Zola, Emile - Do Romance

  • View
    20

  • Download
    2

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Zola, Emile - Do Romance

Transcript

Do Romance

Do RomanceEMILE ZOLA

Plnio Augusto Coelho traduo

http://br.groups.yahoo.com/group/digital_sourceDo Romance rene quatro estudos nos quais mile Zola, um dos principais escritores do movimento realista francs, apresenta toda a sua crena em uma concepo artstica desprovida de qualquer indulgncia em relao raa humana e influenciada pelo positivismo e pelas descobertas cientficas do sculo XIX.Essas caractersticas do realismo so bastante conhecidas e acabaram-se tornando verdadeiros esteretipos. Mas Zola mostra-se aqui muito mais erudito e perspicaz - s vezes beirando a contradio -, ao defender outros requisitos para o seu escritor ideal. Victor Hugo, o papa do maneirismo romntico, chega a ser citado como exemplo de um estilo refinado, porm perigoso. Por outro lado, a "mo pesada" de alguns escritores realistas repreendida, assim como a crtica social sem a expresso prpria de cada artista.O melhor deste livro, no entanto, encontra-se nas trs deliciosas peas crticas dedicadas a Stendhal, Flaubert e os irmos Goncourt. Apesar do elogio a esses autores, Zola no fecha os olhos para as imperfeies dos seus colegas realistas e denuncia, por exemplo, uma composio literria fraca na obra de Stendhal, ou satiriza os excessos detalhistas de Flaubert.Aos crticos cidos do movimento realista, pode-se revelar que talvez exista muito mais bom-humor do que apatia na famosa frase de Stendhal; "Todas as manhs leio uma pgina do Cdigo Civil para pegar o tom".SUMARIO

A Utopia NaturalistaO Senso do Real

Stendhal

Gustave Flaubert

Edmond e Jules de Goncourt

A UTOPIA NATURALISTA

talo Caroni

Todo artista , a seu modo, um mstico. Uma f permanente sustenta e consolida o arcabouo geral da grande obra arquitetada ao longo de toda uma vida. Qual Prometeu, ele rouba o fogo sagrado, luz criadora de mundos, chama que anima sua criao e suas criaturas.

Assim Zola, cuja crena naturalista alcana os contornos de uma verdadeira utopia. Afirmativa capaz at de surpreender o pblico j habituado leitura picante ou viso pessimista de um escritor responsvel, entre outras coisas, por textos como Nan e A Besta Humana. Felizmente, porm, Zola no se reduz a vulgares esteretipos de amplo consumo e descartveis. Para fazer-lhe justia, impe-se muito alm de qualquer verniz pornoertico ou sadodeterminista.

Qual o seu credo, afinal? Na base, sem dvida, um enfoque negativo da condio humana centrada na sua dimenso natural e sem o reconforto de nenhum suporte espiritual: coisa no universo das coisas o homem est condicionado pelo meio ambiente e pelo estigma hereditrio que se renovam sem parar no ciclo vida-morte. Como a pedra e a planta, o ser humano tem o seu destino inscrito no cosmos universal, e no escrito numa bblia qualquer. A metafsica cede seu lugar fsica, mesmo se o mistrio persiste... E se, no imaginrio zoliano, Eros e Tnatos presidem o movimento do eterno retorno como propriedades da matria ou como divindades annimas, pouco importa! Queira-se ou no, toda uma mitologia cosmonatural e bioorgnica acaba povoando a sua vasta criao, que descreve foras geradoras e destruidoras. E, de permeio a tanta misria, luzem os vislumbres otimistas da constatao pura e simples de que a vida sadia teima em renovar-se sempre e sempre, como o ilustra de modo quase potico o Doutor Pascal, elo derradeiro da saga dos Rougon-Macquart.

Alm do que, como um esprito autntico de seu tempo, Emile Zola vai introduzir, nessa viso naturalista, a esperana moderna por excelncia do milagre cientfico. Pois na verdade a cincia torna-se, para ele como para sua poca, um libi espiritual. Com ingenuidade, acredita-se ento no poder sobre-humano de um progresso cientfico apto a regenerar e apurar a espcie humana. E isto mesmo que seus livros dizem. Cada romance descreve a mecnica humana em funcionamento donde, s vezes, o aspecto francamente demonstrativo ou obsceno , mas para detectar o rgo doentio a fim de san-lo ou extirp-lo. Novo sopro otimista estremece dessa forma o conjunto de uma obra, toda ela voltada para o futuro mirfico onde se implantar sobre a Terra uma sociedade perfeita para a raa regenerada. Mdico e socilogo implcito, Zola aparece como um mstico materialista trabalhando por uma cincia e um socialismo forjadores da miragem paradisaca. Que esta crena impregne seus escritos j no h dvida alguma para os seus leitores no-ocasionais, bem como para a crtica especializada, que tem enfatizado o arranjo por assim dizer messinico da arquitetura global de uma produo artstica em que o ciclo dos Rougon-Macquart figura uma espcie de Antigo Testamento precedendo o conjunto final dos Evangelhos. Essa postura profunda vai, como lgico, sedimentar todas as suas convices de artista. Emile Zola remete alis, por analogia, a certos outros escritores-pensadores franceses; e, sem possuir a ironia irreverente de um Voltaire nem o pensamento sistematizado de um Sartre, acaba por confundir-se ele tambm com a imagem do filsofo que se exprime atravs da fico. Existe portanto nele uma concepo de arte como coisa sria, que se ope desde logo ao ldico ou ao ornamental. O que no difcil constatar ao longo dos textos tericos e crticos reunidos neste volume.

