Monteiro lobato -_dom_quixote_das_crianças

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    18-Dec-2014

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Ciep 122 Ermezinda D. NeccoTurma 302 - 2011Tema: Monteiro Lobato

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<ul><li> 1. http://groups.google.com/group/digitalsource </li> <li> 2. M o n te ir o L o b a toDom Quixote da s Crianas CRCULO DO LIVRO </li> <li> 3. CRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 01051 So Paulo, Brasil Edio integral Copyright by herdeiros de Monteiro Lobato Layout da capa: Tide HellmeisterIlustraes: Jorge Kato (coordenao), Izomar Camargo Guilherme (capas), Adilson Fernandes, Carlos Avalone Rocha, Eli Marcos Martins Leon, Luiz Padovin, Michio Yamashita, Miriam Regina da Costa Arajo, Paulo Edson, Roberto Massaru Higa, Roberto Souto Monteiro Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia dos herdeiros de Monteiro Lobato e da Editora Brasiliense S.A. Venda permitida apenas aos scios do Crculo Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro S.A. 2468 10 97531 85 87 89 88 86 </li> <li> 4. Como tem ocorrido com outros volumes da coleoMONTEIRO LOBATO, mantivemos nesta obra os dados originais em que se baseou Lobato para escrev-la. Por essa razo, o leitor poder encontrar referncias desatualizadas. Os editores </li> <li> 5. D o m Q u ix o te das C r ia n a s </li> <li> 6. I Emlia descobre o Dom Quixote Emlia estava na sala de Dona Benta, mexendo nos livros. Seugosto era descobrir novidades livros de figura. Mas como fosse muitopequenina, s alcanava os da prateleira de baixo. Para alcanar os dasegunda, tinha de trepar numa cadeira. E os da terceira e quarta, essesela via com os olhos e lambia com a testa. Por isso mesmo eram os quemais a interessavam. Sobretudo uns enormes. Uma vez a pestinha fez o Visconde levar para l uma escada certa vez em que Dona Benta e os netos haviam sado de visita aocompadre Teodorico. Foi um trabalho enorme levar para l a escadinha. O coitado doVisconde suou, porque Emlia, embora o ajudasse, ajudava-ocavorteiramente, fazendo que todo o peso ficasse do lado dele. Afinal aescada foi posta junto estante, e Emlia trepou. Segure bem firme, Visconde disse ela ao chegar ao meio. </li> <li> 7. Se a escada escorregar e eu cair V. Exa. me paga. No tenha nenhum receio, Senhora Marquesa. Estou aquiagarrado nos ps da bicha como uma verdadeira raiz de rvore. Subasossegada. Emlia subiu. Alcanou os livres e pde ler o ttulo. Era o DomQuixote de Ia Mancha, em dois volumes enormssimos e pesadssimos.Por mais que ela fizesse no conseguiu nem mov-los do lugar. Visconde disse a travessa criatura, limpando o suorzinhoque lhe pingava da testa , parece que estes livros criaram raiz. Semenxada no vai. Temos de arranc-los como se arranca rvore. Vbuscar uma enxada. Se a senhora me permite uma opinio, direi que o caso no de enxada sim de alavanca. Dona Benta j explicou que a alavanca uma mquina prpria para levantar pesos. Com a alavanca o homemmultiplica a fora do brao, conseguindo erguer pedras e outras coisaspesadssimas. Emlia olhava para os livres. Bom disse ela. A alavanca multiplica a fora do braodos homens, sei disso. Mas ser que tambm multiplica a fora dobrao das bonecas? Experimente respondeu o Visconde. experimentandoque se fazem descobertas. Foi experimentando que Edison descobriu ofongrafo. Deixe Edison em paz e traga a alavanca. O Visconde trouxeum cabo de vassoura. Est bem certo de que isto alavanca, senhor sabugo? Garanto que . Experimente. Se a senhora enfiar a ponta docabo da vassoura naquele vo e fizer uma forcinha, o livro move-se.Experimente. A boneca fez a experincia. Enfiou o cabo da vassoura num vo,fez fora, e o livro, que parecia ter razes, moveu-se trs dedos. Viva! Viva! berrou a diabinha. alavanca, sim,Visconde, e das legtimas! Desta vez eu tiro a prosa deste peso. </li> <li> 8. E tirou mesmo. Tanto fez que o livro se foi deslocando para abeirada da estante, agora dois dedos, agora mais dois dedos, at que. . . Brolorotachabum! despencou l de cima, arrastando em suaqueda a escada, a Emlia e o cabo de vassoura, tudo bem em cima