O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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    02-Nov-2014

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O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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  • 1. ANTONIO GOUVA MENDONA O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas ANTONIO GOUVA MENDONA professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
  • 2. O ttulo deste artigo exige desde logo um esclarecimento preliminar sob pena de cair na confuso reinante quando se trata de estudar o campo religioso brasileiro sob qualquer ponto de vista. Nunca se viu uma diversidade religiosa to grande como a que se nota atualmente no Brasil. Para complicar mais ainda, a dinmica interna desse campo, que demonstra intensa itinerncia entre grupos religiosos, assim como as variaes numricas indicadas no ltimo censo (2000) apontam para a necessidade de se buscar conceitos mais atuais e capazes de estabelecer distncias e aproximaes entre os diversos gru- pos que disputam o espao religioso. Estamosdiantedoconceitodeprotestantismo brasileiro, usado sem maiores preocupaes pe- losprimeirosestudiososdoassunto.Entreeles,o respeitvel historiador francs mile G. Lonard que, estando no Brasil por dois anos (1948-49) como professor contratado pela Faculdade de A utopia s trabalha em prol do presente a ser alcanado, e assim o presente, sendo a ausncia dedistanciamento intencionadapara o m, estar, no nal,borrifadopor todososintervalos utpicos (Ernst Bloch, O Princpio Esperana).
  • 3. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200550 Filosoa, Cincias e Letras da Univer- sidade de So Paulo, fez observaes e pesquisas que lhe permitiram publicar o seu O Protestantismo Brasileiro, hoje j na terceira edio (2002). Lonard, que publicou na Frana outros trabalhos sobre o protestantismo no Brasil, tambm autor da monumental obra Histoire Gnrale du Protestantisme, em trs volumes, a partir de 1961. No ltimo volume aparecem no- tas a respeito do Brasil. De certo modo, o conceitodeprotestantismobrasileiroganha legitimidade com Lonard para expressar o cristianismono-catliconoBrasil,embora j fosse usado por outros antes dele. Em 1973, com a publicao do livro Catlicos, Protestantes, Espritas por Cn- dido Procpio F. de Camargo, o conceito, includo entre duas outras religies (cat- licos e espritas), assume carter distintivo. Note-se aqui que os prprios protestantes, desde o incio de sua presena no Brasil, ainda no sculo XIX, preferiam o conceito evanglico.Bastamdoisexemplos:opri- meirojornalprotestantepublicadonoBrasil, que circulou de 1864 a 1892, chamou-se ImprensaEvanglica,comotambmaCon- federao Evanglica do Brasil, fundada em 1934 e extinta nos primeiros anos da dcada de 60 do sculo passado. Desde os primeiros tempos os cristos no-catlicos no Brasil se identicam como evanglicos, alis a auto-identicao oriunda mesmo desde os primrdios da Reforma conforme atestaohistoriadorMartinN.Dreher(1999, pp. 216 e segs.) (1). No fosse a diversidade confusa do campo religioso brasileiro, o conceito evanglico, hoje usado de modo universal pelos no-evanglicos, como a Igreja Catlica e a mdia, caberia perfeita- mente ao grupo cristo oriundo da Reforma do sculo XVI. Mas no cabe. O conceito traz consigo enorme confuso, a no ser para aqueles que, mesmo trabalhando com categorias cientcas, insistem em colocar sob a mesma categoria todos os grupos cristos no-catlicos. Assim, pergunta-se: o que mesmo isso que se chama protestantismo brasileiro? o mesmo que evanglico? e no . O conceito evanglico aplica-se parte dos cristos no-catlicos e no se aplica de maneiraadequadaaovastogrupodosassim chamados pentecostais e neopentecostais. claro que deixa de lado tambm todas as igrejas crists no romanas como as cha- madas em geral por orientais ou ortodoxas. Assim, quando se fala em protestantismo brasileiro vem logo tona a necessidade de definir, estabelecer o conceito com clareza. O que protestantismo e o que protestantismo brasileiro? Ainda, o que um protestante? O QUE PROTESTANTISMO? O protestantismo um dos trs prin- cipais ramos do cristianismo ao lado do catolicismo romano e das igrejas orientais ou ortodoxas. Essa categorizao, muito ampla e abrangente, a adotada por J. L. Dunstan (1980, p. 7). Justamente por sua amplitude, a categorizao desse autor deixa logo em aberto um problema: onde colocar o anglicanismo, hoje estendido por todo o mundo como uma comunidade que extrapola o Reino Unido? A Igreja da Inglaterra resulta, sem dvida, da Reforma Religiosa, mas, como se diz com freqn- cia, cou a meio caminho entre Roma e as igrejas protestantes, tanto luteranas como calvinistas. De fato, a ala propriamente dita anglicana recusa o ttulo de protestante. Desse modo, seria melhor estabelecer qua- tro categorias de igrejas crists mundiais: romana,ortodoxasouorientais,anglicanae protestantes. Embora a ala chamada Evan- glicadaIgrejaAnglicanasejasignicativa por se aproximar bastante dos protestantes em geral, creio no se justicar uma outra categoria, vez que o anglicanismo, apesar disso, mantm sua unidade. Interessa-nos agora a Reforma propria- mente dita. Em outro lugar (Mendona & Velasques Filho, 2002, , cap. 1) propus a diviso da Reforma em trs ramos: angli- cano, luterano e calvinista, ou reformado propriamente dito. Feita aquela ressalva quanto ao anglicanismo, os protestantes propriamente ditos so os luteranos e cal- 1 Como nos chama a ateno esse autor, no confundir com os evanglicos de vertente inglesa mais moderna que de- signam a ala conservadora do protestantismo contemporneo equeestosendoidenticados atualmente pelo neologismo evangelical.
