Henri Bergson ensaio sobre os dados imediatos da consciência

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    20-Oct-2014

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<ul><li><p>Pr o leitor directamente cm contactocom textos marcantes da histria da filosofia</p><p> atravs de tradues feitasa partir dos respectivos originais,</p><p>por tradutores responsveis,acompanhadas de introdues</p><p>e notas explicativas foi o ponto de partida</p><p>para esta coleco.O seu mbito estender-se-</p><p>a todas as pocas e a todos os tipose estilos de filosofia,</p><p>procurando incluir os textosmais significativos do pensamento filosfico</p><p>na sua multiplicidade e riqueza.Ser assim um reflexo da vibratilidade</p><p>do esprito filosfico perante o seu tempo,perante a cincia</p><p>e o problema do homeme do mundo</p></li><li><p>Textos FilosficosDirector da Coleco:</p><p>ARTUR MOROLicenciado cm Filosofia;</p><p>professor da Seco de Lisboa da Faculdade de Filosofiada Universidade Catlica Portuguesa</p><p>1. Crtica da Razo PrticaImmanuel Kant</p><p>2. Investigao sobre o Entendimento HumanoDavid Hume</p><p>3. Crepsculo dos dolosFriedrich Nietzsche</p><p>4. Discurso de MetafsicaGottfried Wilhelm Leibniz</p><p>5. Os Progressos da MetafsicaImmanuel Kant</p><p>6. Regras para a Direco do EspritoRen Descartes</p><p>7. Fundamentao da Metafsica dos CostumesImmanuel Kant</p><p>8. A Ideia de FenomenologiaEdmund Husserl</p><p>9. Discurso do MtodoRen Descartes</p><p>10. Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como EscritorSren Kierkegaard</p><p>11. A Filosofia na Idade Trgica dos GregosFriedrich Nietzsche</p><p>12. Cario sobre TolernciaJohn Locke</p><p>13. Prolegmenos a Toda a Metafsica FuturaImmanuel Kant</p><p>14. Tratado da Reforma do EntendimentoBento de Espinosa</p><p>15. Simbolismo Seu Significado e EfeitoAlfred North Witehead</p><p>16. Ensaio sobre os Dados Imediatos da ConscinciaHenri Bergson</p><p>17. Enciclopdia das Cincias Filosficas em EptomeGeovg Wilhelm Friedrich Hegel</p><p>ENSAIO SOBREOSDADOSMEDIATOS</p><p>DA CONSCINCIA</p></li><li><p>**"</p><p>*&gt;.</p><p>f S</p><p> a </p><p>t</p><p> " 3o-</p><p>S3</p><p>So^</p><p>C S</p><p>il</p><p>Henri</p><p>RGSO</p><p>N</p></li><li><p>AJULESLACHELIER</p><p>Membro do InstitutoInspector-geral da Instruo Pblica</p><p>Respeitosa homenagem</p><p>f3 .</p><p>PREFCIO</p><p>Exprimimo-nos necessariamente por palavras e pensa-mos quase sempre no espao. Isto , a linguagem exige queestabeleamos entre as nossas ideias as mesmas distinesntidas e precisas, a mesma descontinuidade que entre os ob-jectos materiais. Esta assimilao til na vida prtica e ne-cessria na maioria das cincias. Mas poder-se-ia perguntarse as dificuldades insuperveis que certos problemas filosfi-cos levantam no advm por teimarmos em justapor no espa-o fenmenos que no ocupam espao, e se, abstraindo dasgrosseiras imagens em torno das quais se polemiza, no lhesporamos termo. Quando uma traduo ilegtima do inexten-so em extenso, da qualidade em quantidade, instalou a con-tradio no prprio seio da questo levantada, ser de espan-tar que a contradio se encontre nas solues dadas?</p><p>De entre os problemas escolhemos aquele que comum metafsica e psicologia, o problema da liberdade. Tentamosestabelecer que toda a discusso entre os deterministas eseus adversrios implica uma confuso prvia entre a dura-o e a extenso, a sucesso e a simultaneidade, a qualidadee a quantidade: dissipada esta confuso, talvez desapareces-sem as objeces levantadas contra a liberdade, as definiesque dela se do e, em certo sentido, o prprio problema da li-berdade. Esta demonstrao o tema da terceira parte donosso trabalho: os dois primeiros captulos, onde se estudamas noes de intensidade e de durao, foram escritos paraservir de introduo ao terceiro.</p><p>Fevereiro 1888.H. B.