Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho

  • Published on
    12-Nov-2014

  • View
    8.005

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Ciep 122 Ermezinda D. NeccoSo Gonalo - RJTurma 302/2011Tema: Monteiro Lobato

Transcript

<ul><li> 1. Monteiro Lobato O STIO DO PICA-PAU AMARELOREINAES DE NARIZINHO Vol. I Edio Integral e Ilustrada Digitalizao e Reviso Arlindo_San </li> <li> 2. Narizinho ArrebitadoINarizinho Numa casinha branca, l no stio do Pica-pau Amarelo, mora uma velha demais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a v navaranda, de cestinha de costura ao colo e culos de ouro na ponta do nariz, segue seucaminho pensando: Que tristeza viver assim to sozinha neste deserto... Mas engana-se. Dona Benta a mais feliz das vovs, porque vive emcompanhia da mais encantadora das netas Lcia, a menina do narizinhoarrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, morena como jambo, gosta muito de pipoca e jsabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos. Na casa ainda existem duas pessoas tia Nastcia, negra de estimao quecarregou Lcia em pequena, e Emlia, uma boneca de pano bastante desajeitada decorpo. Emlia foi feita por tia Nastcia, com olhos de retrs preto e sobrancelhas tol em cima que ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; noalmoa nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomod-la numaredinha entre dois ps de cadeira. </li> <li> 3. Alm da boneca, o outro encanto da menina o ribeiro que passa pelosfundos do pomar. Suas guas, muito apressadinhas e mexeriqueiras, correm porentre pedras negras de limo, que Lcia chama as tias Nastcias do rio. Todas as tardes Lcia toma a boneca e vai passear beira dgua, onde sesenta na raiz dum velho ingazeiro para dar farelo de po aos lambaris. No h peixe do rio que a no conhea; assim que ela aparece, todos acodemnuma grande faminteza. Os mais midos chegam pertinho; os grados parece quedesconfiam da boneca, pois ficam ressabiados, a espiar de longe. E nessedivertimento leva a menina horas, at que tia Nastcia aparea no porto do pomar egrite na sua voz sossegada: Narizinho, vov est chamando!...IIUma vez... Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lcia sentiu os olhos pesadosde sono. Deitou-se na grama com a boneca no brao e ficou seguindo as nuvens quepasseavam pelo cu, formando ora castelos, ora camelos. E j ia dormindo,embalada pelo mexerico das guas, quando sentiu ccegas no rosto. Arregalou osolhos: um peixinho vestido de gente estava de p na ponta do seu nariz. Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartolinha na cabea eguarda-chuva na mo a maior das galantezas! O peixinho olhava para o nariz deNarizinho com rugas na testa, como quem no est entendendo nada do que v. A menina reteve o flego de medo de o assustar, assim ficando at que sentiuccegas na testa. Espiou com o rabo dos olhos. Era um besouro que pousara ali. Masum besouro tambm vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, culos e bengala. Lcia imobilizou-se ainda mais, to interessada estava achando aquilo. Ao ver o peixinho, o besouro tirou o chapu, respeitosamente. Muito boas tardes, senhor prncipe! disse ele. Viva, mestre Cascudo! foi a resposta. Que novidade traz Vossa Alteza por aqui, prncipe? que lasquei duas escamas do fil e o doutor Caramujo me receitou aresdo campo. Vim tomar o remdio neste prado que muito meu conhecido, masencontrei c este morro que me parece estranho e o prncipe bateu com a biqueirado guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho e disse: Creio que de mrmore observou. Os besouros so muito entendidos em questes de terra, pois vivem a cavarburacos. Mesmo assim aquele besourinho de sobrecasaca no foi capaz de adivinharque qualidade de terra era aquela. Abaixou-se, ajeitou os culos no bico,examinou o nariz de Narizinho e disse: Muito mole para ser mrmore. Parece antes requeijo. </li> <li> 4. Muito moreno para ser requeijo. Parece antes rapadura volveu oprncipe. O besouro provou a tal terra com a ponta da lngua. Muito salgada para ser rapadura. Parece antes... Mas no concluiu, porque o prncipe o havia largado para ir examinar assobrancelhas. Sero barbatanas, mestre Cascudo? Venha ver. Por que no leva algumaspara os seus meninos brincarem de chicote? O besouro gostou da idia e veio colher as barbatanas. Cada fio que arrancavaera uma dorzinha aguda que a menina sentia e bem vontade teve ela de o espantardali com uma careta! Mas tudo suportou, curiosa de ver em que daria aquilo. Deixando o besouro s voltas com as barbatanas, o peixinho foi examinar asventas. Que belas tocas para uma famlia de besouros! exclamou. Por que no