temperamento a fazer uma grande fortuna, que veio muito tarde para ser um dos marechais de Napoleo e que resolve passar pelas sacristias e operar como criado hipcrita. Dessa forma seu carter se esclarece, compreendem-se suas submisses e suas revoltas; suas franquezas. Vai, por sinal, a todos os extremos, demonstra tanto ingenuidade quanto astcia, ainda mais ignorante do que inteligente. Stendhal quis mostrar o homem com seus contrastes, segundo as circunstncias. verdade, a anlise das mais extraordinrias; nunca se vasculhou um crebro com tanto cuidado. Deploro apenas a tenso contnua da personagem; ele no vive mais, sempre e em todos os lugares um "sujeito", sob o olhar do autor, a ponto de seus pequenos atos chegarem a fornecer muito mais matrias do que os atos decisivos de sua existncia.

O incio do romance muito interessante para se estudar. Ainda no se tomado pelo interesse, pode-se perceber o procedimento literrio de Stendhal. Esse procedimento , grosso modo, o do bel-prazer. No h nenhuma razo para que a obra comece por uma descrio da cidadezinha de Verrires e por uma descrio do Sr. de Renal. Sei muito bem que preciso sempre comear; mas quero dizer que o autor no cede a idias de simetria, progresso, ordenamento qualquer. Escreve ao acaso do pargrafo. Aquele que se apresenta primeiro o bem-vindo. Assim, enquanto a narrativa no se inflamou, isso provoca alguma confuso; cr-se em contradies e se forado a retroceder para assegurar-se de que o encadeamento no se rompeu.

Estudemos, sobretudo, o modo como as personagens fazem sua entrada na obra. Parecem introduzir-se nelas de vis. Quando Stendhal necessita delas, menciona-as, e elas chegam, com freqncia, ao fim de um pargrafo. Dessa forma, sua cidadezinha de Verrires, qual retorna de vez em quando, permanece de uma organizao muito complicada sentimo-Ia inventada, no a vemos. Em suma, falta ordem, no tem lgica. Eis a grande palavra pronunciada. Sim, esse lgico das idias um trapalho do estilo e da composio literria. H a uma inconseqncia que me surpreendeu e que para mim caracterstica. Retornarei a isso, e longamente.

Mme de Renal uma das excelentes figuras de Stendhal porque ele no a oprimiu muito. Deixou a essa alma uma certa liberdade. Entretanto, constato que ainda quis lev-la superioridade. Essa uma das caractersticas de Stendhal, a qual Taine cr dever elogiar; repugna-lhe a personagem medocre, eleva-a sempre, por um ideal de inteligncia. De incio, Mme de Renal parece apenas uma burguesa bem nula; mas em breve o romancista faz dela uma mulher superior, e isso em todos os momentos. Nada to belo como o primeiro encontro entre Julien e essa bela senhora; seus amores, com a lenta entrega da mulher e os clculos to friamente ingnuos do jovem, possuem um tom de verdade um pouco afetado que faz dele um captulo das Confisses. Todavia, confesso minha surpresa quando, em seguida, vejo os dois superiores, e quando Mme de Renal, a todo instante, fala do gnio de Julien. "Seu gnio", diz Stendhal, "ia at apavor-la; ela imaginava perceber mais claramente a cada dia o grande futuro homem nesse jovem padre". Considerem que Julien ainda no tem vinte anos e que no fez absolutamente nada, e inclusive nunca far algo provando esse gnio com o qual o sobrecarregam. Ele um gnio para Stendhal, sem dvida porque Stendhal, que o nico senhor desse crebro, pe nele o que acredita ser o funcionamento do gnio. Essa a leso com que Napoleo fendeu as cabeas: para Stendhal, como para Balzac, por sinal, o gnio o estado ordinrio dos personagens. Reencontraremos isso em A Cartuxa de Parma.

Citarei esta frase de Julien sobre Mme de Renal: "Eis uma mulher de gnio superior reduzida ao cmulo da infelicidade por ter-me conhecido". Ora, o pior que Julien formula alhures juzos de imbecil sobre essa mulher. Assim, faz mais frente esta reflexo: "Deus sabe o quanto ela teve de amantes! Talvez s se decida a meu favor por causa da facilidade dos encontros". Isso me enfurece, visto que realmente preciso que Julien seja bem pouco clarividente para no conhecer Mme de Renal, pela cidadezinha onde vivem e por seu contato de todos os dias. H, desse modo, saltos de anlise singulares, com freqncia a algumas linhas de distncia; so contnuos desvios bruscos que desconcertam e que do obra um carter desejado. Sem dvida, o homem cheio de inconseqncias; contudo, essa dana da personagem, essa vida do crebro marcada minuto a minuto, e nos mnimos detalhes, prejudica, na minha opinio, a maneira mais ampla e mais simples da vida. Estamos quase sempre a na exceo. assim que os amores de Mme de Renal e de Julien, sobretudo no papel desempenhado por este ltimo, tm em cada pgina rangidos de mquina, rigidez de sistemas cujas engrenagens no obedecem o suficiente. Um nico exemplo: Julien est embriagado por ter segurado na sua a mo de Mme de Renal, e Stendhal acrescenta: "Mas essa emoo era um prazer, e no uma paixo. Retornando ao seu quarto, s pensou numa felicidade, a de retomar seu livro preferido; aos vinte anos, a idia do mundo e do efeito a produzir nele sobrepuja tudo". No se poderia conceber o quanto essa distino filosfica do autor sobre o prazer e a paixo me incomoda; e vocs vem que, de imediato, ele acompanhou essa distino por um exemplo, fazendo Julien preferir a leitura do Memorial de Santa Helena recordao ainda ardente de Mme de Renal. No nego o fato, ele possvel. Entretanto, perturba-me, pois sinto-o colocado l, no em conseqncia de uma observao, mas pelo desejo de sustentar por uma prova sua teoria do prazer e da paixo no amor. Em toda parte o autor aparece do mesmo modo como demonstrador, como lgico que observa os estados de alma nos quais situa suas personagens. Todas as personagens de Stendhal parecem ter enxaqueca, de tanto que faz seus crebros trabalharem. Quando o leio, sofro por elas, sinto amide vontade de gritar-lhe: "Por piedade, deixai-as um pouco tranqilas; deixai-as algumas vezes viverem a boa vida dos animais, simplesmente, na pulso do instinto, no meio da s natureza; sede com elas simples como um bom homem". Onde aparece sobretudo esse carter desejado da obra no estudo da hipocrisia de Julien. Pode-se dizer que O Vermelho e o Negro o manual do perfeito hipcrita; e o que caracterstico que o estudo da hipocrisia longamente retomado em A Cartuxa de Parma. Uma das grandes preocupaes de Stendhal foi a arte de mentir. Como outros nascem policiais, ele parecia nascido diplomata, com as complicaes de mistrio, de duplicidade hbil que faziam a glria legendria do ofcio. Mudamos isso, sabemos que um diplomata geralmente um homem to simples quanto outro. Stendhal colocava igualmente a superioridade humana nesse ideal de um esprito poderoso que se d o prazer de enganar os homens e de ser o nico a fruir de seus embustes. Observem, como j disse, que Julien no fundo o mais nobre esprito do inundo, desinteressado, terno, generoso. Se perece, por excesso de imaginao: muito poeta. Assim, Stendhal lhe impe unicamente a mentira como o instrumento necessrio sua fortuna. Faz dele um fanfarro de hipocrisia, e sentimo-lo feliz quando o conduziu a alguma boa duplicidade. Por exemplo, exclamar com uma satisfao de pai: "No se deve pensar muito mal de Julien; ele inventava corretamente as palavras de uma hipocrisia cautelosa e prudente. Nada mal na sua idade". Em outra parte, como Julien tem uma revolta de homem honesto, o autor tomar a palavra para fazer esta declarao: "Confesso que a fraqueza da qual d prova nesse momento me d uma pobre opinio dele". Entramos no conto filosfico de Voltaire. ironia, Julien se torna um smbolo. No fundo, h uma concepo social; em seguida, sobretudo, demonstram um grande desprezo pelos homens, uma adorao das inteligncias excepcionais que governam por quaisquer armas. Mais uma vez tudo isso tenso, a propenso da existncia mais suave. Quando Stendhal escreve: "Julien prometera nunca dizer seno coisas que lhe pareciam falsas", ele nos adverte contra a personagem, que, do comeo ao fim do livro, mais uma vontade do que uma criatura.

Com isso, abundam pginas extraordinrias. Encontramos em todos os lugares esse golpe de gnio da lgica de que falei; a verdade eclode em cenas inesquecveis, como a primeira noite de Julien e Mme de Renal. Nunca o amor, com suas mentiras e generosidades, suas misrias e delcias, foi analisado de modo to profundo. O retrato do marido sobretudo uma maravilha. No conheo uma tempestade num homem mais magistralmente descrita, sem falsa grandeza e com o som exato da realidade do que essa terrvel luta que ocorre entre o Sr. de Renal, quando recebeu a carta annima denunciando-lhe os amores de sua mulher. Insisti sobre esse comeo do romance porque ele com toda a certeza a melhor parte da obra, e porque me permitiu estabelecer claramente as maneiras de ver e os procedimentos de Stendhal. Vou agora poder passar com maior rapidez sobre as outras partes.

A vida de Julien no seminrio ainda um episdio admirvel. Aqui, a hipocrisia to estudada do heri j no incomoda, porque ele se encontra num meio onde luta contra hipcritas. Por sinal, esse pobre Julien sente-se bem pequeno, com sua arte da mentira, diante dos folgazes que empregam a mentira com naturalidade, sem esforo. De imediato, abandonaria a hipocrisia se a ambio no o perseguisse. Stendhal devia se sentir vontade num seminrio, onde reinam a espionagem e a desconfiana, da mesma forma como se sentiu, mais tarde, na corte do rei de Panna. Assim, deixou uma pintura surpreendente, se no de uma grande observao imediata, pelo menos de uma deduo extraordinria de fora. A chegada de Julien, sua primeira entrevista com o padre Pirard, a vida interior do seminrio esto entre as melhores pginas do livro.

Chego aos amores de Julien com Mlle de La Mole, que ocupam uma boa metade da obra. para mim a metade inferior, pois entramos na aventura e na singularidade.

No bastava a Stendhal ter criado um Julien, essa mecnica cerebral to excepcional; quis criar a fmea desse macho, inventou Mlle de La Mole, outra mecnica cerebral no mnimo igualmente surpreendente. um segundo Julien. Imaginem a moa mais friamente, mais cruelmente romanesca que se possa ver; mais um esprito superior que tem desprezo por seu entourage e que se lana nas aventuras, por uma complicao e uma tenso extraordinrias da inteligncia. "Ela s dava o nome de amor", diz Stendhal, "a esse sentimento herico que se encontrava na Frana no tempo de Henrique III e de Bassompierre". E ela parte da para amar Julien, numa deciso longamente refletida. ela que lhe faz uma declarao, e quando ele chega em seu quarto pela janela, s a idia do dever que traou para si a decide a se entregar a ele, cheia de mal-estar e repugnncia. A partir da, seus amores tornam-se o mais abominvel dos precipcios. Julien, que no a amava, pe-se a ador-la e a desej-la loucamente pela lembrana. Todavia, ela teme ter-se dado um senhor, esmaga-o de desprezo, at o dia em que tomada de paixo, em conseqncia de uma cena na qual imaginou que seu amante queria mat-la. De resto as desavenas continuam. Julien, para reconquist-la, forado a torn-la ciumenta, obedecendo a uma longa ttica. Enfim, Mlle de La Mole engravida e confessa tudo a seu pai, a quem declara que desposar Julien. No conheo amores mais difceis, menos simples e menos sinceros. Os dois amantes so perfeitamente insuportveis, com sua contnua preocupao de sutilizar em excesso. Stendhal, como analista de primeira grandeza, comprouve-se em complicar seus crebros ao infinito, como esses jogadores de bilhar ilustres que se impem dificuldades, a fim de demonstrar que no h posio capaz de lhes impedir uma carambola. S existem a curiosidades cerebrais.

De resto, o autor compreendeu perfeitamente. Ele prprio observa isso, mas com essa ironia pretensiosa que zomba ao mesmo tempo de suas personagens e do leitor. Ele pra bruscamente sua narrativa para escrever:

Esta pgina prejudicar de vrias maneiras o infeliz autor. As almas glidas o acusaro de indecncia. Ele no injuria em absoluto as jovens pessoas que brilham nos sales de Paris ao supor que sequer uma dentre elas seja suscetvel dos movimentos de loucura que degradam o carter de Mathilde. Essa personagem completamente de imaginao e inclusive imaginada bem fora dos hbitos sociais que, entre todos os sculos, asseguraro uma posio to distinta civilizao do sculo XIX.

Eis o que mordaz e bonito; mas isso no impede Mathilde de ser muito mais uma experincia de autor do que uma criatura viva.

O procedimento de Stendhal sobretudo muito visvel nos longos monlogos que elabora para suas personagens. A cada instante Julien, Mathilde e outros mais fazem exames de conscincia, escutam seus pensamentos, com a surpresa e a alegria de uma criana que encosta o ouvido num relgio. Desenrolam interminavelmente o fio de seus pensamentos, param em cada n, raciocinam a perder de vista. Todos, a exemplo do autor, so psiclogos muito distintos. Compreende-se isso, pois so eles todos mais filhos de Stendhal do que da natureza. Assim, eis uma das reflexes que Stendhal faz para Mathilde, falando das pessoas que a cercam: "Se elas ousam abordar um assunto srio, ao fim de cinco minutos de conversao chegam sem flego, e como se fizessem uma grande descoberta, a uma coisa que lhes repito h uma hora". Mathilde, Stendhal quem fala? Evidentemente, este ltimo, e a personagem a apenas um disfarce.

Deixo de lado o meio parisiense no qual Julien se situa. H a excelentes retratos; entretanto, na minha opinio, todas essas pessoas simulam um pouco; Stendhal raramente nos d a vida, suas mulheres da sociedade, seus grandes senhores como seus parvenus, seus conspiradores como seus jovens ftuos, tm no sei que de seco e inacabado ao mesmo tempo que os deixa em estado de esboo nas memrias. Nunca os meios so reconstrudos plenamente. As cabeas permanecem simples silhuetas, recortadas sobre o papel branco ou negro. So anotaes de autor h pouco ordenadas.

E sempre cenas surpreendentes de verdade, como numa emanao da lgica. Citei o primeiro encontro de Julien e Mathilde. Seria preciso apresentar essas quatro pginas, para fazer ouvir seu som justo e profundo. Isso se parece to pouco com o duo de Romeu e Julieta, que a primeira impresso um estremecimento desagradvel; em seguida, somos tomados pela realidade dos mnimos fatos. Leiam estas linhas:

Mathilde se esforava para tute-lo, ela estava evidentemente mais atenta a essa estranha maneira de falar do que ao contedo das coisas que dizia. Esse tuteio, despojado do tom da ternura, no proporcionava nenhum prazer a Julien Surpreendia-se com a ausncia da felicidade, enfim, para senti-la, recorreu sua razo.Eis o bom Stendhal, o psiclogo chegando verdade sobre determinados temas pela simples anlise dos movimentos da alma. Numa outra cena, quando o marqus de La Mole sabe de tudo e manda chamar Julien, fui surpreendido pelo modo como ele o recebe. Dem a cena a um romancista retrico, e tero o pai de cabelos brancos, fazendo sermo, com um nobre desespero. Escutem Stendhal: "Julien encontrou o marqus furioso: pela primeira vez em sua vida, talvez, esse senhor foi grosseiro: humilhou Julien com todas as injrias que lhe vieram boca. Nosso heri se surpreendeu, se impacientou; mas seu reconhecimento no foi absolutamente abalado". E mais frente: O marqus estava realmente enlouquecido. Em vista desse movimento (Julien cairia de joelhos), recomeou a humilh-lo com injrias atrozes e dignas de um cocheiro de fiacre. A novidade dessas blasfmias era, talvez, uma distrao". Tal o grito humano, a reflexo verdadeira e nova no romance. E o estudo do homem tal como , despojado das roupagens da retrica e visto fora das convenes literrias e sociais. Stendhal ousou por primeiro essa verdade.

Conhecemos o belo episdio que termina O Vermelho e o Negro. Mme de Renal levada por seu confessor, escreve ao marqus de La Mole uma carta que rompe o casamento de Mathilde e Julien. Este, cedendo a um movimento de loucura, retorna a Verrires e d um tiro de pistola em Mme de Renal, ajoelhada numa igreja. Prendem-no, julgam-no e guilhotinam-no. As cinqenta ltimas pginas analisam as idias de Julien em sua priso, diante da morte prxima. Stendhal se deu a um regalo, uma profuso de raciocnio, e nada seria mais curioso do que comparar o episdio ao ltimo Dia de um Condenado, de Victor Hugo. muito penetrante, muito original; no ouso acrescentar muito verdadeiro, pois um crebro como Julien de tal forma excepcional que os pontos de comparao esto por completo ausentes na realidade, pois os condenados morte dessa estrutura intelectual so muito raros. Deve-se ler isso como um problema de psicologia, apresentado em condies particulares e brilhantemente resolvido. Nesse desfecho, sobretudo, sente-se o quanto a histria inventada, quo pouco escrita sobre a observao imediata. Taine diz: "A histria quase verdadeira, a de um seminarista de Besanon denominado Berthet; o autor s se ocupa em anotar os sentimentos desse jovem ambicioso e em retratar os costumes das sociedades em que se encontra ; h mil fatos verdadeiros mais romanescos do que esse romance". Pois bem! E verdade que, se um processo forneceu a Stendhal a idia inicial de seu livro, ele a retomou e inventou todos os caracteres. Sem dvida o contedo da obra no romanesco, ainda que as aventuras de um pequeno padre que se torna amante de duas damas, assassinando uma pelo amor da outra, e enfim chorado pelas duas, at a loucura e a morte, j constituam um bonito drama; mas onde entramos no romanesco, ou melhor, no excepcional, quando Stendhal nos explica com amor e sem interrupo os movimentos de relgio que fazem as personagens agir.

Isso sai absolutamente da realidade cotidiana, da realidade com que estamos em contato, e estamos no extraordinrio tanto com Stendhal psiclogo quanto com Alexandre Dumas contista. Para mim, do ponto de vista da estrita verdade, Julien me causa as mesmas surpresas que d'Artagnan. Cai-se igualmente nos abismos da inveno, seja porque se apia muito esquerda ao imaginar fatos incrveis, seja porque se apoia muito direita ao criar crebros fenomenais, nos quais se acumula todo um curso de lgica. Lembrem que Julien morre aos vinte e trs anos, e que seu pai intelectual o apresenta como um gnio que aparenta ter descoberto o pensamento humano. Creio, de minha parte, que entre o abismo dos contistas e o abismo dos psiclogos h uma via muito larga, a prpria vida, a realidade dos seres e das coisas, nem muito baixa, nem muito alta, com sua cadncia mdia e sua bonomia poderosa, de um interesse ainda maior porque ela nos d o homem mais completo e com maior exatido.

IV

Gosto menos de A Cartuxa de Parma, porque sem dvida as personagens manifestam-se num meio que me menos conhecido. E, se quiserem saber de imediato o que penso, confessarei que sinto grande dificuldade em aceitar a Itlia de Stendhal como uma Itlia contempornea; na minha opinio, ele retratou sobretudo a Itlia do sculo XV, com sua orgia de venenos, suas estocadas, seus espies e seus bandidos mascarados, suas aventuras extraordinrias em que o amor impele levianamente ao sangue. No sei o que pensa Taine do romanesco dessa obra, mas para mim nada mais complicado como intriga, nada destoa mais da idia que fao da Europa em 1820. Encontro-me a em pleno Walter Scott, excetuando a retrica. Talvez eu esteja errado.

Eu j disse, por sinal, que A Cartuxa de Parma certamente o nico romance francs escrito sobre um povo estrangeiro que tenha o cheiro desse povo De modo geral, nossos romancistas, e os maiores, contentam-se com pinceladas de cor local completamente superficiais, enquanto Stendhal foi ao mago da raa. Ele a v menos banalmente burguesa, mais voluptuosa, obedecendo menos ao dinheiro e ao amor-prprio. Desconfio que a viu atravs de seus gostos e de sua natureza. Todavia, no deixou de representar com um trao definitivo as grandes linhas desses temperamentos vivos e livres, cuja grande questo amar e gozar a vida, pouco se importando com a opinio alheia.

Aqui, ainda, encontramos espritos superiores, gnios. Chego a contar quatro: a duquesa Sanseverina, Fabrice, Mosca e Ferrante Palia. Estamos sempre na inteligncia pura.

Essa duquesa Sanseverina, que ocupa o livro, filha de Stendhal. Colocou nela todos os encantos e todas as complicaes da paixo. Ela roa o incesto, vai at o envenenamento, e nem por isso deixa de ser a herona simptica que Stendhal adora. Sentimo-lo encantado com os crimes dela; creio mesmo que a arrasta ao atroz por dio banalidade. orgulhoso dela, diria de bom grado, em sua alegria de surpreender o mundo: "Eis uma mulher como no se v amide!" Escutem esta biografia. Gina del Dongo desposa o conde Pietranera, um oficial de Napoleo, que ela ama ardentemente, o que no a impede de engan-lo com um jovem denominado Limercati. Seu marido morre, ela tem outros amantes; enfim Mosca, o ministro do prncipe de Parma, apaixona-se por ela, e ela se torna sua amante. Todavia, ao mesmo tempo ela tomada de paixo por seu sobrinho Fabrice, do qual poderia ser me, dezesseis anos mais velha do que ele; e, a partir da, essa paixo que vai ocupar sua vida, sem impedi-la de continuar suas relaes com Mosca e viver outros amores. Para salvar Fabrice da morte, ela decide envenenar o prncipe de Parma por Ferrante Palia, um louco genial que a adora. No tudo; quando o prncipe morre, ela deve salvar Fabrice de novo, e desta vez chega ao ponto de se vender ao herdeiro do trono. Enfim, vive tranqila com Mosca, depois de ter sido torturada de cime pelos amores de Fabrice e Cllia. Stendhal quis poup-la da queda com Fabrice. Esquecia-me de dizer que Mosca, antes de despos-la, casa-a com o velho duque Sanseverina-Taxis, um ambicioso muito rico, que tem o bom gosto de morrer e de quem ele herdeiro; negcio que, na Frana, bastaria para enlamear uma mulher. Tal a herona. Acrescente-se que bela, possui uma inteligncia extraordinria e que o romancista coloca-a numa glria contnua. No me sinto chocado, apenas no vejo a duquesa em nossa poca, eis tudo. Ela viveu na Frana. outra Mlle de La Mole com diferenas de natureza, Stendhal me parece sempre mostrar retratos histricos. No conheceu nem a mulher nem o homem modernos.

Quanto a Fabrice del Dongo, ele tem muito de Julien Sorel. No incio, ainda encontramos a paixo por Napoleo, e isso nos d esse episdio to extraordinrio da Batalha de Waterloo, que no se apia em nada no romance. Em seguida, vem igualmente a luta do esprito eclesistico e do esprito militar. Como Julien, Fabrice, que queria ser soldado, v-se obrigado a vestir a batina. As situaes e as idias so idnticas. Depois, verdade, Fabrice se entrega paixo; uma alma mais terna, mais flexvel, mais meridional. Um verdadeiro heri, por sinal, moda dos romances de aventuras. Percorre os caminhos distribuindo estocadas. Taine, que cita com admirao o modo seco com que Stendhal conta em duas linhas o duelo de Julien em O Vermelho e o Negro, no se deu conta da maneira bem romntica como o romancista dramatizou os duelos de Fabrice em A Cartuxa de Parma. H inicialmente seu caso com Giletti, o ator, seguido do caso com o conde M***, num ptio de albergue. Salto as cartas annimas, cujo emprego muito freqente, os criados disfarados, todo esse estranho meio que, para mim, parece pertencer aos contos de fadas; e chego ao delicioso episdio da Torre Farnese, aos amores de Fabrice, prisioneiro, com a bela Cllia, filha do governador. A situao , grosso modo, a mesma que a de Julien na priso de Besanon, pois Fabrice est igualmente sob a ameaa de uma morte prxima; todavia, ainda que o psiclogo no abandone a contnua anlise das idias, transforma-se aqui em contista, e os fatos romanescos assumem o lugar mais importante. So todos os tipos de detalhes singulares e pouco verossmeis : o modo como Fabrice se v com Cllia, sua correspondncia com a duquesa graas a um sistema de sinais luminosos, em seguida cartas enviadas em balas de chumbo, depois o uso de cordas e ainda essa milagrosa descida de uma altura prodigiosa sem que uma sentinela se mova; e, no meio de tudo isso, histrias de veneno em cada pgina, como no tempo dos Brgia. Nada de interesse mais vivo; mas eis que estamos longe da simplicidade e da nudez do real. Mais tarde, Fabrice, que volta a se tornar prisioneiro por amor, escapar ainda de ser envenenado. Cllia se casa; ele se torna arcebispo e a possui durante vrios anos, num cmodo escuro, porque ela fez voto para no v-lo e entende observar o termo de seu juramento; esse casusmo um trao de costumes italianos que nos faz sorrir um pouco. Enfim, quando Cllia morre, Fabrice tambm morre, e a ltima pgina do romance.

O conde Mosca a figura que mais entusiasmava Balzac. Sabe-se que Stendhal passava por ter desejado fazer o retrato do prncipe Metternich. Escreve Balzac:

Stendhal tanto exaltou o sublime carter do primeiro ministro do Estado de Parma que duvidoso que o prncipe Metternich seja to grande quanto Mosca, ainda que o corao desse clebre homem de Estado oferea, a quem bem conhece sua vida, um ou dois exemplos de paixo de uma amplitude pelo menos igual de Mosca [..]. Quanto ao que Mosca em toda a obra, quanto conduta do homem que Gina v como o maior diplomata da Itlia, foi preciso gnio para criar os incidentes, os acontecimentos e as tramas inumerveis e renascentes no meio das quais esse imenso carter se manifesta. Quando se pensa que o autor tudo inventou, tudo confundiu, tudo clarificou, como as coisas se embaralham e se clarificam numa corte, o esprito mais intrpido e a quem as concepes so familiares permanece aturdido, estpido diante de semelhante trabalho [...]. Ter ousado colocar em cena um homem de gnio da fora de Choiseul, de Potemkin, de Metternich, cri-lo, provar a criao pela prpria ao da criatura, faz-lo se mover num meio que lhe seja prprio e onde suas faculdades se manifestam, no obra de um homem, mas de uma fada, de um encantador.

Fiz questo de citar toda essa pgina porque ela nos mostra exatamente a idia que nossos antepassados tinham do gnio. Confesso, no que me diz respeito, que no vejo absolutamente gnio em Mosca. No h sequer uma pgina na obra em que eu o ache verdadeiramente grande. Como poltico, no faz nada. Encontra-se simplesmente envolvido em intrigas cortess, no meio das quais tergiversa, como homem prudente e hbil que quer conservar seu lugar e no perder sua amante. Tudo isso me parece compor um homem gentil, nada mais; Mosca inclusive comete erros, por mediocridade de adulador. verdade que o gnio de Metternich, assim como o de Choiseul e o de Potemkin, no nos tocam hoje. Mosca foi se juntar a seus modelos. Agora, se quisermos nos contentar com ver em Mosca um tipo curioso e maravilhosamente escrutado, sem esmag-lo com palavras de homem sublime e de imenso carter, certo que Stendhal demonstrou o maior talento na criao de tal personagem. Balzac tem razo de se extasiar como homem de ofcio com a pintura da corte de Parma, com esse emaranhado de intrigas que analisa pelos prprios fatos o carter de Mosca. realmente um prodgio de inveno, no bom sentido do termo. Dir-se-iam os anais verdadeiros de uma pequena corte. No me arrisco a resumir essa ao to mltipla, esse tipo de dirio elaborado a cada hora, onde passam retratos to claramente pintados, o prprio prncipe com suas necessidades de crueldade e seu fundo de vaidade, e o terrvel Rassi, e a marquesa Raversi, e toda a scia sussurrante dos cortesos. Uma vez mais, todavia, protesto contra o sublime, nada vejo de sublime nisso. E como esta estranha apreciao de Balzac, resumindo sua opinio sobre A Cartuxa de Parma: "Enfim, ele escreveu O Prncipe moderno, o romance que Maquiavel escreveria se vivesse banido da Itlia no sculo XIX"; no compreendo essa opinio, pois ao diabo se o Ernesto IV de Stendhal representa para mim o prncipe moderno, com suas preocupaes de uma outra poca e sua idia fixa de se parecer com Lus XIV! uma custica caricatura da realeza feita por um homem infinitamente espirituoso, e nada mais.

Deter-me-ei um instante ainda em Ferrante Palla, essa figura bizarra cuja impresso permanece to viva na memria do leitor. Esse Ferrante Palla um proscrito poltico, um tribuno condenado morte que levado a roubar para sobreviver. Eis algumas das frases que ele dirige duquesa e que resumem sua histria:

Desde que, ao cumprir meus deveres de cidado, fui condenado a morte, vivo nos bosques, eu a seguia, no para pedir esmola ou para roubar-lhe, mas como um selvagem fascinado por uma beleza angelical Fazia muito tempo que eu no via duas belas mos brancas [ ] Tomo nota dos nomes das pessoas que roubo, e se porventura tenho alguma coisa, devolverei a elas as quantias roubadas Penso que um tribuno do povo como eu executa um trabalho que, em razo de seu perigo, vale muito bem cem francos por ms, assim, evito pagar mais de mil e duzentos francos por ano.E esse estranho ladro que a duquesa encarrega de envenenar o prncipe. A cena do pacto longa. Quando ele aceita, e se retira, ela o chama novamente: "Ferrante!", exclama; "homem sublime!" Regressa, torna a partir, e ela o chama uma vez mais: "Ele voltou com um ar inquieto; a duquesa encontrava-se em p no meio do salo; ela se atirou em seus braos". Aps um instante, Ferrante quase desmaia de felicidade; a duquesa livra-se de seus abraos e com os olhos mostra-lhe a porta. "Eis o nico homem que me compreendeu", diz ela, " assim que teria agido Fabrice, se ele tivesse podido me entender". Essa uma das cenas nas quais Balzac mais insiste, para testemunhar seu entusiasmo transbordante; verdade que ele sempre retorna comparao com Walter Scott, o que hoje compromete um pouco o elogio. Creio que no se deve analisar muito a cena do ponto de vista do valor exato dos fatos. O homem sublime ainda me escapa em Ferrante Palla, e esse ladro original que parece realizar uma aposta, esse tribuno que se pendura ao pescoo das duquesas pertence muito mais inveno do que realidade. Todavia, o que me surpreende ainda mais a admirao que ele produz na duquesa. Ela amada, isso no deveria surpreend-la. Muitos republicanos, por um beijo dela, iriam matar o prncipe, ainda mais porque esto bem dispostos a mat-lo, mesmo por nada. verdade que Balzac v nisso a alma da Itlia, e inclino-me, pois ele penetra numa questo que no aprecio mais. Na minha opinio, Ferrante Palia uma das boas figuras de Walter Scott. Stendhal j no aqui o grande psiclogo; torna-se um contista, impressiona a imaginao. Assim tambm Ferrante Palia permanece na lembrana como um heri de Alexandre Dumas ou de Victor Hugo. Eu gostaria simplesmente de sustentar essa opinio manifestada por mim: A Cartuxa de Parma pelo menos tanto um romance de aventuras quanto uma obra de anlise.