  • 4. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 51 vinistas que se espalham pelo mundo em numerosa diversicao, particularmente estes ltimos. Ento, protestantes seriam aquelas igrejas que se originaram da Refor- maouque,emborasurgidasposteriormente, guardamosprincpiosgeraisdomovimento. Essas igrejas compem a grande famlia da Reforma: luteranas, presbiterianas, meto- distas, congregacionais e batistas. Estas ltimas, as batistas, tambm resistem ao conceitodeprotestantesporrazesdeordem histrica, embora mantenham os princpios da Reforma. Creio no ser, por isso, neces- srio criar para elas uma categoria parte. Sointegrantesdoprotestantismochamado tradicional ou histrico, tanto sob o ponto de vista teolgico como eclesiolgico. Esses cinco ramos ou famlias da Reforma multiplicam-se em numerosos sub-ramos, recebendo os mais diferentes nomes, mas que, ao guardar os princpios fundantes, podem ser includos no universo do protestantismo propriamente dito. O QUE PROTESTANTISMO BRASILEIRO? Talvez a pergunta mais adequada seja esta: podemos falar em protestantismo brasileiro? Ou seria melhor falar em pro- testantismonoBrasilprecisamentequando a referncia recai sobre as igrejas acima mencionadas? Embora seja certo que as re- ligiesuniversais,comosoasprotestantes, sempre assimilam ou mantm traos das culturas locais, como me permitido falar em catolicismo brasileiro, por exemplo, o protestantismoquechegouaoBrasiljamais seidenticou com a culturabrasileira.Con- tinua sendo um protestantismo norte-ame- ricano com suas matrizes denominacionais e dependncia teolgica. Por isso, prero falar em protestantismo no Brasil e no emprotestantismobrasileiro.Omesmovale para o que talvez fosse exceo, isto , o luteranismo.Apesar de proceder de verten- tesgeogrcaseculturaisdiferentes,ambos os luteranismos brasileiros vinculam-se ao centro mesmo da Reforma Luterana, isto , a Europa alem. Por essas razes, quando se fala em protestantismo brasileiro, creio que se deve entender por protestantismo no Brasil. O QUE UM PROTESTANTE, O QUE SER PROTESTANTE? O grande e maior princpio da Reforma o da liberdade e est explcito no talvez menor dos livros de Martim Lutero (2) e mesmo de toda a literatura reformada. Diz Lutero que o cristo senhor livre sobre todas as coisas e no est sujeito a ningum, mas completa: um cristo um servo prestativo em todas as coisas e est sujeito a todos. Essa aparente contradio se resolve assim: o cristo livre para fazer e no fazer ou, ainda, o cristo no est debaixo de nenhuma mediao e se refere diretamente a Deus pela f, instrumento de sua salvao. A salvao individual e sua vida religiosa pautada exclusivamente pela Bblia cuja leitura direta e tambm no mediada. Como pontica Dunstan, o homem o centro de sua religio. Em suma, o protestante o homem que se sente liberto por Cristo, segue exclusi- vamente a Bblia como nica regra de f e prtica, cultiva uma tica racional de desempenho para contribuir para a glria de Deus e vive moralmente segundo os 10 mandamentos e os padres da moral burguesa vitoriana. A converso, que no perodo do Grande Despertamento (3) era mais propriamente uma reconsagrao vida devota, reajustava o indivduo ao modelo burgus vitoriano acompanhado da tica do trabalho apropriada ideologia do progresso. A preguia, a ociosidade e a falta de objetividade na vida, assim como desregramentos sexuais e desorganizao familiar, eram pecados graves para os vi- torianos (4). O protestantismo, principal- mente o calvinismo posterior, privilegiou as relaes sociais e econmico-polticas no sentido horizontal, buscando pr de 2 Da Liberdade Crist, escrito em 1520 (Lutero, 2004). Ver tambm: Altmann, 1994. 3 Grande Despertamento ou Grandes Avivamentos desig- nam movimentos esparsos de renascimento de vitalidade religiosa que ocorreram na Amrica do Norte a partir dos primeiros anos do sculo XIX. 4 Quantoaissomuitointeressan- te ver: Gay, 2000 e 2005.