</p></li><li><p>l)</p><p>No acreditamos, por muito que se tenha dito, que o mto-do das graduaes mdias tenha feito entrar a psicofsica nu-ma nova via. A originalidade de Delboeuf esteve em escolherum caso particular em que a conscincia parecia dar razo aFechner, e onde o prprio senso comum foi psicofsico. Inter-rogou-se se certas sensaes no nos apareciam imediata-mente como iguais, embora diferentes, e se no se poderiaestabelecer, por seu intermdio, um quadro de sensaes du-plas, triplas, qudruplas umas das outras. O erro de Fech-ner, dizamos ns, era ter acreditado num intervalo entreduas sensaes sucessivas S e S', quando de uma para outraapenas h uma passagem, e no uma diferena no sentidoaritmtico da palavra. Mas se os dois termos entre os quaisse efectua a passagem pudessem ser dados simultaneamente,ento haveria um contraste, alm da passagem; e ainda queo contraste no seja ainda uma diferena aritmtica, asseme-lha-se em determinado aspecto; os dois termos que se com-param esto um perante o outro como numa subtraco dedois nmeros. Suponhamos agora que estas sensaes so damesma natureza e que constantemente, na nossa experinciapassada, assistimos sua desfilada, por assim dizer, enquan-to a excitao fsica crescia de uma maneira contnua: mui-tssimo provvel que poremos a causa no efeito e que a ideiade contraste vir a fundir-se na de diferena aritmtica. Poroutro lado, porque j observmos que a sensao mudavabruscamente enquanto o progresso da excitao era contnuo,avaliaremos sem dvida a distncia entre duas determina-das sensaes pelo nmero, grosseiramente reconstitudo,destes saltos bruscos, ou pelo menos das sensaes interm-dias que normalmente nos servem de escales. Em sntese, ocontraste aparecer-nos- como uma diferena, a excitaocomo uma quantidade, o salto brusco como um elemento de</p><p>(2S) Revue scientifiijue, 3 de Maro e de 24 de Abril de 1875.</p><p>51</p></li><li><p>igualdade; combinando estes trs factores, chegaremos ideia de diferenas quantitativas iguais. Ora, nunca estascondies esto to bem realizadas como em superfcies damesma cor, mais ou menos iluminadas, que se nos apresen-tam simultaneamente. No s aqui h contraste entre sensa-es anlogas, mas estas sensaes correspondem a uma cau-sa cuja influncia sempre nos pareceu estreitamente ligada distncia; e como esta distncia pode variar de uma maneiracontnua, devemos ter notado, na nossa experincia passada,uma enorme quantidade de matizes de sensaes a suce-deremse ao longo de um acrscimo contnuo da causa. Por-tanto, poderemos dizer que o contraste de uma primeiratonalidade cinzenta com uma segunda, por exemplo, nos pa-rece quase igual ao contraste da segunda com a terceira; e sese definissem duas sensaes iguais dizendo que so sen-saes que um raciocnio, mais ou menos confuso, interpretacomo tais, obterse, de facto, uma lei como a proposta porDelboeuf. Mas no se dever esquecer que a conscincia pas-sou pelos mesmos intermedirios que o psicofsico, e que asua apreciao vale tanto aqui como a psicofsica: uma in-terpretao simblica da qualidade em quantidade, umaapreciao mais ou menos grosseira do nmero de sensaesque se poderiam intercalar entre duas determinadas sensa-es. Portanto, a diferena no assim to considervel comose pensa eatre o mtodo das modificaes mnimas e o dasgraduaes mdias, entre a psicofsica de Fechner e a de Del-boeuf. A primeira desemboca numa medida convencional dasensao; a segunda apela para o senso comum nos casosparticulares em que se adopta uma conveno anloga. Emsntese, toda a psicofsica est condenada pela sua prpriaorigem a girar num crculo vicioso, porque o postulado tericoem que assenta condena-a a uma verificao experimental, eela no pode verificarse experimentalmente a no ser quese admita previamente o seu postulado. que no h ne-nhum contacto entre o intenso e o extenso, entre a qualidadee a quantidade. Interpretarse uma pela outra, transformaruma noutra equivalente; mas, mais tarde ou mais cedo, noprincpio ou no fim, h que reconhecer o carcter convencio-nal desta assimilao.