Se eu resumisse meu julgamento, diria que vejo nesse livro sobretudo uma aplicao das teorias de Stendhal sobre o amor. Sabemos que ele tinha um sistema to engenhoso quanto complicado. Ora, em A Cartuxa de Parma reencontraramos sem dificuldade todos os gneros de amor que ele classificou, desde o amor-vaidade at o amor-paixo. como uma vasta experincia, e a Itlia foi particularmente escolhida porque l essa experincia podia ser feita com maior facilidade. Sem dvida reencontramos, assim, o idelogo; por exemplo, h conversaes de Sanseverina com o conde Mosca em que os dois interlocutores so evidentemente dois compadres que dirigem um ao outro as idias do prprio Stendhal. Alm disso, as personagens sempre procedem por longos monlogos, ainda a mesma mecnica cerebral em movimento. Assim, os fatos tm aqui mais espao.

O que tambm preciso observar que Stendhal, ainda que exibindo o desdm pelo mundo exterior, foi o primeiro romancista a obedecer lei dos meios geogrficos e sociais. Faz esta observao em seu prefcio Cartuxa de Parma, observao profundamente justa: "Parece-me que todas as vezes que avanamos duzentas lguas ao sul e ao norte surge uma nova paisagem assim como um novo romance". Toda a lei dos meios encontra-se a. Comparem, por exemplo, os amores de Mlle de La Mole com os da duquesa Sanseverina: antes de tudo, os temperamentos no so os mesmos; em seguida, certo que essas devastaes diferentes produzidas por esses amores se devem s diferenas dos climas e das sociedades onde se produzem. E preciso analisar as duas obras desse ponto de vista. Stendhal aplicava como filsofo teorias que procuramos hoje aplicar como cientistas. Sua frmula ainda no a nossa, mas a nossa decorre da sua.

No se deveria crer, por sinal, que Balzac poupou as crticas Cartuxa de Parma. Resumo essas crticas. Falta mtodo ao livro; o autor deveria ter comeado por seu magnfico esboo da batalha de Waterloo; todo o comeo do livro, demasiado longo, ganharia se fosse resumido numa curta narrativa; falta de unidade, no se sabe muito bem onde est o tema, se ele diz respeito a Fabrice ou corte de Parma; enfim, o desfecho um outro livro que comea. Balzac escreve ainda esta frase: "O lado fraco dessa obra o estilo". Essas crticas so justas. Eu as resumirei assim: falta lgica tanto na composio da obra quanto no estilo em que escrita. o que me resta estudar antes de concluir.

V

Vejamos, portanto, a composio e o estilo nos romances de Stendhal.

Para todos ns, filhos mais ou menos revoltados do romantismo, essa composio relaxada e esse estilo incorreto de Stendhal so grandes tormentos. Permitir-me-o fazer uma confisso pessoal? Explicando meu caso, estou pelo menos certo de conduzir a questo a um terreno que eu conheo. Nunca pude ler Stendhal sem ser tomado de dvida quanto forma. A verdade est do lado desse esprito superior que sente absoluto desdm pela retrica? Ou est do lado dos artistas que fizeram em nossa poca um instrumento to sonoro e to rico da lngua francesa? E se me responderem que a verdade est entre os dois, em que juste-milieu eu deveria, portanto, me deter? Problema inquietante para os jovens escritores que tratam de ter uma percepo exata de sua poca literria e tm a bela ambio de legar obras duradouras.

Sei bem o que se diz num campo e no outro. Taine, que concorda com Stendhal, silencia sobra a questo de estilo e de composio. Inclusive, parece fazer um elogio ao romancista por no se deter nesses vos detalhes de retrica. Para ele, Stendhal superior, e justamente porque no um retrico. No campo oposto, grandes escritores, que intil citar aqui, negam radicalmente Stendhal, porque no tem a simetria latina e porque se gaba de empregar o estilo brbaro e incolor do Cdigo; e acrescentam, com alguma razo, que no h absolutamente exemplo de que um livro escrito sem retrica tenha se transmitido de uma a outra poca com a admirao dos homens. Tudo isso excelente. Evidentemente, faz parte de um esprito superior libertar-se das palavras e ver simplesmente na lngua um intrprete dcil; todavia, por outro lado, a arte, melhor ainda, a cincia da lngua, existe, a retrica nos legou obras-primas e parece impossvel dispens-la.

Eis, portanto, as duas opinies contrrias, entre as quais estamos assediados. Quantas vezes detestei minhas frases, tomei desgosto por esse ofcio de escritor que todo mundo hoje possui! Ouvia soar o vazio sob as palavras e sentia vergonha dos inumerveis eptetos inteis, dos ornamentos aplicados no final das tiradas, dos procedimentos que retornavam sem pausa para introduzir na escrita os sons da msica, as formas e as cores das artes plsticas! Sem dvida, existem a curiosidades literrias sedutoras, um refinamento de arte que ainda me encanta; mas, preciso diz-lo, no fim das contas isso no nem grande, nem saudvel, nem verdadeiro, levado ao eretismo nervoso a que chegamos. Sim, precisamos de simplicidade na lngua se quisermos fazer dela a arma cientfica do sculo. Entretanto, cada vez que eu me punha a ler Stendhal, ocupado com essas idias, sentia-me desencorajado quase de imediato. Eu o aceitava mentalmente em teoria quando no o lia. To logo o estudava sentia-me tomado por um mal-estar; em resumo, ele no me satisfazia em absoluto. Eu desejava uma composio simples, uma lngua clara, algo como uma casa de vidro que permite ver as idias no interior; sonhava inclusive com o desprezo da retrica, com os documentos humanos mostrados em sua nudez severa. Todavia, decididamente, Stendhal no me fascinava. Algo nele me incomodava. Admirava-o em seu princpio e recusava-o to logo ele passava aplicao.

Pois bem, compreendi de onde vinha meu mal-estar. Stendhal, esse lgico das idias, no um lgico da composio nem do estilo. A est sua lacuna, o defeito que o diminui. No surpreendente? Eis um psiclogo de primeira ordem, que aclara com uma lucidez extraordinria a complicao das idias no crnio de uma personagem; mostra o encadeamento dos movimentos da alma, estabelece sua ordem exata, possui, para explicar cada estado, um mtodo de anlise sistemtica. E assim que passa composio, to logo deve escrever, toda essa admirvel lgica desaparece. Apresenta suas notas ao acaso, lana suas frases ao sabor da pena. Sem mtodo, sem sistema, sem ordem de nenhum tipo; um cafarnaum, e um cafarnaum afetado, do qual parece se envaidecer. Entretanto, h uma lgica para a composio e o estilo, que no , em suma, seno a prpria lgica dos fatos e das idias. A lgica de tal fato acarreta a lgica da ordem na qual se deve apresent-lo; a lgica de tal idia, numa personagem, determina a lgica das palavras que devem exprimi-la. Observem que no se trata em absoluto de retrica, de estilo figurado e brilhante. Digo apenas que, nesse esprito superior de Stendhal, havia uma lacuna, ou pior ainda, uma contradio. Ele renegava seu mtodo assim que passava das idias linguagem.No me posso estender, e trata-se aqui sobretudo de consideraes tecidas. Por sinal, intil provar a ausncia de composio lgica nos romances de Stendhal; essa ausncia de composio salta aos olhos, sobretudo em A Cartuxa de Parma. Balzac, to entusiasta, sentiu muito bem que o romance no tinha centro; o tema vai ao sabor dos episdios, e o livro, que comeou com uma entrada em matria interminvel, termina bruscamente, justo na hora em que o autor iniciara uma nova histria. Quanto ao estilo, corre, assim, todos os riscos. O julgamento de Balzac ainda muito correto. "O lado fraco dessa obra o estilo", diz ele, "enquanto disposio de palavras, pois o pensamento eminentemente francs sustenta a frase" Essa disposio das palavras precisamente a lgica do estilo; e, repito-o, surpreendo-me por no encontr-la em Stendhal, que um mestre no ordenamento das idias. No o censuro por suas negligncias dos "quem", dos "que" aos montes, das repeties de termos que retornam at dez vezes numa pgina, e inclusive erros gramaticais usuais; censuro-o pela estrutura ilgica de suas frases e de seus pargrafos, o desprezo por todo mtodo na arte de escrever, em resumo, uma forma que no para mim a forma de suas idias. Ele lgico, apresenta seu sistema de idelogo em estilo negligente e me causa um mal-estar, porque no completo e porque algo range em sua obra.

Fala-se de Saint-Simon. Mas Saint-Simon um mestre da linguagem em sua incorreo extraordinria. Seu estilo uma torrente que arrasta ouro, ao lado do crrego de Stendhal, amide muito claro, mas que se quebra e se turva em cada acidente do terreno. Por sinal, no quero julg-lo como poeta. Ele tem a pretenso de no ser figurado, de no ter eptetos que pintam, no ceder nem eloqncia, nem fantasia. Tomemo-lo, portanto, pelo que quer ser. Ora, o que no correto no claro, o que carece de lgica no se sustenta. Faamos pouco caso da retrica, mas nesse caso conservemos a lgica.

Eis, portanto, para mim, o que seria desejvel: ter essa bela simplicidade que Taine celebra, cortar todos os nossos penachos romnticos, escrever numa linguagem sbria, slida, correta; entretanto, escrever essa linguagem como lgicos e como eruditos da forma na medida em que pretendemos ser eruditos e lgicos da idia. No vejo nenhuma superioridade em chafurdar nas palavras, quando se tem a ambio de no chafurdar nas idias. Se Stendhal escreveu incorretamente e sem mtodo para mostrar o quanto era superior, o quanto um psiclogo de sua fora desdenhava a lngua, s chegou a esse belo resultado de ser inconseqente e de se reduzir. Todavia, creio que se estaria errado em ver nisso o desprezo de um metafsico pela matria, ele obedecia a suas faculdades, nada mais. O que quero dizer, em suma, nossa juventude a quem as questes literrias apaixonam que o dio legtimo da retrica romntica no deve lanar ningum nesse estilo ilgico de Stendhal. A verdade no est nessa reao. Admitindo que se possa fazer um estilo, preciso procurar faz-lo pelo mtodo cientfico que hoje triunfa. Assim como uma personagem tornou-se para ns um organismo complexo que funciona sob a influncia de um certo meio, assim tambm a lngua uma estrutura determinada por circunstncias humanas e sociais. Disseram com razo que uma lngua era uma filosofia; tambm se pode dizer que uma lngua uma cincia. Escrever mal no se mostrar nem bom filsofo nem bom cientista. Tratemos a forma como tratamos nossas personagens, pela anlise lgica. Um livro de composio capenga e de estilo incorreto como um ser estropiado. Desejo uma obra-prima, um romance em que o homem se encontre por inteiro, numa frmula slida e clara, que seria sua veste certa.

Antes de terminar, quero fazer uma observao que me atormenta. De onde vem que as personagens de Stendhal no se impem ainda mais memria? Diz-se que ele escreveu para as pessoas superiores e que vem da a pouca popularidade dos tipos por ele criados. uma razo, mas ela no suficiente, pois Stendhal hoje bastante lido para que o pblico o conhea. Ora, certo que nem Julien Sorel, nem Mosca, nem a Sanseverina esto na nossa intimidade, como, por exemplo, o pai Goriot e o pai Grandet. Isso vem, evidentemente, conforme mostrei, do fato de que as personagens de Stendhal so muito mais especulaes intelectuais do que criaes vivas. Julien Sorel no deixa nenhuma idia clara; ele complicado como uma mquina da qual se termina por no ver mais claramente a funo; sem contar que aparenta, na maioria das vezes, desdenhar o mundo. Acrescente-se que ele no traz sua atmosfera, que se destaca em ngulo agudo, assim como um raciocnio. O pai Goriot, ao contrrio, move-se em seu ar prprio, vemo-lo vestido, caminhando, falando; a anlise, em vez de complic-lo, simplifica-o; e sincero, e vive por sua conta. Eis por que ele se impe, por que no mais o esqueceremos aps t-lo encontrado uma vez. No singular que Balzac, to tumultuoso e to excessivo, seja, em suma, o gnio que simplifica e insufla a vida em suas personagens, enquanto Stendhal, to seco, to claro, s consegue complicar suas personagens, ao ponto de fazer delas puros fenmenos cerebrais, que parecem fora da existncia? Isso me leva a concluir. Stendhal s tomou a cabea do homem, para fazer com ela experincias de psiclogo. Balzac tomou o homem por inteiro, com seus rgos, com os meios naturais e sociais, e completou as experincias do psiclogo com as do fisiologista.

Termino. Formou-se, por causa de Stendhal e Balzac, todo um grupo de estranhos admiradores, que vo buscar nas obras desses mestres as partes fantasmagricas, os exageros de sistemas, as nfases do temperamento. Assim, de Balzac retero a Histria dos Treze e A Mulher de Trinta Anos; sonharo com o grande mundo singular que o romancista havia criado inteiramente de sua cabea; desejaro ser Rastignac ou Rubempr, para subverter a sociedade e experimentar as fruies desconhecidas. o acesso de loucura romntica que fendeu o talento de Barbey d'Aurevilly. Quanto a Stendhal, ser para eles um alquimista extraordinrio do pensamento humano, que extrai do crebro a quintessncia do gnio. Julien e Mosca lhes aparecero como poos de profundidade onde se afogaro, e amaro Sanseverina pela seduo de sua ingnua perversidade. Com esses perigosos discpulos, todo passante se torna um grande homem, o sublime corre s ruas. Eles no podem conversar dez minutos com algum sem imitar Balzac e sobretudo Stendhal, procurando sob as palavras, manipulando os crebros, descobrindo abismos. No se trata aqui de fantasia; conheo rapazes muito inteligentes que compreendem desse modo os mestres do naturalismo moderno. Pois bem, declaro claramente que esto no pesadelo. Pouco me importa que Balzac tenha sido o sonhador mais prodigioso de seu tempo e que Stendhal tenha vivido na miragem da superioridade. Somente suas obras esto em causa, e elas s tm de bom, hoje, a soma da verdade que trazem. O resto pode servir de estudo curioso; nossa admirao no deve chegar a isso, principalmente se essa admirao se traduz depois em regras de escola. Ver o mundo atravs de Mlle de La Mole e tomar Mosca como um gnio extraordinrio no compreender nem amar Stendhal. Stendhal grande todas as vezes em que sua admirvel lgica o conduz a um documento humano incontestvel; mas apenas um precioso da lgica quando tortura sua personagem para singulariz-la e torn-la superior. Confesso francamente nesse momento, ento, no poder segui-lo; seus aspectos de mistrio diplomtico, sua ironia pinada, essas portas que ele fecha e atrs das quais s h amide um vazio laborioso irritam-me os nervos. Ele nosso pai como Balzac, trouxe a anlise, foi nico e extraordinrio, mas faltou-lhe a bonomia dos grandes romancistas. A vida mais simples.

GUSTAVE FLAUBERT

O ESCRITOR

I

Quando Madame Bovary apareceu, houve toda una evoluo literria. Parecia que a frmula do romance moderno, dispersa na obra colossal de Balzac, acabava de ser simplificada e claramente enunciada nas quatrocentas pginas de um livro. O cdigo da nova arte estava escrito. Madame Bovary tinha uma clareza e uma perfeio que faziam dele o romance tpico, o modelo definitivo do gnero. Bastava, para cada romancista, seguir a via traada, afirmando seu temperamento particular e procurando fazer descobertas pessoais. verdade, os contistas de segunda ordem continuaram a fabricar dinheiro com suas histrias de fazer dormir em p; os escritores que talharam para si uma especialidade divertindo as damas no abandonaram suas narrativas gua-com-acar. Todavia, todos os principiantes de algum futuro experimentaram um profundo tremor; no h ningum hoje, entre aqueles que cresceram, que no reconhea em Gustave Flaubert ao menos um iniciador. Repito-o, ele trouxe o machado e a luz para a floresta s vezes inextricvel de Balzac. Disse a palavra verdadeira e justa que todos esperavam.

No quero fazer aqui nenhuma comparao entre Balzac e Flaubert. Ainda estamos muito prximos, no temos o distanciamento necessrio; e em todo o caso, os mritos so muito diferentes para que semelhante julgamento possa ser pronunciado sem considerandos muito complicados. Entretanto, ainda que evitando pronunciar-me de outra maneira, sinto-me forado a lembrar quais so os grandes traos caractersticos das obras de Balzac, a fim de melhor explicar o novo mtodo dos romancistas naturalistas.

A primeira caracterstica do romance naturalista, do qual Madame Bovary o tipo, a reproduo exata da vida, a ausncia de todo elemento romanesco. A composio da obra consiste apenas na escolha das cenas e numa certa ordem harmnica dos desenvolvimentos. As cenas so elas prprias as primeiras que chegam: contudo, o autor as selecionou e equilibrou cuidadosamente, de modo a fazer de sua obra um monumento de arte e de cincia. Trata-se da vida real apresentada num quadro admirvel de estilo. Toda inveno extraordinria , portanto, banida da obra. No encontramos mais nela crianas descritas ao nascer, em seguida perdidas, para serem reencontradas no desfecho. No se alude mais a mveis com segredo, papis que servem, no bom momento, para salvar a inocncia perseguida. Falta inclusive qualquer intriga, por mais simples que seja. O romance vai frente dele mesmo, contando as coisas de modo regular, no reservando nenhuma surpresa, oferecendo, quando muito, a matria de uma notcia; e, quando termina, como se deixssemos a rua para entrar em casa. Balzac em suas obras-primas, Eugnia Grandet, Os Pais Pobres, O Pai Goriot, criou, assim, imagens de uma nudez magistral, onde sua imaginao contentou-se em criar o real. Entretanto, antes de chegar a essa preocupao nica com as pinturas exatas, perdeu-se durante muito tempo nas invenes mais singulares, na busca de um terror e de uma grandeza falsos; e pode-se at mesmo dizer que ele nunca se libertou completamente de seu amor pelas aventuras extraordinrias, o que d a uma boa metade de sua obra a atmosfera de um sonho enorme feito francamente por um homem desperto.

Onde a diferena mais fcil de ser apreendida na segunda caracterstica do romance naturalista. Fatalmente, o romancista mata os heris, se s aceita a maneira ordinria da existncia comum. Por heris, entendo as personagens exageradamente ampliadas, os tteres transformados em colossos. Quando nos preocupamos pouco com a lgica, com a relao das coisas entre si, com as propores precisas de todas as partes de uma obra, somos em pouco tempo levados a mostrar fora, a dar todo o sangue e msculos personagem pela qual sentimos ternuras particulares. Da, essas grandes criaes, esses tipos fora do normal, aprumados, e cujos nomes permanecem. Ao contrrio, homens simples se reduzem e se colocam a seu nvel, quando experimentamos a preocupao nica de escrever uma obra verdadeira, ponderada, que seja o termo fiel de uma aventura qualquer. Se se tem o ouvido apurado nessa matria, a primeira pgina d o tom das outras pginas, uma tonalidade harmnica se estabelece, acima da qual no mais permitido elevar-se, sem emitir a mais abominvel das desafinaes. Desejou-se a mediocridade usual da vida e preciso permanecei nela. A beleza da obra no se encontra mais na ampliao de uma personagem, que cessa de ser um avaro, um gluto, um libertino, para se tornar a avareza, a glutonaria, a libertinagem, elas mesmas; ela est na verdade indiscutvel do testemunho humano, na realidade absoluta das pinturas em que todos os detalhes ocupam seu lugar, e nada alm desse lugar. O que incomoda quase sempre nos romances de Balzac o exagero de seus heris; nunca cr faz-los gigantescos o bastante; seus poderosos punhos de criador s sabem forjar gigantes. Na frmula naturalista, essa exuberncia do artista, esse capricho de composio movendo uma personagem de grandeza fora do normal no meio de personagens ans, so forosamente condenados. Semelhante nvel abaixa todas as cabeas, pois so raras as ocasies em que se pode realmente colocar em cena um homem superior.

Insistirei, enfim, sobre uma terceira caracterstica. O romancista naturalista procura desaparecer completamente por trs da ao que narra. Ele o metteur en scne oculto do drama. Nunca se mostra ao fim de uma frase. No o ouvimos nem rir nem chorar com suas personagens, assim como ele no se permite julgar seus atos. inclusive esse desinteresse aparente o trao mais distintivo. Procuraramos em vo uma concluso, uma moralidade, uma lio qualquer extrada dos fatos. No h exposies, esclarecimentos, unicamente fatos, louvveis ou condenveis. O autor no um moralista, mas um anatomista que se contenta em dizer o que encontra no cadver humano. Os leitores concluiro, se quiserem, buscaro a verdadeira moralidade, cuidaro de tirar uma lio do livro. Quanto ao romancista, esse se mantm afastado, sobretudo por razes de arte, para deixar obra sua unidade impessoal, seu carter de termo escrito para sempre sobre o mrmore. Ele pensa que sua prpria emoo incomodaria a de suas personagens, que seu julgamento atenuaria a altiva lio dos fatos. Eis a toda uma nova potica cuja aplicao muda a face do romance. E preciso se reportar aos romances de Balzac, sua contnua interveno na narrativa, a suas reflexes de autor que aparecem em todas as linhas, s moralidades de todos os tipos que ele acredita dever extrair de suas obras. Est incessantemente a, explicando-se diante dos leitores. E no falo das digresses. Alguns de seus romances so uma verdadeira conversao com o pblico, quando comparados aos romances naturalistas desses vinte ltimos anos, de uma composio to severa e to ponderada.

Balzac ainda para ns, repito-o, uma potncia com a qual no se discute. Ele se impe, como Shakespeare, por um sopro criador que engendrou todo um mundo. Suas obras, talhadas a golpes de machado, na maioria das vezes apenas desbastadas, oferecendo a mais surpreendente mistura do sublime e do vil, permanecem, apesar de tudo, o esforo prodigioso do mais vasto crebro deste sculo. Entretanto, sem diminu-lo, posso dizer o que Gustave Flaubert fez do romance depois dele: submeteu-o a regras fixas de observao, liberou-o da falsa nfase das personagens, transformou-o numa obra de arte harmnica, impessoal, vivendo de sua prpria beleza, assim como um belo mrmore. Tal a evoluo realizada pelo autor de Madame Bovary. Aps o desabrochar literrio, a fecunda produo de 1830 achou meios de inventar um gnero e lanar os preceitos de uma escola. Seu papel foi sobretudo falar em nome da perfeio do estilo perfeito da composio perfeita, da obra perfeita, desafiando as idades. Ele parece ter vindo, depois desses anos de fecundidade febril, aps a terrvel avalanche de livros escritos no dia-a-dia, para trazer os escritores ao purismo da forma, busca lenta do trao definitivo, ao livro nico no qual se sustenta toda uma vida de homem.II

Gustave Flaubert nasceu em Rouen. um normando de ombros largos. H nele a criana e o gigante. Vive numa solido quase completa, passando alguns meses do inverno em Paris, trabalhando o resto do tempo numa propriedade que possui perto de Rouen, s margens do Sena. Censuro-me por alguns detalhes ntimos que ora apresento. Gustave Flaubert est por inteiro em seus livros; intil procur-lo alhures. No tem paixo, nem a de colecionar, nem a de caar, nem a de pescar. Escreve seus livros e nada mais. Entrou na literatura como outrora entrava-se para uma ordem, para l experimentar todas as suas alegrias e morrer. Foi assim que se enclausurou, gastando dez anos a escrever um volume, vivendo-o durante todas as horas do dia, trazendo tudo a esse livro, respirando, comendo e bebendo por esse livro. No conheo um homem que merea mais do que ele o ttulo de escritor; deu toda a sua existncia sua arte.

E preciso procur-lo, portanto, unicamente em suas obras. O homem, que vive como burgus, no forneceria nenhuma observao, nenhuma explicao interessante. Os grandes trabalhadores fizeram, em nossos dias, sua existncia mais trivial e mais simples possvel, a fim de regular as horas e consagr-las ao trabalho de manh noite, tudo como comerciantes metdicos. O trabalho em horas fixas a primeira condio das tarefas de longo alento, conduzidas firmemente at o fim.

Gustave Flaubert trabalha como um beneditino. Baseia-se unicamente em anotaes precisas, das quais ele prprio pde verificar a exatido. Se se trata de uma pesquisa em obras especiais, condenar-se- a freqentar por semanas as bibliotecas, at que tenha encontrado a informao desejada. Para escrever, por exemplo, dez pginas, o episdio de um romance em que colocar em cena personagens ocupando-se de agricultura, no recuar diante do incmodo de ler vinte, trinta volumes tratando da matria; alm disso, ir interrogar homens competentes, levar as coisas ao ponto de visitar lavouras, para abordar seu tema apenas com completo conhecimento de causa. Se se trata de uma descrio, dirigir-se- aos locais, e l viver. Assim, para o primeiro captulo de A Educao Sentimental, que tem como quadro a viagem de um barco a vapor subindo o Sena, de Paris a Montereau, margeou o rio em cabriol, pois no se fazia mais o trajeto em barco a vapor j havia muito tempo. Assim, quando escolhe, para introduzir uma cena, um horizonte imaginrio, pe-se em busca desse horizonte tal como o desejou, e s se satisfaz quando descobre um recanto que lhe d aproximadamente a impresso imaginada. E, a cada detalhe, assim uma preocupao contnua com o real. Consulta as gravuras, os jornais da poca, os livros, os homens, as coisas. Cada pgina, para os hbitos, os acontecimentos histricos, as questes tcnicas, o cenrio, custa-lhe jornadas e estudos. Um livro o faz agitar um mundo. Em Madame Bovary, colocou as observaes de sua juventude, os recantos da Normandia e os homens que viu durante seus primeiros trinta anos. Quando escreveu A Educao Sentimental, vasculhou vinte anos de nossa histria poltica e moral, resumiu o enorme material fornecido por toda uma gerao de homens. Enfim, para Salamb e A Tentao de Santo Anto, o trabalho foi ainda mais considervel: viajou pela frica e pelo Oriente, condenou-se a estudar minuciosamente a Antigidade, a sacudir a poeira de vrios sculos.

Essa cincia um dos traos caractersticos do talento de Gustave Flaubert. Parece nada querer dever sua imaginao. Trabalha unicamente sobre o objeto que posa diante dele. Quando escreve, no sacrifica sequer uma palavra pressa do momento; quer se sentir apoiado de todos os lados, apoiar os ps sobre um terreno que conhece em profundidade, avanar como senhor no meio de um pas conquistado. E tamanha probidade literria vem desse desejo ardente de perfeio, que em suma toda a sua personalidade. Recusa um nico erro, por menor que seja. Precisa dizer a si mesmo que sua obra verdadeira, completa, definitiva. Uma mancha torna-o muito infeliz, persegue-o qual remorso, como se cometesse uma m ao. S fica perfeitamente tranqilo quando est convencido da verdade exata de todos os detalhes contidos em sua obra. Trata-se de uma certeza, de uma perfeio na qual repousa. Em todas as coisas, entende dizer a ltima palavra.

Compreendem-se as lentides fatais de semelhante procedimento. Isso explica por que, sendo um trabalhador incansvel, Gustave Flaubert s produziu quatro obras, que apareceram em longos intervalos: Madame Bovary, em 1856; Salamb, em 1862; A Educao Sentimental, em 1869; A Tentao de Santo Anto em 187l. Trabalhou nessa ltima obra durante vinte anos, abandonando-a, retomando-a, no conseguindo se satisfazer, forando a conscincia at refazer quatro ou cinco vezes trechos inteiros.

Quanto a seu trabalho de estilo, igualmente laborioso. Sempre hesito em me inclinar sobre os ombros de um escritor para surpreender sua criao. Entretanto, h revelaes instrutivas, que so do domnio da histria literria. Gustave Flaubert, antes de escrever a primeira palavra de um livro, tem, em anotaes classificadas e etiquetadas, o equivalente a cinco ou seis volumes. Com freqncia, toda uma pgina de informaes d-lhe apenas uma linha. Trabalha sobre um plano estudado com muita ponderao e decidido em todas as suas partes, de um mundo muito detalhado. Quanto ao resto, ao prprio mtodo de redao, creio que ele redige de uma s vez, e relativamente bem rpido, um certo nmero de pginas, um trecho completo; em seguida, volta s palavras deixadas em branco nas frases pouco felizes; e ento que se retarda sobre as negligncias mais insignificantes, insistindo sobre certos aspectos, aplicando-se a procurar a expresso que escapa. O primeiro esboo apenas uma espcie de rascunho, sobre o qual trabalha em seguida durante semanas. Quer que a pgina saia de suas mos como uma pgina de mrmore gravada para sempre de uma pureza absoluta, mantendo-se firme por si mesma durante sculos. Esse o sonho, o tormento, a necessidade que o faz discutir longamente cada vrgula; durante meses, um termo imprprio o ocupa, at que tenha a alegria vitoriosa de substitu-lo pela palavra certa.

Chego ao estilo de Gustave Flaubert. um dos mais castigados que conheo; no que o autor tenha absolutamente a aparncia clssica, fixada numa correo gramaticalmente estreita; mas ele se preocupa, conforme j disse, ate com as vrgulas, emprega jornadas, se for preciso, sobre uma pagina, para obt-la tal como a imaginou. Persegue as palavras repetidas at trinta ou quarenta linhas de distncia. Enfrenta uma dificuldade infinita para evitar as consonncias incmodas, as reduplicaes de slabas que oferecem alguma dureza. Sobretudo, proscreve as rimas, os retornos de fim de frase que proporcionem o mesmo som; nada lhe parece estragar tanto uma obra de estilo. Com freqncia ouvi-o dizer que uma pgina de bela prosa era duas vezes mais difcil de escrever do que uma pgina de belos versos. A prosa possui, por si mesma, uma suavidade de contornos, uma fluidez que a torna muito difcil de escoar num molde slido. Ele a desejaria dura como o bronze, resplandecente como o ouro. Com Gustave Flaubert, sempre retornamos a uma idia de imortalidade, ambio poderosa de fazer eternamente. E s ele pode se aventurar nessa luta corpo a corpo com uma lngua suave que sempre ameaa escorrer entre seus dedos. Conheo jovens que, levando essa busca da prosa marmrea at a monomania, chegaram a ter medo da lngua. As palavras os apavoram, no sabem mais quais empregar, e recuam diante de todas as expresses; fazem-se poticas estranhas que excluem isso e aquilo; so de uma severidade exagerada sobre certas tournures, sem se dar conta de que caem, por outro lado, nas negligncias mais lamentveis. Essa tenso contnua do esprito, essa vigilncia severa sobre todos os erros da pena, acabam, nos espritos estreitos, por esterilizar a produo e estancar o desenvolvimento da personalidade. Gustave Flaubert, que, nisso, um modelo bem perigoso a seguir, ganhou a sua elevada posio de escritor impecvel. Seu sonho deve ter sido certamente o de escrever um nico livro em sua vida. ele o teria refeito incessantemente, melhorado sem pausa, s teria decidido entreg-lo ao pblico em seu ltimo momento, quando, tendo a pena cado de seus dedos, no teria mais foras para refaz-lo. Ele, s vezes, o repete: um homem s tem um livro em si.

