Monteiro lobato -_O_Saci

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    30-May-2015

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Ciep 122 Ermezinda D. NeccoSo Gonalo - RJTurma 302 2011Tema Monteiro Lobato

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  • 1. Nota: Este livro foi scanneado e corrigido por Carlos Antnio. Seu uso exclusivo dosdeficientes visuais, segundo as leis de direitos autorais brasileiras. VIAJEM AO CU - O SACIMonteiro LobatoCaptulo 1 O ms de abrilEra em abril, o ms do dia de anos de Pedri-nho e portodos considerado o melhor ms do ano. Por qu? Porque no frio nem quente e no ms das guas nem de seca - tudona conta certa! E por causa disso inventaram l no Stio doPicapau Amarelo uma grande novidade: as friasde-lagarto.- Que histria essa? uma histria muito interessante. J que o ms de abril omais agradvel de todos, escolheram-no para o grande"repouso anual" - o ms inteiro sem fazer nada, parados,cochilando como lagarto ao sol! Sem fazer nada um modode dizer, pois que eles ficavam fazendo uma coisa agrabilssima:vivendo! S isso. Gozando o prazer de viver...- Sim - dizia Dona Benta - porque a maior parte davida ns a passamos entretidos em tanta coisa, a fazer isto eaquilo, a pular daqui para ali, que no temos tempo de gozar oprazer de viver. Vamos vivendo sem prestar ateno na vida e,portanto, sem gozar o prazer de viver moda dos lagartos. Jrepararam como os lagartos ficam horas e horas imveis aosol, de olhos fechados,vivendo, gozando o prazer de viver - s. sem mistura?E era muito engraada a organizao que davam ao msde abril l no stio. Com antecedncia resolviam todos os casosque tinham de ser resolvidos, acumulavam coisas de comer dasque no precisam de fogo - queijo, fruta, biscoitos etc.,botavam um letreiro na porteira do pasto:A FAMLIA EST AUSENTE. S VOLTANO COMEO DE MAIO.e depois de tudo muito bem arrumado e pensado, caam norepouso.Era proibido fazer qualquer coisa. Era proibido atpensar. Os crebros tinham de ficar numa modorra gostosa.Todos vivendo - s isso! Vivendo logicamente, como diziao Visconde.Mas a necessidade de agitao muito forte nas crianas,de modo que aqueles "abris-de-lagar-to" tinham durao muitocurta. Para Emlia, a mais irrequieta de todos, duravam nomximo dois dias. Era ela sempre o primeiro lagarto a acordare correr para o terreiro a fim de "desenferru-jar as pernas".Depois vinha fazer ccegas com uma flor de capim nas ventasde Narizinho e Pedrinho - e esses dois lagartos tambm seespreguiavam e iam desenferrujar as pernas.No abril daquele ano o Visconde no pde tomar parte noporque j no existia. Dele s restava um "toco", aquele toco