dopobre Visconde. A barulheira fez Tia Nastcia vir correndo da cozinha. Nossa Senhora! Que terremoto ser aquilo? exclamara ela.E ao entrar na sala, vendo o desastre: Ser possvel, santo Deus? Aterra estar tremendo? Foi a alavanca explicou Emlia. A alavanca arrancou olivro l de cima e o derrubou em cima do Visconde. . . Em cima do Visconde, Emlia? Ento o pobre do Viscondeest debaixo deste colosso? Est sim to achatadinho que nem percebe. Malvadaalavanca. Levantando o livro, a negra viu que realmente o Viscondeestava embaixo mas completamente achatado. Credo! exclamou. Parece um bolo de massa que a gentesenta em cima. Ser que morreu? Sacudiu-o, virou-o dum lado para outro, gritou-lhe ao ouvido.Nada. O Visconde no dava o menor sinal de vida. S deixava sair de sium caldinho. o caldo da cincia observou Emlia. Vou guard-lonum vidro. Pode servir para alguma coisa. E agora? disse a negra, de mos na cintura, com os olhosnaquele achatamento. Agora respondeu a boneca ns deixamos ele como estpara ver como fica. Pedrinho logo chega e d um arranjo. Pode ir cuidardo seu fogo. Emlia estava ansiosa por ver as figuras do Dom Quixote. Comofosse uma boneca sem corao, era-lhe indiferente que o Viscondeficasse por ali naquele triste estado. Alm disso, tinha a certeza de que,dum jeito ou de outro, Pedrinho o consertaria. Criaturas de sabugo tm </li> <li> 9. essa vantagem. So consertveis, como os relgios, as mquinas decostura e as chaleiras que ficam com buraquinhos. Mas Tia Nastcia,sempre de mos cintura, no tirava os olhos do pobre sabuguinho. Chega! berrou Emlia. No enjoe. V cuidar das suaspanelas e foi empurrando a negra at a porta da cozinha. Em seguidavoltou correndo para o livro. Abriu-o e leu os dizeres da primeirapgina. O ENGENHOSO FIDALGO DOM QUIXOTE DE LA MANCHA POR MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA - Saavedra! exclamou. Para que estes dois aa aqui, se ums faz o mesmo efeito? e, procurando um lpis, riscou o segundo a. Feita a correo, comeou a folhear o livro. Que beleza! Estavacheio de enormes gravuras dum tal Gustave Dor, sujeito que sabiadesenhar muito bem. A primeira gravura representava um homemmagro e alto, sentado numa cadeira que mais parecia trono, com umlivro na mo e a espada erguida na outra. Em redor, pelo cho e pelo ar,havia de tudo: drages, cavaleiros, damas, curingas e at ratinhos.Emlia examinou minuciosamente a gravura, pensando l consigo quese aqueles ratinhos estavam ali era porque Dor se esquecera dedesenhar um gato. Nisto ouviu barulho na varanda. Dona Benta e os meninosvinham entrando. Que isso, Emlia? indagou a velha, ao dar com o DomQuixote esparramado no cho. Quem desceu esse livro? Foi a alavanca respondeu a boneca. Artes do SenhorVisconde, e por isso mesmo ficou mais chato que um bolo que a gentesenta em cima. E mudo. Parece que morreu. Narizinho e Pedrinho correram a examinar o Visconde. Coitado! exclamou a menina. Um Visconde to bom, to </li> <li> 10. cientfico. Veja, Pedrinho, se d um jeito nele. O caldo da cincia eu salvei disse Emlia, mostrando umvidro de homeopatia. Tia Nastcia veio da cozinha explicar o desastre. Mas de que modo o livro caiu l de cima? quis saber DonaBenta. No sei, sinh. Ouvi um barulho. Corri e achei o livro nocho. Quando levantei o livro, encontrei embaixo uma chatura: era opobre Visconde. Nem gemia. Estava morto duma vez. . . Mas como foi que o livro caiu l de cima? No sei, sinh. O que vi foi uma escada no cho, olivro em cima do Visconde e um cabo de vassoura. Diz a Emlia que foino sei qu duma tal alavanca... Hum! Hum! rosnou Dona Benta, cravando os olhos naboneca. Estou compreendendo tudo. Alavanca ela. . . </li> <li> 11. II Dona Benta comea a ler o livro O que no tem remdio, remediado est. O Visconde ficouencostado a um canto, e Dona Benta, na noite desse mesmo dia,comeou a ler para os meninos a histria do engenhoso fidalgo daMancha. Como fosse livro grande demais, um verdadeiro trambolho, ado peso de uma arroba, Pedrinho teve de fazer uma armao de tbuasque servisse de suporte. Diante daquela imensidade, sentou-se DonaBenta, com a crianada em redor. Este livro disse ela um dos mais famosos do