A qualidade mestra de Gustave Flaubert, com semelhante trabalho, naturalmente a sobriedade. Todos os seus esforos so para ser sucinto e completo. Numa paisagem, contentar-se- em indicar a linha e a cor principais; todavia, desejar que essa linha desenhe, que essa cor pinte a paisagem por inteiro. O mesmo com suas personagens: cria-as com uma palavra, com um gesto. Quanto mais avana, mais se pe a algebrizar de algum modo suas frmulas literrias. Procura escamotear as aes secundrias, vai de um extremo ao outro de um livro sem retornar sobre si mesmo. Alm disso, como se desinteressa, nunca intervm pessoalmente, recusa-se a deixar transparecer sua emoo, cuida para que seu estilo caminhe sempre com um passo rtmico, sem um tremor, to claro em todos os lugares como um espelho, refletindo com clareza seu pensamento. Essa comparao com o espelho muito correta, pois sua ambio certamente encontrar uma forma de cristal, mostrando atrs dela os seres e as coisas, tais como seu esprito as concebeu. Some-se a isso que Gustave Flaubert no tem s esse desejo de clareza. Ele quer o sopro. Possui esse vento poderoso que vai da primeira palavra de uma obra ltima, fazendo ouvir, em cada linha, o rumor extraordinrio dos grandes estilos. A forma lmpida, seca e brusca do sculo XVIII no absolutamente seu mister. Com a clareza, tem necessidade imperiosa da cor, do movimento e da vida. Tocamos aqui a personalidade do romancista, o prprio segredo de seu talento e da nova frmula que ele introduziu.

Gustave Flaubert nasceu em pleno perodo romntico. Tinha quinze anos no momento dos grandes sucessos de Victor Hugo. Toda a sua juventude foi animada pelo esplendor da pliade de 1830. E conservou diante de si como que uma chama lrica da poca de poesia que atravessou. Deve inclusive haver em suas gavetas, se os conservou, numerosos versos em que sem dvida difcil reconhecer o prosador exato e minucioso de A Educao Sentimental. Mais tarde, nessa hora em que se olha para si e em torno de si, compreendeu qual era sua originalidade, tornou-se um grande romancista, um pintor implacvel da estupidez e da vilania humanas. Mas a dualidade permaneceu nele. O lrico no morreu; tornou-se, ao contrrio, todo-poderoso, vivendo lado a lado com o romancista, exigindo s vezes seus direitos, bastante sbio, entretanto, para saber falar na hora certa. dessa dupla natureza, dessa necessidade de ardente poesia e de fria observao que brotou o talento original de Gustave Flaubert. Eu o caracterizarei definindo-o: um poeta que tem o sangue-frio de ver corretamente.

Seria preciso descer mais fundo ainda no mecanismo desse temperamento. Gustave Flaubert s tem um dio, o dio da estupidez; mas um dio slido. Escreveu seus romances certamente para satisfaz-lo. Os imbecis so para ele inimigos pessoais que procura confundir. Cada um de seus livros realiza um aborto humano. Quando muito, mostra-se, s vezes, afvel a uma mulher; ama a mulher, coloca-a parte com uma espcie de ternura paternal. Quando fixa sua lupa sobre uma personagem, no negligencia uma verruga sequer, procura as mnimas feridas, detm-se nas enfermidades entrevistas. Durante anos condena-se a ver o feio, assim, de bem perto, a viver com ele, unicamente pelo prazer de pint-lo e ultraj-lo, exibi-lo em zombaria aos olhos de todos. E, apesar de sua vingana satisfeita, apesar da alegria que experimenta em imobilizar o feio e o estpido em suas obras, talvez haja a uma abominvel corvia, bem pesada para seus ombros; pois o lrico que se encontra nele, o outro ele prprio, chora de desgosto e tristeza por ser assim arrastado, as asas cortadas, na lama da vida, no meio de uma multido de burgueses estpidos e aturdidos. Quando o autor escreve Madame Bovary ou A Educao Sentimental, o lrico se desola da pequenez das personagens, da dificuldade que existe em fazer algo de grande com esses simplrios ridculos; e ele se contenta em introduzir aqui e acol uma palavra de flama, uma frase que ala vo amplamente. Depois, outras vezes, em certas horas fatais, o romancista naturalista consente em passar ao segundo plano. A ento, so escapadas esplndidas rumo aos pases da luz e da poesia. O autor escreve Salamb ou A Tentao de Santo Anto; encontra-se em plena Antigidade, em plena arqueologia da arte, longe do mundo moderno, de nossas vestes cerradas, de nossas ferrovias e de nosso cu cinzento, que ele abomina. Suas mos remexem tecidos de prpura e colares de ouro. No tem mais medo do grandioso, no vigia mais sua frase, por temor de que ela coloque na boca de um farmacutico de aldeia as imagens expressivas de um poeta oriental. Entretanto, ao lado do lrico, o romancista naturalista permanece de p, e ele que segura a rdea, exige a verdade, mesmo por trs da ofuscao.

Compreende-se, ento, a originalidade do estilo de Gustave Flaubert to sbrio e to resplandecente Ele feito de imagens corretas e imagens extraordinrias. verdade vestida por um poeta. Com ele, caminhamos sempre em terreno slido, sentimo-nos sobre a terra; mas caminhamos amplamente, no ritmo de uma beleza perfeita. Quando desce familiaridade mais vulgar, por necessidade de exatido, conserva no sei que nobreza que pe perfeio nas negligncias desejadas. Sempre, ao segui-lo no meio de aventuras banais, sentimos o escritor e o poeta ao nosso lado; , ao final de um pargrafo, no meio de uma pgina, uma frase, uma nica palavra, algumas vezes, que lana um claro, provoca bruscamente o estremecimento do grande. E, por sinal, nada feio nessa contnua pintura da feira humana. Pode-se at ser trivial, o quadro sempre ter a beleza do estilo. Basta que um grande artista tenha desejado isso. Eu disse que Gustave Flaubert havia trazido o machado floresta amide inextricvel de Balzac, para l cortar uma ampla avenida onde se pudesse enxergar com clareza. Acrescentarei que ele resumiu em sua frmula os dois gnios de 1830, a anlise exata de Balzac e o brilho de estilo de Victor Hugo.

III

Passo s obras de Gustave Flaubert e agrupo-as naturalmente duas a duas: Madame Bovary e A Educao Sentimental, Salamb e A Tentao de Santo Anto, sem me preocupar com a ordem de publicao.

J o disse, a publicao de Madame Bovary foi um acontecimento considervel. O tema do livro, a intriga portanto, era dos menos romanescos. Sustenta-se facilmente em trinta linhas. Charles Bovary, um mdico de provncia medocre, aps um primeiro casamento , desposa uma filha de fazendeiro, Emma, que recebeu uma educao acima de sua classe; ela uma dama, toca piano, l romances. O casal vai viver em Yonville, burgo a alguns quilmetros de Rouen. L, Mme Bovary assaltada pelo terrvel tdio das mulheres deslocadas. Ela percebe que pobre homem seu marido, sofre com a vida cinzenta de provncia, possui aspiraes vagas, extraordinrias. Sem dvida, o adultrio encontra-se ao final. Entretanto, ela luta; ama inicialmente um jovem, Lon Dupuis, o escrevente do notrio de Yonville; ama-o discretamente, sem sequer sonhar com a infidelidade. somente mais tarde, quando Lon parte, que ela se entrega bruscamente a outro homem, Rodolphe Boulanger, um proprietrio das cercanias. Torna-se insana; sente-se gloriosa e vingada; faz-se to exigente, to embaraosa, imaginando uma fuga com o amante, sonhando com aventuras, com amores eternos, que Rodolphe, aterrorizado em seu egosmo, abandona-a. Sua queda iminente; arrasta-se, padece o martrio de suas ternuras, tenta inutilmente a religio at o dia em que reencontra Lon em Rouen. Este, fatalmente, assume o lugar de Rodolphe, e o adultrio recomea, mais ardente, abrasado por uma nova sensualidade. Tudo se passa dessa maneira at que Lon, por sua vez, fica apavorado e saciado. Todavia, Emma contraiu dvidas; quando abandonada pelo amante, por todos, apanha um punhado de arsnico no bocal de um farmacutico e ingere-o. Seu pobre marido chora por ela. Mais tarde, toma conhecimento de suas licenciosidades, mas no deixa de chorar. Certa manh, encontra Rodolphe, vai beber uma garrafa de cerveja com ele e lhe diz: "No desejo mal a voc". E tudo. Isso, num jornal, daria dez linhas de noticia. Mas preciso ler a obra, toda palpitante de vida. H trechos celebres, trechos que se tornaram clssicos: o casamento de Emma com Charles, a cena dos comcios agrcolas, durante os quais Rodolphe corteja a jovem mulher, a morte e o enterro de Mme Bovary, de to terrvel verdade. Toda a obra, por sinal, at os mnimos incidentes, de um interesse pungente, um interesse novo, desconhecido at ento, o interesse pelo real, pelo drama de todos os dias. Isso atinge o mago com uma fora invencvel, como um espetculo visualizado, uma ao que se passa materialmente sob os olhos. Os fatos, vocs assistiram vinte vezes a eles; as personagens, elas so conhecidas de vocs. Vocs esto em casa, nessa obra, e tudo o que nela se passa uma pendncia do meio que os cerca. Da, a profunda emoo. Deve-se acrescentar a arte prodigiosa do escritor. Em todos os lugares o tom de uma exatido absoluta. uma mise en scne contnua da ao, tal como deve se passar, sem desvio de imaginao, sem inveno de nenhum tipo. O movimento, a cor, chegam a fazer iluso. O escritor realiza este prodgio: desaparecer completamente e, contudo, fazer sentir em todos os lugares sua grande arte.

A personagem Mme Bovary, o tipo certamente visto e copiado por Gustave Flaubert, eternizou-se nesse mundo particular onde se agitam as grandes figuras da criao humana. Diz-se: " uma Bovary" como se comeou a dizer no sculo XVII: " um Tartufo". Isso provm do fato de que Mme Bovary, to individual, vivendo to ardentemente sua prpria vida, um tipo geral. Encontramo-la em todos os lugares na Frana, em todas as classes, em todos os meios. Ela a mulher deslocada, descontente com seu destino, mimada por um sentimentalismo vago, desviada de seu papel de me e esposa. ainda a mulher forosamente votada ao adultrio. Enfim, ela o prprio adultrio, a infidelidade inicialmente tmida, potica, em seguida triunfante, crescente. Gustave Flaubert aplicou-se a no esquecer um trao dessa personagem; toma-a desde a infncia, estuda suas primeiras sensualidades, mostra seus orgulhos a voltar-se contra ela; e quantas circunstncias atenuantes, em suma, como se sente que o autor explica e perdoa! Todos, em torno de Emma, so to culpados quanto ela. Ela morre pela estupidez circundante. Na realidade, entretanto, o drama nem sempre vem esclarecer esses tipos de histrias; o adultrio, quase sempre, morre em sua cama, de morte tranqila e natural.

A personagem Charles talvez seja de uma execuo ainda mais surpreendente. preciso ser do ofcio para saber que dificuldade h em erigir, em plena claridade, um heri imbecil. A nulidade, por si mesma, permanece cinzenta, neutra, sem nenhuma expresso. Ora, esse pobre homem, Charles, tem uma proeminncia incrvel. Enche o livro com sua mediocridade; vemo-lo em cada pgina pobre mdico, pobre marido, pobre e malfadado em todas as coisas. E isso, sem nenhum exagero grotesco. Permanece muito verdadeiro e em seu plano. inclusive simptico esse infeliz. Chega-se a sentir por ele piedade e ternura. apenas estpido, enquanto os dois amantes de Emma, Rodolphe e Lon, so de uma verdade de egosmo assustadora. Eis o amor tal como o autor o viu, eis a juventude, o desejo, a oportunidade, tudo o que leva ao adultrio nove em dez vezes. Quantos homens, se fossem francos, confessariam que tiveram em sua vida uma ou duas Emmas? Tudo, nessas duas ligaes que se seguem, banal e extraordinrio; um documento humano de uma verdade universal, uma pgina arrancada da histria de nossa sociedade. Esse Rodolphe, esse Lon, o homem, a mdia do homem, se preferirem. Nossa nova escola literria, cansada dos heris e de suas mentiras, percebeu que bastava ela se rebaixar, despir o primeiro passante para criar o terrvel e o grande. No conheo nada maior, declaro-o, do que Rodolphe deliberando se dormir ou no com Emma, depois abandonando-a l, num dia de saciedade; ou ainda Lon, o amante tmido dos primeiros captulos, herdando do outro, fartando-se de volpia, at o dia em que o medo de comprometer seu futuro e de um pedido de dinheiro fazem dele um homem srio. Da mesma forma, que frase assustadora e comovente essa de Bovary a Rodolphe, aps a morte de sua mulher: "No desejo mal a voc". Eis a o pobre homem por inteiro. No existe, em nossa literatura, uma frase de semelhante profundidade, abrindo tal abismo sobre as covardias e as ternuras do corao humano. A aceitao franca dos fatos tais como se passam e o relevo exato dado a cada detalhe, eis o segredo do encanto vigoroso dessa obra, bem mais comovente do que todas as fices imaginveis.

Infelizmente, tenho pouco espao a dar para cada romance. Permaneo forosamente incompleto. Tais livros so mundos. H, em Madame Bovary, uma srie de personagens secundrias inesquecveis: um vigrio de aldeia que resume as vulgaridades do padre que adormece no ofcio do sacerdcio; manacos de provncia levando existncias de moluscos; uma sociedade extraordinria, curiosa para se estudar como uma famlia de bicho-de-conta e de baratas. Mas a figura que mais se destaca a do farmacutico. Homais, uma encarnao de nosso Joseph Prudhomme. Homais a eminncia provincial, a cincia de canto, a estupidez satisfeita de todo um pas. Com isso progressista, livre-pensador, inimigo dos jesutas. D a seus filhos nomes clebres, Napoleo e Atlia. Publicou uma brochura: Da Cidra, de Sua Fabricao e de Seus Efeitos, seguido de Algumas Novas Reflexes sobre Este Tema. Escreve em Le Fanal de Rouen. O tipo completo, a tal ponto que o nome de Homais entrou para a lngua; caracteriza uma certa classe de parvos. No que me concerne, no posso entrar numa farmcia de aldeia sem procurar atrs do balco o majestoso Homais, em pantufas, de barrete grego, manipulando suas drogas com a gravidade complacente de um homem que conhece seus nomes em latim ou em grego.

No grande pblico, um incidente deu a Madame Bovary uma repercusso extraordinria. O Ministrio Pblico ousou processar o autor sob a acusao de ultraje moral pblica e religio. Encontrvamo-nos ento no grande puritanismo dos primeiros anos do Imprio. Devo absolutamente dizer algumas palavras sobre esse processo, que pertence nossa histria literria. O burburinho dos debates encheu os jornais; e Gustave Flaubert saiu dessa provocao aclamado, popular, reconhecido como chefe de escola. Eis um dos belos atos da justia. O requisitrio do advogado imperial, Ernest Pinard, um documento muito curioso. Gustave Flaubert publicou-o na ltima edio de seu romance, e hoje difcil l-lo sem uma profunda surpresa. Uma obra-prima de nossa lngua nele tratado como uma ao nociva; o advogado imperial faz dela uma crtica cmica e lamentvel, atacando as pginas mais belas, chafurdando na arte como magistrado aturdido, emitindo em literatura idias violentas que deveria ter conservado para os casos de roubo e assassinato. Nada mais desastroso que um homem rgido, que acredita ter como misso ir em socorro dos bons costumes, que ningum pensa ameaar. Ernest Pinard, que mais tarde desempenhou um papel poltico bastante pobre, mostrou-se nesse caso para sempre ridculo. A posteridade s conhecer dele uma coisa, que tentou suprimir de nossa literatura uma das obras mestras deste sculo. Gustave Flaubert, aps uma extraordinria defesa de Senard, foi absolvido. A arte saa triunfante dessa agresso. Todavia, ainda que absolvendo, a sexta cmara do tribunal correcional de Paris achou-se no dever de dar sua opinio sobre o naturalismo e o romance moderno. Eis um dos considerandos do julgamento:

Visto que no permitido, sob pretexto de pintura de carter ou de cor local, reproduzir em suas digresses os fatos, ditos e gestos das personagens que um escritor se deu por misso pintar; que um semelhante sistema, aplicado s obras do esprito assim como s produes das belas-artes, conduziria a um realismo que seria a negao do belo e do bom, e que, criando obras igualmente ofensivas para as vistas e para o esprito, cometeria contnuos ultrajes moral pblica e aos bons costumes...

Eis, portanto, o realismo condenado por uma cmara correcional. Graas a Deus, toda a nossa gerao de escritores passou longe! Avanou-se cada vez mais a fundo na busca do real, na anlise do homem, na pintura das paixes. As sentenas de um tribunal no sustam o avano do pensamento.

Retardei-me em Madame Bovary, darei menos espao Educao Sentimental. Nesse segundo romance, Gustave Flaubert ampliava seu quadro. A obra j no era somente a vida de uma mulher e no se passava mais num recanto da Normandia. O autor pintava toda uma gerao e abarcava um perodo histrico de doze anos, de 1840 a 1852. Por quadro, tomava a agonia lenta e inquieta da Monarquia de Julho, a existncia febril da Repblica de 1848, que interrompiam os tiroteios de fevereiro, de junho e de dezembro. Nesse cenrio, colocava as personagens que havia conhecido durante sua juventude, as prprias personagens da poca, toda uma multido indo, vindo, vivendo a vida da poca. A obra o nico romance realmente histrico que conheo, o nico verdico, exato, completo no qual a ressurreio dos momentos passados absoluta, sem nenhum artifcio.

Para quem conhece o cuidado que Gustave Flaubert d ao estudo dos mnimos detalhes, semelhante tentativa era colossal. Mas o plano do livro tornava a tarefa ainda mais difcil. Gustave Flaubert recusava toda efabulao romanesca e central. Queria a vida no dia-a-dia, tal como se apresenta, com sua seqncia contnua de pequenos incidentes vulgares, que acabam por fazer deles um drama complicado e temvel. Nada de episdios preparados longamente, mas a aparente desordem dos fatos, a rotina banal dos eventos, as personagens se encontrando, em seguida se perdendo de vista e se reencontrando novamente, at que tenham dito sua ltima palavra: nada alm de imagens de passantes se esbarrando numa calada. Essa uma das concepes mais originais, mais audaciosas, mais difceis de realizar j tentadas em nossa literatura, qual no falta, entretanto, ousadia. E Gustave Flaubert conduziu seu projeto amplamente at o fim, com essa unidade magistral, essa vontade na execuo que fazem sua fora.

No tudo. A maior dificuldade que A Educao Sentimental oferecia provinha da escolha das personagens. Gustave Flaubert quis pintar a o que ele teve sob os olhos nos anos dos quais fala, o contnuo aborto humano, o recomeo infindvel da estupidez. O verdadeiro ttulo do livro era: Os Frutos Secos. Todas as suas personagens se agitam no vazio, giram como cataventos, trocam a presa pela sombra, reduzem-se em cada nova aventura, marcham para o nada: sangrenta stira, no fundo pintura terrvel de uma sociedade apavorada, pervertida, vivendo o dia-a-dia; livro formidvel no qual a mediocridade pica, a humanidade assume uma importncia de formigueiro, o feio, o cinzento, o pequeno dominam e se exibem. um templo de mrmore magnfico erigido impotncia. De todas as obras de Gustave Flaubert, essa certamente a mais pessoal, a mais vastamente concebida, aquela que lhe deu mais trabalho e que permanecer por muito tempo a menos compreendida.

A anlise de A Educao Sentimental impossvel. Seria preciso seguir a ao pgina a pgina; nela s h fatos e imagens. Entretanto, posso explicar em algumas linhas o que deu ao autor a idia do ttulo, desagradvel, por sinal. Seu herise que h heri , um jovem, Frdric Moreau, uma natureza indecisa e fraca, que descobre grandes apetites sem ter vontade bastante forte para satisfaz-los. Quatro mulheres trabalham para sua educao sentimental: uma mulher honesta e casada que ele vai justamente escolher para perder a seus ps as primeiras energias de sua vida; uma moa que no consegue content-lo, na alcova da qual deixa sua virilidade; uma grande dama, um sonho de vaidade, do qual desperta com desgosto e desprezo; uma provinciana, uma pequena selvagem precoce, a fantasia do livro, que um de seus amigos lhe tira quase dos braos. E quando os quatro amores, o verdadeiro, o sensual, o vaidoso, o instintivo, tentaram em vo fazer dele um homem, ele se encontra, numa noite, velho, sentado perto da lareira com seu camarada de infncia Deslauriers. Este ambicionou o poder, sem conquist-lo mais do que Frdric conquistou uma ternura feliz. Ento os dois, lamentando a juventude perdida, recordam-se, como o melhor de seus dias, de uma tarde de primavera em que, saindo juntos para ver as garotas, no ousaram absolutamente ultrapassar a soleira da porta. O lamento do desejo e dos pudores dos dezesseis anos, tal a concluso dessa educao do amor.

Mal me permitido, na multido das personagens, indicar algumas silhuetas: Arnoux, o fazedor da poca, sucessivamente marchand de quadros, fabricante de faiana e vendedor de objetos religiosos, um provenal louro, mentiroso, encantador, enganando sua mulher com enternecimento, deslizando para a runa no meio dos projetos de especulao mais engenhosos; Dambreuse, grande proprietrio, banqueiro e poltico, que resume em si todas as habilidades e todas as covardias do dinheiro; Martinon, o triunfo da imbecilidade, a nulidade pretensiosa e plida, o futuro senador pouco escrupuloso que dorme com as tias para desposar as sobrinhas; Regimbart, o poltico em casa, uma figura grotesca e inquietante do senhor em grande palet, sado no se sabe de onde, circulando nos mesmos cafs s mesmas horas, arrastando um mau humor taciturno, que adquiriu uma reputao de homem profundo e muito poderoso pelas trs ou quatro nicas frases que ele s vezes pronuncia sobre a situao do pas. Sou obrigado a me limitar. E quantas cenas, quantos quadros acabados, pintando uma poca, com sua arte, sua poltica, seus costumes, seus prazeres, suas vergonhas! H soires no grande mundo e no semimundo, almoos de amigos, um duelo, uma ida s compras, um clube de 1818, as barricadas, a luta nas ruas, a tomada das Tulherias, um adorvel episdio de amor na Floresta de Fontainebleau, interiores burgueses de uma finura requintada, toda a vida de um povo.

em A Educao Sentimental que Gustave Flaubert, at o momento, afirmou com maior parti pris a frmula literria que ele introduz. A negao do romanesco na intriga, a reduo dos heris estatura humana, as justas propores observadas nos mnimos detalhes, toda a sua originalidade alcana a um grau extremo de energia. Estou certo de que essa obra aquela que lhe custou o maior esforo, pois nunca ele se aprofundou mais no estudo da feia humanidade, e nunca o lrico que existe nele teve que se lamentar e chorar mais amargamente. Nessa longa obra, a mais longa que escreveu, no h renncia de uma pgina. Segue imperturbavelmente seu caminho, qualquer que seja o incmodo da tarefa, no procedendo como Balzac, por trechos de anlise ponderada, nos quais o autor pode ainda se aliviar, mas por narrativas sempre dramatizadas, sempre encenadas. Ele foi com certeza to impiedoso consigo mesmo quanto em relao ao mundo imbecil que pintou.

IV

Abordo agora Salamb e A Tentao de Santo Anto, os dois vos de Gustave Flaubert acima das feiras do mundo burgus, a escapada esplndida do lrico, do colorista ardente, feliz enfim de estar em seu verdadeiro pas de luz, de perfume, de tecidos resplandecentes. Gustave Flaubert um oriental deslocado. Sentimo-lo aliviado, respirando livremente, to logo pode se mostrar vigoroso e livre sem mentir. As obras caras a seu corao, aquelas que ele deve ter escrito sem fadiga, apesar das imensas pesquisas que elas lhe custaram, so com toda certeza Salamb e A Tentao de Santo Anto.

Numa carta que escreveu a Sainte-Beuve, d uma indicao preciosa em relao primeira dessas obras. "Eu quis fixar uma miragem", diz ele, "ao aplicar Antigidade os procedimentos do romance moderno". O desenvolvimento da obra, com efeito, como em Madame Bovary, consiste numa srie de quadros, episdios em que as personagens pintam a si mesmas por suas palavras e suas aes. Todavia, o estudo do meio avana ainda mais, o drama se reduz um pouco no meio da magnificncia do quadro, as descries se estendem e deixam menos lugar anlise. Trata-se sempre da humanidade estudada at o mago, mas um canto de humanidade estranha, agitando-se numa civilizao cuja pintura devia fatalmente tentar um pintor tal como Gustave Flaubert.

No h, em nossa literatura, um comeo comparvel ao primeiro captulo de Salamb. E um deslumbramento. Os mercenrios celebram com um festim, nos jardins de Amlcar, o aniversrio da Batalha de Erix. A rudeza e a glutonaria dos soldados, o esplendor da mesa, as iguarias estranhas, o cenrio do jardim, com o palcio de mrmore ao fundo ostentando seus quatro andares de terraos, adquirem um esplendor extraordinrio nesse estilo vigoroso e expressivo, em que cada palavra possui a exatido do tom desejado. a que Salamb aparece, descendo a escadaria do palcio, vindo chorar pelos peixes sagrados que os mercenrios mataram nos viveiros. tambm a que comea a rivalidade ciumenta do lbio Math e do chefe nmida Narr'Havas, ambos perdidamente apaixonados pela filha de Amlcar.

Cartago, enfraquecida, tem medo dos mercenrios que a ajudaram nas ltimas guerras; ela no pode pag-los e no sabe como se livrar deles. Amlcar, seu chefe, desapareceu. Aps o festim que abre o livro, Cartago envia-os a Sica, fechando suas portas sobre eles. E nesse momento que Spendius, um escravo grego que Math libertou, lana os mercenrios contra a cidade, por vingana. Serve ao mesmo tempo a paixo do lbio, que Salamb enlouqueceu; ele o faz entrar em Cartago, seguindo o canal de um aqueduto, em seguida incita a roubar o manto sagrado de Tanit, o zainfe que torna invencvel. Math, envolto no zainfe, rev Salamb; ela o rejeita, o amaldioa, e ele atravessa a cidade coberto com o manto, protegido por ele, no meio dos habitantes que vem partir sua fortuna. Os mercenrios vencem o sufeta Hanon, a Repblica vai perecer, quando reaparece Amlcar. Ele vence os soldados revoltados na Batalha do Macar, move campanha contra eles. Mas talvez seus esforos permanecessem vos se Salamb, pressionada por Schahabarim, o grande sacerdote eunuco de Tanit, no fosse se entregar a Math em sua tenda; enquanto ele dorme, ela se levanta e foge com o zainfe. Entretanto, Spendius ainda coloca Cartago bem perto da runa ao cortar o aqueduto, privando assim a cidade de gua. H a um episdio extraordinrio, o sacrifcio humano a Moloque para acalmar o deus; vm exigir a Amlcar seu filho Anbal, que ele cria secretamente e que consegue salvar. Felizmente, cai a chuva, Narr'Havas trai Math com o qual havia feito aliana, Cartago reabastecida e salva. No desfecho, Amlcar prende os mercenrios no desfiladeiro da Hache e l os deixa morrer de fome; agonia apavorante de um exrcito, um dos trechos mais maravilhosos do livro. Math, feito prisioneiro, condenado a atravessar a cidade, nu, as mos atadas atrs das costas, sob os golpes dos habitantes perfilados em sua passagem, e vem, horrvel, sangrando, a carne dilacerada, expirar aos ps de Salamb, qual Narr'Havas triunfante estende a taa dos esponsais. Salamb cai lvida, enrijecida, os lbios abertos. "Assim morre a filha de Amlcar por ter tocado no manto de Tanit."

Essa figura de Salamb a estranheza do livro. Na carta da qual falei, Gustave Flaubert escreve a Sainte-Beuve, que o criticava por ter refeito uma Mme Bovary cartaginesa: "Claro que no! Mme Bovary agitada por paixes mltiplas; Salamb, ao contrrio, permanece imobilizada pela idia fixa. uma manaca, uma espcie de Santa Teresa". E foi muito bem dito. Salamb, com efeito, s tem uma atitude; vemo-la no seu terrao, as mos erguidas para a Lua, essa Tanit que ela adora. Se ela vai se entregar a Math, pelos conselhos de Schahabarim, esse grande sacerdote eunuco que a empurra a isso, com o pesar vago de sua virilidade. Ela entende salvar seu pas e seus deuses, nada mais. O desejo no faz absolutamente parte de seu ato; ela apenas compreende. Mais tarde, fiel quele que a possuiu. atormentada por sua lembrana, sente-se pertencente a ele e morre sobre seu cadver, de horror e desespero, escapando, assim, do abrao de Narr'Havas. Essa criao permanece, portanto, como o tipo do misticismo pago, da fatalidade e da eternidade na idia do amor. Ela pertence a quem a tomou. S abandona a adorao de Tanit para permanecer marcada pelo primeiro beijo recebido; no desejou esse beijo, mas ele ser o primeiro e o ltimo, e morrer por causa dele. Por sinal, Gustave Flaubert confessa que essa criao lhe pertence exclusivamente. "No estou certo de sua realidade, pois nem voc, nem eu, nem ningum, nenhum antigo e nenhum moderno pode conhecer a mulher oriental, pela simples razo de que impossvel freqent-la."

As outras personagens, da mesma forma, tm apenas uma atitude. Math um bruto, entregue ao seu amor; todo agitado, todo cegado por seu desejo, e todos os seus atos dizem respeito a isso. Spendius tem a astcia flexvel do grego; permanece cheio de expedientes e de rancor secreto. Amlcar uma nobre figura, um pouco sombria; Narr'Havas s passa; o sufeta Hanon contaminado pela lepra, e oferece um dos retratos mais originais do livro, covarde, cruel, vil. Sainte-Beuve, que censurou em Gustave Flaubert o carter complexo de seus brbaros, leu realmente o livro com olhos estranhos. Acho, ao contrrio, as personagens construdas de um s bloco, agindo por seus instintos, tendo um nico objetivo. No estamos mais nas mil insignificncias da anlise e do mundo moderno. Math, fulminado de amor primeira pgina, permanece estpido por todo o volume e morre disso ao final. Os outros tm motivos semelhantes que os lanam de uma s vez satisfao de seus apetites. Por sinal, no temos mais a estudo seguido sobre os diferentes estados da alma de uma personagem ou de vrias. A obra o vasto quadro de uma situao psicolgica e fisiolgica quase nica. No existe a somente a anlise das perturbaes que a aproximao do homem produziu em Salamb. Gustave Flaubert, tendo que criar suas figuras segundo os documentos que pesquisou, esforou-se por comp-las o mais simplesmente possvel, apenas tratando de dar a cada uma delas uma individualidade que a impedisse de degenerar no tipo geral.

