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    23-Jun-2015

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<ul><li> 1. ARITMTICADA EMLIAhttp://groups.google.com/group/digitalsource</li></ul><p> 2. Monteiro LobatoAritmtica da Emlia CRCULO DO LIVRO 3. CRCULO DO LIVRO S.A.So Paulo, Brasil Edio integralCopyright by herdeiros de Monteiro LobatoLayout da capa: Tide HellmeisterIlustraes: Jorge Kato (coordenao), Izomar Camargo Guilherme (capas), Adilson Fernandes, Carlos Avalone Rocha, Eli Marcos Martins Leon, Luiz Padovin, Michio Yamashita,Miriam Regina da Costa Arajo, Paulo Edson, Roberto Massaru Higa, Roberto Souto Monteiro Licena editorial para o Crculo do Livropor cortesia dos herdeiros de Monteiro Lobato e da Editora Brasiliense S.A.Venda permitida apenas aos scios do CrculoComposto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro S.A. 2468 10 97531 85 87 88 86 84 4. I A idia do Visconde Aquele clebre passeio dos netos de Dona Benta ao Pas daGramtica havia deixado o Visconde de Sabugosa pensativo. quetodos j tinham inventado viagens, menos ele. Ora, ele era um sbiofamoso e, portanto, estava na obrigao de tambm inventar umaviagem e das mais cientficas. Em vista disso pensou uma semanainteira, e por fim bateu na testa, exclamando numa risada verde desabugo embolorado: Heureca! Heureca! Emlia, que vinha entrando do quintal, parou, espantada, edepois comeou a berrar de alegria: O Visconde achou! O Visconde achou! Corram todos! OVisconde achou! A gritaria foi tamanha que Dona Benta, Narizinho e Pedrinhoacudiram em atropelo. Que foi? Que aconteceu? 5. -O Visconde achou! repetiu a boneca entusiasmada. Odanadinho achou!. . . Mas achou que coisa, Emlia? No sei. Achou, s. Quando entrei na sala, encontrei-obatendo na testa e exclamando: Heureca! Ora, Heureca uma palavragrega que quer dizer Achei. Logo, ele achou. Dona Benta ps as mos na cintura e com toda a pachorradisse: Uma boneca que j andou pelo Pas da Gramtica deve saberque Achar um verbo transitivo, dos tais que pedem complemento direto.Dizer s que achou no forma sentido. Quem ouve pergunta logo: "Que que achou?" Essa coisa que o achador achou o complemento diretodo verbo achar. Basta de verbos, Dona Benta! gritou Emlia fazendo carade leo de rcino. Depois do nosso passeio pelo Pas da Gramticavim entupida de gramtica at aqui e mostrou com o dedo umcarocinho no pescoo, que Tia Nastcia lhe havia feito para que elaficasse bem igual a uma gente de verdade. Mas preciso complemento, Emlia! insistiu Dona Benta. Sem complemento a frase fica incompleta e das tais que ningumentende. Que coisa o Visconde achou? Vamos l, Senhor Visconde.Explique-se. O Visconde tossiu o pigarrinho e explicou: Achei uma linda terra que ainda no visitamos: o Pas daMatemtica! Tia Nastcia, que tambm viera da cozinha atrada pelo berreiro,torceu o nariz e retirou-se resmungando: Logo vi que era bobagem.Se ele achasse a mozinha de pilo que sumiu, ainda v. Mas isso de irpassear no tal Pas da Matemtica bobagem. Vai, perde o tempo e nomata nada. . . Mas o Visconde expunha aos outros a sua idia. A Terra da Matemtica dizia ele ainda mais bonita quea Terra da Gramtica, e eu descobri uma Aritmtica que ensina todos 6. os caminhos. l o Pas dos Nmeros.Todos se entreolharam. A idia do Visconde no era das maisemboloradas. Bem boa, at. Pois vamos resolveu Narizinho. Isso de viagens comigo, sobretudo agora que temos uma excelente cavalgaduracientfica, que o Quindim. Para quando a partida, Senhor Visconde? A minha viagem respondeu ele um pouco diferentedas outras. Em vez de irmos passear no Pas da Matemtica, o Pas daMatemtica que vem passear em ns. Que idia batuta! exclamou Emlia, encantada. Todas as viagens deviam ser assim. A gente ficava em casa,no maior