2. que a boneca recolhera na praia depois do drama descrito naltima parte das EEINA COES DE NARIZINHO.Mas era preciso que o Visconde existisse! O stio ficavamuito desenxabido sem ele. Todos viviam a record-lo comsaudades, at o Burro Falante, at o Quindim. S no selembrava dele o Rbic, o qual s tinha saudades das abborase mandiocas que por qualquer motivo no pudera comer. Ecomo era preciso que o Visconde ressuscitasse, na segundamanh daquele belo ms de abril, Emlia, depois de um grandesuspiro, resolveu ressuscit-lo.Emlia estava no repouso, como os outros, no momentoem que o grande suspiro veio. Imediatamente levantou-se e foipara aquele canto da sala onde guardava os seus "bilongues". abriu a famosa canastrinha e de dentro tirou um embrulho empapel de seda roxo. Desfazendo o embrulho, apareceu um tocode sabugo muito feio, depenado das perninhas e braos,esverdeado de bolor. Eram os restos mortais do Visconde deSabugosa! Emlia olhou bem para aquilo, suspirou profunda-mente e, segurando-o como quem segura vela na procisso, foiem procura dos meninos.Narizinho e Pedrinho estavam no pomar, debaixo dum pde laranja-lima, apostando quempelcula branca sem romper os "casulos que guardam asgarrafinhas de caldo" - isto , gomos.- Est aqui o sagrado toco do Visconde - disse Emlia- aproximando-se e sempre a segurar o pedao de sabugocom as duas mos. Vou pedir a tia Nastcia que bote asperninhas, os braos e a cabea que faltam.- Hoje? Que ideia! - exclamou a menina.- Hoje, sim - afirmou Emlia. - Tia Nastcia est"lagarteando", mas negra velha no tem direito de repousar.Narizinho encarou-a com olhos de censura.- Malvada! Quem neste stio tem mais direito dedescansar do que ela, que justamente quem trabalha mais?Ento negra velha no gente? Coitada! Ela entrou no lagartoontem. Espere ao menos mais uns dias.- No. H de ser hoje mesmo, porque estou com um nna garganta de tantas saudades desta peste - teimou Emliacom os olhos no toco. - E fazer um Visconde novo no nenhum trabalho para ela - at divertimento. A diaba temtanta prtica que mesmo de olhos fechados, dormindo, arrumaeste.E deixando os dois meninos ocupados na aposta de pelarlaranjas sem feri-las, l se dirigiu para o quarto da boa negra,com o toco seguro nas duas mos, como um crio bento.Captulo 2 O Visconde NovoEm virtude da lembrana da Marquesa, a grandenovidade daquele dia foi o reaparecimento do Visconde deSabugosa.Os leitores destas histrias devem estar lembrados do queaconteceu ao pobre sbio naquele clebre passeio ao Pas dasFbulas, quando o Pssaro Roca ergueu nos ares o BurroFalante e o Visconde. Os viajantes haviam se abrigado debaixo 3. da imensa ave julgando que fosse um enor-mssimo jequitibde tronco duplo - troncos inconhos. Tudo porque o PssaroRoca estava imvel, dormindo de p! Mas quando a imensaave acordou e levantou o voo, l se foi plos ares o pobre burropendurado pelo cabresto, e agarrado ao burro, l se foi o pobreVisconde.Na maior das aflies, Pedrinho teve uma boa ideia:correr ao castelo prximo em procura do Baro deMunchausen. S o Baro, o melhor atirador do mundo, poderiacom uma bala cortar o cabresto do burro. Pedrinho sabia que oBaro j fizera uma coisa assim naquela viagem em que,alcanado pela noite num grande campo de neve, apeou-separa dormir e amarrou o cavalo a um galo de ferro que viu nocho - o nico objetoque aparecia no campo de gelo. Na manh seguinte, comgrande surpresa sua e de toda gente, acordou na praa pblicaduma cidadezinha, e erguendo os olhos viu no alto da torre daigreja, atado ao galo de ferro, o seu cavalo de sela! Com-preendeu tudo. E que na vspera, quando chegou quele pontoe parou para dormir, a neve havia coberto totalmente acidadezinha, s deixando de fora o galo da torre da igreja... Eele ento tomou da espingarda, apontou para as rdeas docavalo pendurado e pum! cortou-as com uma bala. O cavalocaiu sem se machucar. O Baro montou e l seguiu viagem,muito contente da vida.Ao ver o Burro Falante pendurado pelo cabresto a umadas pernas do Pssaro Roca, Pedri-nho lembrou-se dessahistria e correu a pedir socorro ao Baro, o qual morava numcastelo prximo.O Baro veio e com um tiro certeirissimo resolveu o caso:cortou o cabresto do burro, sem ferir nem a ele nem ao PssaroRoca. E o pobre burro, sempre com o Visconde a ele agarrado,caiu no mar, donde foi salvo por Pedrinho - mas o Viscondemorreu duma vez. Emlia encontrou-o lanado praia pelasondas, sem cartolinha na cabea, depenado dos braos e daspernas, salgadinho, todo rodo plos peixes - e guardouaquele toco em sua ca-nastrinha com a ideia de um diarestaur-lo.E esse dia afinal chegou, naquele "descansode-lagarto"do ms de abril. Emlia l estava no quarto de tia Nastcia,insistindo com a boa negra.Se o viscondecomer salada destas alfaces vai ficar sbio sem saber comonem por qu..."No paiol, tia Nastcia debulhou uma bela espiga de milho paraobter um sabugo novo, e teve aluminosa ideia de deixar uma fileira de gros, de alto abaixo, a fim de servirem de botes. Tambm teve a ideia detranar as palhinhas do pescoo em forma de "barbainglesa", isto , repartida em duas pontas. E como o sabugoera vermelho, ou ruivo, saiu um Visconde muitosabugo de milho branco.Depois de arrum-lo muito bem, com duas compridas 4. pernas, dois belos braos e cartolinha nova na cabea, foimostr-lo aos meninos.Emlia torceu o nariz. "Est falsificado. No presta".Mas Pedrinho aprovou: "Est timo, embora parea maisum banqueiro ingls do que um sbio da Grcia."- E que nos adianta banqueiro aqui? - observouNarizinho. - Melhor transform-lo em exploradorafricano, como aquele Dr. Livmgstone de que vov tantofala, o tal andou anos e anos pelo centro da fricaprocurando as origens do Nilo. Basta trocar essa cartola porum chapu de cortia com fitinha pendurada e vesti-lo dumfraque de xadrezdaquele meu vestido de escocs.A ideia agradou a "Emlia. "Sim, serve, "umexplorador africano ser excelente aqui - para procurarobjetos perdidos. Arranjaremos diversas origens para eleprocurar."E foi desse modo que surgiu no Stio do Pica-pauAmarelo aquele grave personagem de fraque de xadrez, botesde milho no peito e chapu de cortia com fitilma cada atrs.Mas o Dr. Livingstone veio ao mundo com um defeito:era srio demais. No ria, no brincava - sempre pensando,pensando. To srio e grave que tia Nastcia no escondia omedo que tinha dele. No o tratava como aos demais do stio.S lhe dava de "senhor doutor"; e depois que Nariz-nho lhedisse muito em segredo que o Dr. Livingstone era protestante, apobre preta no passava perto dele sem fazer um pelo-sinaldisfarado murmurar baixinho: "Credo!"- Mas ser mesmo protestante, menina?- E, sim, Nastcia. Tanto que j arranjou a bibliazinhaque vive lendo.A negra derrubou um grande beio. Depois olhou parasuas mos cheias de calos e disse:- Este mundo um mistrio! ... Quando me lembro queestas mos j fizeram uma bonequinha falante, e depois o tal"irmo de Pincchio", e depois um Visconde que sabia tudo eagora acaba de fazer um protestante, at sinto um frio napaeuera. Credo! Deus que me perdoe ...Na primeira semana de sua vida aconteceu com o Dr.Livingstone uma tragdia que muito consternou a todos dacasa. Estava ele certa tarde lendo a sua bibliazinha no quintal,quando mu frangote veio vindo. O sbio fechou a Bblia e di-rigiu algumas palavras em ingls ao frango, visto como era umfrango Leghorn, descendente dumgalo vindo dos Estados unidos e que, portanto, devia entenderalguma coisa da lngua de seus avs. O frango, porm, nadaentendeu (ou fingiu que no entendeu); aproximou-se mais emais, virando a cabecinha como fazem as aves quando des-cobrem petisco. E que tinha enxergado os lindos botesvermelhos do peito do ingls...- Do