E quantas cenas magnficas, quantas descries prodigiosas! Citei o festim; acrescentarei as invocaes de Salamb, branca sob a lua; a visita ao templo de Tanit por Math e Spendius, quando vo roubar o zainfe; a descida de Amlcar aos subterrneos onde esconde seus tesouros; a Batalha de Macar, na qual h uma carga de elefantes tornada clebre; a cena da tenda, Salamb caindo nos braos do lbio; o sacrifcio a Moloque; a agonia dos mercenrios no desfiladeiro de Hache; enfim, a corrida louca de Math perseguido pelos golpes de toda uma cidade, vendo apenas Salamb, vindo agonizar a seus ps.

Esses quadros no so tratados com a embriaguez lrica que Victor Hugo teria a colocado. J o disse, Gustave Flaubert permanece o homem exato, mestre de cada cor que emprega. Ele d, assim, uma solidez de brilho sem igual a tudo aquilo que pinta. O ouro, as jias, os mantos de prpura, os mrmores jorram, sem que haja acumulao; os fatos extraordinrios, alias de lees crucificados, o sufeta Hanon molhando as mos no sangue dos prisioneiros degolados para curar sua lepra, a serpente se enrolando em torno dos membros nus e adorveis de Salamb, todo um exrcito morrendo de fome, colocam-se em seus lugares por si mesmos e no destoam absolutamente. A obra de um tecido compacto, de uma arte infinita, de uma correo admirvel. E deduzimos esboos muito estudados, um terreno admiravelmente conhecido do autor. Quando de seu aparecimento, Salamb foi atacado por um Froehner, um alemo creio, que contestou a exatido da maioria dos detalhes. Gustave Flaubert se irritou, dizendo com razo que entregava crtica o lado literrio, mas que entendia defender a parte histrica e de pura cincia. Ento, citou todas as suas fontes. A lista era estarrecedora. Remexeu a Antigidade inteira, os autores gregos, os autores latinos, tudo o que de perto ou de longe diz respeito a Cartago. Dedicou o mesmo cuidado, a mesma mincia para reconstruir essa civilizao morta quanto a descrever, em A Educao Sentimental, as jornadas de fevereiro, em 1848, das quais pde acompanhar as peripcias com seus prprios olhos.

A Tentao de Santo Anto o ltimo livro publicado por Gustave Flaubert. E o mais estranho e o mais deslumbrante de seus trabalhos. Gastou vinte anos de pesquisas, de retoques, de conscincia e de talento. Vou procurar, numa breve anlise, dar uma idia dessa obra.

Santo Anto se encontra na soleira da porta de sua cabana, no alto de uma montanha, na Tebaida. A tarde finda. O eremita est cansado de um dia de privaes, de continncia e de trabalho. Ento, na escurido que chega, sente-se alquebrado. O diabo, que o respeita, adormece-o, empurra-o aos sonhos vis. toda uma noite de horrvel pesadelo, de tentao abrasadora. Inicialmente Santo Anto lamenta sua infncia, uma noiva, Amonria, que outrora amou; e, pouco a pouco, desliza para a queixa, gostaria de ser gramtico ou filsofo, soldado, publicano no pedgio de uma ponte, negociante rico e casado. Vozes vindas das trevas oferecem-lhe mulheres, um monte de ouro, mesas repletas de iguarias. o comeo da tentao, os apetites vulgares, a satisfao animal. Sonha que confidente do imperador, que possui a onipotncia. Encontra-se, em seguida, num palcio resplandecente, no meio de um festim de Nabucodonosor; e, saciado de libertinagens e de extermnio, sente a necessidade de ser um bicho, pe-se de quatro patas e muge como um touro. Em seguida, depois que se chicoteou para se punir por essa viso, uma outra viso surge, a rainha de Sab vindo se oferecer, com seus tesouros, estendendo-lhe sua garganta, fazendo-o morrer de desejo. Tudo se apaga, o diabo assume a figura de Hilario, seu antigo discpulo, para atac-lo em sua f. Prova-lhe a obscuridade, as contradies do Antigo e do Novo Testamento. Ele o conduz a uma viagem inaudita atravs das religies e dos deuses: as primeiras religies, as cem heresias mais monstruosas, umas mais do que as outras, todas as formas da loucura e do furor do homem; depois disso, os deuses, um desfile de deuses abominveis e grotescos fazendo todos, um a um, o salto ao nada, desde os deuses sanguinrios das primeiras eras at os deuses poticos e extraordinrios da Grcia. A viagem acaba nos ares, entre a poeira dos mundos, no meio desse cu da cincia moderna, que Sat faz o eremita visitar montado sobre seu dorso e que aterroriza este ltimo por sua infinitude. Sat cresceu desmedidamente, tornou-se a cincia. Santo Anto, retornando terra, ouve as terrificantes querelas da Luxria e da Morte, da Esfinge e da Quimera. Enfim, abisma-se no bando dos animais fabulosos, dos monstros da terra; desce ainda mais, encontra-se na prpria terra, nos vegetais que so seres, nas pedras que so vegetais. E eis seu ltimo grito:

Tenho vontade de voar, nadar, latir, mugir, uivar. Gostaria de ter asas, uma carapaa, uma casca, soprar fumaa, portar uma trompa, torcer meu corpo, dividir-me em todos os lugares, estar em tudo, emanar-me como os odores, desenvolver-me como as plantas, escoar como a gua, vibrar como o som, brilhar como a luz, ocultar-me sob todas as formas, penetrar cada tomo, descer at o fundo da matria, ser a matria!

O poema terminou, a noite acabou. apenas um pesadelo a mais esvanecido na escurido. O sol aparece, e, em seu prprio disco, irradia a figura de Jesus Cristo. Anto faz o sinal da cruz e retoma as oraes.

Nunca semelhante bofetada foi dada humanidade. Estamos aqui longe da stira discreta, do riso oculto de Madame Bovary e de A Educao Sentimental. J no mais a estupidez de uma sociedade que Gustave Flaubert pinta como para se vingar, a estupidez do mundo. Tomar a humanidade em seu bero, mostr-la em todas as horas no sangue e na imundcie, anotar escrupulosamente cada um de seus passos em falso, concluir pela sua impotncia, sua misria e seu nada: tal foi o objetivo acalentado e longamente amadurecido do autor. O captulo em que ele faz passar o cortejo dos heresiarcas apavorante; no h sequer uma abominao, uma demncia, uma crueldade que esses homens no tenham inventado e que no afirmem; a brevidade das transies, a rapidez da narrativa, tantos horrores e asneiras acumulados em algumas pginas chegam a dar nuseas e vertigens. E o captulo dos deuses ainda mais terrificante; a procisso no termina, o homem tudo deificou, os deuses se derrubam na lama, empurrando-se uns aos outros; milhares de anos de crenas absurdas e sangrentas passam, dolos todos em ventre, dolos em cabeas de bicho, de madeira, de mrmore e de papelo, atribuindo-se seus dogmas e suas doutrinas, debatendo-se contra a morte, a morte fatal que arrasta as sociedades com suas religies: vasto espetculo, quadro sem precedente da queda contnua do homem e de suas concepes religiosas no desconhecido.

Em seguida, ainda h o ltimo captulo, essa saciedade de Anto na matria, esse grito de desejo diante da terra negra e profunda, essa concluso pela dor universal, pela eterna burla da vida. Mesmo quando o santo retoma a orao, como uma ironia a mais , em conseqncia da viso do mundo vazio de deuses; curva os ombros por hbito, inspira apenas uma imensa piedade. Gustave Flaubert est a por inteiro, com esse esprito revolucionrio que tem em si, malgrado seu. Cede necessidade de negao, de dvida absoluta, condenando todas as religies ao mesmo grau, mostrando, talvez, algumas ternuras somente pelos deuses de beleza da Grcia. Se escolheu a lenda de Santo Anto para se tranqilizar e dizer aos homens o caso de loucura animalesca da qual eles agonizam, desde o primeiro dia da criao, que encontrava a essa Antigidade, esse Oriente que ele ama e onde sente bastante espao para fazer o colossal e o luminoso. Num quadro moderno teria sido preciso tudo rebaixar e escrever uma comdia em vez de um poema.

A Tentao de Santo Anto contm trechos de primeira ordem. Citei o episdio da rainha de Sab, toda perfumada pelas volpias orientais, e no qual as frases assumem uma msica estranha, uma cadncia de cmbalos de ouro soando sob cortinas de prpura. Comentei igualmente o festim de Nabucodonosor, uma orgia gigantesca, uma sala onde as comidas abundam, onde a besta, coberta de pedrarias, senta-se no trono. preciso acrescentar uma descrio de Alexandria, de uma reconstruo surpreendentemente exata; uma pgina sobre o Egito, em que essa terra renasce com seus templos, seus perfumes, toda a sua civilizao morta; enfim, a querela da Esfinge e da Quimera, das duas bestas que carregam o homem e o devoram a toda hora, o enigma sombrio fixado terra, a fantasia alada se chocando com as estrelas.

Em relao a essa obra, falo apenas da concepo e da realidade artstica, sem me ocupar com o lado filosfico, que me levaria muito longe; obra de um grande escritor, do maior escritor com que nossa literatura conta neste momento. Gustave Flaubert, apesar das hesitaes dos leitores e da estupefao da crtica, mostrou-se a superior, maior e mais forte, no pice.

V

Resta-me indicar qual a atitude do pblico em relao a Gustave Flaubert.

J o disse, o sucesso de Madame Bovary foi fulminante. De uma semana para outra, Gustave Flaubert foi conhecido, celebrado, aclamado. No h outro exemplo, neste sculo, em nossa poca, em que vinte volumes mal difundem o nome de um autor, de uma reputao adquirida assim de uma s vez. E no se tratava apenas de popularidade, mas de glria. Colocavam-no no primeiro nvel, frente dos romancistas contemporneos. Desde h vinte anos conserva na fronte a aurola desse triunfo.

Mas o pblico f-lo pagar, em seguida, essa glria. Parece que quiseram se vingar da admirao franca, irresistvel, provocada por Madame Bovary. Ele no publicou mais nenhum livro sem ser criticado violentamente, e at mesmo negado; e esse rancor, essa hostilidade da crtica foi aumentando a cada nova obra. Salamb provocou ainda um enorme barulho, em que j apareciam muitas zombarias. A Educao Sentimental, essa obra to complexa e to profunda, tendo por quadro as ltimas convulses do Imprio, passou quase despercebida, no meio de uma indiferena aturdida. Enfim, A Tentao de Santo Anto, ultimamente, foi atacada com uma violncia extrema sem encontrar um nico crtico que ousasse analisar a obra seriamente e mostrar suas maravilhosas belezas. A triste verdade a seguinte: os livros de Gustave Flaubert so muito eloqentes e muito originais para o pblico parisiense. Os leitores frvolos dos jornais do Boulevard1 vem neles apenas temas chistosos; a charge apodera-se das situaes, a caricatura, das personagens; e em breve ser um riso universal, a propsito das coisas menos risveis do mundo. preciso conhecer esse estranho pblico, alguns milhares de pessoas, no mximo, que fazem estardalhao por cem mil, para se ter uma idia dos julgamentos extraordinrios que ele faz. Um escritor trabalhou vinte anos numa obra; um senhor qualquer a percorre em vinte minutos, atira-a para o lado dizendo: "Ela enfadonha", e ponto final, o livro condenado.1 Em Paris, Boulevard designa a vida literria e espiritual que florescia no final do Segundo Imprio. (N.do T.) no final do Segundo Imprio (N do T )

Devo acrescentar que o livre desenvolvimento do talento de Flaubert no era feito para concili-lo com a multido. Pedem-lhe para criar uma segunda Madame Bovary, sem desejar compreender que um escritor se enfraquece ao voltar sobre seus passos. Ele obedeceu ao impulso de seu temperamento, ampliou cada vez mais sua anlise. Cada uma de suas obras oferece uma nova tentativa, ponderada, cumprida com uma firmeza admirvel. Acrescento que cada uma delas foi um passo frente, uma fase desse talento to claro e to consciencioso. Retornaremos s crticas endereadas Educao Sentimental e Tentao de Santo Anto. preciso que esses livros amaduream.

Gustave Flaubert permanece uma das personalidades mais nobres de nossa literatura contempornea. Inclinamo-nos respeitosamente diante dele. Toda a jovem gerao o aceita como um mestre. E, coisa estranha, aqui tocamos a enfermidade francesa: Gustave Flaubert vive margem, apenas cercado por alguns amigos, sem alvoroo, sem arrastar atrs de si o bando de seus admiradores. Entretanto, o gnio francs, na atualidade, a lngua francesa em sua pureza e em seu esplendor encontram-se nesse escritor solitrio, abandonado, cujo nome os jornais no imprimem sequer uma vez por ms. diante desse homem que as trompas do entusiasmo pblico deveriam soar sem pausa, porque ele realmente a honra e a glria da Frana.

O HOMEM

Se algum dia eu escrevesse minhas memrias, esta seria uma das pginas mais emocionantes. Quero reunir minhas recordaes sobre Gustave Flaubert, o amigo ilustre e to caro que acabo de perder. Talvez falte a ordem, no tenho outra ambio seno ser exato e completo. Parece-me que temos o direito de erigir em sua verdade a figura desse grande escritor, ns que vivemos sua vida, durante os ltimos dez anos de sua existncia. Ele ser tanto mais amado quanto mais o conhecerem, e sempre um bom trabalho destruir as lendas. Pensem que tesouros teramos se, logo em seguida morte de Corneille ou de Molire, algum amigo nos tivesse contado sobre o homem e explicado o escritor, numa anlise escrupulosa, elaborada sobre as melhores fontes da observao!

I

A morte de Gustave Flaubert foi para ns aterradora. Seis semanas antes realizamos um velho projeto, Goncourt, Daudet, Charpentier e eu: fomos passar vinte e quatro horas com ele, em Croisset; e o deixamos, felizes por essa escapada, enternecidos por sua hospitalidade paternal, prometendo nos reencontrar em Paris, nos primeiros dias de maio, poca em que ele deveria l passar dois meses. No sbado, 8 de maio, encontrava-me em Mdan, onde me instalara havia trs dias, e punha-me mesa, feliz por ter-me livrado da poeira da mudana, sonhando, para o dia seguinte, com uma manh de trabalho srio, quando chegou a correspondncia. No campo, cada vez que recebo a correspondncia, experimento um aperto no corao, com medo de ms notcias. Entretanto, fiz uma brincadeira; minha famlia estava l, e disse rindo que a correspondncia no iria de modo algum nos impedir de jantar. E, aberto o papel, li essas duas palavras: "Flaubert morto". Era Maupassant que me telegrafava essas duas palavras, sem explicaes. Uma pancada em pleno crnio.

Ns o deixamos to alegre, bem saudvel, na alegria do livro que terminava! Nenhuma morte podia me atingir nem me transtornar mais do que a dele. At tera-feira, dia do funeral, ele permaneceu diante de mim; obsedava-me, principalmente noite; bruscamente, aparecia ao fim de todos os meus pensamentos, com o horror glacial do nunca mais. Era um estupor, cortado de revoltas. Na tera-feira pela manh, parti para Rouen; tive que tomar um trem na estao vizinha e atravessar a campanha, aos primeiros raios de sol: uma manh irradiante, de longas flechas de ouro que perfuravam as folhagens repletas de tagarelice de pssaros, eflvios frescos que emanavam do Sena e passavam como calafrios no calor. Senti lgrimas subirem aos meus olhos quando me vi s, nessa campanha sorridente, com o pequeno rudo de meus passos sobre os seixos da estrada. Pensei nele, dizia-me que tinha acabado, que ele no veria mais o sol.

Em Mantes, tomei o expresso. Daudet se encontrava no trem com alguns escritores e jornalistas que se tinham dado o incmodo: raros fiis cujo pequeno nmero nos comoveu o corao, reprteres exercendo seu ofcio com uma aspereza que s vezes nos feriu. Goncourt e Charpentier, que partiram na vspera, j se encontravam em Rouen. Coches nos esperavam na estao, e recomeamos, Daudet e eu, essa viagem que, seis semanas antes, tnhamos feito com tanta alegria. Todavia, no iramos at Croisset. Mal abandonvamos a estrada de Canteleu e nosso cocheiro pra e se desloca para uma sebe, o cortejo fnebre que chega ao nosso encontro, ainda encoberto por um bosquete, na curva da estrada. Descemos, descobrimo-nos. Em minha dor, o golpe terrvel foi-me assestado ali. Nosso bom e grande Flaubert parecia vir a ns, deitado em seu caixo. Ainda o via, em Croisset, saindo de sua casa e nos beijando nas duas faces, com grandes beijos sonoros. E, agora, era um outro encontro, o ltimo. Ele avanava de novo, como para as boas-vindas. Quando vi o carro morturio com seus cortinados, seus cavalos andando a passo, seu balano suave e fnebre, surgir por detrs das rvores na estrada nua e vir direto a mim, senti um frio intenso e pus-me a tremer. A direita, esquerda, prados se estendem; sebes cortam as pastagens, lamos barram o cu; um recanto frondoso da abundante da Normandia, que verdeja numa camada de sol. E o carro morturio continuava a avanar, no meio do verdor, sob o vasto cu. Num prado beira do caminho, uma vaca aturdida estendia seu focinho por cima de uma sebe; quando o corpo passou, ps-se a mugir, e esses mugidos suaves e prolongados, no silncio, no tropel dos cavalos e do cortejo, pareciam como a voz longnqua, como o suspiro dessa campanha que o grande morto tinha amado. Sempre ouvirei essa lamria de animal.

Entretanto, Daudet e eu nos tnhamos postado beira do caminho, sem uma palavra e muito plidos. No precisvamos falar, nosso pensamento foi o mesmo quando as rodas do carro morturio roaram por ns: era o "velho" que passava; e colocvamos nessa palavra toda a nossa ternura por ele, tudo o que devamos ao amigo e ao mestre. Os dez ltimos anos de nossa vida literria erguiam-se diante de ns. Todavia, o carro prosseguia caminho, com seu balano, ao longo dos prados e das sebes; e, atrs, apertamos as mos de Goncourt e de Charpentier, trocando palavras insignificantes, olhando-nos com o ar surpreso e desolado das grandes catstrofes. Lancei um olhar sobre o cortejo; ramos no mximo duzentos. A partir da, caminhei perdido num tropel.

Entretanto, o cortejo fnebre, tendo chegado estrada de Canteleu, virou e subiu a colina. Croisset simplesmente um grupo de casas, construdas margem do Sena, e que dependem da parquia de Canteleu, cuja velha igreja est localizada bem no alto, no meio das rvores. A estrada extraordinria, uma ampla viso que serpenteia pelo flanco dos prados e dos campos de trigo; e, medida que subimos, a plancie se aprofunda, o imenso horizonte se amplia, a perder de vista, com a enorme corrente do Sena, no meio das aldeias e dos bosques. esquerda, Rouen exibe o mar cinzento de seus telhados, enquanto fumaas azuladas, direita, fundem os horizontes no cu. Ao longo dessa encosta to rude, o cortejo se dispersou um pouco. A cada curva da estrada, o carro desaparecia nas folhagens; em seguida, o revamos mais frente, beira de uma plantao de aveia, de onde seus cortinados esvoaantes faziam voar um bando de pardais. Nuvens atravessavam o cu, to puro de manh. Por momentos, passavam rajadas de vento que varriam grandes nuvens de poeira branca voando ao sol. J estvamos todos brancos, e a subida no terminava, cada vez mais o horizonte se ampliava. Esse cortejo, atravs dessa campanha, diante desse vale, assumia certa grandeza. Na fila, uns trinta carros, quase todos vazios, subiam penosamente. Foi a que Maupassant me deu alguns detalhes sobre os ltimos momentos de Flaubert. Ele acorrera na mesma noite da morte, para encontr-lo ainda sobre o div de seu gabinete, onde a apoplexia o fulminara. Flaubert vivia como celibatrio, servido simplesmente por uma domstica. Na vspera, por uma necessidade de expanso, havia dito a essa mulher que estava bem contente: seu livro, Bouvard e Pcuchet, estava concludo, e ele devia partir no domingo para Paris. No sbado pela manh, tomou um banho, depois retornou ao gabinete, onde no tardou a sentir um mal-estar. Como era sujeito a crises nervosas, depois das quais caa em sncope e permanecia prostrado por um sono pesado, pensou tratar-se de um acesso e no se assustou em absoluto. Todavia, chamou a domstica para que ela fosse chamar o doutor Fortin, que residia na vizinhana. Em seguida, mudou de idia, reteve-a perto de si, pedindo-lhe para conversar; em suas crises, sentia a necessidade de ouvir algum a seu lado. Continuava calmo, conversava, dizendo que teria sido muito mais preocupante se o acesso ocorresse no dia seguinte, no trem; queixava-se de ver tudo amarelo a seu redor; surpreendia-se por ainda ter fora para abrir um frasco de ter, que foi buscar em seu quarto. Depois, de volta ao gabinete, lanou um suspiro e declarou que se sentia melhor. Todavia, sentindo suas pernas como quebradas, sentou-se no div turco que ocupava um canto do cmodo. E, de repente, sem uma palavra, inclinou-se para trs: estava morto. Certamente, ele no se viu morrer. Durante vrias horas, pensou tratar-se de um estado letrgico. Mas o sangue havia subido ao pescoo, a apoplexia estava l, num colar negro, como se o tivesse estrangulado. Bela morte, golpe de maa invejvel, e que me fez desejar para mim e para todos aqueles que amo esse aniquilamento de inseto esmagado sob um dedo gigante.

Chegvamos igreja, uma torre romnica, na qual um sino dobrava Sob o prtico, barrando a grande porta, quatro camponeses penduravam-se corda, levados pela oscilao do sino. Haviam descido o caixo, to grande que os carregadores caminhavam com muita dificuldade. Recordar-me-ei sempre dos funerais de nosso bom e grande Flaubert, nessa igreja de aldeia. Encontrava-me no coro, em frente aos chantres. Havia cinco deles, dispostos em fila diante de uma estante danificada, montados sobre tamboretes, que os suspendiam do solo como bonecas japonesas enfiadas em varetas; cinco campnios vestidos de sobrepelizes sujas e dos quais percebiam-se os sapatos grosseiros; cinco cabeas de bilha, cor de tijolo, feies rudes, boca enviesada berrando o latim. E isso no terminava mais; eles se enganavam, erravam suas ladainhas como maus atores que no conhecem seu papel. Um jovem, certamente o filho mais velho, seu vizinho, tinha uma voz aguda, dilacerante, semelhante ao grito de um animal que se degola. Pouco a pouco a clera arrebatou-me, eu estava furioso e aflito por essa igualdade na morte, por esse grande homem que aquelas pessoas enterravam em sua rotina, sem uma emoo, proferindo sobre seu caixo as mesmas notas desafinadas e as mesmas frases que teriam proferido sobre o caixo de um imbecil. Toda essa igreja fria onde tiritvamos ao sair do sol conservava uma nudez, uma indiferena que me feriam. Pois bem! verdade, portanto, que diante de Deus sejamos todos da mesma argila e que nosso aniquilamento comea sob esse latim que a igreja vende a todo mundo? Em Paris, por trs do luxo das tapearias, na majestade dos rgos, essa banalidade mercantil, essa indiferena nascida do hbito ainda se dissimulam. Mas aqui ouvia-se a p de terra cair a cada versculo. Pobre e ilustre Flaubert, que toda a sua vida enrubescera diante da estupidez, da ignorncia, das idias preconcebidas, dos dogmas, das hipocrisias das religies, e que se lanava, fechado em quatro pranchas, no meio do estupefaciente carnaval desses chantres a berrar um latim que eles sequer compreendiam!

A sada da igreja foi para todos ns um verdadeiro alvio. E o cortejo desceu a encosta de Canteleu. Devamos chegar a Rouen, atravessar a cidade e subir rumo ao cemitrio Monumental, ao todo sete quilmetros aproximadamente. O carro morturio havia retomado sua marcha lenta, o cortejo se espaava ainda mais na estrada, os carros acompanhavam. Entretanto, ao entrar na cidade, o cortejo se reagrupou, amigos de Flaubert sucediam-se e revezavam-se nos cordes do plio. Podamos ser nesse momento trezentos ou mais. No quero citar ningum, mas muitos que contvamos encontrar l no estavam presentes. Dos contemporneos de Flaubert s Edmond de Goncourt, comparecera ao triste encontro. Depois, havia somente a gerao mais nova, os amigos dos ltimos anos. Devo ainda dizer que muitos hesitaram vir de Paris; trinta e poucas lguas podem assustar sades dbeis e antigas amizades. Mas o que inexplicvel, o que imperdovel, que Rouen inteira no tivesse acompanhado o corpo de um de seus filhos mais ilustres. Responderam-nos que os rouenenses, todos comerciantes, desprezavam a literatura. Todavia, deve haver nessa grande cidade professores, advogados, mdicos, enfim, uma populao liberal que l livros, que pelo menos conhece Madame Bovary; deve haver colgios, jovens, apaixonados, mulheres inteligentes, enfim, espritos cultos que souberam pelos jornais da perda que a literatura francesa acabava de sofrer. Pois bem! Ningum se mexeu; no se poderia contar, talvez, duzentos rouenenses no magro cortejo, em vez da multido enorme que espervamos. At s portas da cidade, pensvamos que Rouen esperava l, para se posicionar atrs do corpo. Entretanto, encontramos s portas da cidade apenas um piquete de soldados, o piquete regulamentar concedido a todo cavaleiro da Legio de Honra falecido; homenagem banal, pompa medocre e irrelevante, que nos pareceu ofensiva para to grande defunto. Ao longo dos cais, em seguida ao longo da avenida que seguimos, alguns grupos de burgueses observavam curiosamente. Muitos nem mesmo sabiam quem era o morto que passava; e, quando citavam o nome de Flaubert, lembravam-se apenas do pai e do irmo do grande romancista, os dois mdicos cujo nome permaneceu popular na cidade. Os mais bem informados, aqueles que haviam lido os jornais, tinham vindo ver passar jornalistas de Paris. Nem o menor trao de luto nas fisionomias desses basbaques. Uma cidade afundada no lucro, embrutecida, de uma ignorncia pesada. Pensei em nossas cidades do Sul, em Marselha, por exemplo, que, ela tambm, est imersa no comrcio at o pescoo; Marselha inteira teria se amontoado passagem do cortejo, se ela tivesse perdido um cidado da estatura de Flaubert. A verdade que Flaubert, na vspera de sua morte, era desconhecido pelos quatro quintos de Rouen e detestado pelo outro quinto. Eis a glria.

Bulevares de subida rpida, ruas escarpadas conduzem ao cemitrio Monumental, que domina a cidade. O carro morturio avanava mais lentamente, com seu balano que se acentuava ainda mais. Dispersos, suspirando de fadiga, cobertos de poeira e a garganta seca, chegvamos ao fim dessa viagem de luto. Embaixo, desde a porta, espessos tufos de lils perfumam o cemitrio; em seguida, alias serpenteiam e se perdem em folhagens, enquanto os tmulos dispostos em patamares escaldam ao sol. Mas, l do alto, um espetculo nos fez parar: a cidade, a nossos ps, estendia-se sob uma grande nuvem cobreada, cujas bordas, franjadas de sol, deixavam cair uma chuva de fascas vermelhas; e era, sob essa iluminao de drama, o brusco aparecimento de uma cidade da Idade Mdia, com suas flechas e suas empenas, seu gtico flamboyant, suas ruelas sufocantes cortando com estreitas fossas negras o cafarnaum dentado dos telhados. Um mesmo pensamento veio a ns todos: como Flaubert, enfebrecido pelo romantismo de 1830, no falou em nenhum lugar dessa cidade que aparecia diante de ns como o horizonte de uma balada de Victor Hugo? Existe uma descrio do panorama de Rouen em Madame Bovary; mas essa descrio de uma sobriedade extraordinria, e a velha cidade gtica no se mostra l de modo algum. Tocamos a numa das contradies do temperamento literrio de Flaubert, que eu cuidarei de explicar.

O tmulo de Louis Bouilhet encontra-se ao lado do jazigo da famlia de Gustave Flaubert, e o corpo do romancista teve de passar diante do poeta, seu amigo de infncia, que l dorme h dez anos. O caixo foi levado atravs de um gramado; curiosos, quase todos gente do povo, precipitaram-se, invadindo as estreitas sendas, em torno do jazigo, de tal forma que o cortejo no pde se aproximar seno com dificuldade. Por sinal, de conformidade com as idias freqentemente expressas por Flaubert, no houve discurso. Um velho amigo, Charles Lapierre, diretor do Nouvelliste de Rouen, disse apenas algumas palavras. E, ento, ocorreu um fato que transtornou a ns todos. Quando desciam o caixo ao jazigo, esse caixo muito grande, de gigante, no pde entrar. Durante vrios minutos, os coveiros, comandados por um homem magro, de grande chapu negro, uma figura sada de Han dlslndia, trabalharam arduamente; mas o caixo, de cabea para baixo, no queria nem subir, nem descer mais, e ouvamos as cordas rangerem e a madeira estalar. Era atroz; a sobrinha que Flaubert tanto amou soluava beira do jazigo. Enfim, vozes murmuraram: "Basta, basta, esperem, mais tarde". Partimos, abandonando l nosso "velho", que entrou enviesado na terra. Meu corao explodia.

Embaixo, no porto, quando, estupeficados de fadiga e tristeza, Goncourt nos reconduziu, Daudet e eu, ao hotel onde ele havia se instalado, uma banda militar tocava duas vezes mais rpido, junto esttua de Boieldieu. Os bares estavam lotados, burgueses passeavam, um ar de festa alegrava a cidade. O sol de quatro horas, que banhava o cais, iluminava o Sena, cujos reflexos danavam sobre as fachadas brancas dos restaurantes, onde as cozinhas j flambavam, com odores de comidas. Numa taberna, toda uma mesa de reprteres e poetas famintos encomendava um linguado normando. Ah! as tristezas dos enterros de grandes homens!

II

Tenho poucos detalhes biogrficos. Flaubert era discreto sobre esses assuntos; depois, eu o conheci muito tarde, em 1869. a um amigo de infncia, ou a um confidente muito ntimo, que cabe falar de sua vida. Por mim, contentar-me-ei em observar aqui o que conheo bem, e procurarei sobretudo explicar o escritor pelo homem, reportando-me ao que ele me disse e ao que eu pude observar.