sossego, e o pas vinha passear na gente. Mas como vairesolver o caso, maestro? Da maneira mais simples respondeu o Visconde. Vou organizar um Circo Sarrazani para que o pessoal do Pasda Matemtica venha representar diante de ns. Inventei esse novosistema porque ando reumtico e no posso locomover-me.Todos aceitaram a explicao do Visconde, o qual tinha tidorealmente uma dessas idias que merecem um doce. Dona Benta voltou costura. Pedrinho correu para o pomar, e o grande sbio de sabugo foidar comeo organizao do circo. S ficaram na sala Narizinho eEmlia. Por que razo, Emlia, voc tratou o Visconde de "maestro"?O pobre Visconde dar para tudo, menos para msica. Nem assobia. porque ele teve uma idia batuta respondeu a boneca. 7. II Os artistas da Aritmtica Pedrinho construiu uma cadeira de rodas para o Visconde, quequase no podia andar de tanto reumatismo. No ficou obra perfeita.Basta dizer que em vez de rodas de madeira (difceis de cortar e quenunca saem bem redondinhas), ele botou no carro quatro rodelas debatata-doce. Rabic lambeu os beios l de longe, pensando consigo:"Comer o carro inteiro no negcio, mas aquelas quatro rodinhas tmque acabar no meu papo". Quando o Visconde apareceu na sala dentro do carrinho deparaltico foi um berreiro. Viva o Visconde Sarrazani! gritou Emlia, e todos aacompanharam na aclamao. O circo foi armado no pomar, num instantinho. Era todo faz-de-conta. O pano, as arquibancadas, os mastros, tudo faz-de-conta. S noera faz-de-conta a cortina que separava o picadeiro dos bastidores, isto, do lugar onde ficam os artistas antes de entrarem em cena. Pedrinhohavia pendurado um cobertor velho feito cortina, e arranjou-o de jeito 8. que sem sair do seu lugar ele o manobrasse com um barbante, abrindoe fechando a passagem. Emlia exigiu palhao, e para content-la o Visconde nomeouQuindim palhao, apesar de o rinoceronte ser uma criatura muitograve, incapaz de fazer a menor graa. Roupa que servisse num palhaodaquele tamanho no existia, de modo que Pedrinho limitou-se acolocar na cabea do "boi da frica", como dizia Tia Nastcia, umchapeuzinho bicudo, como usam os palhaos do mundo inteiro. E s. E os artistas? perguntou Dona Benta na hora do caf,vendo o entusiasmo com que Pedrinho falava do circo. Isso ainda no sei respondeu o menino. O Visconde estguardando segredo. Esses circos faz-de-conta so muito fceis de arrumar, de modoque o Grande Circo Matemtico ficou pronto num instante. A "viagem"ia comear logo depois do caf. E assim foi. Tomado o caf, todos se dirigiram ao circo. DonaBenta sentou-se na sua cadeirinha de pernas curtas e os outrosacomodaram-se nas arquibancadas, que no passavam de uns tantostijolos postos de p no cho limpo. Ao menor descuido o tijolo revirava eera um tombo. O Marqus de Rabic ficou amarrado raiz dumapitangueira prxima, porque estava olhando com muita gula para asrodas do carrinho do Visconde. Quindim sentou-se sobre as patastraseiras, muito srio, com o seu chapeuzinho de palhao no alto dacabea. Pronto, Senhor Sarrazani! gritou Emlia vendo o grupointeiro j reunido. Pode comear a baguna. O Visconde, sempre dentro do seu carrinho, gemeu umreumatismo, tossiu um pigarro e por fim falou: Respeitvel pblico! Vou comear a viagem com aapresentaodos artistas que acabam de chegar do Pas daMatemtica. Peo a todos a maior ateno e respeito, porque isto coisamuito sria e no a tal baguna que a Senhora Emlia acaba de dizer concluiu ele, lanando uma olhadela de censura para o lado da boneca. 