  • 5. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200552 lado todo tipo de dependncia piramidal ou vertical. Em suma, uma desconana permanente de monarquias absolutas em favor de repblicas democrticas. Isso ga- nhou muita fora aps a independncia das colnias norte-americanas e da expanso protestante durante o sculo XIX (5). Nonecessrioquenosalonguemosna discusso a respeito da chamada ideologia norte-americanaprotestantedainter-relao ntima entre evangelizar e civilizar. Outros autores j trataram dessa questo. Contu- do, oportuno lembrar que essa ideologia no exclusiva do protestantismo porque o mesmo papel que os Estados Unidos se propunham,eaindasepropem,deexpandir o seu prprio modelo civilizatrio, isto , o reino de Deus terreno, j empolgava, na oratria de Antonio Vieira, o velho Por- tugal seiscentista. No obstante, h que se estabelecer as diferenas entre os dois modelos: o reino de Deus por Portugal era um reino caracterizado pelo modelo de cristandade,verticalemonrquico,aopasso queonorte-americanoera,e,democrtico republicano, horizontal e contratual. Em suma, o protestante um indivduo que professa uma religio individual, de conscincia, que se inspira na interpretao direta e pessoal da Bblia, pauta suas aes na tica racional do trabalho e na moral burguesa vitoriana. Sua racionalidade pro- cura manter a distncia a interferncia do extraordinrionocotidiano,assimcomosua individualidadeosituanoslimitesmnimos do poder sacerdotal ou eclesistico. uma religio quase secularizada e se aproxima, mesmo quando institucionalizada, de uma religio civil. As igrejas so comunidades de f e aprendizado religioso mtuo. A disciplina, que se prende mais a questes de tica, principalmente de moral, tende a se tornar elstica na medida em que, no gradiente seita-igreja, a comunidade se aproxima mais desta. Este o modelo, por que no dizer tipo ideal,doprotestantehistricooutradicional, ao qual se aplica bem, como j foi dito, o conceito de evanglico, mas que implica diculdadesquandogeneralizadoparatodos os cristos no-catlicos. Este artigo trata exclusivamente do grupo de protestantes ou evanglicos que abrange aquelas igrejas j mencionadas, tanto as do chamado protestantismo de misso ou converso, quanto as do pro- testantismo de imigrao. Propomo-nos a analisar, dentro dos limites impostos, as idas e vindas desse tipo de protestantismo no Brasil em suas relaes histricas e dialeticamente relacionais com o universo polticobrasileiroeinternacionalduranteos cerca de 180 anos de sua presena no pas. Tomaremoscomopontodeintersecohis- trica a chamada Conferncia do Nordeste, realizada no Recife (PE), em 1962, ltimo momento de convergncia identitria desse protestantismo antes do seu isolacionismo denominacional. No sero levadas em conta as questes e crises internas que, por vezes, agitaram as igrejas, mas exclusiva- mente como elas reagiram ao impacto dos momentos histricos externos. Propomos a seguinte periodizao: de 1824 a 1916, perodo de implantao do protestantismo no Brasil; de 1916 a 1952, desenvolvimento do projeto de coopera- o ou pan-protestantismo e a chegada de um bando de teologias novas; de 1952 a 1962, crise poltica e religiosa, ensaio de politizao do protestantismo e impacto do pentecostalismo; de 1962 a 1983, perodo de represso no interior do protestantismo, darevoluoneopentecostal,fortalecimento do denominacionismo e o isolacionismo das igrejas. PERODO DE IMPLANTAO: DE 1824 A 1916 At o nal do sculo XIX todas as de- nominaes protestantes tradicionais ou histricas estavam estabelecidas no Brasil, sendo a ltima a Igreja Protestante Episco- pal, mais adiante conhecida simplesmente por Igreja Episcopal. Dada sua origem anglicana, hoje se chama Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (6). No sistema de classicao ainda adotado, os episcopais 5 Bastaria, neste ponto, assinalar o testemunho da missionria educadora metodista Martha Watts(1881-1908),fundadora do Colgio Piracicabano, em carta de abril de 1890, logo aps a proclamao da Repblica: O Brasil est indo para frente, e devemos seguir com ele, carregando a religio do Evangelho [] (Mesquita, 2001, p. 90). 6 Ver o artigo de Calvani, O Anglicanismo no Brasil, neste Dossi.
  • 6. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 53 anglicanos so includos entre as igrejas do chamado protestantismo de misso ou conversoqueenglobacongregacionais(7), presbiterianos, metodistas e batistas. Toda- via,nosepodedeixardeladoofatodeque, na verdadeira origem, os episcopais angli- canos ligam-se tradio do anglicanismo precocemente instalado no Brasil ainda no perodo que antecedeu ao Imprio, isto , aps os tratados feitos com a Inglaterra por D. Joo VI em 1810 (Aliana e Amizade e Comrcio e Navegao). A partir de 1820, os ingleses passaram a realizar cultos no templo construdo no Rio de Janeiro e, mais tarde, em outras partes do Brasil, notada- mente em So Paulo, pelos empregados da Estrada de Ferro que se construa entre Santos e Jundia (Ribeiro, 1973). Assim considerados, os ingleses angli- canos constituem o primeiro grupo do cha- madoprotestantismodeimigrao,embora com a ressalva j feita de que eles mesmos no se consideram protestantes (seria me- lhor coloc-los no conceito generalizante de no-catlicos). Outro grupo importan...