Entretanto, devo lembrar as grandes linhas de sua existncia. Nasceu em Rouen, em 1821. Seu pai, Achille Flaubert, era um mdico talentoso, cujo grande corao e cuja estrita honestidade permaneceram lendrios. Nessa escola, o jovem Gustave cresceu em bondade, lealdade, virilidade. Reencontr-lo-emos mais tarde, como seu pai, com essa natureza adorvel que o tornava to caro a ns, uma natureza em que havia o colosso e a criana. Fez seus estudos em Rouen e l encontrou, muito jovem, Louis Bouilhet e o conde d'Osmoy numa penso da qual nos contava, s vezes, histrias bem divertidas. Sua infncia e juventude parecem ter sido as de um garoto pertencente a uma famlia rica e liberal, que o educava solidamente sem contrari-lo em seus gostos. Entregou-se muito cedo paixo literria, e no creio que alguma vez tenha tido uma profisso qualquer; pelo menos nunca falava disso. Ao sair do colgio, havia perdido de vista Louis Bouilhet, que s o reencontrou no inverno de 1846; a partir da, estabeleceu-se entre eles a slida amizade que nunca mais cessou. Eu sempre pensei que A Educao Sentimental era em muitas pginas uma confisso, um tipo de autobiografia muito retocada, composta de recordaes tomadas aqui e acol; e poderia ser, levando em conta as necessidades da trama, que a grande amizade entre Frdric e Deslauriers fosse o eco da amizade entre Flaubert e Bouilhet. Como Frdric, por sinal, Flaubert foi fazer Direito em Paris, onde Bouilhet foi encontr-lo. Mas antes desse ano de 1846, apenas com dezenove anos ele fez pela primeira vez uma viagem. No posso dizer que chegou at a Itlia, mas me recordo de que vrias vezes me contou sua passagem por Marselha, onde teve uma aventura amorosa. Em Paris, levou uma vida de estudos, entrecortada de alguns prazeres violentos. Sem ser mundano, levava uma existncia ampla. Desde essa poca, teve, por sinal, um p em Paris e o outro em Rouen; seu pai havia comprado a casa de campo em Croisset por volta de 1842, e retornava para passar perodos inteiros. Ao reler ultimamente a vida de Corneille, fui surpreendido com semelhanas que ela oferecia com a de Flaubert. S dois grandes fatos marcam sua existncia: sua viagem ao Oriente, que fez de 1849 a 1851, e a viagem realizada posteriormente s runas de Cartago, para seu livro Salamb. Fora dessas escapadas, sempre teve a vida que o vimos levar nesses ltimos tempos, essa vida de estudos da qual falei, ora se fechando meses seguidos em Croisset, ora vindo se distrair em Paris, aceitando convites para jantar, recebendo amigos no domingo, mas passando as noites mesa de trabalho. Sua biografia est a por inteira. Poder-se- precisar datas e dar detalhes mas no se sair dessas grandes linhas.

A casa de Croisset uma construo muito antiga, restaurada e aumentada por volta do final do sculo passado. A fachada branca encontra-se a vinte metros ou mais do Sena, do qual uma grade e a estrada a separam. esquerda, h uma casa de jardineiro, uma pequena chcara; direita, estende-se um parque estreito, sombreado por rvores magnficas; depois, atrs da casa, a encosta sobe bruscamente, vegetaes fazem uma cortina para alm da qual, bem no alto, estendem-se uma horta e prados plantados de rvores frutferas. Flaubert jurava que no ia sequer uma vez por ano ao extremo da propriedade. Aps a morte de sua me, havia inclusive abandonado a casa para se enclausurar nos dois nicos cmodos onde vivia, o gabinete de trabalho e o quarto. Saa deles apenas para comer na sala de baixo, pois acabou abominando a caminhada, a ponto de no poder sequer ver os outros caminharem sem experimentar uma irritao nervosa. Quando passamos uma noite em Croisset, encontramos a casa nua, s com a antiga moblia burguesa da famlia. Flaubert desprezava quadros e bibels, todas as suas concesses eram duas quimeras japonesas num vestbulo e reprodues em gesso de baixos-relevos antigos, penduradas s paredes da escada. Em seu gabinete, um vasto cmodo que ocupava todo um ngulo da casa, s havia livros ordenados sobre as prateleiras de carvalho. E l faltavam igualmente os objetos de arte; viam-se, como curiosidades trazidas do Oriente, apenas um p de mmia, uma bandeja persa de cobre em relevo na qual jogava suas penas e alguns pequenos objetos sem valor. Entre as duas janelas, encontrava-se o busto em mrmore de uma irm que ele adorava e que falecera ainda jovem. tudo, se acrescentarmos gravuras, retratos de colegas de infncia e de antigas amigas. Mas o cmodo, em sua desordem, com seu tapete gasto, suas velhas poltronas, seu amplo div, sua pele de urso branco tendendo ao amarelo, cheirava a trabalho, a luta enraivecida contra as frases rebeldes. Para ns, Flaubert inteiro estava l. Evocvamos sua existncia inteira vivida nesse cmodo, no meio dos livros to amide consultados, caixas nas quais guardava suas anotaes, objetos familiares que no gostava que fossem removidos de seu lugar habitual, por uma mania de homem sedentrio.

Em Paris, no o conheci em seu apartamento do Bulevar do Templo. A casa era vizinha ao teatro do Petit-Lazare. Ela ainda existe, num recanto onde vieram se juntar as novas casas. Ele residiu nessa casa durante quinze anos. Foi l que nasceu sua glria e que experimentou suas grandes alegrias. L tambm publicou suas trs primeiras obras: Madame Bovary, Salamb e A Educao Sentimental. Acontecia todo um movimento em torno dele, admiradores vinham saud-lo. Seus ntimos dessa poca eram Edmond e Jules de Goncourt, Thophile Gautier, Taine, Feydeau e outros mais. Ele os reunia todos os domingos, tarde; e eram profuses de conversaes, de anedotas licenciosas e de discusses literrias. O Imprio, que queria ter seus escritores, tinha-lhe feito gentis adiantamentos; ia a Compigne, tornara-se um dos hspedes habituais do Palais-Royal onde a princesa Mathilde conseguira reunir grandes talentos.

Aps a guerra, foi habitar Rua Murillo; sua residncia, composta de trs pequenos cmodos, no quinto andar, dava para o Parque Monceau, uma vista extraordinria que o havia motivado. Fez forrar os cmodos de um cretone de grandes ramagens; mas foi seu nico luxo, e como em Croisset faltavam os bibels, havia apenas uma sela rabe, trazida da frica, e uma pintura dourada de Buda, comprada num revendedor de Rouen. Foi l que entrei em sua intimidade. Ele estava nessa poca s, muito desencorajado. O insucesso de A Educao Sentimental havia-lhe aplicado um terrvel golpe. Por outro lado, ainda que no tivesse nenhuma convico poltica, a queda do Imprio parecia-lhe o fim do mundo. Terminava, nesse momento, A Tentao de Santo Anto, penosamente e sem alegria. No domingo, s encontrava l Edmond de Goncourt, ele tambm afetado pela morte de seu irmo, no ousando mais tocar uma pena e muito triste. Foi na Rua Murillo que Alphonse Daudet se tornou, como eu, um dos fiis de Flaubert. Com Maupassant, ramos os nicos ntimos. Esqueo Turgueniev, que era o amigo mais slido e mais caro. Um dia, Turgueniev nos traduziu a livro aberto pginas de Goethe, em frases vibrteis, de um charme penetrante. Eram tardes deliciosas, com um grande fundo de tristeza. Recordo-me sobretudo de um domingo de carnaval em que, enquanto as trompas soavam nas ruas, escutei at noite Flaubert e Goncourt lamentarem o passado.

Depois, Flaubert se mudou uma vez mais e foi habitar o 210 da Rua do Faubourg Saint-Honor. Queria se aproximar de sua sobrinha, tomado pelo tdio dos velhos celibatrios; um dia, ele, o celibatrio enrijecido, falou-me sobre seu arrependimento de no se ter casado; um outro dia, encontraram-no chorando diante de uma criana. O apartamento da Rua do Faubourg Saint-Honor era mais vasto; mas as janelas davam para um mar de telhados eriados de chamins.

Flaubert no se deu nem mesmo o trabalho de mandar decor-lo. Apenas instalou reposteiros de seu antigo cretone de ramagens. O Buda foi colocado sobre a chamin, e as tardes recomearam no salo branco e dourado, onde se sentia o vazio, uma instalao provisria, um tipo de acampamento. E preciso dizer que, por essa poca, a runa financeira abateu Flaubert. Havia dado sua fortuna sobrinha, cujo marido encontrava-se metido em negcios difceis; todo o seu grande corao estava a, mas o fato ultrapassava, talvez, suas foras, titubeava diante da misria ameaadora, ele que nunca tivera de ganhar seu po. Por um instante, temeu nunca mais poder vir a Paris; e, durante os dois ltimos invernos, no veio, com efeito. Entretanto, foi na Rua do Faubourg Saint-Honor que o vi renascer com sua voz tonante e seus grandes gestos. Pouco a pouco, habituara-se ao novo estado de coisas, enfrentava todas as situaes com o desdm de um poeta. Alm disso, os Trs Contos, nos quais trabalhava, o divertiam muito. Seu crculo ampliara-se, jovens vinham sua casa, ramos s vezes uma vintena, no domingo. Quando Flaubert surge em nossa lembrana, ns, seus ntimos dos ltimos anos, nesse salo branco e dourado que o vemos, postando-se diante de ns com um movimento de calcanhares que lhe era familiar, enorme, mudo, com seus grandes olhos azuis, ou ento explodindo em paradoxos terrveis, lanando os dois punhos ao teto.

Eu gostaria de apresentar aqui uma fisionomia dessas reunies de domingo. Mas bem difcil, pois se falava nelas, com freqncia, uma lngua licenciosa, condenada na Frana desde o sculo XVI. Flaubert, que durante o inverno usava um solidu e uma bata acolchoada de vigrio, mandou fazer para o vero uma ampla cala listrada, branca e vermelha, e um tipo de tnica que lhe dava um falso ar de turco em neglig. Era para estar bem vontade, dizia ele; estou propenso a acreditar que tambm havia nisso um resqucio dos antigos costumes romnticos, pois o conheci com calas quadriculadas, sobrecasacas plissadas na cintura e o chapu de abas largas, resolutamente tombado sobre a orelha. Quando senhoras se apresentavam no domingo, o que era raro, e o encontravam vestido de turco, ficavam bastante assustadas. Em Croisset, quando passeava em semelhantes vestes, os passantes paravam na estrada para observ-lo atravs da grade; h mesmo uma lenda que diz que os burgueses de Rouen, indo a La Bouille de barco, levavam seus filhos, prometendo mostrar-lhes o Sr. Flaubert se permanecessem bem-comportados. Em Paris, ele prprio vinha abrir, freqentemente, a porta ao toque da campainha; abraava a pessoa se ela lhe fosse muito importante, e se no a tivesse visto h algum tempo; e entrava com ela na fumaa do salo. L se fumava terrivelmente. Mandava fabricar para seu uso pequenos cachimbos que queimava com um cuidado extremo; s vezes o encontrvamos limpando-os, ordenando-os num porta- cachimbos; e, quando estimava bastante uma pessoa, mantinha os cachimbos sua disposio e chegava a presente-la com um deles. Era das trs s seis horas, um galope atravs dos temas; a literatura sempre retornava, o livro ou a pea do momento, as questes gerais, as teorias mais arriscadas; mas faziam-se zombarias em todas as matrias, no se poupando nem os homens nem as coisas. Flaubert troava, Turgueniev tinha histrias de uma originalidade e de um sabor deliciosos, Goncourt julgava com elegncia e estilo muito pessoal, Daudet contava suas anedotas com esse encanto que faz dele um dos companheiros mais adorveis que conheo. Quanto a mim, eu no brilhava absolutamente, pois sou um bem medocre conversador. Sou bom apenas quando tenho uma convico e/ou me aborreo. Que felizes tardes passamos, e que tristeza quando se pensa que essas horas nunca mais voltaro, pois Flaubert era nosso elo, seus dois grandes braos paternais nos reuniam!

Foi ele quem teve a idia de nosso jantar dos autores vaiados. Foi depois de O Candidato. Nossos ttulos eram: de Goncourt, Henriette Marchal; de Daudet, Lise Tavernier; no que me diz respeito, todas as minhas peas. Quanto a Turgueniev, ele nos jurou que o vaiaram na Rssia. Reunamo-nos, os cinco, portanto, cada ms num restaurante; mas a escolha desse restaurante era um caso srio, e fomos um pouco em todos os lugares, passando do frango ao curry caldeirada. Desde a sopa, as discusses e as anedotas comeavam. Lembro-me de uma terrvel discusso sobre Chateaubriand, que durou das sete horas da noite uma da manh; Flaubert e Daudet o defendiam, Turgueniev e eu o atacvamos, Goncourt permanecia neutro. Outras vezes, abordava-se o captulo das paixes, falvamos do amor e das mulheres; e, nessas noites, os garons olhavam-nos com um ar de espanto. Depois, como Flaubert detestava retornar sozinho, eu o acompanhava pelas ruas escuras e ia dormir s trs horas da manh, aps ter filosofado nas esquinas de cada cruzamento.

As mulheres haviam ocupado pouco espao na existncia de Flaubert. Aos vinte anos, ele as tinha amado como trovador. Contava-me que outrora fazia duas lguas para dar um beijo na cabea de um terra-nova, que uma senhora afagava. Sua idia do amor se encontra em A Educao Sentimental: uma paixo que preenche a existncia e que nunca se contenta. Sem dvida, tinha seus arrebatamentos de desejo; era um folgazo slido em sua juventude e visitava os bordis como os marujos. Mas isso no ia mais longe, punha-se em seguida tranqilamente ao trabalho. Tinha pelas garotas um verdadeiro sentimento paternal; uma vez, nos bulevares exteriores, ao retornarmos, viu uma garota muito feia que o fez apiedar-se e qual quis dar cem vintns: ela nos bombardeou de injrias, dizendo que no pedia esmolas e que ganhava seu po. D vcio familiar e sem arrogncia parecia-lhe cmico, provocava-lhe um riso Rabelais; ele era cheio de solicitude pelos homens msculos, adorava suas histrias e declarava que elas o reanimavam. Repetia: "Eis a sade, isso nos d nimo". Combinem esse gosto pelas damas alegres e fceis com seu ideal de amor sem fim por uma mulher a quem se veria uma vez por ano, sem esperana. De resto, repito-o, as mulheres no o abalavam absolutamente. Acabava logo. Ele prprio o dizia, havia carregado como um fardo as poucas ligaes de sua existncia. Ns nos entendamos nessas matrias, com freqncia me confessava que seus amigos foram-lhe sempre mais importantes, e que suas melhores lembranas eram noites passadas com Bouilhet, fumando cachimbos e conversando. As mulheres, por sinal, sentiam que ele no era um efeminado; brincavam com ele e o tratavam como camarada. Isso julga um homem. Estudem o feminino em Sainte-Beuve, e comparem.

Apresento aqui minhas observaes sobre Flaubert um pouco ao acaso. So alguns traos que devem completar sua fisionomia. Ainda h pouco eu falava do estremecimento que ele sofreu quando da queda do Imprio. Tinha, entretanto, dio pela poltica, professava em seus livros o vazio do homem, a imbecilidade universal. Todavia, na prtica, acreditava na hierarquia, tinha respeito, o que nos surpreendia, ns que somos de uma gerao ctica; uma princesa, um ministro sobressaam, a seus olhos, do comum, e inclinava-se, "deslumbrava-se", como nos permitamos dizer entre ns. portanto fcil compreender seu espanto pela desorganizao brusca de um regime, cuja pompa tinha-o ofuscado. Numa carta escrita a Ernest Feydeau, aps a morte de Thophile Gautier, ele fala da "infeco moderna", declara que, desde o 4 de Setembro, tudo acabara para ele. Quando de minhas primeiras visitas, ele me interrogava curiosamente sobre os demagogos, que acreditava serem meus amigos. O triunfo das idias democrticas parecia-lhe ser a agonia das letras. Em suma, no amava sua poca, e voltarei a falar desse dio que muito influa sobre seu temperamento literrio. Em pouco tempo, por sinal, o espetculo de nossas lutas polticas o encheu de desgosto; seus antigos amigos, os bonapartistas, pareceram-lhe to estpidos e to ineptos quanto os republicanos. Insisto porque preciso estabelecer que nenhum partido poderia reivindic-lo. Fora de seus instintos autoritrios e de sua crena no poder, mesmo em seus representantes mais medocres, tinha um vastssimo desprezo pela humanidade. Encontro nele um exemplo bastante freqente, entre os grandes escritores, de um revolucionrio que tudo destri sem ter a conscincia de sua terrvel ao, e apesar de uma bonomia que o faz crer nas convenes sociais e nas mentiras das quais est cercado.

preciso observar aqui um outro trao caracterstico Flaubert era um provinciano Um de seus velhos amigos dizia um pouco maldosamente: Esse diabo de Flaubert, quanto mais vem a Paris, mais se torna provinciano". Compreendam quanto a isso que ele conservava ingenuidades, ignorncias, preconceitos, indelicadezas de homem que, ainda que conhecendo muito sua Paris, nunca tinha sido penetrado por seu esprito de troa e de leveza espiritual. Eu o comparei a Corneille, e aqui a semelhana se afirma uma vez mais. Era o mesmo esprito pico, ao qual a tagarelice e as finas nuanas escapavam. Observaram com razo que Madame Bovary era sua obra mais vivida, e que, em A Educao Sentimental, o lado parisiense oferecia, s vezes, um toque pesado e confuso; o salo de Mme Dambreuse, por exemplo, parece-se mais com um harm do que com uma reunio de jovens mulheres levadas rua de Paris. Ele via com olhos humanos, perturbava-se no esprito e na moda. Esse lado provinciano encontrava-se no homem disposto a crer em tudo, em quem faltava esse ceticismo que pe de sobreaviso; nunca algum foi mais enganado do que ele pelas aparncias, eram necessrias as catstrofes para abrir-lhe os olhos. Sem amar o mundo, sofrendo muito com o calor dos sales, via-se forado a visitas, vestia sua casaca preta com uma certa solenidade, ainda que gracejando; e, quando estava vestido, engravatado e com luvas brancas, postava-se nossa frente com o habitual estardalhao: "Eis, meu amigo!", em que se manifestava um pouco da alegria infantil de um simples romancista que se dirige aos grandes. Tudo isso era repleto de bonomia e nos enternecia, mas o burgus de provncia aparecia no fundo.

Sim, a grande palavra foi pronunciada: Flaubert era um burgus, e o mais digno, o mais escrupuloso, o mais srio que se pudesse ver. Ele prprio o dizia com freqncia, orgulhoso pela considerao da qual gozava, por sua vida inteira dedicada ao trabalho; o que no o impedia de degolar os burgueses, fulmin-los em cada oportunidade com suas cleras lricas. Essa contradio se explica facilmente. De incio, Flaubert havia crescido em pleno romantismo, no meio dos terrveis paradoxos de Thophile Gautier, que teve sobre ele uma influncia pela qual todos ns fomos atingidos; falo aqui de uma influncia bem exterior, pois o nico homem que o influenciou verdadeiramente em suas obras foi Louis Bouilhet. Assim, preciso distinguir, a injria aos burgueses era em sua boca um antema generalizado e lanado cabea da humanidade estpida; por burgus, entendia os imbecis, os estropiados, aqueles que negam o sol, e no as pessoas honradas que vivem sem alvoroo, no canto de sua lareira. Acrescentarei que suas grandes cleras chegavam fcil e subitamente. Ele gritava muito forte, gesticulando, enrubescido; em seguida, acalmava-se bruscamente, era como ares de bravura que, em sua intimidade com os homens de 1830, tinha aprendido a representar para si mesmo. Em relao a isso, contaram-me que um escritor russo, com quem Turgueniev nos fez jantar, ficou de tal forma surpreendido com essa violncia um pouco teatral de Flaubert que, num artigo no qual falou dele posteriormente, acusou-o de "fatuidade". Essa palavra me parece to imprpria que protesto com toda a minha energia. Flaubert era de uma boa-f absoluta em suas cleras, a tal ponto que freqentemente corria o risco da apoplexia e que tnhamos que abrir as janelas para que pudesse respirar; mas concordo que tinha havido sem dvida um treinamento anterior, que , literatura, o amor pela fora e pela exploso estavam em muito ligados sua atitude. O que constato, por sinal, que esse homem to violento em palavras nunca teve uma violncia de ao. Era de uma doura paternal com seus amigos e s se aborrecia contra os imbecis. E ainda, com sua bonomia, com uma falta de senso crtico sobre a qual retornarei, no tratava todos os imbecis to severamente. Um lugar-comum escapado por acaso lanava-o fora de si, quando tolerava mediocridades e chegava at a defend-las. A estupidez habitual, a vulgaridade cotidiana e da qual ningum est inteiramente liberto, o exasperavam ainda mais do que esse vazio doloroso do homem que ele to amplamente pintou em suas obras. Esses dois traos o caracterizam muito fielmente: gritava tanto quanto podia, sua facilidade de se enganar sobre os homens e sobre as coisas igualava sua facilidade de se pr em clera. Era um corao muito bom, cheio de infantilidades e inocncias, um corao muito caloroso, que explodia em indignaes ao menor ferimento. Seu encanto poderoso encontrava-se a, e eis por que ns o adorvamos como a um pai.

III

Minhas primeiras visitas a Flaubert foram uma grande desiluso, quase um sofrimento. Eu chegava com todo um Flaubert construdo em minha cabea, segundo suas obras, um Flaubert que era o pioneiro do sculo, o pintor e o filsofo de nosso mundo moderno. Eu o imaginei como que abrindo uma nova via, fundando um Estado regular na provncia conquistada pelo romantismo, caminhando para o futuro com fora e confiana. Numa palavra, eu ia procurar o homem de seus livros e me deparei com um terrvel folgazo, esprito paradoxal, romntico impenitente, que me aturdia durante horas sob um dilvio de teorias estupefacientes. A noite, eu voltava doente para casa, modo, aturdido, dizendo-me que o homem era em Flaubert inferior ao escritor. Depois, voltei atrs sobre esse julgamento, experimentei o sabor de um temperamento to cheio de contradies, habituei-me, e por nada no mundo eu teria desejado que mudassem meu Flaubert. Mas a primeira impresso no foi menos uma decepo, decepo que vi se reproduzir em todos os jovens que se aproximaram dele.

Por exemplo, como vocs queriam que se estudasse sem surpresa o que ele dizia de Madame Bovary? Jurava ter escrito esse livro apenas para "irritar" os realistas, Champfleury e seus amigos; queria mostrar-lhes que se poderia ser simultaneamente um pintor exato do mundo moderno e um grande estilista. E isso era dito to categoricamente que chegvamos a nos perguntar se ele tivera conscincia de sua obra, se havia previsto a evoluo que ele iria produzir nas letras. Na verdade, duvido disso hoje; muitos gnios criadores encontram-se nessa posio, ignoram o novo sculo que produzem. Todas as suas teorias concluam contra a frmula que ns, seus seguidores, tomamos em Madame Bovary. Assim, ele declarava com sua voz tonante que o moderno no existe, que no h temas modernos; e quando, espantados por essa afirmao, ns o pressionvamos para explicar, acrescentava que Homero era to moderno quanto Balzac. Se ele tivesse dito humano, teramos concordado; mas moderno era inaceitvel. De resto, parecia negar as evolues em literatura. Discuti vinte vezes com ele sobre isso, sem conseguir faz-lo confessar, com a histria de nossa literatura mo, que os escritores no surgiam como fenmenos isolados; apiam-se uns aos outros, formam uma cadeia exibindo certas curvas, segundo os costumes e as pocas histricas. Ele, como individualista encarniado, esbravejava palavres: no dava a mnima (usem uma outra expresso), isso no existia, cada escritor era independente, a sociedade nada tinha a ver com a literatura, era preciso escrever um belo livro e nada alm disso. verdade, eu concordava que seria imbecil querer fundar uma escola; mas eu acrescentava que as escolas se fundam por si mesmas e que preciso aceit-las. O mal-entendido continuou entre ns at o final; sem dvida ele acreditava que eu sonhava regular os temperamentos, quando eu fazia simplesmente um trabalho de crtico, constatando os perodos que se haviam desenvolvido no passado e que ainda se desenvolvem sob nossos olhos. Nos dias em que ele explodia contra as etiquetas, as palavras em ismo, eu lhe respondia que so necessrias, todavia, palavras para constatar fatos; com freqncia, inclusive, essas palavras so forjadas e impostas pelo pblico, que precisasse reconhecer, no meio do trabalho de seu tempo. Em suma, ns nos entendamos quanto ao livre desenvolvimento da originalidade, tnhamos a mesma filosofia e a mesma esttica, os mesmos dios e as mesmas ternuras literrias; nossa discordncia s comeava se eu procurava lev-lo mais frente, remontando do escritor ao grupo, procurando saber de onde vinha nossa literatura e para onde ela ia.

Se no sou aqui muito claro, que na verdade nunca compreendi muito bem o conjunto de suas idias sobre a literatura. Elas me pareciam muito incoerentes, partiam bruscamente na conversao com uma rigidez de paradoxo e um estrondo de trovo, na maioria das vezes cheias de contradies e imprevistos. Talvez fosse eu que quisesse colocar um pouco de lgica entre o pensador e o escritor em Flaubert. Eu teria desejado que o autor de Madame Bovary amasse o mundo moderno, que se desse conta da evoluo da qual ele era um dos agentes mais fortes; e isso me entristecia por me deparar com um romntico que "esbravejava" contra as ferrovias, os jornais e a democracia, com um individualista para quem um escritor era um absoluto, um simples fenmeno de retrica. No dia de nossa terrvel discusso sobre Chateaubriand, como sustentava que na literatura s a frase bem-feita importava, eu o exasperei ao dizer: "H algo mais que frases bem-feitas em Madame Bovary, e por esse algo mais que essa obra viver. Diga o que quiser, voc desferiu o primeiro golpe no Romantismo". Ento, exclamou que Madame Bovary era m..., que no se cessava de importun-lo com esse livro, que o daria de bom grado por uma frase de Chateaubriand ou de Hugo. Recusava-se absolutamente a ver outra coisa alm da literatura nos romances dos outros e inclusive nos seus; negava neles, no direi o progresso, mas at o movimento das idias; bela lngua, nada mais. E seu individualismo, seu horror pelos grupos, provinha de um grande orgulho. Uma de suas palavras favoritas, quando se expunham seus princpios num prefcio e se ligava isso a um movimento qualquer, era: "Seja, portanto, mais orgulhoso!" Fazer frases corretas e extraordinrias, e faz-las em seu canto, como beneditino que d a vida inteira sua tarefa, tal era o ideal literrio de Flaubert. Eu disse uma palavra sobre seu dio ao mundo moderno. Esse dio explodia em todas as suas palavras. Adquirira-o em sua intimidade com Thophile Gautier, pois, no ano passado, quando li o volume de memrias publicado por Bergerat sobre seu sogro, fiquei estupefato ao reencontrar todo o meu Flaubert nos paradoxos sem interrupo de cadncia do autor de Mademoiselle de Maupin. Era o mesmo amor pelo Oriente, a paixo pelas viagens, longe dessa abominvel Paris, burguesa e mesquinha. Flaubert se dizia nascido para viver no Oriente, sob uma tenda; o aroma do caf causava-lhe alucinaes de caravanas em marcha; comia os pratos mais abominveis com venerao, desde que tivessem um nome extico Eram as mesmas diatribes contra todas as nossas invenes, a simples viso de uma mquina lanava-o fora de si, numa crise de antipatia nervosa. Tomava a ferrovia para ir a Rouen simplesmente para economizar tempo, dizia; mas no cessava de resmungar durante toda a viagem. Eram ainda as mesmas zombarias diante dos costumes e das novas artes, uma contnua nostalgia da velha Frana, segundo sua expresso, um tipo de cegueira voluntria e de medo tenebroso diante do futuro; a ouvi-lo, o amanh nos faltaria, caminharamos para um abismo negro, e, quando eu afirmava minhas crenas no sculo XX, quando eu dizia que nosso vasto movimento cientfico e social devia resultar numa plenitude da humanidade, observava-me com seus grandes olhos azuis e sacudia os ombros. De resto, essas eram questes gerais que ele no abordava; preferia permanecer na tcnica literria. Todavia, reservava suas cleras principalmente para a imprensa; o alvoroo dos jornais, a importncia que eles se do, as asneiras que imprimem fatalmente na pressa com a qual so feitos, deixavam-no enfurecido Falava em suprimi-los a todos de um s golpe O que o feria particularmente eram os detalhes que s vezes se dava sobre sua pessoa. Achava isso inconveniente e dizia que o escritor s pertencia ao pblico. Fui muito mal-recebido um dia em que me arrisquei a dizer-lhe que, em suma, o crtico que se ocupava de sua roupa e de sua alimentao fazia sobre ele o mesmo trabalho de anlise que ele prprio, romancista, fazia sobre as personagens das quais observava as figuras na vida. Essa lgica o transtornou, nunca quis concordar que tudo caminha simultaneamente e que a imprensa de informaes a irm caula, muito malcuidada, se preferirem, de Madame Bovary. Por sinal, esse homem to feroz que falava em enforcar todos os jornalistas vertia lgrimas assim que o ltimo dos plumitivos escrevia um pequeno artigo sobre ele. Via nele talento, carregava o jornal no bolso. Com dez anos de intervalo, repetia de memria frases escritas sobre seus livros, ainda tocado pelos elogios e vibrando com as crticas. Permaneceu sempre um principiante, por esse frescor de impresso. Rico e trabalhando em suas obras, no tendo percorrido a imprensa, ignorava-a, desprezando-a enormemente s vezes, e outras vezes acreditando muito nela. Ainda que se encolerizasse contra toda publicidade, freqentemente um reclame, um simples anncio o encantava. Tinha, como todos ns, infelizmente, essa necessidade doentia de ocupar o mundo com sua pessoa. Entretanto, fazia-o com uma ingenuidade de criana grande. Algumas semanas antes de sua morte, como La Vie Moderne publicava seu espetculo Le Chteau des Coeurs, ficou encantado porque o jornal encontrava-se nas vitrines das livrarias de Rouen, onde sua velha empregada de Croisset tinha-o visto. "Estou me tornando um grande homem", escrevia. No essa uma observao preciosa?