Que no se espere, entretanto, nenhuma teoria do romance de algum que nunca foi terico do gnero. No fundo, trata-se de reflexes mais ou menos tericas a servio da prtica. E de uma prtica que, por sua vez, vem impregnada daquela vocao humanitria evocada linhas atrs. Com a certeza ferrenha ou feroz que o excita, Zola ataca o inimigo e defende seus princpios, ao mesmo tempo humanitrios e artsticos. A arte confunde-se com o pensamento, ambos a servio da crena pessoal. Donde a veemncia de muitas de suas diatribes, a comear pelo contundente Meus dios, com que abriu os combates no incio da carreira.

Nas pginas que seguem, o tom moderado de quem fala de colegas e amigos segue mpetos mais arrebatadores. O primeiro texto discute aspectos um tanto tcnicos e portanto no necessariamente polmicos, da arte romanesca; os trs finais discorrem sobre escritores que esto ou, pelo menos, deveriam estar ao lado de Zola no campo de batalha.

O captulo sobre "o senso do real" ataca os contistas imaginativos, para melhor defender os romancistas srios que sacrificam o imaginrio ao real. No a primeira vez, nem a ltima, que Zola questiona a imaginao em literatura, e de modo particular no romance. Como tambm o nome de Victor Hugo no surge por acaso no alvo de suas flechadas, pois esse virtuose da linguagem encabea a coorte dos romnticos "podres de lirismo", que escrevem obras de pura imaginao, baseiam-se no sobrenatural e no irracional, admitem foras misteriosas e permanecem no nvel dos sentimentos, sem jamais respeitar a realidade e o determinismo dos fatos nem controlar as reaes e comportamentos pela experincia etc. etc. Enfim, quem, em tudo e por tudo, no respeita o receiturio naturalista da arte literria que ele prprio est codificando.

No deixa todavia de ser curioso o modo pelo qual Emile Zola acaba por escamotear a mesma imaginao na sua esttica pessoal. Pois o que vem a ser afinal aquela famosa "experincia", que ele tanto apregoa, seno uma operao puramente imaginria, associada por metfora aos procedimentos dos cientistas? O romancista naturalista no faz experincia alguma; ele rene, apenas, a mais vasta documentao sobre o tema romanesco escolhido e, diante da pgina em branco, deixa trabalhar as suas faculdades imaginativas, que vo urdindo tramas e redigindo textos, como qualquer outro escritor de fico.Onde intervm, ento, o tal de sentido da realidade ou dom de "sentir a natureza e exprimi-la tal qual"? Como se a natureza fosse algo perceptvel com objetividade absoluta! Quando muito, tal qual a capta Zola; e, a sim, tem-se algo que lhe peculiar. Para prov-lo, basta percorrer muitas das belas pginas espalhadas por diversos de seus textos mais tocantes, como O Pecado do Padre Mouret, Uma Pgina de Amor, A Besta Humana, O Doutor Pascal, nos quais se revela um romancista-poeta dotado de rara sensibilidade. A este aplica-se com toda propriedade o "sinto, logo existo", aforismo cartesiano adaptado atravs da leitura do fisiologista Letourneau, que faz parte do abundante material coletado e comentado nas anotaes prvias elaborao do ciclo dos Rougon-Macquart.

No tpico sobre "a expresso pessoal", flagra-se nova proposta contraditria. Sua postulao terica nunca se cansa de proclamar em alto e bom som que o autor deve desaparecer por trs da obra. Ideal de impassibilidade que s um Flaubert quase logrou alcanar, mas com grandes riscos de escrever para ningum!... Em todo caso, e pelo menos no plano terico, Zola institui o princpio sagrado do artista imparcial, objetivo tanto quanto o cientista que, por exemplo, no se irrita com as reaes imprevistas do azoto utilizado em sua experincia.

Ora, nestas rpidas elucubraes, o leitor depara-se com o oposto simtrico desse postulado, visto que o escritor autntico passa a ser aquele que, como seu amigo Daudet, tem a virtude de fundir vida e arte. Apenas a vivncia humana decantada e trabalhada pode subsidiar o ato criativo. Sem ela, a arte degenera em artifcio que os mais hbeis conseguem ate dominai ou copiar, mas que permanecera morto enquanto molde no preenchido por matria viva, que cada um s pode tirar de si mesmo. Logo, a expresso pessoal, ou para usar um termo mais desgastado a originalidade, no implica nem aspectos formais nem existenciais. Pouco importam a gramtica e o estilo se, atravs da prosa correta e envernizada, no se sente vibrarem seres palpitantes de vida.

Reaparece, dessa forma, a obsessiva fidelidade natureza. Feitas as contas, no causa tanta perplexidade v-lo, apesar de tudo, elogiar os escritores que riem e choram com os seus protagonistas ou exigir deles que insuflem sua vida pessoal na reconstituio do real. E o arauto da literatura cientfica conforma-se ao fato comumente admitido de qu