se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia degostar desta repartio de cmodos. O besouro, com o feixe de barbatanas debaixo do brao, l foi examinar astocas. Mediu a altura com a bengala. Realmente, so timas disse ele. S receio que more aqui dentroalguma fera peluda. E para certificar-se cutucou bem l no fundo. Hu! Hu! Sai fora, bicho imundo!... No saiu fera nenhuma, mas como a bengala fizesse ccegas no nariz deLcia, o que saiu foi um formidvel espirro Atchim!... e os dois bichinhos,pegados de surpresa, reviraram de pernas para o ar, caindo um grande tombo nocho. Eu no disse? exclamou o besouro, levantando-se e escovando com amanga a cartolinha suja de terra. , sim, ninho de fera, e de fera espirradeira!Vou-me embora. No quero negcios com essa gente. At logo, prncipe! Faovotos para que sare e seja muito feliz. E l se foi, zumbindo que nem um avio. O peixinho, porm, que era muitovalente, permaneceu firme, cada vez mais intrigado com a tal montanha queespirrava. Por fim a menina teve d dele e resolveu esclarecer todo o mistrio.Sentou-se de sbito e disse: No sou montanha nenhuma, peixinho. Sou Lcia, a menina que todos osdias vem dar comida a vocs. No me reconhece? Era impossvel reconhec-la, menina. Vista de dentro dgua parece muitodiferente... Posso parecer, mas garanto que sou a mesma. Esta senhora aqui a minhaamiga Emlia. O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-secomo o prncipe Escamado, rei do reino das guas Claras. Prncipe e rei ao mesmo tempo! exclamou a menina batendo palmas. Que bom, que bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um prncipe-rei. </li> <li> 5. Conversaram longo tempo, e por fim o prncipe convidou-a para uma visitaao seu reino. Narizinho ficou no maior dos assanhamentos. Pois vamos e j gritou antes que tia Nastcia me chame. E l se foram os dois de braos dados, como velhos amigos. A boneca seguiaatrs sem dizer palavra. Parece que dona Emlia est emburrada observou o prncipe. No burro, no, prncipe. A pobre muda de nascena. Ando procurade um bom doutor que a cure. H um excelente na corte, o clebre doutor Caramujo. Emprega umasplulas que curam todas as doenas, menos a gosma dele. Tenho a certeza de que odoutor Caramujo pe a senhora Emlia a falar pelos cotovelos. E ainda estavam discutindo os milagres das famosas plulas quando chegarama certa gruta que Narizinho jamais havia visto naquele ponto. Que coisa estranha! Apaisagem estava outra. aqui a entrada do meu reino disse o prncipe. Narizinho espiou, commedo de entrar. Muito escura, prncipe. Emlia uma grande medrosa. A resposta do peixinho foi tirar do bolso um vaga-lume de cabo de arame,que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou at longe e a boneca perdeu omedo. Entraram. Pelo caminho foram saudados com grandes marcas de respeito, por vriascorujas e numerosssimos morcegos. Minutos depois chegavam ao porto do reino.A menina abriu a boca, admirada. Quem construiu este maravilhoso porto de coral, prncipe? to bonito que at parece um sonho. Foram os Plipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansveis do mar.Tambm meu palcio foi construdo por eles, todo de coral rosa e branco. Narizinho ainda estava de boca aberta quando o prncipe notou que o portono fora fechado naquele dia. a segunda vez que isto acontece observou ele com cara feia. Aposto que o guarda est dormindo. Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esseguarda no passava dum sapo muito feio, que tinha o posto de major no exrcitomarinho. Major Agarra-e-no-larga-mais. Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lana empunho, capacete na cabea e a espada cinta, sapeando a entrada do palcio. OMajor, porm, tinha o vcio de dormir fora de horas, e pela segunda vez foraapanhado em falta. O prncipe ajeitou-se para acord-lo com um pontap na barriga, mas amenina interveio. Espere prncipe! Eu tenho uma idia muito boa. Vamos vestir este sapo demulher, para ver a cara dele quando acordar. E sem esperar resposta, foi tirando a saia da Emlia e vestindo-a, muitodevagarinho, no dorminhoco. Ps-lhe tambm a touca da boneca em lugar do </li> <li> 6. capacete, e o guarda-chuva do prncipe em lugar de lana. Depois o deixou assimtransformado numa perfeita velha coroca, disse ao prncipe: Pode chutar agora. O prncipe, zs!... pregou-lhe um valente pontap na barriga. Hum!... gemeu o sapo, abrindo os olhos, ainda cego de sono. O prncipe engrossou a voz e ralhou: Bela coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido develha coroca... Que significa isto? O sapo, sem compreender coisa nenhuma, mirou-se apatetadamente numespelho que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho. mentira dele, prncipe! No