Essa bonomia to encantadora provinha de uma absoluta falta de crtica. preciso que se entenda, ele era muito bom juiz para si mesmo e possua uma vastssima erudio; todavia em suas opinies sobre os outros, faltavam as propores, sua credulidade o levava a singulares indulgncias, enquanto sua teimosia em nunca generalizar, em no levar em conta a histria das idias, afundava-o em severidades de puro retrico. s vezes, testemunhava, assim, admiraes que nos surpreendiam, ainda mais porque se mostrava de uma injustia revoltante em relao aos talentos que lhe eram antipticos. Para me fazer compreender claramente, devo retornar ainda a seu ideal literrio. Com freqncia, repetia: "Tudo foi dito antes de ns, temos apenas de redizer as mesmas coisas, numa forma mais bela, se possvel". Acrescentem que, quando se inflamava numa discusso, chegava a negar tudo o que no era o estilo; e eram, ento, afirmaes que nos consternavam, os homens simplrios no existiam num livro, a verdade era uma troa, as anotaes no serviam para nada, uma nica frase bem-feita bastava para a imortalidade de um homem; palavras tanto mais perturbadoras quanto ele prprio reconhecia cometer a asneira de perder seu tempo em reunir documentos e querer construir apenas figuras exatas e vivas. Que caso estranho e profundo, o autor de Madame Bovary e de A Educao Sentimental desprezando a vida, desprezando a verdade e acabando por se matar no tormento cada vez mais agudo unicamente pela perfeio do estilo! Compreender-se- desde logo suas admiraes e seus dios literrios. Conhecia de cor frases de Chateaubriand e de Victor Hugo, que declamava com uma nfase extraordinria. Goncourt dizia rindo que anncios cantados nesse tom teriam parecido sublimes. E Flaubert no saa dessas frases, a seus olhos todo o Chateaubriand e todo o Hugo pareciam estar nelas. Naturalmente, pelas mesmas razes, tinha por Mrime pequenas estima e execrava Stendhal. Denominava este ltimo: Sr. Beyle, assim como denominava Musset: Sr. de Musset. Para ele, o poeta era apenas um amador que tivera o mau gosto de zombar da lngua e abandonar a prosdia. Quanto a Stendhal, no era um zombeteiro afetado que se gabava de ler todas as manhs uma pgina do Cdigo para pegar o tom? Conhecamos esse grande psiclogo, segundo a expresso de Taine, to antiptico a Flaubert que inclusive evitvamos pronunciar seu nome. Acrescentarei aqui que era muito difcil discutir com Flaubert quando no se partilhava sua opinio; pois ele no discutia calmamente, como homem que tem argumentos a fazer valer e que consente em escutar os de seu adversrio, com o desejo de se informar; procedia por afirmaes violentas e perdia quase imediatamente a cabea, se no nos dobrssemos diante dele. Ento, para evitar-lhe uma contrariedade, para no faz-lo correr o risco de uma congesto cerebral, concordvamos com ele ou ento nos mantnhamos em silncio. Era absolutamente intil querer convenc-lo.

Felizmente, ao lado do estilista impecvel, desse retrico enlouquecido de perfeio, h um filsofo em Flaubert. o negador mais amplo que tivemos em nossa literatura. Professa o verdadeiro niilismo uma palavra em ismo que o teria colocado fora de si , no escreveu sequer uma pgina na qual no tivesse aprofundado nossa insignificncia. O mais estranho , repito-o, que esse pintor do aborto humano, esse ctico amargo, fosse no fundo um homem to terno e to ingnuo. Enganar-nos-amos enormemente se o imaginssemos como um Jeremias lamentando-se pela runa continua do mundo; na intimidade, no lamentava estas questes, blasfemava algumas vezes contra as pequenas misrias da existncia, mas sem lirismo. Um homem gentil, eis sua descrio. Seu incmodo to particular demandaria tambm ser estudado. A estupidez o atraa por um tipo de fascinao. Quando descobria um documento de grande estupidez, era para ele um jbilo, falava dele durante semanas. Recordo-me que havia reunido uma coletnea de peas em versos unicamente escritas por mdicos; forava-nos a escutar trechos desses versos, que lia com sua voz mais retumbante, e surpreendia-se quando no explodamos como ele num riso enorme. Um dia, fez esta triste reflexo: " singular, rio agora de coisas de que ningum mais ri". Em Croisset, possua estranhas colees em suas pastas: autos de guardas campestres, peas de processos curiosos, imagens infantis e estpidas, todos os documentos da imbecilidade humana que pde reunir. Observem que seus livros esto inteiros nisso, nunca fez outra coisa seno estudar essa imbecilidade, mesmo nas vises esplndidas de A Tentao de Santo Anto. Ele simplesmente lanava seu admirvel estilo sobre a estupidez humana, e refiro-me mais vulgar, mais terra-a-terra, com, s vezes, grandes escapadas de poeta ferido. Seu cmico no o esprito desenvolto do sculo passado, o riso fino e malicioso, o ataque ferino; mas um cmico que remonta ao sculo XVI, de sangue mais espesso e de pata mais pesada, gentil e brutal ao mesmo tempo, que deixa marca. Isso explica ainda sua falta de sucesso nos sales e junto s mulheres. Viam nele uma alegria de caixeiro-viajan-te. Na intimidade, era terrvel quando falava sem reservas.

Eis, portanto, traos de sua fisionomia, que podero ajudar a reconstru-la. Por mim, resumo dizendo que ele no quis a evoluo trazida ao romance por Madame Bovary, e que sempre recusou ver e medir suas conseqncias. Esse livro foi simplesmente um produto de seu temperamento que se encontrou na confluncia de Balzac e de Victor Hugo. Ps sua glria em ser um retrico, quando foi ainda mais um observador e um experimentador. Estudando-se nele o escritor, v-se facilmente como suas diversas faculdades, as contradies aparentes que trazia, fizeram dele o romancista que foi, sem que tenha resolvido s-lo.

IV

Passo agora aos livros de Gustave Flaubert.

Devemos nos lembrar de que ele estreou somente aos trinta e cinco anos, em 1856. Seus amigos pareciam inclusive ter uma confiana bastante medocre em seu futuro. Isso indicaria que, at l, havia hesitado, fracassado em tentativas, mostrando as indecises e os abortos de seu Frdric Moreau; afirmaram-me, com efeito, que antes de Madame Bovary escrevera trs obras considerveis, cujos manuscritos no existem mais. Entretanto, nunca falava de suas primeiras tentativas; citava apenas, zombando, um tipo de tragdia cmica sobre a vacina. Sem dvida rimara muitos versos medocres, que talvez se encontrem entre seus papis. Louis Bouilhet era ento o grande homem do grupo, e Maxime Du Camp j possua um nome quase clebre, quando Flaubert ainda se debatia nas incertezas de um penoso comeo. Estou certo de que, apesar de seu amplo corao, sofreu por essa situao, por essa primeira impotncia em que seu gnio permanecia paralisado, enquanto talentos inferiores produziam-se to facilmente e pareciam mant-lo em desdm. Explico assim a admirao exagerada que sempre professou por Bouilhet, como homem que tinha visto outrora um mestre nesse poeta de segunda classe.

O aparecimento de Madame Bovary foi portanto uma surpresa. Esse livro, escrito aps a viagem ao Oriente, teria sido inspirado, segundo dizem, pela leitura de uma simples notcia de jornal, o suicdio da mulher de um mdico que Flaubert conhecia. Por outro lado, Maxime Du Camp me escreveu: "Madame Bovary um livro que lhe foi imposto, que ele prprio se imps e que saiu de circunstncias totalmente especiais, muito dolorosas para ele"; e creio saber que Du Camp reserva a explicao dessa frase misteriosa para um estudo que pretende escrever sobre Flaubert. Pouco importa, por sinal; o autor desconhecido, trabalhando em seu canto, chegava com esses escritores enormemente originais que iriam transformar o romance: eis a grande questo. No creio que os amigos de Flaubert tenham ento sentido a importncia de tal obra. Lia para eles trechos, e sustenta-se que eles o faziam efetuar numerosas correes, do que eu duvido muito, pois o Flaubert dos ltimos anos no era homem para mudar uma vrgula. De resto, todos engajados no movimento romntico, deviam, assim como ele, encarar Madame Bovary como uma boa zombaria lrica feita aos realistas da poca. Conhece-se o processo ridculo movido contra o autor e o sucesso retumbante do romance. Em relao a isso, observo que Flaubert, apesar de sua bonomia, no esquecia facilmente as injrias; sempre guardou rancor de Pinard, que lanou contra ele seu famoso requisitrio hoje tornado um monumento de bufonaria. O livro rendeu muito pouco ao romancista, oitocentos francos, creio; seria preciso contar essa histria completamente, pois ela uma pgina curiosa de nosso mercado de livros. E verdade que, mais tarde, vendeu bastante caro ao mesmo editor Salamb e A Educao Sentimental. Mas o que quero claramente estabelecer o singular dio que Flaubert concebeu pouco a pouco contra Madame Bovary. Depois de suas outras obras, como lhe lanavam sempre seu primeiro romance ao rosto, como se lhe repetia: "D-nos uma outra Madame Bovary", ps-se a amaldioar essa filha primognita que causava semelhante dano a suas irms mais novas. Isso foi to longe que um dia declarou-nos seriamente que, se no precisasse de dinheiro, ele o teria retirado do comrcio, impedindo que se fizessem novas edies. Talvez ele tambm experimentasse, em seu corao de romntico, uma secreta tristeza em ver o terrvel crescimento naturalista que sua obra havia produzido em nossa literatura. Encontro a a inconscincia da qual falei.

Tenho poucas observaes sobre Salamb. O sucesso foi ainda retumbante; lembro-me dos gracejos da pequena imprensa, das caricaturas, das pardias. O alvoroo tornou-se enorme, principalmente depois que uma grande dama mostrou-se em traje de Salamb num baile das Tulherias. O livro havia sido publicado em 1862. Havia custado a Flaubert um trabalho considervel de pesquisas, sem falar da viagem que fizera a Tnis. Devemos tambm nos lembrar da violenta polmica que sustentou com um douto, Sr. Froehner, que contestava a exatido de seus documentos. Revoltou-se igualmente, mas com cordialidade, contra o artigo em que Sainte-Beuve falava de uma "ponta sdica". Foram as duas nicas ocasies em que se deixou levar pela polmica. Era naquele momento muito ntimo de Sainte-Beuve, a quem encontrava na casa da princesa Mathilde e em seu jantar de Magny, do qual tanto se falou. Foi tambm em Magny que se ligou a outros convidados. Taine, Renan, Paul de Saint-Victor, o prncipe Napoleo, sem falar de Thophile Gautier e dos Goncourt. Georges Sand, creio, apareceu l vrias vezes. Ela gostava muito de Flaubert, tuteava-o e escrevia-lhe longas cartas, ainda que eles no se entendessem absolutamente sobre a literatura; recordo-me de uma discusso entre eles, a propsito de Sedaine, a quem ela exaltava e ele declarava ser gua clara; quando ela morreu, ele ficou muito triste. Para terminar com Salamb, encontrei-o triste um dia em que ele acabava de rever as provas da edio definitiva que foi publicada ultimamente; e disse-me que um bom tero da obra agora lhe parecia muito longo. Quanto mais avanava, mais necessitava de sobriedade. A sobriedade a perfeio.

Em suma, o livro que mais o fez sofrer foi A Educao Sentimental. Havia colocado todo o seu esforo nessa obra, remexendo as bibliotecas, consultando os jornais e as gravuras, dando-se uma enorme dificuldade para reconstituir os lugares, que se transformaram singularmente aps quarenta anos. Quando um escritor passa seis ou sete anos sobre uma obra, quando emprega nela semelhante soma de trabalho e de vontade, d naturalmente a essa obra uma importncia considervel. Flaubert estava, portanto, persuadido de que lanava uma obra bem superior a Madame Bovary, e cujo aparecimento devia causar um formidvel impacto no pblico. De resto, nunca publicou um livro sem crer fortemente no sucesso, com uma confiana de criana e uma ignorncia das condies da venda em livraria que lembravam os belos sonhos de Balzac. Zombou-se muito dele, na poca, pela pretensa caixa de madeira das ilhas, na qual havia trazido A Educao Sentimental de Croisset para Paris; essa caixa era de madeira branca, Flaubert explicava que mandara faz-la pelo marceneiro de sua vila, para transportar com maior facilidade e segurana seu manuscrito, que era enorme; acrescentem que ele devia ler trechos da obra na casa da princesa Mathilde, e que no teria sabido como se apresentar, com um tal pacote de papel nos braos. O romance saiu no final de 1869. 0 sucesso de venda foi medocre, os jornais atacaram a obra com violncia e Flaubert caiu bruscamente das alturas de seu sonho. A queda foi to dolorosa que ele se ressentiu dela at o fim. O que lhe foi mais sensvel foi o silncio que em breve envolveu A Educao Sentimental; declararam-na entediante at morte, e ningum voltou a falar dela. Correu a encerrar-se em Croisset; era seu refgio nas grandes tristezas. Quando fomos v-lo ultimamente, dizia-nos mostrando seu gabinete: "Eis um cmodo onde trabalhei muito e onde sofri ainda mais". Isso me tinha vivamente emocionado, pois conheo esse sofrimento do crebro que se devora na solido. L, ocultava todas as suas aflies; soluava sobre esse div onde morreu, agonizava nessa mesa sobre a qual riscava tantas frases rebeldes. preciso saber o que lhe custava uma boa pgina, ele que tinha se esterilizado voluntariamente em seu desejo sempre insaciado de perfeio. Era um dilaceramento contnuo, partos dolorosos a gritar, dvidas sempre renascentes, at se tratar de grosseiro, crer-se idiota. Repetia-nos com freqncia: "Todas as noites tenho vontade de me matar". Imaginem ento qual deve ter sido a tortura desse homem quando se encontrou s, com o desmoronamento de sua obra atrs dele! Via no cho sete anos de trabalho, estava abalado em todas as suas convices Os grandes produtores se consolam rpido, mas ele devia esperar anos para voltar a crer. E alm do mais, os tempos eram sombrios, a invaso chegou e acabou de transtorn-lo. Esse romancista de quem se censura o ceticismo e a indiferena, que nunca escreveu as palavras ptria e bandeira, sofreu abominavelmente com a ocupao estrangeira. Quando o revi, encontrava-se absorvido, todo plido e trmulo. Foram seus anos ruins, aqueles de que falei, e que passou na Rua Murillo. O desgosto de A Educao Sentimental estava sempre no fundo. Amide, parava bruscamente diante de um de ns, exclamando: "Mas me expliquem por que esse livro no teve sucesso!" No ano passado, em conseqncia de um artigo que escrevi sobre uma nova edio do romance, enviou-me uma carta na qual o definia com uma frase bem correta. "E um livro honesto", dizia. Em seguida, acrescentava que talvez tivesse errado em sair do quadro fatal de todo romance, escrevendo esse dirio da vida tal como ela . Assim, chegou a duvidar de si mesmo, o que anunciava um terrvel trabalho nele, para quem o conhecia. Quanto A Tentao de Santo Anto, ela o ocupou por mais de vinte anos. Antes de Madame Bovary j trabalhara nela; um fragmento, a visita da rainha de Sab, foi inclusive publicado em LArtiste. Entretanto, sempre retomava a obra para alteraes, sem poder se contentar. O primeiro texto do trecho da rainha de Sab seria, segundo dizem, melhor do que o refeito em seguida, o que prova o lado quase doentio de sua necessidade de perfeio. Em 1874, quando finalmente terminou a obra, foi para ele um grande alvio; no que estivesse absolutamente satisfeito, mas no via isso mais claro, segundo sua expresso, e tinha medo de tudo comear de novo, se no se decidisse a publicar. O sucesso foi ainda menor do que o de Educao Sentimental. Flaubert surpreendeu-se com isso, pois havia imaginado que tal obra de cincia e de arte podia facilmente se tornar popular; mas no sofreu tanto com isso quanto temamos. A Tentao de Santo Anto permaneceu at o fim sua obra favorita.

Dos Trs Contos, falarei pouco. Flaubert os via como uma distrao. Ele havia comeado Bouvard e Pcuchet, o livro pstumo que deixou, quando, terrificado com a tarefa, aterrado pela perda de sua fortuna, abandonou esse grande trabalho e divertiu-se a escrever as trs novelas: A Lenda de So Juliano, o Hospitaleiro, Um Corao Simples e Herodade. Cada uma lhe custou seis meses aproximadamente. Era isso a que chamava descansar. Agora, eu deveria dizer o que eu sei de Bouvard e Pcuchet; mas serei breve, o livro no foi publicado e prefiro no deflor-lo. Bouvard e Pcuchet, na idia do autor, deve ser para o mundo moderno o que A Tentao de Santo Anto para o mundo antigo: uma negao de tudo, ou melhor, uma afirmao da estupidez universal. Assim, A Tentao de Santo Anto uma epopia inclinada ao lirismo, enquanto Bouvard e Pcuchet uma comdia quase tendendo caricatura. Flaubert tomou dois homens simples, dois ex-empregados de ministrio, que fez retirarem-se para o campo onde tentam todos os conhecimentos humanos, por meio de distrao e com o objetivo mais nobre de se tornarem teis; naturalmente, suas tentativas fracassam, so um contnuo aborto, e ao passar esterilmente da agricultura histria e da literatura religio, encontram uma nica ocupao interessante, a de copiar todos os papis impressos que caem em suas mos. Essas cpias dos dois simplrios deviam formar um segundo volume, no qual Flaubert teria publicado as asneiras escapadas das penas mais medocres e mais ilustres, comeando por ele prprio; ignoro se esse segundo volume estava bastante completo antes de sua morte, para que ele possa ser publicado. O que eu sei que Bouvard e Pcuchet deu um trabalho atroz a Flaubert; vrias vezes esteve a ponto de abandonar tudo, tanto essa reviso montona dos conhecimentos humanos apresentava dificuldades e a tal ponto ele se perdia em pesquisas complicadas. Apenas o captulo da agricultura, somente trinta pginas, forou-o a ler cento e sete obras sobre a matria. Obstinava-se, portanto; a obra era uma velha idia de juventude na qual acreditava. Eu me permitirei aqui uma anedota que mostra que importncia dava aos mnimos detalhes. Ele fazia, inicialmente para ns mesmos, mistrio quanto ao ttulo de seu livro; dizia: "Meus simplrios"; mais tarde, quando no-lo confiou, s o designava ainda pelas iniciais B e P, em suas cartas. Um dia, contudo, enquanto almovamos na casa de Charpentier e falvamos sobre nomes, eu disse que havia encontrado um excelente, Bouvard, para uma personagem de Sua Excelncia Eugne Rougon, o romance no qual trabalhava naquele momento. Vi Flaubert assumir uma expresso singular. Quando deixamos a mesa, conduziu-me ao fundo do jardim, e l, com uma grande emoo, suplicou-me para lhe deixar esse nome, Bouvard. Eu lho abandonei rindo. Mas ele continuava srio, muito emocionado, e repetia que no teria continuado seu livro se eu conservasse o nome. Para ele, essa obra estava nesses dois nomes: Bouvard e Pcuchet. No a via mais sem eles.

No posso evitar dizer tambm uma palavra sobre O Candidato, essa pea infeliz que no teve nenhum sucesso no Vaudeville. A paixo pelo teatro sempre o atormentara, mas sem o incomodar muito em seus romances. Era principalmente o exemplo de Bouilhet que o inflamava. Havia feito com ele uma pea: O Sexo Fraco, que foi inicialmente recebida no Vaudeville. Em seguida, Carvalho, ento diretor, preferiu ter uma pea dele sozinho, e foi assim que Flaubert escreveu O Candidato. De incio, acreditou em sua pea, mas no ensaio geral, que nos consternou, sentiu o fracasso fatal. Sua atitude foi muito bela, muito corajosa, nessa ocasio. Assistiu sua derrota sem emoo aparente; a sala foi friamente respeitosa, houve apenas dois ou trs assobios. Do lado de fora, nevava. Eu o reencontrei sada, fumando um charuto na calada, e ele retornou para sua casa a p, conversando com amigos. Na quarta representao, retirou a pea. Estava simplesmente surpreso de que o cmico que havia introduzido nela no tivesse empolgado mais. Sofreu por esse fracasso, mas nada soubemos. E, em relao a isso, quero mostrar aqui, por um exemplo, o grande corao que ele era, isento de toda inveja, at mesmo de toda reflexo pessoal diante do sucesso de um amigo. Pouco tempo depois de O Candidato, nessa mesma sala do Vaudeville que lhe trazia to cruel recordao, veio aplaudir furiosamente Fromont Jovem e Risler Primognito, de Alphonse Daudet. s primeiras representaes daqueles que amava, dominava seus vizinhos com sua alta estatura, violento e extraordinrio, lanando olhares de desafio aos adversrios, conservando sua bengala, afundando o assoalho a grandes golpes, para apoiar a claque. Nunca vi sobre seu rosto o menor fingimento, quando fazamos um sucesso, ns, seus discpulos afortunados; abraava-nos e chorava de ternura. Isso bem raro e bem bonito em nosso mundo, onde os melhores so devastados pela humanidade sofredora que existe neles.

Mais tarde, leu-nos O Sexo Fraco, que ia ser encenada no Teatro Cluny. A idia era engenhosa, havia excelentes cenas; mas o arranjo geral pareceu-nos muito fraco, e diante de nosso silncio embaraado, compreendeu e sustou a pea. Eu no asseguraria que ele no perdeu, nesse dia, uma iluso ainda cara; pois, durante os ensaios de O Candidato, falava-nos de cinco ou seis temas de peas que lhe tinham vindo mente e que queria encenar, se o pblico compreendesse. Nunca mais voltou a nos falar disso, renunciara ao teatro. O nico carinho que conservou era em relao a seu espetculo O Castelo dos Coraes, feito em colaborao com Louis Bouilhet e d'Osmoy, e que La Vie Moderne publicou ultimamente. Ele dizia sempre que gostaria, antes de morrer, de ver encenados os quadros de Cabar e de Le Royaume du Pot-au-feu. No os viu, e seus amigos acreditam que foi melhor assim.

Gustave Flaubert deixa como obra pstuma apenas Bouvard e Pcuchet. Talvez se possa encontrar em seus papis com o que fazer um volume de coletneas. Quando de sua viagem ao Oriente, havia feito anotaes no Egito, na Nbia, na Grcia, e algumas dessas anotaes so muito curiosas; as outras anotaes que se deve ter encontrado em seus papis sobre a Palestina, a Sria, a Caramnia, a Lbia, a Turquia europia, teriam sido copiadas das de Maxime Du Camp, aps seu retorno a Paris. Alm disso, haveria trechos de A Tentao de Santo Anto, condenados por ele e que apresentariam um vivo interesse. No falo de sua correspondncia que um dia ser reunida, sem dvida, mas com alguma dificuldade, verdade, pois para evitar justamente que suas cartas tossem publicadas, deslizava nelas um cortejo de palavres, difceis de serem impressos; falo evidentemente das cartas a seus ntimos, as mais interessantes. Certamente, Flaubert acreditava que viveria por muito tempo ainda. Falava da morte, pensava nela e a temia; mas isso no o impedia de, com freqncia, fazer diante de ns projetos literrios que, para serem realizados, ter-lhe-iam exigido uma nova existncia, a ele, que gastava em mdia sete anos num volume. Nosso desejo era v-lo refazer um romance de paixo; sentamos que precisava de um grande sucesso, ns o estimulvamos a situar uma histria de amor nos quadros do Segundo Imprio, que ele conhecera de bem perto e sobre o qual possua anotaes excelentes. Ele no dizia no, mas permanecia hesitante, o trabalho o assustava, pois com seu sistema ter-lhe-ia sido necessrio vasculhar os documentos de toda a poca; talvez tambm no se sentisse muito livre, depois de suas estadas em Compigne; acrescentem ainda que a efabulao o preocupava em seus romances, cuja ao parece to simples, e que ele sentia muita dificuldade em contentar-se com ela. Entretanto, acabou encontrando um tema, falou-nos de uma maneira muito confusa para que eu possa reproduzi-lo claramente aqui: era a histria de uma paixo regulamentada, o vcio aburguesado e se satisfazendo sob aparncias muito honestas. Queria que fosse "simplrio". Todavia, preciso diz-lo, esse romance do Segundo Imprio, como o chamvamos, no o empolgava absolutamente. Outras idias sempre apareciam de travs, e duvido que tenha escrito alguma delas. Uma dessas idias, a que ocupou seus dois ltimos anos, era uma novela sobre Lenidas nas Termpilas. Eu o encontrei um dia muito excitado, como tomado de febre. No dormia mais noite, transtornado por esse tema que uma leitura lha havia inspirado na vspera. "Enraiveo por isso!", dizia-me. Via Lenidas partir para as Termpilas, com seus trezentos companheiros; e falava deles como de guardas nacionais que conhecera: eram bons burgueses que tinham partido com as mos nos bolsos. Em seguida, seguia-os ao longo do caminho que ele prprio havia feito quando de sua viagem ao Oriente; o que o detinha um pouco era seu desejo de rever a Grcia, mas, a rigor, teria se contentado com suas antigas anotaes. Tenho certeza de que depois de Bouvard e Pcuchet, se tivesse sobrevivido, teria se debruado sobre seu Lenidas; teria escrito duas outras novelas e teria, assim, dado um pendant aos Trs Contos. Os temas dessas novelas eram imaginados, um entre outros, a partir de uma fisiologia amorosa bem ousada.

V

Resta-me dizer como Gustave Flaubert trabalhava e qual era para ele essa perfeio que fez a alegria e o tormento de sua existncia.

Tomo um de seus livros no incio, quando o tema estava aproximadamente definido em sua cabea e j lanara um plano sumrio sobre o papel. Desde logo, abria pastas e comeava a caa aos documentos com a maior ordem possvel. Lia sobretudo um nmero considervel de obras; entretanto, preciso dizer que as folheava, principalmente, indo com um faro, do qual se gabava, pgina, frase que lhe era til.

Freqentemente, uma obra de quinhentas pginas dava-lhe apenas uma nota que escrevia cuidadosamente; s vezes, a obra no lhe dava absolutamente nada.Encontrvamos aqui uma explicao para os sete anos que levava em mdia para cada um de seus livros: perdia uns quatro anos em leituras preparatrias. Ele era arrastado, um volume o levava a outro, uma nota de rodap enviava-o a tratados especiais, a fontes que ele queria desde logo conhecer, de forma que toda uma biblioteca acabava por ser consumida nesse trabalho; e tudo isso, s vezes, por causa de um fato duvidoso, de uma simples palavra da qual no estava seguro. Por sinal, creio tambm que lhe acontecia esquecer seu romance e ampliar assim suas leituras por um prazer de erudito. Sua erudio havia se formado, com efeito, dessa maneira, vasculhando continuamente em vista de suas obras; tinha sido obrigado a retornar ao latim, havia remexido toda a Antigidade e todas as nossas cincias modernas para Salamb e A Tentao de Santo Anto, para A Educao Sentimental e Bouvard e Pcuchet. Portanto, pouco a pouco, as anotaes feitas dos livros acumulavam-se e em breve formavam enormes cadernos. Consultava igualmente especialistas, ia analisar estampas na biblioteca, corria o campo e voltava com documentos sobre os locais onde situava suas personagens. Tudo isso aumentava o monte de anotaes. Para dar uma idia de sua conscincia, basta contar que antes de escrever A Educao Sentimental folheou toda a coleo do Charivari a fim de se deixar penetrar pelo esprito do pequeno jornalismo, sob Lus Filipe; e foi com as palavras encontradas nessa coleo que ele criou sua personagem Hussonet. Citaria vinte exemplos dessa conscincia levada at a mania. Enfim, o monte de anotaes transbordava, ele tinha todos os seus documentos, ou pelo menos parava de cansao e de impacincia com seus escrpulos, as pesquisas poderiam durar sempre; chegava uma hora, dizia ele, em que sentia a necessidade de escrever. E se entregava dura tarefa. Era a que comeava sua tortura.

Lembro aqui que, depois de fazer todas as suas anotaes, demonstrava por elas um grande desprezo. As anotaes de Bouvard e Pcuchet, por exemplo, formavam um pacote considervel, uma montanha de papis que vimos sobre sua mesa durante os ltimos anos. Haveria l pelo menos dez volumes in-octavo. Cada pgina de anotao devia com freqncia se resumir numa frase. Era simplesmente matria exata, da qual devia extrair a quintessncia. Compreendemos, portanto, que terrvel tarefa, que esforo tinha a fazer para chegar a esse resumo, tanto mais que o desejava numa lngua perfeita. E a lngua tornava-se tudo, as anotaes no eram mais nada. Ele desprezava inclusive a humanidade das personagens, afundava-se na cruel retrica que se tinha feito. Conforme repetia, ser exato, no deixar escapar um erro, simplesmente honestidade para com o pblico. Isso bvio. Somente os maus espritos falam do que ignoram. Em seguida, se o pressionavam, ele exclamava que, no fundo, no ligava para a verdade, que era preciso ser um doente como ele para sentir a necessidade estpida da exatido, e que a nica coisa importante e eterna sob o sol era uma frase bem-feita.

Quando se punha a redigir, comeava escrevendo rapidamente um trecho, todo um episdio, cinco ou seis pginas no mximo. s vezes, quando a palavra no surgia, deixava-a em branco. Depois, retomava o trecho, e eram, ento, duas ou trs semanas, algumas vezes mais, de um trabalho apaixonante sobre suas cinco ou seis pginas. Ele as queria perfeitas, e asseguro que sua perfeio no pra cmoda. Pesava cada palavra, no examinava apenas seu sentido, mas ainda a conformao. Evitar as repeties, as rimas, as asperezas, era apenas o grosso da tarefa. Ele chegava ao ponto de no desejar que as mesmas slabas se reencontrassem numa frase; com freqncia, uma letra o irritava, procurava termos em que ela no aparecesse; ou ento necessitava de um certo nmero de rr, para dar ritmo ao perodo. No escrevia para os olhos, para o leitor que l de uma olhada, no canto de sua lareira; escrevia para o leitor que declama, que lana as frases em voz alta; todo o seu sistema de trabalho, inclusive, se encontrava a. Para experimentar suas frases, ele as "gritava", sozinho mesa, e s ficava contente quando elas passavam por sua "goela" com a msica que desejava ouvir. Em Croisset, esse mtodo era bem conhecido, os empregados tinham ordem para no se incomodarem quando o ouvissem gritar; s os burgueses paravam na estrada por curiosidade, e muitos o chamavam de "advogado", pensando, sem dvida, que se exercitava em eloqncia. Nada , na minha opinio, mais caracterstico do que essa necessidade de harmonia. No se conhece o estilo de Flaubert se no se "gritar" com ele suas frases. um estilo feito para ser declamado. A sonoridade das palavras, a amplido do ritmo, do, assim, fora surpreendente idia, s vezes pela amplido lrica, s vezes pela oposio cmica. Ele brilhou, assim, ao falar dos imbecis, com um movimento de rgos que os esmaga.