9. Emlia deu o desprezo, murmurando: "Fedor!", e o Viscondeprosseguiu: Ateno! Os artistas do Pas da Matemtica vo entrar nopicadeiro. Um, dois e. . . trs! rematou ele, estalando no ar ochicotinho. Imediatamente o cobertor que servia de cortina abriu-se e umgrupo de artistas da Aritmtica penetrou no recinto. So os ALGARISMOS! berrou Emlia, batendo palmas e j dep no seu tijolo, ao ver entrar na frente o 1, e atrs dele o 2, o 3, o 4, o5, o 6, o 7, o 8, o 9. Bravos! Bravos! Viva a macacada numrica! Os Algarismos entraram vestidinhos de roupas de acrobata eperfilaram-se em ordem, com um gracioso cumprimento dirigido aorespeitvel pblico. O Visconde ento explicou: Estes senhores so os clebresALGARISMOS ARBICOS, comcerteza inventados pelos tais rabes que andam montados em camelos,com um capuz branco na cabea. A especialidade deles serem grandesmalabaristas. Pintam o sete uns com os outros, combinam-se de todosos jeitos formando NMEROS, e so essas combinaes que constituem aARITMTICA. Que graa! exclamou a Emlia. Quer dizer ento que atal Aritmtica no passa de reinaes dos Algarismos? Exatamente! confirmou o Visconde. Mas os homens nodizem assim. Dizem que a Aritmtica um dos gomos duma grandelaranja azeda de nome Matemtica. Os outros gomos chamam-selgebra, Geometria, Astronomia. Olhem como os Algarismos sobonitinhos. O que entrou na frente, o puxa-fila, justamente o pai detodos o Senhor 1. Por que pai de todos? perguntou Narizinho. Porque se no fosse ele os outros no existiriam. Sem 1, porexemplo, no pode haver 2, que 1 mais 1; nem 3, que 1 mais 1 mais1 e assim por diante. Nesse caso, os outros Algarismos so feixes de Uns! - berroua boneca pondo as mozinhas na cintura. 10. Est certo concordou o Visconde. Os Algarismos sovaras. O 1 uma varinha de p. O 2 um feixe de duas varinhas; o 3 um feixe de trs varinhas e assim por diante.Narizinho, muito atenta a tudo, notou a ausncia de algumacoisa. Por fim gritou: Est faltando um Algarismo, Visconde! No vejo o Zero! O Zero j vem disse o Visconde. Ele um fregus muitoespecial e o nico que no feixe de varas, ou de Uns. Sozinho no valenada, e por isso tambm conhecido como Nada. Zero ou Nada. Mas sefor colocado depois dum nmero qualquer, aumenta esse nmero dezvezes. Colocado depois do 1 faz 10, que dez vezes 1. Depois de 2 faz20, que dez vezes 2. Depois de 5 faz 50, que dez vezes 5 assim pordiante. E depois de si mesmo? quis saber Emlia. No faz nada. Um zero depois de si mesmo d 00, e doiszeros valem tanto como um zero, isto , nada. E tambm se o Zero forcolocado antes de um nmero, deixa o nmero na mesma. Assim, 02,por exemplo, vale tanto como 2. E dez zeros enfileirados? Dez, ou vinte, ou mil zeros valem tanto como um, isto ,nada. Pois sendo assim disse Emlia , o tal Senhor Zero no nmero, nem coisa nenhuma. E se no nmero, que ento? Algumfeiticeiro? Ser o Mgico de Oz? . . .O Visconde atrapalhou-se na resposta e para disfarar gemeu oreumatismo. Mas Quindim, de d dele, berrou no seu vozeiro depaquiderme africano: um sinal, pronto!O reumatismo do Visconde sarou imediatamente. Pois isso disse ele. Um sinal. O Zero um sinal. Quemno sabe duma coisa to simples?A boneca e o rinoceronte piscaram um para o outro enquanto osAlgarismos passeavam pelo picadeiro e depois se colocavam de lado, s 11. ordens do Visconde. Vou agora apresentar ao respeitvel pblico disse eledepois de estalar o chicotinho um grupo de artistas velhos eaposentados, os tais ALGARISMOS ROMANOS, de uso naquela Roma que osirmos Rmulo e Remo fundaram antigamente nas terras da Itlia.Senhores Algarismos Romanos, para a frente! A cortina abriu-se de novo e apareceram sete artistas velhos ecapengas, cobertos de p e teias de aranha. Eram o I, o V, o X, o L, o Ce o M. Fizeram uns cumprimentos de cabea, muito trmulos, eperfilaram-se adiante dos Algarismos Arbicos. Ora bolas! exclamou a boneca. Isso so letras doalfabeto, no so Algarismos. E est faltando o D! D, doente. Comcerteza ficou no hospital, gemendo os reumatismos. . . Os romanos explicou o Visconde , no tendo