mundointeiro. Foi escrito pelo grande Miguel de Cervantes Saavedra. . . Quemriscou o segundo a de Saavedra? Fui eu disse Emlia. Por qu? Porque sou inimiga pessoal da tal ortografia velha coroca quecomplica a vida da gente com coisas inteis. Se um a diz tudo, para quedois? </li> <li> 12. Mas voc devia respeitar esta edio, que rara e preciosa.Tenha l as idias que quiser, mas acate a propriedade alheia. Estaedio foi feita em Portugal h muitos anos. Nela aparece a obra deCervantes traduzida pelo famoso Visconde de Castilho e pelo Viscondede Azevedo. Ah! exclamou Emlia. Ento foi por isso que o nossoVisconde mexeu nele para conhecer a linguagem dos seus colegasviscondes. Que raa abundante! Trs s aqui nesta salinha. . . Dona Benta continuou: O Visconde de Castilho foi dos maiores escritores da lnguaportuguesa. considerado um dos melhores clssicos, isto , um dosque escreveram em estilo mais perfeito. Quem quiser saber o portugusa fundo, deve l-lo e tambm Herculano, Camilo e outros. O portugus perfeito melhor que o imperfeito, vov? indagou Narizinho. Est claro, minha filha. Uma coisa, se perfeita, est claroque melhor que uma imperfeita. Essa pergunta at parece da Emlia. . Ento comece pediu Pedrinho. E Dona Benta comeou aler: "Num lugar da Mancha, de cujo nome no quero lembrar-me,vivia, no h muito, um fidalgo, dos de lana em cabido, adarga antiga egalgo corredor". Ch! exclamou Emlia. Se o livro inteiro nessaperfeio de lngua, at logo! Vou brincar de esconder com o Quindim.Lana em cabido, adarga antiga, galgo corredor. . . No entendo essasviscondadas, no. . . Pois eu entendo disse Pedrinho. Lana em cabido querdizer lana pendurada em cabido; galgo corredor cachorro magro quecorre e a adarga antiga . . . . . . Engasgou! disse Emlia. Eu confesso que no entendonada. Lana em cabido! Pois se lana um pedao de pau com umchuo na ponta, pode ser "lana atrs da porta", "lana no canto" mas "no cabido", uma ova! Cabido de pendurar coisas, e pedao de </li> <li> 13. pau a gente encosta, no pendura. Sabem que mais, meus queridosamigos? Vou brincar de esconder com o Quindim. . . Meus filhos disse Dona Benta , esta obra est escrita emalto estilo, rico de todas as perfeies e sutilezas de forma, razo pelaqual se tornou clssica. Mas como vocs ainda no tm a necessriacultura para compreender as belezas da forma literria, em vez de lervou contar a histria com palavras minhas. Isso! berrou Emlia. Com palavras suas e de TiaNastcia e minhas tambm e de Narizinho e de Pedrinho e deRabic. Os viscondes que falem arrevesado l entre eles. Ns que nosomos viscondes nem viscondessas, queremos estilo de clara de ovo,bem transparentinho, que no d trabalho para ser entendido. Comece. E Dona Benta comeou, da moda dela: Em certa aldeia da Mancha (que um pedao da Espanha),vivia um fidalgo, a duns cinqenta anos, dos que tm lana atrs daporta, adarga antiga, isto , escudo de couro, e cachorro magro noquintal cachorro de caa. Para que a lana e o escudo? quis saber Emlia. Era sinal de que esse fidalgo pertencia a uma velha linhagemde nobres, dos que antigamente, na Idade Mdia, usavam armaduras deferro e se dedicavam caa como sendo a mais nobre das ocupaes. Vagabundos que eles eram! exclamou a boneca. No atrapalhe, Emlia murmurou Narizinho. Continue,vov. Dona Benta continuou: Morava em companhia duma sobrinha de vinte anos e dumaama de quarenta. Chamava-se Dom Quixote. Era magro, alto, muitomadrugador e amigo da caa. E mais amigo de ler. S lia, porm, umaqualidade de livros os de cavalaria. Eu sei o que cavalaria disse Pedrinho. Depois dasCruzadas, a gente da Europa ficou de cabea tonta e com mania deguerrear. Os fidalgos andavam vestidos de armaduras de ferro, capacetena cabea e escudo no brao, com grandes lanas e espadas. Montavam </li> <li> 14. em cavalos que eles diziam ser corcis e saam pelo mundo espetandogente, abrindo mouros pelo meio com espadas medonhas. As proezasque faziam eram de arrepiar os cabelos. J li a histria de Carlos Magnoe os Doze Pares de Frana. . . Isso mesmo confirmou Dona Benta. Eram os cavaleirosandantes. Depois de lermos o Dom Quixote havemos de procurar oOrlando furioso, do clebre...</li></ul>