No posso querer dar aqui uma idia de seus escrpulos em matria de estilo. Seria preciso descer ao infinitamente pequeno da lngua. A pontuao assumia importncia capital. Ele queria o movimento, a cor, a msica, e tudo isso com essas palavras inertes do dicionrio que deveria fazer viver. No era, entretanto, um gramtico, pois no recuava diante de uma incorreo quando ela tornava uma frase mais sbria e mais sonora. Por outro lado, tendia cada vez mais sobriedade, palavra definitiva, pois a perfeio a inimiga da abundncia. Amide, pensei, sem lho dizer, que ele retomava a tarefa de Boileau sobre a lngua do Romantismo, to atravancada de expresses e de novos estilos. Castrava-se, esterilizava-se, acabava por ter medo das palavras, revirando-as de mil maneiras, rejeitando-as quando elas no entravam em sua idia e em sua pgina. Um domingo, encontramo-lo sonolento, alquebrado. Na vspera, tarde, terminara uma pgina de Bouvard e Pcuchet, pela qual se sentia muito contente, e foi jantar na cidade, aps t-la copiado sobre uma folha de grande papel-de-holanda do qual se servia. Quando retornou em torno de meia-noite, em vez de ir se deitar imediatamente, quis se dar o prazer de reler a pgina. Todavia, ficou muito emocionado, havia-lhe escapado uma repetio, a duas linhas de distncia. Ainda que no houvesse calefao em seu gabinete, e fizesse muito frio, obstinou-se em retirar essa repetio. Em seguida, viu outras palavras que o desagradavam, no pde mud-las e foi se deitar, desesperado. Na cama, impossvel dormir; virava de um lado para o outro, continuava a pensar naquelas palavras endiabradas. Bruscamente, encontrou uma feliz correo, saltou ao cho, reacendeu a vela e retornou em camiso para seu gabinete para escrever a nova frase. Depois, voltou para debaixo das cobertas tremendo de frio. Trs vezes saltou e reacendeu a vela, para deslocar uma palavra ou acrescentar uma vrgula. Enfim, no agentando mais isso, possudo pelo demnio da perfeio, trouxe a pgina, enrolou o cachecol sobre as orelhas cobriu-se completamente, e, at o alvorecer perscrutou sua pagina, crivando-a de golpes de lpis. Eis como trabalhava. Ns todos temos esses furores; mas ele tinha esses furores do comeo ao fim de seus livros.

Quando se encontrava mesa, diante de uma pgina de sua primeira redao, apoiava a cabea nas mos e durante longos minutos observava-a, como se a tivesse magnetizado. Largava a pena e no falava mais, permanecia absorvido, perdido, procura de uma palavra que fugia ou de uma expresso cujo mecanismo lhe escapasse. Turgueniev, que o vira assim, declarava que era comovente. E no se devia perturb-lo, tinha uma pacincia de anjo, ele, de hbito to pouco paciente. Era muito delicado em relao lngua, no vociferava, esperava que ela quisesse se mostrar cmoda. Dizia ter procurado palavras durante meses.

Acabo de citar Turgueniev. Um dia, assisti a uma cena bem tpica. Turgueniev, que conservava amizade e admirao por Mrime, quis nesse domingo que Flaubert lhe explicasse por que achava que o autor de Colomba escrevia mal. Flaubert leu ento uma pgina do autor; e parava a cada linha, censurando os "quem" e os "que", exaltando-se contra as expresses banais como "pegar em armas" ou "distribuir beijos". A cacofonia de certos encontros de slabas, a rudeza dos fins de frase, a pontuao ilgica, tudo foi repassado. Entretanto, Turgueniev arregalava os olhos. Ele no compreendia, evidentemente, declarava que nenhum escritor, em nenhuma lngua, se havia refinado dessa maneira. Em sua terra, a Rssia, no existia nada de semelhante. Desde esse dia, quando nos ouvia amaldioar os "quem" e os "que", eu o via freqentemente sorrir; e dizia que estvamos errados por no nos servirmos mais francamente de nossa lngua que uma das mais precisas e das mais simples. Sou de sua opinio, sempre fiquei impressionado pela exatido de seu julgamento; talvez porque, como estrangeiro, ele nos veja com o distanciamento e o desinteresse necessrios.

Citarei ainda uma frase que Flaubert escreveu ultimamente a um amigo: "Gostei muito de Balzac, mas o desejo de perfeio afastou-me pouco a pouco dele". Eis todo o Flaubert. Reuni aqui reflexes, no discuto uma teoria literria. Entretanto, quero acrescentar que esse desejo de perfeio foi, no romancista, uma verdadeira doena, que o esgotava e o imobilizava. Sigamo-lo atentamente, desse ponto de vista, desde Madame Bovary at Bouvard e Pcuchet: v-lo-emos pouco a pouco absorver-se na forma, reduzir seu dicionrio, entregar-se cada vez mais ao procedimento, reduzir mais e mais a humanidade de suas personagens. verdade, isso dotou a literatura francesa de perfeitas obras-primas. Mas havia um sentimento de tristeza ao ver esse talento to forte renovar a antiga fbula das ninfas transformadas em pedra. Lentamente, pernas esculpidas, depois a cabea, Flaubert tornava-se um mrmore.

s vezes, eu abordava essa questo diante dele, com prudncia, pois temia importun-lo. Uma crtica o transtornava. Quando nos lia um trecho, procurvamos no discutir, sob pena de deix-lo doente. Para mim, enquanto ele perseguia os "quem" e os "que", negligenciava por exemplo os "", e assim que se encontraro pginas dele nas quais os "" abundam e os "quem" e os "que" so completamente evitados. Quero dizer que o esprito, ocupado em proscrever um estilo que se encontra na natureza da lngua, entrega-se a um outro estilo, do qual ele no desconfia e que, dessa maneira, prodigaliza. Nesse purismo, entra sempre muito capricho pessoal. Entretanto, digo-o ainda, era intil tentar convencer Flaubert. Um homem que havia amide passado um dia sobre uma frase, que estava convencido de ter colocado nela tudo o que acreditava de bom, no podia abandonar sua frase por uma simples observao. Ele recusava, portanto, corrigir, ainda mais porque mudar uma palavra era arruinar toda a pgina. Cada slaba tinha sua importncia, sua cor e sua msica. Apavorava-se simples idia de deslocar uma vrgula. No era possvel, sua frase no existia mais. Quando nos leu Um Corao Simples, pedimos-lhe para retirar a frase sobre o papagaio, que Flicit toma pelo Esprito Santo: "O Pai, para enunci-lo, no tinha podido escolher uma pomba, pois esses animais no tm voz, mas sim um dos ancestrais de Loulou". Isso nos parecia, para a velha domstica, de uma sutileza de observao que roava a caricatura. Flaubert pareceu muito emocionado, prometeu-nos examinar o caso; tratava-se simplesmente de cortar a frase; mas no o fez, ele teria imaginado a obra desarranjada.

Naturalmente, aps tal labor, o manuscrito concludo assumia a seus olhos uma importncia considervel. No era vaidade, era respeito e crena num trabalho que lhe havia proporcionado tanta dificuldade, e ao qual se entregava por inteiro. Mandava fazer uma cpia, que revia uma ltima vez com zelo; e era essa cpia que ia para a tipografia. Encontrar-se-o certamente entre seus papis todos os seus manuscritos originais, escritos de prprio punho; escolhia inclusive o papel, um papel slido e durvel, com a idia de deixar um texto exato para a posteridade. Quanto cpia, ela o separava de sua obra, dizia ele; lia-a como estranho, seu livro no lhe parecia mais seu, e apartava-se dele sem sofrimento; mas se desse seu manuscrito, esse manuscrito pelo qual se apaixonara desde tanto tempo, parecer-lhe-ia que teria arrancado um pedao de sua carne. Antes de entregar o texto tipografia, gostava de ler trechos dele em casas amigas. Eram solenidades. Lia muito bem, com uma voz sonora e ritmada, lanando as frases como num recitativo, fazendo valer admiravelmente a msica das palavras, mas sem interpret-las, sem dar-lhes nuanas nem intenes; chamarei isso uma declarao lrica, e ele tinha toda uma teoria sobre isso. Nas passagens de fora, quando chegava a um efeito final, inflava a voz, subia at um estrondo de trovo, o teto tremia. Eu o vi acabar dessa maneira A Lenda de So Juliana, o Hospitaleiro, numa verdadeira trovoada do maior efeito. Depois, a impresso de seu livro era toda uma outra questo. Mostrava-se extremamente difcil na escolha de uma tipografia, declarando que nenhum tipgrafo de Paris tinha boa tinta. A questo do papel tambm o preocupava muito; queria que lhe trouxessem amostras, suscitava todos os tipos de dificuldades, muito inquieto igualmente com a cor da capa e inclusive imaginando, s vezes, formatos inusitados. Em seguida, ele prprio escolhia o tipo. Para A Tentao de Santo Anto, exigiu uma tipografia complicada, trs espcies de tipos, e teve grande dificuldade para decidir. Todos esses cuidados meticulosos provinham, repito-o, do respeito que tinha pela literatura e por seu prprio trabalho. Durante a impresso, permanecia agitado, no que corrigisse muito as provas; contentava-se simplesmente em rev-las do ponto de vista tipogrfico, pois no teria mudado nenhuma palavra, a obra era doravante para ele slida como bronze, levada maior perfeio possvel. Continuava simplesmente a se inquietar pelo lado material, escrevia at duas cartas por dia ao tipgrafo e ao editor, tremia de medo que escapasse uma correo, tomado, s vezes, por uma dvida que o fazia tomar um carro para assegurar-se se tal vrgula estava bem no seu lugar. Enfim o volume aparecia e ele o enviava a seus amigos, de acordo com listas elaboradas com muita exatido, das quais riscava as pessoas que no lhe agradeciam. A literatura, a seus olhos, era uma funo superior, a nica funo importante no mundo. Dessa forma, queria que se fosse respeitoso para com ela. Seu grande rancor contra os homens provinha em grande parte de sua indiferena pela arte, de sua secreta desconfiana, de seu medo vago diante do estilo elaborado e vivo. Havia uma expresso que amide repetia com sua voz terrvel: "O dio pela literatura! O dio pela literatura!"; e esse dio, ele o encontrava em todos os lugares, entre os polticos ainda mais do que entre os burgueses.

Tal o Gustave Flaubert que encontro em minhas lembranas, o maravilhoso escritor, o lgico to cheio de contradies. Entregara-se por inteiro s letras, a ponto de ser injusto para com as outras artes, a pintura e a msica por exemplo, que chamava com desdm de "artes inferiores". Em pintura, no tinha certamente a mnima idia crtica; nunca falava de quadros, confessava sua ignorncia; eu o vi se apaixonar um pouco apenas pelas telas de Gustave Moreau, cujo talento to elaborado tinha um grande parentesco com o seu. Quando se lhe falava de fazer ilustrar um de seus livros, entrava em violenta clera, dizendo que preciso no respeitar sua prosa para deixar colocar nela imagens que sujam e destroem o texto. Uma nica vez, e em um caso particular, acabou cedendo: lembremo-nos de que La Vie Moderne publicou sua pea com desenhos; mas ele lamentou o que chamava de sua covardia, escreveu cartas furiosas, descontente com essa publicao, que foi um de seus ltimos desgostos. Tambm no queria que lhe fizessem o retrato, e, enquanto viveu, obstinou-se; todavia, se no existe dele nenhum retrato a leo, tm-se algumas fotografias, que mandou fazer por uma senhora, num momento de fraqueza. O desenho publicado por La Vie Moderne, um desenho de Lip-hart, a partir de uma dessas fotografias, por sinal de uma semelhana perfeita. Os velhos amigos de Flaubert diziam, em tom de brincadeira, que por puro coquetismo ele se recusava a deixar-se pintar. Tivera, segundo parece, um rosto muito bonito; mas, ficando calvo muito cedo, lamentava a perda de seus cabelos e se tratava de velho, com essa paixo pela beleza que marcou a gerao de 1830. Essa paixo nos toca to pouco hoje que no compreendamos nada. Gustave Flaubert, com sua grande estatura, sua fronte larga, seu longo bigode que barrava o forte maxilar, era para ns uma figura extraordinria de pensador e escritor. Antes de concluir, direi uma palavra sobre um fato delicado, que adversrios poderiam explorar mais tarde. Quando Flaubert se viu despojado de sua fortuna para socorrer o marido de sua sobrinha, os amigos o viram to inquieto e to transtornado que procuraram um meio de tranqiliz-lo, proporcionando-lhe recursos. Pensaram num cargo de conservador de biblioteca. Inicialmente, recusou com altivez. Durante longas semanas, instigaram-no, encontrava-se ento acamado, de perna quebrada, e tiveram de ir v-lo em Croisset para convenc-lo. Em Paris, o ministro mantinha a nomeao pronta. Foi assim que Gustave Flaubert, durante os ltimos dezoito meses de sua existncia, recebeu do Estado uma penso disfarada de trs mil francos.

De resto, ele no deve mais nada ao pas. No pertencia Academia e nunca teria pertencido, pela simples razo de que recusava categoricamente apresentar-se a ela. Toda idia de arregimentao fazia-lhe horror. Em 1866, o Imprio o condecorou. Todavia, posteriormente, por volta de 1871, retirou sua fita e no a usou mais. Quando o interrogamos, respondeu-nos que acabavam de condecorar X, um patife, e que ele no queria mais a cruz, uma vez que um patife a portava2. Na minha opinio, Flaubert, em seu orgulho legitimo, sofria principalmente por ser apenas cavaleiro, quando tantos outros, que no eram de seu nvel em literatura, ostentavam o grau de oficial e at mesmo de comendador; e preferia colocar-se parte do que aceitar semelhante hierarquia. Entretanto, sentia o lado fraco de sua situao. Num jantar, na casa de um de nossos amigos comuns, a conversao tendo se desviado para sua teimosia de no mais portar a fita vermelha, um burgus lhe disse claramente que, visto que ele no a queria, no deveria t-la aceitado; o que o lanou numa dessas cleras que ele parecia no controlar e que incomodavam todo mundo quando explodiam assim, mesa ou numa reunio. Contudo, no se trata de um fato estranho e repleto de ensinamentos? Eis um ilustre escritor que permanecer a glria da literatura francesa; ele se deu por inteiro grandeza de seu pais, e seu pas s soube recompens-lo com uma cruz, cuja banalidade e injustia hierrquica deviam acabar por feri-lo na conscincia de seu gnio. Dessa forma, preferiu voltar a ser um simples cidado, e quando morreu no era nada, nem de nada: ele era Gustave Flaubert.2.Em relao a isso, Maurice Sand me escreveu uma carta da qual extraio estas linhas interessantes: "O que o senhor conta da condecorao to verdadeiro que a supresso de sua fita vermelha aconteceu em Nohant, diante de ns, em 1874, durante um almoo, ao receber a notcia da nomeao de X Legio de Honra. Jogou tudo em seu caf, charuto, fita e boto, deixando-se levar por uma de suas cleras que o senhor comenta. No dia seguinte, no pensava mais nisso. Mas a fita permaneceu no fundo da xcara e no a revi mais". Devo acrescentar que um velho amigo de Flaubert afirmou-me ter ouvido dele que havia retirado sua fita ao saber da morte de Napoleo III, por razes sentimentais e complicadas das quais era muito capaz. Para quem o conheceu, as duas anedotas so verossmeis, e por sinal, podem caminhar juntas. Disseram-me inclusive que ele s aceitou a cruz a pedido de sua me, que acabava de morrer quando cessou de port-la. Tudo isso combina: sua clera de Nohant, a morte do homem que o condecorara, e de sua me, que no estava mais l para sofrer por sua teimosia. Mas, quaisquer que sejam as causas, continuo a crer que, se ele se obstinou, f-lo por um sentimento de legtimo orgulho.

EDMOND E JULES DE GONCOURT

I

Antes de mais nada, til examinar o que era o romance na Frana h vinte anos. Essa forma literria essencialmente moderna, to leve e to ampla, dobrando-se a todos os gnios, acabara de receber um brilho incomparvel, graas s obras de toda uma manifestao de escritores. Tnhamos Victor Hugo, um poeta pico que modelava a prosa com seu polegar poderoso de escultor; trazia preocupaes de arquelogo, de historiador, de poltico, e do cafarnaum de suas concepes fazia brotar, apesar de tudo, pginas extraordinrias; seu romance permanecia grandioso, dizia respeito, ao mesmo tempo, ao poema, ao tratado de economia poltica e social, histria e fantasia. Tnhamos George Sand, esprito de uma lucidez perfeita, escrevendo sem fadiga numa linguagem feliz e correta, sustentando teses, vivendo no pas da imaginao e do ideal; essa escritora apaixonou trs geraes de mulheres, e s suas mentiras envelheceram. Tnhamos Alexandre Dumas, o contista inesgotvel, cuja verve nunca se enfadou, ele era o gigante das narrativas vivamente realadas, um gigante bom-menino que parecia ter-se dado a misso de simplesmente divertir seus milhes de leitores; fazia a vontade da massa, no dava muita importncia s qualidades literrias, dizia o que tinha de dizer como o teria dito a um amigo, num canto da lareira, no decorrer da conversa; mas conservava tal amplitude, tal abundncia de vida, que permanecia grande, apesar de sua imperfeio. Tnhamos Mrime, ctico at as medulas, contentando-se, de vez em quando, em escrever uma dzia de pginas secas e finas, nas quais cada palavra era como uma ponta de ao longamente afiada. Tnhamos Stendhal, que exibia o desdm pelo estilo, que dizia: "Leio todas as manhs uma pgina do Cdigo para pegar o tom"; Stendhal, cujas obras davam um calafrio, por todas as coisas obscuras e apavorantes que se desejava ver nelas, era um observador, o psiclogo liberto da preocupao da composio, exibindo um dio pela arte; hoje, j no se estremece diante dele, e ele visto como o pai de Balzac. E tnhamos Balzac, o mestre do romance moderno; cito-o por ltimo para fechar a lista depois dele; este se havia apoderado do espao e do tempo, havia tomado todo o lugar ao sol, to bem que seus sucessores, aqueles que lhe seguiram as pegadas, tiveram que procurar por muito tempo antes de encontrar algumas espigas para colher. Balzac obstruiu as vias com sua enorme personalidade; o romance foi como sua conquista; o que no pde fazer, indicou-o, de modo que o imitassem apesar de tudo, mesmo quando crem escapar de sua influncia. No h, no momento, sequer um romancista francs que no carregue nas veias algumas gotas do sangue de Balzac.

Tais eram os mestres. Eram to numerosos, partilhavam a tal ponto o imprio das letras, o alento pico, o ideal, a imaginao, a observao, a realidade, que era impossvel traar uma nova vereda ao lado das suas. O romance parecia ter-se esgotado. Forosamente, os romancistas iam-se repetir. E, com efeito, os imitadores pululavam, nenhum escritor possua a fora, mesmo no campo revolvido e fecundado por Balzac, de conquistar um pedao de terra e nela ceifar segundo sua prpria vontade. Foi ento que, na hora em que desaparecia a esperana de um renascimento, surgiu um grupo de romancistas de originalidade imprevista e cujas obras foram como a florescncia dos ltimos vinte anos de nossa literatura. Sem dvida, esses escritores so os filhos diretos dos autores que citei mais acima. Procedem diretamente de Balzac, do qual detm o instrumento de anlise; e, por outro lado, tomam emprestado de Victor Hugo o sentimento revolucionrio da cor. Se seus predecessores no tivessem vivido, talvez eles no tivessem nascido; so necessariamente uma continuao. Mas no permanecem menos por isso como um desabrochar; a rvore que se acreditava esgotada conservava, bem no alto, brotos e flores. Houve assim a retomada de um raro sabor. No so frutos hbridos, vindos fora de estao, empobrecidos de seiva; so, ao contrrio, como um refinamento de cor, de odor e de gosto. Diante desse prodgio de produo, todas as esperanas, doravante, parecem permitidas.

Os romancistas de quem falo formam um pequeno grupo muito compacto. No quero estabelecer entre eles nenhuma comparao. Basta-me constatar que conseguiram, em condies de inteligncia excepcionais, conservar no romance uma vida intensa. Denominaram-nos realistas, naturalistas, analistas, fisiologistas, sem que qualquer uma dessas palavras indique claramente seu mtodo literrio; ainda mais que cada um deles tem uma fisionomia perfeitamente distinta. Por sinal, entendo unicamente destacar, hoje, os Goncourt do grupo, estud-los parte, tomar seu caso pessoal para pintar o momento literrio por inteiro.

Os Goncourt, por seu lado, introduziram uma nova sensao da natureza. Esse seu trao caracterstico. No sentem como sentiram antes deles. Possuem nervos de uma delicadeza excessiva, que decuplam as mnimas impresses. O que eles viram, exprimem em pintura, em msica vibrante, resplandecente, repleto de uma vida pessoal. Uma paisagem j no uma descrio; sob as palavras, nascem os objetos; tudo se reconstri. H, entre as linhas, uma contnua evocao, uma miragem que desvela diante do leitor a realidade das imagens. E mesmo a realidade aqui ultrapassada; a paixo dos dois escritores deixa-a tremendo de febre de arte. Do verdade um pouco de sua emoo nervosa. Os mnimos detalhes animam-se como por um tremor interior. As pginas tornam-se verdadeiras criaturas, todas ofegantes de seu excesso em viver. Assim tambm a cincia de escrever acha-se transposta; os romancistas portam um pincel, um cinzel, ou ento exercitam-se ainda com algum instrumento. O objetivo a alcanar j no contar, colocar idias ou fatos uns aps os outros, mas tornar cada objeto apresentado ao leitor, em seu desenho, sua cor, seu odor, o conjunto completo de sua existncia. Da uma magia extraordinria, uma intensidade de rendu1 desconhecida at aqui, um mtodo que se assemelha ao espetculo e que v claramente todas as materialidades da narrativa. Dir-se-ia que se trata da natureza descrita por dois clarividentes, animada, exaltada, os seixos tendo sentimentos de seres vivos, as personagens dando sua tristeza ou sua alegria aos horizontes. Toda obra tornava-se um tipo de vasta neurose. E a verdade exata sentida e retratada por artistas doentes por sua arte.1Termo de Belas-Artes Diz-se dos objetos ou detalhes bem-estudados e rigorosamente exprimidos (N do T)