</p><p>Em boa verdade, a psicofsica nada mais fez do que formu-lar com preciso e levar at s suas ltimas consequnciasuma concepo familiar ao sentido comum. Como falamosmais do que pensamos, visto que tambm os objectos exterio-res, que so do domnio comum, tm mais importncia parans do que os estados subjectivos por gue passamos, temostodo o interesse em oJbjectij^rJ^.^st5jfisjntrodizindo ne-les, na maior escala possvel, a representao da sua causaexterior. E quanto mais os nossos cpnhecmentos menlam,mais nos apercebemos d^extensiyo por detrs^do Jjitensivo,da quantidade por jetrs da quj]idade&gt;jnais_tendemos tam-bm a pr pnrn]eirgjbermgjno Jugar do sggundpea lidar</p><p>"~cujo papel precisamente submeter ao clculo a causa ex-terior dos nossos estados internos, preocupa-se o menospossvel com estes estados: contnua e propositadamente, ,confundeos com a sua causa. Encoraja, pois, e at exagera,neste ponto a iluso do senso comum. Fatalmente devia che-gar a altura em que, familiarizada com a confuso entre aqualidade e a quantidade, entre a sensao e a excitao, acincia procuraria medir uma como mede a outra: tal foi o ob-jectivo da psicofsica. Fechner foi encorajado a esta ousadatentativa pelos seus prprios adversrios, pelos filsofos quefalam de grandezas intensivas, ao mesmo tempo que decla-ram os estados psquicos refractrios medida. De facto, sese admite que uma sensao pode ser mais forte que outra eque esta desigualdade reside nas prprias sensaes, inde-pendentemente de toda a associao de ideias, de toda a con-siderao mais ou menos consciente de nmero e de espao, natural investigar como a primeira sensao ultrapassa a se-gunda, e estabelecer uma relao quantitativa entre as res-pectivas intensidades. E de nada vale responder, como fre-quentemente fazem os adversrios da psicofsica, que toda amedida implica sobreposio, e que despropositado pro-curar uma relao numrica entre intensidades, que no socoisas que se possam sobrepor. que ento ser necessrioexplicar por que que uma sensao se considera mais inten-sa do que outra, e como se podem chamar maiores ou meno-res coisas que como acabmos de ver no admitemqualquer relao entre continente e contedo. Quase daria-</p><p>52 53</p></li><li><p>C(c</p><p>cec</p><p>ms razo a Fechner e aos psicofsicos se, para cortar pelaraiz toda a questo desta espcie, distingussemos duas esp-cies de quantidade, uma intensiva, susceptvel apenas domais e do menos, e outra extensiva, prestando-se medio.Pois, desde que uma coisa susceptvel de aumentar e dimi-nuir, natural investigarmos quanto diminui, e quanto cres-ce. E porque uma medida deste gnero no parece directa-mente possvel, no se segue que a cincia no possa ter xitopor qualquer processo indirecto, quer mediante uma integra-o de elementos infinitamente pequenos, como prope Fech-ner, quer mediante outro processo escuso. Ou a sensao ,pois, uma qualidade pura ou, se uma grandeza, deve pro-curar medirse.</p><p>Para resumir o que precede, diremos que a noo de in-tensidade se apresenta sob um duplo aspecto, conforme se es-tudam os estados de conscincia representativos de uma cau-sa exterior, ou os que se bastam a si prprios. No primeirocaso, a percepo da intensidade consiste numa certa apre-ciao da grandeza da causa por uma certa qualidade do efei-to: , como diriam os Escoceses, uma percepo adquirida. Nosegundo, chamamos intensidade multiplicidade mais oumenos aprecivel de factos psquicos simples que adivinha-mos no interior do estado fundamental: no uma percepoadquirida, mas uma percepo confusa. Alis, estes dois sen-tidos da palavra interpenetram-se quase sempre, porque osfactos mais simples que uma emoo ou um esforo encerraso geralmente representativos, e a maioria dos estados re-presentativos, por serem simultaneamente afectivos, abar-cam tambm uma multiplicidade de factos psquicos elemen-tares. A ideia de intensidade situa-se, pois, no ponto de jun-o de duas correntes, trazendonos uma a partir de fora aideia de grandeza extensiva e indo