acredite. Nunca fui assim... Voc de fato nunca foi assim explicou Narizinho. Mas, comodormiu escandalosamente durante o servio, a fada do sono o virou em velha coroca.Bem feito... E por castigo ajuntou o prncipe est condenado a engolir cempedrinhas redondas, em vez das cem moscas do nosso trato. O triste sapo derrubou um grande beio, indo, muito jururu, encorujar-se aum canto.IIINo palcio O prncipe consultou o relgio. Estou na hora da audincia murmurou. Vamos depressa, que tenhomuitos casos a atender. L se foram. Entraram diretamente para a sala do trono, no qual a menina sesentou a seu lado, como se fosse uma princesa. Linda sala! Toda dum coral cor deleite, franjadinho como musgo e penduradinho de pingentes de prola, que tremiamao menor sopro. O cho, de ncar furta-cor, era to liso que Emlia escorregou trs vezes. O prncipe deu o sinal de audincia batendo com uma grande prola negranuma concha sonora. O mordomo introduziu os primeiros queixosos. Um bando demoluscos nus que tiritavam de frio. Vinham queixar-se dos Bernardos Eremitas. Quem so esses Bernardos? indagou a menina. So uns caranguejos que tm o mau costume de se apropriarem dasconchas destes pobres moluscos, deixando-os em carne viva no mar. Os pioresladres que temos aqui. O prncipe resolveu o caso mandando dar uma concha nova a cada molusco. Depois apareceu uma ostra a se queixar dum caranguejo que lhe havia furtadoa prola. </li> <li> 7. Era uma prola ainda novinha e to galante! disse a ostra, enxugando aslgrimas. Ele raptou-a s de mau, porque os caranguejos no se alimentam deprolas, nem as usam como jias. Com certeza j a largou por a nas areias... O prncipe resolveu o caso mandando dar ostra uma prola nova do mesmotamanho. Nisto surgiu na sala, muito apressada e aflita, uma baratinha de mantilha, quefoi abrindo caminho por entre os bichos at alcanar o prncipe. A senhora por aqui? exclamou este, admirado. Que deseja? Ando atrs do Pequeno Polegar respondeu a velha. H duas semanasque fugiu do livro onde mora e no o encontro em parte nenhuma. J percorri todosos reinos encantados sem descobrir o menor sinal dele. Quem esta velha? perguntou a menina ao ouvido do prncipe. Parece que a conheo... Com certeza, pois no h menina que no conhea a clebre DonaCarochinha das histrias, a baratinha mais famosa do mundo. E voltando-se para a velha: Ignoro se o Pequeno Polegar anda aqui pelo meu reino. No o vi, nem tivenotcias dele, mas a senhora pode procur-lo. No faa cerimnia... Por que ele fugiu? indagou a menina. No sei respondeu dona Carochinha mas tenho notado que muitosdos personagens das minhas histrias j andam aborrecidos de viverem toda a vidapresos dentro delas. Querem novidade. Falam em correr mundo a fim de se meteremem novas aventuras. Aladino queixa-se de que sua lmpada maravilhosa estenferrujando. A Bela Adormecida tem vontade de espetar o dedo noutra roca paradormir outros cem anos. O Gato de Botas brigou com o marqus de Carabs e querir para os Estados Unidos visitar o Gato Flix. Branca de Neve vive falando emtingir os cabelos de preto e botar ruge na cara. Andam todos revoltados, dando-meum trabalho para cont-los. Mas o pior que ameaam fugir, e o Pequeno Polegarj deu o exemplo. Narizinho gostou tanto daquela revolta que chegou a bater palmas de alegria,na esperana de ainda encontrar pelo seu caminho algum daqueles queridospersonagens. Tudo isso continuou dona Carochinha por causa do Pinquio, doGato Flix e sobretudo de uma tal menina do narizinho arrebitado que todos desejammuito conhecer. Ando at desconfiada que foi essa diabinha quem desencaminhouPolegar, aconselhando-o a fugir. O corao de Narizinho bateu apressado. Mas a senhora conhece essa tal menina? perguntou, tapando o narizcom medo de ser reconhecida. No a conheo respondeu a velha mas sei que mora numa casinhabranca, em companhia de duas velhas corocas. Ah, por que foi dizer aquilo? Ouvindo chamar dona Benta de velha coroca,Narizinho perdeu as estribeiras. </li> <li> 8. Dobre a lngua! gritou vermelha de clera. Velha coroca vosmec,e to implicante que ningum mais quer saber das suas histrias emboloradas. Amenina do narizinho arrebitado sou eu, mas fique sabendo que mentira que eu hajadesencaminhado o Pequeno Polegar, aconselhando-o a fugir. Nunca tive essa belaidia, mas agora vou aconselh-lo, a ele e a todos os mais, a fugirem dos seus livrosbolorentos, sabe? A velha, furiosa, ameaou-a de lhe desarrebitar o nariz da primeira vez emque a encontrasse sozinha. E eu arrebitarei o seu, est ouvindo? Chamar vov de coroca! Quedesaforo!... Dona Carochinha botou-lhe a lngua. uma lngua muito magra e seca. eretirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiuda...</li></ul>