Para melhor me fazer compreender, acrescentarei que os Goncourt no contam de modo algum com a imaginao do leitor. Outrora, um escritor indicava, por exemplo, que seu heri passeava num fim de tarde, num jardim; e cabia ao leitor imaginar o jardim, o crepsculo caindo sobre as folhagens. Os Goncourt mostram o jardim, usufruem dele, esto imersos no frescor da tarde. E no se trata, para eles, do prazer que deviam experimentar os antigos poetas descritivos ao analisar belas frases bem-feitas. A retrica no entra em nada na aventura. Os romancistas simplesmente obedecem a essa fatalidade que no lhes permite abstrair uma personagem dos objetos que a cercam; eles a vem em seu meio, na atmosfera em que est imersa, com suas vestes, o sorriso de seu rosto, os raios de sol que a atingem, o fundo de verdor sobre o qual se destaca, tudo o que a circunstancia e lhe serve de quadro. Essa a nova arte: os homens j no so estudados como simples curiosidades intelectuais, libertadas da natureza ambiente; acredita-se, ao contrrio, que os homens no existem sozinhos, que esto em relao com as paisagens, que as paisagens nas quais caminham completam-nos e explicam-nos. Certamente, para retomar minha comparao de ainda h pouco, se os Goncourt constatassem que seu heri passeia num jardim, temeriam ser incompletos; suas sensaes so demasiado mltiplas para que aceitem essa pobreza de rendu; e conservariam a contrariedade de no ter dito tudo, de ter permanecido aqum do que eles prprios experimentaram ao passear num jardim, numa tarde, num crepsculo tpido. Ressentem-se, antes de mais nada, da necessidade de satisfazer o artista que existe neles. Assim, em algumas frases indicam a hora, as sombras alongadas das rvores, o perfume da relva; e sua personagem realmente um homem que caminha e cujo passo ouvimos sobre a areia da alameda. Os leitores se lembram; toda a cena evocada diante deles; j no precisam criar uma atmosfera atrs dos atos da personagem. Em relao a isso, fiz uma observao bastante curiosa. Os leitores que se queixam da extenso das descries so justamente aqueles que possuem os sentidos pesados e a imaginao preguiosa; esses jamais ressentiram algo, so incapazes de reconstruir pela lembrana os espetculos diante dos quais passaram; do mesmo modo, acham os poetas mentirosos. A noite tem essa suavidade melanclica? As margens de um rio exibem recantos de sombra to adorveis? So cegos que negam as cores. Quanto maior for a sensibilidade nervosa de um escritor, uma maneira prpria de sentir e exprimir, maior o risco de ele no ser compreendido. Para s-lo, preciso que encontre temperamentos semelhantes ao seu. A grande multido, habituada a sensaes muito menos complexas, protesta contra a excentricidade, contra a investigao. Todavia o escritor, na maioria das vezes, obedeceu ingenuamente ao organismo nervoso que faz a sua originalidade. Os Goncourt so, assim, daqueles que o pblico julga mal, porque h poucas pessoas no publico que sentem como eles.O que me surpreende em suas obras, antes de tudo, esse modo particular de sentir. Abre um novo mundo. Entretanto, faltava uma expresso original a essa notao original da vida. Chego ao estilo que eles criaram. sobretudo por seu estilo que adquiriram um grande lugar na literatura contempornea. Seu ideal no a perfeio da frase. Nesse momento, na Frana, vejo, entre os escritores de grande envergadura, uma tendncia a um purismo extraordinrio. Proscrevem-se os "que", os "quem"; escreve-se em prosa com mais dificuldade do que em verso; busca-se a msica da frase, esculpe-se cada palavra; e isso, para certos jovens, imitadores dos mestres, chega a um tipo de loucura ponderada. Os Goncourt no se incomodam com as repeties de palavras; encontrei seis vezes a palavra "pequeno" numa de suas pginas. Preocupam-se pouco com a eufonia, amontoam os genitivos uns aps os outros, procedem por longas enumeraes, o que produz um balanceamento montono. Mas possuem a vida do estilo. Todos os seus esforos tendem a fazer da frase a imagem exata e instantnea de sua sensao. Exprimir o que sentem, e exprimi-lo com frmito, o primeiro impacto da viso, eis o seu objetivo. Alcanam-no de forma admirvel.No conheo em nenhuma lngua um estilo mais pessoal, uma evocao mais feliz das coisas e dos seres. Sem dvida, pode-se-lhes censurar, s vezes, um pouco de maneirismo; em sua contnua busca da expresso nova e precisa, no surpreendente que a frase, de vez em quando, se complique e perca sua sade robusta. No obstante, quanta felicidade de expresso! E como quase sempre a frase tem a cor do cu da qual fala, o perfume da flor que ela cita! Os Goncourt chegam a esse prodgio de exprimir por inverses de formas, por adjetivos no lugar de substantivos, por procedimentos deles, que so a marca inesquecvel de seu estilo. S eles, no momento, tm esses avessos de frase em que persiste a impresso dos objetos. Pintam at a mais fugaz tepidez que circula sobre a pele; descrevem de uma forma definitiva, em poucas palavras, as paisagens mais complicadas, um aguaceiro que cai, uma rua repleta de passantes, um ateli de pintor cheio at o teto de bibels. Tudo o que seus olhos registram ganha vida e emoo. Da esse estilo verdadeiro, divertido como um lbum que se folheia, bem ardente com a chama que se alastra por seus membros, e do qual se pode dizer que a lngua inventada para traduzir um mundo de sensaes recm-descobertas.Os Goncourt esto a por inteiro. verdade, eles tm qualidades dramticas de romancista, suas obras esto repletas de documentos humanos tomados na realidade da vida moderna, vrias de suas criaes so perscrutadas por mos de analistas poderosos. Todavia, possuem iguais nessas matrias. Onde ningum os supera, onde so mestres indiscutveis, , digo-o uma vez mais, no nervosismo de sua sensao e na lngua inventada por eles para traduzir as impresses mais suaves, que foram os primeiros a observar. Se esto ligados a seus antecessores, no se parecem com nenhum deles. Devem-lhes apenas a ampliao da arte, que tornou todas as tentativas possveis. Eles so os romancistas artistas, os pintores do verdadeiro pitoresco, os estilistas elegantes que se envilecem por amor arte, os instrumentistas mais extraordinrios no grupo dos criadores do romance naturalista contemporneo.II necessrio conhecer sua histria literria para que se tenha uma idia justa de suas obras e de seu papel.Eram dois irmos, Edmond, o mais velho, e Jules, o mais novo, com uns dez anos de diferena de um para o outro. Hoje, Jules est morto, Edmond ultrapassou os cinqenta. Nunca se deixaram, seno no dia abominvel em que o caula partiu, levando consigo a metade do primognito. Durante vinte anos trabalharam mesma mesa. Era uma colaborao como natural, cujo esforo e marca era impossvel encontrar em seus livros. O pblico os havia aceitado como um ser cmico. No existia sequer uma linha assinada s por Edmond ou Jules; sempre apareciam lado a lado, necessrios um ao outro, tendo feito de seus dois talentos um nico. A crtica estancava com respeito diante do segredo dessa colaborao; ela no procurava levar em considerao cada um dos dois irmos. Por sinal, a colaborao no acarretava para eles os esvanecimentos que ela amide produz. As qualidades do escritor em duas pessoas se desenvolviam naturalmente no mesmo sentido, sem nenhuma confuso, como se uma nica vontade tivesse presidido o trabalho. Da primeira ltima linha que eles escreveram, encontramos o mesmo temperamento, a mesma paixo; muitas obras que passaram por um nico crebro no tm essa admirvel unidade, essa originalidade assinando cada pgina com um trao inesquecvel. O dia em que a morte chegou, ela levou mais do que um homem, fulminou a metade de outro, em seu talento e em sua glria. uma histria atroz. Os dois irmos, tendo abandonado os bairros populosos de Paris, onde padeciam do barulho da rua, acabavam de se refugiar em Auteuil, num palacete encantador e silencioso, do qual conseguiram fazer um lugar de felicidade e trabalho. A fortuna lhes sorria, no que fossem muito ricos, mas tinham esse amplo conforto que permite ao artista seguir seu sonho, trabalhar na hora desejada, sem esperar o sucesso financeiro de um livro. Seu palacete era sua loucura. Haviam investido nele uma grande parte de seu capital. Embelezavam-no, fazendo dele um refgio to sonhado, com um jardim plantado como um buqu de grandes rvores, florido de rosas, rosas amarelas das quais um p extraordinrio se enrolava porta do salo. Encontravam-se espaosamente instalados, a dois passos do Bois de Boulogne, em cmodos claros, repletos de objetos de arte, vivendo s portas de Paris, como retirados das primeiras febres do ofcio e prontos para a ecloso das obras-primas. E foi l, to logo terminada sua instalao, quando enfim haviam realizado esse desejo de impor silncio em torno de sua mesa de trabalho, que a morte veio lanar sua mortalha entre eles. O desmoronamento foi terrvel. H oito anos Edmond carrega sua ferida consigo.Entro agora nas particularidades que explicam, na minha opinio, certos aspectos do talento dos Goncourt. Eles comearam por ser de tal forma sensveis ao mundo visvel, s formas e s cores, que quase foram pintores. Jules gravava, fazia gua-forte. Ambos desenhavam, coloriam seus desenhos em aquarela. Conservaram desses primeiros trabalhos o cuidado com a pincelada exata, a finura e o pitoresco do trao, o conjunto terico dos tons e seu valor. Inclusive, mais tarde, quando tiveram de fazer uma descrio capital, foram tomar uma vista do horizonte, trouxeram para seu gabinete uma aquarela, assim como outros fazem anotaes manuscritas numa agenda. Compreende-se toda a fidelidade que semelhante procedimento lhes dava. Em cada pgina reencontrar-se-, assim, a pincelada viva e sentida, o croqui do artista. E no so pintores, no sentido um pouco pesado e completo do termo, mas gravadores cuja ponta permanece livre, aquarelistas que com razo se contentam com dois ou trs tons combinados com inteligncia para dar vida a uma paisagem ou a uma figura.Outro trao caracterstico: os Goncourt, antes de abordar o romance, vasculharam em todos os sentidos o sculo XVIII. Eram atrados por essa poca de elegncia, de graa livre, de criao fascinante, por analogias de temperamento, vagos pesares de no terem nascido cem anos mais cedo. Publicaram estudos histricos, do estilo mais original e do interesse mais vivo; eis aqui alguns livros: A Mulher no Sculo XVIII, Retratos ntimos do Sculo XVIII, As Amantes de Lus XV, Histria de Maria Antonieta, Histria da Sociedade Francesa durante a Revoluo, Histria da Sociedade Francesa durante o Diretrio. S quero julgar neles o romancista, e constato simplesmente esses grandes trabalhos, os anos que viveram na preocupao com o sculo passado. Ao mesmo tempo, estudavam os artistas dessa poca, os mestres, Watteau, Prud'hon, Greuze, Chardin, Fragonard. Longa coabitao com um mundo desaparecido, do qual sua arte de escritores conservou alguma coisa, um gosto delicioso, um modo de dizer gil e um pouco confuso, uma distino persistente, mesmo nos quadros ousados da rua parisiense. Deve-se procurar suas razes nesse sculo XVIII que eles amaram: descendem dele; so seus filhos. Assim, nada de clssico neles: so de pura tradio francesa. Foi em Diderot que aprenderam a ler. Encontramos seu talento por inteiro nas saias entufadas da poca, as saias de cetim de pregas reluzentes, perfumadas de ris, animadas pelo balano adorvel dos quadris. Acrescente-se que, como observadores, vem o mundo moderno, sentem como curiosos que conhecem a rua, at a lama negra dos crregos, e tero a msica de seus livros, essa msica to fina sobre temas to brutais. Foi com os fragmentos do sculo XVIII que fabricaram um estilo; para reproduzir o cafarnaum das idias contemporneas, o desalinho de nossa sociedade, a vida parisiense turbulenta, inflamada, superficial e alvoroada, nada encontraram de melhor do que beber na fonte francesa por excelncia, num sculo em que o gnio da nao encontrava-se em gestao.Enfim, e este o ltimo trao, os Goncourt so colecionadores. Enquanto estudavam o sculo XVIII, reuniram documentos de todos os tipos; no lhes bastava ver, queriam possuir, tomados por essa paixo pelo bricabraque que como uma das formas de arte, e compravam tapearias, faianas, desenhos principalmente. Sua coleo de desenhos uma das mais completas que existem. Entretanto, faziam as perambulaes dos colecionadores. Perambulavam dias inteiros, reviravam as lojas dos revendedores, apaixonavam-se por alguma gravura que completasse seus portaflios. No se exerce impunemente semelhante ofcio. Permanece no crebro uma curiosidade de antiqurio, um amor pelo bibel. Em seguida, isso passa na concepo de uma obra e no estilo. Os Goncourt confessam aqui e acol sua paixo; tm descries bem ardentes de ternura por um monte de velharias; e mesmo isso vai mais longe, o gosto pela antigidade revela-se at na pintura das coisas e dos fatos modernos, por um certo pitoresco da frase, uma expresso particular que evoca a busca do detalhe minucioso. No se trata aqui de crticas, mas de explicaes. Creio ser til penetrar em todas as fontes deste estilo que colocou os Goncourt no primeiro plano de nossos escritores.Foi por volta de 1860 que os Goncourt publicaram seu primeiro romance. Em uma dcada escreveram seis. A atitude do pblico em relao a essas obras foi repleta de ensinamentos amargos. No conheo um exemplo mais deplorvel do que a perfeita indiferena da multido pelas obras de arte. E observem que os Goncourt no eram desconhecidos. Demonstrava-se uma grande simpatia por suas pessoas. A crtica ocupava-se muito com eles, verdadeiros alvoroos se produziram, inclusive em torno de alguns de seus romances. Depois, esses romances caam na indiferena dos leitores. Em dez anos s foram vendidas duas edies de seu Germinie Lacerteux, aquele de seus livros que fez mais sucesso. Os leitores no compreendiam; entediavam-se diante dessas pginas to curiosamente perscrutadas e animadas com uma vida to intensa. Isso os incomodava em seus hbitos. Alm disso, havia a principal razo: eram livros imorais, cuja leitura deveria ser proibida s pessoas de bem. Na verdade, os dois irmos nada faziam para atrair o pblico; no adulavam seus gostos, serviam-lhes bebidas amargas, muito desagradveis aps as amenidades dos livros de sucesso; da mesma forma, refletindo bem, no era de surpreender que o grande pblico se mantivesse afastado. Mas os artistas tm nervos de mulher; mesmo quando nada fazem para agradar, sonham em ser amados; e, se no so amados, sentem-se muito infelizes. Os Goncourt devem ter sofrido muito, assim como outros de seus contemporneos que no quero citar. O mais jovem, Jules, morreu pela indiferena da multido. O insucesso de seu ltimo romance Madame Gervaisais, golpeou-o no corao com um ferimento incurvel. Ah! Que misria, ser superior e morrer pelo desprezo da massa! Recusar a estupidez e no poder viver sem o aplauso dos estpidos!Na carreira literria dos Goncourt, h um episdio muito instrutivo. Tinham escrito uma pea em trs atos, Henriette Marechal, de uma aparncia nova e pessoal. Tratava-se do amor da mulher de quarenta anos, a paixo advinda numa idade avanada de uma burguesa por um jovem, essa perturbao que s vezes acontece entre as mes de famlia, entre as mulheres virtuosas, cujo recndito do corao nunca foi contentado. Mme Marchal tem uma filha adulta, Henriette, que assiste, calada e rgida, paixo de sua me. No desfecho, o marido toma conhecimento de tudo; todavia, quando ele entra num salo onde cr haver um homem escondido, Henriette que se atira de joelhos, no meio da escurido, e que recebe em pleno peito o tiro de revlver que ele dispara queima-roupa. A grande originalidade dessa pea era sobretudo o primeiro ato, cujo cenrio representava o corredor dos camarotes de foyer, no Opra, numa noite de baile de mscaras. Os Goncourt tinham introduzido a, no dilogo, nos episdios, seu senso to fino do pitoresco moderno, a verve e o esprito de Paris aguados por seu temperamento de artista. A pea foi encenada em dois ou trs teatros; ela assustava os diretores. Enfim, os autores tiveram a boa sorte de ver sua obra aceita no Comdie Franaise. Correu o boato no pblico de que uma alta proteo, a da princesa Mathilde, havia aberto as portas do teatro. E eis que, no dia da estria, a cabala mais tempestuosa, que h muito tempo no se vira, eclodiu desde as primeiras palavras pronunciadas pelos atores; tinham inclusive assobiado antes que o pano de boca fosse levantado. A juventude das escolas vaiava os protegidos da prima do imperador. Acrescento que o primeiro ato escandalizou primeiro ato escandalizou os velhos habitus do Comdie Franaise. Mscaras e gria na casa de Racine e Corneille, isso provocou o brado de sacrilgio. Henriette Marchal, suspensa por ordem, s teve algumas representaes, batalhas que ocuparam toda Paris. E, vejam que aventura estranha, foi somente nesse momento que o nome Goncourt, conhecido at ali por um nmero restrito de admiradores, disseminou-se de repente entre o grande pblico. Um insucesso ruidoso tornou-os clebres. A pea impressa vendeu um nmero de exemplares mais considervel do que qualquer um de seus romances. Tornaram-se e permaneceram ainda para muitas pessoas os autores de Henriette Marechal. No uma ironia cruel e que faz ver de que misria feita a popularidade? preciso que tentem arruinar sua carreira para que o povo se volte e se interesse.Antes de abordar a anlise dos romances dos Goncourt, gostaria de dizer uma palavra discreta sobre sua colaborao. No se trata de assinalar a contribuio de um ou de outro, o que eu veria como uma ao ruim. Todavia, interessante, do ponto de vista do ofcio, indicar qual foi seu modo de trabalhar em comum. Eles se isolavam, viviam um tema durante muito tempo. Sobretudo reuniam um grande nmero de anotaes, vendo tudo no real, impregnando-se do meio onde os episdios se iriam desenvolver. Em seguida discutiam o plano, decidiam juntos as grandes cenas, delineavam assim toda a obra. Enfim, tendo chegado redao, a essa execuo que no mais comporta o debate oral, sentavam-se ambos mesma mesa, aps ter preparado uma ltima vez o trecho que contavam escrever no dia; e ali redigiam esse trecho cada um do seu lado, faziam duas verses dele, segundo seu mtodo pessoal de ver. Essas duas verses, que eles liam um para o outro, eram em seguida fundidas numa nica; conservavam de uma e de outra parte as coisas felizes, as descobertas luminosas; eram as contribuies de dois espritos livres, como o melhor deles mesmos que desnatavam e do qual faziam um todo slido. Compreende-se, assim, a unidade constante das obras produzidas; tinham seu sangue, mas seu sangue mesclado fonte da vida. Um no havia escrito essa pgina, o outro aquela. Cada pgina pertencia a ambos. Deve-se acrescentar este fenmeno fatal: com o tempo, nessa comunidade contnua de criao, os dois crebros puseram-se a pensar e exprimir do mesmo modo; quase sempre a mesma idia, a mesma imagem chegava aos dois irmos ao mesmo tempo. S restava escolher as nuanas. Essa fraternidade na produo ia to longe que seus escritos se pareciam. Tocante absoro de dois seres, casamento ntimo de inteligncias, caso extraordinrio de talento duplo que permanecer com toda certeza nico na histria literria. Eles so um s, deve-se falar deles como se falaria de um nico grande escritor.IIIOs dois primeiros romances que os Goncourt publicaram foram Irm Philomne e Charles Demailly. Passarei rapidamente sobre essas duas obras, nas quais todas as qualidades dos autores j se mostram, todavia, em estado de ensaio e com bem menor intensidade do que nas obras seguintes.Irm Philomne um estudo de hospital e de anfiteatro. O drama se sustentaria em dez linhas. Um interno, Barnier, apaixona-se por uma religiosa, Irm Philomne; num dia de brutalidade, ele a toma em seus braos e a beija; em seguida, diante do desprezo silencioso, da clera desdenhosa da irm, embriaga-se de absinto e acaba por se aplicar voluntariamente uma injeo, da qual morre. Na ltima pgina, v-se irm Philomne penetrar no quarto de Barnier e roubar uma mecha de cabelos que acabara de ser cortada da cabea do morto para envi-la sua me. As grandes qualidades desse livro j so o cenrio maravilhoso, essas salas de hospital pintadas com o frmito de horror que as atravessa. Entretanto, as melhores pginas so o captulo em que se encontra estudada a infncia de irm Philomne; h a, sobretudo, uma amizade de penso, a exaltao religiosa de duas jovens que de uma delicadeza de observao e de uma energia de colorido extraordinrias. Todo esse captulo est impregnado de infncia; e se, mais tarde, irm Philomne, que se tornou mulher e fez os seus votos, escapa fatalmente da anlise dos autores, possuram-na a por inteiro, com sua sensibilidade que desperta e a religio que se abre para ela como um grande amor.Charles Demaly uma stira, o estudo vingativo da pequena imprensa na Frana, por volta de 1855. Os Goncourt desejaram mostrar os bastidores de um pequeno jornal, com suas vergonhas, seu cinismo, suas misrias e seu esprito. Pintaram seis ou sete retratos de redatores do Scandale, um ttulo inventado, sob o qual se poderia adivinhar o ttulo de um, jornal que teve desde esse tempo uma grande fortuna. Esses retratos tendem um pouco, talvez, para o negro. Quanto ao drama, ainda dos mais simples. O melhor do grupo, Charles Demailly, um desses que tem um livro no ventre, comete a asneira de se apaixonar por uma atriz e despos-la. Marthe, um tipo de maldade fria, estupidez e egosmo, em que os dois irmos puseram todos os seus agravos de celibatrios contra a mulher, inflige a seu marido uma tortura abominvel, engana-o, embrutece-o, acaba por vaiar uma de suas peas e troca-o, sob o golpe de uma doena cerebral, por um tipo de bronco que esqueceu at a prpria lngua. Sempre, por sinal, as mesmas qualidades de estilo. Aqui mesmo o dilogo adquire essa leveza, esse imprevisto, esse ar verdadeiro que far mais tarde de um dilogo dos Goncourt como que um fragmento de uma verdadeira conversao. Ningum ainda surpreendeu tanto quanto eles a cadncia da frase falada. Fao algumas reservas quanto ao prprio fundamento do romance. Os jornalistas no tm tanto esprito quanto se lhes concedem. Alm disso, parece que viram apenas de longe o meio do qual falam. No h, na minha opinio, bastante solidez, bastante bonomia nesse estudo de um mundo que s as burguesas ainda imaginam satnico e desenfreado.Chego ao terceiro romance dos Goncourt, Rene Mauperin. Esse o seu romance mais romance; quero dizer que se trata de uma histria bastante complicada e de caracteres estudados com grande cincia do meio e da poca. Para muitas pessoas, para aquelas a quem a personalidade artstica assusta um pouco e que preferem a nudez e a anlise, Rene Mauperin a obra-prima dos Goncourt. A inteno dos autores foi pintar um ngulo da burguesia contempornea. Sua herona, Rene, a figura mais em voga, uma moa estranha, metade rapaz, educada na ignorncia casta das virgens, mas que intuiu a vida; uma criana mimada pelo pai, alma de artista, temperamento nervoso e encantador, conduzida ao estrume de uma civilizao avanada, a mais adorvel garota que se possa imaginar, falando gria, imitando e fingindo, desperta para todas as curiosidades e de um orgulho, de uma lealdade, de uma honestidade masculina. Ao lado dela h um irmo que igualmente uma maravilha de verdade; o jovem srio, o tipo da ambio correta, tal como fazem os costumes do parlamentarismo; um rapaz muito forte que dorme com as mes para desposar as filhas. Em seguida vem toda a alegria dos burgueses e das burguesas, de uma delicadeza de esboo, sem caricatura, pintados de uma s vez: so os filhos de 1830, os revolucionrios enriquecidos, satisfeitos, tornados conservadores e conservando de seus dios apenas o dio pelos jesutas e pelos padres. Alguns captulos so de um cmico perfeito, de uma stira sem violncia, muito verdadeira. Na segunda parte da obra vem o drama. O irmo de Rene adotou um ttulo nobilirio para ajud-lo em seu casamento. Entretanto, resta um nobre com esse nome. Avisado por Rene, este provoca o jovem e o mata. Dessa forma, Rene, apavorada por sua atitude, morre lentamente de uma doena do corao; uma agonia aflitiva que dura quase um tero do volume; nunca a aproximao da morte foi estudada com uma pacincia mais dolorosa, e toda a arte de estilo dos romancistas, toda a sua felicidade de expresso se encontra a, para retratar at os mais fugazes frmitos do mal. No conheo nada de mais tocante nem de mais terrvel.Confesso preferir Germinie Lacerteux dentre os romances dos Goncourt. nessa obra que eles deram a nota mais aguda e mais pessoal. Penso que sempre preciso escolher, na bagagem de um escritor, para coloc-la acima das outras, a obra que mais intensa, fora das questes de perfeio e equilbrio. Somente essa contm todo o escritor e merece viver. Em Germinie Lacerteux, os Goncourt realizaram essa obra-prima. a histria de uma domstica, da domstica de uma velha senhorita. No posso infelizmente entrar na anlise desse drama de um corpo e uma alma. Os fatos so aqui puramente fisiolgicos; o interesse no est nos incidentes, mas na anlise do temperamento dessa moa, de sua runa, de suas lutas, de sua agonia; e seria preciso anotar uma a uma as frases pelas quais passa seu ser. Germinie ama um jovem operrio, Jupillon, quase uma criana, um desses operrios de Paris nascidos no vcio. Por ele, para conserv-lo e compr-lo, ela chega at a roubar sua patroa. uma lenta degradao moral que a empurra para a prostituio, quando seu amante a abandona. Ela necessita do amor como precisamos do po que comemos. Encontramos a pginas de uma audcia cruel. Em seguida, uma noite, Germinie permanece sob uma chuva de inverno para rever Jupillon sentado mesa num cabar; e morre dessa ltima estao de seu calvrio.O romance, quando de sua publicao, produziu um escndalo enorme. Declararam-no obsceno, a crtica segurou pinas para virar as pginas. Ningum, por sinal, pronunciou a palavra justa. Germinie Lacerteux, em nossa literatura contempornea, um marco. O livro faz o povo entrar no romance; pela primeira vez, o heri de bon e a herona de touca de tecido so a estudados por escritores de observao e de estilo. Alm disso, repito-o, no se trata de uma histria mais ou menos interessante, mas de uma verdadeira lio de anatomia moral e fsica. O romancista joga uma mulher sobre a pedra do anfiteatro, a primeira mulher surgida, a domstica que atravessa a rua de avental; disseca-a pacientemente, mostra cada msculo, expe os nervos, busca as causas e narra os efeitos; e isso basta para exibir todo um lado sangrento da humanidade. O leitor sente os soluos lhe subir garganta. Acontece que essa dissecao um espetculo lancinante, cheio de elevada moralidade. As pessoas honestas que jogaram tanta lama em Germinie nada compreenderam da lio. Que se d a Germinie um homem gentil como marido que a ame, que tenha filhos, que se a retire desse meio de vcio fcil onde suas delicadezas se revoltam, que suas necessidades legtimas sejam contentadas, e Germinie permanecer moa honesta, no ir vagar como uma loba nos bulevares para saltar ao pescoo dos homens que passam.IVUma das tendncias dos romancistas naturalistas quebrar e ampliar o quadro do romance. Querem sair do conto, da eterna histria, a eterna intriga, que conduzem as personagens atravs das mesmas peripcias, para mat-las ou cas-las no desfecho. No preciso originalidade, recusam essa banalidade da narrativa, que se arrastou por todos os lugares. Vem essa frmula como um entretenimento para as crianas e as mulheres. O que eles buscam so pginas de estudos, simplesmente, um auto humano, alguma coisa de mais elevado e de maior, cujo interesse esteja na exatido das pinturas e na originalidade dos documentos.Nenhum escritor mais do que os Goncourt trabalhou para liberar o romance de todos os entraves do lugar-comum e do interesse estpido. Em seus dois ltimos livros sobretudo, Manette Saiomon e Madame Gervaisais, no testemunharam mais nenhuma preocupao com idias adquiridas sobre a forma e o procedimento das obras da imaginao. Obedeceram sua potica pessoal, com um desdm crescente pela aprovao do leitor e sem demonstrar sequer virar a cabea para ver se o pblico os seguia.Manette Salomon um estudo livre sobre a arte e sobre os artistas contemporneos. Os autores simplesmente se preocuparam em agrupar os tipos de pintores com quem se relacionam: Coriolis, seu pintor preferido, um rapaz rico, distinto e apaixonado pelo Oriente, cuja pintura cristalina, colorida e figurada possui as qualidades de seu prprio estilo; Anatole, o bomio, sua criana mimada, uma figura que no deve ir alm do trocista e do perambulador, dormindo ao acaso de suas amizades, hospedando os desconhecidos que passam, experimentando todas as aventuras, viajando sem parar no meio de todos os sonhos e de todos os ceticismos e vindo naufragar num pequeno emprego no Jardin des Plantes, onde seu amor pelos animais proporciona-lhe uma velhice feliz; Garnotelle, o prmio de Roma, o pintor correto e medocre que teve xito sem talento, com uma habilidade astuta de comerciante; e outros tipos ainda, Chassagnol, feroz quanto esttica, o tagarela inesgotvel das leiterias e das brasseries, o homem que acompanha as pessoas que aborda para explicar-lhes Rafael ou Rembrandt e que encaminha as coisas at dormir com elas, falando inclusive quando a luz est apagada; o casal Crescent, a mulher toda dedicada a seus gansos e patos, o marido, grande pintor retirado no campo, um tipo de solitrio e patriarca da arte; dez outros mais que seria muito longo enumerar e que fazem da obra uma galeria fervilhante de retratos feitos sobre o real. Depois, com todas essas personagens, os autores no procuraram urdir a mnima intriga; deram-se juntos a tarefa, nos curtos captulos que so cada qual como um quadro destacado, de pintar a vida dos artistas, das cenas que se sucedem, apenas ligadas por um tnue fio: o ateli, com suas farsas, seus balbucios do talento, sua populao de alunos; o concurso do grande prmio de Roma e a chegada de Garnotelle villa de Mdicis; uma viagem de Coriolis ao Oriente; as perambulaes de Anatole, seus dias de privao, todos os ofcios que exerce, essa existncia estupefaciente do pintor sem dinheiro errando pelas ruas de Paris; descries de ateli prodigiosas de exatido e riqueza; o Salo anual, o sucesso de Coriolis, depois as desforras da crtica; uma temporada passada na Floresta de Fontainebleau, em Barbison, esse retiro da arte parisiense; e mais cenas, a sala das vendas, a plstica da mulher, os recantos pitorescos de Paris e do subrbio, a batalha das teorias artsticas, a amizade fantasista de um macaco e um porco, bebedeiras de carnaval, bailes e jantares de fritura, a existncia das personagens largadas atravs da vida real, conduzindo os fatos ao acaso. Tal a obra, o cotidiano fiel de vrias vidas de artistas. Todavia, esse cotidiano redigido por mestres pintores que animam tudo o que tocam. Esse romance sem ao o mais interessante dos romances.Os Goncourt, entretanto, no ousaram libertar-se completamente da frmula romanesca. Conservaram uma herona, Manette Salomon, uma judia, uma modelo de ateli por quem Coriolis se liga numa paixo nervosa e ciumenta. Pouco a pouco, Manette se apodera do jovem, tem filhos com ele, impe-lhe seus pais, indispe-no com seus amigos, conquista-o at despos-lo e o arrasta ento na vida, diminudo, dominado, sem talento. a mesma tese que em Charles Demailly, a mulher matando o artista. No a discutirei; ela me parece absolutamente falsa, to logo parecem querer lhe dar um carter geral. Os romancistas, por sinal, estudaram Manette com uma acuidade extraordinria. Ela permanecer como uma de suas melhores figuras.Com Madame Gervaisais o quadro do romance se simplifica mais. No se trata sequer de uma galeria de retratos, de uma srie de tipos numerosos e variados, completando-se uns aos outros, chocando-se e chegando a produzir o burburinho de uma multido. Dessa vez uma figura inteira, a pgina de uma vida humana e nada mais. Sem personagens, nem no mesmo plano, nem no segundo plano; apenas o perfil de uma criana, que como a sombra de sua me, e alm disso essa criana quase um animal, uma pobre criatura de inteligncia retardada, cuja lngua permanece embaraada nas ceceaduras do recm-nascido. J no h romance propriamente dito. H um estudo de mulher, de um certo temperamento, inserida num certo meio. Isso tem a liberdade e a simplicidade de uma pesquisa cientfica redigida por um artista. A ltima frmula quebrada, o romancista toma o primeiro episdio de uma vida que aparece, conta-o, extrai dele toda a realidade e toda a arte que nela encontra e cr no dever mais nada ao leitor. No mais necessrio atar, desatar, complicar, aplicar o tema no antigo molde; basta um fato, uma personagem que se disseque, em quem se encarne um canto da humanidade sofredora e da qual a anlise traga uma nova massa de verdade.A herona, ou melhor, o tema dos Goncourt uma mulher de grande mistrio Mme Gervaisais, mal casada, que se refugiou no trabalho. Tem uma cultura masculina, latinista, helenista, erudita em todas as coisas, de alma artstica, por sinal, e feita para a paixo do belo. Foi to longe que atravessou Locke e Condillac para repousar em seguida na filosofia viril de Reid e de Dugald Stewart. Desde h muito sacudiu a f catlica como um fruto muito maduro. Foi ento que a preocupao com a sade conduziu-a a Roma; leva consigo seu filho, Pierre-Charles, essa querida criatura de uma beleza angelical e de uma existncia instintiva de animal. L, seus primeiros meses so dedicados Antigidade, a Roma, sua histria, a tudo que o horizonte coloca de emoo em seu esprito de erudita e em seu corao de poeta. Repousa e ama seu filho, no v ningum, apenas algumas figuras que passam. Depois comea o drama, Mme Gervaisais mergulha nesse perfume catlico, nesse odor de Roma que sopra um tipo de epidemia religiosa. Pouco a pouco penetrada. H nela uma mulher que ela no conhecia, a mulher nervosa, que o casamento no satisfez. E desliza para o xtase e para o misticismo. Inicialmente, apenas uma aflorao carnal, a pompa das cerimnias. Em seguida, a inteligncia atacada, a razo soobra sob as prticas, sob a regra imposta. Mme Gervaisais ingressa na f; vai de um diretor tolerante a um diretor severo, esquece o mundo, desce cada dia mais, at no ser mais nem mulher nem me. Entrega-se por inteiro, vive na sujeira, rejeita seu filho, outrora to elegante e to apaixonada por Pierre-Charles. Aniquilamento feroz, medo da luz, crise da carne e do esprito que no deixa em Mme Gervaisais nada da mulher que ela foi.Todo o livro isso. Os Goncourt estudaram com uma arte infinita as lentas gradaes do contgio religioso. Roma lhes fornecia um cenrio esplndido. Sua herona letrada permitiu-lhes pintar a Roma da Antiguidade, e sua herona devota deu-lhes a Roma dos papas. No desfecho, tiveram o que chamarei de uma fraqueza. Quiseram concluir. Dessa forma, prepararam uma cena dramtica, que retira um pouco de seu romance o carter de um estudo liberto de toda frmula. Mme Gervaisais est muito doente do peito. Est morrendo no egosmo feroz de sua f. Seu irmo, um tenente, vem s pressas da Arglia, convence-a a deixar Roma; mas ele deve permitir-lhe ir, antes de sua partida, receber a bno do papa; e l, no Vaticano, assim que o Santo Padre aparece aos seus olhos, que Madame Gervaisais morre como que fulminada, enquanto Pierre-Charles consegue, enfim, falar, lanando este grito doloroso: "Minha me!" muito bonito, mas essa morte violenta, lgica como a obra, destoa um pouco como verdade. Mme Gervaisais, morrendo sua bela morte, devota, estreita, apergaminhada, acabava de dar obra um carter particularmente original. O efeito perderia, mas a realidade ganharia com isso.Madame Gervaisais no teve sucesso. Essa nudez do livro, esses quadros contnuos, essa anlise sbia de uma alma desconcertaram o pblico, habituado a outras histrias. J no havia a menor palavra para rir na obra, nem peripcias vulgares, nem bruscas mudanas; e, com isso, a linguagem era estranha, repleta de neologismos, formas inventadas, frases complicadas traduzindo sensaes que s os artistas podem experimentar, os Goncourt encontravam-se isolados, bem no alto, compreendidos somente por um pequeno nmero, no completo desenvolvimento de sua personalidade e de seu talento.VDevo concluir. O juzo pode ser completo e definitivo, pois se apia como um romancista morto. O dia em que Edmond de Goncourt publicou uma obra assinada s por seu nome deve ter sido estudado e julgado parte. Os seis romances dos quais acabo de falar compem, assim, um conjunto sobre o qual a crtica convocada a se pronunciar com a competncia e a justia da posteridade.Em nossa literatura, os Goncourt permanecem, para mim, como um caso artstico extraordinrio, um desses fenmenos cerebrais que, na ordem patolgica, maravilham os grandes mdicos. No meio do sufocamento geral caa da originalidade, depois dos romancistas ilustres de 1830, que pareciam ter deixado o campo livre a seus sucessores, eles souberam, por sua prpria natureza, entregando-se unicamente a seu temperamento, ver de forma diferente dos outros e inventar sua linguagem. Ao lado de Balzac, ao lado de Stendhal, ao lado de Hugo, eles brotaram como as flores estranhas e raras de uma civilizao avanada. So personalidades excepcionais, escritores que devem ser colocados parte, que permanecem numa histria literria no estado de observao aguda, resumindo os aspectos excessivos da arte de uma poca. Se a multido nunca se ajoelha diante deles, tero uma capela de luxo precioso, uma capela bizantina com ouro fino e pinturas curiosas, na qual os refinados iro fazer suas devoes.Gostaria de ter citado trechos de suas obras para mostrar a que frmito de nervosismo eles conduziram a lngua. Fizeram dela um instrumento de msica, uma pessoa viva da qual se v o gesto e se sente a respirao. A lngua se tornou, como eles, de uma sensibilidade extrema s mnimas expresses, rindo com vivacidade, paralisando-se em certos sons, sem-pie vibrante s mais suaves brisas. E tambm introduziram na circulao todos os tipos de novas formas, expresses desconhecidas antes deles, frases verdadeiras e sentidas que devem amadurecer para serem aceitas. Dirijo-lhes aqui o maior cumprimento que se possa conceder a escritores; s os grandes que enriquecem o dicionrio.Vrios romancistas, falo dos mais jovens, daqueles que tm hoje trinta e poucos anos, encantados com esse estilo pessoal, comovidos como por uma sinfonia, tiraram deles palavras, maneiras de sentir. Formou-se um grupo. Todavia, a imitao deve parar no que eu chamarei de nova retrica. Os Goncourt seriam diminudos por seus alunos se eles conservassem isso. Prefiro-os em sua capela dourada e pintada, sem descendncia, semelhantes a dolos da arte cados do cu azul numa bela manh. Levado muito longe, e por recm-chegados forados a ir ainda mais longe, seu estilo degeneraria para o preciosismo, para a efuso de cinzelamentos artsticos afogando as idias e os fatos. Eles prprios, em Madame Gervaisais, chegaram algumas vezes a esterilizar os documentos humanos que sua observao to clara e fina lhes havia fornecido.Quero concluir por uma idia consoladora. Esse pblico, to pouco sensvel s delicadezas da forma, tem mudanas repentinas que se assemelham a atos de justia. Durante dez anos as obras dos dois irmos repousaram, conhecidas por um nmero restrito de admiradores. A imprensa sempre se mostrou de uma dureza revoltante. E, de repente, sem que se saiba o porqu, nestes ltimos tempos os jornais falaram dessas mesmas obras com elogio, quando do aparecimento das novas edies. Vieram os compradores, apaixonaram-se, cada vez mais numerosos. , enfim, a glria que cresce, tem sua vez no tmulo do irmo , quando h agora apenas o irmo que permaneceu s e mutilado.PAGE 1