sinaisespeciais para figurar os Algarismos, usavam essas sete letras doalfabeto. O I valia 1; o V valia 5; o X valia 10; o L valia 50; o C valia 100;o D valia 500 e o M valia 1000. E quando queriam escrever o nmero 7, por exemplo? indagou Pedrinho. Para escrever o 7 eles botavam o V com mais dois II direita explicou o Visconde. E dirigindo-se aos velhinhos: Vamos l! Formem o nmero 7 para este menino ver. O V adiantou-se, e a seu lado vieram colocar-se dois II, ficandouma figura assim: VII. Muito bem disse o Visconde. Formem agora o nmero 4. Os romanos colocaram-se nesta posio: IV, e o Viscondeexplicou que uma letra de valor menor, colocada depois de outra,somava com ela, e colocada antes, diminua. Por isso, VI era 6 e IV era 4. Em seguida ele fez os artistas romanos formarem em todas asposies, de modo que dessem todos os nmeros, e ao lado de cadacombinao botou o Algarismo Arbico correspondente. Formou-se no picadeiro uma figurao assim: 12. I 1 um II2 dois III 3 trs IV4 quatro V 5 cinco VI6 seis VII 7 sete VIII8 oito IX9 nove X 10dez Que complicao! exclamou Emlia. Estou vendo que osrabes eram mais inteligentes que os romanos. E os nmeros alm de10? O Visconde mandou que os Algarismos Romanos formassem osnmeros alm de 10, e eles se colocaram assim: XI -11; XII - 12; XIII -13; XIV - 14; XV - 15; XVI - 16; XVII - 17; XVIII - 18; XIX - 19; XX - 20;XXI - 21; XXII - 22, etc. E o 50 como ? O Visconde deu ordem para a formao do 50, e imediatamenteum L se adiantou, muito lampeiro. Pronto! exclamou o Visconde. Esse L quer dizer 50.Quem quiser representar 60, ou 70, ou 80, s botar um X, dois XX outrs XXX depois do L, assim: LX, LXX, LXXX. E 100? Era o C. Duzentos eram dois CC. Trezentos, trs CCC. E 500? Era o D, o tal que hoje no apareceu. E 1000? Era o M. E se esse M tinha um risquinho em cima, M, ficavavalendo um milho, isto , mil vezes 1000. Muito bem disse Narizinho. Faa-os agora formarem o 13. nmero do ano em que estamos, 1946. O Visconde deu ordem e os Algarismos Romanos colocaram-sedeste jeito: MCMXLVI. No entendo berrou Emlia. Explique-se. Muito simples disse o Visconde. O primeiro M quer dizer1000. Temos depois outro M com um C esquerda; ora, C 100, eantes de M diminui de 100 esse M, o qual fica valendo 900. O resto fcil. Fcil, nada! protestou a boneca. Fcil a numeraodos rabes. E por isso mesmo os Algarismos Arbicos venceram osAlgarismos Romanos observou o Visconde. Hoje so os nicosempregados nas contas. Os Algarismos Romanos ainda se usam, masapenas para marcar captulos de livros, ou as horas, nos mostradoresdos relgios. Quase que s. Tia Nastcia, que tinha vindo da cozinha perguntar que sopadevia fazer para o jantar, ficou de boca aberta diante da sabedoria doVisconde. Nem acredito no que estou vendo, sinh! disse elasacudindo a cabea. Pois um hominho de sabugo, que eu fiz comestas mos que Deus me deu, no que est um sbio de verdade,desses que dizem coisas que a gente no entende? Credo! No entende voc, que uma analfabeta respondeu DonaBenta. Todos os outros, at a Emlia, esto entendendo perfeitamenteo que ele diz. O Visconde acaba de falar da numerao romana e noerrou nada. Creio que foi o Quindim quem lhe ensinou isso. H de ser concordou a negra. Eu que no fui. A nicacoisa que eu quis ensinar a esse diabinho, ele fez pouco-caso. Que foi? Eu quis ensinar ao Visconde uma reza muito boa para bichoarruinado. Sabe o que me respondeu, depois de fazer carinha de d demim? Que isso de reza para bicho arruinado era su.. . super. . . Como mesmo? 14. Superstio de negra velha, no foi isso? Tal e qual, sinh. Pois isso. Os sbios s acreditam na cincia, e o Visconde um verdadeiro sbio. Faa sopa de macarro, ouviu?Tia Nastcia retirou-se para a cozinha, de beio espichado,sempre com os olh...</p>