a outra buscar s profun-didades da conscincia, para a trazer superfcie, a imagemde uma multiplicidade interna. Fica por saber em que consis-te esta ltima imagem, se se confunde com a do nmero, ouse dela difere radicalmente. No captulo que se segue, consi-deraremos os estados de conscincia isoladamente uns dosoutros, mas na sua multiplicidade concreta, enquanto se de-</p><p>senrolam na pura durao. E assim como nos interrogmossobre o que seria a intensidade de uma sensao representa-tiva se nela no introduzssemos a ideia da sua causa, tam-bm agora deveremos investigar o que acontece multiplici-dade dos nossos estados internos, que forma afecta a dura-o, quando se abstrai do espao em que ele se decorre. Estasegunda questo to importante como a primeira, mas demodo diverso. E que se a confuso da qualidade com a quan-tidade se limitasse a cada um dos factos de conscincia toma-dos isoladamente, criaria mais obscuridades, como acabmosde ver, do que problemas. Mas, as invadir a srie dos nossosestados psicolgicos, ao introduzir o espao na nossa concep-o da durao, corrompe, na prpria fonte, as nossas repre-sentaes da mudana exterior e interior, do movimento e daliberdade. Da os sofismas da escola de Eleia, da o problemado livre arbtrio. Insistiremos de preferncia no segundo pon-to; mas, em vez de procurar resolver a questo, demonstrare-mos a iluso dos que a pem.</p><p>5455</p></li><li><p>cictc</p><p>DA MULTIPLICIDADEDOS ESTADOS DE CONSCINCIA^):</p><p>A IDEIA DE DURAO</p><p>Definese, geralmente, o nmero como uma coleco deunidades ou, para falar com maior preciso, a sntese do unoe do mltiplo. Todo o nmero uno, j que se representa por</p><p>C) O nosso trabalho j estava totalmente terminado quando le-mos, na Critique philosophique (anos 1883 e 1884), uma notvel re-futao, por F. Pillon, de um interessante artigo de G. Noel sobre asolidariedade das noes de nmero e de espao. Contudo no vimosnecessidade de modificar algo deste livro, porque Pillon no distin-gue entre o tempo qualidade e o tempo quantidade, entre a multipli-cidade de justaposio e a de penetrao mtua. Sem esta distinoto importante, que constitui o assunto principal do nosso segundocaptulo, poderamos defender, com Pillon, que a relao de coexis-tncia suficiente para a construo do nmero. Mas que se enten-de aqui por coexistncia? Se os termos que coexistem se organizamconjuntamente, nunca deles derivar o nmero; se permanecem dis-tintos, porque se justapem e ainda estamos no espao. De nadavale referir o exemplo das impresses simultneas recebidas por v-rios sentidos. Ou mantemos nestas sensaes as suas diferenas es-pecficas, o que equivale a no cont-las; ou abstramos delas e, en-to, como as distinguiramos a no ser pela sua posio ou pela dosseus smbolos? Veremos que o verbo distinguir tem dois sentidos,um qualitativo, o outro quantitativo: estes dois sentidos foram con-fundidos, julgamos ns, por todos quantos trataram das relaescom o espao.</p><p>c,</p><p>57</p></li><li><p>uma intuio simples do esprito e lhe atribumos um nome;mas esta unidade a de uma soma; abrange uma multiplici-dade de partes que se podem considerar isoladamente. Semaprofundar agora as noes de unidade e de multiplicidade,interroguemo-nos se a ideia de nmero no implicar a re-presentao de alguma outra coisa ainda.</p><p>No-basta dizer que o nmero uma coleco de unida-des^ h que acrescentar que estas unidades so idnticas en-tre~si ou, pelo menos, que as supomos idnticas desde que ascontemos. claro que ao contarmos as ovelhas de um reba-nho Adiremos que tem cinquenta, embora se distingam umasdas outras e o pastor as conhea facilmente; mas (porque seconcorda em deixar de lado as suas diferenas individuaispara s ter em considerao a sua funo comum. Pelo con-trrio, desde que se fixa a ateno nos traos particulares dosobjectos ou dos indivduos, pode fazer-se a sua enumerao,mas nunca a soma. sob estes dois pontos de vista muito im-portantes que nos...</p></li></ul>